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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sonhos em tempo de guerra


Sinopse: Em Sonhos em tempo de guerra, uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea africana registra com delicadeza um passado que ainda tem muito a dizer ao presente. Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em uma região rural do Quênia, e cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. No cotidiano da família formada por seu pai, as quatro esposas - a terceira delas sua mãe - e os muitos irmãos, Ngũgĩ localiza as origens do futuro narrador: histórias contadas ao redor do fogo e uma sede insaciável de aprendizado após o primeiro contato com a escola.


No mês de agosto/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor brasileiro Jeferson Tenório o primeiro livro do projeto autobiográfico do escritor, pensador e professor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o chamado Sonhos em tempo de guerra. O mimo foi um jogo para formar palavras, que já foi para as mãos da minha filha - e cá entre nós, uma ótima forma de estudar a escrita das palavras.

Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em 1938 em um país que ainda era colônia britânica. Quinto filho de sua mãe, e um dos vinte quatro de seu pai, vivia circulando entre as cinco cabanas posicionadas em forma de círculo, onde cada uma pertencia a uma das esposas e a principal era do seu pai.


Minha mãe era muito boa em fazer aparecer uma refeição por dia, mas quando se tem fome, é melhor encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para afastar a mente das lembranças de comida.


A convivência familiar era de muitas histórias e contrastes de personalidade. O pai começa como um homem rico para a comunidade e reservado, de pouco contato com seus numerosos filhos, mas por ações dos colonizadores vê suas conquistas escaparem por seus dedos, mudando sua forma de lidar com os familiares ao se entregar a bebida. Já as mulheres sempre foram muito agitadas, fazendo rodas para compartilhar lendas e fatos passados, cozinhando e tratando com afeto todas as crianças que circulam pelo local, vivendo em uma harmonia talvez inesperada para tantas esposas.

Sua mãe sempre incentivou os estudos, algo que os seus irmãos mais velhos não deram sequência. Uma das melhores frases da história vem dela, que sempre perguntava ao filho quando este lhe falava dos seus aprendizados, provas e conquistas: "Foi o melhor que você conseguiu fazer?", mas não em tom de cobrança, e sim se ele havia se esforçado para aquilo. O resultado é um menino que adora aprender e sempre está buscando o seu melhor nas situações mais adversas. 


As esposas de meu pai, ou nossas mães, como as chamávamos, revezavam-se para levar comida à sua cabana.


É ela também a responsável por uma mudança na vida do garoto, quando após um episódio de violência doméstica decide retornar para a casa do próprio pai. O avô materno, ao qual o garoto herdou o nome,  acaba se tornando uma referência masculina, fazendo com que Ngũgĩ sinta muito orgulho de virar seu escriba particular e ter permissão para compartilhar de sua mesa.

E é acompanhando o crescimento do menino Ngũgĩ que o leitor entender como os quenianos viraram soldados para defender a Inglaterra durante a segunda mundial, os riscos que eles corriam por fazer fronteira com territórios pertencentes a Mussolini e as diferenças na distribuição de recompensa quando tudo terminou.


Todos, os professores, os estudantes, parecem esplêndidos em sua estranheza.


Assim como conhecer a Revolta dos Mau Mau, conflito presente em grande parte da sua adolescência, durante os anos de 1952 e 1960 que lutava pela independência do Quênia, citando personagens históricas do país como Jomo Kenyatta, que foi referência do grupo e o primeiro presidente do Quênia.

Neste ponto temos o irmão mais velho por parte de mãe largando a carpintaria para se juntar a luta pela independência, o Bom Wallace é uma referência forte ao menino Ngũgĩ, pois ele também frequentou a escola e apoia o garoto no aprendizado, demonstrando sentir orgulho ao dar importância a todas as etapas e conquistas do irmão mais novo.


A crença em si mesmo é mais importante do que intermináveis temores acerca do que os outros pensam de você.


Narrado em primeira pessoa, o escritor Ngũgĩ wa Thiong'o compartilha em Sonhos em tempo de guerra as primeiras memórias da infância até a sua entrada no ensino médio. Entre pequenos acontecimentos familiares, que vão de brincadeiras, comidas, o primeiro uniforme e os homens que admirava, passando por momentos históricos do período.

Para o leitor pode ser bastante perturbador ver a necessidade que os colonizadores tinham de se adonar dos bens das famílias, em uma enorme falta de respeito com os povos que ali estavam quando eles chegaram. Ao mesmo tempo se entende há não compreensão que estes novos habitantes sentiram em relação à cultura, como o costume da circuncisão, algo que ainda hoje é muito discutido, principalmente a feminina. Embora isso não justifique a tentativa de apagar toda a história de vários povos, como ocorreu em quase todos os países colonizados.


Uma conversão bem-sucedida era medida a partir de quão rápida, profunda e completamente alguém se despojava de sua cultura e adotava novas práticas e valores.


