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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os armários vazios


Sinopse: A sensação de isolamento é a única companhia da protagonista enquanto ela atravessa a experiência de um aborto no seu dormitório universitário. E é a presença desse sentimento que a conduz às memórias da infância, do processo solitário de se diferenciar dos pais, vizinhos e frequentadores do café-mercearia da família, onde ela já não cabia mais. 

No mês de julho/2026 a TAG Curadoria completou mais um ano de vida, e coube a aniversariante escolher o livro a ser enviado, no caso a primeira obra da escritora francesa Annie Ernaux intitulada Os armários vazios. O mimo foi outro livro: Cartas a um jovem poeta.

Denise Lesur tem vinte anos e é a primeira pessoa de sua família a chegar ao ensino superior. Filha de donos de um pequeno café-mercearia, ela cresce em um ambiente cujo olhar infantil não permite enxergar a pobreza de uma casa que nem banheiro próprio tem.

Mas isso muda quando ela é matriculada em uma escola particular. Se para muitos a educação representa uma possibilidade de transformação de sua vida, aqui ao se deparar com a realidade burguesa acaba também provocando um afastamento progressivo de suas origens. 

Rádio esportiva na cozinha, passa um avião no céu, depois de se lavar minha mãe joga a água fora.


Aquilo que antes fazia parte de seu cotidiano passa a despertar vergonha e repulsa, enquanto a jovem tenta encontrar seu lugar em um mundo no qual nem sempre se sente pertencente.

A narrativa começa em um momento de sofrimento físico e emocional, quando Denise aguarda as consequências de um aborto clandestino. A partir daí, suas lembranças conduzem o leitor pela infância, pela adolescência e pelas experiências que marcaram sua formação, revelando conflitos relacionados à família, à sexualidade, à condição feminina e às diferenças sociais.

Quando foi que comecei a ter um pavor insano de parecer com eles, meus pais... Não foi de um dia para o outro, não foi um corte grande... Os olhos abrindo... as besteiras.


Publicado originalmente em 1974, Os armários vazios foi o primeiro romance de Annie Ernaux e já apresenta questões que retornariam mais tarde em sua produção literária, sendo muito relacionado ao livro O acontecimento da autora.


A escrita de Annie Ernaux

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na Normandia, França. Filha de comerciantes de origem popular, estudou Letras e construiu uma obra marcada pela investigação das relações entre memória, experiência individual e contexto social.

Ao longo de sua trajetória, a autora abordou temas como as diferenças de classe, as relações familiares, a sexualidade, a condição feminina e as transformações sociais. Sua escrita frequentemente parte de experiências pessoais para explorar questões que ultrapassam a história individual, aproximando literatura, memória e sociologia.

E então todas aquelas críticas, aquele escárnio, não, as coisas do meu mundo não tinham valor na escola.


Em 2022, a escritora Annie Ernaux recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, com reconhecimento à maneira como aborda as raízes, os estranhamentos e as repressões coletivas presentes na memória pessoal. Entre suas obras mais conhecidas estão O lugar, Uma mulher, Os anos e O acontecimento.

Em Os armários vazios a autora já aborda esse conjunto de questões com uma diferença: ela não narra como uma experiência pessoal, mas utiliza a personagem Denise Lesur em uma narrativa em primeira pessoa, sem utilizar capítulos, simulando o fluxo contínuo na mente de uma pessoa que não sabe se irá sobreviver as próprias ações.

Os livros, por sua vez, não me criticam por nada, a vida clara e transparente das minhas heroínas não me faz lembrar dos torrones que roubei na loja perfumada, das saias que levantei na frente do espelho, das zombarias que lancei a qualquer velho bêbado.


Possibilitando ao leitor acompanhar os pensamentos e as lembranças da personagem, que se sucedem em um fluxo que acompanha a agitação da protagonista, misturando acontecimentos, sensações, julgamentos e recordações sem a preocupação de organizar tudo de maneira linear.

A autora também utiliza o recurso das repetições para mostrar a mudança no olhar da personagem em relação ao mundo que lhe cerca. Além disso, como são memórias de uma jovem mulher de 20 anos, acabam também compartilhando as lembranças que permanecem presentes e como o significado atribuído a elas podem se transformar com o tempo.

Não falava disso para ninguém, mas na escola, ao passear na frente das lojas no centro, ao ler, eu tinha aprendido a fazer comparações. Existiam as pessoas bacanas e os outros. 


