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terça-feira, 12 de abril de 2022

Samarcanda



Sinopse: Saberia o juiz que com aquele gesto, com aquelas palavras, dava vida a um dos segredos mais bem guardados da história das letras? Que seria preciso esperar oito séculos até que o mundo descobrisse a sublime poesia de Omar Khayyam, até que seu Rubaiyat fosse venerado como uma das obras mais originais de todos os tempos, até que fosse enfim conhecido o estranho destino do manuscrito de Samarcanda?

No mês de Fevereiro/2022 recebi da minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do jornalista e comentarista de política internacional Guga Chacra. O curador de origem libanesa optou por recomendar a obra de um autor de origem semelhante, o franco-libanês Amin Maalouf. O mimo foi um caderno de receitas, onde além de cinco indicações, fala de especiarias e tem algumas páginas para o leitor descrever as suas próprias.

Um livro perdido no naufrágio do Titanic liga o americano Benjamin Omar ao cientista, poeta e astrônomo persa Omar Khayyam. E é parte da vida adulta destes dois homens junto ao manuscrito do Rubaiyat que Samarcanda irá nos contar.

No fundo do Oceano Atlântico há um livro. É a sua história que eu vou contar.


Uma história que começa no verão de 1072, quando aos 24 anos Omar Khayyam chega à cidade de Samarcanda e interfere nas agressões a um velho, a discussão acaba finalizada junto ao juiz Abu-Tahir, que se torna seu amigo e o presenteia com um belo livro com páginas em branco, para que ele as preencha.

A partir daí vamos acompanha-lo no seu encontro com o amor ao encontrar Djahane, uma mulher independente e viúva que assim como Omar vive a vida de acordo com os próprios desejos.

O que resta de uma cidade é o olhar indiferente que um poeta meio bêbado lhe dirigiu.


Em suas viagens ele conhecerá homens como Hassan Sabbah, um jovem com ânsia por aprender que se tornará o líder político e religioso de um bando de assassinos nas guerras por territórios na persa.

Se tornará amigo de personalidades importantes como Nizam Al-Mulk, o vizir do império turco-persa que atuou como regente, e acompanhará vários acontecimentos.

Sofro pelo erro daquele que me engendrou, ninguém sofrerá por um erro meu.


Até pularmos para 1870 e encontrarmos o americano Benjamin, que recebeu o segundo nome Omar em homenagem ao seu xará persa. Se inicialmente ele não acreditava nos escritos inspirados no poeta, quando é convencido da existência do livro, é tomado por uma obsessão que o fará percorrer o Oriente Médio e a Ásia Central em busca do seu paradeiro.


Os personagens

Um dos grandes charmes deste livro é que ele mistura personagens reais e ficcionais, despertando uma curiosidade ainda maior pela história.

Começando pelo próprio Omar Khayyam, que deixou contribuições muito importantes tanto no campo das exatas quanto da literatura. Esta última tendo alcance mundial quando o também poeta Edward Fitzgerald traduziu os rubaiyats e os publicou em um livro.

Por que ter medo? Depois da morte, há o nada ou a misericórdia.


Na ficção Samarcanda temos um homem que prefere a paz a violência, onde tudo o que quer é um grande celescópio para observar o céu, enquanto dá conselhos aos poderosos e escondido, escreve os seus pequenos versos, vistos na época como algo inferior a tudo o que ele conhecia e descobria.

Djahane é a alma gêmea de Omar na ficção, uma mulher que não deseja filhos nem abandonar o estilo de vida escolhido para ficar ao lado do seu amor. Uma figura feminina forte, com opiniões e ações independente, surpreendendo quem espera encontrar apenas mulheres submissas.

Há uma alegria perversa em estar numa cidade sitiada, as barreiras caem quando se erguem as barricadas, homens e mulheres reencontram as alegrias do clã primitivo.


Outra figura real é Hassan Sabbah, o líder extremista cujos pensamentos parecem ecoar até hoje em grupos semelhantes e bastante conhecidos para quem acompanha os noticiários internacionais, inicialmente nos é apresentado como um jovem sedento por conhecimento, não é difícil ele se tornar amigo de Omar e assim entrar no círculo de poderosos na época. Até suas ideias e manipulações se mostrarem fatais.

Falando em poder, temos outra personagem que é um dos modelos até hoje da emancipação feminina, esposa do sultão Malikchah, Terken Khatun entendia das manobras necessárias para se manter no poder. Uma mulher extremamente forte que não se dobra para manter os seus interesses.

Em meu difícil combate pela sobrevivência, precisava dessas aliadas, de seu entusiasmo e de sua coragem, de sua admiração injustificada.


Já o fictício Benjamin Omar é o narrador desta história, que ao se encantar pela história do homem ao qual leva o nome em homenagem, demostra a mesma determinação em adquirir conhecimento, se dividindo entre a busca pelo livro perdido e publicações sobre o oriente médio.

Assim como Omar, ele irá encontrar o amor ao conhecer a princesa Chirine, a neta do xá que compartilha da paixão e obsessão pelo livro, ao mesmo tempo que é um espelho da personalidade de Djahane.

Se os persas vivem no passado, é porque o passado é sua pátria, porque o presente é para eles uma terra estrangeira em que nada lhes pertence.


O irreal Benjamin será responsável por nos apresentar outras figuras reais, como o professor americano Howard Baskerville, que abraçou a revolução constitucional persa durante o pesado cerco de Tabriz.


A escrita de Amin Maalouf....

Samarcanda é dividida em quatro partes, nas duas primeiras narradas em terceira pessoa o foco é em Omar Khayyam, onde temos a apresentação das cidades e dos personagens principais, passando pela disputa de poder, os sultões, a questão religiosa e os assassinos suicidas.

Aqui a mistura de lendas, história real e ficção me fizeram lembrar de mil e uma noite, pois o autor Amin Maalouf me transportou para um mundo que me encantou com toda a cultura e força do Oriente.

Daí em diante, foi preciso esconder-se para falar em liberdade, democracia, justiça.


Na terceira e quarta parte o narrador Benjamin Omar começa a participar da história, mudando a narrativa para terceira pessoa. Aqui passei a acompanhar todas as usas aventuras e encrencas que ele se mete ao buscar o lendário livro. Como pano de fundo temos a luta pela constituinte na Persa, uma paixão que nos invoca a dúvida entre o real e a ilusão, até chegar no então indestrutível Titanic e os tesouros que ele carregou para as águas geladas.

Tudo isto em capítulos não muito longos, com belas descrições, em uma escrita fluída que te convida a viajar pelas páginas junto com o personagem e admirar a inteligência e força dos que entram em cena.


O que eu achei...

Samarcanda é o tipo de livro que sinto pena de finalizar, que convida a fazer pesquisa no Google a saber mais dos personagens, que deixa o olho espichadinho sabendo que mais tarde queremos uma releitura para descobrir mais detalhes que talvez tenham passado despercebido no primeiro contato.

Ele também me encantou por mostrar - mais uma vez - como o nosso mundo é cíclico em quase tudo, especificamente em Samarcanda vemos a guerra e os países envolvidos, onde se inclui a Rússia, que no momento em que escrevo esta resenha está em guerra com a Ucrânia e causando calafrios no resto do mundo.

Ficando a dica para quem gosta de viajar pela literatura, conhecer outras culturas, curte a mistura de realidade e ficção, para quem quer se encantar ou simplesmente gosta de ler um bom livro.


Samarcanda
Samarcande
Amin Maalouf
Tradução: Marília Scalzo
TAG Curadoria - Tabla
1988 - 348 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Os cem anos de Lenni e Margot



Sinopse: Lenni é uma adolescente de dezessete anos, dona de uma personalidade especial e de muito carisma. Pode-se dizer que é uma garota cheia de via... exceto que, segundo os médicos, ela está à beira da morte. Como um modo de preencher seus dias no hospital em que está internada e sozinha - e de cumprir uma aposta feita com o padre da capela -, Lenni começa a frequentar aulas de arte terapêutica. E é então que conhece Margot, uma senhora de oitenta e três anos, doce e de coração rebelde como o de Lenni. A conexão entre elas é intensa e imediata, e as duas percebem uma peculiaridade: juntas, têm um século de via! Para celebrar esses cem anos que compartilham, decide montar uma exposição de cem pinturas. Em cada uma, retratam uma memória importante dos anos que viveram. Histórias de paixão, juventude, amadurecimento, alegria, afeto, de quando se encontra em alguém o amor de sua vida. Histórias que merecem, sempre, ser compartilhadas.

No mês de agosto/21 recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro de estreia da escritora inglesa Marianne Cronin Os cem anos de Lenni e Margot. De mimo veio um livro de colorir com trechos e desenhos que remetem o livro, além de uma caixinha com seus lápis de cores. Mas se junto viesse uma caixa de lenço, não teria sido demais.

