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terça-feira, 8 de março de 2022

Belo Mundo, onde você está?



Sinopse: Alice, Felix, Eileen e Simon ainda são jovens, mas sentem cada vez mais as pressões decorrentes do passar dos anos. Eles se desejam, se iludem, se amam e se separam. Eles se preocupam com sexo, com amizade, com os rumos do planeta e com o próprio futuro. Seriam eles as últimas testemunhas do ocaso? Conseguirão encontrar uma forma de viver mais uma vez em um belo mundo?

A escritora irlandesa Sally Rooney usa como enfoque em seu livro Belo Mundo, onde você está? pessoas com cerca de 30 anos, ainda incertos sobre as suas escolhas, independente de eles terem atingido o sucesso ou não, tentando se adaptar a chamada vida adulta e todos os desafios que ela apresenta. 

Na história temos Alice, uma escritora que resolve se mudar temporariamente para uma cidade pequena na costa da Irlanda depois de se sentir sobrecarregada com o sucesso de seu livro. Embora diga a melhor amiga que irá dar um tempo, segue em viagem promovendo o que escreve.

A mulher junto à janela o notou, mas, além de observar, não fez nenhum esforço a mais par chamar sua atenção.


Sozinha ela se utiliza do Tinder, um popular aplicativo de encontros, e assim conhece Felix, um homem que trabalha com encomendas em um armazém, curte uma cerveja e encontrar com seus amigos. 

Além de Felix, Alice troca e-mails com Eileen, sua amiga do tempo de faculdade, onde questões existências e do cotidiano se misturam. Ao contrário de Alice, Eileen se acomodou no cargo de assistente editorial, no momento ainda lamenta o término de um relacionamento e usa o ombro e o restante do corpo do seu amigo Simon, enquanto se vê envolvida nos preparativos do casamento da irmã mais velha.

Nada mudou em sua relação extrínseca com o mundo que possibilitasse a um observador determinar o que ela sentia quanto ao que via.


Simon é mais velho que Eileen e a conhece desde a infância, advogado por formação, atua como assessor parlamentar e é o tipo de amigo que está sempre disponível para ouvir, mesmo quando os seus sentimentos vão além de uma simples amizade colorida.


Os Personagens

Como é possível observar no resumo inicial, os personagens são a história, é a vida e os pensamentos deles que assistimos no virar das páginas.

Alice é irônica, vive a contradição de se manter longe das outras pessoas e ao mesmo tempo sentir falta de afeto. Existe um medo de baixar a guarda e sair magoada, vestígios de um passado recente que não foi curado e exige um pouco de paciência dos que estão ao seu redor.

Não preciso de todas essas roupas baratas e comidas importadas, e embalagens de plástico, eu nem acho que elas melhorem a minha vida.


Assim como Eileen, que apesar de se relacionar com outras pessoas acaba se acomodando em situações que não lhe agradam mais, sem ao menos ter uma justificativa para isso. Ela limita o próprio potencial, assim como os seus desejos, mesmo quando eles podem ser realizados. Um medo inexplicável de ir além, que a impede de ser feliz. 

Já Simon, por ser apaixonado por Eileen, acaba mantendo a própria vida afetiva em pausa, e mesmo que se relacione com outras mulheres, nunca se entrega a elas, pois está sempre disponível para atender a amiga.

Todos os dias me pergunto por que minha vida tomou esse rumo.


Por fim temos Felix, o menos trabalhado na narrativa, que parece estar ali para dar a real, as vezes de uma forma um tanto grosseira, nos outros três personagens.

E fazendo aquela participação especial estão os amigos de Felix que são bem legais e a família da Eileen, onde principalmente a irmã é bastante desagradável.


A escrita de Sally Rooney...

A narrativa em terceira pessoa permite ter uma visão do quarteto enquanto eles caminham, tropeçam e levantam pelo caminho. Sem usar o travessão para os diálogos, descrições, pensamentos e conversas se misturam, exigindo uma atenção a mais do leitor. Então não, leituras dinâmicas para este livro não são recomendadas.

Qual é a diferença entre uma namorada e alguém com quem você está saindo?


Mas isso não torna o livro difícil de ler, muito pelo contrário, pois a história é fluída, as passagens de um personagem para outro se realiza pelo fim dos capítulos, embora não haja o nome no início de cada um.

E se no início eles estão mais separados, como se atraídos pelo magnetismo do centro da Terra aos poucos eles e os leitores se preparam para o encontro presencial, onde poderão se olhar olho no olho e assim falar e ouvir o que desejam ou não.


O que eu achei...

Creio que Belo Mundo, onde você está? consegue retratar bem as incertezas deste período, onde você já está entrando em uma segunda fase da vida adulta e assim não é mais considerado tão jovem para rever suas escolhas, e inevitavelmente começa a confrontar a realidade com os sonhos de infância, como se preenchesse um check list.

