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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As montanhas cantam


Sinopse: As montanhas cantam é centrada na família Trần. Tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã, a narrativa é marcada pelos acontecimentos que atravessaram o núcleo familiar - desde a avó Diêu Lan, até a neta Huong. É um romance vívido que escancara os custos humanos da guerra, do ponto de vista do próprio povo vietnamita. Ao mesmo tempo, o livro nos mostra o poder e os efeitos da esperança.



Nos anos de 1970 a jovem Hương se vê sozinha com avó na cidade de Hanói tentando sobreviver ao medo dos bombardeios e de perder seus pais e tios que estão entre os combatentes da Guerra do Vietnã.

A luta cotidiana para comer, trabalhar e estudar desperta as memórias da avó da garota, Diêu Lan, que durante os anos de 1940 e 1950 viu a sua família ascender com trabalho árduo e respeito como proprietários de terra para depois entrarem em um verdadeiro inferno de escolhas durante a reforma agrária do país.

Minha avó costumava me dizer que, quando nossos ancestrais morrem, eles não desaparecem simplesmente, mas continuam cuidando de nós.


Os dois acontecimentos acabam se fundindo, trazendo à tona feridas nunca cicatrizadas, diferenças de opinião e escolhas de caminho que não possuem volta. 

Medo, amor, coragem, vergonha se entrelaçam em uma família que luta para ver o sol a cada dia e mostram o antes, durante e o depois de um evento tão traumático chamado guerra.


A escrita de Nguyễn Phan QuếMai

Nascida em uma pequena vila no Delta do Rio Mekong no Vietnã, Nguyễn Phan QuếMai é também poeta e tradutora. Para escrever o seu primeiro romance As Montanhas Cantam, optou pelo idioma inglês para contar uma mistura de ficção e fatos inspirados em suas próprias experiências durante a infância.

Reconhecida como embaixadora cultural, ela compartilha com o ocidente de forma bastante emocional os acontecimentos históricos de seu país. Seja usando metáforas, seja através de provérbios populares e o próprio vocabulário, onde ela opta em utilizar a escrita original para os nomes, apesar do texto em inglês.

Um ruído trovejante se aproxima. Explosões ecoam de longe. Agarro-me aos ombros de vovó com mãos suadas, enterrando o rosto em seu corpo.


Ela também se utiliza de diferença geracional para dar duas visões de resiliência em tempos difíceis, e da compaixão para narrar uma história sem mocinhos ou vilões, mas de uma família que segue se levantando a cada queda, que busca sobreviver em meio a perdas, traumas e todos os desafios que se apresentam ao longo da jornada.

Uma curiosidade é que a autora optou por publicar em inglês para minimizar o risco de mudanças no seu texto durante as traduções. Tentando preservar toda a cultura e impacto emocional que a obra apresenta o máximo possível.


O que eu achei de As montanhas cantam

A combinação de governo que divide a sua população colocando uns contra os outros com uma guerra envolvendo exércitos estrangeiros pode ser a fórmula perfeita para destruir famílias que querem apenas trabalhar, correr atrás dos seus sonhos e educar os seus filhos.

No caso dos personagens de As montanhas cantam, eles surpreendem por conseguirem manter a resiliência em buscar uma saída após secar cada lágrima. Principalmente a avó, uma mulher muito inteligente e forte, que não perde a humanidade mesmo quando é vítima de injustiças.

Você sabia que naquela época os dentes pretos eram considerados essenciais para as mulheres? Aquelas com dentes brancos eram consideradas indecentes.


Eu achei o livro sensível e dolorido. Foi impossível para mim não ficar pensando naquela mãe que precisa distribuir os seus filhos em casas estranhas para que não fossem mortos por causa de mentiras. Assim como na menina que espera pacientemente a recuperação de uma mãe ferida na alma e por um pai que nunca retorna. 

O coração também apertou, seja pelas mortes injustas, seja pela alma que se sente suja, seja pelo primeiro amor que nasce em meio a muitos contrastes, assim como pelo perdão após toda a maldade.

Ao nosso redor, homens, mulheres e crianças, com roupas rasgadas e rostos fantasmagóricos faziam a mesma coisa, enchendo o olho do inferno com os escombros de suas casas. 


Tudo com uma escrita fluída e envolvente, que ao mesmo tempo que te torna um membro invisível acompanhando a família, compartilha de forma natural a cultura vietnamita. Além disso, Hương é uma narradora que consegue colocar delicadeza em meio a toda dor, tanto nas histórias passadas de sua avó, quanto no seu presente, mostrando que mesmo após tantas tragédias, é preciso coragem para não desistir.

Além é claro da parte histórica, que aborda tanto a divisão do Vietnã como o lado dos vietnamitas em uma guerra que durou em torno de vinte anos, tendo oito anos mais violentos. Lembrando-me mais uma vez que nenhuma disputa armada vale o sofrimento de pessoas inocentes.

Esperávamos que a guerra acabasse, mas ela continuou. Se vovó estava triste e com medo, nunca me deixou ver isso de novo.


Ficando a dica para quem gosta de histórias com fatos históricos, narrativas familiares, romances que nos lembram do inesperado, quem busca autores de outros países, e claro, quem gosta de ler.


As montanhas cantam
The mountains sing
Nguyễn Phan QuếMai
Tradução: Felipe Ficher e Petê Rissatti
TAG
335 páginas 2023
Pulicado originalmente em 2020

terça-feira, 2 de maio de 2023

Escritores & Amantes



Sinopse: Casey Peabody chega a Massachusetts surpreendida pela morte repentina da mãe e abalada por um caso de amor recente. Sua correspondência consiste em convites de casamento e avisos finais de cobrança. Ex-prodígio do golfe, ela agora serve mesas em um restaurante e aluga um quarto minúsculo e mofado ao lado de uma garagem, onde trabalha no romance que escreve há seis anos. Quando se apaixona por dois homens muito diferentes, seu mundo se parte ainda mais. Escrito com humor, sensibilidade e inteligência, marcas registradas de King, Escritores & Amantes é um romance magnífico que explora o salto assustador e emocionante entre o fim de uma fase da vida e o início de outra.

Como não renovei a minha assinatura da TAG Inéditos, pois sim, como quase todo ser mortal tenho uma pilha de livros para colocar em dia, meu último exemplar recebido foi o de Agosto/2022. A ficção Escritores & Amantes é da escritora norte-americana Lily King e teve como mimo um conjunto de porta copos magnético.

Na cidade de Boston, final da década de 1990, A aspirante a escritora e protagonista da história Casey Peabody parece estar à deriva apenas esperando chegar ao outro lado, ao qual ela não tem a mínima ideia do que seja, desde que tenha uma relação com o livro que ela não só deseja, mas como precisa terminar.

Tem muita coisa em que não posso pensar para conseguir escrever pelas manhãs.


Alugando o depósito de um amigo do irmão, ela vive os seus dias entre procrastinar a escrita do seu livro, cujo início começou a seis anos atrás, seu emprego como garçonete em um restaurante bem movimentado, suas dívidas estudantis e seus casos amorosos. Tudo isso somado a perda recente da mãe.

É quando uma sequência de fatos a faz de aproximar de dois homens muito diferentes em idade e classe social, mas com a mesma paixão pela literatura. Ambos também carregam no olhar perdas de pessoas queridas, mas sua abertura para o novo irá depender da personalidade de cada um e de como Casey precisa de moldar para ficar ao lado deles.


A escrita de Lily King

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora Lily King coloca a sua personagem principal Casey Peabody no divã para contar aos leitores o seu cotidiano, os obstáculos que a impedem de progredir na profissão escolhida e nas idas e voltas dos seus casos amorosos. Tudo com detalhes muito fáceis de visualizar cada cena, mas sem ser exagerado a ponto de cansar.

Mas na prática os problemas de Casey e os assuntos abordados na narrativa vão muito mais além, começando pela aceitação a morte da mãe. O impacto do luto recente começa aos poucos, sendo citados entre uma ação e outra, como que para salientar a necessidade de esquecimento temporário que a personagem precisa para seguir em frente. Mas como toda dor, ela é latente e aos poucos vamos descobrindo mais sobre a mulher que foi viajar e não mais voltou.

Era forte, o que quer que houvesse entre nós, denso como ar molhado e o cheiro de todas as coisas verdes prestes a florescer.


Seguindo nos laços familiares, somos surpreendidas pelo pai, um homem que desejava tornar a filha campeã de golfe e agora parece não ter sentimento nenhum por Claire, um relacionamento muito mais marcado pela mágoa do que pelo amor.

A normalidade está com o irmão, que mesmo morando longe consegue ajuda-la, sendo arrumando um aluguel barato no quarto depósito do amigo rico, seja através de conversas.

