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quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Se adaptar


Sinopse: “UM DIA, NUMA FAMÍLIA, NASCEU UM MENINO INADAPTADO”. Assim começa a história do menino de olhos negros que flutuam para o nada, eternamente deitado, e dos seus três irmãos. Em meio à natureza poderosa das montanhas, são as pedras do muro da velha casa da família que testemunham suas trajetórias. O amor absoluto e protetor do mais velho, a rebeldia que a do meio assume para rejeitar a dor, a chegada do mais novo que cresce à sombra das memórias. Um livro magnífico e luminoso, sobre o laço infinito entre irmãos e a inesgotável capacidade humana de se adaptar.



No mês de maio/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da editora Ana Lima Cecílio, que foi o livro Se adaptar da escritora francesa Clara Dupont-Monod. O mimo foi uma obra inédita produzida em família de Rafael Coutinho e Laerte.

No sul da França, em uma região que a natureza e as montanhas se fazem presente, uma família tem sua vida totalmente alterada após o nascimento do terceiro filho.

Um dia, numa família, nasceu um menino inadaptado. Ainda que de uma crueldade degradante, é esse termo que dá a real dimensão de um corpo mole, de um olhar móvel e vazio.


O menino que nasce com uma condição não nomeada que o impede de se movimentar e interagir com o humano, gerando sentimentos diversos em seus pais e seus dois irmãos.

E é sobre esta necessidade de se adaptar a quem nasceu inadaptado que irá gerar relações complexas e diferentes do irmão mais velho e da irmã do meio.

Há milhares de anos, temos sido as testemunhas. As crianças são sempre as esquecidas das histórias.


Tudo em meio em uma narrativa sensível, que ao mesmo tempo que nos coloca no lugar do outro, nos enche de perguntas.


A escrita de Clara Dupont-Monod

A escritora e jornalista francesa Clara Dupont-Monod é conhecida por suas críticas literárias e a escrita sensível de seus livros, que tiveram como resultado duas premiações, inclusive o Prix Femina em 2021 por Se adaptar.

Em Se adaptar ela coloca as pedras para contarem a história do menino inadaptado e seus irmãos. Dividido em três partes, o foco está totalmente nos irmãos, sendo necessário estar atento aos detalhes para perceber o impacto sofrido também pelos pais.

Muito lhe disseram que o tempo cura. Na verdade, ele o mede durante essas noites, e o tempo não cura nada, muito pelo contrário.


As mudanças naturais no local onde a família são outro ponto de atenção, servindo tanto como um anúncio do que está por vir como uma metáfora de todas as transformações que ocorrem com os personagens que começam crianças e chegam à idade adulta na narrativa.

A escrita é ao mesmo tempo delicada, poética e real. Existe uma humanidade latente em cada um dos seus personagens, provocando o leitor sobre de que forma ele se adaptaria se vivesse situação semelhante.


O que eu achei de Se adaptar

Ao contrário do que é dito, não me pareceu que eram as pedras que estavam contando a história. Só me lembrava que eram elas quando as mesmas eram nominalmente citadas. Como se faltasse algo para gerar essa conexão, dando a impressão de ser uma narrativa simples em terceira pessoa.

No geral achei a narrativa uma mistura de tristeza, resiliência e revolta com todo o peso físico, financeiro e emocional de criar uma criança que não irá interagir com o mundo conforme o esperado.

Os primeiros enfrentavam, o segundo foi se fundindo. Para ela, não sobrava nada, nenhuma energia para sustentá-la.


O resultado de tudo isso é silêncio, solidão, negação e como diz o título, adaptação. Motivo pelo qual apesar do livro ser curto, aos poucos ele foi me gerando um cansaço, principalmente quando cheguei na última parte.

Cansaço semelhante ao encontrado muitas vezes nesta visão do que se passa dentro de uma família que tem as ilusões quebradas por algo que torna o seu filho inadaptado para a vida em sociedade.

Um senso de dever as guia. Elas vão estar sempre ali, vigias na noite escura, vão se virar para não sentir nem frio nem medo.


E são os filhos que acabam representando as diferentes reações. Começando pelo irmão mais velho que abdica de tudo para dar suporte e sente a dor de forma mais latente a ponto de se fechar para o mundo. E os pais simplesmente parecem não ter tempo de ver isso.

A irmã do meio é quem se envergonha e acaba por se revoltar por não ter mais a mesma rotina de antes. Mas seus atos já conseguem atrair mais os olhares tão ocupados com as dificuldades do dia-a-dia.

Sentia que não devia ser esse o seu papel, mas sentia também que o destino gosta de bagunçar os papéis e que era preciso se adaptar.


E por fim, tem o irmão que nasce depois e por influência da própria imaginação acaba indo parar a sombra do menino inadaptado. O que me gerou mais dúvidas e curiosidade do motivo pelos pais permitirem ou não perceberem isso. Para logo em seguida me lembrar que quando se trata de seres humanos quem está de fora enxerga melhor do que quem está dentro.

No geral é um livro que mexeu com a minha empatia ao mesmo tempo que gerava questionamentos e reflexões. Motivo pelo qual deixo a dica de leitura aqui. 


Se adaptar
S'adapter
Clara Dupont-Monod
Tradução: Diego Grando
TAG - Dublinense
2025 - 160 páginas
Publicado pela primeira vez em 2021


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

As histórias de Pat Hobby


Sinopse: Na Hollywood dos anos 40, o decadente Pat Hobby luta para conseguir o próximo trabalho. Sempre tramando alguma coisa na surdina, ele tenta fazer o jogo para subir de escalão, com um olho na mesa dos poderosos e outro nas secretárias. Assim, ele embarca para uma humilhação cada vez maior, sofrendo reveses tanto no campo profissional quanto no romântico. Essas histórias, publicadas na revista Esquire e inspiradas pelo período quando Fitzgerald viveu como roteirista, formam um relato vigoroso de Hollywood e seus tipos, em caminhos que vão da fama efêmera à implacável sarjeta.

Com 17 histórias que podem ser lidas separadamente em formato de conto ou como um romance curto, o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald presenteia os leitores com as divertidas, sem noção e visão do personagem Pat Hobby.

De roteirista bem remunerado que torrava o seu dinheiro em bebidas, mulheres e futilidades como se ele fosse infinito, o que acompanhamos é a sombra do homem que agora consegue um trabalho aqui e outro ali, muito mais como revisor do que no seu papel original de roteirista, indo todos os dias no estúdio para comer e dormir, e nos intervalos buscando algo que lhe renda alguma coisa.


O autocontrole. no fundo, pelo menos, era norma por ali. Já não era ruim o bastante estar no trabalho na véspera de Natal?


Com vinte anos de experiência, sua cabeça dói demais quando ele lê, para economizar ele dispensa a secretária em véspera de natal para não comprar presente, trabalha em feriado para tentar renovação - que muitas vezes não vem - e tem o seu trabalho considerado antiquado pelos revisores mais jovens.

Há também os trabalhos realizados fora dos estúdios, a relação entre produtores, diretores e roteiristas, e claro o seu relacionamento com as mulheres.


A escrita de F. Scott Fitzgerald

Os contos publicados entre janeiro de 1940 e maio de 1941 possuem a mesma fluidez, ironia e deboche elegante que eu já havia encontrado em outro livro de F. Scott Fitzgerald, o clássico e conhecidíssimo O Grande Gatsby.

Utilizando a narrativa em terceira pessoa para nos contar as desventuras de Pat Hobby, é possível ver as fissuras do mundo dourado das produções hollywoodianas, com o conhecimento de quem também foi roteirista. 

Era roteirista, mas nunca escreveu muita coisa, ou tampouco leu todos aqueles "originais" que serviam de base para o seu trabalho, pois sua cabeça doía quando lia demais.


Conhecido por retratar a sociedade norte-americana, seus contos, como seus romances, mostram sequencias que vão do engraçado ao inacreditável, o que despertam facilmente aquele desejo de ler mais um. 

Mas não confunda leveza com histórias bobas, pois a escrita captura o leitor justamente pela inteligência de suas ironias.


O que eu achei de as histórias de Pat Hobby

Me surpreendi com o livro, leve e divertido, caminhei junto com Pat Hobby pelos estúdios que são sua casa enquanto ele faz das suas. Não senti falta do seu antes, quando era um roteirista de sucesso do cinema mudo. Mas fica claro que a transição para o falado não fez bem a sua carreira, e por isso acompanhamos apenas a sua decadência e sobrevivência, motivos pelo quais ele vive situações surreais enquanto sente saudades dos bons tempos.