Lenni é uma jovem de dezessete anos de mente e língua afiada, curiosa e inteligente, como toda adolescente se sente entediada ao ter que ficar muito tempo em um mesmo lugar. E no caso dela isso é rotineiro, pois ela mora no Hospital Princess Royal, na cidade de Glasgow na Escócia. É uma paciente da Ala May, onde ficam crianças e adolescentes com doenças limitantes da vida, mais popularmente chamadas de doenças terminais.


Quando as pessoas dizem "terminal", penso em aeroporto.


A jovem cansada de ficar na cama que se tornou seu lar resolve aproveitar uma obrigação prevista em lei para as pessoas que possuem crenças religiosas e assim passear até a capela do hospital, e assim ela conhece o Padre Arthur, um senhor que muitas vezes me pareceu quase um anjo que aparecia de tempos em tempos na história.

Da mesma forma ocorre com a Sala Rosa, local onde a arte é utilizada como meio terapêutico e logo chama a sua atenção. Os responsáveis até tentam deixa-la em uma turma de adolescentes cujo diagnóstico é bem mais simples que o de Lenni, mas como ocorria antes de sua internação, ela não consegue interagir com pessoas de sua idade. Diferentemente do que ocorre na turma da terceira idade, onde logo ela se sente à vontade e encontra Margot, que está internada por um problema cardíaco.


Dizem que quando alguém morre é porque Deus chamou a pessoa de volta para ele, então pensei em me apresentar logo de uma vez.


A conexão com esta jovem senhora de 83 anos é imediata, e conforme elas conversam, surge a ideia de somar suas idades e fazer uma exposição com desenhos que retratam situações que marcaram suas vidas. Se por um lado Margot desenha muito bem, por outro, Lenni registra tudo o que ocorre e que ela descobre em um caderno. 

E é desta forma que o leitor irá conhecer aos poucos a história destas duas personagens e entende-las um pouco mais. Como o fato de Lenni não se conectar com pessoas de sua idade há muito tempo, não receber visitas de nenhum familiar - o que inclui seus pais -, questionar Deus e não se sentir pronta para morrer. 


Em alguma parte do mundo lá fora estão as pessoas que nos emocionaram, que nos amaram ou que fugiram de nós.


Ou a intensidade de Margot, com seus amores, os anos de guerra e paz, sua avó paterna mesquinha, sua mãe tão forte e presente, suas fugas e procuras.

Narrado em primeira pessoa pelo que Lenni vive e escuta, Os cem anos de Lenni e Margot é uma leitura muito sensível, principalmente trazendo a memória das personagens os diferentes tipos de acontecimentos, dos mais comuns, passando pelos muitos felizes até aqueles que as fizeram cair, para depois se levantarem e seguirem suas caminhadas.


De qualquer modo, não sou boa em perdoar as pessoas porque acho difícil esquecer.


Não poderia deixar de falar dos personagens secundários, como o Padre Arthur que sempre respondeu de maneira muito sincera as perguntas de Lenni, por mais diferentes e provocativas que elas fossem. Da enfermeira nova que não tem o seu nome revelado na história, mas participa ativamente dos acontecimentos. Da moça que tem a ideia de criar a Sala Rosa e encontra perdas e ganhos nos corredores do hospital.

Eu gostei da história, seus diálogos são interessantes, existe uma ironia as vezes direta, as vezes sutil. Como que provocando o leitor a buscar as suas próprias imagens, o que ele desenharia para representar cada ano de sua própria vida, quais os símbolos pessoais que ela carrega.


E agora eu podia dizer com sinceridade que havia experimentado o bolo de meu centésimo aniversário.


Mas não achei o livro de todo leve, por ter a presença constante da morte, principalmente em uma menina tão jovem, com tantas possibilidades e escolhas a serem feitas. Para os mais sensíveis ele pode ser um pouco difícil em alguns momentos, ao mesmo tempo que instiga a dar mais valor em aproveitar este bem tão preciso chamado Vida. 

Na edição da TAG Inéditos há ainda uma entrevista com a autora, com perguntas dos livros favoritos de Marianne Cronin até detalhes da própria Lenni e Margot, sendo um complemento pós leitura.

Os cem anos de Lenni e Margot
The One Hundred Years of Lenni and Margot
Marianne Cronin
Tradução: Flávia Souto Maior
TAG - Planeta
2020 - 351 páginas

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

O deus das avencas



Sinopse: Em O deus das avencas, Daniel Galera expande seu universo narrativo para nos trazer um livro diferente de tudo o que já fez - especulativo e por vezes sombrio, mas extremamente humano. Na novela que dá título ao volume, um casal se fecha em casa à espera do nascimento do primeiro filho, e mergulha numa incerteza crescente, tanto sobre o destino deles como sobre os rumos do país. Em "Tóquio", Galera avança algumas décadas para retratar a vida de um homem solitário, obrigado a enfrentar o passado num mundo que atravessou um desastre ambiental e tecnológico. E por fim, em "Bugônia", dá um passo além ao recriar a história de uma comunidade pós-apocalíptica em simbiose com a natureza, que, pressionada pelas ameaças externas de um planeta devastado, precisa se transformar radicalmente.


O deus das avencas foi a minha primeira experiência com a literatura do autor brasileiro Daniel Galera, ao qual ouvia muito falar, em muitos casos as obras acompanhadas de elogios, o que fez a minha curiosidade aumentar ao receber o livro.

Como é indicado na sinopse são três histórias com personagens, lugares, contexto e tempo diferentes. Mas isso não me impediu de fazer uma ligação entre elas, mas primeiro vou falar um pouquinho de cada uma e apercepção que tive.

Sabem que é ilusão, mas também que, em certo sentido, estão realmente silenciando um pouco o mundo, construindo um abrigo contra o cerco das demais urgências.

A história que abre o livro é a que dá o título também, em O deus das avencas o leitor irá para o centro histórico de Porto Alegre, onde moram o casal Lucas e Manuela. É o ano de 2018, véspera das eleições presidenciais no Brasil. Manuela está grávida de quarenta semanas, sentindo as contrações, mas sem dilatação, o que gera o pedido da médica para que ela siga em casa caso mantenha a decisão de um parto humanizado.

Entre o isolamento tedioso do casal dentro do apartamento e caminhadas pelas ruas da cidade, eles vão de preocupações reais a diálogos e pensamentos que podem dar um ar de um pouco pedante e superficial, do estilo que se acha cheio de sabedoria, mas não consegue nem ter independência financeira familiar, já que os mesmos pais criticados por sua opção de voto são os que mandam dinheiro para a dupla se sustentar.

Às vezes tudo que precisava era ser um pouco usada, sabendo que dali a pouco, quando recobrassem as forças, ela seria amparada no que fosse necessário, sem riscos e sem cobranças.

Entre a preocupação com a natureza e fumar ao lado de uma gestante, fica claro que muitos dos assuntos discutidos são para preencher vazios de uma relação sem profundidade, cujo único laço é a criança que irá chegar.

Uma das curiosidades para mim foi as respostas que a obstetra dava aos telefonemas, ao qual me deixou em dúvida se Manuela ligava à toa durante toda a gestação ou se ela era realmente muito descansada. Sim, os personagens se tornam reais para mim durante a leitura.

Mesmo agora, porém, teme que os invoca de maneira precipitada, ao mesmo tempo tarde e cedo demais.

E assim todas as tragédias aqui imaginadas são refletidas nas duas histórias a seguir, ambas em um futuro distante, mas abordando dois estilos de vida que diferenciam as classes sociais após grandes momentos de caos.

Em Tóquio, a segunda história que se segue, tem início na cidade de São Paulo, em uma roda de terapia bastante peculiar em um local chamado APPPH - Associação de Pesquisas e Práticas em Pós-Humanidade.

Passei a odiar mesmo minha mãe depois de uma certa noite, em Tóquio, quando eu tinha dezoito anos.

Todos os presentes, incluindo o personagem que conduz o leitor pela história, possuem em comum o fato de um familiar ter realizado o escaneamento da sua mente, abandonando o seu corpo original para habitar os mais variados objetos, que podem ser de um robô a uma peça do tamanho de um chaveiro.

As pessoas aqui precisam reaprender a lidar com as engenhocas tecnológicas após as empresas responsáveis terem ido à falência. Sem assistência, são vozes cheias de memórias que podem ser ligadas e desligadas conforme a resistência de seu portador.

Não pensava na minha mãe, uma maluca que tinha decidido abrir mão dessa vida aos cinquenta e seis anos para digitalizar o conteúdo de seu cérebro, crente de que isso lhe garantiria a vida eterna.

Aqui me lembrei de outro livro lido recentemente e resenhado aqui no blog, pois assim como em Nossa Parte de Noite, os escaneados são pessoas ricas em busca da imortalidade, uma ambição tão desmedida que as faz ignorar todos os riscos e perigos em uma busca sem limites pela eternidade.