Na sua vida inteira vai haver homens assim, penso. Parece muito a voz da minha mãe.


E naturalmente toda a dívida estudantil para se formar na área de literatura e agora trabalhar como garçonete. Um lembrete a Claire que a vida adulta começou já faz um tempo, embora muitas vezes ela parece não ter crescido.

Tudo isso tendo como base o amor a escrita, e por isso a autora nos leva para um universo de oficinas, rascunhos de textos, inspirações, organização e claro, toda a busca dentro do caminho editorial para quem deseja publicar um livro.


O que eu achei de Escritores & Amantes

Inicialmente achei o livro chato, com uma vida de desgraça pouca é bobagem, a personagem Claire parecia não ter amadurecido e viver entre o antes e depois dos seus relacionamentos sem futuro.

Mas em determinado momento parece haver uma virada de chave na escrita, e a história passou a ter fluidez para mim, tornando a leitura muito mais envolvente e interessante.

A coisa mais difícil na escrita é imergir todo dia, atravessar a membrana. A segunda coisa mais difícil é emergir.


E foi neste momento que o luto de Casey passou a ser sentido por mim, assim como a sua relação com o manuscrito que precisa ser finalizado, além do nojo ao chef de cozinha que abusa do assédio moral e os dois homens que ela parece orbitar, mas que não fazem o mínimo esforço para participar da sua vida.

Aliás, detestei o viúvo, escritor famoso, pais de dois filhos Oscar, não havia um diálogo sem machismo quando ele está em cena. Já o Silas eu não entendi exatamente para que veio na história.

Naquela semana, vou algumas vezes à biblioteca pública pesquisar sobre Cuba. Toda vez, acabo nas prateleiras de biografias lendo sobre escritores e suas mães mortas.


Motivo pelo qual achei que o título do livro não traduz o seu conteúdo, que está muito mais para as dificuldades de se viver como adulto e assumir todos os seus ônus e bônus, do que para a suavidade que o original propõe. Naturalmente essa é a minha percepção, já que o título junto com a garrafa de vinho me fez pensar em algo mais voltado para uma comédia romântica.

No resumo da ópera eu gostei, e fiquei feliz de não ter abandonado após as cinquenta primeiras páginas, motivo pelo qual recomendo a leitura para quem procura por conflitos familiares, a relação com o luto, os desafios da vida adulta e como sempre, quem simplesmente gosta de ler.


Escritores & Amantes
Writers & Lovers
Lily King
Tradução: Laura Folgueira
TAG - Tordesilhas
2020 - 301 páginas

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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pheby



Sinopse: Pheby Delores Brown é filha de uma mulher escravizada com o dono da fazenda onde vive. A ela é prometido que, ao completar dezoito anos, poderá ir para uma escola e viver a liberdade não reservada à mãe. Mas isso não acontece: enviada para a prisão dos Lapier - também conhecida como Terra do Diabo -, Pheby se torna a companheira do homem que comanda o local, uma posição que lhe dá aparente autoridade, mas também a obriga a se relacionar com o próprio diabo - e isso implica uma série de sacrifícios para proteger a si mesma e aqueles que ela ama.

Recebi em Julho/2022 pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Pheby da autora norte-americana Sadeqa Johnson. O mimo oficial foi o livro Os sofrimentos do jovem Werther, mas como ele foi o mesmo para as duas linhas de assinatura, eu recebi um segundo livro extra chamado Longe das Aldeias.

O ano é 1850. Pheby tem dezesseis anos, vive na plantação dos Bell no estado da Virgínia, é filha de Ruth - escrava da plantação - com o Mestre Jacob. Apaixonada por Essex, a menina foi educada pela tia Sally, irmã de Jacob, que ensinou a menina a ler, escrever e tocar piano.

Mama acreditava que a noite de lua cheia era a noite mais fértil do mês, que tudo o que a lua tocava era um receptáculo do poder de Deus.


Com a morte de outra escrava que trabalhava na casa grande, ela é chamada para substituir o atendimento a Sra. Delphina, esposa do mestre e que está grávida. Mas ao contrário dos outros, ali ela não encontra gentileza, e recebe os primeiros tapas da mulher que guarda muita raiva da filha bastarda do marido. 

Situação que Pheby tenta relevar, pois acredita na promessa do Mestre que ao completar dezoito anos será libertada e enviada para outra cidade para estudar.

Quero ela lá em cima, no Norte, onde a liberdade dela importa alguma coisa.


Mas uma sequência de acontecimentos infelizes ocorre, e invés da liberdade, Pheby é enviada para uma prisão, onde para sobreviver precisa se sujeitar aos caprichos do seu comandante, um homem cruel, ao qual nunca se sabe como irá agir. E para isso, mais do que nunca, ela vai precisar das palavras da mãe, que lhe diziam que ela era escrava no nome, mas não na cabeça, pois não era mercadoria de ninguém.


A escrita de Sadeqa Johnson

A autora norte-americana Sadeqa Johnson utiliza a narrativa em primeira pessoa para dar voz a Pheby e assim acompanhar não só os percalços da personagem, como conhecer o funcionamento do sistema escravocrata na parte sul dos Estados Unidos, a liberdade que se encontrava na parte norte e naturalmente os acontecimentos históricos.

Um fato muito interessante do livro é que apesar de ser uma ficção, a inspiração veio de personagens reais. Ao percorrer a Trilha dos Escravos de Richmond a escritora tomou conhecimento da história da cadeia dos Lumpkin, que pertencia a Robert Lumpkin, um homem conhecido como o Mercador Maligno, que foi casado com uma ex-escrava chamada Mary.

Os brancos sempre querem que a gente se deite com eles e depois deixam os problemas pros outros resolverem.


E o prisioneiro chave desta história, ao qual eu não vou revelar o nome para não estragar a sua leitura, foi inspirado em Anthony Burns, o encarcerado mais famoso da prisão dos Lumpkin.

Ao imaginar como teria sido a vida destas pessoas em um lugar tão inóspito, surgiu Pheby, um livro que mistura a face cruel da escravidão ao mesmo tempo que nos mostra o poder dos laços humanos. E isso é o grande acerto do livro, pois sem o segundo, seria muito difícil ler o primeiro.


O que eu achei de Pheby

Eu achei a escrita de Sadeqa Johnson muito envolvente, existe uma complexidade nas personagens que a tornam muito humanas. Mesmo os piores conseguem demonstrar em determinadas circunstâncias pequenos atos de amor, o que me levava a pensar no porque haver pessoas que preferem cultivar a crueldade, de se satisfazer mais com a dor do que com um sorriso, como que negando a si mesmo a ser feliz.

A personagem principal, Pheby, é muito bem construída. A resiliência em todas as situações para proteger os filhos, principalmente o primogênito, é ao mesmo tempo impressionante e dolorida.

Que todos os teus piores medos se tornem realidade, e que todo o mal provocado pela tua alma se volte contra ti multiplicado por dez.


Pois sim, ela é uma mulher diferente por tudo que absorve não só em relação aos estudos, mas as regras de uma vida que está sempre contra ela. Uma mulher inteligente, criada por uma mulher forte, que consegue ter uma visão de tudo o que está ocorrendo para assim garantir a sua sobrevivência e também de quem ela ama. 

Também gostei muito do complemento da revista, principalmente a explicação sobre o colorismo, que me ajudou a entender a visão americana na hora de classificar as pessoas, aos quais eles consideram as origens e não só a cor da pele em si, como ocorre no Brasil. O que me fez reavaliar a visão que eu havia tido ao ler A metade perdida, pois sim, agora eu compreendi todos os questionamentos do livro, que na época não fechava pra mim.

Eu sabia que aquilo não era o fim. No máximo, parecia ser o início, e eu não sabia se deveria sentir alívio pela bondade do cavalheiro ou medo mortal do que estava prestes a me acontecer.


E assim deixo a dica de um livro forte, reflexivo, de um passado bastante recente, cuja narrativa tem como efeito colateral apertar o coração enquanto não se compreende o quanto a humanidade pode ser desumana.


Pheby
Sadeqa Johnson
Tradução Davi Boaventura
TAG - dublinense
2021 - 318 páginas

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terça-feira, 8 de novembro de 2022

Greenwich Park



Sinopse: Quando Helen chega para a primeira aula do curso pré-natal, espera que seu belo marido arquiteto surja logo depois, seguido por seu charmoso irmão Rory e pela esposa dele - a naturalmente linda, e também grávida, Serena. Mas, por Rachel, Helen não esperava. A extrovertida, impetuosa e inquietante Rachel, prestes a se tornar mãe solo, que só quer ser amiga de Helen. Que só quer se aproximar de Helen, de seus amigos e de sua família. Que só quer saber tudo sobre eles. Cada um de seus segredos.