Ao mesmo tempo existe os resquícios da adolescência, muitas vezes fortalecido pelas opiniões e influências familiares e da própria sociedade, que parece cobrar cada vez mais de você.

Não nego que você esteja sofrendo, aliás - sei que está, e é por isso que estou tão surpresa por você se sujeitar a isso tudo outra vez.


Confesso que as vezes os achava inseguros demais, momentos nos quais o Felix as vezes me representou em suas falas, pois os três são privilegiados em relação a liberdade que tiveram em suas escolhas, embora eles nem sempre enxerguem isso. 

O que fez com que em certos momentos a história não conseguisse me cativar, para em seguida surgir alguma situação que eu me visse um pouco neles, pois o processo de evolução e amadurecimento não ocorre magicamente aos 21, sendo uma constante eterna em nossas vidas. 

Quanto mais penso em sexualidade, mais confusa e variada ela me parece, e mais reles o nosso jeito de falar sobre ela.


E embora não tenha achado o livro maravilhoso, também não o achei ruim, pelo contrário, gostei do estilo utilizado pela escritora e me fez repensar na postura e comportamento de pessoas nesta mesma faixa etária que estão na minha volta apresentam e muitas vezes eu não entendia. 

No meu achômetro este livro pode cair no gosto justamente deste grupo, ao ver parte de sua própria realidade refletida, e quem sabe ajudar a colocar em ordem as suas próprias prioridades. Afinal, ficção serve tanto de divertimento como de terapia.

E a morte não é apenas o apocalipse em primeira pessoa?


Ficando a dica para a turma que está entrando nos trinta, para quem convive com esta geração, ou para quem quer simplesmente curtir uma leitura com vários questionamentos sobre vida, amor, amizade, relações familiares e medos.


Belo Mundo, onde você está?
Beautiful World, Where Are you
Sally Rooney
Tradução: Débora Landsberg
Companhia das Letras
2021 - 332 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Uma escada para o céu

 


Sinopse: Uma carreira na literatura é o desejo mais ardente do jovem Maurice Swift. Com belos olhos e uma facilidade para circular em meio aos influentes e talentosos, ele parece ter o pacote completo para chegar lá... não fosse sua notável falta de talento. Utilizando-se da sua beleza e total falta de escrúpulos, Maurice vai enganar e magoar quem precisar em busca do seu sonho.

Utilizando um provérbio de origem desconhecida que diz "Ambição é colocar uma escada para o céu" para nomear o seu romance, John Boyne coloca o mundo editorial, seus escritores, o ato de escrever, as publicações e os cursos de escrita criativa em um livro vira página que me prendeu do início ao fim.

Ocorreu-me a ideia descabida de que ele se sentira fisicamente atraído por mim, muito embora soubesse que se tratava de um pensamento absurdo.

A história começa em Berlim Ocidental no ano de 1988, quando o escritor e professores alemão Erich Ackermann encontra-se divulgando o seu livro que acaba de ganhar o prêmio The Prize e está sendo traduzido para diferentes idiomas. Em um bar de hotel, aprendendo a lidar com o desconforto de retornar para casa, ele se encanta por um dos garçons.

O rapaz bonito que o aborda na saída do local se chama Maurice Swift e sonha em ser escritor. Entrega um manuscrito para Erich, que observa que ele sabe utilizar as palavras, mas suas histórias são tediosas, faltando alma no que se propõe. Mas o charme do rapaz o impede de falar diretamente. Apaixonado, ele contrata o rapaz a circular com ele pela Europa e América do Norte com a justificativa de lhe dar dicas.

Que bom que posso aprender com você. Espero que saiba o quanto estou agradecido.

Em cada cidade, o escritor acaba contando um fato muito marcante do seu passado, ao mesmo tempo que apresenta diferentes pessoas do mundo literário ao rapaz. O resultado é o sucesso de um e a desgraça do outro.

Na parte dois o leitor é levado para Norwich no ano de 2000, onde Maurice Swift está casado com a escritora revelação Edith. Além de estar escrevendo um novo romance, ela é convidada para dar aula em um curso de escrita criativa.

Vi a chama refletida nas suas íris e seus olhos pareciam tão úmidos que cheguei a pensar que você ia derramar uma lágrima.

Sem conseguir gerar o filho que tanto Maurice deseja, ela segue acreditando no amor que um tem pelo outro. Mesmo quando vê o marido ter ciúmes de jovens escritores e agir até mesmo com violência com ela. A confiança no marido faz com que ela cometa alguns erros e como Erich pague um preço alto demais por se envolver com um homem como Maurice.

