Mostrando postagens com marcador Editora Harper Collins. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Harper Collins. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Gênio e Nanquim


Sinopse: Uma brilhante coletânea de ensaios críticos escritos anonimamente para o Times Literary Suplement entre as duas guerras mundiais, Gênio e Nanquim une os maiores nomes da literatura com a escrita e a análise impecáveis de Virginia Woolf. A obra nos apresenta uma Woolf ensaísta, que expõe a estranheza das peças elisabetanas, o prazer de revisitar seus romances prediletos e o brilhantismo dos clássicos de Charlotte Brontë, George Eliot, Henry James, Thomas Hardy e Joseph Conrad. Mais do que isso, nos revela uma Virginia Woolf leitora, cujo entusiasmo pela literatura nos inspira até hoje.

Com prefácio da tradutora e mestre em estudos literários Emanuela Siqueira, Gênio e Nanquim reúne quatorze textos que podem parecer ensaios, uma crítica literária ou aquele momento fofoca onde Virginia Woolf compartilha detalhes da vida de determinado escritor publicados entre os anos de 1916 e 1935, tanto na TLS quanto na The Common Reader.

O primeiro texto é sobre Charlotte Brontë, inicialmente temos o centenário do nascimento da escritora, mas de forma delicada ele evoca ao mesmo tempo morte e memória em um belo tributo a autora nascida em 1850. Ao mesmo tempo Woolf nos lembra que Charlotte Brontë não possuía espaço no terreno literário, e apesar de não ter amigos para preservar sua memória na área profissional, seus livros conseguiram romper barreiras, despertando interesse em quem vê o seu nome, situação que permanece atual para qualquer uma das irmãs Brontë.

Desses cem anos, ela não viveu mais que trinta e nove, e é estranho refletir sobre a imagem diferente que faríamos dela se tivesse vivido uma longa vida.


Analisando tanto o que define como limitações profundas, como a sua sensibilidade e tenacidade, ao finalizar a leitura do texto eu fiquei com vontade de ler um livro da escritora e observar com mais atenção tudo o que ela havia descrito.

O segundo texto é Horas numa biblioteca, aqui Woolf nos leva para um dos lugares favoritos de todos os leitores e a relação do leitor com o objeto do seu desejo: os livros. Da juventude que se mantém através da curiosidade alimentada por inúmeras páginas até as listas de livros a serem lidos e os realmente lidos (e muitas vezes relidos).

Para começar, convém esclarecer a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e salientar que não há qualquer ligação entre os dois.


Este foi o texto que me evocou lembranças das primeiras leituras, das idas a biblioteca da escola para procurar novos amigos, o cartão de leitura que chegava cheio no final do ano. 

Também achei o texto muito atual ao citar as comparações entre livros clássicos versus contemporâneos, e a disputa leitor versus intelectual, já que o leitor juiz - aquele que se sente no direito de dizer o que deve ser lido ou não, o que deve ser considerado boa literatura ou não, segue ativo e forte, principalmente nas discussões literárias.

O terceiro texto é sobre George Eliot, pseudônimo da romancista britânica Mary Ann Evans, ao qual eu não conhecia e fui para internet pesquisar, e assim achei ainda mais interessante o paralelo que Woolf faz entre as heroínas das histórias e a própria escritora.

Ela se tornou motivo de riso para os jovens, símbolo conveniente de um grupo de pessoas sérias, todas culpadas pela mesma idolatria e passíveis de desprezo com o mesmo escárnio.


Aliás, só a vida da própria escritora já chama atenção por si, uma mulher que usa um nome masculino para ter liberdade de escrita - precisamos lembrar que em 1850 mulheres deveriam escrever livros leves - passando por seus relacionamentos, cujas escolhas, olha que surpresa, poderiam causar alvoroço ainda nos dias de hoje.

O misto de solidão e tristeza, o transbordamento de energia e calor de seus livros, me deixaram curiosa para ler algumas de suas obras.

O quarto texto tem o charmoso título de As cartas de Henry James, misturando textos do autor com o seu ponto de vista em relação a fama e as críticas, a relação das cidades/países com a literatura e o fato de Henry James ser, na opinião de Woolf, um homem sem raízes, um andarilho que anda a dar suas voltas.

Contudo, ele foi a todos os lugares e conheceu todo mundo, como atesta a farta chuva de nomes célebres e grandes ocasiões.


O quinto texto é sobre John Evelyn, ao citar o diário do autor que estaria completando cem anos no momento do seu ensaio, ela faz um paralelo entre a sociedade, comportamento e um toque de crítica ao autor, ao qual considera a escrita opaca e sem profundidade.

O sexto texto é Sobre reler romances, tendo como base o lançamento de novas edições de escritoras reconhecidas, Woolf nos fala desde a origem do título de um livro até os sentimentos que atingem o leitor durante uma leitura. As diferentes formas narrativas, as críticas, tornando a crônica atemporal ao entender a alma dos leitores de qualquer época.

Para começo de conversa, é óbvio que colocamos na cabeça que existe um jeito certo de ler, que consiste em ler tudo e compreender o livro na íntegra.


O sétimo texto é Aos olhos de um contemporâneo, onde os críticos literários voltam a ser citados, agora com um foco no que é dito sobre os escritores contemporâneos de Woolf, que chega a fazer uma rápida comparação com os clássicos. Sua lista que relata tantos defeitos para os escritos de sua época nos lembra que a vida dá voltas, inclusive na literatura, já que muito dos citados, como Ulisses, hoje são clássicos.

O oitavo texto é sobre Montaigne e o seu texto que é pura filosofia sobre a vida, a morte, a beleza, a sanidade, a alegria... o que permite a Woolf falar da dificuldade que temos de nos expressar e de ser quem se é, até retornar ao próprio Montaigne que define como um homem sutil, meio sorridente, meio melancólico, com seus olhos caídos e seu semblante onírico e perplexo.

Afinal, em toda a literatura, quantas pessoas deram conta de se desenhar com uma pena?


O nono texto é sobre Joseph Conrad, ao qual Woolf abre falando da sua morte sem adeus - ele morreu de um ataque cardíaco súbito aos 96 anos de idade - e lista os livros do autor que ela acredita que irão virar clássicos, a relação com os navios, os grandes títulos na sua opinião.

O décimo texto é Notas sobre o teatro elisabetano, como não poderia deixar de ser, começa citando Shakespeare, e chega aos não tão conhecidos, mas tão perturbadoras quanto o do autor mais reconhecido. Da sensação de quem assiste as peças a uma comparação interessante com um clássico da literatura russa, Woolf nos coloca por algumas páginas em uma poltrona de um teatro inglês, enquanto explica o funcionamento das peças.

Pois tendemos a esquecer, quando lemos as obras-primas de um passado remoto, como é grande o poder que tem um corpo literário para se impor!


O décimo primeiro texto é Os romances de Thomas Hardy, a quem Woolf define como um mestre, ao qual espera que a grandiosidade seja reconhecida com mais justiça pelos críticos do futuro. A admiração que a escritora sente por Thomas Hardy é latente nas páginas, e eu que já li Jude, O Obscuro do autor - e gostei - fiquei com ainda mais vontade de conhecer outras obras do escritor.

Dezessete obras que Virginia Woolf nos apresenta desde o primeiro, publicado em 1871, com suas primeiras dificuldades, mas muita imaginação, seguido do segundo livro e contorno das dificuldades e assim listando, livro a livro a evolução. Há também comparação com o estilo de outros escritores, como Henry James, Flaubert e Dickens. Sempre confirmando a genialidade de Hardy.

Sua força era de caráter espiritual: ele fazia parecer honroso escrever e desejável escrever com sinceridade. 


O décimo segundo texto é A meia-irmã de Fanny Burney, onde temos uma espécie de fofoca literária. No momento do texto havia uma nova edição do livro Evelina e a revelação de que a história era baseada na vida da meia-irmã da autora: Maria Allen, ao qual Woolf define como insensata e desafortunada.

E como em um chá da tarde, o leitor fica sabendo desde como a família foi formada, a mistura da moça rústica, simplória, audaz e impetuosa com a família Burney cujos membros eram cosmopolitas, cultos, tímidos e reservados. E naturalmente vários detalhes das trocas de confidências de Fanny e Maria Allen que inspiraram o livro.

Eram tão cultos, tão inocentes; sabiam tanta coisa, e no entanto não sabiam metade do que ela sabia sobre a vida.


O décimo terceiro texto é Aurora Leigh, o livro de Elizabeth Barret Browning, cujo cachorro de estimação se tornou um livro da própria Virginia Woolf misturando fatos reais com ficção. Mais do que falar sobre o amor que os Browning provocavam nas pessoas até o livro em si, novamente o leitor vai para a poltrona ouvir sobre como a Aurora fictícia parece trazer à tona a Elizabeth real.

E assim mergulha na história da escritora que perdeu a mãe ainda na infância, quando a política não era um assunto feminino e a escrita como forma de vida.

Não havia dúvida de que os longos anos de reclusão haviam lhe causado um dano irreparável enquanto artista.


O décimo quarto texto é O leito de morte do capitão, o último texto de Virginia Woolf é sobre o escritor inglês e oficial da Royal Navy Frederick Marryat e começa juntamente com os últimos textos escritos quando estava perto da morte, tendo referência a uma de suas filhas que lhe trazia suas flores favoritas.

