Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O voo da guará vermelha



Sinopse: Rosálio, pedreiro e analfabeto, atravessa o país em busca de alguém que o ajude a ler e escrever. Irene, prostituta e soropositiva, conhece as letras precariamente, mas o bastante para ensiná-las. Do encontro desses dois personagens nascem as histórias que Rosálio não cansa de contar, e que Irene esperou tanto tempo para ouvir. O encanto da fala de Rosálio torna mais amena a luta de Irene contra a doença e transforma em realidade o desejo do pedreiro de ganhar a vida como contador de histórias. Com delicadeza e inteligência, Maria Valéria Rezende narra a trajetória desses dois personagens que, marcados por um passado difícil, descobrem o amor, a cumplicidade e a possibilidade de horizontes mais amplos.

No mês de maio/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do editor do Círculo do Livro Fernando Nunes o livro O Voo da guará vermelha da escritora brasileira Maria Valéria Rezende. O mimo foi um maravilhoso alfajor da Odara.

Rosálio foi criado em uma pequena comunidade e era chamado de ninguém, até sair pelo mundo e escolher o seu próprio nome inspirado em uma professora que admirava de longe. Em sua busca constante para deixar de ser analfabeto, ele carrega livros que deseja ler e acumula histórias.

Andando de cidade em cidade um dia é confundido como um possível cliente por uma cansada Irene, mulher que sabe ler e escrever e tem como profissão uma das mais antigas do mundo. Em estágio avançado pela AIDS, sua confusão é facilmente explicada pela baixa constante na procura por seus serviços, já que a doença suga cada dia mais a sua aparência, tornando-a pouco atraente aos olhos dos homens que frequentam o local.

Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula sem cabeça?


O encontro dos dois transforma Rosálio em uma espécie de Xerazade, onde ele retorna ao quarto de Irene sempre que o trabalho permite para contar o que viu e viveu ao longo dos anos. E ela transcreve para um caderno cada uma das histórias contadas, tornando-as fontes de aprendizado para o homem que as conta e de motivação para viver um dia a mais para a mulher antes tão desesperançosa.

Convidando a todos que o ouvem e os que leem a narrativa a ficar mais um pouco para saber qual será a próxima história.


A escrita de Maria Valéria Rezende

A educadora e freira paulistana Maria Valéria Resende estreou como escritora após os 60 anos e já ganhou prêmios como o Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas. Sendo também uma das criadoras do Mulherio das Letras, um coletivo feminista.

Sua escrita reflete muito de sua vivência em meio as comunidades no Nordeste, direta, leve e fluída, lembrando a forma oral de se contar histórias. Também costuma utilizar personagens de perfil simples, descrevendo suas lutas e criticando a desigualdade.

Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela, estou tão magra!, é da doença...


Em O voo da guara vermelha irá se encontrar estes elementos em uma estrutura semelhante a encontrada na literatura de cordel, com suas frases longas e uma cadência que lembra as poesias populares. E seus heróis são um analfabeto que sonha ler e contas suas histórias pelo mundo e uma prostituta que vive um dia de cada vez.

E como heróis são feitos de transformação, resistência e resiliência, é a comparação feita por Rosálio de uma ave que nasce cinzenta e vai se tornando vermelha com Irene em seu vestido vermelho que dá nome ao livro.


O que eu achei do Voo da guará vermelha

Logo no início da leitura a primeira coisa que me veio à cabeça foi o livro mil e uma noites. Mas diferente de Xerazade, a maioria das histórias tinham início, meio e fim no mesmo capítulo. Dando a impressão que poderia facilmente ser um livro de contos, se tirasse o casal base.

E como o foco são as histórias de Rosálio, eu achei que a vida de Irene ficou com algumas pontas soltas. Sim, eu sei que nem toda a narrativa precisa ter tudo explicadinho. Mas visto que ela introduziu o nome do livro que serviu de inspiração entre os que o personagem carregava, acredito que falar mais sobre a criança (filho?) de Irene poderia ter complementado a vida da mesma, que é colocada de uma forma mais superficial.

