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quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Oração para desaparecer


Sinopse: Uma mulher nua, sem cabelos nem memória, é retirada da terra na pequena cidade de Almofala, fronteira entre Portugal e Espanha. Os únicos traços de sua origem são o sotaque brasileiro e um colar de búzios, mas a impressão é de que as pessoas que a recebem aguardam há muito a sua chegada. Nesse outro tempo em um país estranho entre os dois parece delinear um novo destino à sua frente. Ainda assim, ela precisará lidar com as imagens que, vez por outra, assombram sua mente - lembranças pouco nítidas de um amor perdido e de pessoas de um lugar distante. Ao finalmente familiarizar-se com a realidade imposta, porém, a mulher é confrontada com uma verdade incontornável: é impossível seguir sem saber de onde se veio.

No mês de Setembro/2023 a TAG Curadoria resolveu imitar sua coirmã TAG Inéditos e foi porta de entrada para um pré-lançamento do novo livro da escritora brasileira Socorro Acioli: Oração para desaparecer. O mimo foi um sachê com 40g de Nescafé Gold.

Na pequena aldeia de Almofala, localizada a cerca de 107 km da capital portuguesa Lisboa, uma mulher nasce da terra sem pelos e sem memória. Quem ajuda no seu "parto” é o casal Florice e Fernando, que aguardam a chegada da última ressurecta, termo utilizado para quem escapou por pouco da morte e ressurgiu em outro lugar para sua segunda chance.

Não sentia braços e pernas no breu daquela cova. Perdi a noção do meu corpo, achei que me transformaria em um bicho morto, me desfazendo até virar pó.


Pela forma de falar, fica claro que a jovem mulher é brasileira, mas desconhecendo o seu passado, onde apenas pequenos flashs lhe aparecem em sonho, acaba por receber o nome de Cida e sendo acolhida por Fátima, irmã de Florence.

Em sua nova vida ela encontra o amor e assim conhece Félix Ventura, um vendedor de passados contratado para reescrever documentalmente a sua história para que ela possa ir e vir, e que lhe liga todos os anos para saber se o passado verdadeiro retornou.

Vida e morte são mistérios que ninguém alcança. Tudo o que se fala sobre nascer e morrer é mera aposta.


Até Cida encontrar uma imagem de santa quebrada, misturando passado antigo, passado recente e presente, com um grande ponto de interrogação para o futuro.


A escrita de Socorro Acioli

A escritora brasileira Socorro Acioli separou a sua Oração para desaparecer em três partes. Nas duas primeiras temos uma narrativa em formato de entrevista. Sendo que na primeira parte temos Cida contando ao vendedor de passado toda a sua história desde que saiu da terra, e na segunda temos a conversa entre o homem que nunca a esqueceu com o que compartilha sua vida na atualidade. E na terceira parte volta Cida em uma narrativa em primeira pessoa para dar o fechamento a história.

A autora também homenageia dois escritores: José Eduardo Agualussa através do personagem Félix Ventura, cuja história é contada no livro O vendedor de passados, e José Saramago ao citar dois livros que não existem que foram inventados e citados em obras do autor português.

Quando a gente acha que entendeu tudo, o caos aparece para relembrar que não somos coisa nenhuma.


Também a uma espécie de brincadeira em relação as várias Almofalas. São seis aldeias em Portugal que recebem este nome, que é o mesmo de um pequeno distrito de Itarema, no estado do Ceará. Em Oração para desaparecer a personagem sai da Almofala brasileira e chega, através do uso de realismo mágico, em uma das Almofalas portuguesas.

Para dar base ao seu realismo mágico, a escritora usa de uma história real adaptada para a ficção. Nos anos de 1712 a 1758 foi construída na Almofala brasileira a igreja Nossa Senhora da Conceição de Almofala, originada de uma troca dos Tremembés de uma santa de ouro pela construção de um lugar para abriga-la.

Tentei muito, tentei de tudo, mas nada aconteceu. O que eu tenho são sopros de lembrança, nada por inteiro.


Mas passando mais de cem anos, não só a igreja como a cidade foi invadida pelas dunas, gerando um confronto generalizado entre indígenas, população local e membros da igreja. Durante a briga uma prostituta de nome Joana Camelo teria acertado um tamanco na cara do padre Antônio Tomaz. Passado quarenta e cinco anos, na década de 1940, com o trabalho conjunto da natureza e da força humana a igreja ressurgiu e as imagens que originaram as desavenças, retornaram. Hoje a construção está restaurada e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

E é essa mistura de um Brasil mais antigo, magia e terras portuguesas que servem de cenário para uma mulher que preza a própria liberdade e independência se reencontrar. Pois apesar de usar o realismo mágico, este é secundário. O foco todo está em Cida.