No mês de junho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Greenwich Park da autora inglesa Katherine Faulkner. O mimo foi um marcador de página em formato de pingente.

Helen vive em uma bolha onde idealiza a própria vida. Casada com um arquiteto, mora na casa que foi de seus pais, uma mansão vitoriana próxima ao Greenwich Park, na cidade de Londres.

Mas você precisa saber a verdade, mesmo que, depois de todo esse tempo, ainda se recuse a ouvir.


O marido é sócio do seu irmão Rory, que herdou a empresa de arquitetura de seu pai. Sua cunhada Serena também está grávida, e assim ela imagina que todos gostariam de participar juntos do curso de gestantes. Mas nenhum dos três aparecem, e com todos os demais casais completos, lhe resta como companhia a jovem Raquel, igualmente sozinha no curso, mas expansiva e falante, ela é exatamente o oposto de Helen.

Aos poucos ela vai aparecendo em todos os lugares que Helen está, e em sua solidão, a jovem gestante sem nenhum instinto maternal se torna uma distração que a faz rir e esquecer por alguns momentos os próprios medos.

Eu sei que ele estaria aqui se pudesse, que está arrasado por me deixar na mão. Que essa reunião de última hora foi um simples inconveniente.


Mas o que era divertido se torna mais intenso, e quando Helen pisca, Rachel invadiu não só a sua vida, mas de todos da sua pequena bolha. Só que ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de um suspense no estilo Stalker, e sim de um quebra-cabeça muito mais complexo do que se imagina no início da leitura.


A escrita de Katherine Faulkner

Logo de cara o leitor se depara com um depois e uma carta ao qual não se identifica a autoria, apenas que ela foi escrita com o desejo de revelar a verdade do remetente e que a destinatária deste desabafo é Helen.

Em seguida retrocedemos no tempo, onde as partes da história são identificadas em semanas, as semanas de gestação de Helen, e alguns finalizam com uma rápida narrativa em terceira pessoa. Nos demais capítulos temos narrativas em primeira pessoa das seguintes personagens: além da própria Helen, contam a história Serena e Katie, esta última é a melhor amiga de Helen e uma espécie de namorada do considerado irmão ovelha negra da mesma.

Tentei marcar encontros, mas de alguma forma eles nunca parecem caber muito bem na agenda das pessoas.


Entre as figuras femininas principais, a única que não é narradora é Rachel, mantendo a sua personalidade e seus reais interesses um verdadeiro mistério para os leitores.

Já na narrativa de Helen a autora, que se inspirou justamente quando realizava um curso pré-natal para escrever sua trama, aborda o lado solitário da maternidade. Os colegas de trabalho que não se interessam em marcar um café, o marido que não tem tempo para acompanha-la no curso. Uma mulher sem nenhuma rede de apoio, sem ter ninguém de confiança para desabafar.

Não sei por que ela insiste em falar disso sem parar, por que parece ter muito mias importância para ela do que para nós.


Além das mudanças físicas que as mulheres passam, o que pode ou não ser consumido - e só quem já engravidou sabe a lista enorme de cuidados neste ponto, incluindo também a questão das perdas gestacionais. 

Mas não pense que só se fala em maternidade não, tem depressão - que não é a pós parto -, pessoas que enganam as outras para viverem de aparências, falta de escrúpulo, a forma como o estupro é lidado quando envolve pessoas de diferentes classes sociais, e traição, porque neste mundo encantado, não poderia faltar este toque com os machos escrotos que compõe a trama.

As pessoas estão ocupadas, ocupadas demais para mim, pelo menos. Já fui esquecida.


Tudo isso junto e misturado em uma escrita fluída e envolvente, que transformam Greenwich Park em um vira páginas.


O que eu achei do livro...

Gostei muito da narrativa da escritora Katherine Faulkner. As peças do quebra-cabeça são bem espalhadas pelos capítulos, não existe informação em vão, sendo necessário para o leitor detetive se manter atento as reações de cada personagem e as situações passadas citadas constantemente por Helen para fazer as conexões e tentar descobrir o mistério antes de chegar ao fim.

Eu particularmente discordo da revista da TAG quando chamam Helen de ingênua. Sim, ela é solitária. Mas também é invejosa. Pois existe um misto de inveja e admiração em relação a Serena, ao qual ela tenta imitar como se assim fosse ter um pouco da luz que ela vislumbra na outra. 

Tudo naquele ambiente está começando a me incomodar: o carpete estampado, horroroso e de má qualidade, as tomadas imundas, o cheiro de mofo, a poeira no parapeito das janelas.


E é isso que a cega, a faz se proteger em uma bolha de perfeição facilmente removível para quem vem de fora. E aqui entra Rachel, a personagem que você não sabe ao longo da narrativa se é ingênua, malandra, golpista ou muito mais do que aparenta ser.

E assim deixo a dica para quem gosta de um bom mistério, um legítimo vira página que irá fazer a sua mente formar diferentes teorias.


Greenwich Park
Katherine Faulkner
Tradução: Marina Vargas
TAG - Record
2021 - 417 páginas

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

A Pequena Loja de Venenos



Sinopse: em 1791, em um beco escuro de Londres, se esconde um pequeno boticário, onde Nella aguarda sua próxima cliente. Uma curandeira respeitada no passado, ela agora usa seu conhecimento para um propósito mais obscuro: vender venenos disfarçados para mulheres desesperadas que fariam de tudo para se libertar dos homens em suas vidas. Mas quando sua nova cliente acaba por ser uma adorável menina de doze anos, Eliza Fanning, e uma amizade surge entre elas, o mundo de Nella muda por completo, e as mulheres cujos nomes estão escritos em seus registros correm risco de ser expostas. Na Londres atual, a vida de Caroline Parcewell parece estar desmoronando. Em uma viagem de aniversário de casamento, agora feita sozinha, sua história parece tomar um rumo há muito tempo escondido. Porém, em um beco sem saída pode estar o recomeço de que ela tanto precisa.

No mês de maio recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro A Pequena Loja de Venenos, da escritora norte-americana Sarah Penner. O mimo foi o mesmo de Casas Vazias enviado pela TAG Curadoria, o acesso a Mubi - que eu não utilizei - e a pipoca de caramelo e flor de sal da Mais Pura que eu devorei.


A história

O ponto de partida ocorre na Londres de 1791, onde Nella sente uma preocupação sem explicação à espera da sua desconhecida cliente. Surpreendentemente que aparece é uma menina de doze anos a serviço de sua senhora. Eliza gosta de um bom papo, e o local logo se torna objeto de sua curiosidade. E por mais que Nella a mande embora, a menina não se cansa de voltar.

Nella é filha de uma boticária que sempre fez tudo para ajudar as mulheres, ao assumir o negócio da mãe, ela acaba, após uma grande desilusão, incluindo um serviço especial para suas clientes, possibilitando através de elementos naturais se livrar de companheiros nada agradáveis.

Ela viria ao alvorecer - a mulher cujas cartas eu segurava nas mãos, a mulher cujo nome eu ainda não sabia.


Mas um pedido que vai contra as regras, seguido de ameaças e uma desatenção acaba colocando todas em perigo, e nesta tentativa de sobreviver ao caos um dos vidros com a marca da loja vai parar no Rio Tâmisa.

Ele será encontrado nos dias atuais por Caroline, uma mulher que abandonou vários sonhos para se dedicar ao marido e ao projeto de formar uma família. Na véspera de sua viagem para comemorar as bodas de zinco ela descobre uma traição, e para não desperdiçar o presente dado pelos seus pais, encara uma viagem solitária dos Estados Unidos para a Inglaterra.

Meu caderno estava lá dentro, as páginas cobertas de tinta de caneta azul e corações desenhados com um esboço do nosso itinerário de dez dias.


Buscando o que fazer, acaba recebendo o inusitado convite de participar de uma caça ao tesouro no Rio Tâmisa. O que era um passatempo, acaba se tornando o objetivo da viagem quando ela encontra o frasco azulado com um símbolo de urso. E ao mesmo tempo que ela tenta desvendar a história do objeto, ela acaba confrontando as próprias escolhas e tendo uma oportunidade de escolher o que ela Caroline deseja realmente para a sua própria vida.


A escrita de Sarah Penner

Dois tempos, duas narradoras que dividem os seus pensamentos na primeira pessoa, a mesma cidade. Esta é a base da história da autora Sarah Penner, que com uma escrita fluída e uma história envolvente, tornam o leitor uma segunda Eliza, querendo saber mais sobre as duas mulheres que estão sendo desvendadas.