E aos poucos ela vai retornando no tempo, misturando diferentes momentos da vida de Frederick Marryat, dos seus diários de bordo aos dezesseis anos aos demais detalhes de sua vida pública, já sua vida particular não teve tantos detalhes, apenas algumas observações que corriam entre amigos, familiares e conhecidos.


O que eu achei de Gênio e Nanquim

A primeira coisa que me encantou foi a edição de Gênio e Nanquim, o cuidado e as cores deixaram a edição da TAG com a Harper Collins belíssima.

A segunda foi a surpresa com a leveza de alguns textos da Virginia Woolf, ao qual só havia lido Rumo ao Farol - hoje chamado Ao Farol - e achei bastante arrastado na época, me afastando de futuras leituras da escritora.

Mas quem era esse homem moribundo cujos pensamentos se voltaram para amor e flores enquanto jazia entre seus espelhos e pássaros pintados?


Tanto que demorei um certo tempo para abrir os ensaios literários, mas que ao final me surpreenderam positivamente e me abriram a mente para ler outros livros da autora.

Gostei principalmente dos textos finais, onde ela deixou o lado mais técnico e colocou uma leveza e em alguns casos o próprio coração - como no texto do Thomas Hardy - tornando a leitura muito mais envolvente e despertando em mim a curiosidade em conhecer os livros de alguns dos escritores citados.

Ficando a recomendação não apenas para quem é fã da Virginia Woolf, mas como uma alternativa para quem quer começar a ler a autora, para quem gosta de ler textos sobre literatura, para quem busca novos títulos para sua lista de desejos e naturalmente para os ratos de biblioteca que não resistem a virar páginas.


Gênio e Nanquim - Ensaios Literários
Genius and Ink: Virginia Woolf on How to Read
Virginia Woolf
Tradução: Stephanie Fernandes
TAG - Harper Collins
2021 - 175 páginas

terça-feira, 22 de novembro de 2022

A ilha das árvores perdidas



Sinopse: A história de Ada começa em um lugar que ela nunca conheceu: na ilha de Chipre, em 1974, quando dois jovens apaixonados se encontravam escondidos debaixo de uma figueira. A árvore, que testemunhou o amor do casal e a chegada da guerra que viria a desolar a ilha, foi levada para Londres, e dezesseis anos depois é a única ligação de Ada com a sua ancestralidade. A garota, então, embarcará em uma busca pela própria identidade, tecendo uma linha até o passado dos pais e revelando tudo o que se perdeu no tempo.

No mês de setembro/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a edição mais bonita do ano. Indicado pela jornalista Adriana Ferreira Silva, A ilha das árvores perdidas é uma linda obra da autora Elif Shafak. O mimo foi uma deliciosa caixinha de chá verde da Tea Shop.

Um grito que sai da alma e carrega saudade, raiva, incompreensão e solidão. Um grito longo, que não pode ser parado antes de chegar ao seu final em plena sala de aula, na véspera da parada dos feriados de natal e ano novo. Grito que sai de uma adolescente que desconhece o passado de seus pais, e não convive com nenhum familiar.

Mas as lendas existem para nos contar o que a história esqueceu.


Uma figueira que originalmente morava na ilha de Chipre, no meio de um bar, e agora se vê derrubada pelo mau tempo na Inglaterra e é cuidadosamente enterrada no pátio de uma casa, cujo amor pelo morador começa a crescer.

A chegada de uma tia que só pode visitar a sobrinha após a morte dos seus pais, cheia de superstições, tem o sonho de usar roupas coloridas, e faz comidas tão cheirosas que parecem ultrapassar o limite físico das páginas.

Era capaz de detectar a tristeza de outras pessoas da mesma forma que um animal era capaz de farejar outro de sua espécie a um quilômetro de distância.


Um homem que perdeu o amor da sua vida e agora tem dificuldade de se comunicar com a filha adolescente, ficando em uma espécie de bolha junto a suas plantas.

E duas histórias de amor que conseguem tocar o coração ao mesmo tempo que nos mostram como uma guerra é injusta com os inocentes e como suas marcas são eternas.

A guerra é uma coisa terrível. Todas as guerras. Mas as guerras civis talvez sejam as piores, quando velhos vizinhos se tornam novos inimigos.


A escrita de Elif Shafak

A delicadeza deste livro começa pela narrativa. Alternando entre primeira e terceira pessoa, temos a voz da Figueira, que a tudo assistiu e é a responsável por completar as informações que os humanos não veem ou não ouvem.

Em terceira pessoa acompanhamos o tempo presente de Ada, Kostas e Meryem, cada um, de sua maneira, tentando superar a perda de Defne, a mãe, esposa e irmã dos três personagens.

Histórias, talvez, mas eu acreditava nelas. Assim como acreditava em lendas e no fundo de verdade que tentavam transmitir. 


E também no tempo passado conhecemos a Ilha de Chipre onde os jovens Kostas, descendente de gregos, e Defne, descendente de Turcos, se apaixonam e vivem um romance proibido. Quem ajuda este casal são dos donos do bar Figueira Feliz, onde a narradora se originou, também com descendências diferentes, Yusuf e Yiorgos são figuras apaixonantes na história.

Neste vai e vem, a autora Elif Shafak compartilha não só o aspecto cultural desta ilha mediterrânea que fica entre três continentes e possui a única capital dividida no mundo: Nicósia, mas também todos os seus conflitos, citando inclusive acontecimentos de outras ditaduras, como as que ocorreram na América Latina.

Não é a minha intenção menosprezar outra planta, mas que chance tem uma maça sem graça diante de um delicioso figo que ainda hoje, era após o pecado original, tem sabor de paraíso perdido?


Conflitos que atingem não só os moradores humanos, mas também o meio ambiente da região, e assim temos a visão de plantas, animais e insetos sobre o que está ocorrendo na ilha, tudo pela narrativa da figueira.

União de fatos e narrativas que tornam o enredo extremamente delicado e sensível, o tipo de história que dá prazer em abrir o livro. 

Os seres humanos perdem o foco com facilidade. Imersos nas políticas e conflitos deles, eles se distraem, e é então que proliferam as doenças e começam as pandemias.


O que eu achei do livro A ilha das árvores perdidas

Eu adorei o livro. A escrita é bonita, me levando não só a vivenciar a história dos personagens humanos, como saber mais sobre árvores, animais e os conflitos de uma ilha ao qual eu conhecia só de nome.

Sim, há algumas questões não respondidas na sua totalidade, e outras cujas respostas foram dolorosas de se saber. Mas não achei que isto atrapalhou a narrativa, apenas deixou um gosto de quero mais.

À medida que envelhece, você passa a se importar cada vez menos com o que os outros pensam de você, e só então consegue ser mais livre.


Existe uma delicadeza no tratamento do afastamento do pai e da filha após a perda da figura de Defne, deixando claro como é difícil a superação de um luto quando ele é cercado de silêncio. Assim como a importância da tia, que traz leveza e histórias para casa, permitindo assim a reconstrução de laços.

Aliás, uma personagem que merecia ter mais da sua história contata era justamente a tia Meryem. Se houvessem desdobramentos deste livro, um com a visão dela seria fantástico, pois me permitiria saber mais da sua relação com as cores e as promessas difíceis de se atender.

Os humanos são muito estranhos, cheios de contradições. É como se precisassem odiar e excluir na mesma medida que precisam amar e acolher.


Gostei muito do recurso de vai e volta entre presente e passado, respondendo indiretamente e no momento certo não só as dúvidas de Ada, mas as minhas, como se estivesse completando um quebra-cabeça.

Assim como gostei da Figueira como narradora, e sim, é quase impossível eu olhar para uma árvore agora e vê-la com os mesmos olhos. Eu, que já gostava de abraça-las, agora vou querer bater longos papos.

Será que cada geração começava inevitavelmente onde a anterior havia desistido, absorvendo todas as decepções e sonhos não realizados?


E os figos... eu passei o livro inteiro com vontade de comê-los, principalmente uma entrada que a minha mãe já fez nas festas de final do ano que mistura figo, queijo brie e vodka.

Então é com saudades desta linda história que eu recomendo este livro que possui um toque de tristeza, mas também de esperança. De se reconectar com as próprias raízes e se ver vivendo momentaneamente em um lugar de conceitos e culturas tão diferentes da nossa, mas com sentimentos tão universais.

E não esqueça de quando chegar na página 293 fazer o teste de fazer a análise do seu caráter com base na primeira coisa que você repara ao olhar para uma árvore. Eu me dei conta que, no meu caso, depende do tamanho da árvore, ficando entre os galhos e o tronco.


A ilha das árvores perdidas
The Island of Missing Trees
Elif Shafak
Tradução: Marina Vargas
TAG - Harper Collins
2021 - 319

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

A Pequena Loja de Venenos



Sinopse: em 1791, em um beco escuro de Londres, se esconde um pequeno boticário, onde Nella aguarda sua próxima cliente. Uma curandeira respeitada no passado, ela agora usa seu conhecimento para um propósito mais obscuro: vender venenos disfarçados para mulheres desesperadas que fariam de tudo para se libertar dos homens em suas vidas. Mas quando sua nova cliente acaba por ser uma adorável menina de doze anos, Eliza Fanning, e uma amizade surge entre elas, o mundo de Nella muda por completo, e as mulheres cujos nomes estão escritos em seus registros correm risco de ser expostas. Na Londres atual, a vida de Caroline Parcewell parece estar desmoronando. Em uma viagem de aniversário de casamento, agora feita sozinha, sua história parece tomar um rumo há muito tempo escondido. Porém, em um beco sem saída pode estar o recomeço de que ela tanto precisa.

