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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.



No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mau hábito



Sinopse: Nesta estreia literária que se tornou um fenômeno mundial, acompanha a formação de uma criança que cresce num bairro operário devastado pela heroína, na Madri dos anos oitenta. Com crueza e poesia, Alana S. Portero cria um romance sobre as alegrias e os conflitos envolvidos na experiência de uma pessoa que decide experimentar livremente o gênero. A partir da sua escrita terna e feroz, caminhamos entre mitologias diversas, construídas com santos católicos, divas pop, travestis e referências literárias.



No mês de outubro/2024 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Carla Madeira o livro Mau hábito da escritora espanhola Alana S. Portero. O mimo foi uma ecobag para garrafinha de água.

Nas décadas de 1980 e 1990, artistas como Madonna, Rick Astley, Whitney Houston, U2 explodiam nas paradas de sucesso. Fazendo a trilha sonora de crianças e jovens espalhados pelo mundo inteiro, que externavam ao cantar as músicas muitos dos sentimentos que guardavam.

Vi uma geração inteira de rapazes cair como anjos em estado terminal. Adolescentes com a pele cinza, faltando dentes, cheirando a amoníaco e urina.


Inclusive em Madrid, que vivia uma transição política - após a ditadura de Franco estavam retornando a democracia -, cultural - sendo celeiro de novos talentos -, social - com uma sociedade mais aberta e tolerante -, além de um grande desenvolvimento urbano que mudaria a cara da cidade.

E é no meio destas transformações que uma criança, vivendo no bairro operário de San Blas, se depara com o primeiro desafio de sua vida: não se identificar com o gênero que nasceu.

A droga foi a última fora de execução sumária de dissidentes de um regime que encontrara a forma de se perpetuar.


Imitando a postura de seus parentes do sexo masculino em público – a forma de um primo sentar, de um tio comer e do pai de se expressar -, é no banheiro e ouvindo música que ela tenta se transformar no que gostaria de ser, invejando os grupos de mulheres que se juntam para conversar e fazer compras, em uma aliança muito mais antiga do que o imaginado.

E é essa criança que narra Mau hábito, compartilhando cada fase de sua vida, da infância, passando pela adolescência até a vida adulta. Onde divide com o leitor suas dúvidas, sua própria aceitação, seus amores e horrores em uma escrita sensível e delicada.


A escrita de Alana S. Portero

Mau hábito é o romance de estreia da escritora espanhola Alana S. Portero, que assim como a narradora da sua história, é uma mulher transgênero que nasceu em um bairro operário de Madrid. Iniciou a carreira no teatro e hoje ocupa um papel de destaque na literatura espanhola contemporânea.

Em Mau hábito a narrativa ocorre em primeira pessoa, onde experiências e pensamentos são compartilhados com o leitor, tendo características de um romance de formação, já que a história se inicia ainda na infância e prossegue por cerca de trinta anos.

Era insuportável, e se alguma vez a violência extrema teve uma rotina cômoda foi naquela casa.


O ambiente escolhido é uma mescla de cuidados familiares, criação de laços com quem compartilha as mesmas vivências e a violência em um bairro mais pobre, que pode vir tanto na forma física quanto na psicológica. 

Trazendo à tona assuntos como drogas, aids, preconceito, primeiro amor, e a cultura popular, seja por música, moda, cinema e bairros. Ao mesmo tempo que mostra de forma sutil a transformação de uma cidade após um período de muita restrição.

No mundo das portas abertas, não havia espaço para o rebolado nem para o choro, só para os machões.


Tudo em uma escrita bastante sensível, que encaminha a personagem da história de forma gentil, mesmo nas situações mais difíceis, sendo muito fácil para o leitor sentir carinho e vontade de ajuda-la.


O que eu achei de Mau hábito

Estive em Madrid em 2015 e ler Mau hábito foi dar um passeio por algumas ruas, além de me permitir fazer um antes e depois entre o que estava escrito e o que eu vi durante a minha viagem, ao qual curiosamente pegou o dia da parada gay na cidade.