O que eu achei de Oração para desaparecer

O uso do realismo mágico faz a história começar com força, despertando logo de cara o meu interesse e curiosidade em percorrer as páginas. Mas no decorrer da narrativa a autora se perdeu em devaneios românticos, e a narrativa em forma de entrevista é, na minha opinião, enfadonha.

E aqui ocorreu a minha quebra de expectativa como leitora, pois se o realismo mágico abre a história prometendo tudo, logo é substituído por um romance cujo amor não promete a eternidade.

A segunda coisa que faço todas as manhãs é ir até o espelho e dizer o dia, o mês e o ano em que começarei a viver a partir dali.


A brincadeira de usar um personagem de outro autor só funciona com quem conhece ou vai buscar informação, senão é apenas um coadjuvante com a função de ouvir a história da personagem. No meu caso a revista que vem junto com o livro me alertou, e ao pesquisar, fiquei bem curiosa para ler o livro do Agualusa, ao qual confesso, não li nada até hoje.

Eu achei muito interessante o fato real que ela usou como base para o teletransporte da personagem, embora não pareça que a ficção tenha ocorrido no mesmo período do original, e aqui fiquei com o sentimento de que poderia ter sido melhor aproveitado. 

Se fôssemos dois cavalos-marinhos eu estaria agora com ela. O mar teria salvado nosso amor, talvez, da armadilha da areia.


No geral nem gostei nem desgostei, apenas acho que não será um livro que ficará marcado na memória, mas isso só o tempo dirá.

Mas como sempre digo, gosto literário cada um tem o seu. Então para quem gosta de livros com realismo mágico, que são embasados em histórias reais, que torcem por personagens femininos fortes, talvez você tenha uma opinião completamente diferente da minha. Só você lendo para saber.


Oração para desaparecer
Socorro Acioli
TAG - Companhia das Letras
2023 - 205 páginas


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Partes de um corpo



Sinopse: Coletânea de contos organizada por Rafaela Pechansky, com prefácio de Socorro Acioli. Claudia Tajes - Bile nº 5; Giovana Madalosso - Melanomas; Antonio Prata - Bourbon; Jarid Arraes - Engolir o amor; Tati Bernardi - O dedão de Carolina; Jessé Andarilho - Braço direito; Mel Duarte - Daquela que te alimenta as memórias.

Assim como Partes de uma casa, seu primo Partes de um corpo foi o mimo do kit enviado junto co o livro Gostaria que você estivesse aqui para os associados da Inéditos no mês de maio/21. Feito com exclusividade para a TAG enviar aos seus associados, indica como base comum o corpo e teoricamente deveria acontecer dentro do contexto vivido durante a pandemia de COVID-19.

Quem faz a apresentação dos contos no prefácio é a escritora Socorro Acioli, que compartilha a lembrança ao ver o título do livro de um texto de Gógol chamado O nariz. Fazendo um pequeno resumo não só dos contos, mas também do ato de ler e dos leitores, seu prefácio é bastante agradável e dá o clima de expectativa certo para iniciar a leitura.


Pensar em um nariz como personagem é, no mínimo, uma possibilidade instigante.


Bile Nº 5

Eu adoro os textos da escritora gaúcha Claudia Tajes, como  A Vida Sexual da Mulher Feia já resenhado aqui no blog, então sabia que tudo poderia acontecer.

Confinado em seu apartamento há dois anos para se proteger da pandemia, um casal primeiro observa os vizinhos até direcionar os olhos para o próprio umbigo. Se no início eles se distraiam, agora o tédio dos dias iguais os consome, assim como a encefalopatia hepática consumia a parte do fígado retirado do marido e que agora é conservado em um vidro e exposto na estante.


Dois anos de confinamento obedecidos dia após dia. Sem abrir uma janela.


Narrado em terceira pessoa, Claudia Tajes usa o antes e agora na pandemia, com um toque de sem noção que pode causar as mais diversas reações conforme o espírito do leitor. 


Melanomas

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora Giovana Madalosso nos apresenta uma mulher com mais de sessenta anos que recebe um pedido inusitado da filha de seu vizinho no elevador: auxiliar o homem no autoexame para ver se encontrava sinais de melanomas, doença da qual já quase havia morrido uma vez.