Na terceira parte é o próprio Maurice que nos fala, é o momento de ter o seu lado dos fatos, enquanto circulamos por diferentes pubs em Londres. Um homem sórdido, frio, sem limites para escalar a sua escada rumo ao que ele considera merecer. Uma pessoa que não gera o mínimo de empatia, como todo anti-herói. Mas que tem beleza e charme para atrair e manipular suas vítimas, sem que elas se deem conta do seu real objetivo.

Eu pensei muito antes de lhe revelar aquilo, mas acabei achando melhor contar.

Uma escada para o céu possui narrativa em primeira pessoa, achei muito interessante Boyne apresentar inicialmente a visão de outros personagens sobre Maurice, para somente depois nos colocar dentro da sua mente. Nos dando uma visão completa dos fatos, não havendo dúvida nenhuma da índole do pseudo-escritor.

Outros motivos para ler o livro é a viagem que fazemos através dele, seja de cidades (Berlim, Copenhague, Roma, Madrid, Paris, Amsterdam, Nova York e Londres), seja pela literatura, onde há muitas referências de livros, assim como a mistura de escritores fictícios e os reais, como Gore Vidal.

Podia ser embaraçoso fazer semelhante confissão, mas simplesmente não havia como contornar os fatos.

Envolvente e surpreendente, foi um livro que eu devorei rapidamente, onde a escrita fácil não evitava o choque, mas facilita a necessidade de saber mais.

Uma escada para o céu
A ladder to the sky
John Boyne
Tradução: Luiz A. de Araújo
TAG - Companhia das Letras
2018 - 333 páginas


Outros livros de John Boyne resenhados no blog:
O Garoto no Convés
O menino do pijama listrado


segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Garoto no Convés



Sinopse: Aos catorze anos de idade, o órfão John Jacob Turnstile perambula pelas ruas de Portsmouth, no sul da Inglaterra, cometendo pequenos furtos. Dois dias antes do Natal de 1787, porém, o que tem início como apenas mais uma delinquência resulta numa série de acontecimentos que mudarão sua vida para sempre. Para escapar da prisão, embarca às pressas num navio da marinha inglesa na função de criado do capitão. Seu plano é fugir na primeira oportunidade, mas o que o aguarda é uma aventura de proporções épicas, na qual não faltarão conflitos entre membros da tripulação, tempestades, portos exóticos, ilhas paradisíacas e um motim, que acabaria por se tornar o mais famoso na história naval.

Misturando ficção e fatos históricos o autor John Boyne leva o leitor pelos subúrbios da antiga Inglaterra, passando por marés recém descobertos na visão de um jovem menino, cuja vida não é nada fácil, para contar uma nova versão do motim ocorrido no navio da marinha britânica HMS Bounty.

Mas ele a pronunciou não para insultar, mas com o desprezo natural pelas outras formas de vida que só um cavalheiro inglês podia ter.

O livro é dividido em cinco partes, que vão da proposta para Turnstile embarcar até o seu retorno em terra firme. Por ter como fundo fatos reais, para os mais curiosos são disponibilizadas as referências utilizadas além de um mapa com a viagem do Bounty.

A história começa em 1787, quando Turnstile conversa sobre livros com um fidalgo francês e rouba o seu relógio. Enquanto já imagina a ceia que teria com a venda do objeto acaba preso. E então o jovem que desconhece seus pais e vive em uma casa cheia de meninos como ele, supervisionados por um homem que só os explora, se vê entre duas escolhas: um ano na prisão ou dois anos navegando em um navio da marinha britânica.

Mas um jovem como você devia ter sempre acesso aos livros. Eles enriquecem o espírito, sabe? Fazem perguntas sobre o universo e nos ajudam a compreender um pouco mais o nosso mundo.

A missão do navio é buscar mudas de fruta-pão para alimentar os escravos das colônias inglesas. A missão de Turnstile é atender as ordens do capitão do navio William Bligh. E assim o menino aprende a conviver em um ambiente às vezes hostil, às vezes formal, às vezes perigoso e às vezes tedioso. 

É neste cenário que o leitor vai conhecer mais da história de Turnstile e ser apresentado pouco a pouco aos personagens desta história, que vão do capitão, aos oficiais, passando pelos marinheiros até o cozinheiro. Não são dias fáceis, pois além de ter que aprender a viver em um ambiente totalmente diferente, era obrigado a tolerar alguns abusos quase tão cruéis quantos os vividos anteriormente em terra.

Os ricos sempre consideram ignorantes os garotos como eu, mas às vezes demonstram ignorância igual ou maior, se bem que de outro tipo.

Nos diálogos entre o capitão e o jovem é possível ter uma ideia da cultura social do período, não raro Turnstile questiona, em pensamento, algumas linhas de raciocínio, onde as diferenças econômicas permitem aos mais poderosos ações bastante equivocadas para o leitor de hoje.