No mês de maio recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro A Pequena Loja de Venenos, da escritora norte-americana Sarah Penner. O mimo foi o mesmo de Casas Vazias enviado pela TAG Curadoria, o acesso a Mubi - que eu não utilizei - e a pipoca de caramelo e flor de sal da Mais Pura que eu devorei.


A história

O ponto de partida ocorre na Londres de 1791, onde Nella sente uma preocupação sem explicação à espera da sua desconhecida cliente. Surpreendentemente que aparece é uma menina de doze anos a serviço de sua senhora. Eliza gosta de um bom papo, e o local logo se torna objeto de sua curiosidade. E por mais que Nella a mande embora, a menina não se cansa de voltar.

Nella é filha de uma boticária que sempre fez tudo para ajudar as mulheres, ao assumir o negócio da mãe, ela acaba, após uma grande desilusão, incluindo um serviço especial para suas clientes, possibilitando através de elementos naturais se livrar de companheiros nada agradáveis.

Ela viria ao alvorecer - a mulher cujas cartas eu segurava nas mãos, a mulher cujo nome eu ainda não sabia.


Mas um pedido que vai contra as regras, seguido de ameaças e uma desatenção acaba colocando todas em perigo, e nesta tentativa de sobreviver ao caos um dos vidros com a marca da loja vai parar no Rio Tâmisa.

Ele será encontrado nos dias atuais por Caroline, uma mulher que abandonou vários sonhos para se dedicar ao marido e ao projeto de formar uma família. Na véspera de sua viagem para comemorar as bodas de zinco ela descobre uma traição, e para não desperdiçar o presente dado pelos seus pais, encara uma viagem solitária dos Estados Unidos para a Inglaterra.

Meu caderno estava lá dentro, as páginas cobertas de tinta de caneta azul e corações desenhados com um esboço do nosso itinerário de dez dias.


Buscando o que fazer, acaba recebendo o inusitado convite de participar de uma caça ao tesouro no Rio Tâmisa. O que era um passatempo, acaba se tornando o objetivo da viagem quando ela encontra o frasco azulado com um símbolo de urso. E ao mesmo tempo que ela tenta desvendar a história do objeto, ela acaba confrontando as próprias escolhas e tendo uma oportunidade de escolher o que ela Caroline deseja realmente para a sua própria vida.


A escrita de Sarah Penner

Dois tempos, duas narradoras que dividem os seus pensamentos na primeira pessoa, a mesma cidade. Esta é a base da história da autora Sarah Penner, que com uma escrita fluída e uma história envolvente, tornam o leitor uma segunda Eliza, querendo saber mais sobre as duas mulheres que estão sendo desvendadas.

Utilizando o universo feminino, está a sonoridade, a questão vida profissional x vida social, a maternidade, os relacionamentos tóxicos, o que são escolhas das personagens e o que é manipulação de terceiros.

Como eram tolos - todos eles, exceto as mulheres, a quem era dito onde encontrar suas amigas, suas irmãs, suas mães.


Para quem gosta de viajar dentro e fora dos livros, a autora também nos apresenta uma visão menos turística de Londres, com descrições que me fizeram sentir caminhando junto com a personagem.

Também é muito interessante as descrições dos elementos utilizados para a criação de cada veneno, assim como a descrição detalhadas no final, um acréscimo pós história.


O que eu achei...

Não existe veneno mais poderoso que uma traição, ela corrói, amarga, desestabiliza o traído. E isto é muito forte em A Pequena Loja de Venenos. As consequências que isso pode trazer na vida de cada uma das personagens.

Eu gostei muito da história, o vai e volta entre presente e passado, que fazem o leitor preencher o quebra-cabeça mais rápido que Caroline, ao mesmo tempo que se vive um dilema ético ao torcer por Nella. Me fisgando da primeira à última página.

Eu soube, ali, que não podia confiar em mais nada que ele me dissesse.


A leitura é uma imersão nas dores e dúvidas femininas, aos quais curiosamente não mudaram tanto assim, apesar dos mais de duzentos anos que separam uma época da outra. Quase como um lembrete do quanto ainda precisamos quebrar barreiras, sejam elas externas e internas.

Minha personagem favorita aqui foi a jovem Eliza e sua grande dose de otimismo. Por estar recém descobrindo a vida, ao qual ela tem muita curiosidade, permitem que ela sempre pense em soluções e acredite fielmente que elas darão certo. Contrastando com Nella, sempre tão triste e negativa.

O trabalho da minha mãe tornou-se o meu, e nossas tinturas eram tudo o que eu conhecia do mundo.


Também gostei da capa, existe uma mistura de delicadeza e força que convidam a entrar na história. E assim deixo a dica para quem quiser se aventurar a conhecer os diferentes tipos de veneno que podem atingir o corpo ou a alma.


A Pequena Loja de Venenos
The Lost Apothecary
Sarah Penner
Tradução Isabella Pacheco
TAG Inéditos - Harper Collins
2020 - 318 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu o mimo do mês.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Achei interessante como a distância do tempo não muda os problemas. A traição, ou melhor, o ser traída, é o que inicia o movimento das três personagens, com diferentes níveis de gravidade.

No passado Nella é traída duplamente por seu amor, ato agravado com a perda da filha, e a faz acrescentar o serviço especial em sua loja. Aliás, achei interessante o padrão ético de Nella, que só aceita envenenar homens e em nenhum momento se vê como sendo uma assassina em série.

Agora aquilo seria um sonho; por causa do meu erro, talvez eu tenha condenado a ela e a todos nós dentro das páginas do livro de registros.


Suas clientes são mulheres que buscam se livrar de homens que as fazem infelizes de diferentes formas. E aí entra a personagem Eliza, que embora encaminhada pela patroa, na verdade também está buscando a própria libertação das mãos do patrão que começa a descobrir e tocar o seu corpo jovem.

Só que tudo vira de cabeça de baixo devido a uma série de traições, começando pela esposa que quer matar a amante e não o marido, até o frasco do veneno ser entregue para a polícia pela empregada que entrega a patroa.

A verdade dele permaneceria sendo o único segredo que eu não dividiria com ninguém.


E aí pulamos para o presente onde encontrei Caroline, uma mulher que se deixou manipular pelo marido até ser apenas uma sombra do que sonhou um dia. E confesso que fiquei bastante agoniada quando ele resolve procurar por ela, e ao mesmo tempo que admite a culpa também transfere para ela. O respiro de alívio veio junto com o dela quando a menstruação chega e se vê que ela tem possibilidade de realmente recomeçar.

No geral é triste ver como as mulheres ainda se enterram por causa das atitudes masculinas. Como são consumidas por dentro, como é difícil não arrumar desculpas para os atos do outro, mesmo que isso a destrua. Mas são anos de criação machista que precisa ser quebrada também no universo feminino, tanto na literatura quanto na vida real.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Nada para ver aqui



Sinopse: Na primavera de 1995, Lilian recebe uma carta de Madison. Amigas improváveis na época da escola, elas perderam o contato ao longo dos anos, seguindo caminhos bastantes distintos. Madison, agora casada com o senador Roberts, escreve oferecendo um emprego a Lilian como babá dos enteados que estão chegando para morar na mansão do político. Com uma vida digna de zero comentários e nada a perder, Lilian aceita a oferta e, ao longo do verão, ela se surpreende com o vínculo criado com os gêmeos Bessie e Roland. Só tem um problema: ela não esperava que a situação pudesse pegar fogo...

TAG Curadoria encerrou o ano com uma indicação da multiartista Clarice Falcão, que indicou o autor norte-americano Kevin Wilson e o seu Nada para ver aqui. Como eu tenho a assinatura dos dois clubes da TAG, meu mimo foi um livro extra, para quem só tinha a curadoria, recebeu um calendário 2022.

Lilian era uma criança inteligente e graças aos seus esforços conseguiu uma bolsa de estudo para uma escola particular, onde meninas ricas eram enviadas para serem preparadas para o futuro. É neste local que ela conhece Madison, ao qual forma uma estranha amizade, e vê o seu sonho de uma vida melhor ser destruído quando sua mãe aceita dinheiro do pai de uma aluna para que a culpa pelas drogas encontradas no quarto da filha seja assumida por Lilian.


Eu esporadicamente namorava pessoas que não me mereciam mas pensavam que mereciam.


Sem nunca se recuperar por esta perda, a única lembrança que fica do período são as cartas de Madison que ela recebe de tempos em tempos. Enquanto a amiga entra para a política e acaba se casando com o candidato ao senado ao qual prestava apoio, Lilian leva uma vida bem mais ou menos e segue morando na casa da mãe.

Mas um dia ela recebe uma carta diferente, um pedido de visita que esconde o verdadeiro interesse do rico casal: cuidar dos filhos de Roberts após o falecimento da sua ex-esposa. E o que parecia um trabalho normal, ganha um toque de realismo fantástico quando ela é informada que os gêmeos literalmente pegam fogo.


Eu ia finalmente, depois de vinte e oito anos, experimentar coisas do jeito que eram planejadas para ser.