Conta, homem, conta mais, é cedo para ir-se embora, nem o dia clareou, enquanto durar a noite conta, conta para eu sonhar.


Aliás, ouso dizer que o verdadeiro personagem principal aqui é a educação. O saber ler e escrever como forma de ser visto, não ser enganado, conseguir fazer escolhas em plena consciência. É a educação que une uma alma quebrada a uma alma que parece sempre esperançosa. Livros são tesouros e memórias podem ser eternizadas no papel.

Em relação aos contos de Rosálio, há as mais diversas situações que podem lembrar as fofocas de qualquer cidade pequena ou de condomínios que igualam os números do interior pela quantidade de moradores. Inicialmente ele conta a própria história e da pequena comunidade que morava, depois, surgem as histórias das suas andanças. Há os homens que enganam os outros para torna-los escravos, a febre do ouro no garimpo, o marido traído e eternamente apaixonado que aceita as idas e vindas da esposa, a vivência em uma terra onde a bala corria solta, entre outras.

Nasci sem nome, como a serra que me aguardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse.


O livro no geral é curto, fácil de ler, e a história é bonitinha e sensível, e apesar de conter pautas dolorosas, incrivelmente leve. Eu gostei, mas não amei. Passados dois meses da leitura (sim, estou com as resenhas bem atrasadas) a narrativa já não ecoa fortemente na minha mente, talvez por que no meu gosto como leitora, os personagens principais, aqui mais a Irene, precisariam ser mais trabalhados para ganharem o meu coração.

Mas, como no nosso encontro mensal para discutir os livros da TAG o livro ganhou o coração da grande maioria, fica a recomendação para você "ouvir" as histórias de Rosálio e quem sabe se emocionar com todas elas.


O voo da guará vermelha
Maria Valéria Rezende
TAG - Alfaguara
2026 - 165 páginas
Publicado originalmente em 2005


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O problema dos três corpos



Sinopse: China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena à beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Em plena Revolução Cultural Chinesa a jovem Ye Wenjie vê o pai ser assassinado por não renegar conceitos básicos da Física, como a teoria da relatividade de Albert Einstein. Sua mãe, também da área, se torna submissa ao novo sistema e sua irmã se torna membro da guarda vermelha.

Enviada para um campo de trabalho forçado, ela é envolvida em uma situação perigosa por um jornalista que lhe atribuiu falsas acusações para se salvar. Mas graças ao seu conhecimento avançado em astrofísica, ela é transferida para a Base Costa Vermelha a pedido de dois oficiais, um local para entrar e não sair mais.

Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.


Neste local há uma enorme antena parabólica, e é através dela que uma desiludida Ye Wenjie irá conseguir contato com Trisolaris, o sistema solar com três sóis que orbitam entre si de forma a transformar a vida no planeta de mesmo nome em um verdadeiro caos.

Ao pular para a época atual, o mundo enfrenta uma crise nunca vista no mundo científico, intelectuais importantes estão morrendo sem explicação e seus projetos estão sendo parados, gerando atrasos em diversas áreas.

E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas.


É quando o engenheiro de nanomateriais Wang Miao começa a ver uma contagem regressiva que ninguém mais enxerga. Com medo do que pode significar, ele começa uma corrida com a ajuda do detetive Shi Qiang para entender o que está acontecendo e tentar entender o seu papel em tudo.


A escrita de Liu Cixin

Graduado em engenharia hidrelétrica, o chinês Liu Cixin começou a escrever quando ainda atuava em sua área de formação, sua paixão pelos clássicos ocidentais da ficção científica tornou-se inspiração para o seu gênero literário escolhido.

Como escritor ele venceu por oito anos consecutivo o prêmio literário chinês Galaxy Award e foi o primeiro autor asiático a vencer o Prêmio Hugo de Melhor Romance.