Nas páginas dos contos são referenciados os nomes de astros e escritores famosos, assim como a rivalidade dos roteiristas antigos com os mais jovens, as diferenças salariais, e o que ocorre com quem consegue não ter bons relacionamentos profissionais, não se atualiza na profissão ou fica apenas no corpo mole. No caso de Pat ele sintetiza as duas últimas, e só se mantém pela sua rede de contato.

Por ser da Hollywood do passado, ele entendia suas piadas, suas vaidades e sua hierarquia social, com as repentinas oscilações.


Também achei interessante a quantidade de vezes que a idade do personagem é citada, tornando-a difícil de esquecer: 49 anos, como que para contrastar com a imaturidade de Pat, cuja descrição física nos remete muito mais a velhice do que a juventude.

Uma curiosidade da edição que eu li é que cada história tinha o título traduzido em português, o original em inglês e o mês e ano que ela foi publicada originalmente.

A benzedrina e grandes quantidades de café o acordavam pela manhã, o uísque o anestesiava à noite.


Resumo da ópera eu adorei este livro de contos, achei ele perfeito para o período de férias, ao unir leveza e risadas. Ficando a dica para quem gosta de uma pitada de ironia nas páginas que vira.


As histórias de Pat Hobby
The Pat Hobby stories
F. Scott Fitzgerald
Tradução: Hilton Lima
TAG - Dublinenses
2022 - 160 páginas
Publicados originalmente na Revista Esquire entre os anos de 1940 e 1941

terça-feira, 29 de agosto de 2023

A Mulher do Século



Sinopse: Mame Dennis é uma mulher sofisticada e extravagante que, no final dos anos 1920, vive com ousadia e alheia ao que os outros pensam. Porém, quando seu irmão morre, ela se torna a guardiã legal do jovem sobrinho, o educado Patrick. Apesar do choque de temperamentos, pouco a pouco eles desenvolvem uma relação de carinho e amizade, enfrentando juntos não apenas as convenções sociais, mas também a Grande Depressão norte-americana.

No mês de Junho/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora italiana Ilaria Gaspari A Mulher do Século, do escritor americano Patrick Dennis/Edward Everett Tanner III. O mimo foi um jogo de cartas.

Em um dia de chuva o Patrick adulto se depara com uma antiga edição da revista Digest e um artigo escrito por um famoso escritor, que trata da personagem mais inesquecível que ele teria conhecido. Mas já nas primeiras linhas do texto o narrador tem despertado suas memórias com a pessoa mais inesquecível que surgiu em sua vida: tia Mame.

Personagem mais inesquecível? Faça-me o favor, esse escritor não faz a menor ideia do que está falando!


Tudo começa quando Patrick tinha 10 anos, órfã de mãe, o pai faz um testamento informando quem cuidara do menino e quem administrará suas finanças. Há uma série de condições, como o filho ser criado como protestante e ser enviado para escolas conservadoras.

A morte paterna não tarda a chegar e Patrick acompanhando pela empregada da família se vê arrumando as malas e indo para Nova York. Mas ao ir para a casa da tia então desconhecida, um novo mundo se abre para o menino, que passa a viver diferentes aventuras com uma mulher realmente a frente do seu tempo.

Mas Tia Mame não era de admitir derrotas. Existia nela um certo espírito insolente, típico de uma escoteira tagarela.


De escolas experimentais, passando pelo crash da bolsa que tornou milionários em pobres em poucos dias, casamento, ida para a universidade, guerra mundial, entre outros eventos, o narrador personagem traz além de uma comparação com a personagem inesquecível da revista a sua visão de por que sua tia é a mais única entre todas.

Tudo com uma ironia e excentricidade que podem arrancar boas gargalhadas e obrigar o leitor a concordar que tia Mame é sim uma personagem inesquecível.


A escrita de Patrick Dennis


A primeira pegadinha de A Mulher do Século está no nome do autor, que sim, é o mesmo do narrador personagem e um dos vários pseudônimos do autor norte-americano Edward Everett Tanner III, que foi um dos autores mais vendidos da metade do século 20 e chegou a ter três de seus livros de uma só vez na lista dos mais vendidos do New York Times.

Em A Mulher do Século a narrativa utilizada é em primeira pessoa, sendo o relato das memórias de Patrick Dennis em relação a várias etapas da sua vida, do final da infância até a vida adulta, sempre com a presença de sua Tia Mame.

Quando a Grande Depressão a atingiu, ela se jogou em muito mais carreiras do que a Personagem Inesquecível e, de um jeito ou de outro, ela também conseguiu nos salvar.


A escrita é uma mistura de ironia, deboche, drama e comédia. Gerando um livro leve e engraçado, ao mesmo tempo que crítico e reflexivo. Pois ele relata não apenas os momentos históricos das épocas vividas pelos personagens (como o crash da bolsa, a segunda grande guerra, a conquista da autonomia feminina, conflitos entre o norte e sul dos EUA, entre outros assuntos abordados) como também o estilo de vida da alta classe nova iorquina. 

Outro ponto interessante no livro é a sua divisão, ele é dividido em dez capítulos longos, mas muito redondos com início, meio e fim da memória contada. Se fosse transformado em uma minissérie, os capítulos já estariam previamente distribuídos. Aliás, a escrita de A Mulher do Século tem bem o estilo cinematográfico, sendo muito fácil ao leitor visualizar as cenas e entrar em sintonia com os diálogos.

Ela nunca revelava sua idade exata e, em um documento oficial, uma vez, escreveu "acima de vinte e um", o que ninguém pareceu se importar de questionar."


Aliás, A Mulher do Século já foi adaptado para o cinema - um dos filmes está disponível no Youtube para quem ficou curioso - como também peça teatral em um musical da Broadway.



O que eu achei de A Mulher do Século


Eu adorei a mistura de humor e crítica encarnada por uma mulher muito à frente do seu tempo - inclusive do nosso atual. Tia Mame é uma personagem que encanta e enlouquece as pessoas a sua volta, seja com o seu estilo de encarar a vida, seja pelo toque de sorte combinado com suas escolhas.

Em cada capítulo uma surpresa que podia ter um toque surreal, sem noção, superação ou tudo junto misturado. Em paralelo é muito bonita a forma como a tia e o sobrinho se conectam, apesar de personalidades tão diferentes, criando laços definitivos.

A carreira literária de Tia Mame surgiu mais como uma espécie de terapia, para tirá-la da depressão na qual ela havia mergulhado ao se tornar viúva.


Dei muita risada com a escola diferentona escolhida pela tia Mame para Patrick na infância e o desespero do Sr. Babcock - administrador da herança do menino - ao conhecer o local. O momento sogra sendo sogra se unindo a ex do filho Burnside, para separa-lo de Tia Mame me garantiram gargalhadas pelas situações inusitadas.

Mas também tive meu momento de agonia em um capítulo que Tia Mame resolve adotar órfãos de guerra e achei o capítulo das irmãs fantasmas - não, não tem fantasma na história, mas apelidei assim pelas irmãs andarem sempre de branco - o mais fraco. Mas não desnecessário, pois ele tem motivo para estar ali.

Quer dizer, existem certas coisas que você faz do jeito certo ou é melhor você nem fazer.


No geral eu adorei, me diverti e achei a leitura extremamente agradável. Me apaixonei pela Tia Mame, o que me faz recomendar e muito a leitura.


A Mulher do Século
Auntie Mame
Patrick Dennis / Edward Everett Tanner III
Tradução: Davi Boaventura
TAG - Dublinense
Edição 2023 - 352 páginas
Publicado originalmente em 1955

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A boneca de Kokoschka



Sinopse: Em uma Dresden devastada pelos bombardeios, Bonifaz Vogel esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. A partir daí, vão entrando em cena diversos personagens, incluindo Mathias Popa, autor de A boneca de Kokoschka, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka e da sua boneca, feita à imagem e semelhança da sua amada. E dessa singular galeria de vidas, Afonso Cruz compõe um irônico e magistral jogo de matrioskas, no qual a realidade se confunde com a ficção e cada história é ressignificada pelo olhar do outro.

Em meio a segunda guerra mundial, o jovem Isaac Dresner corre desesperadamente para salvar a sua vida. É na loja de pássaros onde seu pai havia construído uma cave que ele encontra a salvação ao se esconder no local. Um dia, passa a falar de seu esconderijo com Bonifaz Vogel, o dono do local, que curiosamente obedece a voz sem dono, gerando uma curiosa relação.