Os personagens

Lilian é a personagem principal desta história, uma mulher que não se recuperou da agressão sofrida ainda na juventude, não dando utilidade nenhuma para toda a sua inteligência. Sozinha, sem afeto materno e pai desconhecido, é muito fácil ela se apaixonar por Madison, que acaba utilizando isso para manipula-la.

Madison é o estereótipo físico do padrão tão cultuado, dos cabelos sempre cuidados, passando pelo corpo em forma e as roupas cuidadosamente escolhidas. Como o marido ela respira política, trocando o antigo sonho de ser presidente para alavancar a carreira do companheiro.


Muitas vezes quando penso que estou sendo autossuficiente, na verdade, só estou aprendendo a viver sem as coisas de que preciso.


Já o senador Jasper Roberts está muito próximo de ocupar o cargo de secretário de estado dos EUA, e para isso não irá poupar esforços, como esconder os próprios filhos do casamento anterior, para que a sua imagem não seja questionada.

Já os três filhos de Jasper são muito diferentes. O casal de gêmeos Bessie e Roland além de possuírem o dom de pegar fogo e não se machucarem precisam lidar com o abandono, já que ninguém da família - pai, avós maternos - querem lhe dedicar atenção. Já seu meio-irmão Timothy, filho de Jasper com Madison, demostra um comportamento sempre correto, carregando a imagem de um adulto em um corpo de menino pequeno, mas com todo o amor da mãe.


Eles eram como eu, sem amor e fodidos, e eu me certificaria de que tivessem tudo o que precisassem.


Completando o grupo estão dois empregados da casa, Carl é o faz-tudo para solucionar os problemas que possam envolver a família e o apoio no trabalho de Lilian para atender os gêmeos. Já Mary é a cozinheira que tudo sabe, tudo vê, mas pouco fala. 


A escrita de Kevin Wilson

O autor Kevin Wilson optou pela narrativa em primeira pessoa para contar a sua história, colocando o leitor dentro da mente de Lilian, e assim conhecendo os seus sentimentos, suas opiniões, seus lamentos e dúvidas.

Com uma escrita bastante fluída, ele transfere o leitor para a primavera de 1995 e nos faz um panorama de como seria conviver dia a dia com duas crianças que entram em combustão e ensina-las a controlar o fenômeno, enquanto as próprias pessoas em volta administram seus sentimentos.


Nós éramos um mundo à parte, mesmo que eu soubesse que era temporário.


Apesar de incluir algumas partes cômicas, o livro no geral não está longe de ser engraçado, pois apesar do inusitado fato das crianças pegarem fogo, o tema principal me pareceu o abandono parental. Ao qual ele trabalha muito bem ao incluir o fogo como o elemento que reflete o estado de espírito das crianças.

Outros elementos por ele trabalhados na obra estão o próprio jogo de aparências na política americana e as diferenças sociais, onde a visão do dinheiro compra tudo é aplicado de forma um tanto abundante e infelizmente certeira.


Se seus corpos eram invulneráveis ao fogo, o que havia dentro deles?


O que eu achei...

Eu particularmente achei a leitura bastante incômoda durante a maior parte do tempo, não pela escrita, mas pelo comportamento dos personagens. Não foram raras as vezes que eu tinha vontade de sacudir a Lilian, de lhe dizer que ela deveria parar de se achar um fracasso e usar a sua inteligência para encontrar um caminho, já que ela é nitidamente perdida na vida.

Também me senti incomodada com a maneira como os gêmeos não eram cuidados, com o fato de o dinheiro vencer facilmente e esconder muito bem aquilo que os ricos e poderosos não permitem mostrar.


Se você fosse rico e homem, parecia mesmo que era só seguir certo número de passos e era possível fazer qualquer coisa que quisesse.


Mas apesar de todo o incômodo, eu gostei da história, achei interessante a forma utilizada para questionar o estilo de vida da elite americana. 

Ficando a dica para quem gosta de um realismo fantástico, de histórias que envolvam comportamento humano, ou para quem quer uma literatura quente para os dias de verão.


Nada para ver aqui
Nothing to see here
Kevin Wilson
Tradução: Natalia Borges Polesso
TAG - Harper Collins
2019 - 255 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Cai o pano



Sinopse: Aceitando o convite de seu velho amigo, Capitão Hasting reencontra Hercule Poirot em Styles, a casa de campo onde os dois resolveram seu primeiro caso. No entanto, não foi apenas o lugar que mudou com os anos. Acometido pela artrite e abatido, Poirot já não é mais o mesmo. Quando o detetive belga anuncia que um dos aparentemente inofensivos convidados de Styles é um assassino, algumas pessoas ficam em dúvida. Será que os instintos dedutivos de Poirot finalmente o abandonaram? Cabe a notre ami descobrir a identidade de um dos seus mais desafiadores inimigos e provar que, embora o tempo tenha alterado as regras do jogo, suas células cinzentas e o coração de ouro de Hasting continuam os mesmos.

A grande dama do romance policial Agatha Christie encerra a carreira do detetive belga Hercule Poirot, um dos seus personagens ícones no livro Cai o Pano, que teve como tradutora a grande escritora brasileira Clarice Lispector.

Na história o Capitão Hasting atende um chamado do seu velho amigo, mas nada o havia preparado para encontrar Poirot em uma cadeira de rodas e extremamente limitado, tendo toda a sua movimentação física dependente de um auxiliar.


Quem nunca sentiu uma súbita pontada ao reviver uma velha experiência ou a sentir uma emoção antiga?


Mas ao contrário do que diz na sinopse da contracapa, a revelação de que há um assassino entre o pequeno grupo de convidados é revelado somente ao Capitão Hasting, que inicialmente dúvida da sanidade mental de Poirot, mas ao ouvir sobre cinco casos que estariam relacionado ao suspeito, ele passa a mudar de ideia.

Só que Poirot não irá lhe revela o nome do suspeito, ao qual chama de X, pois para que Hasting seja seus olhos e ouvidos de forma eficiente e sem correr riscos extremos, não pode revelar no seu rosto tão transparente a desconfiança sobre nenhuma pessoa.


Na minha opinião, nada é tão triste quanto à ruína pacientemente forjada pela idade.


A narrativa de Agatha Christie

Apesar de ser o livro de despedida de Hercule Poirot, toda a narrativa em primeira pessoa é feita pelo capitão Arthur Hasting, que relata os seus diálogos e próprias observações, só havendo a voz de Poirot através de uma carta.

Uma curiosidade que o escritor Raphael Montes relata na apresentação do livro é que a história foi escrita originalmente em 1940 devido ao medo que Agatha Christie sentiu de morrer durante a segunda guerra mundial e consequentemente deixar o seu personagem sem um desfecho, e assim o romance ficou trancado em um cofre até ser publicado em 1975, um ano antes do seu falecimento.


Porque um assassino, meu amigo, é mais vaidoso do que qualquer outra criatura do mundo.


Naturalmente a história foi revisada e atualizada, mas mesmo assim traz um retrato da sociedade da época, principalmente nas opiniões emitidas pelos personagens sobre o comportamento um dos outros.

Fechando assim um ciclo, já que o primeiro livro em que ele aparece é justamente O misterioso caso de Styles, cuja referência ao assassinato é citada diversas vezes no local que agora é um pequeno hotel.


Por que os piores tipos de homem são os que mais agradam e interessam às mulheres mais simpáticas é um problema acima do meu entendimento.


Os personagens

O hotel agora pertence ao casal Luttrell, ele um aposentado do exército que possuía excelente mira e era respeitado por seu batalhão, ela uma mulher de personalidade forte, que não raro lhe chama a atenção na frente dos outros, causando assim um constrangimento no ambiente.

Devido ao tamanho do hotel o grupo que ali se encontra é bem pequeno. Além de Hercule Poirot e Arthur Hasting, estão hospedados no local Judith, a filha independente de Hasting, cujo relacionamento com o pai não é muito afetuoso, e em cada conversa ela parece estar com as pedras na mão para contesta-lo.


O que é o mal? O que é bem? Essas concepções mudam de época em época.


Judith não está ali para fazer companhia ao pai, mas trabalhando como assistente de Franklin, um homem muito dedicado as suas pesquisas e que se sente preso a esposa Barbara, que se diz sempre doente para ser o centro das atenções e conta com o atendimento constante da enfermeira Craven, mas é sumariamente ignorada pelo marido.

Quem atende o seu desejo é o rico vizinho Boyd Carrington, um homem há muitos anos apaixonado por Barbara, cujo arrependimento é não a ter pedido em casamento quando teve chance e agora visita o hotel frequentemente para conversar com os hospedes e fazer companhia a ela.


Seu problema é a sua preguiça mental. Você gosta de jogar e adivinhar. Não gosta de usar a cabeça.


Completando o quadro estão Curtiss, o assistente temporário de Poirot, que liberou George para tratar de assuntos familiares. O admirador de pássaros Stephen Norton que flutua entre comentários inofensivos e sem noção, o mulherengo Allerton e Elisabeth Cole, uma mulher que mudou o seu sobrenome para se afastar da sombra negra que paira sob a sua família.

O que eu achei...

Um livro que combina perfeitamente com o verão que está chegando, e não por oferecer sombra e água fresca, mas por ser leve e instigante. Conforme os capítulos vão passando, eu me pegava junto com o Capitão Hasting tentando adivinhar quem daquelas pessoas poderia ser o suspeito X.