É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície?


Sua escrita utiliza tantos conceitos reais de tecnologia, física quântica, astrofísica e mecânica como uma visão histórica, cultural e filosófica da China.

Tudo plenamente encontrado no primeiro volume da trilogia O problema dos três corpos, que dá o mesmo nome ao livro.

Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá.


Ao ter cientistas como personagens, as explicações dadas não são banais, ali estão os conceitos e lógicas estudados pelos profissionais das áreas de uma forma que o leitor entenda.

No primeiro volume o autor também optou por uma estrutura não linear, onde os capítulos podem se alternar entre passado e presente para que se descubra com detalhes o que levou a Terra ao seu momento atual.

Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?


Dando a ficção científica um toque de suspense, com investigações, suposições e mistérios revelados.

Somado a isso há todo uma base histórica que coloca os personagens em um ambiente tenso cujos traumas são levados até o presente. Além disso, no presente, temos um olhar não ocidental em relação aos eventos globais que se apresentam, dando uma outra perspectiva dos acontecimentos se comparado a outros livros de ficção científica.

A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.


O autor também utiliza o recurso de um jogo virtual para apresentar o mundo de Trisolaris, onde os humanos participantes do jogo utilizam nome de figuras famosas como Galileu, Newton e Copérnico.

Tornando a história rica em detalhes e convidativa para seguir a leitura no segundo volume.


O que eu achei de O problema dos três corpos

Eu adorei. No momento que escrevo esta resenha, só falta o último volume para terminar a trilogia.

Meu primeiro contato foi com a série da Netflix, que eu já havia achado boa, mas cai na velha frase "o livro é melhor" após a leitura.

E não apenas porque a série resume o livro, e eu entendo que talvez todos os conceitos pudessem soar um tanto tediosos para o público, mas o que mais me pegou foi substituir o local (China) por um grupo de cinco jovens cientistas que moram em Londres.

O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica.


Pois um dos grandes charmes do livro é justamente a influência histórica e cultural que irão gerar um problema global. Embora ele não se aprofunde em questões existenciais dos personagens, o que eu vi foi como cada evento foi impulsionando os atos dos envolvidos ao longo das décadas.

E embora o coletivo se sobreponha ao individual, a ironia aqui é que a ação de um único ser humano pode gerar efeitos para os habilitantes de dois planetas.

O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.


Outro ponto que o livro ganha da série: Trisolaris. Existe um distanciamento maior na série, mas no livro não apenas o jogo dos 3 corpos é muito mais explorado, como também tive mais acesso aos habitantes deste planeta e suas diferenças.

Um ponto que pode pegar os leitores é justamente a parte dos conceitos, que são explicados de forma simples ao longo da narrativa. Eu sou da área de exatas e adorei relembrar ou conhecer novos, achei a forma como eles se encaixam na história muito bem construído.

Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.


Mas isso exige uma tranquilidade na leitura, não é uma leitura para ser feita de forma dinâmica, por tudo se conectar. As informações não são em vão, mas de certa forma tornam a narrativa um pouco mais lenta, principalmente para quem espera um ritmo mais frenético como da série.

Ao mesmo tempo é tudo muito verossímil, as discussões na ONU, as conversas entre vizinhos, o planejamento para um futuro que já estava ameaçado pelas atitudes humanas, mas precisou de uma interferência extraterrestre para finalmente ser olhado.

Tornando o sucesso da obra mais do que justificável e convidativa para quem gosta de ficção científica, de narrativas definitivamente embasadas, de históricas com uma base cultural forte, e naturalmente para quem gosta de ler. Ficando a dica para vocês.


O problema dos três corpos
The three body problem
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Suma
2016 - 316 páginas
Publicado originalmente em 2006

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.

Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.

No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.