Utilizando o universo feminino, está a sonoridade, a questão vida profissional x vida social, a maternidade, os relacionamentos tóxicos, o que são escolhas das personagens e o que é manipulação de terceiros.

Como eram tolos - todos eles, exceto as mulheres, a quem era dito onde encontrar suas amigas, suas irmãs, suas mães.


Para quem gosta de viajar dentro e fora dos livros, a autora também nos apresenta uma visão menos turística de Londres, com descrições que me fizeram sentir caminhando junto com a personagem.

Também é muito interessante as descrições dos elementos utilizados para a criação de cada veneno, assim como a descrição detalhadas no final, um acréscimo pós história.


O que eu achei...

Não existe veneno mais poderoso que uma traição, ela corrói, amarga, desestabiliza o traído. E isto é muito forte em A Pequena Loja de Venenos. As consequências que isso pode trazer na vida de cada uma das personagens.

Eu gostei muito da história, o vai e volta entre presente e passado, que fazem o leitor preencher o quebra-cabeça mais rápido que Caroline, ao mesmo tempo que se vive um dilema ético ao torcer por Nella. Me fisgando da primeira à última página.

Eu soube, ali, que não podia confiar em mais nada que ele me dissesse.


A leitura é uma imersão nas dores e dúvidas femininas, aos quais curiosamente não mudaram tanto assim, apesar dos mais de duzentos anos que separam uma época da outra. Quase como um lembrete do quanto ainda precisamos quebrar barreiras, sejam elas externas e internas.

Minha personagem favorita aqui foi a jovem Eliza e sua grande dose de otimismo. Por estar recém descobrindo a vida, ao qual ela tem muita curiosidade, permitem que ela sempre pense em soluções e acredite fielmente que elas darão certo. Contrastando com Nella, sempre tão triste e negativa.

O trabalho da minha mãe tornou-se o meu, e nossas tinturas eram tudo o que eu conhecia do mundo.


Também gostei da capa, existe uma mistura de delicadeza e força que convidam a entrar na história. E assim deixo a dica para quem quiser se aventurar a conhecer os diferentes tipos de veneno que podem atingir o corpo ou a alma.


A Pequena Loja de Venenos
The Lost Apothecary
Sarah Penner
Tradução Isabella Pacheco
TAG Inéditos - Harper Collins
2020 - 318 páginas

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Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Achei interessante como a distância do tempo não muda os problemas. A traição, ou melhor, o ser traída, é o que inicia o movimento das três personagens, com diferentes níveis de gravidade.

No passado Nella é traída duplamente por seu amor, ato agravado com a perda da filha, e a faz acrescentar o serviço especial em sua loja. Aliás, achei interessante o padrão ético de Nella, que só aceita envenenar homens e em nenhum momento se vê como sendo uma assassina em série.

Agora aquilo seria um sonho; por causa do meu erro, talvez eu tenha condenado a ela e a todos nós dentro das páginas do livro de registros.


Suas clientes são mulheres que buscam se livrar de homens que as fazem infelizes de diferentes formas. E aí entra a personagem Eliza, que embora encaminhada pela patroa, na verdade também está buscando a própria libertação das mãos do patrão que começa a descobrir e tocar o seu corpo jovem.

Só que tudo vira de cabeça de baixo devido a uma série de traições, começando pela esposa que quer matar a amante e não o marido, até o frasco do veneno ser entregue para a polícia pela empregada que entrega a patroa.

A verdade dele permaneceria sendo o único segredo que eu não dividiria com ninguém.


E aí pulamos para o presente onde encontrei Caroline, uma mulher que se deixou manipular pelo marido até ser apenas uma sombra do que sonhou um dia. E confesso que fiquei bastante agoniada quando ele resolve procurar por ela, e ao mesmo tempo que admite a culpa também transfere para ela. O respiro de alívio veio junto com o dela quando a menstruação chega e se vê que ela tem possibilidade de realmente recomeçar.

No geral é triste ver como as mulheres ainda se enterram por causa das atitudes masculinas. Como são consumidas por dentro, como é difícil não arrumar desculpas para os atos do outro, mesmo que isso a destrua. Mas são anos de criação machista que precisa ser quebrada também no universo feminino, tanto na literatura quanto na vida real.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Livro dos Anseios


Sinopse: Ana sempre soube que seu destino ultrapassava as fronteiras do limitado espaço destinado às mulheres na Galileia do século I. Nascida em uma família rica de Séforis, ela é rebelde e ambiciosa, dotada de um espírito ousado e uma voz que anseia em ser ouvida. Desafiando regras da época, Ana estuda e escreve narrativas secretas sobre mulheres silenciadas ao longo da história. Quando conhece Jesus, encontra nele um raro estímulo para seu intelecto e também uma faísca capaz de despertar seu coração.

No mês de março/22 eu recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o romance O Livro dos Anseios da escritora norte-americana Sue Monk Kidd. O mimo é um bloquinho personalizado com uma caneta, para explorar a criatividade como a protagonista da história.


A História

A narrativa tem início no ano 16 d.C. na cidade de Séforis, Ana tem apenas 14 anos, mas diferente das jovens da sua idade, sua mente tem outros interesses. Com muito esforço convenceu o pai Matias, chefe dos escribas e conselheiro de Herodes Antipas, a contratar um tutor para lhe ensinar a ler e escrever.

A menina era tão diferente, que Matias dizia que a filha havia recebido por engano dons destinados a algum menino e sua mãe culpava Lilith, o demônio que a teria contaminado com tendências desviadas.

Toda a minha vida, anseios viveram dentro de mim, saindo para lamentar e cantar durante a noite.


A única que a compreende é a tia Yalta, que como ela é instruída, mas pela forte personalidade, é uma espécie de fardo jogado de um irmão para o outro. Mas no silêncio da noite as duas podem conversar no telhado, o que aquece Ana. E Judas, o irmão adotado e primo de nascença com ideias igualmente diferentes e revolucionárias, a ponto de não ser mais reconhecido por Matias e ser obrigado a se afastar da família.

Mas seu mundo vira de cabeça para baixo quando seu pai a promete em casamento para um homem bem mais velho, cujo desprezo pela jovem não esconde do olhar. A morte do pretendente chega a lhe dar um alívio temporário, mas as fofocas a levam a um convite pior, virar concubina de Herodes. Em todos estes momentos chaves ela se depara com um jovem um pouco mais velho que sempre tenta auxilia-la, e no momento final é ele que a socorre, pedindo-a em casamento. Seu nome é Jesus de Nazaré.

Tinha sido um alívio descobrir que as demonstrações de grandeza da minha mãe não eram motivadas por pura vaidade, mas uma tentativa de compensar sua baixa posição.


Mas se com Jesus ela encontra um parceiro intelectual pelo qual se apaixona, ela também encontra uma vida de pobreza ao ter que se mudar, junto com a tia, para a casa da família do marido. Entre Maria e os irmãos de Jesus, que passa a maior parte do tempo viajando para trabalhos distantes, ela se vê envolvida no trabalho braçal, sem tempo para as suas escritas.

Só que nada é marasmo na vida desta garota, que ao tentar auxiliar uma amiga, acaba empreendendo uma fuga para Alexandria, deixando todos para trás enquanto reencontra os seus anseios.


A escrita de Sue Monk Kidd

Para dar corpo a ideia que tomava forma em sua mente, a autora Sue Monk Kidd fez uma rica pesquisa histórica sobre os personagens bíblicos, fatos históricos e o papel da mulher durante o período que abrange de 16 d.C. até 60 d.C., o que resulta em uma escrita cuidadosa e bastante respeitosa em relação a todos, não havendo nenhuma ofensa religiosa e nada que possa deixar alguém melindrado.

Aliás, no que se refere a possibilidade de Jesus ser casado, existem inúmeros livros de não ficção que abordam este tema, já que era algo esperado dos homens naquela sociedade no período. Um destes livros é Eu encontrei Jesus, já resenhado aqui no blog, um livro que traz várias pesquisas históricas sobre a vida do Jesus.

Senhor nosso Deus, ouça minha súplica, a súplica do meu coração. Abençoe a grandeza dentro de mim, não importa o quanto eu a tema...


Na ficção de Sue Monk Kidd a personagem principal e narradora é Ana, que traz toda a invisibilidade da mulher durante o período, cuja voz é silenciada e qualquer conhecimento mínimo é o suficiente para torna-las a frente do seu tempo, já que vivem em um mundo com regras extremamente machistas.