Com o fim da guerra, Isaak apesar de ser o mais jovem, adota Bonifaz, ao grupo se une Tsilia, que os encontrou por acaso na rua após fugir do local onde morava. Mudam de país para se reconstruir através da pintura e de uma livraria. E é o encanto de Isaak pelos livros que o faz cruzar com o escritor Mathias Popa.

Sabia que aquilo acontecia dentro da sua cabeça, mas tinha a estranha sensação de que as palavras vinham do soalho, passando-lhe pelos pés.


E este encontro irá gerar um livro dentro de um livro, onde o foco é Adele Varga, que após a guerra contrata um investigador para descobrir os mistérios que sua avó escondida. A chave de tudo é o autor que se torna personagem na própria história e transforma tudo em um jogo de espelho, quando as semelhanças entre a realidade da ficção de Afonso Cruz começam a ser refletida na ficção de Mathias Popa, e vice-versa.

E é neste romance também que o leitor irá encontrar a explicação do título, ou melhor, toda a origem da criação da boneca de Kokoschka.


A escrita de Afonso Cruz


A boneca de Kokoschka recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura em 2012, mas este não é o único motivo pelo qual o livro do escritor português Afonso Cruz merece ser lido.

Com uma escrita que mistura agilidade, reflexões, cenas fortes, toques cômicos e lirismo, ele divide a sua boneca de Kokoschka em três partes mais o romance de Mathias Popa. Sendo a primeira parte referente a guerra, a segunda parte com as memórias de Isaac - e por tabela de Bonifaz e Tsilia - e seu encontro com Popa, o livro de Popa e a última parte onde temos um novo personagem.

As pessoas diziam que ele era estúpido e ele concordava acenando com a cabeça e passando os dedos no queixo.


Os capítulos são curtos, rápidos, as vezes fortes, outras vezes objetivos e também há momentos em que se explica um pouco mais sobre os personagens. A narrativa em sua maioria está em terceira pessoa, havendo alguns momentos nas memórias e cartas que o autor utiliza a narrativa em primeira pessoa.

O resultado é um livro envolvente que exige atenção para não se perder nos acontecimentos e reviravolta, pois se o início da história parece mais simples, no decorrer das páginas ela vai ganhar uma complexidade que não permite devaneios entre os parágrafos.

 

O que eu achei de A boneca de Kokoschka


O livro tem logo de início a cena mais emblemática para mim, Isaac Dresner brincando com um amigo vê o mesmo ser baleado na cabeça por um soldado alemão, e quando o garoto vai ao chão, a sua cabeça cai justamente no pé direito de Isaac. O peso da cena trágica o acompanhará para sempre, já que ele passa a coxear ligeiramente na perna direita, carregando eternamente os efeitos de uma guerra.

Já para o final achei surpreendente o cuidado pelos detalhes da obra de Mathias Popa, já que o livro dentro do livro é completo, com direito a capa, capítulos e apresentação do autor. E claro, o nome da editora do Isaac.

E, se o que é harmonioso e proporcional é fácil de reconhecer, donde vem essa atroz desproporção que vemos no mundo?


E apesar de ter sentido um certo estranhamento e perdido um pouco do meu ritmo de leitura quando comecei a ler o livro dentro do livro, no geral eu gostei bastante da obra.

Principalmente da primeira parte que eu achei triste e ao mesmo tempo formidável o fato do menino se comunicar pelo chão e o senhor simplesmente obedecer a aquela voz. O cuidado do menino que passou a auxiliar até nos negócios da loja e no fim da guerra se sentia pai de quem o ajudou sobreviver.

É assim o nosso destino, fazemos curvas e parábolas para que ele se cumpra com perfeição.


Pois existe muita humanidade entre os personagens, no auxilio mútuo e em suas buscas após anos de muitas perdas, e na eternização da memória através das histórias.  

Um livro que me chamou a atenção pelo resumo e não decepcionou, ficando aqui a minha recomendação de leitura.


A boneca de Kokoschka
Afonso Cruz
Editora Dublinense
Edição em Português de 2021
2010 - 288 páginas

terça-feira, 9 de maio de 2023

Longe das Aldeias



Sinopse: Um jovem de dezessete anos, diante da doença da mãe, decide desfazer um passado de mentira e de ilusão a respeito da identidade do pai. As memórias, trazidas pela tia, percorrem os horrores da guerra, a fuga da aldeia e do país, a reconstrução da família em solo brasileiro. Frizero concentra a carga dramática da história no que ela tem de mais importante, que é a complexidade do ser humano, capaz de matar para criar, de mentir para salvar e de perdoar para seguir em frente.

Uma mãe que não se encontra mais no tempo presente leva o filho jovem ao passado junto com os seus delírios. Usando a língua da sua terra, o rapaz acredita ouvir o nome do pai desconhecido antes de ela retornar ao seu sono febril. Fazendo-o recordar de todas as suas incertezas.

Pois o passado de sua pequena família é feito pela sua própria imaginação. É na sua mente que ele deseja a pátria e a gente de sua mãe e sua tia com base nas únicas três fotografias que sobraram de uma fuga apressada durante uma guerra. Em paralelo ele pensa na utilidade de ter uma figura masculina, seja através de irmãos ou do pai desconhecido. Pois assim teria ajuda para manter a mãe em segurança durante as suas crises.

Fiquei mareado por ela o resto da noite, com o nome do meu pai transtornado a minha vigília. Recordar sempre me deixa a boca amarga e o coração oco.


Mas quase duas décadas depois dos acontecimentos cabe a Tia Mirna, a responsável pelo trio que aqui se refugia revelar e complementar as peças faltantes desta história.


A escrita de Robertson Frizero

O autor brasileiro Robertson Frizero escolheu a voz de Emanuel para compartilhar com o leitor em uma narrativa em primeira pessoa as descobertas que faz não somente sobre os eventos envolvendo a sua família, como da sua própria origem em uma história de memórias que o preparam para um futuro ainda desconhecido.

Acompanhado pela tia Mirna, sua mãe Marija e seu amor adolescente Madalena, é sem rebeldia ou explosões, mas com doçura e sensibilidade que o vemos trazer memórias da própria infância e varrer pouco a pouco cada mentira que ajudou as duas irmãs a sobreviverem uma guerra, para se defrontar com a verdade nua e crua, que nenhuma criança estaria preparada para encarar.

Pouco conheço do que quero relatar. Sei apenas o que ouvi dos lábios de mamãe, pedaços de história colhidos nos poucos momentos de ternura da minha infância.


Com capítulos curtos, Frizero consegue unir uma escrita objetiva e forte com gentileza e carinho. O que gera um equilíbrio entre a dor e a tristeza com o perdão e a esperança de viver outro dia, pois já que estamos aqui, vamos sonhar e criar planos. 

Pois mais do que tudo Longe das Aldeias fala de sobreviver as tragédias de uma guerra, administrar suas perdas e efeitos colaterais, e no caso de Mirna e Marija de perder todos os seus pontos de referência. O que torna o feito das duas ainda mais impressionante.


O que eu achei de Longe das Aldeias

Eu ganhei este livro quando assinava as duas modalidades da TAG em um final de ano. E a minha primeira surpresa foi ver o nome de um antigo professor de inglês na capa. A segunda surpresa foi o próprio livro, o primeiro romance de Frizero encanta por seus personagens e escrita.

Pois quando a história começa não há nada indicando o caminho. Temos uma mãe, Marija, doente e vivendo entre lembranças do passado e o esquecimento do presente, uma pequena família de imigrantes onde duas mulheres fugiram de uma guerra de um local desconhecido. e um rapaz que só conhece o restante de seus familiares através das histórias da tia Mirna.

Chegamos a esta terra nova, mas vivemos em um casebre obscuro, ainda no vilarejo antigo dos meus avós.


Mas conforme a tia Mirna resolve aos poucos tirar o véu que esconde o trajeto das irmãs até ali, tanto Emanoel quando eu fomos aprisionados em uma história de muita dor e sobrevivência. Aqui foi a fantasia e a ilusão que mantiveram Marija viva e capaz de criar um menino gerado em meio ao caos da guerra, já que a história real é insuportável de encarar.

E é essa menina que acaba envelhecendo muito mais do que os dezoito anos corridos no período da narrativa que nos faz pensar sobre o porquê devemos lutar sempre pela paz. Pois na guerra não existem vítimas maiores que os inocentes, onde mulheres, crianças e os mais velhos são subjugados pelos métodos mais desnecessários.

Faltava-me a caverna escura para me esconder, por sete dias e sete noites, das memórias reveladas pela febre intermitente de minha mãe.