Também me chamaram a atenção a busca por manter as próprias tradições por meio da escola, onde o autor frequenta tanto a estrutura organizada pelos missionários quanto as criadas pelos quenianos que completaram os seus estudos. Contando os leitores as diferenças encontradas nas duas formas de ensino, que vai das disciplinas - com ênfase especial para o ensino da língua inglesa-  até o aspecto comportamental que inclui as atividades extracurriculares. 

Eu gostei do livro, mas confesso que apesar de eu adorar livros históricos, confesso que a forma como ela foi abordada na narrativa pesou um pouco na fluidez da leitura. Não, não estou dizendo que é ruim, mas existe nitidamente uma pausa para explicar o contexto histórico, dando uma sensação de explicação de sala de aula - como ele é professor, talvez isso explique o estilo -, quebrando muitas vezes o fluxo narrativo nesta troca de visão pessoal, contexto histórico e retorno as memórias.


Talvez sejam os mitos, tanto quanto os fatos, que mantenham os sonhos vivos mesmo em tempo de guerra.


E apesar do livro ser o primeiro de uma série autobiográfica o seu final não exige obrigatoriamente a leitura em sequência do próximo livro, já que ele fecha de forma redonda. Ficando a opção de procurar os demais para quem quer saber como Ngũgĩ wa Thiong'o e sua família, em paralelo com o próprio Quênia, seguiram durante os seus próximos anos e conquistaram a sua independência, e no que este marco influenciou a vida deles.

Ficando a dica de leitura para quem gosta de biografias, de fatos históricos ou anda na busca de livros que permitam conhecer melhor o continente africano.


Sonhos em tempo de Guerra - Memórias de Infância
Dreams in a time of war: A childhood memoir
Ngũgĩ wa Thiong'o
Tradução: Fábio Bonillo e Elton Mesquita
TAG - Biblioteca Azul
2010 - 248 páginas

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sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Dias de Abandono


Sinopse: Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel de poverella (a "pobre mulher abandonada"). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústias e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante.

Olga queria escrever, possuía ideias firmes sobre a independência da mulher. Mas um dia conheceu Mário, se casou, teve um casal de filhos, um cachorro que ela não queria, e passou a procrastinar os seus planos. Um belo dia, após o almoço, Mario comunica a Olga que queria se separar, não era culpa dela, nem das crianças, mas ele estava confuso e cansado. 

Eu o conhecia bem, sabia que era um homem de sentimentos tranquilos, a casa e os nossos rituais familiares eram para ele indispensáveis.

Em um primeiro momento Olga fica em choque, após refletir e lembrar de outras vezes que Mario fez a mesma coisa, passa a esperar o seu retorno. A cada visita aos filhos, ela é extremamente educada com ele, esperando pelo dia em que o marido irá permanecer. Afinal, já superaram outras situações, e Olga sabe que Mario precisa deles.

Só que no dia em que ela percebe que não haverá volta, afinal o confuso possui outra mulher. A chave vira na cabeça de Olga e ela entra em uma espécie de surto. Olga passa a brigar com todos os conhecidos, deixa de se cuidar fisicamente, passa a ignorar os filhos, adota um palavreado chulo e começa a criar um paralelo com uma vizinha de infância, que foi se tornando vazia após ser abandonada pelo marido.

Você não pode me deixar aqui tendo esperança, quando na verdade você já decidiu tudo.

A comparação amplia a depressão de Olga, pois ela sempre julgou a mulher fraca por se entregar de tal forma, lembrando a todos que nunca sabemos quando as nossas palavras podem retornar afiadas para o nosso peito. Mas isso em um primeiro momento não lhe ajuda a sair de um caminho que só a destrói. 

O comportamento dos filhos é dividido entre o apoio e o deboche, conforme eles querem chamar a atenção da mãe, que parece cada dia mais distante, deixando ambos abandonados em uma casa onde as contas não são pagas, a mãe grita histericamente e muitas vezes simplesmente esquece deles. 

Hoje à noite o seu pai vem, temos que fazer tudo para que ele não vá mais embora.

Em um livro relativamente curto, Elena Ferrante se utiliza da narrativa em primeira pessoa para nos colocar no turbilhão que se torna a cabeça de Olga. Das memórias de infância, repassando pela relação com a mãe, até o que ela abriu mão para que o marido evoluísse enquanto ela permanecia como dona de casa. Sua obsessão em ter o marido de volta a levam quase a loucura, pois o amor já foi esquecido e o que permanece é o orgulho ferido pelo abandono.

O livro também aborda o fato de desconhecermos as pessoas mesmo após muitos anos dividindo o mesmo teto, conceitos arcaicos que se tornam mais fortes do que opiniões, assim como o dia D que define se você se entrega ou luta para recomeçar e se reencontrar.

Não é fácil passar da tranquila felicidade do passeio sentimental à desordem, a desconexão do mundo.

Como todos os livros de Elena, a leitura é fluída e impactante. Dias de abandono é particularmente pesado, enclausurando o leitor junto com os personagens no apartamento, e por mais que você queira fechar o livro para espairecer, você não encontra as chaves que irão te libertar, suspirando com o fim do peso somente após a última página.