E o que é a eternidade em meio ao caos desta São Paulo protegida em uma bolha, no que parece ser um ambiente pós apocalíptico, onde apartamentos viraram fazendas de cultivo após devastação dos campos, o caminhar é feito por túneis climatizados devido ao calor insuportável que aflige a Terra, e ninguém parece se importar com os que estão fora deste "campo de força".

O mundo nada mais é do que o lugar do qual não podemos fugir.

A cidade de Tóquio aqui é onde o personagem sem nome vê a mãe pela última vez, perde o amor de sua vida, e descobre os planos maternos para se imortalizar. Fazendo com que uma relação de amor e ódio substitua o cordão de ligação entre os dois. As lembranças desta viagem fazem paralelo com o tempo presente da história, o que nos permite compreender com mais amplitude como tudo chegou naquele ponto.

Confesso que esta foi a história que mais gostei, pois ela proporciona reflexões interessantes não apenas sobre as relações humanas, mas também sobre o que determina o que somos? O nosso corpo? A nossa mente? Nossas lembranças? Ou os nossos sentimentos?

Sabe que deveria procurar em tanta complicação a leveza das possibilidades, mas na maior parte do tempo encontra um peso indistinto e difícil de carregar que a arrasta para longe da paz.

Quem fecha é Bugônia, ao qual fiquei em dúvida se seria em um futuro após Tóquio ou em tempo paralelo com ela, já que aqui temos uma comunidade que vive no mundo externo, longe das metrópoles fechadas. Sendo bem possível que a comunidade do Topo enxergasse apenas as luzes de São Paulo.

Nesta história fui conduzida pela jovem Chama, que nos apresenta quem são as lideranças do chamado Organismo, onde adultos e crianças dividem tudo, como em uma sociedade hippie pós apocalipse que encontrou um lugar aparentemente seguro. Para sobreviver aos inúmeros vírus que exterminaram parte da raça humana, eles consomem necromel frequentemente, que como o nome indica, é gerado pelas abelhas livres que também moram no topo a partir do corpo de pessoas mortas.

Que a diferença entre estar vivo e não estar vivo é um pouco como sonhar sabendo que está sonhando e de repente acordar e não ter certeza se ainda está sonhando ou não.

Tudo muda na comunidade com a chegada de uma nave e seu astronauta estrangeiro, trazendo diferentes sentimentos à toa, e comportamentos quase selvagens. Somado a isto eles se veem sob o risco de confrontar um outro grupo, este mais extremista e também perigoso, que de certa forma me remeteram ao filme Mad Max.

Todas as mudanças e ações são pelos olhos de Chama, que mesmo sem estudo, usa o seu conhecimento para avaliar o que é justiça e realizar questionamentos sobre o que é correto e o que deveria ser avaliado, demonstrando ser uma opção de liderança diferente entre os já conhecidos guias.

Há entre eles quem acredite na existência da alma, uma excrescência do corpo que persiste após a decomposição e precisa de carinhos e certas palavras e cantos para descansar de vez.

Esta leitura foi bastante curiosa e intrigante, se em um primeiro momento eu cheguei a achar o livro uma viagem, mudei totalmente de ideia ao prestar a atenção com outro olhar no jornal da noite, toda a destruição da natureza pelas queimadas, o derretimento do gelo, a pandemia que vivemos e seus negacionistas, o que fez acender aquela luz de que talvez esse futuro não seja nem irreal nem tão distante assim se não mudarmos os rumos atuais.

O que pode parecer um exagero de Daniel Galera, onde no lugar de carros voadores e soluções para todas as doenças temos o medo de novos vírus e uma Terra caindo aos pedaços, me fez pensar no quanto nós, como humanidade, não damos importância para tudo o que influência o nosso dia-a-dia, o que vai das escolhas pessoais, dos sentimentos que guardamos até chegar a forma como cuidamos do nosso planeta.

Queria entender exatamente o que se reconfigura nas relações entre as coisas para agitar nela tais efeitos, mas sabe que ainda tem acesso somente a cintilações insuficientes.

Pois sim, para mim parece um tanto óbvio que os últimos acontecimentos políticos, virais e que envolvem a natureza influenciaram a escrita. E mesmo que você não concorde com o primeiro casal de protagonista, vale refletir sobre o comportamento atual de governantes e governados, antes que seja tarde demais. Assim como as linhas tênues que separam vida e morte, esperança e uma rua sem saída.

Em relação a escrita, as duas primeiras histórias são narradas em primeira pessoa e apenas a última tem um terceiro como narrador. Sendo que na primeira história temos um único e longo capítulo, acompanhando as horas que passam de sexta até domingo. Em Tóquio o capítulo também é único, mas há espaços maiores entre os parágrafos separando os tempos do personagem. Em Bugônia temos os capítulos, como que dando um maior respiro entre os acontecimentos na comunidade.

Sobrevivíamos sim, mas amaldiçoados.

E ao final das três jornadas eu realmente gostei do livro, de suas ligações invisíveis, do olhar pessimista com um leve toque de esperança. Um livro diferente, de escrita fluída e leitura que pode trazer diferentes pensamentos mesmo após a página final.

O deus das avencas
Daniel Galera
Companhia das Letras
2021 - 247 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Hamnet


Sinopse: Com base em poucas informações sobre a biografia de William Shakespeare, Maggie O'Farrell cria a trama protagonizada por Agnes, uma mulher excêntrica e selvagem, que tinha o hábito de caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva, além de possuir dons extraordinários como prever o futuro, ler pessoas e curá-las fazendo uso de poções e plantas. Após o casamento com um professor de latim, ela se tornou uma mãe super protetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguiu para Londres, onde consolidava sua carreira como dramaturgo.  A vida de ambos é severamente abalada quando o filho, Hamnet, sucumbe a uma febre repentina.

Recebi no mês de julho/21 da minha assinatura da intrínsecos o livro Hamnet da autora inglesa Maggie O'Farrell. De mimo veio o livro Era uma vez em Hollywood e um pôster que mistura Shakespeare e Tarantino.

Antes do primeiro capítulo o leitor já é informado que o menino Hamnet morreu aos onze anos em 1596, e inspirado neste menino, o pai escreveu e encenou a peça que se tornou imortal: Hamlet.


Ele dá cada passo devagar, desliza ao longo da parede, as botas pisando firme e ruidosamente.


Já sabendo a base da história, o leitor irá se deparar com um Hamnet apavorado em 1596 atrás de um adulto, pois sua irmã gêmea, Judith, estava passando mal, apresentando os primeiros sintomas da peste negra que assolava o local. Do avô só recebe violência, as mulheres todas saíram de casa, e o médico não está no consultório.

Retorna-se alguns anos no tempo e encontramos o pai de Hamnet dando aula de latim em uma fazenda para alguns meninos como pagamento de uma dívida de seu pai. É pela janela que ele se encanta por Agnes, também chamada de Anne, uma mulher forte, conectada à natureza, que muito cedo perdeu a sua mãe.


Está cauteloso, as palavras do pai lhe ecoam na mente: fique longe do seu avô quando ele estiver com o humor sombrio.


Ela é mais velha que o rapaz, mas isso não impede a paixão entre eles, e entre contrários e a favores, eles se casam em uma cerimônia discreta, tendo três filhos, o que agonia Agnes, já que em uma visão, ela enxergou apenas dois de seus filhos em seu leito de morte, e a faz ficar de olho na menina que julga mais frágil.

E quando a morte vem, e isso não é um spoiler visto que a nota histórica já avisa o leitor, embora não o prepare devidamente, a dor ecoa com força pelas páginas, atingido os mais sensíveis e principalmente aqueles que tem todo o amor do mundo pelos filhos, o que me fez pensar que uma caixa de lenço deveria ter sido enviada como mimo extra nesta caixa.


A cena que o recebe é tão imprevista, tão desconcertante, que ele leva um instante para se situar, para determinar o que está acontecendo.


Maggie O'Farrell divide o seu Hamnet em duas partes, na primeira temos o passado e o presente intercalados. Das primeiras descobertas do casal, a luta contra o tempo de uma mãe desesperada, que a tantos ajudou e agora nada consegue fazer pelo seu filho. A bonita ligação dos gêmeos, cujo amor vem desde o útero, e descreve uma das cenas mais bonitas do livro.

Falando em descrição, é na primeira parte que temos o caminho da peste que atinge a família, tudo começando em um macaquinho em um porto distante que encontra um rapaz do mar. Aqui é muito fácil fazer uma associação com os dias atuais, sendo praticamente uma explicação de como uma doença se espalha fácil, superando distâncias e fronteiras.


Não quer uma cerimônia realizada a milhas de distância da cidade, em uma igrejinha com um padre esquecido e com ela e o noivo entrando sorrateiramente em uma capela.


Na segunda temos toda a dor do luto, sentida por cada membro da família de uma maneira diferente, causando reações e expectativas totalmente individuais. Um capítulo único, pesado, e longo como a eterna saudade da perda, que em alguns momentos exige um tempo para respirar e assim se livrar um pouco da sensação de sufocamento que a ausência tão amada provoca.