O cotidiano ocupa um lugar importante na construção da história. Os produtos vendidos no estabelecimento da família, as roupas, os cheiros, os hábitos dos clientes e as conversas aparentemente banais ajudam a compor o ambiente em que Denise cresceu. Esses elementos também revelam as diferenças entre o mundo de sua infância e aquele ao qual ela tenta pertencer.

É uma escrita que não procura suavizar os sentimentos da protagonista. A raiva, a vergonha, o desejo e o ressentimento aparecem de maneira direta, fazendo com que o leitor acompanhe seus conflitos mesmo quando suas atitudes provocam desconforto ou incompreensão.


O que achei de Os armários vazios

Os armários vazios é o tipo de livro que você termina e pode sentir vários sentimentos contraditórios em relação a escrita e a sua protagonista.

Começando pelo fato que Denise é uma personagem complexa e o seu fluxo de pensamento inicia durante um aborto clandestino. Um golpe duro para alguém que tem em sua personalidade traços como a arrogância e um sentimento de superioridade desde a infância, algo que me parece ter sido espelhado do comportamento da própria mãe em relação aos seus clientes. 

Achei muito interessante o uso do recurso da repetição para acompanhar a mudança no olhar da Denise. Quando pequena ela enxerga uma grande fartura em meio a pobreza, como se ao ter um pouco mais em relação aos que estão a sua volta gerasse um grande abismo. 

E o tio peculiar, sei muito bem o que isso significa, engraçado, mas não maluco, adequado, espirituoso, mas não pinguço que nem os meus, um tio peculiar só existe no mundo bacana.


Mas ao ser enviada para uma escola particular, a educação, os colegas pertencentes a uma classe média e os livros a levam para uma realidade muito diferente. E aqui temos a quebra da ilusão, a humilhação por diferença sociais, e todo o efeito psicológico de descobrir que não, ela não era a bolacha mais recheada do pacote.

E assim temos a vergonha, o julgamento e um círculo vicioso que a leva até o presente, quando tudo o que foi investido para ela se confirmar superior as suas origens é ameaçada por uma gravidez indesejada.

Gravidez que tem a sua origem em uma sexualidade precoce também derivada do próprio meio. E talvez o ponto que gere a maior interrogação, já que ela se deixa levar fácil pelos rapazes, como se com eles ela despisse não só as roupas, mas também toda a imagem interna que ela parece ter construído de si. 

Histórias que me espreitam, exibem meu possível futuro: casada com um canalha, gorda, cercada de moleques com bunda pra limpar.


O que me fez enxergar uma certa ironia neste ciclo da personagem: Denise é o orgulho dos pais, que fazem sacrifícios para lhe proporcionar oportunidades que eles próprios não tiveram. Entretanto, quando se vê diante de uma gravidez indesejada, ela parece reconhecer em si mesma algo que associa às jovens de seu antigo meio social, como se sua trajetória de ascensão estivesse ameaçada por aquilo que tanto desejava deixar para trás.

Confesso que não consegui sentir simpatia por Denise. Em alguns momentos, senti falta de elementos que me ajudassem a compreender melhor a relação com os pais e que justificassem a intensidade de seu desprezo por eles, o que me fez pensar se era só a pobreza ou se existem fatos que não foram revelados. Assim como suas relações amorosas, em que ela se deixar ludibriar facilmente por qualquer um, conferindo aos seus pares uma superioridade que na prática não existe.

Mas isso não significa que eu não tenha sentido empatia. Denise é jovem e está atravessando uma experiência difícil em uma época na qual as possibilidades de escolha das mulheres eram bastante limitadas, o que era ainda mais acentuado pelo contexto da pobreza. 

Um calor estranho se espalha imediatamente, como uma flor, em alguma parte baixa da barriga. Meio roxa, podre.


Algo que cá entre nós ainda ocorre entre os países considerados não desenvolvidos, como o nosso, onde uma gravidez indesejada afeta e muito a vida de uma mulher, e quando ela vive em uma situação adversa, a dificuldade é triplicada.

Não achei a leitura difícil, mas o recurso da repetição ficou, pra mim, em uma linha tênue entre o interessante para ver a mudança de olhar e o tedioso, pois o nível de detalhes em certo ponto começou a me cansar. 

O que eu gostei, e isso ocorre justamente por ser inspirado na própria vida da autora, é que a narrativa não tenta resolver as contradições da protagonista ou de oferecer respostas definitivas sobre suas escolhas. Mas sim um retorno intenso às lembranças, como se revisitar o passado fosse uma maneira de atravessar o sofrimento do presente e de dar algum sentido à própria trajetória.