A escrita em primeira pessoa coloca todos os acontecimentos pelo olhar da personagem, já que estamos acompanhando a sua vida, e com isso não há grandes detalhes sobre Jesus ou Judas, que são meros coadjuvantes na história. Com isso há momentos de muita fluidez, outras em que o texto parece perder um pouco do ritmo, até recuperar o fôlego para o desfecho final.


O que eu achei...

Achei o livro interessante, não há nada de polêmico para quem deixou de ler o livro por ter como chamada a história de uma esposa ficcional de Jesus, a ponto que muitas vezes me peguei pensando que ela poderia ser esposa de qualquer um, até mesmo de Judas, que na história aparece como seu irmão-adotivo, já que ele é filho de uma tia dela.

Pois o foco está na invisibilidade das mulheres, do seu silêncio verbal, intelectual e escrito. E isso é muito bem representado em uma cena, onde uma mulher tem a língua cortada por ousar denunciar o estupro sofrido, sendo ela desmoralizada e penitenciada, e não o seu agressor.

Que tipo de homem auxiliava uma mulher a enrolar seus fios?


Também é interessante observar como são raras as mulheres como Ana e Yalta que não se resignam em ocupar os papeis originalmente imaginados por ela. Pois os homens são em sua maioria machistas, alguns com o acréscimo do adjetivo nojentos, na história. Mas este comportamento também encontra eco em figuras femininas como na própria mãe de Ana.

Com isso quem se aventurar pelas páginas desta história, não irá encontrar o relato de como é ser uma esposa ficcional de Jesus, mas de como era ser mulher em meio a rígidas tradições judaicas, ao qual podemos ver semelhanças ainda nos dias atuais. E os anseios que Ana carrega em seu peito ainda está bastante vivo em muitas de nós. E só por isso a leitura já vale a pena.


O Livro dos Anseios
The Book of Longings
Sue Monk Kidd
Tradução: Lígia Azevedo
TAG - Paralela
2020 - 446 páginas

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Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Como cito no texto acima, achei a presença de Jesus muito secundária na história, já que qualquer homem que tivesse uma visão um pouco diferente da tradicional da época poderia ocupar o papel. Pois no geral, mesmo após o matrimônio, Ana é muito sozinha.

Com toda a certeza, a história da menina egípcia forçada a um casamento abominável que eu havia traduzido era uma mensagem me incitando a me manter firme.


O tempo dela com a família do marido é o afastamento da sua escrita e busca por histórias, já que a sua intenção era escrever sobre as mulheres do mundo, comprovar que elas também viveram aquele tempo, possuíam nome, importância, alegrias e tristezas perante as muitas injustiças.

A drástica mudança de vida de uma menina que vivia na riqueza e vai para a pobreza realizar trabalhos braçais, assim como a sua solidão durante a perda do bebê que estava em seu ventre, após ter evitado com o uso de ervas a gravidez durante muito tempo, é bastante dolorido. Aliás, achei muito inteligente ela ter aprendido isso justamente investigando a própria mãe, que em relação a filha possuía inúmeras opiniões machistas, mas ela mesma buscava se defender em seu silêncio do que lhe afetava.

Não, estou tentando dizer que é exigido dos homens que se casem, mas com frequência vejo as coisas de um modo diferente dos outros.


Outros dois pontos que me chamaram a atenção foram que Ana acaba não participando das pregações de Jesus nem mesmo se torna uma divulgadora dele. E ao final, embora apareça para acompanha-lo no caminho da cruz e limpar o seu corpo, ela vai embora de encontro aos seus anseios e não vê a ressurreição e em nenhum momento isto é citado por Ana, como se a informação nunca tivesse chegado até ela.

O que me fortaleceu o sentimento de um personagem de Jesus muito humano, que apenas não tinha o comportamento machistas e como muito dos mais pobres, foi injustiçado por aqueles que só queriam o poder, um homem comum incomum. Só que não é ele a chave para liberar os anseios de Ana, isto ela só vai encontrar ao ter que se esconder entre os terapeutas e se reconhecer dentro daquele mundo.

O sol desliza pelo céu, e a luz dourada-escura se ergue. Olho à distância e canto: "Sou Ana. Fui esposa de Jesus de Nazaré. Sou uma voz."


A conclusão disso tudo? É que se durante a leitura muitas vezes me peguei pensando o motivo de colocar a narradora como esposa de Jesus se a participação dele era mínima, no final conclui que sim, este seria o mais justo pelo fato de que tudo documentado naquele período foi sem a participação das mulheres, então nada mais certo do que um livro que fosse a visão delas e sobre elas.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Verônica e os pinguins



Sinopse: Verônica McCreedy leva uma vida solitária. Aos 85 anos, ela começa a se perguntar para quem deixará sua enorme fortuna. Até que, após ver um documentário sobre um centro de estudos de pinguins na Antártica, resolve passar uma temporada do outro lado do mundo - um local congelante e isolado, que muitos considerariam inóspito. Diante das descobertas de um parente vivo, das novas amizades feitas, do desenterro de traumas passados e dos pinguins que precisam de ajuda, Verônica terá que decidir se ainda há tempo para abrir seu coração e criar laços antes que seja tarde demais.

No mês de Fevereiro/22 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o sensível e divertido Verônica e os pinguins da autora inglesa Hazel Prior. O mimo foi um canudo de inox, o que combina com uma das temáticas levantadas no livro, que é das mudanças climáticas globais.

Verônica mora em uma bela casa na Escócia, solitária, tem a auxiliar Eileen que não só cuida da casa como da própria Sra. McCreedy, que muitas vezes deixa a dúvida se ela está apresentando lapsos de memória ou se é chata mesmo.

Os espelhos são muito honestos. Existe um limite para o que uma mulher pode suportar.


Com a proximidade do aniversário ela se depara com uma caixa que lhe desperta várias memórias e a preocupação de quem irá herdar os seus bens após a morte. É quando ela contrata uma agência de investigação e descobre a existência do seu neto Patrick.

Mas o rapaz não é nada do que ela gostaria ou esperaria de um neto, trabalhando somente um dia na semana, vivendo de ajuda do governo e cultivando dois vasos de maconha na janela.

A esta altura, deveria estar acostumada com essas repugnantes imperfeições físicas, mas ainda me exaspero ao me ver deste jeito.


Então Verônica lembra do programa sobre pinguins que ela tanto gosta de assistir, e do apresentador informando que o centro de pesquisa precisa de dinheiro para se manter. É quando ela decide ir pessoalmente até a Ilha Locket na Antártica ver se o trabalho realizado merece se tornar seu herdeiro.

O que irá mudar não só a rotina da pequena equipe como os do que estão a quilômetros de distância, trazendo revelações para ela e todos a sua volta. 


Os personagens

O núcleo de Verônica e os pinguins inicialmente é pequeno, mas ao retornar ao passado vamos encontrar vários personagens que Verônica encontrou no seu caminho, assim como as pequenas participações do núcleo de Patrick.

Verônica não só é a personagem do título como a principal, se inicialmente ela pode ser facilmente taxada de uma senhora bastante chata, um tanto arrogante e muito teimosa, conforme o passado é revelado, vemos uma menina que sobreviveu a guerra e a tudo o que lhe foi roubado. 

Fiz o que foi preciso para sobreviver. Se isso fez de mim uma pessoa dura ou cáustica, que seja. Sou o que sou.


Nada o que Verônica tem caiu de mão beijada em suas mãos, e foi graças a esta personalidade forte, que não baixou a cabeça para nenhuma dificuldade, que possibilitou cada conquista material, embora nada disso tenha aliviado as perdas emocionais.

Patrick é o neto até então desconhecido, rapaz que ficou órfão cedo e agora segue sendo levado pela vida, sem responsabilidades, sem objetivos, inicialmente desleixado, sendo um homem de corpo, mas mentalmente um menino que não cresceu.

Minha vida. Um enorme, doloroso, inexplicável, desperdício sem sentido.


Sua consciência começa a ter noção da realidade ao ler os diários pessoais enviados pela avó. Ao descobrir mais de suas próprias origens e das desventuras da mulher que se tornaria a sua avó, um amadurecimento começa a surgir.

Eileen é o braço direito de Verônica, quem atende suas ideias malucas, envia e-mails, pede notícias, se preocupa com o bem estar ao mesmo tempo que é curiosa sobre o que acontece.

A vida é um equilíbrio entre o que você solta e o que você guarda. No meu caso, trata-se muito mais de guardar. Guardar é a única maneira de aguentar firme.


Já na Antártica temos a equipe do projeto dos pinguins. Um trio de diferentes personalidades que em um primeiro momento tentam a todo custo impedir que uma senhora já idosa vá para o alojamento, cuja estrutura é simples e sem grandes confortos, mas que depois incorpora Verônica na própria rotina. 