E como mérito da escritora temos a possibilidade através de sua ficção de uma nova visão de Anne Shakespeare. Casada por 34 anos com o dramaturgo, eles, como na história do livro, viviam em cidades separadas, ela na terra natal com os filhos e próxima aos irmãos e sogros, e ele em Londres escrevendo e encenando suas peças, alcançando o sucesso popular.


Passou a noite ali: não se levantou, não comeu, não dormiu nem descansou.


Somado as casas separadas o que gerou algumas conclusões não muito gentis entre os biógrafos foi a diferença de idade entre os dois - cerca de oito anos - e o fato de ela casar grávida, algo que chocava muito a sociedade local em 1582.

O que fez com que alguns a descrevessem como uma solteirona que seduziu o pobre rapaz para obriga-lo a casar, fazendo com que Shakespeare cometesse um erro desastroso. O que explicaria nesta visão machista o fato de em seu testamento ele ter deixado apenas a cama do casal para a esposa, deixando quase todos os bens nas mãos da filha mais velha Susanna.


Ela, que sempre soube, sempre sentiu o que iria acontecer antes que acontecesse, que sempre se moveu com serenidade num mundo totalmente transparente, foi enredada, pega de surpresa.


Em meio ao desconhecido, a escritora preenche estas lacunas com suas próprias especulações de forma muito verossímil, mantendo a característica de Agnes ser uma mulher à frente do seu tempo, em um misto de força, gentileza, delicadeza, que nada teria com a megera muitas vezes descrita.

Então sim, adorei a forma como ela misturou o pouco que se sabe e contrariando historiadores criou uma ficção sobre a força e sofrimento feminino. Onde no meio de tanta intensidade e dor é possível se colocar no lugar dos personagens facilmente, principalmente quando também vivemos em meio a uma pandemia. Afinal, qual mãe não teme perder os seus filhos?


Pousa a agulha com cuidado porque ela não pode espetá-lo, nem mesmo agora, e estende os braços.


É muito fácil gostar de Agnes e seus filhos, a generosidade de como ela procura auxiliar os doentes que a procuram, o abrir mão do convívio diário para que o marido encontrasse sua vocação e fosse feliz. São várias as escolhas que ela faz ao longo do livro, e é ela que precisa administrar sozinha os acertos e erros de cada uma.

Sobre a narrativa em si, mesmo Maggie O'Farrell utilizando da terceira pessoa, consegue criar uma aproximação muito forte com os personagens. A forma como ela descreve as cenas, nos faz imaginar cada casa, rua e árvore, mas sem ser tedioso, já que ela faz isso durante a movimentação de cada um deles, em uma procura, caminhada ou olhar.


Pegou a morte do filho e a tornou sua, pôs a si mesmo nas garras da morte, ressuscitando o menino em seu lugar.


Uma curiosidade é que nem todos os personagens são nomeados, incluindo William Shakespeare, que é chamado como o professor de latim, o filho, o pai, o marido. Como que dizendo, não, este livro não é sobre você, mas com você. Quebrando a visão, por um momento, de que um dos personagens é o grande escritor para transforma-lo em um ser humano com falhas e dores.

Um livro que apesar de triste, me encantou, e me despertou uma maior curiosidade sobre a época e as obras do próprio Shakespeare, ao qual só li Sonho de uma noite de verão, que eu imagino ser a comédia citada no livro. Ficando a minha recomendação para você ler e lavar os olhos.

Hamnet
Maggie O'Farrell
Intrínseca
2020 - 384 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

O Mapeador de Ausências


Sinopse: Diogo Santiago é um respeitado intelectual moçambicano. Poeta e professor universitário em Maputo, ele volta pela primeira vez em anos à Beira, sua cidade natal, às vésperas do ciclone que a arrasou em 2019. Não se trata apenas de um regresso a certo lugar, mas também ao passado longínquo de sua infância e juventude, quando Moçambique ainda era colônia portuguesa. Entre os vivos e os mortos, Santiago revisitará os personagens que fizeram parte de sua história.

No mês de julho a TAG completou sete anos, e como celebração, eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o envio do livro inédito do escritor moçambicano Mia Couto, que traz em O Mapeador de Ausência, não apenas a grafia vigente no português de Moçambique como alguns de seus fatos históricos. Recebi como mimo uma ecobag do Edgar Allan Poe. Sim, estou com uma coleção de ecobags da TAG, qualquer dia envio um e-mail para enviar em um tamanho maior para usar nas compras de mercado.

Em 2019 o poeta Diogo Santiago recebe um convite para retornar à Beira, sua cidade natal, onde é recebido com honrarias. Entre os lugares de infância, muitas memórias da infância, principalmente da figura do seu pai, um poeta e jornalista pertencente a um grupo de resistência aos portugueses, vão preenchendo os seus pensamentos.


Escrevo a dedicatória, torno-me numa espécie de autor póstumo


Existe uma melancolia no seu espírito, e conforme é dito por ele, essa viagem também é uma recomendação médica, como se os lugares tão conhecidos pudessem responder perguntas a tantos anos feitas, assim como matar um pouco da saudade que o acompanha.

As ausências são acentuadas ao conhecer Liana Campos, sua mestre de cerimônia e neta do inspetor Óscar Campos da PIDE  – sigla para Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia salazarista do ditador português António de Oliveira Salazar - que prendeu o seu pai, o poeta Adriano Santiago, durante a guerra de libertação de Portugal, época que Moçambique ainda pertencia ao país europeu. 


A poesia não é um gênero literário, é um idioma anterior a todas as palavras.


Ela lhe entrega vários papéis que estavam com a PIDE e foram guardados por Campos que são relacionados a Adriano, incluindo cartas, diários pessoais e relatórios, o que faz com que ambos circulem por cidades próximas. 

Em comum, ambos possuem uma busca pendente. Ela está atrás da história de Almalinda – também chamada Ermelinda – sua mãe já falecida que se tornou uma figura do imaginário local., Já Diogo quer saber se o primo Sandro Santiago ainda está vivo, jovem considerado doente pela família por apresentar um comportamento afeminado, que sumiu durante o período que servia ao exército português. 


Levo esse livro ao rosto, aspiro o aroma do papel, cheiro o tempo como fazem as mulheres com a roupa dos ausentes.


Em uma corrida contra o relógio tudo precisa ser feito de forma rápida, pois um ciclone está para chegar, mas eles são atingidos antes pelos ventos das lembranças, e ao se deparar com o passado, eles podem finalmente enfrentar sentimentos que os corroem no presente.

Eu sou suspeita para resenhar qualquer livro do escritor Mia Couto, já que sou uma apaixonada pela sua escrita, e como ocorreu em outros livros dele, como A menina sem palavras, O Mapeador de Ausências me encantou.


Um milagre chamado internet. É uma seita com mais seguidores que qualquer religião. E já tem fanáticos...


Alternando a narrativa em primeira pessoa de Diogo com os documentos que ele lê, vamos acompanhando pouco a pouco, de forma poética mesmo nos momentos mais difíceis, dos títulos de cada capítulo, as frases de abertura, os documentos colocados nem sempre em ordem cronológica, as pequenas "brincadeiras" com a memória, enfim, absolutamente tudo tornam a imersão na história mais completa e profunda.

Além disso temos um conjunto de personagens incríveis, como a mãe de Diogo, Virgínia Santiago, que convive com uma sogra difícil, um marido infiel e com a cabeça nas nuvens, e mesmo assim não perde a simpatia com os outros.


Vai falando de si mesmo, sempre de olhos fechados, como se lhe custasse suportar a luz do dia.

A família Fungai também nos complementa e muito a história, como a forte Maniara que nomeia em praça pública os mortos, e seu filho Benedito, que de empregado da família Santiago assumiu o seu papel político, e em pequenos diálogos mostra que mesmo entre as famílias mais engajadas havia invisibilidade.

Somado a isso há o toque de autobiografia e realidade, conforme indicado na nota de abertura do autor, que nos informa que a ficção foi inspirada em pessoas - como o próprio autor do Mia Couto -, episódios - como o massacre cometido pelas tropas portuguesas descritas no livro - e lugares reais, como a própria Beira, cidade natal do escritor. Fazendo o leitor viajar entre o período atual e a década de 1970.


Aprendi que os homens de grandes ideais são, muitas vezes, pessoas de poucas ideias.


Na minha visão o livro explora muito bem os laços que construímos ou não com pessoas e locais, assim como situações da nossa própria história que queremos lembrar, que queremos esquecer ou que muitas vezes mudamos para dar um toque especial em nossas memórias. 

Também nos deparamos com as semelhanças e diferenças dos senhores da guerra com aqueles que combatem, hora espelho, hora contraste, temos um toque de humanidade em meio ao desumano, como se separando os que mandam dos que são mandados. E mesmo entre os que combatem encontramos os que impedem a liberdade, podam entre os seus o direito de fazer suas próprias escolhas, obrigando a se adequar ao que é considerado correto.