E é justamente ao observar este outro corpo que ela começa a voltar os próprios olhos para si, gerando mudanças inesperadas.


Além de a minha memória ser boa, a minha vida não era uma profusão de compromissos a ponto de eu esquecer algum.


Não é um conto sobre a pandemia, mas sobre como uma situação faz uma pessoa rever fatos, analisar situações e até mesmo se abrir para viver novas experiências.


Bourbon

O escritor paulista Antonio Prata também foge da pandemia e combina bebida e parte íntima masculina para que o seu narrador nos conte o encontro de Sandra e Luiz.

Não vou detalhar para não entregar a história para quem não leu, mas na minha opinião o conto começou com um bom ritmo, engraçado, com um belo toque de ironia.


Não há mais o que fazer, não há mais como se esconder, é preciso jogar a toalha.


Mas infelizmente ele vai decaindo no desenrolar do longo diálogo, lembrando aquelas discussões chatas de Twitter cujo final é muito louco.


Engolir o amor

A autora cearense Jarid Arraes escolheu o estômago como forma de contar a relação filha e mãe que Ciça vive, que opta pelo jejum e a reza como forma de salvar a mãe da doença que a consome.


Morrer como, morrer de morrer, de morte matada ou morte morrida?


Conforme a doença evolui, mais a filha se exige enquanto apenas assistimos suas reações. Foi o conto que me deixou com uma pergunta não respondida no final.


O Dedão de Carolina

A escritora paulista Tati Bernardi escolhe o polegar de sua personagem para contar sobre a sua vida, desde quando era bebê e usava este dedo para substituir o seio materno, ou na infância quando folhava as páginas dos livros rapidamente.

E como os nossos próprios polegares, ele acaba participando das primeiras escolhas na juventude, o desafio da aprovação em uma universidade até a sua vida adulta.


Seria um dos maiores atores do país, lotaria mais de mil lugares a cada apresentação, e o público o aplaudiria de pé com gritos de "bravo!".


Eu particularmente achei muito interessante o viés utilizado, a narrativa em terceira pessoa me permitiu acompanhar Carolina e o seu dedão como se fosse um filme e fiquei pensando o que se passa debaixo das unhas dos meus próprios polegares.


Braço Direito

Usando uma expressão muito conhecida nos meios corporativos, o escritor carioca Jessé Andarilho coloca o braço direito na posição de comando da organização chamada corpo humano.

E como não poderia deixar de ser há conflitos, reclamações, revoltas, confusões, desencontros e necessidades de muitos acordos para gerenciar uma das máquinas mais perfeitas que conhecemos.


Havia muita coisa para ser discutida enquanto Esquerdo e Direito travavam uma queda de braço para decidir quem tomaria a frente na resolução dos problemas.


Eu achei a analogia com o mundo corporativo muito interessante, e indo além do mundo empresarial, outros chavões populares são usados, assim como política e humanidade se misturam no texto, me fazendo lembrar de uma piada de infância onde o cérebro e outra parte do corpo também disputavam pelo comando do corpo humano.


Daquela que te alimenta as memórias

A autora paulista Mel Duarte escolheu a boca como parte do corpo, mas durante o texto todo, assim como no título, faz parecer que é a memória.

Utilizando a narrativa em primeira pessoa a boca resolve ter uma conversa séria com a pessoa que a possui, trazendo lembranças antigas, amores e situações, em um retorno ao passado que tenta trazer a personagem ao presente.


E eu não vou perguntar se tá tudo bem, porque eu sei que não tá.


Eu particularmente achei o texto bem chatinho, muito bla bla bla e pouco tempero em um conto que tinha potencial.


O que eu achei

No geral não achei ele melhor que as Partes de uma casa, os contos são mornos e em sua maioria não abordam a pandemia como é indicado no início, aliás, em muitas ela é nitidamente esquecida, onde os personagens moram em um mundo anterior a 2019.

Eu fiquei com a sensação de o fato de terem sido encomendados de certa forma houvesse impedido de acessarem a alma de quem escreve, e assim, interferindo na minha reação como leitora. O que me fez recordar que muitos autores não aceitam trabalhar com temas previamente propostos, como se apenas a liberdade absoluta fizesse uma história fluir.

Para quem ficou curioso, infelizmente o livro não está à venda nas livrarias, sendo, por enquanto, uma exclusividade dos associados da TAG.


Partes de um corpo
Vários autores
TAG - Experiências Literárias
2021 - 179 páginas