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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A voz que ninguém escutou



Sinopse: A voz que ninguém escutou é a de Maria que decide fugir da miséria e violência levando dois filhos para a capital na esperança do tão desejado emprego. É a voz de Inácio, um menino sequestrado e escravizado por um fazendeiro inescrupuloso, em busca de uma família para si. É a voz de Inês, a filha da empregada doméstica que sobrevive nos fundos da mansão de um poderoso banqueiro vivenciando cotidianamente as diferenças de classe, sonhando com um Brasil mais justo. É a voz de Vânia uma jornalista que acaba de assistir à tragédia de sua mãe e após uma grande revelação tenta reconstruir sua história ao mesmo tempo em que encontra novas formas de amar. É a voz deste que escreve estas palavras. É a voz de um país que esqueceu de lembrar do passado.

No mês de setembro/2024 a TAG não foi curadoria e enviou o vencedor do prêmio kinder de literatura de 2024 chamado A voz que ninguém escutou do escritor carioca Renan Silva. O mimo chamado de kit biblioteca era composto de pequenas fichas destacáveis e post-its.



Não suportando mais viver uma relação abusiva e uma vida de miséria, Maria decide abandonar o marido e os filhos mais velhos, fugindo com os dois mais novos, Inês e Inácio, para a cidade do Rio de Janeiro.

No caminho uma ida ao banheiro lhe custa caro, já que o motorista do transporte clandestino ao qual ela está viajando vende Inácio para um fazendeiro que explora crianças, levando-o para longe, antes que a mãe tenha tempo de resgatá-lo.

Sirene rodopiando como carrossel. Sons de alerta e um eco interminável.


No Rio de Janeiro Maria encontra um emprego como empregada doméstica em uma casa de família rica, onde Inês irá conviver com as diferenças sociais ao mesmo tempo que terá oportunidade de estudar, e fazer uma sólida amizade com a filha do casal.

Tudo em um Brasil que vive a construção de Brasília e o início da ditadura militar, onde o resultado de tudo cabe em uma ambulância em 2005 em que Vânia, uma jornalista, leva a mãe Inês em estado grave para o hospital.


A escrita de Renan Silva

A voz que ninguém escutou é o primeiro livro do historiador Renan Silva. Na narrativa foi optado em utilizar na maior parte do tempo a voz em terceira pessoa, mas em alguns momentos surge a voz em primeira também, ambas para acompanhar quatro personagens: Maria, Inês, Inácio e Vânia. Todos membros da mesma família.

O livro acompanha a vida destas pessoas de 1945 a 2005, dividido em duas partes, a primeira aborda trabalho escravo, sequestro de crianças, violência familiar, poliamor, assédio sexual, questões lgbt, exploração de trabalho doméstico, diferenças sociais, construção de Brasília, ditadura entre outros assuntos.

Os filhos foram concebidos com pouco tempo de espera entre um e outro. A exceção era justamente aquela que agora vinha ao mundo.


Na segunda parte temos uma mistura de tempo mais próximo ao presente com o passado, já que Vânia começa a investigar o que levou a mãe em um ato tão extremo e acaba se dividindo em entender o passado da mãe e a busca de sua própria identidade, ao mesmo tempo que sua vida parece ser uma espécie de espelho da vida da mãe.

A quantidade de assuntos abordados seria o suficiente para criar uma saga familiar, mas por estar tudo compactado em quase trezentas páginas, pode levar o leitor a dois sentimentos. Agradando aquele que gosta de ler versões resumidas, e por outro lado angustiando o que deseja uma história mais arredondada.


O que eu achei de A voz que ninguém escutou

Para quem assiste o programa Masterchef do Brasil, a frase "menos é mais" utilizada pelo Fogaça para opinar sobre os pratos de alguns participantes, consegue resumir o sentimento que tive ao ler este livro.

E aqui faltou aquele editor amigo para dizer vamos focar mais nisso, quem sabe no lugar de colocar mais personagens vamos trabalhar mais esta cena? Que tal melhorarmos a passagem de tempo e tiramos a parte dos 50 tons de ditadura, já que as cenas de sexo parecem um Ctrl c + Ctrl v e o seu detalhamento não acrescenta em nada a história?

O menino percebeu o silêncio absoluto que reinava no interior da carroceria do caminhão. Tinha pelo menos mais cinco crianças além dele.


Pois na minha opinião a ideia do livro é muito boa, e seu início é envolvente e estimula a curiosidade, mas a narrativa vai decrescendo, a ponto que a primeira parte é muito melhor que a segunda. Sendo um daqueles casos em que a execução deixa e muito a desejar. 