Dias de Abandono
I giorni dell'abbandono
Elena Ferrante
Tradução: Francesca Cricelli
Biblioteca Azul
2013 - 183 páginas

Outros livros de Elena Ferrante resenhados no Blog
A vida mentirosa dos adultos
Amiga Genial
História do novo sobrenome
História de Quem foge e de Quem fica
História da Menina Perdida


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Intérprete de Males



Sinopse: Celebrando vinte anos de lançamento, Intérprete de males continua mais relevante do que nunca, abarcando todas as consequências possíveis de um mundo globalizado. Jhumpa Lahiri nos toma pela mãe e, a cada história, nos apresenta personagens que se encontram no meio do caminho de um fio condutor identitário: em meio a deslocamentos e realocações, quantas origens e culturas podem habitar uma pessoa?

Tendo como curadora a jovem escritora indiana Rupi Kaur, a TAG Curadoria trouxe no mês de setembro o livro de contos Intérprete de Males, que se tivesse que ser resumido em uma única frase eu diria que ele fala sobre a alma humana.

Composto por nove contos, cujas histórias divergem - mas ao mesmo tempo se complementam -, Jhumpa Lahiri nos fala de sentimentos sem precisar dizê-los. O comportamento de seus personagens nos faz sentir o mesmo que eles, envolvendo o leitor de uma forma gentil, mesmo nas histórias mais fortes.

Os contos

Uma questão temporária nos trás um casal de indianos que moram em Boston. Logo de início o leitor percebe que a algo errado na relação. Em sua rotina uma mudança: temporariamente a eletricidade será cortada por uma hora, durante cinco noites.

Na escuridão a esposa sugere ao marido que eles contem alguma coisa um para o outro que nunca foi contada antes. E neste momento passado e presente são revelados não só para os leitores, como para o casal, iluminando as entranhas do relacionamento.

Quando o Sr. Pirzada vinha jantar temos uma menina que nos conta a história de um homem que ia à sua casa nos Estados Unidos acompanhar as notícias de sua terra que estava em guerra. No seu lar distante estão sua esposa e sete filhas, com a qual tentava toda semana ter contato via correio sem sucesso.

Neste conto além da situação de guerra no Paquistão no ano de 1971 é explicada a partição que dividiu a Índia de uma forma muito clara, afinal, quem está perguntando é uma criança.
O conto possui toda uma delicadeza, ao mesmo tempo em que relata a cultura indiana, ela cita a introdução da cultura americana na família. 

Intérprete de males é o conto que dá título ao livro, aqui temos o guia de turismo Sr. Kapasi que está transportando pela índia um casal filhos de indianos que nasceu nos Estados Unidos.

Durante o caminho eles passam a conversar e é quando o guia revela que possui outro emprego como intérprete para médicos. Tal revelação faz com que a mulher comece a conversar mais com ele, e assim o leitor vai desvendando a vida de cada um.

Um durwan de verdade conta a história de Buri Ma, uma mulher de sessenta e quatro anos que não possui casa e sobrevive limpando um prédio que não possui durwan, isto é, um síndico.

Para os moradores vive a contar sobre a riqueza que possuía no passado e que perdeu após ser deportada de Calcutá depois da partição da Índia. Mas tudo irá mudar quando uma das famílias melhora financeiramente e uma pia é colocada para uso geral dos moradores.

Sexy é o único conto cuja personagem central é uma americana. No seu dia-a-dia ela vive entre as confidências da colega indiana cuja prima havia sido abandonada pelo marido e o seu relacionamento com um indiano casado.

E ao contrário do que se possa imaginar, o foco da história não é a diferença cultural, mas a visão que Miranda tem de si, desde suas roupas até o que ela se sujeita sem precisar.

A Sra. Sen trás novamente a voz de uma criança. Aqui temos um garoto americano com quem a mãe não tem com quem deixar e a Sra. Sem, a esposa de um professor que precisa aprender a dirigir.

Através do olhar do menino entramos na rotina desta mulher que todas as tardes corta vários vegetais e desenha uma pinta acima das sobrancelhas. Sua adaptação ao novo estilo de vida parece tão complicada quanto guiar um carro.

Esta casa abençoada é sem dúvida o mais divertido dos contos. Aqui temos Sanjiv e Twinkle, ambos indianos, casados por um arranjo familiar. 

Em sua nova casa nos Estados Unidos, ela passa a encontrar peças cristãs, virando uma espécie de caça ao tesouro enquanto ele tenta argumentar que os itens não fazem parte da sua cultura.

O tratamento de Bibi Haldar é junto com Um durwan de verdade os contos pesados do livro. Bibi sofre de um mal, vive em uma peça cedida pelo primo e trabalha para ele.

A mulher já passou por vários tratamentos, mas nenhum resolveu, até que vem a sugestão de que para curar ela necessita de um marido. 

O bacana deste conto é que se não simpatizamos com o primo e a sua esposa, existe uma sonoridade entre as mulheres que rodeiam Bibi que dão leveza a história.

O terceiro e último continente temos um indiano que já passou pela Índia, por Londres e agora está nos Estados Unidos trabalhando na biblioteca do MIT.