Como fã das músicas dos anos 80 e 90 adorei as referências musicais, não raro ficava com algumas das músicas citadas na cabeça (Papa don't preach), e me sentia no quarto da personagem com vontade de dançar junto.

Meu pai era assim. Sempre nos dizia a verdade, sem muitos rodeios, e considerava que tínhamos direito às respostas.


Também achei que a escrita me permitiu entender um pouco do sofrimento sentido por quem sofre de disforia, termo utilizado pela própria autora, me fazendo refletir que se já é difícil para muitos lidar com o espelho quando inicia o processo de envelhecimento, o quão duro deve ser em momento nenhum da vida se sentir bem na própria pele.

Existem vários eventos marcantes na história, que tem personagens secundários muito interessantes como as vizinhas Margarida e Peruca, o grupo de travestis que me lembrou o livro O parque das irmãs magníficas, o dono do bar Antônio com suas memórias em forma de fotos de quem foi vítima da aids, o primeiro amor Jay e o conhecido torcedor de futebol ao qual é bom manter distância.

Cibele era a guardiã dos emasculados, dos hermafroditas e dos eunucos, a mãe dos que renunciavam à masculinidade grotesca e abraçavam a ferocidade das mulheres.


Aliás, achei muito interessante a abordagem sobre o assunto, pois em um momento havia o primeiro amor sem consciência do risco, e depois a lembrança do vírus na época mortal que estava sempre à espreita.

Mas é justamente quando este personagem cujo nome só aparece uma vez parece estar se encontrando que ocorre uma virada e surgem os poucos pontos que me incomodaram na leitura.

Acabei entendendo isso, as dobras da memória são traiçoeiras e podem soltar lembranças tão vivas que corremos o risco de ficar presas em lugares que prometemos nunca mais pisar de novo.


Pois como acompanhamos a vida da personagem por um longo período, eu senti falta de uma conversa franca com a família. O motivo é justamente por ser uma família amorosa, estruturada, cujos pais explicavam dúvidas sem preconceito ou enviesados.

E para mim foi um sentimento que ficou latente mesmo após encerrar a leitura, pois em todas as partes que entrava mãe, pai e irmão, era possível sentir como eles eram uma base. Como eles pareciam saber que havia algo diferente pelo cuidado que todos tinham com a personagem, e como talvez essa conversa tenha feito falta para ela não ser tão perdida.

Tudo que tinha a ver com minha identidade, quando ensaiava as possibilidades de contá-la, soava como a confissão de um crime ou de um pecado imperdoável.


Como há uma passagem de tempo, também senti falta de explorarem a mudança na mentalidade da sociedade madrilena, como foi a mudança de tornar todas as ruas mais seguras para todos, não sendo mais necessário se esconder ou frequentar apenas bairros específicos.

Mas no geral gostei da história, concordo com o adjetivo que a minha mãe usou de ser um livro delicado, ao qual a escrita torna fácil compartilhar o misto de sentimentos da criança/jovem que acompanhamos crescer. 

Eu me esforço muito para me adaptar ao que se espera de mim, interrompo meus sonhos me dando uma bofetada.

Uma coisa que eu achei muito legal na edição da TAG, e ficou na torcida para ter na edição comercial também, é a playlist da autora para o livro. No meu livro, fica na última página.

Ficando a dica de leitura para quem curte romances de formação, que fazem o leitor caminhar pelas ruas de outras cidades, que gostam de refletir sobre a sociedade, ou que simplesmente gostam de ler uma boa história.


Mau hábito
La mala costumbre
Alana S. Portero
Tradução be rgb
TAG - Amarcord
2024 - 231 páginas
Publicado originalmente em 2023

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Línguas



Sinopse: Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina se arrisca dançando no parapeito da sacada. Apaixonado, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como duelos sangrentos e até mesmo falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó — que nutre por ele uma adoração desmesurada. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Seguindo uma teia de transformações, Línguas conta a história desses três personagens com destinos que ficam inextricavelmente unidos para sempre.

No mês de agosto/24 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da atriz Maria Bopp o livro Línguas do escritor italiano Domenico Starnone. O mimo foi um caderno pequenino para anotações.



