sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.

No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025