sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


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