Ficando a dica para quem gostam de livros com muita realidade, de narrativas que inspiram outros autores e claro, para quem gostou de O desabamento do também francês Édouard Louis, e claro para quem não pode ver um conjunto de letras que já quer sair lendo.


Os armários vazios
Les Armoires vides
Annie Ernaux
Tradução: Mariana Delfini
TAG - Fósforo
2026 - 142 páginas
Publicado originalmente em 1974


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sinopse de amor e guerra


Sinopse: Theobald e Bluma estão fadados a ficar juntos desde que vieram ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito. Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro — o mais famoso da História —, adiando a promessa do primeiro beijo. Este romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no destino individual de dois amantes uma pergunta universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

No mês de junho/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Sinopse de Amor e Guerra do escritor português Afonso Cruz. A indicação foi da criadora do projeto "Vá Ler um Livro" Tatiany Leite. E o mimo foram imãs de geladeira no tema cinema brasileiro.

As famílias de Theobald Thomas e Bluma Baumann são amigas, fazendo com que os dois cresçam juntos. Temporariamente separados na adolescência pela diferença de idade — Bluma é mais velha e acaba despertando mais cedo a curiosidade por assuntos que vão além das brincadeiras da infância —, eles se reencontram na livraria do tio de Theobald. É ali que a amizade de infância começa, lentamente, a se transformar em amor.

A normalidade é de papel e estraga-se quando se manuseia, rasga-se, desfaz-se.


Um amor construído através dos livros, das histórias e dos poemas que Theobald decora para impressionar a moça que acredita, profundamente, estar destinada a ele. Quando o afeto finalmente é correspondido, Bluma passa a ocupar um lugar ainda mais importante na vida de Theobald, e os dois começam a construir uma relação em que literatura e sentimento caminham lado a lado.

Uma história que teria tudo para ser um bonito romance, quase uma comédia romântica, se não fosse por um pequeno detalhe: eles vivem na Alemanha do pós-guerra. Mais precisamente em Berlim, uma cidade que se viu dividida de um dia para o outro, em pleno verão de 1961.

Quem ama encontra o amado em tudo, um ser infinito que se revela em todos os pormenores, uma visão profana do trabalho ascético, do místico ou do santo.


Famílias, amigos e amores que até então faziam parte da mesma cidade passam a não poder mais se encontrar. Uma barreira física, criada por uma divisão política, passa a produzir consequências pessoais e profundas na vida daqueles que ficaram separados por ela — e, para alguns, a distância imposta pelo muro faz surgir a necessidade de buscar medidas cada vez mais extremas para voltar a estar perto de quem amam.

Inspirado em uma história real, Sinopse de amor e guerra integra a coleção Geografias, sendo o segundo romance de Afonso Cruz publicado nessa coleção, depois de Princípio de Karenina, que se passa no Vietnã.

Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca...


Mais do que relembrar o impacto que as divisões políticas podem causar na vida de pessoas comuns, o romance transforma a história de Theobald e Bluma em uma reflexão sobre espera, liberdade, limites e sobre até onde alguém estaria disposto a ir para viver um amor.


A escrita de Afonso Cruz

O português Afonso é um artista multidisciplinar: escritor, ilustrador, músico e cineasta, tendo trabalhado durante mais de uma década com cinema de animação. Também é integrante da banda The Soaked Lamb e, entre suas muitas atividades, produz a própria cerveja artesanal. 

Iniciou a sua carreira literária no final dos anos 2000, e desde então tem apresentado uma obra bastante diversificada, que passa por romances, contos, ensaios, teatro, literatura infantil e juvenil, livros ilustrados e até uma curiosa “enciclopédia” de história universal inteiramente inventada. 

Poderiam o ódio, a guerra, o rancor, a desumanidade surgir de um amor imenso?


Seus livros já foram publicados em mais de vinte idiomas e receberam diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka já resenhado aqui no blog e primeiro livro que eu li do autor.

Esse perfil diversificado está em suas obras, na maneira como constrói imagens, associa ideias e trabalha o ritmo das narrativas. Em uma entrevista, o próprio autor afirmou que não vê suas diferentes atividades artísticas como áreas hierarquizadas, mas como formas distintas de criação.

O fruto proibido não nos foi mostrado para que não o comêssemos, foi-nos mostrado para que transgredíssemos.


Em Sinopse de amor e guerra, essa característica aparece em uma narrativa aparentemente simples, mas construída sobre diferentes camadas. A história de Theobald e Bluma é atravessada pela literatura, pela memória e pela História, enquanto Afonso Cruz transforma o Muro de Berlim em algo que ultrapassa sua existência física. 