E quando o primeiro assassinato ocorre, e isso não é um spoiler quando estamos falando de um romance policial de Agatha Christie, eu continuava sem ter certeza de nada, pois todos podiam ter um motivo, e assim eu ficava trocando de suspeito página a página.


Um homem que já matou uma vez matará outra e outra e outra e outra.


Eu que não lia nada da autora desde a adolescência, adorei este mimo que veio da renovação da minha assinatura da TAG, pois havia esquecido de como Agatha Christie consegue nos confundir.

E assim deixo a dica dessa leve despedida que te provoca a desvendar e se surpreender com os acontecimentos, na envolvente escrita da rainha dos policiais.


Cai o Pano
Curtain
Agatha Christie
Tradução: Clarice Lispector
TAG - Harper Collins
1975 - 223 páginas

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Carrossel Sombrio e outras histórias



Sinopse: Uma odisseia sobre a complexidade da mente humana, um livro hipnótico e inquietante. Cada um dos seus treze contos - dois deles escritos em parceria com Stephen King - explora as facetas de nossos segredos mais aterrorizantes, nossas vulnerabilidades mais profundas e nossos medos mais primordiais, consolidando Joe Hill como uma das mais poderosas vozes da literatura de suspense atual.

Enviado em julho/20 para associados da TAG Inéditos, Carrossel Sombrio é um livro de contos de suspense e terror escrito por Joe Hill, nome artístico utilizado por Joseph Hillström King, que é filho do mestre do terror Stephen King.

E é justamente sobre esta filiação e a escolha de um pseudônimo que são explicadas na introdução Quem é o seu pai? onde ele conta histórias da infância, a relação familiar, as primeiras escritas, as publicações, o abrir as portas sozinho sem utilizar o nome dos pais.

Após vem os treze contos que compõe o livro, sendo dois em parceria com Stephen King, aos quais vou repassar um a um para quem ficou curioso sobre o livro, mas sem spoiler, para não estragar as surpresas de quem entrar neste carrossel.

Alta Velocidade é o conto que faz o carrossel começar a rodar, e é o primeiro da parceria Hill e King. Aqui a relação conturbada de pai e filho atinge o seu ápice após o grupo de motoqueiros que lideram serem perseguidos por um caminhão.


Sabe, só porque eu sou seu pai, não significa que preciso gostar de você.


Para quem achou a história conhecida, ela é inspirada em um dos filmes que fizeram parte da vida dos dois chamado Encurralado, e foi escrito originalmente para uma antologia que homenageava o criador da história original Richard Matheson. O que significa que temos muita correria e perseguição, tornando a leitura bem dinâmica.

O segundo conto é quem dá o título ao livro, Carrossel Sombrio leva o leitor a acompanhar um grupo de jovens com atitudes inconsequentes. Na noite em que eles estão se despedindo para iniciar o caminho da vida adulta, eventos que misturam realidade e fantasia irão afetar suas vidas para sempre. 


Os dois me levaram a fazer coisas das quais me arrependi no momento, mas que foram um prazer lembrar mais tarde.


Este é o conto em que Hill acha mais parecido com o estilo do pai, ao ponto que o sobrenome dos irmãos da história serem uma homenagem a um dos personagens do livro Campo de batalha. É o tipo de história que você fica se perguntando o que realmente está acontecendo.

Estação Wolverton me lembrou a conhecida frase do filósofo inglês Thomas Hobbes em que diz que O homem é o lobo do homem. No conto que poderia muito bem ser uma analogia ao que ocorre no mundo dos negócios, onde sempre pode aparecer um mais forte para eliminar a sua concorrência, um frio homem de negócios se vê dentro de um trem inglês lotado de lobos vestidos como humanos.


A empresa operava da seguinte maneira: eles descobriram uma cafeteria de bairro que estava indo bem e abriam uma loja do outro lado da rua.


O conto foi escrito durante uma viagem do autor pelo Reino Unido, onde percorreu o país de trem, e uma das paradas pela qual passou foi a Wolverhampton, o que gerou a brincadeira com a semelhança com a palavra Wolf, que é lobo em inglês. Eu, particularmente achei um dos contos mais fracos.

Já em Às margens prateadas do lago Champlain crianças encontram uma enorme criatura ao lado de um lago, inicialmente confundido com uma enorme pedra, o ser que parece morto vira objeto de curiosidade delas, que tentam a todo custo chamar um adulto para certificar a sua descoberta e quem sabe ajuda-las a ganhar uma recompensa.


Ela levou o caleidoscópio até o olho, contando com seus poderes especiais para penetrar na névoa e revelar onde a escuna afundara.


Em uma história inspirada em uma viagem de infância, onde o autor viajou para a Escócia na expectativa de ver o monstro do lago Ness, ele tem a inocência do primeiro amor misturada com um momento de falta de atenção materna. O conjunto me deu particularmente uma agonia, pois como estamos falando de contos de terror, se cria a tensão do que exatamente irá acontecer.

Claramente inspirado em várias fantasias infantis, Fauno nos apresenta um grupo de caçadores atrás de um leão. Quando um milionário salva o filho do responsável pelo grupo da morte certa, é convidado a participar de uma expedição muito especial, onde passando por uma porta específica, poderá matar criaturas únicas.


O leão estava demorando para encontrar o cheiro, mas ele já era idoso, um avô.


Em uma mistura de Alice no País das Maravilhas e Nárnia, uma porta em uma casa antiga de tempos em tempos revela um lugar mágico, com fadas, elfos e outras criaturas que pareciam existir somente no imaginário. Só que quem encontrou este mundo aqui não era uma criança, mas um homem que resolve cobrar 250 mil dólares por pessoa que queira participar da expedição.

O conto que eu mais gostei foi Devoluções Atrasadas, e imagino que não tenha um leitor que não se identifique com ela, já que se trata da última leitura após a morte. Aqui uma biblioteca móvel retorna no tempo e seu atendente recebe a devolução de livros que nunca haviam sido entregues devido a morte de seus portadores, e acaba dando a dica de uma última leitura para eles.


Ambos temiam deixar o filho único com o fardo de cuidar dos pais por anos a fio e decidiram agir antes que o poder de escolha lhes fosse tirado.


Além de achar muito bonito, fiquei imaginando que se ela existisse, seria o meu paraíso, pois já me peguei pensando em como a vida é curta para ler tudo o que desejo.

Em Tudo que me importa é você temos uma menina mimada que no dia que completa dezesseis anos está triste por ter que cancelar todos os seus planos devido ao desemprego recente de seu pai. Seu dia muda quando precisando de ajuda para chegar em casa ela resolve usar um robô identificado como um amigo movido a fichas, que por uma hora só se importa com a pessoa que inseriu o valor.


Acho que a maior parte dos empregos talvez seja isso: ser uma vítima de aluguel.


Em um futuro bem mais tecnológico, onde os bens de consumo mudaram, mas não o perfil de quem os ostenta, o conto é muito mais uma mistura de filosofia e drama sem que isso o desqualifique para participar da trama. Embora seja assustador pensar que por mais que a tecnologia avance, o ser humano não melhora em nada nem na ficção.

O que acontece na cabeça de uma pessoa após ter participado de uma guerra? É o tema abordado em Impressão Digital, que nos apresenta Mal, dispensada a oito meses de sua missão no Iraque, ela convive com alguns arrependimentos e se sente ameaçada após receber uma impressão digital pelo correio.


Continuou indo em frente até ficar sem fôlego e o céu parecer girar, como se fosse o teto de um carrossel.


Ao abordar a transformação de soldados em torturadores durante a guerra e o impacto que isso tem principalmente entre os mais jovens, o conto aborda um diferente tipo de terror, os dos danos que situações extremas causam e a dificuldade de viver em normalidade após ações que nada tem de humanas.

Em O diabo na escada a primeira coisa que chama a atenção é a forma: o texto está distribuído de forma que simulam a imagem de uma escada, com degraus ora mais largos, ora mais próximos, permitindo o leitor caminhar junto com o narrador por Positano, na bela Itália.

No conto há uma lenda local, onde se você seguir descendo por uma escadaria e abrir o portão que separa o mundo dos humanos, irá encontrar o inferno.


Por anos meu pai teve um burro para carregar as pedras. Depois que o bicho caiu morto, ele teve a mim, seu rebento.


Um jovem sonha em uma vida melhor e é apaixonado pela prima. E em um ato de ciúmes ele acaba cruzando esta linha tão assustadora para o seu pai. A forma da escrita e o ambiente te instigam a ler a história rapidamente, lembrando aquelas histórias antigas contadas e recontadas tantas vezes.

Sabe aquelas histórias malucas que poderiam ser muito bem reais? Eis ela em Twittando no circo dos mortos. Uma família em férias viajando pelas estradas secundárias dos Estados Unidos e sua filha adolescente entediada narrando tudo pela sua conta do twitter.


Quer saber o que está acontecendo? Estou gritando por dentro.


É o típico terror usando assuntos da moda e do cotidiano, sendo ao mesmo tempo muito louco e interessante, porque é muito fácil imaginar a situação bizarra no mundo real. Ah, e poderia facilmente ter uma versão Stories do Instagram.

Em Mães nos deparamos com uma mãe tentando fugir de uma comunidade com o seu filho, com a morte materna, o menino cultiva a saudade cercado de pessoas com pensamentos distorcidos. Com uma sequência de acontecimentos que vão envolvendo o leitor e deixando em dúvida o limite da realidade e da fantasia.