Recém-casado, precisa se organizar para trazer a esposa que mal conhece, enquanto isso ele aluga um quarto na casa de uma senhora centenária, aonde um diálogo irá se repetir por muitas noites.

A escrita de Jhumpa Lahiri é suave, sendo muito fácil ler as suas histórias, mesmo que depois você as fique digerindo. Ao mesmo tempo em que ela nos apresenta um pouco da cultura indiana, ela nos faz refletir por sentimentos comuns a todos os seres humanos, que vão da felicidade, inveja, amor, tristeza e esperança.

Eu amei este livro, foi uma das minhas melhores leituras de 2019, o que faz com que eu mais do que o recomende. 

Intérprete de Males
Jhumpa Lahiri
Tradução: José Rubens Siqueira
TAG – Biblioteca Azul
1999 – 207 páginas

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O Sonho dos Heróis



Sinopse: Em 1927, o jovem Emílio Gauna ganha uma aposta e decide gastar todo o dinheiro com os amigos em um alucinante Carnaval portenho. Ao perceber que pouco se recorda do que aconteceu na noite anterior, o personagem fica refém da sua obsessão por descobrir a verdade sobre os acontecimentos e as pessoas presentes, mas, sobretudo: quem é aquela mulher misteriosa com quem dançou no baile de máscaras?

O sonho dos heróis foi o livro do mês de abril da TAG Curadoria, uma indicação do escritor Javier Cercas (autor de A Velocidade da Luz já resenhado aqui no blog), que foi escrito pelo argentino Adolfo Bioy Casares, que junto com Jorge Luis Borges foi um dos responsáveis por consolidar o estilo Realismo Fantástico. O mimo foi um copo de plástico com a temática da história: o Carnaval de 1927.

O destino é uma útil invenção dos homens.

Casares nos conta a história como se estivéssemos em uma roda de amigos, e entre os detalhes de uma Buenos Aires que ele conhecia muito bem, estão os eventos de uma história cíclica, pois ela inicia e termina em um carnaval.

Sua escrita torna tudo muito vivo, pois os detalhes de cada ambiente transportam o leitor para o local, podendo ser avaliada a beleza ou feiura, e às vezes quase sentindo o cheiro.

Os levantes, infelizmente, naquela época de egoísmo, eram tarefa para um homem sozinho.

A história ocorre entre os anos de 1927 e 1930, possibilitando dentro do cotidiano dos personagens ver o impacto da recessão de 1929 e a decadência que a Argentina sofreu com o aumento da pobreza e vários lugares fechados.

O personagem principal é Emilio Gauna, um jovem do interior cheio de ideias pré-concebidas, um jeito meio egoísta e que parece ter a necessidade de provar a sua coragem. Sua vida sofre uma mudança quando ganha a aposta de uma corrida de cavalos.

Os jogadores disputavam o direito de subir ao trono, ou seja, de ocupar o posto principal e de ser considerado o primeiro dos heróis.

Sem pensar em aplicar o dinheiro em algo para o futuro, ele resolve levar os seus novos amigos para uma grande festa de carnaval, entre eles o doutor Valerga, considerado um exemplo de homem para todos do grupo.

Após três dias acordou em uma cama estranha, sentindo os efeitos de uma bebedeira que não lhe deixava com os pensamentos claros em sua mente. Ficando apenas a sensação de algo fantástico e uma estranha necessidade de saber como tudo havia conhecido. Na memória apenas alguns flash e uma mulher mascarada.

O que eu vou contar é tão estranho que se eu não explicar tudo com muita clareza não vão me entender nem acreditar em mim.

Conforme os dias voltam ao normal, novos personagens surgem como Serafín Taboada, um bruxo conhecido pelo seu poder de adivinhação e que parece possuir uma necessidade de proteger Gauna. E sua filha Clara, uma mulher forte de diferentes facetas, ao qual Gauna passa a nutrir sentimentos conflituosos ao ver a paixão domina-lo.

Mas ao mesmo tempo em que ele parece dono do seu destino, por vezes transparece a impressão de que o rapaz nada mais é do que uma marionete sendo guiada por aqueles que o cercam. 

Talvez eu tenha imaginado dois amores. Agora vejo que só houve um em minha vida.

Um livro que permite diferentes leituras, tanto da história da Argentina e de seu povo, como a questão de se desafiar o destino e se deparar com o fantástico, até o leitor mais racional que pode entender tudo como uma grande metáfora para o amadurecimento de um homem.

A única coisa certa é que ao fechar o livro você não irá se sentir indiferente aos eventos que o norteiam mesmo para quem não se sente perdidamente apaixonado pela obra como eu.

O Sonho dos Heróis
Adolfo Bioy Casares
Tradução: Josely Vianna Baptista
TAG – Biblioteca Azul
1940 – 207 páginas

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A Velocidade da Luz



Sinopse: Espanha, final dos anos 80. Um convite para lecionar em uma cidade no interior dos Estados Unidos muda para sempre a vida de um jovem aspirante a escritor. Lá, ele conhece Rodney Falk, homem cínico, culto e marcado por um terrível segredo de guerra. A partir desse encontro, os personagens - tão complexos e humanos - desenvolverão uma relação tumultuosa que culminará em um enfrentamento trágico da realidade e os seus demônios.