Mimi devia ter oito ou nove anos de idade quando, após ouvir a fábula de Orfeu, passou a buscar nas redondezas de casa em Nápoles a fossa dos mortos. O motivo era resgatar a menina que foi o seu primeiro amor.

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos.


Sem saber o seu nome, ele a chamava de milanesa, já que o seu amigo Lello dizia que ela havia vindo de Milão, norte da Itália onde não se usava dialetos, e sim o italiano. A paixão à primeira vista foi quando viu a menina dançar na sacada do apartamento à frente do seu. 

O encanto gerou duelo entre os amigos e uma eterna lembrança em Mimi, que cresce com a sombra de milanesa em seus relacionamentos. Assim como sua avó, que após a perda do marido, vive como uma espécie de empregada da filha e seus poucos sorrisos e gentileza são reservados ao seu neto favorito Mimi.

Só falava sem freios com ela, que com os outros era muda que nem eu: guardava as palavras na cabeça e as usava no máximo comigo.


Mas é na vida adulta que Mimi irá estudar a própria língua, e começar a entender o poder que ela exerce não apenas na cultura de um povo, mas também em sua autoestima e memórias.


A escrita de Domenico Starnone

O professor e jornalista Domenico Starnone publicou seu primeiro livro aos 42 anos e hoje é considerado um dos autores contemporâneos mais importante da Itália. Seus livros tem como característica a escrita elegante e a profundidade psicológica de seus personagens.

Em Línguas o autor Domenico Starnone convida o leitor a conhecer um pouco da sua cidade - Nápoles - e de sua própria infância, já que a narrativa possui um toque de autobiografia.

Era de domínio público que, quando fazia sol, eu a espiava abobalhado da janela ou passava muito tempo em frente ao portão dela.


Starnone utiliza-se principalmente de três bases para costurar sua história. Começando pela família aqui representada pela avó, figura com a qual os diálogos ocorrem tanto na infância quanto na vida adulta.

A segunda base é a paixão idealizada e impossível pela milanesa, um amor platônico infantil que beira a obsessão. 

Havia décadas não esperava mais nada da vida, nem sequer um docinho, mas a partir de mim ela começoulogo a extrair doçuras de todo tipo.


Completando a pirâmide, está o amigo Lello, o garoto que embarca na imaginação de Mimi ao mesmo tempo que é um rival em todas as disputas.

E são estas três bases que propiciam o escritor discutir sobre a linguagem, não só como forma de escrita, mas também como forma de construir a própria identidade e até mesmo diferença social. Tendo referências fortes ao dialeto local de Nápoles, ao qual Mimi sempre compara ao italiano falado no norte da Itália, aqui representado por Milão.

Eu nem lhe agradeci, eram gentilezas contadas, ela mesma não saberia evitá-las.


E como ele fala em identidade, seria impossível não entrar as memórias, principalmente de sua avó, que perdeu o marido ainda jovem, e como um espelho do neto, vive deste amor do passado, cujas histórias ganham novas versões e ganham em Mimi um espectador atento.

Tudo em uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem mistura os próprios sentimentos com a linguagem, as vezes de forma mais técnica, as vezes de forma poética, e na maioria das vezes em um estilo mais fluído, em um livro curto e relativamente rápido de ler.


O que eu achei de Línguas

Na minha humilde opinião a avó é a grande personagem da história. Seja sendo a criada da família da própria filha, seja contando suas histórias e influenciando a imaginação do neto favorito. O fato é que ela inicialmente não é tão velha - está na casa dos cinquenta anos - mas a beleza do passado foi substituída pela tristeza e até uma certa apatia.

O que me fez pensar muitas vezes como foi a sua história? Como ela conseguiu sozinha e jovem criar duas crianças pequenas? E por que ela aceita ser uma sombra na própria família?

Entretanto, não tinha dia em que eu não desejasse caminhar por uma estradinha solitária e, sem nenhum motivo evidente, dar socos e pontapés no ar, me abandonando ao choro nem que fosse por um minuto.