Cerais com açúcar refinado e conservantes não são permitidos na casa dos McCourt - os conservantes nos cereais açucarados são famosos por causar autismo e homossexualidade.


Além do conto ser muito bom, ele se torna apavorante por ver muitas pessoas nos dias de hoje terem ideias distorcidas como os personagens da história. É louco ver como as pessoas aderem aos conceitos mais sem noção, prejudicando a si e aos outros.

Um casal de irmãos gêmeos percorre as estradas secundárias dos Estados Unidos em Campo do Medo. Ao passar por um grande campo escutam um grito de criança pedindo socorro e param para ajudar, sem saber que estão caindo em uma armadilha.

Este conto também foi escrito em parceria com Stephen King e virou um longa-metragem adaptado na Netflix - pelo trailer já vi que a história não é exatamente igual, mas que a princípio conserva a base.


Ele queria silêncio em vez de ouvir o rádio, então pode-se dizer que a culpa foi dele. Ela queria ar fresco em vez do ar-condicionado, então pode-se dizer que a culpa foi dela.


Também gostei muito da tensão da história, dos pequenos detalhes que passam despercebidos pelos personagens, e conclui que de fato se um dia viajar de carro pelas estradas americanas, vou procurar ficar apenas nas estradas principais.

Você está liberado é o conto que fecha este carrossel. Aqui a narrativa é distribuída em diferentes visões para contar toda a agonia dos passageiros e tripulantes em um voo viajando pelo espaço aéreo americano após receberem a notícia de um ataque a uma base da força aérea.


Recebi uma mensagem da nossa equipe de solo e, depois de refletir sobre ela, parece adequado compartilhá-la com vocês.


Entre fragmentos de personalidades misturadas a detalhes do seu passado, os diferentes passageiros conseguem passar toda a tensão e medo quando aos poucos as notícias vão aparecendo e fica claro para todos a situação que estão enfrentando. É uma história que arrepia, pois não é algo inverossímil, sendo muito fácil se sentar em uma das poltronas e sentir a aflição que atinge os personagens. 

De bônus o autor nos conta no final todas as suas inspirações para cada história, que podem ser outro escritor ou uma viagem de férias.

Eu particularmente gostei muito da mistura de estilos que Joe Hill optou para compor a sua coletânea, começando pela narrativa ao qual cada conto tem a sua, não parecendo mais do mesmo, até as histórias em si, que vão do terror raiz ao psicológico.

Aliás, sempre acreditei que a base de um bom terror está no psicológico de seus personagens e no que ele faz no do leitor. Algo que os contos de Carrossel Sombrio atendem muito bem.

Naturalmente se você não for fã do gênero pode não curtir, aliás, este é um dos livros mais massacrados entre os associados da TAG Inéditos. Mas para quem gosta, irá comprovar o ditado que a fruta nunca cai longe do pé.

Então neste mês de Halloween fica a minha dica de diversão para quem curte um bom terror, aquele misto de suspense e tensão e aquela eterna dúvida onde a linha tênue sobre o que é realidade e o que é imaginação dos personagens. 


Carrossel Sombrio e Outras Histórias
Full Throttle
Joe Hill
Tradução: André Gordirro
TAG - Harper Collins
2019 - 480 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu o mimo do mês.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Somos todos adultos aqui


Sinopse: Astrid Strick tem 68 anos e vive uma vida aparentemente perfeita. Porém, seu caçula desistiu da promissora carreira de ator. Sua filha do meio, com quase quarenta anos, decidiu engravidar a partir de uma produção independente. E o mais velho vive de acordo com regras impostas pela preocupação com as aparências. Mas quem decide, após tantos anos, quais erros realmente importam? Quais desculpas precisam ser pedidas? À medida que enfrenta os enganos do passado, Astrid começa a perceber que não é a única a esconder segredos e que todos à sua volta estão tentando entender quem são.

No mês de junho recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro Somos todos adultos aqui da escritora norte-americana Emma Straub. O mimo foram porta-retratos em imã, que eu já usei e por isso não aparecem na foto, e 50 fotos impressas em uma parceria com a Foto Registro.

Em um dia normal de sua rotina, Astrid assiste de dentro de seu carro outra moradora, Barbara Baker, morrer após ser atropelada por um ônibus escolar que estava vazio e em alta velocidade. O contato inesperado com a morte neste dia irá mexer com ela de uma forma irreversível, como até agora ainda não havia acontecido.


A lavagem profissional do cabelo era uma herança da geração da mãe dela, uma afetação que a própria mãe não havia adotado, e, no entanto, aqui estava.


Ela ficou viúva quando os três filhos entravam na vida adulta, considerada fria e prática em seu círculo mais íntimo, aos 68 anos ela irá surpreender a todos ao assumir o seu relacionamento com outra mulher, Birdie, o que vai gerar reações bem diferentes dentro da família.

Elliot é o filho mais velho, por ter sido visto beijando um amigo na adolescência pela falecida Barbara, sua mãe evitava a outra mulher. Na vida adulta não tem grandes demonstração de afeto, casado com Wendy, praticamente foge de ajudar nos cuidados dos gêmeos de três anos. Guarda muitas mágoas da mãe por essa ter duvidado da sua capacidade profissional.


Qual é o sentido de ter filhos se você se livra deles antes mesmo de eles terem algo interessante para dizer?


A única filha e a do meio entre os três é Porter, uma mulher de quase quarenta anos que sabe administrar muito bem a sua vida profissional, mas na pessoal ainda parece uma adolescente, inclusive agindo como uma. Não tendo possibilidades de ter filhos com o homem que acredita amar, pois este é casado, acaba optando por uma produção independente.

O caçula é Nick, um ex-ator que prefere viver longe da mãe, casado com uma francesa e com um estilo de vida diferente dos irmãos, é o pai de Cecelia, atual razão para todas as suas inseguranças, a ponto de no primeiro problema envolvendo a filha na escola, invés de defende-la ele a envia para morar com a avó Astrid.


Aquilo era romance ou codependência, a necessidade esmagadora da outra pessoa para poder voltar ao eixo?


Cecelia tem apenas treze anos e sempre busca fazer o que é certo, o que acaba eventualmente colocando-a em problemas com os grupos de meninas mais populares. Na nova cidade ela faz amizade com August Robin, um menino que se identifica como menina, mas só consegue ser ele mesmo em um acampamento de férias e junto de seus pais, que apoiam tudo com muito carinho.

Tudo isso em uma fictícia e utópica cidade pequena, que ficaria próxima a New York, com moradores que seguem todas as regras, protegem o comercio local, é muito segura e LGBTQIA+ friendly. O que me faz pensar que não foi coincidência o envio do livro no mês de junho.


Havia pessoas na escola que ele conseguia tolerar, pessoas para quem podia ligar para falar do dever de casa se estivesse doente, mas não eram amigos dele.


Se me perguntassem que definição sucinta eu daria para Somos todos adultos aqui, eu responderia que é uma DR - discussão de relacionamento - generalizada realizada com muito respeito. Principalmente no que se refere ao relacionamento pais e filhos, já que temos diferentes perfis, o que torna o conjunto de laços, mágoas, histórias e culpas bem distintas.

Do apoio total a relacionamentos egoístas, a criação acaba ecoando nos relacionamentos íntimos, na forma como o parceiro é tratado, dos sonhos que são abandonados, do que se permita que se faça.


Estava tentando ser o tipo de mulher que gostaria de ter como mãe - instruída, mente aberta, esse tipo de coisa.


E naturalmente, com tanta discussão vindo à tona, acabam vindo reflexões anteriores, que vão mudando o que se é agora, indo do aspecto físico ao comportamental. A diferença entre o que se quer e o que se é também acaba indo para a berlinda, permitindo assim uma evolução de cada um, como encarar os próprios segredos e hipocrisias.

A narrativa fluída em terceira pessoa vai mudando o foco do personagem a cada capítulo, embora creio poder dizer que o centro da trama é Astrid, que não só dispara a faísca dentro da família como é quem vai guiando as relações.


Essa era a pior parte de ser adulta, entender que não havia justiça no mundo, nenhuma mão invisível na brincadeira do copo.


E apesar de toda a DR, o livro não é pesado, mas um passeio pela vida adulta, pelas diferenças de gerações, podendo ou não trazer à tona os próprios fantasmas do leitor, conforme sua história de vida. Uma história bacana para ler com uma caneca de chá ou de vinho, se deixando levar pela família Strick.


Somos Todos Adultos Aqui
All Adults Here
Emma Straub
Tradução: Camila Von Holdefer
TAG Inéditos - Harper Collins
2019 - 350 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

 

terça-feira, 29 de junho de 2021

Gostaria que você estivesse aqui


Sinopse: Nos inícios dos anos 1980, o Rio de Janeiro está prestes a virar palco de uma revolução musical e comportamental. O tempo é de instabilidade política, o tráfico se expande nas favelas e a epidemia de aids é um balde de água fria em quem acredita que a era de Aquário se aproxima. E é nesse cenário que, ao longo de dez anos, as vidas de Inácio, Baby, César, Selma e Rosalvo se entrelaçam.

No mês de Maio/2021 recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro Gostaria que você estivesse aqui, do escritor brasileiro Fernando Scheller. Como mimo veio um livro de contos chamado Partes de um corpo.


Embora tivesse dinheiro para comprar discos, seu gosto musical era ditado pelas músicas que a professora de inglês usava como referência nas aulas.