Alguém disse que a esperança alimenta multidões. Pois eu digo: o desespero cria exércitos alucinados.


Um livro que decidi ler com calma, e me via espantada ao final de cada dia o quanto de páginas já passadas, ao qual encerrei com um misto de satisfação e tristeza por ter chegado ao fim.

E para quem ficou com vontade de ler, leitura que mais do que recomendo, e não é associado da TAG, a boa notícia é que a Companhia das Letras já está preparando o lançamento da edição que irá para livrarias. Então coloca na tua lista de desejos e já fica de olho.

O Mapeador de Ausências
Mia Couto
TAG - Companhia das Letras
2020 - 293 páginas

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

A Biblioteca da Meia-Noite



Sinopse: Aos 35 anos, Nora Seed é uma mulher cheia de talentos e poucas conquistas. Vendo pouco sentido em sua existência, ela coleciona tristezas e arrependimentos. Quando Nora se vê na Biblioteca da Meia-Noite, ganha uma oportunidade para fazer tudo de novo. Como em um passe de mágica, os livros na Biblioteca da Meia-Noite permitem que Nora experimente as vidas que teria vivido se tivesse tomado outras decisões. Com a ajuda de uma velha amiga, ela agora pode reverter cada uma das ações das quais se arrepende, até chegar à vida ideal. Mas nem sempre as coisas correm como o esperado, e o novo rumo que sua vida toma coloca em risco tanto a biblioteca quanto a própria Nora. Antes que o tempo acabe, ela deve responder à pergunta mais importante de todas: O que faz a vida valer a pena?



No mês de Julho/21 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro A Biblioteca da Meia-Noite do escritor inglês Matt Haig. Como mimo uma ecobag da rainha do crime Agatha Christie.

Nora foi o tipo de criança e adolescente prodígio. Ótima nadadora, poderia ser uma futura atleta olímpica. Excelente estudante, parecia que poderia ser o que quisesse e teria muito sucesso. Criando muita expectativa em todos a sua volta e naturalmente nela mesma.

Mas a realidade aos seus 35 anos é que ela se formou em filosofia e trabalha como vendedora em uma loja de instrumentos musicais que está indo mal das pernas. Mora sozinha, seus pais faleceram, tem pouco contado com irmão e sua única amiga, tendo assim como companhia um gato.


Mesmo quando não estava chovendo, ela passava o recreio da tarde inteiro na pequena biblioteca.


Tudo transborda em poucas horas quando ela é avisada que o seu gato está morto na rua e que ela perdeu o emprego. Sentindo-se totalmente inútil, e acreditando piamente que só torna a vida das pessoas que estão à sua volta pior, ela resolve dar fim a tudo ao juntar os seus antidepressivos e bebida alcóolica.

Em uma linha tênue que separa a vida e a morte, a sua mente vai parar em um prédio antigo junto à bibliotecária que a apoiava nos tempos da escola. Nas estantes todos os "se's" da sua vida e um livro muito pesado, onde constam todos os seus arrependimentos.


Enquanto olhava fixamente para a expressão calma e tranquila de Voltaire - aquela total ausência de dor -, um sentimento inevitável começou a tomar forma nas sombras.


Usando dois fatores muito comuns na vida de qualquer ser humano, que são escolhas e culpas, o autor Matt Haig nos leva em uma leitura que consegue ser fluída e ao mesmo reflexiva na forma como o ser humano muitas vezes encara a vida. O livro possui muitos clichês? Sim. Mas a verdade é que as questões existenciais são muito comuns em nosso cotidiano, e quando abordadas, não há muito como fugir.

Pois quase todas as pessoas, aqui isento os psicopatas, carregam a sua dose de culpa e arrependimentos. E se eu tivesse feito isso no lugar daquilo? E se eu tivesse ficado quieto? E se eu tivesse falado tudo o que está entalado? Se eu tivesse dito sim? Se eu tivesse dito não? Se eu simplesmente tivesse dobrado uma rua antes? Se eu tivesse...?


O universo tende ao caos e à entropia. Essa é uma lei básica da termodinâmica. Talvez seja uma lei básica da existência também.


E é justamente este leque que o escritor explora. A cada livro que Nora abre, ela para exatamente no momento de vida que estaria vivendo naquele instante. E logo de início a primeira coisa que observamos é que os problemas simplesmente não desaparecem, principalmente quando as suas raízes são mais profundas do que imaginamos.

Em contrapartida, ao ter uma visão diferente de si, ela também se permite compreender que nem tudo era motivo para sentir culpada, que nem tudo era motivo para ter ficado remoendo arrependimentos. E conforme ela vai se isentando e se perdoando, o livro que antes exigia muita força vai ficando mais leve, e a vida ganhando novos contornos.


Cada movimento tinha sido um erro; cada decisão, um desastre: cada dia, um afastamento de quem ela havia imaginado que seria.


Como eu comentei nos parágrafos iniciais, este livro tem nas primeiras páginas um gatilho muito forte para quem sobre de depressão, pois sim, o que leva Nora para a linha tênue é justamente o desejo de acabar com a própria vida, de não ver solução para o que está em sua volta, enfim, de não ter mais esperanças de que nada pode ser diferente.

Colocando a luz sobre as pessoas que sentem vontade de sumir, seja fugindo de tudo ou de todos ou dando fim a própria existência. Muitas alimentadas pela crença de que só atrapalham, de que as pessoas ao redor ficariam muito melhor sem a sua presença, creditando tudo o que acontece de ruim em sua conta. O que torna a sua vida ainda mais difícil e dolorosa, principalmente por algumas parecerem invisíveis aos olhos dos que estão ao seu redor, onde os pedidos silenciosos de ajuda não encontram quem os escute.


Quando você fica muito tempo num lugar, esquece como o mundo é grande e vasto. Não tem noção da extensão de suas longitudes e latitudes. Assim como, supôs ela, é difícil ter noção da vastidão dentro de qualquer pessoa.


A Biblioteca da Meia-Noite foi um livro que li em dois dias, e que sim, mexeu comigo, pois foi inevitável que eu não remexesse no meu próprio livro de arrependimentos e repassasse alguns "se's" que são tão presentes que nunca se tornaram memória. Um encontro ao qual sigo digerindo questões enquanto escrevo esta resenha.

Por isso foi muito interessante pra eu ver através da ficção que muitas vezes os problemas não mudam de lugar, que os sonhos e desejos alheios não são escolhas nossas, que é apenas ilusão acreditar que o que não foi vivido tornariam o presente mais feliz. Afinal, não existe vida perfeita.


E a gente passa tanto tempo desejando que a vida fosse diferente, se comparando com outras pessoas e com outras versões de nós mesmos, quando, na verdade, a maioria das vidas contém um certo grau de coisas boas e um certo grau de coisas ruins.


E ao mesmo tempo eu tive um sentimento de compartilhar a leveza e a felicidade quando cada arrependimento de Nora se desfaz, ou quando ela se dá conta que determinado 'se' não era a solução dos seus problemas, permitindo que o livro me desse a chance de refletir sobre as situações que me acompanham sem considerar uma medida tão extrema quanto de Nora.

Pois a verdade tanto na ficção e na vida real é que do passado devemos guardar as boas lembranças e o aprendizado, para que cada dia a gente possa decidir por aquilo que realmente é o que desejamos. Que cair, levantar, errar e acertar fazem parte, e não devemos nos colocar nos banco dos réus por cada leite derramado. E para quem já está feliz da vida sem se preocupar com nada disso, fica a leveza da escrita para mergulhar nas muitas vidas de Nora.


A Biblioteca da Meia-Noite
The Midnight Library
Matt Haig
Tradução: Adriana Fidalgo
TAG - Bertrand Brasil
2020 - 319 páginas

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Ada ou Ardor


Sinopse: Este é talvez o romance mais ambicioso de Vladimir Nabokov. Em Ada ou ardor, ele constrói uma narrativa de fôlego, de escopo monumental, em que todos os seus principais temas confluem: há a exploração das lembranças inconstantes da infância, como em Fala memória, há a recriação de territórios fabulosos, como em Fogo pálido; e há o amor proibido por uma menina fugidia, como em Lolita. Carregado de lirismo, o romance é também um feito linguístico, no qual Nabokov arquiteta uma narrativa complexa e fluída, que nos leva através das lembranças de Van Veen em sua tentativa de reconstruir a história de amor que viveu com a prima, Ada. "Nunca antes um romance fez com que a acumulação de experiência humana ao longo de uma vida parecesse tão ricamente romântica", escreve o crítico Boyd, no posfácio deste livro. "Nunca, nem mesmo em Prost, o choque do presente foi tão amplificado por meio da repetição, da recordação, da antecipação, da tristeza, do remorso, da diversão e do êxtase."

A crônica familiar da rica família Veen ocorre na Antiterra - que seria a nossa realidade na Terra em uma imagem distorcida no espelho - durante um período de cem anos, indo de 1868 a 1967. Neste lugar, muitas vezes parece que ainda não ocorreu a Pangeia, tamanha facilidade de deslocamento de um ponto a outro.  E a língua é uma mistura de inglês, francês e russo.