Por isso a minha recomendação deste livro que é rápido de leitura, mas muito intenso em suas reflexões. Confesso que gostaria de escrever muito mais coisas, mas não quero estragar as descobertas de quem o abrir, pois o risco de spoiler é grande, então só digo: leiam. 


Longe das Aldeias
Robertson Frizero
Dublinense
2015 - 96 páginas


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pheby



Sinopse: Pheby Delores Brown é filha de uma mulher escravizada com o dono da fazenda onde vive. A ela é prometido que, ao completar dezoito anos, poderá ir para uma escola e viver a liberdade não reservada à mãe. Mas isso não acontece: enviada para a prisão dos Lapier - também conhecida como Terra do Diabo -, Pheby se torna a companheira do homem que comanda o local, uma posição que lhe dá aparente autoridade, mas também a obriga a se relacionar com o próprio diabo - e isso implica uma série de sacrifícios para proteger a si mesma e aqueles que ela ama.

Recebi em Julho/2022 pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Pheby da autora norte-americana Sadeqa Johnson. O mimo oficial foi o livro Os sofrimentos do jovem Werther, mas como ele foi o mesmo para as duas linhas de assinatura, eu recebi um segundo livro extra chamado Longe das Aldeias.

O ano é 1850. Pheby tem dezesseis anos, vive na plantação dos Bell no estado da Virgínia, é filha de Ruth - escrava da plantação - com o Mestre Jacob. Apaixonada por Essex, a menina foi educada pela tia Sally, irmã de Jacob, que ensinou a menina a ler, escrever e tocar piano.

Mama acreditava que a noite de lua cheia era a noite mais fértil do mês, que tudo o que a lua tocava era um receptáculo do poder de Deus.


Com a morte de outra escrava que trabalhava na casa grande, ela é chamada para substituir o atendimento a Sra. Delphina, esposa do mestre e que está grávida. Mas ao contrário dos outros, ali ela não encontra gentileza, e recebe os primeiros tapas da mulher que guarda muita raiva da filha bastarda do marido. 

Situação que Pheby tenta relevar, pois acredita na promessa do Mestre que ao completar dezoito anos será libertada e enviada para outra cidade para estudar.

Quero ela lá em cima, no Norte, onde a liberdade dela importa alguma coisa.


Mas uma sequência de acontecimentos infelizes ocorre, e invés da liberdade, Pheby é enviada para uma prisão, onde para sobreviver precisa se sujeitar aos caprichos do seu comandante, um homem cruel, ao qual nunca se sabe como irá agir. E para isso, mais do que nunca, ela vai precisar das palavras da mãe, que lhe diziam que ela era escrava no nome, mas não na cabeça, pois não era mercadoria de ninguém.


A escrita de Sadeqa Johnson

A autora norte-americana Sadeqa Johnson utiliza a narrativa em primeira pessoa para dar voz a Pheby e assim acompanhar não só os percalços da personagem, como conhecer o funcionamento do sistema escravocrata na parte sul dos Estados Unidos, a liberdade que se encontrava na parte norte e naturalmente os acontecimentos históricos.

Um fato muito interessante do livro é que apesar de ser uma ficção, a inspiração veio de personagens reais. Ao percorrer a Trilha dos Escravos de Richmond a escritora tomou conhecimento da história da cadeia dos Lumpkin, que pertencia a Robert Lumpkin, um homem conhecido como o Mercador Maligno, que foi casado com uma ex-escrava chamada Mary.

Os brancos sempre querem que a gente se deite com eles e depois deixam os problemas pros outros resolverem.


E o prisioneiro chave desta história, ao qual eu não vou revelar o nome para não estragar a sua leitura, foi inspirado em Anthony Burns, o encarcerado mais famoso da prisão dos Lumpkin.

Ao imaginar como teria sido a vida destas pessoas em um lugar tão inóspito, surgiu Pheby, um livro que mistura a face cruel da escravidão ao mesmo tempo que nos mostra o poder dos laços humanos. E isso é o grande acerto do livro, pois sem o segundo, seria muito difícil ler o primeiro.


O que eu achei de Pheby

Eu achei a escrita de Sadeqa Johnson muito envolvente, existe uma complexidade nas personagens que a tornam muito humanas. Mesmo os piores conseguem demonstrar em determinadas circunstâncias pequenos atos de amor, o que me levava a pensar no porque haver pessoas que preferem cultivar a crueldade, de se satisfazer mais com a dor do que com um sorriso, como que negando a si mesmo a ser feliz.

A personagem principal, Pheby, é muito bem construída. A resiliência em todas as situações para proteger os filhos, principalmente o primogênito, é ao mesmo tempo impressionante e dolorida.

Que todos os teus piores medos se tornem realidade, e que todo o mal provocado pela tua alma se volte contra ti multiplicado por dez.


Pois sim, ela é uma mulher diferente por tudo que absorve não só em relação aos estudos, mas as regras de uma vida que está sempre contra ela. Uma mulher inteligente, criada por uma mulher forte, que consegue ter uma visão de tudo o que está ocorrendo para assim garantir a sua sobrevivência e também de quem ela ama. 

Também gostei muito do complemento da revista, principalmente a explicação sobre o colorismo, que me ajudou a entender a visão americana na hora de classificar as pessoas, aos quais eles consideram as origens e não só a cor da pele em si, como ocorre no Brasil. O que me fez reavaliar a visão que eu havia tido ao ler A metade perdida, pois sim, agora eu compreendi todos os questionamentos do livro, que na época não fechava pra mim.

Eu sabia que aquilo não era o fim. No máximo, parecia ser o início, e eu não sabia se deveria sentir alívio pela bondade do cavalheiro ou medo mortal do que estava prestes a me acontecer.


E assim deixo a dica de um livro forte, reflexivo, de um passado bastante recente, cuja narrativa tem como efeito colateral apertar o coração enquanto não se compreende o quanto a humanidade pode ser desumana.


Pheby
Sadeqa Johnson
Tradução Davi Boaventura
TAG - dublinense
2021 - 318 páginas

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terça-feira, 23 de agosto de 2022

Casas Vazias



Sinopse: Uma criança desaparece em plena luz do dia. De um lado desse vazio brutal, o instante de desatenção de uma mulher que nunca quis ser mãe. Do outro, uma mulher que deseja ser mãe a ponto de cometer um ato desesperado. Entre esses dois pontos de vista, acompanhamos uma narrativa que ecoa as diversas formas de maternidade, das impostas às almejadas, do seu papel social à sua natureza primordial, em uma trama visceral e inquietante.

No mês de Maio/2022 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Casas Vazias da escritora mexicana Brenda Navarro, indicação do também escritor e editor Emilio Fraia. O mimo foi um acesso de 60 dias a uma plataforma de streaming - ao qual eu não usei devido a obrigatoriedade de informar dados de pagamento antecipadamente - e um pacote de pipoca de caramelo e flor de sal muito bom da Mais Pura.


A História

Entre o aventureiro e o que oferece uma vida estável, uma mulher que não deseja ter filhos opta pelo segundo. Em sua vida de classe média no México, casada com um europeu de pele branca, ela tem algumas regalias. Com o tempo ela resolve engravidar, e quando está prestes a dar à luz sua cunhada é assassinada pelo marido, fazendo com que ela se torne repentinamente mãe de dois. 

Daniel desapareceu três meses, dois dias e oito horas depois do seu aniversário. Tinha três anos. Era meu filho.


Na rotina do dia-a-dia ela volta a sentir vontade de retornar para a vida descompromissada e assim retorna aos braços do aventureiro, agora um amante com data marcada para partir em definitivo. O medo de perder aquele alívio em seu cotidiano a faz se distrair em uma tarde no parque. É no celular, em uma conversa com ele, que toda a sua atenção está focada, enquanto outra mulher, encantada pela beleza do seu filho, um menino de três anos, o leva.

A raptora vive na área pobre do México, esforçada, é o tipo de mulher que se vira nos trinta trabalhando e juntando dinheiro, a ponto de conquistar a própria casa e não dever para ninguém, muito pelo contrário. O homem com quem ela mora não quer lhe dar a tão sonhada filha, sendo um dos fatores que a faz se encantar pelo belo menino, e passa ver nele a possibilidade de construir uma família feliz.

O que foi que aconteceu? Vi pouco. E, embora eu tenha andado entre as pessoas, gritando o nome dele repetidas vezes, meu ouvido ficou surdo.


Mas a maternidade repentina vira tanto a sua vida de cabeça para baixo quanto da mãe consumida pela culpa da criança perdida.