TAG Curadoria iniciou o ano de 2018 com a indicação do escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza, que me apresentou o escritor espanhol Javier Cercas e um dos livros que entrou para a minha lista de favoritos: A Velocidade da Luz.

Um aspirante a escritor na cidade de Barcelona recebe o convite para dar aulas em Urbana, uma pequena cidade nos Estados Unidos. Neste ambiente tão diferente ele conhece Rodney Falk, um professor um tanto misterioso que vive a parte dos demais docentes. E essa amizade irá marca-lo em definitivo ao ter em suas mãos as cartas que o seu amigo enviava ao pai durante o tempo que serviu ao exercito na guerra do Vietnã.

Hoje eu levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, e clandestina, e invisível, porém mais verdadeira que uma vida de verdade.

O livro de Javier Cercas possui três bases para capturar o leitor: a própria literatura, a psicologia humana e uma guerra. Os três possuem munições suficientes para uma discussão conforme o olhar do seu leitor, já que o livro em si não possui lado, não faz julgamento, apenas conta sobre duas vidas e seus traumas em uma mistura de ficção e realidade.

Curiosamente o livro também possui três cidades de referência: Girona, Urbana e Barcelona, esta última com mais um autor espanhol utilizando de seu lado sombrio para intensificar os sentimentos contraditórios de seu personagem.

...quem sempre sabe aonde vai nunca chega a lugar nenhum, e que a gente só sabe o que quer dizer quando isso já foi dito.

A guerra do Vietnã tem como personagem Rodney, um jovem culto e inteligente que se obriga a ir para uma guerra que não acredita apenas para não decepcionar o seu pai, um veterano da segunda guerra mundial que tem muito orgulho de ter ajudado a salvar o mundo. O homem que retorna é muito diferente, entre as perdas estão o da sua essência, fazendo com que Rodney se construa e descontrua conforme as situações enfrentadas.

Em um dos seus sumiços, o narrador sai em sua busca e acaba recebendo as cartas. Conforme o horror vai acontecendo, uma mudança no conteúdo é evidente, da inocência perdida após a morte do irmão, muitas dúvidas irão surgir na cabeça do narrador, que leva o leitor junto na busca por respostas. E sim, a história de Rodney daria um livro próprio, mas ela é a inspiração do nosso narrador, que precisa dividir o que acontece com ele conforme a ideia da história é construída.

É possível que logo tenha entendido que ninguém volta do Vietnã; que, para quem esteve lá, o regresso é impossível.

O psicológico permite o contraponto entre os dois personagens principais da história: se Rodney possui cultura e luta com os seus monstros internos, o narrador é superficial. Não é difícil desgostar de quem conta a história, seu egoísmo e deslumbramento podem fazer o leitor esnobar os seus sentimentos de culpa conforme os ciclos se repetem. Ele é humano? Sim. O livro escrito pelo narrador parece uma forma de expurgar a culpa? Talvez. Conseguimos ver os dois como espelhos, como muitas vezes o narrador tenta nos induzir? Irá depender de quem está lendo.

...a melhor maneira de contar uma história é não conta-la.

E a literatura? Ah, ela está nas várias referências bibliográficas como Hemingway e Mercè Rodoreda, nos conselhos de Rodney para que um escritor não sucumba ao sucesso, ao gosto de ter seus livros vendidos, a dificuldade de contar uma história quando você começa a fazer parte dela. Ela é o próprio livro quando você não sabe se o narrador é realmente fictício ou autobiográfico, quando ele fica anos escrevendo suas histórias acreditando que aquilo é uma forma de vida, quando a escrita faz a vontade dos olhos se abrirem voltar.

E para quem é assinante da TAG, o posfácio de João Anzanello Carrascoza pode mexer ainda mais com a cabeça do leitor e os seus pontos de interrogações.

  ...agora era eu o homem mais sozinho do mundo, um animal perdido no meio de uma manda de animais de outra espécie...

Por esta história multifacetada, de escrita fácil e leitura rápida, mas de pensamentos longos e muitas teorias, que eu me encantei pela Velocidade da Luz e por Javier Cercas. Um livro para quem deseja escrever, para quem deseja uma boa história, para quem gosta de uma mistura de fracasso, sucesso e culpa.

A Velocidade da Luz
La Velocidad de la luz
Javier Cercas
Tradução Sérgio Molina
TAG – Biblioteca Azul
2001 – 268 páginas

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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

História da Menina Perdida



Sinopse: No último volume da série napolitana, Lenu e Lina caminham da maturidade para a velhice. Nesse percurso temos o resultado dos anos de embate que acompanhamos durante toda a tetralogia. Não houve nem haverá redenção. A violência do bairro, a dificuldade das relações familiares e da maternidade, a ausência do amor continuam em História da menina perdida. O relato da amizade tóxica de Lenu e Lina, que nos engole como um buraco negro, encerra do modo como prevíamos desde o primeiro livro: uma verdadeira obra de arte do nosso tempo.