Naturalmente nem todos aceitam tão bem, se por um lado Terry cuida de Verônica e relata seus primeiros contatos no blog que mantém, Mike parece estar sempre emburrado com sua presença, enquanto Dietrich mantém o equilíbrio de tudo.

Eu devia estar cheia de remorso e humildade, mas não estava. Sentia-me desafiadora.


E como não poderia faltar, os pinguins são personagens a parte, com ênfase para Pip, que inevitavelmente te faz ter vontade de conhecer um bebê pinguim mais de perto.


A escrita de Hazel Prior

Para contar a história de Verônica a autora Hazel Prior mescla diferentes narrativas, da primeira pessoa com narrativa direta, como é o caso utilizado com a personagem principal para contar o agora, o uso de um diário para detalhar o passado para os leitores e para o próprio neto.

Aliás Patrick também faz a narrativa em primeira pessoa, compartilhando com o leitor o seu ponto de vista sobre ser órfão e lá pelas tantas ser encontrado por uma avó desconhecida que não tem nada de ar maternal.

Dentro do meu peito está acontecendo algo estranho. Uma friagem, como uma imensa montanha de gelo começa a se mexer.


Completando a narrativa temos O Blog dos Pinguins, onde Terry se comunica de forma direta com os seus seguidores, explicando fatos da rotina destas adoráveis aves marinhas, além de compartilhar muitas curiosidades sobre eles. Nos lembrando em meio ao romance da importância da nossa casa chamada Terra e de como devemos preservar o meio ambiente para o bem de todas as espécies que aqui habitam.


O que eu achei...

No começo eu não dei nada pela história, achei que Verônica era uma mulher muito chata e que a narrativa seria muito tediosa. Mas sai de baixo que lá vem cuspe.

Conforme a história foi sendo aprofundada, a escrita de Hazel Prior me envolveu e eu me vi admirando e sentindo o coração apertado pela Verônica do passado e do presente, a menina que se viu só em plena segunda guerra mundial e a senhora que guardava de certa forma a sua alma em uma caixa.

As lágrimas vêm quando a pessoa foi forte demais por tempo demais.


Ao mesmo tempo a história questiona o quanto as perdas e vivências podem afetar as nossas relações e soterrar características da nossa personalidade de diferentes maneiras. E o mais importante, o que pode quebrar todas estas barreiras?

No caso de Verônica e Patrick, avó e neto, são os pinguins. No caso dos leitores, caberá a eles após finalizar a leitura descobrir se tem algum bloco de gelo a ser quebrado para poder viver mais livremente.


Verônica e os pinguins
Away with the Penguins
Hazel Prior
Tradução: Elisa Nazarian
TAG - Gutenberg
2022 - 347 páginas

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terça-feira, 29 de março de 2022

A Pintora de Henna



Sinopse: Um retrato vívido e irresistível da luta de uma mulher em busca de realização pessoal e profissional em uma sociedade que oscila entre a tradição e a modernidade. A pintora de henna abre ao leitor a porta para um mundo - a Índia pós-independência - que é ao mesmo tempo exuberante e encantador, duro e cruel.

Como associada da TAG Inéditos recebi no mês de janeiro/22 o livro da indiana Alka Joshi chamado A pintora de henna. De mimo recebi um planner para o ano de 2022, sim, igual ao que recebi na Curadoria, este foi de presente para a minha mãe.

A história de A Pintora de Henna ocorre entre setembro de 1955 e novembro de 1956, e a protagonista se chama Lakshmi, uma mulher que apesar de pertencer a casta dos brâmanes, ganha a vida pintando os corpos das ricas mulheres da sociedade de Jaipur.

A independência mudou tudo. A independência não mudou nada.


Filha de um professor, ela foi forçada a se casar aos 15 anos com Hari Shastri, marido do qual foge aos 17 anos. Ao procurar meios de sobrevivência acaba aprendendo a técnica da pintura de henna, que somado com os seus conhecimentos medicinais atraem Samir Singh, um arquiteto renomado que a leva para Jaipur e através da sua esposa introduz os serviços de Lakshmi na sociedade local.

Tudo parecia estar no caminho certo na vida desta jovem mulher, que agora, treze anos depois, constrói uma casa e sonha em trazer os pais para morarem com ela, tendo como auxiliar o sempre experto Malik, um menino perdido que virou seu assistente.

Eu punha um pavão persa dentro de uma concha turca, transformava uma ave das montanhas afegãs em um leque marroquino.


Mas sua bolha vai estourar no dia em que o ex-marido bate na sua porta trazendo uma irmã que ela desconhecia a existência. E quando uma carta sai do lugar, o castelo construído até ali não terá a mesma estrutura, assim como a visão que a própria Lakshmi passa a ganhar de mundo.


Os personagens

O universo de A pintora de henna tem diversas personalidades representadas, e entre inspirações em pessoas reais e os ficcionais, é impossível não se encantar ou se revoltar com alguns deles.

Lakshmi é uma mulher séria e focada, que batalha duro para viver dentro da bolha de proteção que ela construiu para si. Suas reações são por demais humanas quando se vê a frente com a irmã mais nova Radha, ao qual desconhece e precisa aprender a conviver.

Não sabia de que outra maneira agir, porque ninguém havia lhe ensinado um jeito melhor.


Já Radha é a mistura da sua juventude dos treze anos com uma vida curta carregada de dificuldades, começando com a fuga da cidade para encontrar a irmã após o falecimento dos seus pais. Viver na cidade grande acaba confundindo ainda mais a sua cabeça, que ainda não possui maturidade suficiente para lidar com todas as novidades e armadilhas.

Quem presta suporte as duas é o menino de idade não definida Malik, que com a esperteza adquirida de quem nasceu e cresceu nas ruas surpreende não só as irmãs, como quem entra na leitura. Sendo um personagem muito querido.

Eu deveria ficar satisfeita por ela estar se desligando de mim, se tornando independente, tomando as próprias decisões?


Já Samir Singh e sua família representam o que a falta de limites de uma família com dinheiro e influência, mas sem ética e respeito com o próximo, pode fazer. Mostrando que da mesma forma que eles abrem portas, eles também acreditam tornar os indesejáveis invisíveis.

Outra família é as do Agarwal, onde temos Kanta, uma jovem esposa de vinte e seis anos que conheceu o seu marido, também indiano, na Universidade, e teve a felicidade de poder casar por amor. Mas agora enfrenta a pressão da sogra de ter um filho.

Podíamos ter esperança desse amor, mas não havia garantias.


Outras figuras interessantes são as maranis Indira e Latika, madrasta e esposa do atual marajá. É através dela que sabemos um pouco do funcionamento da realeza, como suas crenças para seleção de herdeiros.

Completando o quadro que nos transporta para a Índia dos anos 50 estão vizinhos, outras clientes, figuras importantes do passado de Lakshmi, assim como um médico que se encanta com os métodos naturais dela.


A escrita de Alka Joshi...

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Alka Joshi sempre inicia os seus capítulos indicando o local, o mês e o ano em que as personagens estão, sendo que na maior parte do tempo acompanhamos a própria Lakshmi. Logo de início vivemos o dia-a-dia das irmãs, e conforme as circunstâncias entram pequenos saltos no tempo.

Sua forma de escrever é bastante fluída, há uma descrição cuidadosa dos locais, desenhos e acontecimentos, e ao contrário do que se possa imaginar, longe de ser chata.

Eu havia cometido o primeiro pecado, abandonando meu marido, com quem deveria ter ficado por sete vidas.


Muito pelo contrário, através das descrições de Alka Joshi é quase possível sentir os cheiros, sabores, mergulhar nas cores e saber um pouco mais da cultura indiana.

Ela também transmite com veracidade toda a força e as dúvidas dos personagens. Tornando-os tão humanos em suas reações que é fácil de se compreender, se indignar junto com eles e fazer os mesmos questionamentos, o que me permitiu em alguns momentos antever até mesmo os seus arrependimentos.

Por que eu não conseguia formular uma frase sequer que pudesse ajudar minha irmã a entender que tudo que eu estava fazendo era para o bem dela?


Na edição brasileira que eu recebi antes de iniciar a história tem uma lista com alguns personagens, mas ela não está completa, faltam três pessoas importantes na vida de Lakshmi: a sogra que ensinou toda a parte medicinal e as mulheres que ensinaram ela a fazer a henna. Mesmo assim já é uma base, principalmente para quem demora a se acostumar com nomes diferentes dos que usualmente são utilizados por aqui.

No final também há um glossário e algumas das receitas citadas na história, caso alguém queira se aventurar.


O que eu achei...