No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O segredo final


Sinopse: Robert Langdon, respeitado professor de Simbologia, vai a Praga para assistir a uma palestra revolucionária de Katherine Solomon – uma proeminente cientista e intelectual com quem ele recentemente iniciou um relacionamento. Katherine está prestes a publicar um livro explosivo que contém descobertas espantosas sobre a natureza da consciência humana e que ameaça desestabilizar séculos de crença estabelecida. Quando um assassinato brutal transforma a viagem em caos e Katherine desaparece junto com o manuscrito de seu livro, Langdon se vê na mira de uma poderosa organização e perseguido por um adversário assustador saído da mitologia mais antiga de Praga. À medida que a trama se estende até Londres e Nova York, Langdon tenta desesperadamente encontrar Katherine – e desvendar o que está acontecendo. Em uma corrida eletrizante pelos mundos opostos da ciência futurista e das tradições místicas, ele descobre a verdade chocante sobre um projeto secreto que mudará para sempre o que a humanidade sabe sobre a mente humana.



O sexto livro da série protagonizada pelo simbologista de Harvard Robert Langdon levou sete anos entre escrita e pesquisa. Como nos demais livros, O segredo Final é um thriller que combina mistério intelectual, perseguições e reflexões sobre a mente humana, onde o foco está principalmente em consciência e identidade.

Desta vez o local escolhido é a histórica e enigmática cidade de Praga, onde Langdon vai acompanhar sua namorada Katherine Solomon em um evento que ela é uma palestrante convidada. Katherine  é uma cientista conhecida por suas pesquisas inovadoras sobre a consciência humana e que promete revelar em seu livro uma visão diferente de como compreendemos a mente e a relação entre ciência e espiritualidade.

Eu sou uma neurocientista, garantiu si mesma. Estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais. 


Só que quando Langdon está entre os participantes, nada ocorre de maneira simples, e logo ele está envolvido em um mistério que novamente irá trazer símbolos ocultos e referências filosóficas em um verdadeiro tour pela cidade de Praga, enquanto as certezas de quem é confiável ou não se perdem no caminho, já que as descobertas relatadas no livro impactam em pessoas muito mais poderosas que Langdon ou Katherine poderiam imaginar.


A escrita de Dan Brown

O autor norte-americano Dan Brown cresceu em meio ao ambiente acadêmico, e se a música e a sala de aula não se tornaram a sua profissão, como escritor ele obteve reconhecimento mundial com O código da Vinci, livro que apresentou aos leitores o personagem Robert Langdon e mais tarde se tornou filme.

Sua escrita se caracteriza principalmente por trazer temas complexos de forma envolvente, seus thrillers sempre misturam um assunto acadêmico, perseguição, cidades cheias de história, mistério e assassinato. Tudo em uma escrita com várias reviravoltas e explicações que tornam o tema de fácil entendimento para o leitor.

Desde a aurora dos tempos, nós buscamos respostas para os mistérios persistentes da mente humana... a natureza da consciência e da alma.


Em O Segredo final isso não é diferente, e o tema pode ser tão provocativo quanto os descendentes de Jesus Cristo, já que aqui abordamos uma teoria que envolve consciência e vida após a morte. 

Começando pelo fato de que logo no início o leitor é avisado do que é realidade no livro, e não, não é pouca coisa, já que o livro irá apresentar para os mais desavisados, como eu, a existência da ciência noética, que realiza o estudo da consciência humana.

Ele já estava acostumado a essa reação dos desconhecidos. Ela o fazia lembrar que tinha uma forma física, mesmo ninguém conseguindo ver o que ele era de verdade.


E mais uma vez temos a questão religiosa, onde os símbolos religiosos se entrelaçam com os estudos da consciência e porque não dizer, da própria alma.

Tornando uma narrativa que te leva facilmente para o google para saber mais ou servindo como apenas um livro relaxante para testar se algumas das teorias imaginadas ao longo da leitura estará certa.