Logo de início iremos conhecer as gêmeas Marina e Aqua, que irão se casar com os primos Demon e Daniel. Estes relacionamentos irão gerar os personagens que são os fios condutores da história, a Ada do título, sua irmã Lucette e o primo Van.


Uma Revelação pode ser mais perigosa do que uma Revolução.


É na mansão de Ardis que Van, então com quatorze anos, e Ada, então com 12 anos, irão começar a ligar o quebra-cabeça que torna a sua aparecia física tão semelhante: a descoberta que eles são na verdade irmãos. Mas isso não irá impedir que eles se aventurem em outras descobertas bem mais íntimas um no corpo do outro, em uma relação incestuosa ao qual mantinham escondida de seus pais.

Entre encontros secretos e saudades aliviadas por cartas, eles crescem mantendo a paixão acessa, mas sem manter nenhuma fidelidade, ao mesmo tempo que vão envolvendo Lucette, ainda inocente, em suas brincadeiras, tornando a sua cabeça jovem bastante confusa.


Verificando que as flores eram artificiais, ele pensou como era estranho que essas imitações sempre tentassem enganar apenas os olhos, em vez de copiar também a sensação úmida e carnuda das pétalas e folhas vivas.


O resultado deste amor proibido irá afetar a todos e nortear os caminhos do casal, em um processo de reencontro e repetição ao longo das páginas. Dividida em cinco partes, elas acompanham Van ao longo dos anos, com um grande enfoque para as mulheres que encontra, os livros que escreve e o momento em que começa a ter consciência do tempo e do próprio envelhecimento.

Para os fãs de clássicos, ao longo da narrativa será fácil encontrar os vários easter eggs que alimentam a história, para confirmar ou entender ao que estou me referindo, basta ler na parte final as anotações de Ada assinadas por um anagrama do autor. São referências a outros autores - como Tolstói, Júlio Verne e Jane Austen -, lugares e as expressões usadas ao longo da história agora traduzidas. Nem todas as opiniões são exatamente positivas, o que de certa forma podem gerar uma comparação de opinião entre o que diz o escritor e o que pensa o leitor.


Ambos buscavam nos livros o máximo de excitação intelectual, como o fazem os melhores leitores; ambos encontraram em muitas obras famosas nada mais do que pretensão, tédio e falsas informações.


No Posfácio o escritor e professor Brian Boyd, considerado o maior conhecedor do autor na atualidade - faz uma análise de Ada ou Ardor, traçando uma linha de comparação com Ulisses de James Joyce, além de resgatar cenas e analisar os personagens e a forma narrativa - como o uso de repetição e recordação. Além, é claro, referenciar outras obras de Vladimir Nabokov, como o polêmico e surpreendente Lolita. Complementando assim a experiência de leitura e possibilitando mais interpretações pós leituras, já que a história é rica em simbolismos.

O livro mistura narrativas em primeira e terceira pessoa, visto que Van é o narrador e o personagem central da história por ele contada, embora possua anotações de Ada durante as suas revisões, ficando claro ao leitor que ele está lendo as memórias deste homem com uma vida digamos bastante intensa.


Pensamentos estranhos e malevolentes atormentavam a mente dele.


Apesar de percorrer o final dos anos de 1800 e mais da metade dos anos de 1900, não é um livro para encontrar referências históricas como as duas grandes guerras, pois cabe recordar, como eu escrevi lá no início, que não estamos falando da Terra e sim da Antiterra. 

Com isso o leitor irá passear por referências filosóficas, eróticas e de ficção científica enquanto acompanha em um misto de romantismo e deboche os movimentos de uma família milionária ocupada dentro da própria bolha, com direito a compra de muitos imóveis e duelos para sossegar os pensamentos após desconfiar de traições.


O prazer de destruí-los não iria curar seu coração, mas sem dúvida limparia seu cérebro.


Mas ao contrário do que ocorreu na leitura de Lolita, ao qual considerei o livro fantástico, em Ada ou Ardor tiveram algumas coisas que me incomodaram, como se os anos de diferença entre uma leitura e outra, o que inclui várias mudanças na forma de olhar o mundo e a maternidade, parecem ter influenciado bastante.

Começo com a mais banal de todas, o uso recorrente de parênteses (). Eles estão em abundância no texto, e eu, particularmente, sinto a leitura travar quando há excessos deles. Sim, eu entendo, é o estilo da escrita, já que parecia alguém revisando e os utilizando para explicar determinada situações ou apenas comentando ou relembrando algum fato complementar da memória. 


Aceitou o toque da mão cega que lhe subia pela coxa e maldisse a natureza por ter plantado uma árvore nodosa estourando de seiva vil entre as pernas dos homens.


As próximas duas se misturam, então vou começar com a que mais me desagradou aqui, que foi a sexualização de meninas ainda crianças. Em Lolita eu relevei este fato por me parecer uma história de pedofilia, em Ada ou Ardor ela é naturalizada pelo narrador e pelos que estão na sua volta, como o velho que cada vez buscada meninas mais jovens para deflorar ou no próprio comportamento de Ada.

Essa sexualidade antecipada faz companhia ao machismo, de homens que duelam por sua honra a olhares que percorrem corpos femininos da unha do pé ao último fio de cabelo, dando uma amostra que o dinheiro compra o respeito alheio, mas não é concedido automaticamente aos seus donos.


Quero examinar a essência do Tempo, não sua passagem, pois não creio que sua essência possa ser reduzida a seu transcurso.


E ao me sentir desagradada, a leitura acabou me trazendo uma reflexão de que a postura masculina descrita não é algo que ficou no passado, que não posso denomina-la como algo característico da época em que o livro foi escrito, pois as situações permanecem atuais, tanto de abuso infantil como a visão da mulher objeto. E talvez seja essa razão de eu não conseguir me divertir com a história.

Então sim, acho que terei que reler ele em um outro momento, para buscar a leveza e fluidez inteligente citada por Brian Boyd. Enquanto os anos não passam, eu deixo a dica para os leitores do blog, principalmente para os que adoram ler um clássico.


Ada ou Ardor - Crônica de uma família
Ada or Ardor - A family chronicle
Vladimir Nabokov
Tradução: Jorio Dauster
Alfaguara
1969 - 605 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Susan não quer saber do amor


Sinopse: Ninguém mais sabe como lidar com Susan Green. A família tem dificuldade com seu jeito arredio e os amigos não conseguem entendê-la. Para Susan, no entanto, só importa que tudo esteja funcionando adequadamente . O que ela não imaginava era que precisaria administrar ao mesmo tempo a morte da mãe, uma batalha judicial contra o irmão e uma gravidez inesperada. Pelo visto, perder o controle vai ser só o início dessa jornada.

Em junho/21 recebi da minha assinatura da intrínsecos o primeiro livro da escritora inglesa Sarah Haywood que já teve os direitos comprados para virar filme na Netflix. De mimo veio o jogo Torre, que virou divertimento da minha filha aqui em casa.


Não sou o tipo de mulher que guarda rancor, fica remoendo problemas ou questionando os motivos de outras pessoas agirem da forma que agem.


Susan não gosta de jogar conversa fora, é bem objetiva em suas respostas, está sempre procurando aumentar a produtividade, não gosta que toquem nela, tem uma coleção de cactos e muito menos quer dividir o seu teto com alguém. Formada em direito, optou por um emprego estável de analista de dados para não ter que ouvir as histórias alheias. Possui um relacionamento com um cara, onde se encontram uma vez por semana em locais impessoais, completando o controle total que sente da sua vida aos 45 anos.

Mas em um mês de agosto o seu mundo controlado e metódico começa a apresentar rachaduras, uma gravidez inesperada, o falecimento da sua mãe e a surpresa de um testamento que deixa a casa em usufruto para o irmão irresponsável, que irá abrir a caixa de segredos familiares.


Talvez essa sensação fosse fruto da minha fobia quase patológica à vida suburbana, a sua mediocridade sedutora e a impressionante obsessão com o mundano.


E a partir daí mês a mês, acompanhamos os acontecimentos se desenrolarem na vida de Susan, e se inicialmente ela nos causa estranhamento, aos poucos situações passadas e atuais nos mostram a razão pela qual ela não confia em ninguém e não quer depender de ninguém.

Seu pai era alcoólatra, sua mãe tinha uma clara preferência pelo filho caçula, sua tia é superficial, seu irmão gosta de coloca-la nas piores situações possíveis e suas primas só contribuem para todo o desgaste. Somado a isso ela passou por bullying na escola e um fim de relacionamento traumático. Só que no lugar de ficar se lamentando, ela construiu a própria armadura, o que resultou em evitar qualquer contato pessoal demais com os que estão à sua volta.


E, de qualquer modo, disse a mim mesma, eu era forte, já tinha prática em me manter distante do que estava acontecendo ao meu redor e de sufocar qualquer reação emocional a isso.


