Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.
Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.
Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...
E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.
Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.
A escrita de Ann Leckie
A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica.
Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.
Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.
Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.
No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.
Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.
Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq.
Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.
O que eu achei de Justiça Ancilar
Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.
Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.
Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.
E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.
Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.
Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.
Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.
Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.
Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?
Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal.
Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?
Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.
Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.
Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.
E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.
Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

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