A escrita de Brenda Navarro

Duas narradoras, dois pontos de vista em primeira pessoa, em comum uma criança de três anos. O lado B da maternidade na figura do pequeno Daniel/Leonel. 

As duas mulheres não possuem nome, assim como toda mulher que encara o desafio da maternidade, que deixa de ser alguém e passa a ser a mãe da(o) fulana(o). Aqui temos a mãe de Daniel e a raptora que mudou o seu nome para Leonel. Em comum, os desafios de criar uma criança e as culpas e dores que envolvem a maternidade.

Não ser vida, não ser fonte, não deixar que o mito da maternidade se estendesse em mim.


Um recurso que a autora Brenda Navarro utilizou que eu achei muito interessante é a diferença de tempo nas narrativas. A mãe navega entre algumas lembranças do passado, ao mesmo tempo que o seu presente alcança o futuro muito mais rapidamente. Sendo ela sempre a primeira a falar nas três partes da história.

Quem vive o presente mais lentamente, nos respondendo parte das dúvidas que surgiram com a mãe, é justamente a raptora, complementando a visão de quem está de fora, enquanto as personagens seguem tateando, ou quem sabe nos enganando.

Todos nós queremos o futuro, porque é uma promessa de que, em algum momento, você ficará livre da estupidez.


Mas além da maternidade em si, temos uma pincelada da paternidade ausente, pois os seus companheiros são homens que não desejam participar dos desafios cotidianos que é criar e educar uma criança, que se esquivam em qualquer dificuldade. Naturalmente no segundo caso o seu parceiro não tinha conhecimento da loucura que a sua companheira iria cometer. Mas também não existe amor suficiente para apoia-la nisso.

E como estamos falando de maternidade, estamos falando de mulheres. Relacionamento mãe e filha, mulher e homem, parcerias e também o extremo, com violência física, sexual e psicológica.

Pensei que tinha que dar tempo pra ele pra gente se conhecer, não se cria uma família da noite pro dia.


Tudo em uma escrita direta, fluída, envolvente que captura facilmente o leitor ao mesmo tempo que lhe revira o estômago.


O que eu achei

Casas Vazias é um livro forte, de leitura agoniante, que instiga a virar mais uma página em busca de notícias felizes ao mesmo tempo que abre um leque de teorias para os leitores. 

E embora eu tenha gostado muito do livro, não vejo ele como um espelho completo da maternidade, afirmação que li e achei muito generalizada. Diria que é um lado B aterrorizante, com os piores cenários que uma mãe pode ter que encarar. 

Se você quer ser mãe, vai ser boa mãe, mesmo que o menino seja tapado, me disse.


Pois a verdade é que a maternidade, como todas as escolhas nesta vida, possui suas belezas e desafios, mas acima de tudo, principalmente para a mulher, uma mudança completa de vida acompanhada de muita responsabilidade. Tornando a leitura quase que obrigatória para quem não deseja se atirar na piscina gelada, mas as vezes pensa em ceder às pressões externas.

Afinal, ter um filho não é igual a ter um animal de estimação, e o peso disso não é algo que todas querem assumir. Em Casas Vazias a personagem que faz a mãe é um retrato fiel disso. Pois a criança só ganha importância para ela quando desaparece, fazendo com que qualquer sentimento de alívio por poder retornar a vida de antes seja soterrado pela culpa.

E eu olhava pra casa, que, mesmo pequenininha, mesmo não muito bonita, mesmo avariada, era a minha casa, a minha casa.


Culpa esta que torna a todos na história muito humanos, falíveis, reais para quem mergulha no íntimo de quem tem um filho desaparecido em uma cidade onde a polícia não parece preocupada em procurar.

Um livro difícil de ler não pela complexidade da escrita, cuja narrativa é extremamente fluída, mas pela força dos acontecimentos que deixam a boca seca e a garganta apertada. Mas que ao final deixam o leitor ao mesmo tempo perplexo e satisfeito de ter lido uma ótima história.


Casas Vazias
Casas vacías
Brenda Navarro
Tradução: Livia Deorsola
TAG - Dublinense
2018 - 192 páginas

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Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.


Para quem já finalizou a leitura, é impossível não ter ficado com vários questionamentos sobre a história, embora ela inegavelmente seja redondinha: com começo, meio e fim. Até porque todos os personagens serem muito complexos e haver o forte elemento do sequestro de uma criança.

Vou começar pela mãe de Daniel/Leonel. No decorrer da leitura fica claro que ela fez uma escolha, o amante era um velho conhecido ao qual ela abandonou para montar uma vida estruturada com Fran, o marido espanhol. Mas também ficava claro o seu desejo de não ter filhos, até que um dia ela mudou de ideia. A razão? Não é explicada.

Eu sou a vítima, minha vida é mesmo uma grande merda pra acharem que eu sou a malvada.


Aliás o passado da mãe, ao contrário da raptora, é muito pouco explorado. Não fica claro se ela sempre foi o tipo de pessoa que se deixa levar, já que no casamento todas as decisões são tomadas pelo marido. Incluindo o fato de resolver adotar a sobrinha e tira-la do seu país de origem e de perto dos avós, fazendo com que ela tivesse que administrar não apenas um recém-nascido, mas a sobrinha que virou filha.

Há também a dúvida se ela possui alguma família, já que nenhuma rede de apoio aparece no antes e muito menos depois, citando apenas o afastamento dos amigos. O marido sim, tem família, mas esta se encontra distante e não parece se envolver com o sumiço da criança.

Eu estava mesmo sozinha e sentia que não podia mais falar e era como se meu humor estivesse ficando antiquado.


Tem a questão do autismo do menino, algo que eles demoraram a detectar e foi identificado rapidamente pela raptora. Um sinal do quanto a criança não era olhada? Ou aquele desejo dos pais de quererem um "filho perfeito" e não aceitarem nada diferente? Será essa a causa do distanciamento do marido em relação a criança?

Aliás, seria Fran realmente distante? Observa-se que os anos passam e a mãe de Daniel definha em meio a sujeiras e lembranças. Consumida pela culpa, ou talvez uma depressão pós parto que só foi acentuada, ela vive em volta do próprio umbigo. E mesmo assim ele não a abandona, como poderia se esperar. Será também culpa? Ou a personagem nos engana sobre este homem que a fez ter o desejo de ter um filho?

Por que os chamam desaparecidos e não se atrevem a chamá-los de mortos? Porque os mortos somos os que os procuramos, eles continuarão sempre, sempre vivos.


Não poderia deixar de citar Nagore, a menina cujo pedaço do nome é uma das poucas coisas que o menino consegue falar. Testemunha de um crime horrível, ela é uma menina amorosa, que recebeu amor da sua família, e se vê em meio ao caos de morar com os tios.

Mesmo arrancada do seu país, a menina segue carinhosa, principalmente com o menino. E nos poucos diálogos se vê como é difícil para ela a vida junto ao casal que está em pedaços.

O que foi feito daquele menino que nasceu do meu ventre e o que foi feito de mim?


E por fim, o que houve com o menino? Existem uma sequência de cenas e diálogos que dão a entender que esta criança sofreu horrores, já que o plost twist é a raptora ter o menino raptado. Existem alguns elos de ligação entre a visita ao necrotério e os sapatos do menino entregues a raptora. Que só no fim entende o desespero que causou na mãe do menino.

Eu tenho a minha própria teoria sobre o final, mas apesar da zona ser de spoiler, vou optar em não descrever, pois mesmo sendo ficção, é doloroso demais colocar em palavras, algo que nem a autora parece ter tido coragem de transmitir de forma clara.


sexta-feira, 1 de julho de 2022

Indígenas de Férias



Sinopse: Mimi e Bird são um casal indígena: ela Blackfoot, ele Cherokee. Os dois viajam pela Europa seguindo a rota dos cartões-postais enviados por Leroy Bull Shield, tio de Mimi, depois dele ter sido retirado da sua reserva indígena para se tornar atração em um show de faroeste. Ao partir, Leroy havia levado a bolsa Crow, um importante artefato da família, e é com o argumento de recuperá-la e descobrir o paradeiro do antepassado que Mimi e Bird justificam suas andanças pelo mundo. Uma aventura tão insólita quanto profunda, em que íntimo e político se encontram, e que nos faz pensar não apenas sobre o envelhecimento, o companheirismo e o amor, mas também sobre a violência física e simbólica contra indígenas e refugiados.