Sobre o Mimi, a verdade é que cada vez que ele falava milanesa, no lugar de imaginar Milão, minha mente era assombrada por um belo bife à milanesa, o que me provocou certa fome durante a leitura.

E sua vergonha da avó, assim como a não retribuição de tanto amor, já que avó inclusive assumia a culpa por suas artes infantis, me apertavam o coração, não havia um beijo, nem um muito obrigado. Seria típico de criança, se ele não conseguisse expressar tamanho sentimento pela menina da janela a frente.

Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidade.


Menina cuja morte - e isso não é spoiler, já que é revelado na primeira página -, se tornou uma assombração em sua vida, quase como um ponto de referência para os seus relacionamentos românticos.

Em relação a parte da língua, questão da grafia e suas mudanças ao longo dos anos, possuem toda uma explicação, que pode ser um ponto de atenção ou curiosidade para quem gosta do estudo da linguagem, confesso que não me chamaram tanto a atenção.

O momento, na memória, é ocupado apenas pela fotografia, um retângulo de papelão amarronzado com numerosas marcas de rachaduras brancas na imagem.


Exceto que me fizeram pensar que o tema principal da história é na verdade a morte. Temos a morte do amor - seja o vivido, seja o platônico -, a morte de alguns termos da linguagem, a morte de relações, a morte da infância, a morte do nosso eu de ontem. Nem mesmo a memória consegue a imortalidade, já que a mesma também vai se apagando aos poucos.

Confesso que no geral achei a leitura mais ou menos, algumas vezes achei bobinha, outras vezes um pouco enfadonha e em alguns momentos me envolvi. Mas se não fosse o bife à milanesa que criou uma associação permanente, talvez o livro caísse no esquecimento.

Era como se eu perdesse as pernas, senti que elas estavam indo e me deixando apenas o tronco e a cabeça.


Mas isso não significa que a experiência será igual para você, pois o que desencanta alguns apaixona a outros. Então você gosta de histórias que acompanham da infância a vida adulta, primeiros amores inesquecíveis, o que envolve linguagem, narrativas que envolvem memórias, talvez a leitura tenha outro significado pra ti.

Ficando a dica para quem quiser se aventurar e voltar aqui para deixar a sua opinião nos comentários.


Línguas
Vita mortale e immortale ella bambina di Milano
Domenico Starnone
Tradução: Maurício Santana Dias
TAG - todavia
2024 - 141 páginas
Publicado originalmente em 2021

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Ficção 2006 - 2014



Sinopse: Alejandro Zambra é sem dúvida uma das principais vozes da literatura mundial hoje. Neste volume, estão reunidos de forma inédita Bonsai (2006), A vida privada das árvores (2007), Formas de voltar para casa (2011), Meus documentos (2013) e Múltipla escolha (2014). O livro traz ainda nove histórias dispersas, publicadas em revistas, jornais e antologias. O que há em comum aqui é o tom, cristalino, delicado, com que Zambra conduz suas tramas. "O tom é a sua grande invenção", anotou o argentino Alan Pauls, um dos que fazem parte da irmandade cada vez mais numerosa de admiradores de Alejandro Zambra.



Nesta coletânea que mistura romances mais curtos com histórias que lembram contos, é possível ter uma visão dos temas favoritos do escritor chileno Alejandro Zambra, que nos leva para o Chile dos escritores em diferentes períodos da sua história.

Quem abre é Bonsai, suas 53 páginas são divididas em cinco partes para contar a história do fim do relacionamento de Julio e Emília.

Não se escondia das mulheres, mas da seriedade, pois sabia que a seriedade era tanto ou mais perigosa que as mulheres.


Em A vida privada das árvores a história que ocorre em uma única noite intercala lembranças e pensamentos enquanto Julián cuida da sua enteada Daniela enquanto esperam o retorno da mãe da menina.

Já Formas de voltar para casa faz um vai e vem entre presente e os anos 1970/1980, onde um menino descobre o primeiro amor em plena ditadura de Pinochet e anos depois desvenda as relações familiares da menina que amava.