O que eu achei de O Segredo Final

Eu gosto muito destes livros que parecem um quebra-cabeça, e sou fã do estilo do Dan Brown que sempre usa de tema algo que mexe com a minha curiosidade e me faz ter vontade de viajar para cada cidade que ele envia o Robert Langdon. 

Mas que O Segredo Final não me prendeu tanto assim no seu início. E neste caso foi bom que eu não desisto fácil de um livro.

Certa vez ele havia se pegado igualmente sozinho no Louvre com a Mona Lisa, mas em circunstâncias bem menos agradáveis do que as de agora.


Confesso que tirando bem o início, quando o caos começa e nem Langdon e nem o leitor sabem o que está acontecendo, eu achei a leitura um tanto arrastada até a página cem, quando os ganchos começaram a estimular a minha curiosidade. 

O que eu achei arrastado neste início foi a apresentação de diversos personagens em sequência, parecendo mais centrado na entrada deles do que no desenvolvimento da narrativa em si.  Mas como eu queria saber o que levou a CIA realizar uma movimentação tão grande para que um livro não fosse publicado, eu segui adiante, e sim, na metade final, junto com as explicações, o livro ganhou força para mim.

Sua consciência não é uma criação do seu cérebro. Na realidade, a sua consciência nem sequer está localizada dentro da sua cabeça.


Como em outros livros do autor, há a questão ciência versus religião, aqui é a existência ou não de vida após a morte quando associado a localização da nossa consciência. Um assunto que sim, está sendo debatido cientificamente e daria um novo sentido não só a morte como também a doenças como epilepsia e múltiplas personalidades.

Um ponto interessante em O segredo final é que Katherine não é uma simples coadjuvante na história, a mulher que conhece o professor Langdon há anos é também uma protagonista ao mostrar um outro tipo de cientista, o que estimula vários debates entre os dois e me deixou curiosa em saber se ela será um personagem permanente na série.

A maioria dos livros publicados chegava e partia sem deixar rastro, mas uns poucos ativavam a mente dos leitores e se transformavam em best-sellers.


Aliás, achei que neste livro existem menos enigmas e mais discussões sobre o provar e o acreditar dentro da ciência. No quesito curiosidade tem o resgate da disputa EUA versus Rússia, uma brincadeira com o logotipo de uma famosa rede de cafés e uma homenagem ao próprio editor, que de certa forma virou personagem do livro mostrando o lado editorial.

No geral eu gostei, mesmo não tendo achado o mais empolgante dos livros de Dan Brown, o tema abordado despertou e muito a minha atenção, fazendo a leitura valer a pena e me gerando questionamentos até hoje, principalmente no que se relaciona a doenças que afetam a memória.

O rabino batizou sua criação de golem, "matéria-prima" em hebraico: uma referência ao barro com o qual o monstro fora criado.

Um livro para quem gosta de realizar pesquisas durante e depois da leitura, que gosta de descobrir curiosidades acadêmicas, científicas e de simbologia, para quem curte desvendar mistérios, para quem não se importa de encarar leituras longas e para quem gosta é de ler o que tiver em mãos.


O Segredo Final
The secret of secrets
Dan Brown
Tradução Fernanda Abreu
Arqueiro
2025 - 560 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 13 de março de 2026

A hipótese do amor



Sinopse: Quando um relacionamento falso entre cientistas encontra a irresistível força da atração, as teorias de uma mulher sobre o amor, cuidadosamente calculadas, são postas à prova. Olive Smith, uma estudante de doutoramento em Biologia, não acredita em namoros duradouros. Após terminar o relacionamento com Jeremy, percebe que a sua melhor amiga, Anh, gosta dele e decide juntá-los. Para a convencer de que não se importa e de que está feliz e a namorar, Olive precisa de o provar, mas, pressionada, entra em pânico e resolve beijar o primeiro homem que vê: Adam Carlsen, um jovem professor de outro departamento. Olive acaba por ficar chocada ao perceber que este tirano do laboratório da Universidade de Stanford, conhecido por deixar os estudantes em lágrimas, aceita manter a farsa e fingir que é, realmente, seu namorado.