Assim como a parte gráfica, que faz os leitores imaginar que os integrantes da família são negros, mas na descrição de Vânia ela é uma mulher branca. Falha de continuidade ou de quem elaborou a capa? Eis uma das perguntas que ficaram após a finalização do livro.

Às vezes, fantasiava invadir a biblioteca, gritar com o patrão, chamá-lo de lixo, ameaçar ir até a polícia.


Uma coisa que me incomodou muito na leitura é que ela parecia didática, não havendo uma narração da cena para que eu visualizasse o que estava acontecendo, mas um parágrafo explicando resumidamente os acontecimentos.

O que torna tudo muito rápido, e em alguns momentos, inverossímil, como a sequência em que Vânia busca os papeis da prisão da mãe no período da ditadura.

Os brasileiros começaram a se acostumar com a possibilidade de escolher livremente o presidente. Já era a quarta vez após o Estado Novo.


Outro ponto foi a mistura de eventos dos anos 80 e 90, como por exemplo acontecimentos do período Sarney (remarcação mais do que diária dos preços) que é citada na era Collor - que ficaria muito mais forte se tivesse sido relacionado ao ato mais traumático do seu governo: o confisco das poupanças. Tudo em um parágrafo que mistura presidentes, Senna, Mamonas e Sílvio Santos.

O livro cita o diário de Inês, mas a narrativa se perde na forma como a história é conduzida, parecendo um resumo do resumo feito pela filha Vânia, que talvez fosse um personagem que não precisaria estar ali.

Os ideólogos da nova capital pensavam que as diversas classes sociais poderiam viver em conjunto, em superquadras nas Asas Norte e Sul. Na prática, isso não ocorreu.


Em compensação nada é dito sobre os outros filhos de Maria, assim como um período de tempo de Maria, Inês e Inácio e termina de forma fraca, sem maiores impactos. Então sim, as páginas gastas com Vânia poderiam ter sido ocupadas principalmente como Inês e Inácio.

O que me fez finalizar a leitura com a ideia de que a mesma precisava ser refinada, tanto nas vozes utilizadas como no foco. Pois perde-se páginas em sequências que não acrescentam nada e se passa voando pelas que poderiam tornar a história mais rica.

O andar cada vez mais curvado e as constantes reclamações de dores nas costas também eram as marcas de vinte anos de trabalho ininterruptos.


Fazendo uma contrapartida, já que não, eu não gostei da escrita do livro, a minha mãe já gostou, pois como cita jovem guarda e outros momentos da época de 60 e 70, fez com que ela buscasse as próprias memórias daquele período, que ao contrário dos personagens, são lembranças felizes. Um poder especial que os livros possuem de resgatar nossa própria história pessoal enquanto acompanhamos outras.

Como livro é igual a gosto, e cada um tem o seu, e naturalmente pode haver outros leitores que assim como a minha mãe possam gostar da narrativa, fica a dica de um livro brasileiro que aborda a história de uma família nordestina em meio a um dos períodos mais tumultuados da história do Brasil.


A voz que ninguém escutou
Renan Silva
TAG - José Olympio
2024 - 302 páginas

terça-feira, 6 de julho de 2021

O Pássaro Secreto


Sinopse: Vencedor do Prêmio Kindle 2021, O pássaro secreto, de Marília Arnaud, apresenta a história de Aglaia Negromonte. Possuída por algo que lhe rasga o peito, sua vida toma rumos inesperados quando o grande segredo do pai, a existência de uma filha fora do casamento, é relevado à família. Afinal, como seguir adiante quando toda a sua vida parece uma mentira e vai sendo, pouco a pouco, tomada por uma intrusa?

Recebi no mês de maio/21 da minha assinatura da TAG Curadoria o livro O pássaro secreto da escritora paraibana Marília Arnaud. O mimo foi um livro de contos chamado Partes de uma casa.

A personagem principal e narradora é Aglaia, filha de um ator e uma professora universitária, ela tem dois irmãos mais novos e inúmeros problemas, como bulimia e uma tendência a violência quando as coisas não estão do jeito esperado.


Talvez exista um lugar de onde não se pode mais retornar, onde a vida não pode ser restituída.


É uma menina que se descreve como gorda, que diz comer tudo o que vê, em qualquer horário, e que também vomita o que foi ingerido. O que gera a primeira dúvida em relação a  personagem, se ela realmente era gorda e sofria bullying por isso ou se ela tem distorção de imagem e afasta os demais por sua arrogância.