A primeira coisa que eu devo dizer é que o título escolhido para a tradução em português, que não tem nada a ver com o original, engana. Não se trata de uma história romântica, onde uma fria heroína é conquistada por um herói que irá modifica-la completamente.

Não. É um livro sobre relações. Sobre como o impacto que as convivências familiares em uma criança irão ecoar em sua vida durante um período muito longo, moldando suas atitudes, personalidade, visão de mundo e relacionamentos na vida adulta. E principalmente, o quão difícil e surpreendente é derrubar todas as barreiras construídas após anos de mágoas.


Se eu decidisse negar na presença do pai, seria possível que a criança se ressentisse de mim por isso quando crescesse, apesar da minha justificativa de que desejava preservar minha independência?


Só que ao contrário do que se possa imaginar, a escritora Sarah Haywood conseguiu dar leveza nesta história, me fazendo dar boas gargalhadas em algumas partes, já que Susan tem uma língua bastante afiada e uma dose de ironia que a tornam uma personagem muito interessante.

Além disso a escrita de Sarah é fluída, ao dividir em meses a história, ela vai desenvolvendo e resolvendo os acontecimentos, em um ritmo que torna a leitura rápida e ao mesmo tempo incentiva a não parar de acompanhar a personagem. Deixando até mesmo uma saudade ao finalizar a história de Susan.


Mamãe sempre tratou os meus feitos e conquistas com uma aprovação moderada e desinteressada, e as minhas decepções, com pesar igualmente moderado e desinteressado.


E os personagens secundários são ótimos, como a sua vizinha Kate, que após o divórcio se aproxima de Susan, trazendo de bônus seus dois filhos pequenos. O agente duplo Rob, amigo de seu irmão, que acaba fazendo o papel de intermediário e se tornando próximo dela também. De sua única e super sincera amiga Brigid, cujas conversas não possuem melindros. 

Não poderia deixar de falar de Edward, o irmão imaturo que não nos faz discordar das opiniões de Susan, nem das primas gêmeas, que são o tipo de parente que exigem uma dose extra de paciência.


A menina foi incapaz de aceitar sua responsabilidade pela situação em que se encontrava e não parou de reclamar de fome.


Também não foram raras as vezes que imaginei os cuspes lhe caindo na testa após ela discursar como seria a criação de seu bebê. Afinal, quem já é mãe, sabe que a teoria foge e muito da experiência prática.

Um livro que me surpreendeu positivamente, cuja história é bem diferente do que o título insinua, afinal, Susan se tornou distante justamente pela falta de amor, algo que, como todos nós, ela queria, mas simplesmente havia cansado de se magoar. 

Susan não quer saber do amor
The Cactus
Sarah Haywood
Tradução: Ana Rodrigues
intrínseca
2018 - 335 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Espelho Partido


Sinopse: Espelho Partido é um livro de bastidores. As antigas criadas contam às mais jovens as lendas e os mistérios que envolvem a família Valladaura, mas o quadro completo pertence ao leitor, senhor dessa teia de segredos. Nas palavras da autora Mercè Rodoreda, expoente da cultura catalã do século XX, "Espelho partido é um romance em que todo mundo se apaixona por quem não tem de se apaixonar e quem sente falta de amor procura obtê-lo seja como for: no intervalo de uma hora ou no intervalo de um momento". O passado surge como os tentáculos de um polvo negro e viscoso: um suicídio em Viena, um filho perdido e rejeitado, uma amante cançonetista e uma filha bastarda. Fratricídio. E é com cores intensas que a autora salpica essa narrativa dolorida, que vai do cruel ao comovente, cujo fim se dá um pouco após a Guerra Civil Espanhola.


No mês de junho/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Espelho Partido, da escritora catalã Mercè Rodoreda, indicação de uma outra autora espanhola, cuja escrita eu adoro: Rosa Montero, e tem o seu livro A Louca da Casa foi publicado resenhado aqui no blog. O mimo foi um bonito álbum de fotos com frases sobre memórias.

Teresa é uma jovem muito bonita, que ao ficar órfã recebe o pedido de casamento de um senhor velho e rico. Assim ela abandona a vida como vendedora de peixes, entrega o seu filho ainda bebê, junto com um bom valor em dinheiro, para ser criado pelo seu amante e a esposa. E assim ela recomeça uma nova vida, se adaptando ao novo meio social.


Era um dia encoberto; de vez em quando, entre duas nuvens, aparecia um raio de sol pálido que não durava tanto.


Após ficar viúva é apresentada por amigos a Salvador Valldaura, um homem traumatizado pela perda abrupta de um amor inocente e idealizado. Mas ao ver Teresa, ele se apaixona por ela e a pede em casamento, e assim começa a história da família no impressionante palacete em Sant Gervasi, onde terão uma única filha e mais tarde seus netos como moradores.

Mas ao contrário do que é indicado na sinopse, a história aqui não é contada apenas pelas criadas, e apesar de haver alguns personagens mais explorados, não existe exatamente um principal, pelo menos na minha opinião.


Aqueles olhos aveludados e aquele riso contagiante o deixaram apaixonado.


Narrado em terceira pessoa, cada capítulo traz o olhar de um personagem, sendo que Teresa é a que mais se repete, pois, o leitor a acompanha da juventude até a sua velhice. Mas além dela estão seus amores, seus filhos, seus netos, as criadas, fantasmas e animais.

Em comum tudo está centralizado no palacete, com seu enorme jardim, o seu loureiro, as torres, e no interior seus armários, livros, fotos, cortinas, papeis de parede. Cada móvel uma lembrança, uma memória, que pode ser guardada ou simplesmente destruída. Sendo uma forma simbólica de união, separação, ostentação, degradação, e sobretudo, passagem do tempo.


Tinha-o à frente, estranho, distante de sua vida de mulher rica, quase como se fosse algo encostado...


São três gerações que passam por baixo do enorme teto, entre alegrias e tristezas, há naturalmente as diferenças de opiniões, objetivos e caráter, afinal, família não se escolhe, simplesmente se nasce nela, assim como os sentimentos que corroem cada ser humano, o que provoca indiferença, o que gera arrependimento, o que pode consumir a alma e o que nos devolve a vida.

Eu já havia lido A Praça Diamante de Mercè Rodoreda, também resenhado aqui no blog, e gostei muito do estilo de escrita da autora, de colocar o leitor na rotina de seus personagens, de dar a visão do todo, nos permitindo formar as nossas próprias opiniões e nos sentir extremamente junto a eles, compartilhando o sobe e desce das escadas, os cheiros nas cozinhas ou tendo os olhos ofuscados pelas joias.


Se, em vez de ter nascido para servir, tivesse nascido para ser uma senhora, não teria usado joias - ou teria pouquíssimas.


O que me fez encontrar algumas semelhanças entre os dois livros, como o uso dos pássaros, se na Praça Diamante tínhamos as pombas agora em Espelho Partido são as rolinhas, e eles nunca estão à toa na história. Assim como uma leve pitada de fantástico, que sutilmente nos arrepiar a nuca e nos levar além das paredes literárias. Além é claro de ambos proporcionarem uma viagem por Barcelona, cenário que sempre mistura o colorido e o gótico em suas ruas e prédios.

Em relação a Guerra Civil Espanhola, ao contrário da Praça do Diamante cujos personagens a vivem com força, em Espelho Partido é tudo muito sutil, pois todo o seu impacto e consequências são evidenciados muito mais no próprio palacete do que na vida dos que ali viveram.


Não tenho palavras, não posso dizer o que acontece comigo, minhas palavras não estão em lugar nenhum.


De bônus, para quem gosta de ir além da história, há um Epílogo onde a escritora fala sobre a criação de um romance, inspirações, suas obras, e o que há em comum em seus livros, como anjos e metamorfoses. Um verdadeiro presente para quem admira Mercè Rodoreda e tinha curiosidade em saber mais.

Um leitura que eu recomendo para quem gosta de viajar por outras cidades sem sair do lugar, para quem gosta de acompanhar gerações de famílias, para quem quer conhecer livros de outras culturas, para quem simplesmente gosta de ler.


Espelho Partido
Mirall Trencat
Mercè Rodoreda
Tradução: Luis Reyes Gil
TAG - Planeta
1974 - 315 páginas

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terça-feira, 27 de julho de 2021

Somos todos adultos aqui


Sinopse: Astrid Strick tem 68 anos e vive uma vida aparentemente perfeita. Porém, seu caçula desistiu da promissora carreira de ator. Sua filha do meio, com quase quarenta anos, decidiu engravidar a partir de uma produção independente. E o mais velho vive de acordo com regras impostas pela preocupação com as aparências. Mas quem decide, após tantos anos, quais erros realmente importam? Quais desculpas precisam ser pedidas? À medida que enfrenta os enganos do passado, Astrid começa a perceber que não é a única a esconder segredos e que todos à sua volta estão tentando entender quem são.