O caso é que não tinha, a rigor, uma melhor amiga, quer dizer, tinha muitas amigas, que sempre a procuravam em busca de conselhos, mas a confiança nunca era totalmente recíproca.


O formato começa a mudar em Meus documentos, onde são reunidos onze textos que podem ser classificados como romances curtos ou contos, todos de formação, abordando principalmente o amor.

O para tudo ocorre em Múltipla escolha, as perguntas e as múltiplas possibilidades de resposta são recheadas de ironia, cotidiano e relações pessoais, que abordam tanto passagens da história como o tempo presente, possibilitando ótimas reflexões.

Às vezes acho que sempre esteve largado ali, pensando. Mas talvez não pensasse em nada. Talvez só fechasse os olhos e recebesse o presente com calma ou resignação.


E o livro fecha de forma perfeita com os Contos dispersos, onde diferentes histórias podem facilmente envolver o leitor.


A escrita de Alejandro Zambra

Nascido em 1975 na cidade de Santiago, no Chile, o escritor Alejandro Zambra tem até o momento suas obras traduzidas para 20 idiomas, apresentando assim para o mundo a sua visão do Chile do passado e do presente.

E em Ficção 2006-2014 não é diferente. Nos seus diferentes textos, que misturam desde a escrita padrão, passado por inovações - pelo menos para mim, que não havia visto um autor utilizar o formato de questões de prova para gerar micro contos - ele explora a complexidade das relações humanas de uma forma acessível e também provocativas.

Nós, crianças, entendíamos subitamente que não éramos tão importantes. Que havia coisas insondáveis que não podíamos saber nem compreender.


O que dá um toque muito grande de realidade na sua ficção, principalmente quando explora o período da ditadura e seus efeitos, e o conservadorismo chileno que tornou a realidade de alguns direitos bastante recentes para sua população, um exemplo é a lei do divórcio, onde o Chile foi um dos últimos países ocidentais a implantar.

Tornando o Chile e seus personagens muitos próximos do leitor justamente pela sua escrita que é ao mesmo tempo simples, direta, pessoal e intimista. Tornando os seus textos um convite quase irresistível de se mergulhar e esquecer da rotina por algum tempo.


O que eu achei de Ficção 2006-2014

Eu conheci a escrita de Alejandro Zambra através do livro O poeta chileno, que me encantou e me divertiu em todas as suas páginas. O que fez a minha expectativa para o livro seguinte subir bastante a régua.

Começo confessando que tive sentimentos diversos durante a leitura deste livro que mistura romances curtos e contos.

Talvez eu possa colocar desta maneira: meu pai era um computador e minha mãe, uma máquina de escrever.


A razão para isso foi que eu achei as primeiras quatro histórias muito parecidas, a ponto de um dia mais sonolenta achar que a segunda história ainda era primeira, visto que até o nome dos personagens Julio e Julián eram semelhantes.

O perfil dos personagens principais: homem, escritor, confuso, atrapalhado se repetem, sendo o principal motivo do sentimento de déjà-vu durante parte da leitura.

Queixar-se era algo estúpido, precisávamos aguentar, sermos machos. Mas a ideia de ser macho era confusa: às vezes significava valentia, às vezes, indolência.


Em compensação, achei Múltipla Escolha sensacional, uma crítica à política, educação, relações pessoais, entre outros assuntos, onde não existe resposta certa. Com o toque certo de acidez, elas vão do bom humor a reflexão muito fácil, tornando a leitura ao mesmo tempo divertida e inteligente.

Também gostei muito dos Contos dispersos, quase todos rápidos e envolventes, abordando situações diversas, fechando com a pandemia que afetou a todos a tão pouco tempo e uma que está no nosso dia-a-dia chamada e tela.

E tampouco escreve cartas de amor, nunca o fez, talvez porque não saiba nada sobre o amor, e não goste do que sabe, pois o que sabe é monstruoso.


Para quem busca mulheres protagonistas, pode ter um certo estranhamento, já que a presença delas são como agentes de transformação do homem - no geral escritor - a ser acompanhado durante a narrativa.