Elena Ferrante encerra a sua série napolitana com o quarto romance intitulado História da Menina Perdida. Como em todos os volumes, o título nada mais é que uma referência a uma importante situação da narrativa.

Demorei um pouco mais de um mês para ler suas 476 páginas. Não, o livro não é tedioso. Não, o livro não é difícil. A verdade é que encerrar os laços com Lenu e Lila não foi fácil. Era como se eu fosse uma amiga invisível que nada podia fazer pelas duas, e após devorar três volumes ficava o medo de tudo evaporar como a própria Lila.

Ela procurou quase imediatamente entrar mais uma vez à força em minha vida, e eu a ignorei, a tolerei, a suportei.

Outro ponto para esta leitura bem mais lenta foi à releitura de passagens, como se tentando entender se era isso mesmo. Ou ao ver a Itália de ontem como um espelho do Brasil de hoje, talvez com um desalento ainda mais agudo, e uma memória igualmente curta. 

O crescimento, escolhas, amadurecimento e rumos de Lila e Lenu serviram de pano de fundo para descrever Nápoles e a própria Itália. De um bairro pobre pós-guerra, passando pela camorra, o uso dos computadores, intelectuais, sindicalistas, socialistas, terroristas, operação mãos-limpas, ataque às torres gêmeas, tudo descrito pelo olhar de duas mulheres tão diferentes, tão problemáticas, tão únicas, como todas são.

Falei de como tinha observado em minha mãe e nas outras mulheres, desde menina, os aspectos mais humilhantes da vida familiar, da maternidade, da sujeição aos homens.

A série napolitana não é um romance simples, ela é feminista sem ser extremista, ela é política sem ter partido, ela é violenta sem pingar litros de sangue, ela é honestidade e mentira, superação e inferiorização, perdas e ganhos, vida e morte.

Como uma ficha de orelhão antigo, a cada volume as engrenagens vão se encaixando devagarinho. Em dados momentos nos envolvemos tanto nesta amizade - ora considerada destrutiva, ora irmandade - que não nos damos conta do seu ambiente, até ele vir como uma bofetada e muitas vezes espelhar a nossa realidade.

Houve um deslocamento entre a pessoa que eu esperava encontrar e a que de fato topei em minha frente.

História da Menina Perdida narra o envelhecimento das personagens e as consequências das escolhas realizadas no terceiro livro. E o inesperado retorno para casa, sacramentando a volta do convívio das duas. Culpa e maternidade também acompanham esta última etapa, onde os papeis de mãe e filha vão se alternando. E mesmo tantos anos depois elas parecem manter os mesmos comportamentos: Lenu tentando se firmar e Lila sempre se transformando.

O último volume é o fim de muitas coisas para as duas, e também de descobertas e desilusões para Lenu. Suas dúvidas, fraquezas e complexos a tornam mais próximas do leitor, que acabam admirando Lila junto com ela. 

Querer bem corre paralelo a querer mal, e eu não consigo, não consigo me condensar em torno de nenhuma boa vontade.

Aliás, se Lila muitas vezes parece fazer mal a Lenu, por outro fica claro que a primeira é combustível da segunda mesmo quando esta agora se depara com a velhice no espelho. Se Lila muitas vezes derruba Lenu, ela também a levanta, em uma relação de extremos e segredos.

E a curiosidade sobre um livro que contasse a versão de Lila às vezes parece irresistível. Mas no mesmo momento a ideia parece inaceitável. Ao quebrar sua aura de mistério, que sentimentos vamos ter por ela?

Em geral aqueles momentos de hostilidade eram manifestos, mas às vezes também pressionavam sob uma aparência de disponibilidade e de afeto.

É uma série que ainda quero reler, talvez quando o gosto de saudade aliviar, ou quem sabe quando na cidade das personagens voltar. Apenas sei que Lila seria uma excelente guia para conhecer realmente a cidade de Nápoles.

História da Menina Perdida
Storia della bambina
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Editora Globo – Biblioteca Azul
2014 – 476 páginas


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

História de Quem Foge e de Quem Fica - Série Napolitana



Atenção para quem não leu os dois primeiros volumes: há spoiler.

Sinopse: No terceiro volume da série napolitana, Lenu e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequencia angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Comecei a ler a série napolitana por curiosidade, gostei muito dos dois primeiros livros, mas fui realmente capturada no seu terceiro volume. E como um quebra-cabeça que está perto do final, consegui compreender a maestria de Elena Ferrante em trazer todo o universo feminino sendo representado por duas personagens tão ricas e similares as mulheres de qualquer época.

Elena começa falando do sucesso do seu livro, o primeiro encontro com Nino após a separação dele e de Lila, e a descoberta que seus amores e filhos pipocam sem que ele dê muita importância a eles.

Significava acima de tudo que no outono, ou no máximo no início do próximo ano, nós nos casaríamos e eu deixaria Nápoles.