Eu adorei entrar no universo de A Pintora de Henna, ao mesmo tempo que a escrita tem uma leveza e uma fluidez, ela levanta importante discussões sobre o papel da mulher, educação, diferença de classes, machismo e divórcio.

Mas o livro não se passa em 1955? Sim, se passa. E seria cômico se não fosse triste como muitas coisas ainda não mudaram, como algumas situações podem facilmente acontecer nos dias de hoje, e como a luta das mulheres ainda está longe de terminar.

Que isso pudesse humilhá-la ou envergonhá-la não importava para ele; ela era sua propriedade.


Retornando ao livro, é muito fácil se deixar levar por suas páginas, se encantar pelas duas irmãs e seu fiel escudeiro, torcer para que elas tomem as melhores decisões e principalmente que o destino lhe reserve algo melhor do que vemos em algumas páginas.

E para quem gosta da dupla leia o livro e veja o filme, a Netflix irá fazer uma série adaptando a história, e confesso que já estou em dúvidas se vou querer assistir, pois normalmente gosto de fazer o caminho inverso, isto é, olhar primeiro e ler depois.

Então fica a dica para quem gosta de viajar pelas páginas, conhecer outras culturas, e se encantar com personagens que poderiam facilmente ser reais.


A Pintora de Henna
The Henna Artist
Alka Joshi
Tradução: Cecilia Camargo Bartalotti
TAG - Versus Editora
2020 - 351 páginas

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Igualzinho a você



Sinopse: Seu par romântico é igualzinho a você: mesmas origens, mesma idade, mesmos interesses. O casal perfeito. Juntos, porém, são uma catástrofe. Então, quando você menos espera, surge outro em sua vida. Vocês parecem não ter nada em comum e ainda assim, de algum jeito, tudo faz sentido. Com perspicácia, ternura e muito humor, este romance de Nick Hornby explora a fundo o que significa entrar de cabeça num relacionamento com a melhor pessoa possível - e que não tem nada a ver com você.

A TAG Inéditos encerrou o ano enviando em Dezembro/22 o romance inglês Igualzinho a você do escritor Nick Hornby. O mimo foi um calendário de mesa para 2022 - é dele as imagens que uso para indicar o mês dos livros lidos no Instagram.

Lucy tem quarenta e dois anos, é professora, mãe de dois meninos, e se divorciou quando viu o alcoolismo de Paul aumentar a cada dia, assim como o impacto que a bebida estava tendo em suas ações. Mas a separação não impediu que os dois mantenham uma relação que podemos considerar amigável, visto que eles possuem filhos pequenos em comum. Para diminuir a solidão, ela se relaciona com homens de aplicativo e conhecidos apresentados pelos amigos.

E é justamente quando precisa de uma babá para um jantar que ela acaba se aproximando de Joseph, um rapaz negro, de 22 anos, que entre seus vários empregos, é atendente aos sábados em um açougue localizado no bairro onde Lucy mora.


Como alguém podia ser capaz de dizer com alguma certeza o que mais odiava no mundo?


Os períodos como babá acabam aproximando Joseph dos meninos, que adoram alguém que jogue vídeo game com eles, rapidamente ele e Lucy viram amigos e logo vem um relacionamento íntimo, mas sem o rótulo de relacionamento fixo. 

Mais do que gerações diferentes, eles não possuem nem mesmo gostos em comum, ela gosta de livros e peças de teatro, e ele revira os olhos para isso. Ela acompanha política, para ele tanto faz tanto fez. Ela tem liberdade de ir e vir, ele está sujeito a revistas policiais.

Mas mesmo assim as horas vão se tornando dias, semanas, meses, em uma relação que se vive o momento e não existem planos futuros.


A disputa agora era com o resto do mundo, e o resto do mundo era ao mesmo tempo grande e bom de bola.


Os personagens


A história é centralizada em Lucy e Joseph, que são colocados como opostos. Ela é branca, adora ler, é mais velha, contra o Brexit, seu círculo de amizade é uma bolha com as mesmas ideias e ideais, e sua situação financeira é estável, com uma boa casa e emprego. 

Joseph está saindo da adolescência, é negro, indiferente ao Brexit, seus amigos são jovens e o seu negócio é fazer música e quem sabe um dia ser Dj. É um rapaz que não deseja ter relacionamento sérios e ainda mora com a mãe, que não controla os seus ir e vir. Financeiramente sua vida é bem mais simples, o que o faz dividir o tempo em diferentes trabalhos.


Talvez acreditasse que Deus criara o universo, mas não sabia como aquilo o afetava.


Fazendo figuração em volta do casal estão os vizinhos caricatos de Lucy, como Emma, uma mulher casada que frequentemente tenta flertar com Joseph no açougue, a mãe de Joseph que não aprova o relacionamento, o ex-marido que se sente no direito de fazer várias perguntas, moças jovens e bonitas que podem dar perspectiva de família futura para Joseph, além dos amigos de ambos os lados que aparentemente não se importam com as diferenças dos dois, sejam ela de idade, classe ou de raça.


A escrita de Nick Hornby


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Hornby inicia a sua história na primavera de 2016 e percorre em longos capítulos os nuances deste relacionamento em detalhes no período aproximado de seis meses, até dar um salto no tempo e finalizar na primavera de 2019.


Anos e anos de vida adulta tinham lhe presenteado com pistas totalmente inibidoras sobre o que se passava na cabeça das pessoas.


Sua escrita coloca o leitor dentro da cidade de Londres, e como eu já havia lido em A segunda vida de Missy, o assunto principal é a forte discussão que polarizou opiniões a respeito do Brexit. No caso de Igualzinho a você o foco se amplia ao entrar em discussão os diferentes lados sobre a saída do Reino Unido do bloco europeu conforme idade, raça e classe social. As visões são muitas, assim como as opiniões dos personagens em relação aos políticos ingleses que ainda são figurinhas fáceis nos telejornais.

E aqui também entra o fato de Londres ser uma cidade muito cara, a disputa de empregos com imigrantes, aos quais muitos locais acusam de roubar as suas vagas e veem no Brexit a oportunidade de recupera-las.


Ele estava querendo fazer sexo com uma pessoa da idade da mãe dele!


E naturalmente também é abordado o racismo, como a reação de um vizinho que chama a polícia ao ver Joseph batendo na porta de Lucy em uma noite. É através de Joseph que ele também levanta questão de frases e conceitos pré-estabelecidos em vários diálogos.


O que eu achei...


Eu particularmente achei o livro muito chato. O sentimento que eu tive durante a leitura era que Lucy estava com Joseph para não ficar sozinha, pois ele é um guri do tipo babaca, que tem vergonha dela e frequentemente a compara mentalmente com a própria mãe, e cuja dinâmica me fez acha-lo tão tóxico para ela quanto o ex-marido. Pois Lucy parece eternamente pisando em ovos com ele, tendo que ter cuidados na forma de se expressar e agir que ele não tem.


Estava em forma para seus quarenta e dois anos, mas, de qualquer modo, tinha um corpo de quarenta e dois anos.


E ao mesmo tempo o comportamento dele me parecia algo natural, pois ele é um cara muito jovem ainda em formação, suas ideias de mundo ainda não ganharam amplitude, ao mesmo tempo em que ele já encarou situações que ninguém deveria ter que enfrentar, fazendo com que ele esteja em um processo de amadurecimento entre extremos.

Além do seu mundo ser muito mais adolescente do que adulto. E é isso que o relacionamento com Lucy oferece a ele, sexo sem compromisso ou responsabilidade. 

E ao contrário do que é indicado na orelha da página, não acho que Lucy fosse igual a Paul - seu primeiro marido -, seu círculo social talvez, sua cor com certeza, mas existe algo chamado personalidade, que nos torna únicos em relação aos outros. E no caso de Lucy ela se molda aos pares, o que possibilita que seus relacionamentos durem até as situações ficarem extremamente desconfortáveis para ela. 


E, se você acha mesmo que eu sou racista, talvez você não devesse estar aqui.


E talvez por ela repetir um comportamento tão comum entre as mulheres de ser a pessoa que cede, espera e precisa tomar as decisões, que eu não tenha conseguido sentir a leitura fluir. O que me fez pensar que Lucy merecia ter um dedo melhor para os seus relacionamentos.

Naturalmente talvez a narrativa faça muito mais sentido para quem já viveu ou tem um relacionamento inter-racial, ou com essa diferença em que um está chegando na vida adulta enquanto o outro já está na fase da estabilidade e maturidade, possibilitando maior identificação.

Pois como são realidades distante pra mim e o livro não é movido a grandes ações ou acontecimentos, mas sim descrevendo a rotina de um casal, que mesmo sendo de polos tão distintos, consegue conviver em relativa harmonia. Para quem viveu ou está vivendo as mesmas situações o impacto causado pela leitura pode ser muito maior.