Em relação ao Poeta Chileno, em Ficção 2006-2014 encontrei menos humor, e em alguns momentos senti falta de diversidade entre as narrativas, o que me fez pensar que teria sido mais interessante intercalar a leitura com outros livros, pelo menos dos quatro romances curtos, isso daria tempo de me desconectar da história anterior.

Acorda com um grito, um grito próprio. E embora saiba que não era apropriado gritar, recebe o abraço cansado de alguém e fica em silêncio.

Mas no geral gostei sim do livro, e o segundo livro me consolidou como fã do escritor Alejandro Zambra. Então sim, recomendou este livro que me levou até diferentes décadas do Chile e tem aumentado cada dia a minha vontade de conhecer este país pessoalmente.


Ficção 2006-2014
Alejandro Zambra
Tradução: Josely Vianna Baptista, José Geraldo Couto e Miguel Del Castillo
Companhia das Letras
559 páginas

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Com armas sonolentas



Sinopse: A trama gira em torno de três mulheres muito diferentes, mas fortemente interligadas, que experimentam um sentimento crescente de abandono e exílio - seja geográfico, seja emocional. A viagem, por assim dizer, que cada uma delas faz poderia ser um jeito de "voltar para casa", em uma busca por sua verdadeira identidade. Neste potente romance de formação, Carola Saavedra discute o feminismo e a maternidade, assim como os mecanismos e as armas secretas do inconsciente.

No mês de agosto/2022TAG Curadoria enviou para os seus assinantes o romance Com armas sonolentas da escritora chilena radicada no Brasil Carola Saavedra. Uma indicação do escritor e professor Carlos Eduardo Pereira. O mimo foi um aparador em mdf.

Anna é uma jovem mulher em busca do sucesso como atriz. Para alcançar o seu objetivo, vale absolutamente tudo, inclusive casar com um diretor alemão que acabou de conhecer e se mudar para um país estranho. 

Mas o casamento não lhe garante um papel de imediato, nem de coadjuvante. Ela precisa estudar o idioma, mas não se esforça. E sozinha em casa, enquanto o marido segue trabalhando em outros lugares, ela vê sua vida social se reduzir, até ser surpreendida por uma gravidez inesperada.

Sempre teve uma grande facilidade de ir embora, como se o passado, tão tênue, rapidamente se dissipasse.


Maike é uma jovem estudante alemã, que surpreende os pais quando um dia resolve mudar o seu estilo de vida. Desistindo de seguir a carreira jurídica como os pais, ela opta no primeiro dia de aula em cursar português.

O novo ambiente a leva recordações do passado e a busca de um antigo amigo de infância que a esfaqueou, entre caminhadas e conversas ela começa a se questionar e descobrir o que realmente ela não quer.

Sentia que minha vida estava cheia de elipses, palavras não ditas, verdades escamoteadas, que se materializavam numa angústia, uma inquietação constante.


Quem completa o trio é a Avó, que começa menina saindo do meio da família para trabalhar como empregada doméstica na capital. Sem poder estudar e tendo apenas um dia de folga, sua distração são os filmes românticos no cinema. Sua inocência facilitam o abuso pelo filho do padrão, assim como as ameaças recebidas ao se descobrir grávida.

Uma pessoa de vida simples que se agarra aos conselhos de uma avó fantasma e sente o coração despedaçar ao ver a filha aos poucos se deslumbrar pela vida de luxo, até abandona-la sozinha no quarto sem janelas.


A escrita de Carola Saavedra

Não existe uma única narrativa entre as três personagens. Se Maike é sempre em primeira pessoa, Anna fica entre a terceira e o monólogo de uma peça. Já avó é sempre vista em terceira pessoa, onde vemos crescer, amadurecer e envelhecer em um quarto sem janela grudado a área de serviço.

E creio ser justamente a avó, a única sem nome na história quem faz com que o livro seja classificado como um romance de formação. Romance de formação é aquele que acompanha o crescimento e amadurecimento de um personagem, onde além da passagem do tempo, isto é, da infância/adolescência até a vida adulta, o psicológico é um componente importante.

será que você não entende, eles não são como nós, são feitos de outra pele, outro material, e vai ser sempre assim, será que você não vê? 