Arrogância por não se privar de tentar mostrar que sabe mais do que todos os colegas e professores, somente pelo fato de ter lido obras que a princípio não seriam para a sua idade. Aliás, suas longas listas de livros a tornam um tanto pedante, lembrando aqueles leitores intelectuais que torcem o nariz para determinados livros e só consideram de mesmo nível quem leu determinados clássicos. 


Gigante cego, esmagava quem se pudesse no seu caminho, quem atravessasse à sua frente.


Observa-se também que ela tem uma grande necessidade de chamar a atenção de seu pai, ao qual parece alimentar um complexo de Electra, principalmente ao cobrar reações de sua mãe em relação ao comportamento do marido, sua tristeza e perdão são considerados fraqueza pela filha mais velha.

O copo emocional da personagem transborda ao descobrir que tem uma irmã mais velha morando na França. Filha de seu pai com uma atriz francesa, a jovem ficou órfã e irá morar junto com a família. A menina é descrita como uma perfeição, parecendo centralizar todos os afetos de Aglaia, onde inclui sua amada avó e o seu amor platônico.


Diferenças eram diferenças, e pior sorte tinha quem as carregasse.


O acolhimento e afeto por todos os integrantes da família com a recém chegada desperta as atitudes mais absurdas em Aglaia, aos quais ela se refere como impulsionados por uma coisa, o pássaro secreto do título. Onde nem psiquiatras nem os remédios conseguem trazer um ponto de equilíbrio, até pelo fato de ela não ser sincera com eles.

O Pássaro Secreto de Marília Arnaud tem como curiosidade as diferentes formas como a leitura pode ser realizada. Apesar do livro possuir os capítulos sequenciados, na verdade ele pode ser lido de duas maneiras distintas, página após página ou separando os capítulos ímpares dos pares, já que apesar da personagem ser a mesma, eles não ocorrem ao mesmo tempo. 


Uma das lembranças mais nítidas que guardo da minha infância é a sensação do aconchego do seu corpo, do cheiro da sua pele, do calor da voz.


Com isso os capítulos impares são mais curtos e diretos, e os pares mais longos, onde a personagem conta todos os fatos pelo seu olhar. Aqui confesso que senti necessidade de um segundo narrador, visto que como a própria personagem se define como mentirosa, não é possível distinguir o que é verdade e o que é imaginação.

E isso é fortemente indicado pela sua identificação com o personagem Iago, da peça Otelo do escritor inglês Shakespeare, cujas características são associadas a intriga e manipulação dos que estão ao redor. Algo que a personagem não consegue em seu núcleo familiar e que me fez pensar pela reação dos seus dois irmãos mais novos - que muito pouco aparecem na história - o que ela já havia feito a eles.


Descobri que as histórias mais perturbadoras contadas em livros não são mais perturbadoras do que a realidade, com sua fome de vida e de morte.


Uma curiosidade são os nomes das três irmãs, escolhidos pelo pai, elas representam as Três Graças da mitologia Grega, sendo Tália (a irmã que chega) a que faz brotar flores, Eufrosine (a caçula) o sentido da alegria e Aglaia (a narradora) a claridade. No caso de Aglaia, o significado dá um tom a mais para ela não se identificar com o nome, já que ela tende mais a escuridão.

Para quem adora encontrar referências de outras obras, como não poderia deixar de ser com uma narradora tão ligada a livros, eles estão presente por quase toda obra, as vezes até de uma forma um tanto exagerada, na minha humilde opinião, o que algumas vezes me passou uma ideia de bengala, já que na história em si não agregava muito.


A vida me empurrou para a escuridão ou eu nasci com a escuridão dentro de mim?


Ao mesmo tempo é possível se recordar de algumas leituras no decorrer das páginas, o choro de Aglaia ao nascer me lembrou muito a personagem Tita de Como água para chocolate da escritora Laura Esquivel , ao relacionar as lágrimas como prenuncio do que enfrentaria no futuro. No caso de Tita, o futuro egoísta definido por sua mãe mais do que justificavam as lágrimas que vinham desde o ventre, já no caso de Aglaia, parece mais uma menina mimada que acaba sofrendo as consequências de seus próprios atos.

Há também uma grande referência ao adorável livro infanto-juvenil A Bolsa Amarela da escritora Lygia Bojunga, quando ela diz ter os mesmos ter desejos da personagem Raquel: ser grande, ser escritora e ser um menino. 


Deveria existir uma lei dispondo sobre o amor para todos, com igualdade de forma e quantidade.