O referendo dava a grupos de pessoas que não se gostavam, ou ao menos que não se compreendiam, uma oportunidade de brigar.


E como já citei no texto, a visão ampliada do Brexit também me ajudou a aprender mais um pouquinho sobre o que causou toda a disputa e até mesmo encontrar semelhanças com a polarização que enfrentamos aqui no Brasil. 

Então mesmo literaturando fica a dica de leitura para que você leia e descubra se concorda ou discorda de mim, afinal, a literatura é muito semelhante a gastronomia, cada um tem os seus gostos e preferências.

Igualzinho a você
Just Like You
Nick Hornby
Tradução: Christian Schwartz
TAG - Companhia das Letras
2020 - 415 páginas

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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Menino Mamba-Negra



Sinopse: ÁDEN, IÉMEN, 1935. Uma cidade vibrante, viva, cheia de perigos ocultos. E lar de Jama, um garoto de dez anos que se vê sozinho no mundo após a morte inesperada de sua mãe. Para chegar na Somália, terra natal de seus ancestrais nômades, o menino cruza o Mar Vermelho. A guerra está no horizonte e as forças fascistas italianas que controlam parte da África Oriental estão se preparando para a batalha, mas Jama não pode descansar até descobrir se o pai, ausente de sua vida desde que ele era bebê, está vivo em algum lugar. Assim começa uma jornada épica que levará Jama ao norte através de Djibouti, Eritreia e Sudão, países devastados pela guerra, até chegar ao Egito. De lá, a bordo de um navio transportando refugiados judeus recém-libertos dos campos de concentração, o garoto segue através dos mares para a Grã- -Bretanha. Esta história da longa caminhada de um garoto em busca de liberdade também é a história de como a Segunda Guerra Mundial afetou a África e seu povo; uma história sobre sentir-se deslocado e, no fim, encontrar-se novamente.

Em novembro/21 foi o mês temático das caixinhas da TAG, onde os assinantes receberam afronarrativas. Pela minha assinatura da TAG Inéditos eu recebi Menino Mamba-Negra da escritora Nadifa Mohamed - nascida em Hargeisa, Somália - que usou a ficção para contar um pouco das aventuras do próprio pai.

Quando Ambaro estava grávida, aos dezessete anos, ela acabava se separando da caravana devido a sua lentidão. Um dia, cansada demais para seguir caminhando, sentou em uma velha árvore, e enquanto sua respiração normalizava, sentiu algo em suas costas, seguindo em direção ao umbigo. O que parecia ser uma mão se revelou uma mamba enorme, cobra venenosa e muito rápida, que se enrolou em torno da sua barriga. Sem se mexer, Ambaro viu a cobra pousar a cabeça em sua barriga e ouvir a batidas do coração do seu bebê. Depois de um tempo juntos, a cobra simplesmente a deixou, e assim ela passou a chamar o filho de Goode, que significa mamba-negra.


Conto a você esta história para poder transformar o sangue e os ossos de meu pai - e seja qual for a mágica que a mãe dele costurou debaixo de sua pele - em história.


Mas Ambaro e seu Goode - oficialmente conhecido como Jama - tiveram que abandonar a família, indo os dois para um lado e o marido para outro em busca de recursos financeiros para uma vida melhor. Morando de favor na casa de parentes distantes, eles são constantemente constrangidos e destratados.

Por trabalhar doze horas por dia, Jama passa rolando pelas ruas do Áden, sem ir para a escola e brincando com outros meninos. Mas a morte inesperada da sua mãe é o primeiro ato para o seu caminho mudar. Se em um primeiro momento a tia-avó o resgata e o leva de volta para Hargeisa na Somalilândia, mas um novo incidente o faz sair em busca do pai.


Meninos do mercado dos mais diferentes tons, credos e línguas se reuniam na praia para brincar, tomar banho e lutar.


E assim passamos a seguir a vida de Jama de outubro de 1935 até setembro de 1947, em uma jornada por Djibouti, Eritreia, Sudão, Egito e Londres, onde é possível acompanhar a presença de soldados em território africano, os efeitos devastadores da guerra e a reconstrução quando tudo chegou ao fim.


Os Personagens

Jama é o personagem principal da história, mas isso não significa que os outros apenas orbitem ao seu redor, pois apesar de todos os percalços, ele teve vários anjos em sua vida.

Mas é através das suas lembranças que conhecemos o amor de Ambaro e Guure, os pais de Jama, cujos perfis eram muito diferentes dos seus clã, a ponto de Ambaro desafiar a família para se casar com Guure.


Me perdoe, meu bebê serpente, e não viva a vida que eu vivi, você merece coisa melhor.


Já Abdi e Shidani são tio e sobrinho com pouca diferença de idade, crianças que se aventuram nas ruas de Áden com Jama e mais tarde o reencontro em um acampamento militar. Dupla que ganhou o meu coração e o deixou pesado na inútil luta nas montanhas de Eritreia.

Entre os que ajudam, compartilhando um pouco de sua história, estão Jinnow, Idea e Amina, Jibreel e Lorenzo, entre outros, alguns bons, outros que não são exatamente flor que se cheire, mas que de certa forma permitiram a sobrevivência ao longo caminho do menino que vira homem em meio aos obstáculos.


Nenhuma pessoa morre de verdade enquanto há outras que se recordam dela, que têm afeto por ela.


Há também outros personagens de presença marcante que não irei nomear justamente para não estragar a expectativa de leitura, pois mesmo para os mais curiosos é necessário deixar alguns elementos surpresas.

Mas o fato é que ninguém aparece à toa, todos representam um povo, uma determinada situação, um momento da história, enriquecendo ainda mais o relato. Seja por um capítulo ou aparecendo e desaparecendo conforme o vento levava Jama.


A narrativa de Natifa Mohamed

Natifa Mohamed não é somente a escritora, mas também a narradora da história que nos conta, ou como ela diz o griô do seu pai. E com razão, pois a autora a colocou no papel para contar ao mundo as aventuras e desventuras não só do pai-herói, mas também das comunidades que ele percorreu.

Não um herói de espada e capa, ou romântico que arranca suspiro das donzelas. Mas de um menino que sobrevive à miséria, a violência, a humilhação, as perdas afetivas, e mesmo assim segue em busca dos sonhos, do destino dourado prometido e tantas vezes repetido pela sua mãe.


O ar exalava uma corrupção, um aroma misturado de sordidez, suor e fezes de cabra.


E o seu olhar é gentil e poético, as vezes terno em meio a dor. Pois onde a fome e morte se unem o sofrimento pulsa mais forte que as batidas do coração.

Ao mesmo tempo ela nos dá uma visão dos costumes, da existência de hierarquia mesmo entre os mais pobres, a divisão em clãs, as crenças, alguns rituais, as festas e as comidas.


À sua frente, havia as maiores montanhas e colinas que já vira, subindo além das nuvens.


Somado a isso temos uma forte crítica ao colonialismo europeu no continente africano, assim como uma visão forte do comportamento dos vencedores após a guerra com os colonizados e as vítimas do regime nazista.


O que eu achei

Eu gostei muito do livro, me senti viajando junto com Jama pelas estradas, o frio na espinha em cada situação complicada, mesmo sabendo desde o início que ele iria sobreviver, afinal Natifa nos revela logo de início que é o pai quem lhe conta as histórias.

Também achei ele bem escrito, fluído, do tipo que desperta a curiosidade em saber como ele se livrou de determinada enrascada, o que aconteceu após algum incidente, o que Jama havia feito a seguir. 


Queria encostar na barba por fazer do pai, traçar o único rosto que tinha semelhança com o seu.


E talvez por isso a única coisa que me incomodou foi o final, pois como a história termina em 1947 e pelos agradecimentos e local de nascimento da própria autora é possível ver que outras mudanças aconteceram na vida de Goode, o que me deixou com o sentimento de que deveria haver uma continuação.

Fiz uma pesquisa rápida e a princípio não encontrei, mas se alguém souber, por favor, deixe o título nos comentários.


Achava tudo interessante agora, fascismo, comunismo, anarquismo, só conseguia confiar no que era claramente idiota.


E como não poderia deixar de ser, eu naturalmente recomendo a leitura. Com certeza irá agradar quem quer saber mais sobre a África, para quem gosta de uma aventura baseada em histórias reais, para quem fica mais esperançoso ao ler superações, para quem gosta de acompanhar relatos extremamente humanos.

Menino Mamba.Negra
Black Mamba Boy
Nadifa Mohamed
Tradução: Marina Della Valle
TAG - Tordesilhas
2010 - 284 páginas

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