Para convencer sua melhor amiga Anh de que ela pode se relacionar com o seu ex-namorado, a cientista e doutoranda Olive Smith inventa que está em um relacionamento. Pressionada para apresentar o novo parceiro, ela acaba beijando o primeiro homem que aparece no corretor da universidade e assim acaba sendo vista por Anh.

O problema é que este homem é Adam Carlsen, um professor conhecido por tornar a vida dos doutorandos um verdadeiro inferno e depois de ser agarrado por Olive a lembra das regras sobre assédio.

Ela estava bem ciente de que se comprometer a encarar alguns anos trabalhando oitenta horas por semana, sendo mal paga e desvalorizada, talvez não fosse bom para sua saúde mental.


Mas após boatos de que o professor estaria analisando uma possível troca de universidade, Stanford opta por bloquear o seu financiamento de pesquisa. Gerando a Adam a necessidade de mostrar para a universidade que possui vínculos com o local e não está pensando em ir embora. E assim surge um acordo para que eles representem na frente de todos terem um relacionamento amoroso.

Proporcionando assim uma leitura que mescla risadas, romance e reflexões dos desafios que as mulheres ainda enfrentam, aqui representadas pela ciência e o mundo acadêmico.


A escrita de Ali Hazelwood

A autora italiana e doutora em neurociência utiliza o pseudônimo Ali Hazelwood para escrever romances protagonizado por mulheres que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Sua carreira na escrita começou com outro pseudônimo Ever so Halo, que ela utilizava para escrever fanfics com os personagens de Star Wars. A boa recepção destas histórias de fãs transformou as fics em romances publicados e um deles é justamente A hipótese do amor, que se tornou um fenômeno no TikTok.

Aquele beijo estava parecendo uma cabeçada meio desengonçada, e ela foi ficando ansiosa, achando que não ia conseguir levar a coisa toda adiante.


Seu estilo se caracteriza por comédias românticas em ambientes acadêmicos ou de pesquisa científica. Suas protagonistas são mulheres fortes que precisam superar o machismo e a desvalorização entre os pares de sexo oposto.

Ela se utiliza de alguns temas recorrentes, como "enemies to lovers" e namoros de mentirinha que acabam em relacionamentos românticos.

Era a única mulher na sala, basicamente sozinha num mar de homens brancos que já conversavam sobre barcos, qualquer jogo com bola que tinha passado na Tv na noite anterior e os melhores lugares para viajar de carro.


Sua escrita é bastante fluída e leve, com um ritmo que convida a virar mais uma página enquanto se envolve com as tensões e cenas um pouco mais apimentadas dos personagens. Com uma narrativa em terceira pessoa, o foco está todo na personagem principal Olive, incluindo os seus pensamentos.


O que eu achei de A hipótese do amor

Encontrei a indicação do livro por acaso, como uma leitura leve para distrair a cabeça. Como havia lido uma sequência de livros mais reflexivos e tensos, acabei comprando A hipótese do amor para realmente relaxar.

E sim, o livro é leve, com aqueles clichês de comédia romântica que eu adoro, em uma escrita que realmente me envolveu, já que o término de um capítulo já me despertava a vontade de ler o próximo.

Havia algo especial no jeito com que ele falava. Talvez fosse um sotaque, talvez apenas uma característica de sua voz.


Como uma profissional da área de tecnologia, onde não raro convivo mais com colegas do sexo masculino do que com o do feminino, não foi difícil lembrar de algumas situações de quando iniciei na profissão, em que a capacidade das mulheres ainda levantava dúvidas e sobrancelhas. Algo que felizmente tenho me deparado cada vez menos, embora saiba que a luta não só pelo espaço profissional, mas também de locais livres de assédio indesejado está longe de terminar.