Com uma escrita delicada, reflexiva e muitas vezes carregada de imagens e associações, o autor conduz uma história de amor que também fala sobre separação, liberdade, escolhas e as marcas deixadas pelo tempo.


O que eu achei de Sinopse de amor e guerra

Um livro curto, de escrita fluida e envolvente, que torna a leitura fácil e rápida, mas nem por isso pouco reflexiva.

Existe a doçura do primeiro amor, o encantamento pelo sentimento correspondido, a dor da separação por motivos que parecem absurdos, parecendo mais uma ficção do que realidade. E existe também a juventude, que exige recomeços para um coração que ainda não foi desocupado.

E então Theobald nos questiona, sem frescuras ou indiretas: qual é o limite do amor? O que podemos fazer por aqueles que amamos? Foi nesse momento que me veio à cabeça uma música do Bryan Adams, [Everything I Do] I Do It for You.

O ser excepcional não passa de uma pessoa normal que, em certas circunstâncias, se porta de maneira esquisita.


Como leitora, porém, fui além do amor romântico e comecei a pensar na situação que realmente aconteceu com tantas famílias. O que fazer quando já não podemos mais ver alguém que amamos? Como lidar com as incertezas de que a vida de quem ficou do outro lado do muro pode ser pior do que a nossa?

Não é à toa que tantas pessoas se arriscaram em tentativas de fuga da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental, cavando túneis, atravessando o rio Spree a nado ou encontrando outras formas extremamente arriscadas de ultrapassar a barreira. São histórias que parecem verdadeiros pesadelos, mas que aconteceram de fato e chegaram ao conhecimento de Afonso Cruz por diferentes relatos.

E, curiosamente, foi uma história contada pelo próprio pai do escritor — sobre um casal separado pelo muro — que inspirou Sinopse de amor e guerra.

Há uma melodia estranha no retrato, vestígios de uma canção que se imiscuem na imagem e a impregnam.


Um livro que instiga o leitor ao trazer os conflitos provocados por muros que podem ser tanto físicos quanto psicológicos, principalmente quando quem entra na narrativa consegue sair do papel de juiz para vestir a pele dos personagens e tentar enxergar o mundo a partir das circunstâncias em que eles estão inseridos.

Além disso, Sinopse de amor e guerra possui bons personagens secundários, como o tio de Theobald, dono da livraria e uma presença importante ao longo das diferentes fases da vida do sobrinho.

Os pais olham para os filhos e dizem: deu um salto. Quer isto dizer que sentimos que, num período curto, houve uma progressão unusitada.


Um livro sensível e complexo, que nos desafia a pensar até onde iríamos por amor — e o que estaríamos dispostos a fazer quando uma barreira criada por outros decide o destino das nossas vidas.

Ficando aqui a minha recomendação de leitura, para quem gosta de ficção com base histórica, para quem quer uma história de amor diferente ou simplesmente por quem é apaixonado por livros.


Sinopse de amor e guerra
Afonso Cruz
TAG - Dublinense
2026 - 160 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O voo da guará vermelha



Sinopse: Rosálio, pedreiro e analfabeto, atravessa o país em busca de alguém que o ajude a ler e escrever. Irene, prostituta e soropositiva, conhece as letras precariamente, mas o bastante para ensiná-las. Do encontro desses dois personagens nascem as histórias que Rosálio não cansa de contar, e que Irene esperou tanto tempo para ouvir. O encanto da fala de Rosálio torna mais amena a luta de Irene contra a doença e transforma em realidade o desejo do pedreiro de ganhar a vida como contador de histórias. Com delicadeza e inteligência, Maria Valéria Rezende narra a trajetória desses dois personagens que, marcados por um passado difícil, descobrem o amor, a cumplicidade e a possibilidade de horizontes mais amplos.

No mês de maio/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do editor do Círculo do Livro Fernando Nunes o livro O Voo da guará vermelha da escritora brasileira Maria Valéria Rezende. O mimo foi um maravilhoso alfajor da Odara.

Rosálio foi criado em uma pequena comunidade e era chamado de ninguém, até sair pelo mundo e escolher o seu próprio nome inspirado em uma professora que admirava de longe. Em sua busca constante para deixar de ser analfabeto, ele carrega livros que deseja ler e acumula histórias.