A história começa em 1980 com a aprovação no vestibular de Inácio e sua paixão por sua amiga de infância Baby. Estranho se comparado aos outros rapazes, Inácio é um guri gentil e educado, que vem de uma família equilibrada, onde os filhos são apoiados.

Já Baby está sendo usada pela mãe para recompor a economia da família, e assim possa manter o status de morar em um apartamento localizado em região nobre. Mas a menina, perdida sobre quem é e não aturando ficar perto do namorado para qual é empurrada, foge de casa.


Julgara-se esperto ao vir para a cidade em busca de vingança, mas na verdade era um matuto.


Com a ausência de Baby, Inácio muda de curso e encontra a amizade de César, um rapaz de família rica, bonito e inteligente, que é rejeitado por seu pai por sua homossexualidade.

César se encanta por Inácio, assim como sua mãe, Selma, uma professora universitária que escolheu ficar ao lado do filho quando lhe foi imposta uma escolha pelo marido. É uma mulher que vive restrita por seus medos e análises do passado, dores a assombram e a impedem de realizar as suas próprias escolhas.


Era uma professora de literatura clássica que não entendia nada de tragédia, que era incapaz de reagir.


Completando o quinteto está Rosalvo, que sai de sua vida organizada no interior, deixando todos os bens divididos entre os seus filhos para encarar a cidade do Rio de Janeiro. Seu objetivo é descobrir o assassino de seu filho Marquinhos, conhecido no morro como Eloá.

Para contar as cinco trajetórias Fernando Scheller optou em usar a narrativa em terceira pessoa, em um ritmo facilmente cinematográfico, onde você acompanha cena a cena os acontecimentos, mas sem estar dentro da cabeça dos personagens, apenas descobrindo os seus sentimentos conforme suas ações e reações.


A medida de sucesso da nova geração havia, de um jeito estranho, se igualado à de seus pais.


Misturando alguns clichês com fatos reais, como não poderia deixar de ser, a história é cheia de referências a década de 1980, desde o surgimento do rock, passando pelas manifestações das diretas já, passando por locais ícones do Rio de Janeiro como o Círculo Voador e as pelas praias, até a eleição de Collor para presidente.

Na minha percepção a história tem como personagens bases os três masculinos, onde César e Inácio nos dão o ponto de vista das classes média e alta carioca, enquanto Rosalvo transita entre a portaria de um edifício de bairro nobre e o morro com seus moradores e facções. 


Porque, uma vez que se está no topo, não existe nenhuma alternativa que não seja a queda.


Aliás, achei muito bonita a amizade entre Inácio e César, onde o apoio incondicional, a troca de conhecimento, mostram como algumas pessoas criam barreiras bobas por prejulgar o outro. O modo como os dois evoluem juntos e fazem suas próprias escolhas sem romper os laços mostram a força de um amor que encara toda e qualquer dificuldade da mesma forma que compartilha alegrias.

Pois é através dos dois que vemos todo o surgimento e evolução da aids no Brasil, a morte rápida de quem estava em sua volta, a sentença de morte ao conseguir realizar o teste e obter o resultado positivo, a espera pela manifestação da doença, o preconceito enfrentado ao apresentar os sinais que a identificavam.


Sem aviso, as festas da adolescência, com dança da vassoura e bolo ruim, foram substituídas por funerais-surpresa.


Eco semelhante encontrado em Rosalvo, um senhor que respeita a todos e por sua postura também é respeitado, que parece se reinventar em meio a diversas situações, aceitando recomeçar em nome de um amor que exige que a morte do filho não saia impune. Ele também passa por uma evolução, ao qual ao avaliar as características e o período tornam tudo ainda mais surpreendente, pois ao aceitar a escolha do filho se identificar como mulher não muda em nada o seu sentimento, apenas a forma de chama-la.

O que me incomodou um pouco no livro foram as personagens femininas, que me pareceram ser as menos trabalhadas no decorrer da história. Selma ainda tem momentos fortes, inclusive uma das cenas mais marcantes na minha opinião. Mas Baby é colocada de uma forma muito artificial, suas poucas aparições na narrativa são sempre tão perdidas, como se fosse uma eterna adolescente.


Ditador, não importa o disfarce que assuma, continua ditador.


Mas isso não me impede de recomendar a leitura do livro, que trata de temas tensos sem ser pesado, além de ser uma ótima forma de relembrar ou ter uma noção dos anos 80 em território carioca, entender um pouco mais do início da aids, e do que mudou, ou não, de lá para cá. 


Gostaria que você estivesse aqui
Fernando Scheller
TAG Inéditos - Harper Collins
2021 - 320 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

terça-feira, 11 de maio de 2021

O Sol Mais Brilhante



Sinopse: Leona, uma antropóloga americana, dá à luz em um remoto vilarejo massai no interior do Quênia e precisa decidir se quer ou não ser mãe. Jane, a solitária esposa de um funcionário da embaixada dos Estados Unidos, segue seu marido para os trópicos e vê como a vida pode ser frágil no continente africano. Simi, uma mulher massai estéril, precisa confrontar sua infertilidade em uma sociedade em que as mulheres são valorizadas apenas pelo seu papel como reprodutoras. Em uma obra singular, essas três mulheres tão diferentes entre si enfrentam a maternidade, encaram tragédias e amadurecem diante das dificuldades não somente do cenário subsaariano, mas da existência humana.

Enviado em Maio/20 pela TAG Inéditos, o livro da escritora americana Adrienne Benson une o tema maternidade com o local de infância da autora como fundo, tendo como resultado um livro de escrita fluída e delicada.

Leona cresceu nos Estados Unidos, teve parte de sua vida marcada pelas visitas ao seu quarto pelo seu pai e a cegueira auto imposta de sua mãe. Para fugir dos dois, ela se torna antropóloga e assim se muda para a África, onde vai morar em uma manyatta, em meio a vida selvagem do Quênia.


Era o grito dela, percebeu, embora não tivesse sentido a boca abrir ou a reverberação do ar.


Mas em busca de um banho descente e uma cama confortável, ela decide passar um final de semana em Narok, onde acaba conhecendo um homem e num raro momento em que baixa sua guarda, ela acaba grávida.

Leona não tem nada de maternal, então é com felicidade que ela acaba entregando logo após o nascimento de sua filha a responsabilidade de cuidar do seu bebê para Simi, que assume com alegria e alívio.


Sem a opção de outros pastos, essa cultura poderia desaparecer tão rápido e fácil quanto os rios e córregos da região.


Simi é uma mulher que graças a sua mãe iniciou os seus estudos, sendo a única mulher no vilarejo onde Leona está que conhece algumas palavras da língua inglesa. Infelizmente seu pai impediu o sonho de sua mãe para que ela avançasse mais, e assim Simi segue o mesmo destino de todas, se tornando a terceira esposa do filho do ancião da aldeia.

Mas Simi se revela infértil, e mesmo com todos os rituais, não consegue dar à luz ao seu próprio filho. O que a faz temer por ser expulsa do local, já que poderia ser considerada malfadada e assim trazer maldições para a sua aldeia.


Porém, do mesmo jeito que a luz do dia sucede-se à escuridão da noite, a escuridão também dá lugar à luz do dia.


Completando o trio temos Jane, que de certa forma também foge da família, sentindo o peso da culpa por não ter sido a irmã responsável que a mãe desejara tantas vezes lhe pedir antes de sua morte. No Quênia ela vai trabalhar na proteção dos elefantes, mas ao ter que enfrentar a violência dos que desejam sacrificar os animais, ela acaba conhecendo Paul.

Ao se casar, ela passa a seguir o marido e desistindo da vida profissional. Se inicialmente ela se sente vazia, a gravidez e mais tarde a filha passam a dar sentidos aos seus dias.


Lá, todas as mães estavam afinadas com o conceito de uma negligência benéfica.


Através destas três mulheres, cujos destinos acabam se cruzando, Adrienne Benson descreve diferentes sentimentos e situações relacionadas a maternidade, das alegrias as tristezas, da alienação parental a proteção, das dúvidas ao amor imenso.

A história é dividida em três partes, sendo que a primeira é a mais longa e também um pouco mais arrastada. Ganhando ritmo na segunda parte, quando as filhas das três protagonistas dão o tom da narrativa, preparando o leitor para o desfecho na terceira parte.


Os corpos caíram um a um, encolhidos sobre si mesmos, em poças de sangue que se espalharam na areia e foram absorvidas por ela.


Achei que o projeto gráfico de certa forma pode enganar um pouco o leitor, apesar da história ser no Quênia e ter algumas descrições da vida da comunidade, a presença de Simi é menor do que as duas personagens americanas. O que me faz pensar que a história poderia ser em qualquer lugar, já que ela trata das diferentes facetas da maternidade.

Por outro lado, eu estaria sendo injusta se não citasse como o amor da escritora pulsa ao descrever os lugares da sua infância, nos levando pelas estradas de terra, nos deixando nas margens do rio ou embaixo de uma enorme árvore.


Costumava desejar que aquilo tudo nunca tinha acontecido e que crescera em uma  família onde todos sorriam uns para os outros, conversaram, uma família que não fosse marcada pela ausência.


Um livro que iniciei a leitura empurrando as páginas e terminei emocionada. O que me fez reforçar a crença que uma história pode te capturar muito além da página cinquenta.