Com o casamento marcado com um jovem professor de família influente, Elena retorna para casa e é chamada as pressas para cuidar de Lila, momento que vamos descobrir todo o sofrimento que ela passou após abandonar o marido e ser abandonada pelo amante. A beleza perdida em uma fábrica, a inteligência sempre afiada.

Se Elena move mundos e fundos para ajudar Lila, sua recompensa são olhares irônicos, comentários humilhantes e uma tentativa de lhe dar pouca importância por aqueles que já estimou. Nem Lila a defende, apesar de estar sendo salva pela amiga. Enquanto Elena foge determinada do local do seu passado, Lila volta para o bairro para um novo recomeço.

Lila notou como era fácil distinguir entre os rostos dos estudantes e os dos trabalhadores, a desenvoltura dos líderes e o balbucio dos gregários.

E é justamente após este encontro que tudo parece dar errado a Elena. Ao casar com um homem machista, tradicional e fraco perante outros homens, Pietro a trata como um ser inferior, não respeitando nem suas opiniões ou inteligência, subjugando-a como uma mulher de respostas prontas, mas sem conteúdo.

O pano de fundo é uma Itália em rebuliço, fascistas, terroristas, protesto de universitários e operários, e a Camorra ganhando força na cidade de Nápoles. Uma hora ou outra todos se vendem, todos tem o seu preço. E a morte não poupa lado.

E para quebrar minha cara você foi pedir autorização a meu marido?

Outro tema muito bem abordado é a maternidade, se no segundo livro temos uma Lila que tenta estimular o filho ao máximo, agora temos uma Elena que tenta administrar a culpa, vê toda a sua vida mudar, dando a visão mais realista de ser mãe. 

Há também o início do uso de tecnologias, que geram empregos com maiores rendimentos, e os movimentos feministas, que começam a questionar relacionamentos e empoderamento muito antes da palavra virar moda.

E por uns segundos tive a impressão de que Lila não me reconhecesse, mas visse diante de si um espírito que se aproveitava de sua fraqueza.

E para fechar um final que te faz ficar com vontade de iniciar o quarto volume quase que imediatamente, que pode provocar diferentes sentimentos nos leitores. A dúvida entre o despertar e a loucura persiste em minha mente. Assim como o medo de que não haverá final feliz para nenhuma das duas. De onde elas vêm, por mais que se afastem de tudo e de todos, isto não parece possível.

História de Quem Foge e de Quem Fica
Storia di chi fugge e di chi resta
Série Napolitana
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Biblioteca Azul – Editora Globo
2013 – 415 páginas

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

História do novo sobrenome



Atenção: Esta resenha possuí spoiller, pois é difícil escrever sobre uma continuação sem citar algo do livro anterior, neste caso A Amiga Genial.

Sinopse: Neste segundo romance da chamada série napolitana, veremos suas duas protagonistas, Lila e Elena, crescerem, e com elas todas as dores e as delícias de sua juventude em meio a um mundo repleto de caminhos que se abrem enquanto portas se fecham - se a sabedoria, o crescimento e o amor são possibilidades, eles ocorrem em um cenário limitado por uma disposição social por vezes cruel. Neste maravilhoso romance de formação de duas meninas, certamente o leitor vai se surpreender ainda mais com as possibilidades do universo de Elena Ferrante - esse mundo árido, tenso, delicado, profundo e, sobretudo, humano.

O que Marcello Solara estava fazendo com os sapatos desenhados por Lila? A cena final do primeiro livro é a charada respondida no segundo: nada é como parece ser. No final da adolescência tudo muda conforme as nossas escolhas, e no caso de Lila e Elena, conforme os caminhos escolhidos mesmo em uma época onde as mulheres não possuíam tanto direito assim de ditar o seu.
Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei.
Lila se vende, literalmente, em um primeiro momento ao conforto e ao dinheiro. Seu castelo se revela de vidro ainda na festa de casamento, quando Stefano se mostra mais parecido com o pai do que se imaginava. A Sra. Carracci não é fácil, e nela temos a face mais fria de Lila. Sim, ela é inteligente. Sim, ela é manipuladora. Sim, ela usa a sua beleza. Mas também sofre pela falta de oportunidade de estudar, por tanto potencial não aproveitado. E assim ela agrada e humilha Elena, tentando mostrar toda a sua superioridade quando na verdade provavelmente ela trocaria tudo para estar no lugar da sua amiga. 