Andando de cidade em cidade um dia é confundido como um possível cliente por uma cansada Irene, mulher que sabe ler e escrever e tem como profissão uma das mais antigas do mundo. Em estágio avançado pela AIDS, sua confusão é facilmente explicada pela baixa constante na procura por seus serviços, já que a doença suga cada dia mais a sua aparência, tornando-a pouco atraente aos olhos dos homens que frequentam o local.

Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula sem cabeça?


O encontro dos dois transforma Rosálio em uma espécie de Xerazade, onde ele retorna ao quarto de Irene sempre que o trabalho permite para contar o que viu e viveu ao longo dos anos. E ela transcreve para um caderno cada uma das histórias contadas, tornando-as fontes de aprendizado para o homem que as conta e de motivação para viver um dia a mais para a mulher antes tão desesperançosa.

Convidando a todos que o ouvem e os que leem a narrativa a ficar mais um pouco para saber qual será a próxima história.


A escrita de Maria Valéria Rezende

A educadora e freira paulistana Maria Valéria Resende estreou como escritora após os 60 anos e já ganhou prêmios como o Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas. Sendo também uma das criadoras do Mulherio das Letras, um coletivo feminista.

Sua escrita reflete muito de sua vivência em meio as comunidades no Nordeste, direta, leve e fluída, lembrando a forma oral de se contar histórias. Também costuma utilizar personagens de perfil simples, descrevendo suas lutas e criticando a desigualdade.

Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela, estou tão magra!, é da doença...


Em O voo da guara vermelha irá se encontrar estes elementos em uma estrutura semelhante a encontrada na literatura de cordel, com suas frases longas e uma cadência que lembra as poesias populares. E seus heróis são um analfabeto que sonha ler e contas suas histórias pelo mundo e uma prostituta que vive um dia de cada vez.

E como heróis são feitos de transformação, resistência e resiliência, é a comparação feita por Rosálio de uma ave que nasce cinzenta e vai se tornando vermelha com Irene em seu vestido vermelho que dá nome ao livro.


O que eu achei do Voo da guará vermelha

Logo no início da leitura a primeira coisa que me veio à cabeça foi o livro mil e uma noites. Mas diferente de Xerazade, a maioria das histórias tinham início, meio e fim no mesmo capítulo. Dando a impressão que poderia facilmente ser um livro de contos, se tirasse o casal base.

E como o foco são as histórias de Rosálio, eu achei que a vida de Irene ficou com algumas pontas soltas. Sim, eu sei que nem toda a narrativa precisa ter tudo explicadinho. Mas visto que ela introduziu o nome do livro que serviu de inspiração entre os que o personagem carregava, acredito que falar mais sobre a criança (filho?) de Irene poderia ter complementado a vida da mesma, que é colocada de uma forma mais superficial.

Conta, homem, conta mais, é cedo para ir-se embora, nem o dia clareou, enquanto durar a noite conta, conta para eu sonhar.


Aliás, ouso dizer que o verdadeiro personagem principal aqui é a educação. O saber ler e escrever como forma de ser visto, não ser enganado, conseguir fazer escolhas em plena consciência. É a educação que une uma alma quebrada a uma alma que parece sempre esperançosa. Livros são tesouros e memórias podem ser eternizadas no papel.

Em relação aos contos de Rosálio, há as mais diversas situações que podem lembrar as fofocas de qualquer cidade pequena ou de condomínios que igualam os números do interior pela quantidade de moradores. Inicialmente ele conta a própria história e da pequena comunidade que morava, depois, surgem as histórias das suas andanças. Há os homens que enganam os outros para torna-los escravos, a febre do ouro no garimpo, o marido traído e eternamente apaixonado que aceita as idas e vindas da esposa, a vivência em uma terra onde a bala corria solta, entre outras.

Nasci sem nome, como a serra que me aguardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse.


O livro no geral é curto, fácil de ler, e a história é bonitinha e sensível, e apesar de conter pautas dolorosas, incrivelmente leve. Eu gostei, mas não amei. Passados dois meses da leitura (sim, estou com as resenhas bem atrasadas) a narrativa já não ecoa fortemente na minha mente, talvez por que no meu gosto como leitora, os personagens principais, aqui mais a Irene, precisariam ser mais trabalhados para ganharem o meu coração.

Mas, como no nosso encontro mensal para discutir os livros da TAG o livro ganhou o coração da grande maioria, fica a recomendação para você "ouvir" as histórias de Rosálio e quem sabe se emocionar com todas elas.


O voo da guará vermelha
Maria Valéria Rezende
TAG - Alfaguara
2026 - 165 páginas
Publicado originalmente em 2005


sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.



Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.



No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 



No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 


Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.



No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016