O Sol Mais Brilhante
The Brightest Sun
Adrenne Benson
Tradução: Elisa Nazarian
TAG - Harper Collins
2018 - 320 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Minha vida de rata

 


Sinopse: Minha vida de rata acompanha Violet Rue Kerrigan, uma jovem que rememora seu passado após ter sido expulsa da família, aos 12 anos. Chocante e mordaz, o livro mostra como ser banida não apenas de sua família, mas também de sua comunidade - parentes, vizinhos e igreja -, força Violet a descobrir a própria identidade e a romper a poderosa ilusão do significado de família, emergindo de seu longo exílio como "rata" para uma vida transformada.

A escritora Luisa Geisler indicou para o mês de outubro/2020 um livro traduzido por ela para a TAG Curadoria. Minha vida de Rato foi lançado no ano passado e é da escritora americana Joyce Carol Oates, uma jovem mulher já na casa dos oitenta anos cuja escrita nesta história mistura vários temas atuais, que vão muito além do racismo, que foi o mais explorado na revista da TAG. O brinde desta caixa foram três sabonetes com aroma da flor violeta.

O que serve de aviso para os mais desavisados, há muita violência contra a mulher nesta história, desde abuso de jovens meninas, até relacionamentos onde o machismo impera, com violência física e psicológica, o que pode tornar a leitura bastante incômoda para quem já passou por situação simular, os chamados gatilhos.

Não parecia haver um equivalente masculino para fazendo um show, desfilando.

Para falar deste livro, vou precisar fugir da superficialidade, citando mais da história do que normalmente costumo abordar. Então para quem não gosta de nenhum detalhe a mais antes de ler, recomendo parar a leitura desta resenha neste momento. Caso contrário, vamos lá.

Narrado em primeira pessoa por Violet Rue Kerrigan, o livro é dividido em três partes, tantos as partes quanto os capítulos possuem seus próprios títulos. Acompanhamos Violet dos doze anos até os seus quase trinta anos.

Disciplinar os filhos. Simplesmente o que um bom pai responsável fazia, demonstração de amor.

Na primeira parte somos apresentados a família de origem irlandesa Kerrigan, pai, mãe e seus sete filhos. Violet é a caçula e se sente a filha favorita do papai, um homem machista que não deve ser contrariado. Em casa, todos falam com cuidado com este homem que já foi para uma guerra, e hoje muitas vezes chega bêbado. Sinônimo de força, ele é a referência e o que desperta respeito entre seus filhos, eco não encontrado na relação com a mãe.

Os dois irmãos mais velhos de Violet possuem um sério desvio de caráter. Mas seus pais os defendem com unhas e dentes, pois acreditam na unidade da família e que esses laços exigem fidelidade e proteção por parte de todos. E isso é o que muda o destino de Violet, como a sinopse nos avisa. É a menina, se achando esperta e espiando os irmãos, que vê, sem saber, os primeiros indícios do crime cometido pelos seus irmãos contra um jovem atleta negro.

Não tem "garotas boas", só porcas de raças diferentes.

Enquanto a comunidade entra na discussão de um ataque a meninos brancos, um de seus irmãos, sabendo que ela tinha conhecimento de que eles haviam cometido o crime, tenta assassina-la, e com isso Violet acaba contando a estranhos tudo o que sabe. O resultado é a prisão dos rapazes e sua expulsão da família. Pois assassinar estranhos pode, tentar matar a irmã também, mas revelar isso aos outros, nunca.

Na minha opinião a primeira parte é a mais bem escrita do livro, você se sente dentro da casa de Violet, a tensão que todos eles sentem em relação ao pai, o funcionamento da escola, as relações com as demais pessoas, a injustiça em relação aos mais fracos. Existe um equilíbrio entre tudo, que te faz sentir as dores, se indignar com cada ação, ao mesmo tempo que fica muito claro todos os motivos pelo medo de Violet ser real e não haver sombra de dúvidas nenhuma em relação ao que os seus irmãos fazem.

Quando se trata de família, é melhor não pensar nada. Melhor...não pensar.

A segunda parte também é forte, mas é onde eu comecei a realizar vários questionamentos em relação aos fatos apresentados, e no meu caso comecei a questionar o caminho da história, o que pra mim atrapalhou a leitura.

Violet é adotada pelos tios, que moram em outra cidade, sendo a tia irmã de sua mãe. Eles não possuem filhos, e existe um carinho e um cuidado em sua chegada, principalmente pela menina não ser mais desejada pela própria família. Violet tem acompanhamento de uma assistente social e é matriculada em uma escola, mas apesar de ter risco de morte, seu nome não é alterado, o que possibilita qualquer um pesquisar a sua história. E este foi o meu primeiro questionamento: se existia risco de o irmão ir atrás dela, e a história já ocorre nos anos de 1990, o mínimo não seria ela receber o sobrenome dos tios que a adotaram? Eu não sei a resposta, apenas a dúvida.

Garotas não têm "aptidão natural" para matemática. Não há motivo algum para garotas saberem matemática.

O interessante aqui nesta segunda parte é que ela não tem confiança em ninguém, não retribuindo nem abraços da tia, ao mesmo tempo ela dorme em qualquer lugar e horário, o que demonstra que ela precisa de cuidados extras, sendo no mínimo necessário um acompanhamento psicológico para Violet. Mas ela não tem isso. Mas curiosamente ela aceita se tornar marionete de um professor, ao qual ela enxerga uma espécie de poder, como se fosse uma transferência da visão que ela tinha do pai para este homem.

Este homem é o personagem Sandman - o homem de areia que também dá nome a uma multipremiada série de história em quadrinhos para adultos -, na história de Joyce é um solteirão, que vive em uma boa casa, um professor rigoroso e que revela a Violet a sua simpatia pelo regime nazista e a pureza ariana, demonstrando assim o seu preconceito contra pessoas de etnias diferentes, ao mesmo tempo que a condena o fato da menina ter denunciado os irmãos. 

Para fazer a escolha certa da mesma maneira como fazia uma cama - metodicamente, perfeitamente, todas as dobras alisadas.

Extremamente machista, convence as meninas que elas precisam de aula de reforço, as mais ingênuas são convencidas a acompanha-lo. As mais espertas o abandonam, as que possuem medo aceitam o convite de ir até a sua casa e através de uma espécie de boa noite cinderela, ele abusa das mesmas. Outra vez é Violet que irá abrir esta caixa de pandora para a polícia, embora de forma involuntária, quando se vê novamente em uma quase morte.

Nesta parte uma coisa me incomodou, que foi a desconstrução dos tios. Tia Irmã demonstra ser bem diferente da mãe de Violet, alguém que tenta se aproximar e dar afeto a menina, que se afasta, e quando a personagem demostra ter mais força e ser diferente, em meia página ela desconstrói toda a personagem criada até ali. 

O objetivo é me manter viva.

E então chegamos a terceira parte, onde Violet já mora sozinha, ganhou e desperdiçou uma bolsa de estudo na universidade se mudando de cidade, movida pela vergonha de reencontrar colegas da última escola, e agora trabalha como empregada doméstica. Aqui ela conhece Metti, um homem na casa dos quarenta anos, elegante e rico, ao qual ela se envolve e acaba tendo um relacionamento doentio, onde o homem a princípio educado se torna machista, preconceituoso e violento. Neste ponto o que me fez desgostar da leitura foi o sentimento que tudo o que Violet já viveu não serviu de aprendizado tendo como justificativa uma espécie de paixão.

Durante toda a história os homens com os quais ela convive possuem um mesmo perfil, generalizando todos os homens brancos como machistas e violentos, talvez possa se justificar pela busca do pai, ao qual ela deseja perdão por ter denunciado os irmãos, motivo pelo qual ela mesma se chama de rata, termo que no Brasil seria o famoso X9. Em paralelo, ela passa enviando dinheiro para a família da vítima de seus irmãos, como se ao denunciá-los e assim "sujar" o nome da sua família, ela também fosse culpada pelo assassinato, demonstrando uma dubiedade de sentimentos da personagem.

Buscando no seu rosto, esperando não ver aquilo que teme ver, que você está escondendo dela.

Em Minha vida de rata as descrições, assim como os diálogos são muito fortes, pois a heroína da história literalmente vive aquela frase desgraça pouca é bobagem. E talvez por tanto peso nos ombros de um único personagem, que ao mesmo tempo tem uma série de oportunidades para mudar o rumo da sua vida, parece as vezes forçar o tom para em uma única narrativa abordar tudo o que há de pior em relacionamentos familiares e entre homem e mulher.

Digo forçar por já ter lido outras histórias bastante duras, como o fantástico As Alegrias da Maternidade, onde a sequência possui uma naturalidade, e mesmo em meio a dor, há uma luta da personagem, algo que em nenhum momento vi em Violet. Me passando a ideia de que ela nunca seria feliz, sendo uma eterna vítima dos outros e dela mesma.


Minha vida de rata
My life as a rat
Joyce Carol Oates
Tradução: Luisa Geisler
TAG - Harper Collins
2019 - 382 páginas


Outras resenhas de livros que abordam machismo e/ou violência contra a mulher:
Tudo de bom vai acontecer
As Alegrias da Maternidade
A Única Mulher
A terceira vida de Grange Copeland
As Garotas Madalenas
Eu sei por que o pássaro canta na gaiola
A Praça do Diamante
Escuridão Total sem Estrelas
(Sobre)Viver
Os homens que não amavam as mulheres