E essa é uma reflexão interessante no livro, as dúvidas, a necessidade de se superar, o medo de ser uma impostora apresentados pela protagonista Olive Smith é ainda muito recorrente entre as mulheres. Pois existe uma autocobrança forte onde não basta ser boa, precisamos sempre sermos ótimas em tudo o que nos propomos, o que gera um stress maior.

Precisava de um laboratório melhor se quisesse produzir conhecimento científico decente. Equipamentos melhores. Reagentes melhores. Culturas de bactérias melhores. Tudo melhor.


Pois estamos sempre precisando provar que temos capacidade de estar ali, que temos direito a ocupar aquele espaço, que merecemos ser reconhecidas pelo nosso desempenho.

Mostrando que mesmo na leveza é possível gerar reflexões importantes, principalmente em um mês que temos o Dia Internacional da Mulher, onde o 8 de março nos lembra do que já conquistamos e de tudo o que ainda precisamos lutar para abranger ainda mais mulheres.

Porque nem por milhões de dólares em fundos de pesquisa valeria a pena ter uma garota aleatória que você nem conhece direito sentada no seu colo no auditório mais lotado da história dos auditórios lotados.


Sobre o par romântico. o Dr. Adam Carlsen não foge do estereótipo de gatão, e apesar da postura inicialmente fechada, foi me conquistando junto com a Olive, tornando um casal fácil de torcer para um happy end.

Também há amizade com Anh e Malcolm, amigos leais que apoiam Olive. Sendo Anh a responsável direta por colocar Olive nas situações mais diversas e, mais importante, ser a causa do início do falso namoro. A interação entre os personagens é muito legal e divertida, trazendo aqueles pequenos grandes dramas e histórias engraçadas que se vive durante o período acadêmico.

Só sei que você sabe não ser um babaca e não entendo por que é tão diferente comigo.


No geral adorei a leitura, mas confesso que apesar de adorar a escrita, não me aventurei a comprar outro livro da autora, com medo de encontrar mais do mesmo. Então se alguém já leu outro título e achar que vale a pena, pode me recomendar aqui nos comentários.

E eu deixo de dica A hipótese do amor, lembrando que é um livro 18+ devido a descrição de dois capítulos do livro, que pode conquistar os corações de quem adora um romance fofo, curte mulheres fortes em histórias leves ou quem quer um vira página para relaxar.


A hipótese do amor
The Love Hypothesis
Ali Hazelwood
Tradução: Thaís Britto
2022 - 336 páginas
Publicado originalmente em 2021


sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As montanhas cantam


Sinopse: As montanhas cantam é centrada na família Trần. Tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã, a narrativa é marcada pelos acontecimentos que atravessaram o núcleo familiar - desde a avó Diêu Lan, até a neta Huong. É um romance vívido que escancara os custos humanos da guerra, do ponto de vista do próprio povo vietnamita. Ao mesmo tempo, o livro nos mostra o poder e os efeitos da esperança.



Nos anos de 1970 a jovem Hương se vê sozinha com avó na cidade de Hanói tentando sobreviver ao medo dos bombardeios e de perder seus pais e tios que estão entre os combatentes da Guerra do Vietnã.

A luta cotidiana para comer, trabalhar e estudar desperta as memórias da avó da garota, Diêu Lan, que durante os anos de 1940 e 1950 viu a sua família ascender com trabalho árduo e respeito como proprietários de terra para depois entrarem em um verdadeiro inferno de escolhas durante a reforma agrária do país.

Minha avó costumava me dizer que, quando nossos ancestrais morrem, eles não desaparecem simplesmente, mas continuam cuidando de nós.


Os dois acontecimentos acabam se fundindo, trazendo à tona feridas nunca cicatrizadas, diferenças de opinião e escolhas de caminho que não possuem volta. 

Medo, amor, coragem, vergonha se entrelaçam em uma família que luta para ver o sol a cada dia e mostram o antes, durante e o depois de um evento tão traumático chamado guerra.