No mês de junho recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro Somos todos adultos aqui da escritora norte-americana Emma Straub. O mimo foram porta-retratos em imã, que eu já usei e por isso não aparecem na foto, e 50 fotos impressas em uma parceria com a Foto Registro.

Em um dia normal de sua rotina, Astrid assiste de dentro de seu carro outra moradora, Barbara Baker, morrer após ser atropelada por um ônibus escolar que estava vazio e em alta velocidade. O contato inesperado com a morte neste dia irá mexer com ela de uma forma irreversível, como até agora ainda não havia acontecido.


A lavagem profissional do cabelo era uma herança da geração da mãe dela, uma afetação que a própria mãe não havia adotado, e, no entanto, aqui estava.


Ela ficou viúva quando os três filhos entravam na vida adulta, considerada fria e prática em seu círculo mais íntimo, aos 68 anos ela irá surpreender a todos ao assumir o seu relacionamento com outra mulher, Birdie, o que vai gerar reações bem diferentes dentro da família.

Elliot é o filho mais velho, por ter sido visto beijando um amigo na adolescência pela falecida Barbara, sua mãe evitava a outra mulher. Na vida adulta não tem grandes demonstração de afeto, casado com Wendy, praticamente foge de ajudar nos cuidados dos gêmeos de três anos. Guarda muitas mágoas da mãe por essa ter duvidado da sua capacidade profissional.


Qual é o sentido de ter filhos se você se livra deles antes mesmo de eles terem algo interessante para dizer?


A única filha e a do meio entre os três é Porter, uma mulher de quase quarenta anos que sabe administrar muito bem a sua vida profissional, mas na pessoal ainda parece uma adolescente, inclusive agindo como uma. Não tendo possibilidades de ter filhos com o homem que acredita amar, pois este é casado, acaba optando por uma produção independente.

O caçula é Nick, um ex-ator que prefere viver longe da mãe, casado com uma francesa e com um estilo de vida diferente dos irmãos, é o pai de Cecelia, atual razão para todas as suas inseguranças, a ponto de no primeiro problema envolvendo a filha na escola, invés de defende-la ele a envia para morar com a avó Astrid.


Aquilo era romance ou codependência, a necessidade esmagadora da outra pessoa para poder voltar ao eixo?


Cecelia tem apenas treze anos e sempre busca fazer o que é certo, o que acaba eventualmente colocando-a em problemas com os grupos de meninas mais populares. Na nova cidade ela faz amizade com August Robin, um menino que se identifica como menina, mas só consegue ser ele mesmo em um acampamento de férias e junto de seus pais, que apoiam tudo com muito carinho.

Tudo isso em uma fictícia e utópica cidade pequena, que ficaria próxima a New York, com moradores que seguem todas as regras, protegem o comercio local, é muito segura e LGBTQIA+ friendly. O que me faz pensar que não foi coincidência o envio do livro no mês de junho.


Havia pessoas na escola que ele conseguia tolerar, pessoas para quem podia ligar para falar do dever de casa se estivesse doente, mas não eram amigos dele.


Se me perguntassem que definição sucinta eu daria para Somos todos adultos aqui, eu responderia que é uma DR - discussão de relacionamento - generalizada realizada com muito respeito. Principalmente no que se refere ao relacionamento pais e filhos, já que temos diferentes perfis, o que torna o conjunto de laços, mágoas, histórias e culpas bem distintas.

Do apoio total a relacionamentos egoístas, a criação acaba ecoando nos relacionamentos íntimos, na forma como o parceiro é tratado, dos sonhos que são abandonados, do que se permita que se faça.


Estava tentando ser o tipo de mulher que gostaria de ter como mãe - instruída, mente aberta, esse tipo de coisa.


E naturalmente, com tanta discussão vindo à tona, acabam vindo reflexões anteriores, que vão mudando o que se é agora, indo do aspecto físico ao comportamental. A diferença entre o que se quer e o que se é também acaba indo para a berlinda, permitindo assim uma evolução de cada um, como encarar os próprios segredos e hipocrisias.

A narrativa fluída em terceira pessoa vai mudando o foco do personagem a cada capítulo, embora creio poder dizer que o centro da trama é Astrid, que não só dispara a faísca dentro da família como é quem vai guiando as relações.


Essa era a pior parte de ser adulta, entender que não havia justiça no mundo, nenhuma mão invisível na brincadeira do copo.


E apesar de toda a DR, o livro não é pesado, mas um passeio pela vida adulta, pelas diferenças de gerações, podendo ou não trazer à tona os próprios fantasmas do leitor, conforme sua história de vida. Uma história bacana para ler com uma caneca de chá ou de vinho, se deixando levar pela família Strick.


Somos Todos Adultos Aqui
All Adults Here
Emma Straub
Tradução: Camila Von Holdefer
TAG Inéditos - Harper Collins
2019 - 350 páginas

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terça-feira, 20 de julho de 2021

Pequena Coreografia do Adeus


Sinopse: A protagonista é Júlia, jovem que chegou à vida adulta tentando juntar os cacos de um relacionamento destroçado: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado. Ela cresceu sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e a falta de afeto e, pouco a pouco, tenta se desvencilhar da bagagem familiar.

A história começa ainda na infância de Júlia, ao ver o pai a distância acompanhado de outra mulher, ela se sente abandonada, invisível, e é tomada por um grande desejo de correr até a figura feminina e lhe pedir para ser adotada, e assim receber amor. 


ela era mais bonita que a minha mãe

cheirava melhor também


Mas o pai não lhe vê, e assim ela acaba jogando toda a sua raiva na amiga que a acompanhava, socando a menina. A reação pode parecer extrema, mas é o exemplo que ela tem em casa, quando a mãe externa todas as suas infelicidades através de grandes surras na filha.

A mãe de Júlia é um ser distante, que bebe e só se aproxima da filha na madrugada, quando a menina compartilha com ela a cama, ocupando o espaço que ela não queria que estivesse vazio. São os únicos momentos de afeto, ao qual a personagem se agarra com grande fervor.



e segurava a mão do meu pai, entrelaçada, tão bonita quanto uma atriz de cinema.


Já o pai não quer nem pensar em ficar com a menina, lhe sendo suficiente as visitas esporádicas nos dias de domingo, que lhe tiram qualquer responsabilidade no crescimento da filha e em sua orientação, e assim lhe deixando livre para recuperar a juventude perdida.

E neste ambiente caótico ela irá iniciar o ciclo de despedidas e primeiras vezes que todas as mulheres passam, da menstruação que dá adeus a infância, nas adaptações ao próprio corpo, as tentativas de ter novas habilidades, até finalmente encarar de frente todo o peso da figura materna que ela carrega e decidir se quer ou não manter aquela relação abusiva.


Ela derramava o seu óleo de insatisfação pelos cômodos formando um longo tapete de Dor e Glória.


Eu desconhecia a escritora Aline Bei e fiquei simplesmente encantada pela escrita sensível e forte que encontrei em Pequena Coreografia do Adeus, que mistura de forma gentil sentimentos como ausência, solidão, inferioridade, carência e afetividade após descrever situações que envolvem perdas e descobertas, além dos sonhos que a própria personagem tem e busca a sua maneira realizar.

Tudo começa com a forma como o texto está em cada página, em um primeiro momento o leitor pode pensar que se trata de poemas, pela forma como as frases estão distribuídas, e talvez não esteja tão enganado, pois existe um toque lírico na narrativa.


as pessoas morrem, ninguém precisa estar doente ou velho para que isso aconteça, a Morte se instala muitas vezes sem aviso


Aliás, a forma é uma das coisas que mais me atraíram neste livro, como o fato de algumas palavras possuem tamanhos diferentes, o que mudou a minha percepção de leitura, como se elas me fizessem sentir com mais força cada sentimento e sensação da personagem. Assim como a utilização da narrativa em primeira pessoa, que neste caso tornam a Júlia muito próxima do leitor, o que inúmeras vezes me provocava o desejo de poder abraça-la.

Pequena Coreografia do Adeus é um livro de leitura rápida e intensa, que provoca o leitor a relembrar os próprios adeus, enquanto sente a impotência de não poder proteger a própria Júlia. Em paralelo ele explora algumas faces das relações humanas, começando com as mais íntimas entre pais e filhos - e quebrando assim o paradigma do amor automático -, até evoluir para amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos, estes as vezes muito mais amigáveis e dispostos ajudar do que qualquer outra pessoa mais próxima.



a máscara era o meu passaporte, um sinal de que cedo ou tarde eu também realizaria os meus sonhos


Uma bela história para ser lida a qualquer momento, onde memórias e laços afetivos vão se desenroscando para abrir espaço para o novo, para a própria busca, e de como isso pode ser ao mesmo tempo doloroso e libertador.





Pequena Coreografia do Adeus
Aline Bei
Companhia das Letras
2021 - 282 páginas
Onde encontrar: Amazon

Esta linda edição autografada faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.