No mês de Abril/2022 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Indígenas de Férias do premiado autor canadense Thomas King, indicação da também escritora Margaret Atwood, que tem entre os seus títulos O conto da aia. O mimo foi uma placa em rosa claro com uma frase e um desenho incompleto do rosto do escritor Fiódor Dostoiévski (este mimo tinha autores diversos e os assinantes receberam de forma aleatória).


A História

Blackbird Mavrias, Bird para os íntimos, é um fotojornalista aposentado, nascido nos Estados Unidos, é filho de um pai Cherokee e de uma mãe de origem grega. Ainda nos EUA, ele conhece a canadense Mimi Bull Shield, Mimi para quem se aventura pelas páginas, com raízes ancestrais Blackfood.

Sua estada pela Europa não é a primeira vez, após o especialista em questões indígenas parar de escrever, eles começam a seguir, após ouvir inúmeras histórias da mãe de Mimi. Bernie não se cansa de falar sobre o tio Leroy, que após ser expulso do lugar que vivia junto a família, foge levando uma bolsa Crow, também conhecida como medicine bundle, uma espécie de sacola onde são guardados itens familiares capazes de conectar a pessoa a sua ancestralidade, utilizado em rituais indígenas.

A gente não começa conversa nenhuma. Mas a gente poderia.


Conforme este tio se perde pelo mundo, envia postais para a família, e são estes postais que Mimi utiliza para convencer Bird, um homem nada apaixonado por viagens, a refazer o caminho do ancestral e quem sabe descobrir mais sobre o que aconteceu com ele.

E o último destino desta viagem é a cidade de Praga, local onde mais do que pontos turísticos, o leitor é levado ao vai e vem entre o passado de Bird e o seu presente, além de ser apresentado aos seus demônios pessoais.


A escrita de Thomas King

Em uma história que mistura tradições, a busca pela própria identidade, memórias, dúvidas e fantasmas, tudo com pitadas de autobiografia, fatos reais, além é claro da pura ficção, a narrativa escolhida foi a em primeira pessoa, onde toda a perspectiva é nos dada por Bird.

Entre pontos turísticos e caminhadas, Bird nos apresenta a desesperança em relação as questões indígenas após trabalhar quarenta anos tentando fazer alguma diferença - e neste momento é impossível não se perguntar o que Bird acharia dos acontecimentos recentes na Amazônia -, onde ele traz entre suas memórias alguns fatos reais como a morte de um indígena por frio em 1984 e as escolas residenciais no Canada onde cerca de 150 mil crianças indígenas foram levadas para aprenderem a cultura do país.

Portanto, estamos em Praga, a noite chegou e nós estamos perdidos.


E se alguém imagina que as férias de um casal de indígenas são muito diferentes de qualquer casal branco padrão, irá se enganar completamente, pois exceto pela sua busca por pistas do tio Leroy, seus passeios e escolhas gastronômicas demonstram que a nossa ancestralidade não tem mais influência do que os nossos hábitos cotidianos no estilo de viagem.

Algo que já não ocorre na narrativa, já que a repetição de palavras e frases, sim, o Portanto estamos em Praga parece seguir ecoando muito tempo após finalizar a última página, remete a repassagem de histórias e culturas de forma oral, uma técnica em que o ouvinte grave o que ouviu e depois repasse com facilidade.

Portanto, estamos em Praga e, enquanto caminhamos de volta para o hotel, a neblina toma conta da paisagem.


Aliás, este Portanto estamos em Praga também é usado como um recurso bem interessante de retorno ao presente. Toda vez que Bird se perde em lembranças ou assistindo as discussões de seus demônios, a frase surge para retornar a todos ao momento atual. As vezes soando de forma blasé, outras de puro tédio ou desinteresse, já que para o viajante em questão tudo o que se vê também é encontrado em Guelph, local onde fica a sua casa no Canadá.

A única coisa que não ficou em casa e é uma constante na narrativa são os demônios de Bird. Eugene, Kitty, Didi, Desi e Chip podem ser velhas conhecidas de vocês, leitores do blog, embora elas estejam disfarçadas por nomes e possuem até uma descrição física, já que são quatro demônios que interagem entre eles nos momentos em que Bird baixa a guarda e está mais vulnerável. 

O homem achava que podia conversar com Deus quando, na verdade, estava apenas murmurando para si mesmo.


Mais conhecidas por autodepreciação, catrastrofizar, depressão, desesperança e sensibilidade extrema, elas são presenças frequentes nos capítulos. Marcando medos, remorsos, arrependimentos, ou aquele sentimento de não ter feito algo a mais no lugar de desistir.

Obviamente, não poderia faltar a desconstrução do estereótipo ao mesmo tempo que se mostra os preconceitos não só com os indígenas, mas com todos os que se acreditam que não deveriam estar ocupando aquele espaço, como é o caso dos imigrantes recém chegados a Europa e encontrados apertados e apartados em uma estação de metrô pelo nosso casal de turistas.


O que eu achei....

Eu achei o livro muito interessante, a história traz vários temas pertinentes, como a busca pela identidade, as tradições, memórias, tudo em meio a descrições de ruas, monumentos e pratos de comida.

Gostei também da descrição da cidade, com direito a um dos tradicionais golpes que tentam aplicar nos turistas. E para quem gosta de viajar, o personagem principal - e narrador - as vezes é muito irritante, pois no lugar de admirar as belezas dos locais ele sempre acha que tem tudo igual na cidade dele, e não precisava estar ali. O que me vez invejar a paciência da Mimi.

Autodepreciação, depressão e desesperança. Um popular e poderoso ménage à trois.


Mas a história pra mim também foi uma leitura bem cansativa, por ser linear. Não existem fatos que movimentam a narrativa, mas uma série de reflexões e dúvidas sobre o que realmente vale a pena, e como isso impacta em trazer à tona os demônios que carregamos escondidos.

Foi o tipo de livro que me faz ter a necessidade de ter uma outra leitura em paralelo, para não desistir da história e também não ler correndo, perdendo assim as suas inúmeras reflexões. Então sim, gostei de Indígenas de Férias, do desejo que ele me despertou em ir a Praga e de rir com Mimi.


Indígenas de Férias
Indians on vacation
Thomas King
Tradução: Davi Boaventura
TAG - Dublinense
2020 - 320 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Por causa dos demônios aos quais estão em constante movimentação junto de Bird, uma dúvida acabou persistindo mesmo após o fim da leitura: o personagem Oz, que Bird encontrava em todos os cafés da manhã no hotel, era real ou imaginário? E se ele era imaginário, seria um álter ego do narrador? Já que ele acaba recriando a história do tio Leroy?

O problema com os seres humanos é que nós podemos descrever nossos impulsos. A gente só não consegue explicar o porquê.


E se ele for real, a Mimi era imaginária? Já que os dois nunca se encontravam no café da manhã, seja por Mimi continuar dormindo ou por chegar depois de Oz já ter ido embora. E neste caso Mimi seria o desejo de Bird reencontrar a sua identidade entre os seus ancestrais?

Pois é nítido que a sua desistência do fotojornalismo, principalmente da escrita, vem após em meio a um projeto ele ouvir de uma mulher que a publicação não irá mudar em nada a sua vida, pois ela não traria a sua mãe, uma indígena, de volta. Algo que toca tão fundo o seu coração que o faz desistir de tudo.

Mimi sempre quis visitar Veneza, então procurar pelo seu parente perdido e pela bolsa Crow acabou sendo a desculpa perfeita.


Ou talvez os dois sejam reais e eu esteja apenas vendo pelo em ovo em uma leitura que já possui inúmeras reflexões.

Outra coisa que me surpreendeu muito foi as descrições de algumas situações no Canada. Por algum motivo sempre imaginei o país do tipo comercial de margarina e me surpreendi ao ver relacionados situações que encontramos no Brasil, como pessoas nas sinaleiras pedindo dinheiro. Uma forma de lembrar que não existe lugar perfeito e que a forma de sobrevivência das pessoas possui padrões globais que nem imaginávamos.

Em um campo intitulado Motivo da apreensão, alguém rabiscou uma nota curta, com uma letra cursiva desajeitada: Mãe índia solteira, incapaz de cuidar das crianças.


Uma coisa que achei legal é eles começarem a montar a sua própria bolsa Crow com as lembranças de viagem, e como a ancestralidade de Bird está aflorada, já que ele se incomoda com o material da bolsa.