A escrita de Nguyễn Phan QuếMai

Nascida em uma pequena vila no Delta do Rio Mekong no Vietnã, Nguyễn Phan QuếMai é também poeta e tradutora. Para escrever o seu primeiro romance As Montanhas Cantam, optou pelo idioma inglês para contar uma mistura de ficção e fatos inspirados em suas próprias experiências durante a infância.

Reconhecida como embaixadora cultural, ela compartilha com o ocidente de forma bastante emocional os acontecimentos históricos de seu país. Seja usando metáforas, seja através de provérbios populares e o próprio vocabulário, onde ela opta em utilizar a escrita original para os nomes, apesar do texto em inglês.

Um ruído trovejante se aproxima. Explosões ecoam de longe. Agarro-me aos ombros de vovó com mãos suadas, enterrando o rosto em seu corpo.


Ela também se utiliza de diferença geracional para dar duas visões de resiliência em tempos difíceis, e da compaixão para narrar uma história sem mocinhos ou vilões, mas de uma família que segue se levantando a cada queda, que busca sobreviver em meio a perdas, traumas e todos os desafios que se apresentam ao longo da jornada.

Uma curiosidade é que a autora optou por publicar em inglês para minimizar o risco de mudanças no seu texto durante as traduções. Tentando preservar toda a cultura e impacto emocional que a obra apresenta o máximo possível.


O que eu achei de As montanhas cantam

A combinação de governo que divide a sua população colocando uns contra os outros com uma guerra envolvendo exércitos estrangeiros pode ser a fórmula perfeita para destruir famílias que querem apenas trabalhar, correr atrás dos seus sonhos e educar os seus filhos.

No caso dos personagens de As montanhas cantam, eles surpreendem por conseguirem manter a resiliência em buscar uma saída após secar cada lágrima. Principalmente a avó, uma mulher muito inteligente e forte, que não perde a humanidade mesmo quando é vítima de injustiças.

Você sabia que naquela época os dentes pretos eram considerados essenciais para as mulheres? Aquelas com dentes brancos eram consideradas indecentes.


Eu achei o livro sensível e dolorido. Foi impossível para mim não ficar pensando naquela mãe que precisa distribuir os seus filhos em casas estranhas para que não fossem mortos por causa de mentiras. Assim como na menina que espera pacientemente a recuperação de uma mãe ferida na alma e por um pai que nunca retorna. 

O coração também apertou, seja pelas mortes injustas, seja pela alma que se sente suja, seja pelo primeiro amor que nasce em meio a muitos contrastes, assim como pelo perdão após toda a maldade.

Ao nosso redor, homens, mulheres e crianças, com roupas rasgadas e rostos fantasmagóricos faziam a mesma coisa, enchendo o olho do inferno com os escombros de suas casas. 


Tudo com uma escrita fluída e envolvente, que ao mesmo tempo que te torna um membro invisível acompanhando a família, compartilha de forma natural a cultura vietnamita. Além disso, Hương é uma narradora que consegue colocar delicadeza em meio a toda dor, tanto nas histórias passadas de sua avó, quanto no seu presente, mostrando que mesmo após tantas tragédias, é preciso coragem para não desistir.

Além é claro da parte histórica, que aborda tanto a divisão do Vietnã como o lado dos vietnamitas em uma guerra que durou em torno de vinte anos, tendo oito anos mais violentos. Lembrando-me mais uma vez que nenhuma disputa armada vale o sofrimento de pessoas inocentes.

Esperávamos que a guerra acabasse, mas ela continuou. Se vovó estava triste e com medo, nunca me deixou ver isso de novo.


Ficando a dica para quem gosta de histórias com fatos históricos, narrativas familiares, romances que nos lembram do inesperado, quem busca autores de outros países, e claro, quem gosta de ler.


As montanhas cantam
The mountains sing
Nguyễn Phan QuếMai
Tradução: Felipe Ficher e Petê Rissatti
TAG
335 páginas 2023
Pulicado originalmente em 2020