Eu particularmente nem gostei nem desgostei da leitura. Como diz o chef Jacquin, faltou um pouco de tômpero na minha opinião. Mas é um livro de escrita fluída, que possibilita rápida leitura, ao mesmo tempo que pode ser muito interessante para quem curte ficção com base em distúrbios mentais. 


O Pássaro Secreto
Marília Arnaud
TAG Curadoria - José Olympio
2021 - 270 páginas

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terça-feira, 16 de junho de 2020

A terceira vida de Grange Copeland



Sinopse: A terceira vida de Grange Copeland, primeiro livro de Alice Walker – vencedora do Pulitzer 1983 pelo livro A cor púrpura - , revela o cotidiano de uma família negra no Sul dos Estados Unidos, por três gerações. Oprimido pela estrutura racista do condado de Baker, o trabalhador rural Grange Copeland abandona família e amante para ganhar a vida no Norte, mas retorna, após passar por experiências transformadoras, decidido a nunca mais conviver com pessoas brancas. Grange refaz sua vida, torna-se fazendeiro, mas tem que lidar com as consequências de suas escolhas no passado. Escrito com linguagem poderosa e precisa, o livro trata de violência – racial, social, familiar, contra a mulher -, mas também da força humana, capaz de mudar uma realidade inóspita por meio do amor e da desconstrução de estruturas patriarcais.

O livro de maio da TAG Curadoria foi uma indicação da escritora Jarid Arraes, e trouxe um livro de Alice Walker ainda não publicado no Brasil. A edição está muito bonita, e se nota todo o cuidado na produção, tradução e revisão da mesma.

A história tem início na infância de Brownfield, cujo pai Grange passa os dias da semana trabalhando em uma área rural, e nos finais de semana sai para beber. Sua mãe se chama Margaret, uma mulher que vive submissa ao marido. Ela também colabora com o sustento da casa, catando minhocas para a fábrica de iscas, deixando o menino sozinho com um punhado de açúcar dentro de um pano para ele ir chupando e assim matar a sua fome.

O sofrimento a despertara, e ele não precisara lhe contar que ela não tinha conseguido êxtase no casamento, mas apreensão.

Mas na sua adolescência seu pai vai embora e sua mãe morre, e ele parte em busca de outra vida, não indo muito longe, e acaba conhecendo Mem, uma moça estudiosa que começa a ensina-lo a ler e escrever. Mas a paixão inicial que tinha tudo para tornar a vida mais feliz e diferente, pelo espirito destruidor de Brownfield, acaba sendo uma repetição da infância do menino e a perdição de Mem.

A terceira geração da família Copeland é representada por Ruth, a filha caçula de Mem e Browfield. É ela a grande beneficiada pelas mudanças do avô Grange, que além de lhe trazer a discussão da relação negros, índios, judeus e brancos, lhe dá amor.

Eu queria que ele fizesse apenas isso por nós para podermos enterrar ele!

Alice Walker divide a sua história em onze parte, onde indicam uma mudança na vida dos personagens. Sua escrita é muito fluída e fácil de ler, ao mesmo tempo que a leitura é extremamente dolorosa, ela te provoca a virar mais uma página e seguir acompanhando a vida destes personagens que se tornam tão íntimos para os leitores.

A narrativa em terceira pessoa transporta o leitor para dentro de cada ambiente, onde não precisamos estar dentro de suas mentes para sentir cada frustração, mudança, tristeza, alegrias, ou compartilhamento de memórias.

Sua raiva, sua cólera e sua frustração imperavam.

Os temas racismo e machismo são muito fortes no livro. A violência física e psicológica pelos quais passam crianças e mulheres é desesperadora. E o pior, elas não vêm somente do homem branco, mas principalmente entre as paredes de suas casas, onde o marido/pai torna a cor de torna uma ofensa, usando-a junto com termo chulos.

O livro me deixou com muitas perguntas, que vão desde o porque estas mulheres sujeitavam a si e seus filhos a tamanha tortura, o motivo pelo qual a pessoa não consegue se libertar dos rótulos dados por seu agressor, até a complexidade do personagem Brownfield, ao qual me pegava pensando se tamanha maldade era de traumas infantis, uma psicopatia ou apenas um traço da sua personalidade.

E soube, mesmo antes de se dar conta disso, que o pai nunca mais ia voltar, que o odiava por tudo e sempre o odiaria.

Um livro que recomendo pela escrita, pelo que aborda, e principalmente, pelas perguntas que deixam para que o leitor procure as suas próprias respostas.

A terceira vida de Grange Copeland
The third life of Grange Copeland
Alice Walker
Tradução: Carolina Simmer e Marina Vargas
TAG – José Olympio
1970 – 319 páginas