Falando em incomodar, achei Bird e Mimi um dos casais improváveis que mais combinam, pois a paciência dela em lidar com os sentimentos dele, os ataques de hipocondria - posso estar enganada, mas ele dá toda pinta de ser hipocondríaco - e de como ela consegue convencer ele a sair do casulo apesar da resistência, tornam a personagem fantástica e definitivamente a minha favorita na história.


terça-feira, 15 de março de 2022

Pesado



Sinopse: Uma memória, uma confissão, uma catarse. Entre relatos dilacerantes e sempre vigiado por uma onipresente (e rígida) mãe, Kiese Laymon disseca sua própria vida neste que talvez seja um dos livros mais sinceros dos últimos anos. Um texto escrito não só com palavras, mas também com dor, ginga, peso, subversões da língua e abundância negra. E que reverbera dentro de nós uma pergunta de difícil resposta: até onde a vida nos dobra?

Em janeiro/22 recebi como associada da TAG Curadoria a indicação da maravilhosa escritora Alice Walker chamado Pesado, livro de memórias do autor e professor Kiese Laymon. De mimo recebi um planner para o ano de 2022.

A primeira coisa a se dizer é que Pesado pode ser definido como mais do que um livro. Ele é uma carta, um desabafo, o abrir de um coração com todas as suas dores, mágoas, perdas, complexos e reflexos que levam o leitor através da escrita vestir por algumas páginas todo o peso que um homem carrega desde os primeiros anos de vida.

Eu não queria escrever para você. Eu queria escrever uma mentira.


E por este motivo Pesado entrou na minha categoria de livros que são difíceis de resenhar, apenas porque parece que não há palavras suficientes para explicar a forma como ele mexe com diferentes sentimentos, sejam eles de identificação ou de incredulidade as ações das pessoas. Mas irei tentar.

O autor e professor Kiese Laymon divide suas memórias em quatro partes, mais uma introdução e o capítulo que fecha o livro, mas não a sua história.

A palavra que me surgiu na cabeça foi "felitristeza", assim mesmo, sem espaço e sem hífen, aglutinada.


Como uma carta para a mãe, ele retorna à adolescência e compartilha segredos antes guardados da figura materna, as surras levadas que marcam sua pele, a ansiedade e tristeza que se transformam em uma compulsão por comida, os sentimentos em relação a própria família e os homens com os quais sua mãe se relaciona.

E assim, em cada parte que se inicia, é possível observar que ele cresce não só fisicamente em altura e peso, como em relação a sua visão de mundo, tendo em um primeiro momento um espírito jovem cheio de esperança e força para escolher as suas próprias lutas, nem sempre atuando da melhor maneira conforme sua mãe, até chegar à vida adulta.

Vovó gargalhava e gargalhava até a risada dela se acabar quando eu chamava aquele queijo do governo de queijo afro-americano gourmet.


E conforme ele precisa se dobrar aos que estão em sua volta e se reconstruir, é necessário engolir os próprios sapos, cair, quebrar e se levantar. E foi assim que algumas das suas reações me fizeram lembrar de uma música da Elis Regina, começou com aquela parte que diz 'Ainda somos os mesmos, E vivemos, Como os nossos pais' até na minha mente ela abraçar o próprio livro.


O que você irá encontrar...

O Pesado do título é literal e mental. Kiese Laymon é um jovem gordo e negro, vivendo em no sul dos Estados Unidos, sendo mais específica, no Mississippi, onde o racismo pulsa devido a uma parte da população querer subjugar a outra com base em critérios de puro achômetro, acreditando em uma superioridade nunca comprovada.

Desde os primeiros anos este jovem verá a violência sexual e física de meninas e mulheres enquanto lambe as suas próprias feridas após apanhar de uma mãe raivosa, que parece descontar no menino o que não consegue controlar. Enquanto o pai é uma figura muito distante, ao qual as vezes até esquecemos da sua existência.

Às vezes você me batia com toda a sua força bem no meio da minha boca com cintos, sapatos, punhos e cabides.


Este menino também irá crescer e viver com pedidos como não ande a noite, não corra, cuidado com o corte de cabelo...nunca se sabe o que a polícia irá pensar. Até chegar à universidade e ser hostilizado pelo que ousa escrever e publicar, e mais tarde ver que nem sempre terá reconhecimento, por mais que se esforce.

E assim os leitores terão uma visão realista das escolhas, da humilhação e do sofrimento imposto por tamanha desigualdade enfrentada pela comunidade negra nos Estados Unidos, mesmo eles sendo tão americanos quanto os brancos que o julgam.

Ser duas vezes mais excelente do que os brancos vai te conseguir metade do que eles conseguem.


E como é impossível se manter 100% são nestas condições, Kiese Laymon apresenta compulsão, e esta compulsão também irá se modificar ao longo do caminho, tendo outros direcionamentos enquanto ele cresce. E embora ela mude o foco, em nenhum momento desaparece de sua vida.

Mas apesar de tudo, ele não desiste, e se o jovem Kiese desperta o desejo de entrar no livro e acolher o menino em um forte abraço, o homem Kiese provoca o desejo de lhe dizer: levanta e não desiste, sua luta é justa, siga evoluindo, aprendendo e fazendo a diferença.


O que eu achei...

Eu gostei muito da leitura. Quem acompanha o Instagram do blog deve ter notado uma longa distância de tempo entre uma leitura e outra, justamente porque Pesado não é um livro para se ler rapidamente.

O tempo inteiro ele mexeu com os meus sentimentos, algo em mim doía quando ele apanhava sem motivo algum, algo em mim entendia quando ele tentava transformar o que lhe consumia em atos como comer ou fazer muito exercício. 

Eu queria o dinheiro, a segurança, a educação, as escolhas saudáveis e as segundas chances que eles nos proibiram de ter.


Ao mesmo tempo achei muito interessante o uso frequente de uma frase, que aparecia nas situações mais tranquilas e harmônicas onde ele dizia que alguém deu risada e deu risada e deu risada até que a risada acabou. Nesta hora algo era aquecido com o calor daquela gargalhada que parecia sem fim.

Um livro para sentir o racismo na prática, sem lente de aumento, sem anestesia, onde é impossível não sentir raiva com as situações diversas.

E eu sabia que o poder de cometer abusos destruía o interior dos homens tanto quanto destruía o interior e o exterior das mulheres.


De bônus há muitas referências literárias, afinal, ele além de ser professor vem da casa de uma professora, e os livros são instrumentos cotidianos de informação e educação.

Como não sei se consegui transcrever em palavras tudo o que senti, fica apenas a dica: leia. 


Pesado
Heavy, an american memoir
Kiese Laymon
Tradução: Davi Boaventura
TAG - dublinense
2018 - 288 páginas

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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Aprender a falar com as plantas


Sinopse: Paula é uma médica neonatologista, imersa no trabalho, que leva a vida sem muito sobressaltos. Até o dia em que perde o companheiro num acidente de trânsito algumas horas depois de receber a notícia de que ele tinha outra mulher. Então Paula precisa lidar com o luto dobrado, a dor da traição e o rancor, tudo isso num apartamento repleto das plantas deixadas por ele. E o rastro de uma mulher vista no hospital é o último laço com um homem que passou quinze anos ao seu lado e deixou de existir de forma súbita e bruta.

No mês de outubro/21 a TAG Curadoria trouxe uma indicação da escritora brasileira Socorro Acioli, que me apresentou a autora catalã Marta Orriols e o seu Aprender a falar com as plantas. O mimo foi um kit de sementes.

Paula é uma médica dedicada com um grande sentimento de proteção em relação aos bebês prematuros que estão aos seus cuidados. Aos 42 anos tem um laço forte com o pai e saudades da mãe que morreu quando ela tinha sete anos de idade.


Estávamos vivos. Os atentados, os acidentes, as guerras e as epidemias não nos concerniam.


Uma verdadeira workaholic consegue conservar três grupos de amigos: os do trabalho, os da faculdade e os que vieram com Mauro, o homem que conseguiu quebrar as suas barreiras sobre morar junto, mas não sobre oficializar a relação ou ter filhos.

Tudo parece estável, dentro de uma rotina, quando ele a chama para almoçar e lhe comunica que a está deixando por outra mulher. Mais tarde ela é surpreendida por um telefonema do melhor amigo de Mauro lhe informando que este foi atropelado e foi encaminhado em estado grave para o hospital. Local em que ela vai ter que equilibrar seus sentimentos junto com as presenças da família do parceiro e da amante até então desconhecida.


A lembrança da morte da minha mãe ficou vinculada para sempre à letra branca de giz sobre o verde da lousa que dividia o reino animal em dois.


E é com estes dois finais abruptos em poucas horas que ela precisa lidar e recomeçar, já que não sabe mais pelo que chora, se pelo fim do relacionamento cujas conversas com a amante agora pode acompanhar em detalhes no celular do falecido ou pela morte do companheiro de longa data.