Ao usar três gerações de mulheres separadas pelas mais diferentes circunstâncias da vida, a autora Carola Saavedra mistura desigualdade social, a busca por si mesmo, abandono, ambição, laços familiares, maternidade, solidão e fantasia para contar cada vida em duas partes que ela nomeou como O Lado de fora e O Lado de dentro.

Curiosamente as figuras masculinas são todas meras coadjuvantes nas três narrativas. Temos uma rápida visão de cada uma através das personagens, mais especificamente no caso de Anna, não sabemos como eles lidam com os seus atos.


Onde habitam os seres antes de começarem a existir, onde dormem suas marcas, suas possibilidades?


Motivo pelo qual não é uma leitura para desopilar, já que ela exige atenção para entender o que está ocorrendo, ao mesmo tempo que exige da própria imaginação do leitor para fechar as lacunas que permanecem na história mesmo após fechar a última página.


O que eu achei de Com armas sonolentas

Este livro me fez recordar as pessoas que acreditam que o sangue sempre fala mais alto, o que ligaria de forma invisível as gerações de uma mesma família. Ao mesmo tempo que confirma que pode ser a única coisa em comum entre pessoas tão diferentes.

Contraditório, não? Mas aqui temos Anna, na minha opinião uma pessoa que não sabe amar nem receber amor. Alguém que para crescer profissionalmente se sujeita a tudo para atingir os seus objetivos, que na verdade se resumem a status e fama. Algo que ela se deixou deslumbrar ainda nos primeiros anos de vida, e tornou o centro de tudo.

Nada ali era simples, nada era o que parecia ser.


Maike para mim foi a parte mais sonolenta da história. Achei um pouco sem pé nem cabeça logo nas primeiras páginas da sua narrativa. Uma jovem mulher que parece mais uma menina mimada e perdida, uma rebelde procurando uma causa em uma vida um tanto sem sentido, mas com toda a proteção e cuidado dos pais.

Sua mudança de caminho e profissão surgem do nada, como se fosse uma canção da Rita Lee que começa dizendo “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer...”, só que sem saber exatamente o que quer fazer e o porquê.

Sempre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que desejava e o que realmente queria.


Talvez por isso a minha narrativa preferida aqui tenha sido da avó sem nome, que na minha opinião contém as partes mais interessantes e realistas da história - embora seja ela que traga a parte fantástica ao conversar com a sua avó já morta. 

Essas conversas são diálogos sobre o que fazer e suas culpas em relação a própria filha, ao qual constantemente se questiona se a permissão em deixa-la ficar com a avó-patroa e permitir um vislumbre de uma vida diferente são realmente uma boa ideia.

Acabara de completar quatorze anos quando a mãe lhe explicou que não poderia continuar morando com eles.


Confesso que mesmo passado um tempo para refletir sobre a leitura, ainda não sei se gostei ou desgostei do livro como um todo. Eu achei a primeira parte bem construída, com direito a impactos e aquela frase que te induz a seguir em frente.

Mas a segunda parte, chamada O lado de Dentro, um tanto perdida. Não pela mudança na forma da narrativa da personagem Anna, mas pela forma como foi desenvolvida. Em meio ao fantástico, entram metáforas que não conseguem preencher lacunas e dúvidas aos quais sobram para a imaginação completar com base no que se subentendeu.

Eu também não percebi o que ele havia feito num primeiro instante, não senti a dor, apenas o frio do metal na minha pele.

Só que isso não me impede de deixar a indicação aqui, pois leitura é também o momento de cada um, a bagagem literária que o leitor tem e claro, o gostar que não se discute. E talvez, ao contrário de mim, você se identifique com todas as dúvidas de Maike, entenda o comportamento de Anna e quem sabe goste tanto quanto eu da vó.

Só lendo o livro para você saber.


Com armas sonolentas
Carola Saavedra
TAG - Companhia das Letras
2018 - 267 páginas

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