Esforçada e inteligente, com uma autoestima que precisa ser trabalhada com urgência, Elena supera as suas próprias expectativas, e mesmo quando incorpora Lila para espantar os seus medos, fica nítido que ela tem coragem para muito mais do que ela mesma imagina. Seu sentimento de inferioridade ainda lhe prejudica, lhe cega, e para acabar com isso só se afastando de todos. Aquele bairro, aquela família, aqueles amigos não são para ela. Eles a sufocam. Eles são sabem como lidar com ela. Ao mesmo tempo, ela é a esperança de uma presença feminina que não deixe que outro sobrenome assine suas conquistas.
Durante todo o tempo, mesmo quando falou da própria violência, valeu-se de um dialeto cheio de sentimentos, sem defesas, como o de certas canções.
As amigas se tornam contrapontos. Lila é a esposa que apanha, grita, controla e se submete. Elena é a estudiosa, cujo esforço vai abrindo mais portas do que o previsto. E o empurrão final para isto ocorre nas férias de verão, em que Lila paga para Elena lhe acompanhar, e esta sem imaginar o que aconteceria sugere a praia onde sabe que irá encontrar a presença de seu antigo amor: Nino. E estes dia de sol irão mexer com o que eles tem de melhor e pior.

Em paralelo, mas com menor ênfase, estão a ida de Enzo e Antônio para a guerra. Entre as meninas traições, fofocas e intrigas rolam soltas em um retrato claro da falta de unidade feminina para se defender dos desmandos machistas que se tornaram padrão dentro do seu meio. E o mais assustador, o fato da personagem Melina se tornar um espelho de algumas das mais novas quando estas descobrem a paixão.
Não sentia vergonha dela, jurei, mas escondi que temia me envergonhar.
O fato é que cada um entrará na vida adulta colhendo o resultado de suas escolhas anteriores. E na escrita fluída de Elena Ferrante é isto que faz desejar ler o terceiro volume da série.

Sobre a narrativa, no primeiro livro senti falta da versão da Lila para os fatos. Ela é uma personagem riquíssima, que desperta sentimentos conflitantes para quem convive com ela na ficção e para quem acompanha através da leitura. No segundo livro a autora usa um recurso para aliviar um pequeno percentual desta curiosidade, embora ainda insuficiente para mim.

História do Novo Sobrenome
Série Napolitana – Segundo Volume
Storia del nuovo cognome
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Biblioteca Azul – Editora Globo
2011 – 471 páginas


Outros livros de Elena Ferrante resenhados no Blog:
A vida mentirosa dos adultos
Amiga Genial
História de Quem foge e de Quem fica
História da Menina Perdida

Dias de Abandono


terça-feira, 24 de julho de 2018

A Amiga Genial



Primeiro volume de quatro da série napolitana, A Amiga Genial me apresentou a Elena Ferrante, que por si só possui uma história a parte, visto que é o pseudônimo de uma escritora italiana que nunca se mostrou e fez gerar várias teorias de quem é a autora misteriosa.

Voltando ao livro, logo nas páginas iniciais ele ganha um subtítulo: infância, adolescência. Há também uma lista dos personagens, que pode auxiliar quem costuma se perder entre tantos nomes. E finalmente é hora de entrar na vida de Raffaella Cerullo e Elena Greco, ou simplesmente Lila e Lenu.

Sem preâmbulos o livro começa com uma Elena adulta atendendo a uma ligação do filho de Lila, para saber se a amiga tinha conhecimento do paradeiro da mãe que havia desaparecido. Isto irrita Elena, que trás a tona todo um histórico de competição e resolve escrever a história das duas.

Narrado em primeira pessoa, a voz de Elena faz o leitor retornar no tempo, para o dia em que as duas se aproximaram. Em uma leitura que começa devagar e aos poucos acelera, lembrando exatamente a passagem da infância para adolescência, onde na primeira parecêssemos ter todo o tempo do mundo e na segunda à urgência de tudo para ontem.

Nas páginas estão o machismo e a violência, perfis de moradores e alunos, relações familiares, pobreza, e acima de tudo uma amizade entre duas meninas. Lila é inteligente ao natural, corajosa, ávida por livros, tem dom para escrever, e sofre fisicamente as consequências de desafiar e responder quando acredita que o outro lado está errado. Lenu é esforçada, cheia de dúvidas e complexos, vive entre competir com Lila e ser levada por sua mão a enfrentar situações que sozinha nunca encararia.

Uma é o combustível da outra, e não sendo elas são as melhores amigas uma da outra. Não sendo por não haver intimidade total, a inveja está nas duas por oportunidades que pipocam em um momento para uma e em outro para a outra. Não parece haver felicidade sincera em relação ao que elas consideram conquistas. Existem escolhas, existem conselhos, até elas começarem a amadurecer, assim como a sua amizade.

Dos bancos escolares, passando pelos primeiros amores e espinhas, o sonho de ser rica e uma visão além do próprio bairro, A Amiga Genial encanta pela sinceridade e simplicidade. Ao mesmo tempo em que pode trazer na memória as nossas lembranças de infância, aquela amiga genial que por n motivos se perdeu contato.

Completando temos o cenário de uma Nápoles nos anos 1950 que ainda não superou totalmente as consequências da última guerra mundial, onde em meio à pobreza os camorristas são respeitados e a agressão é gratuita.

Enfim, um livro que eu gostei tanto que já comprei os três volumes faltantes.

A Amiga Genial
Infância, Adolescência
Elena Ferrante
Primeiro Romance Série Napolitana
Editora Globo – Biblioteca Azul
Tradução Maurício Santana Dias
2011 – 331 páginas

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