Dividindo a história em Antes e Depois a escritora catalã Marta Orriols utiliza a narração em primeira pessoa para colocar o leitor dentro da mente de Paula e assim compartilhar suas memórias e sentimentos. E é através dos olhos de Paula que percorremos as ruas de Barcelona enquanto ela corre ou simplesmente comenta as características dos bairros.


Morrer não é místico. Morrer é físico, é lógico, é real.


Um ponto curioso foi a opção dos tradutores em deixar as falas da enfermeira Pili no original, não é nada que atrapalhe a leitura, pois são frases de fácil entendimento, mas confesso que estranhei um pouco este fato.

Aprender a falar com as plantas é um livro sobre o luto, a morte, a solidão e como é difícil recomeçar. Ao mesmo tempo que lança questionamentos como o do porque muitas mulheres abandonam as suas verdadeiras escolhas para se adequar ao desejo dos seus parceiros, de como a morte também pode ser uma libertação para quem fica, se a pessoa estiver disposta a enxergar o que não lhe atendia a muito tempo.


Você estava morto e eu pensei que era um pau-mandado.


É também sobre onde estávamos quando a notícia nos atropelou, nos deixando sem reação e com uma marca invisível e eterna no calendário. De como administrar a dor dos que nos rodeiam, quando não sabemos lidar com a própria. Sobre não tornar santo quem nos magoou, e tentar apenas esquecer e perdoar.

A relação com os que estão a volta também é um assunto abordado na história. Sentimentos como o sufocamento aparecem tanto no presente quando as pessoas ao redor ora parecem querer assistir a sua dor e ora ficam cobrando uma volta por cima. Quanto no passado. ao relembrar as cobranças da família de Mauro em relação a filhos e as ligações persistentes da sogra que desconhece que o seu filho já havia trocado de parceira.


Como se todo aquele ódio e aquela raiva impregnados na minha saliva fossem o que matou ele.


O que ninguém consegue entender é que a sua dificuldade de retomar a vida é dobrada, já que Paula não compartilha a traição de Mauro, pois ela chora pela morte e pela mágoa que o falecido lhe causou. Incluindo questões de comparação com a outra mulher em relação à idade, características físicas e o próprio relacionamento, ficando claro em sua mente que mais do que paixão ele também procurava por um filho.

Tudo isso em uma casa cheia de plantas que eram cuidadas com muito amor por Mauro, mas não chamando a atenção de Paula da mesma forma. Transformando o jardim em um espaço de recordação vivida do parceiro que de qualquer maneira não iria voltar. 


Na realidade, o choro não tem uma função fisiológica concreta, mas é um efeito secundário da estimulação do sistema nervoso.


Em paralelo acompanhamos um pouco dos bebês que estão na neonatal, principalmente de Mahavir, cuja torcida por sua sobrevivência é inevitável. Sendo uma parte bastante sensível da história.

No geral foi uma história que gostei, achei a escrita da Marta Orriols de fácil leitura, embora a história seja bastante triste, pois o tempo inteiro está se falando de administração de perdas enquanto a personagem tenta se reencontrar. E isso a torna muito humana, com atitudes que podem gerar tanto simpatia quanto questionamentos de por qual motivo ela está seguindo aquele caminho.


Deveria ser possível esquecer no mesmo momento em que se toma a decisão de esquecer. Esquecer deveria ser imediato, senão lembrar se torna uma degradação, um ato de resistência.


Ficando a dica para quem gosta da escrita catalã, para quem procura livros cujo assunto é o luto, ou como sempre escrevo, para quem simplesmente gosta de ler.


Aprender a falar com as plantas
Aprende a parlar amb les plantes
Marta Orriols
Tradução: Beatriz Regina Guimarães Barboza e Meritxell Hernando Marsal
TAG Curadoria - Dublinense
2020 - 240 páginas

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terça-feira, 8 de junho de 2021

Minha Adorável Esposa



Sinopse: Um casamento sólido de quinze anos, do qual nasceram dois belos filhos. Uma boa casa e emprego estáveis. Poderia ser a descrição de milhares de casais norte-americanos, a não ser por um detalhe: esses dois matam pessoas. É assim que eles mantêm acesa a chama da atração: com noites românticas para escolher as vítimas como em um cardápio de um restaurante. Cada prato tem temperos especiais para despistar a polícia e a imprensa. E por melhor que seja a refeição, eles sempre vão querer mais.

Em junho/2020 a TAG Inéditos trouxe para os seus associados o livro Minha Adorável Esposa da escritora norte-americana Samantha Downing, cujo título é desmentido pela sinopse do livro, embora ele não seja tão óbvio como aparenta ser.

Quem nos narra a história é o marido, um personagem cujo nome verdadeiro desconhecemos. Ao cercar suas vítimas ele se apresenta como Tobias, um homem fisicamente atraente que se aproxima de cada uma através de uma mensagem de celular onde informa que é surdo.


Eu olho para a minha própria bebida e posso sentir que ela olha pra mim, querendo saber se estou tão interessado quanto ela.


Inicialmente elas sofrem um baque por não saberem como reagir, fazendo com que baixem suas guardas naturalmente, caindo na conversa do nosso narrador. O que nenhuma delas sabem é que aquele encontro não é casual, pois Millicent, a esposa, usou as redes sociais para seleciona-las.

No dia-a-dia ele é professor de tênis e ela é corretora de imóveis, possuem um casal de filhos, Rory com quatorze anos e se metendo nas primeiras encrencas e Jenna, de treze e muito estudiosa. A família mora no bairro de infância do narrador, uma área que mistura pessoas da classe média alta e os mais ricos, uma bolha segura na cidade onde vivem.


Não medi todas as opções ao meu alcance, considerando as vantagens e desvantagens, usando a lógica para definir o melhor plano de ação.


A vida deles muda quando o corpo de uma das suas vítimas é encontrado e associado a outro serial killer que assombrou a região muitos anos atrás, trazendo pânico em toda a população, inclusive em Jenna, que passa a apresentar um comportamento estranho.

Ao mesmo tempo que tentam tratar a filha, eles veem na associação uma forma de apimentar a brincadeira ao alimentar as informações de um jornalista local que cobre o caso, e assim incluindo no livro o sensacionalismo ao qual as vítimas são expostas.


Eu não compreendia na época, não podia imaginar essa possibilidade de escolher, perseguir e matar uma mulher.


O desconforto na história de Samantha Downing não está em cenas cheias de sangue ou detalhamentos de corpos, já que curiosamente os assassinatos não são o foco principal da história como é indicado na sinopse, e sim no narrador, que não passa nenhuma confiabilidade.

Ao ter apenas o olhar do marido, o leitor se divide entre os acontecimentos atuais, o de passado recente até chegar ao início do seu relacionamento com Millicent. Conforme as respostas vão surgindo e ligações são feitas, elas imediatamente ganham um ponto de interrogação: é isso mesmo ou apenas o que ele quer que a gente ache que é?


O jornal mal tinha acabado, as crianças assistiam televisão e nós ainda estávamos na mesa. Hambúrgueres vegetarianos com tomate e queijo orgânico, batata-doce frita e salada.



Embora o narrador se coloque como um participante coadjuvante dos crimes, faz também o papel de vítima, ao se apresentar como um bom pai, ao relatar a infância onde foi ignorado pelos seus pais, e o fato de ter se encontrado na ordem familiar organizado pela esposa, que também se mostra uma ótima mãe. Fazendo com que qualquer ação valha a pena para manter aquele amor, ele fará tudo para que ela nunca o abandone.

Só que todo este conjunto me fez tecer várias teorias além do que está escrito, então aqui o livro pode ter duas opções: você pode acreditar em tudo o que ele lhe diz ou você criar o seu paralelo e finalizar a leitura com vários pontos de interrogação. E aqui eu confesso, fui o segundo caso.


E eu sou a pessoa que sobe e desce as escadas, que pergunta como todo mundo está e que não toma nenhuma decisão.


No geral senti falta de um pouco de tensão, como li a sinopse, imaginei um livro mais agitado, com sequencias que causassem arrepios, e me deparei com um livro muito mais psicológico, com doses de rotina que algumas vezes te fazem esquecer que se trata de um psicopata. E por isso acho que a leitura pode cativar muito mais o leitor que busca o lado mental do que aquele que busca ação.


Minha Adorável Esposa
My lovely wife
Samantha Downing
Tradução: Hilton Lima
TAG Inéditos - Dublinense
2019 - 384 páginas

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