Só que ao chegar à ilha todos parecem se igualar, depois de quase um ano navegando, a variedade de frutas e mulheres que se mostram disponíveis aos tripulantes cria a ideia de que outro estilo de vida é possível. E se a viagem até ali havia sido tranquila, sem maiores brigas ou castigos, os seis meses de sol trataram de mudar os desejos de vida para aqueles homens.

E após um motim, Turnstile que ainda guarda ecos do seu primeiro amor se vê amontoado com aqueles que apoiaram o capitão em uma barca abandonada em meio às águas. A busca para casa trás ainda mais reflexões e completa o amadurecimento de Turnstile.

De onde vinha esse controle, eu não sei. Talvez fosse a solidão ou a segurança daquela aparência familiar. Talvez fosse o fato de nenhum de nós jamais ter conhecido coisa diferente na vida.

O garoto no convés é um livro que te leva a virar páginas, a questionar preconceitos, e descobrir um pouco mais da história da navegação. Narrado em primeira pessoa, Turnstile convida o leitor a sentir as mesmas alegrias e dores, sendo difícil ficar indiferente.

Um livro que eu literamei e recomendo para quem busca uma ótima leitura.

O garoto no convés
Mutiny on the Bounty
John Boyne
Tradução: Luiz A. de Araújo
Companhia das Letras
 2008 – 493 páginas

domingo, 29 de novembro de 2009

Dublinenses


Sinopse: Em Dublinenses, James Joyce nos permite observar por um tempo determinado, sem que sejamos vistos, diferentes pessoas em situações da vida cotidiana. A única coisa que todas elas têm em comum é o fato de viverem em Dublin. Quanto ao restante, cada caso é diferente dos demais, embora não possamos deixar de reconhecer traços de caráter comuns a muito dos personagens, como, por exemplo, a inclinação para a bebida.

Transformando os leitores em voyers, o escritor James Joyce nos leva para a sua terra natal, onde em quinze contos nos dá um gostinho de uma típica rotina na vida dos irlandeses.

Religião, sexo, inveja e nostalgia se misturam, assim como as idades diversas. Tudo isso sem surpresas e muito menos lições de moral, apenas circunstâncias normais, onde os valores e costumes da região irão encaminhar os personagens em histórias que não possuem realmente um final, já que fica claro que muita coisa ainda deve vir. 

Se estivesse morto, pensava, eu veria o reflexo das velas nas cortinas escuras, pois sabia que duas velas devem ser deslocadas à cabeceira de um defunto.

O conto que abre a história é As irmãs começa com um diálogo, onde o narrador é informado que o padre Flynn, está morto e em sequencia descobrimos um pouco mais sobre o falecido. 

Em Um encontro, meninos descobrem em uma pequena biblioteca o Oeste Selvagem e isso serve de combustível para as suas aventuras até o encontro com um velho senhor.

Afirmou que meu amigo era um menino muito rude e perguntou-me se ele era açoitado na escola muitas vezes.

Uma rua tranquila dá as boas-vindas em Arábia, onde um menino tem a curiosidade despertada entre os os pertences de um inquilino falecido e o encontro com o seu primeiro amor.

O quarto conto tem nome de mulher e uma personagem principal: Eveline. Nas memórias de infância os que já se foram e os que haviam crescido, e uma decisão, é hora de ir embora.

Falavam alto e alegremente e suas capas flutuavam sobre os ombros. O povo abria-lhes caminho.

São os carros que recebem o leitor em Após a corrida, onde muitos se aglomeram para vê-los passar no topo de uma colina. Em cada um, pilotos de diferentes nacionalidades e características, assim como o grupo que acompanhava tudo de uma carroceria.

É o crepúsculo de um domingo de verão que nos trás Dois galantes, dois jovens que descem uma ladeira lado a lado em uma conversa sobre relacionamento com o sexo oposto, em comentários machistas que podem ferir os mais sensíveis.

Sentia agudamente o contraste entre suas vidas, que lhe parecia injusto.

Uma mulher forte, que conseguiu dispensar o marido bêbado e inútil em um país extremamente católico, nos é apresentada em A pensão, junto com os seus hóspedes e seus filhos.

O reencontro de dois amigos após oito anos de separação é a base para Uma pequena nuvem, onde mais do que o tempo, mas as escolhas de cada um os tornaram muito diferentes, causando sentimentos conflituosos no que permaneceu na cidade de origem.

As frases surradas, as falsas demonstrações de pesar, as palavras do repórter subornado para ocultar os detalhes de uma morte vulgar, revolviam-lhe o estômago.

Um homem cuja atenção é chamada com frequência no trabalho é o fio condutor de Contrapartida, um personagem que me deixou particularmente muito incomodada.

A expectativa de Maria por uma noite de folga é o início de Argila, uma mulher calma e trabalhadeira que ainda tem muito carinho por uma família que a empregou.

Estava silencioso por dois motivos. Primeiro, razão já suficiente, por não ter nada a dizer. Segundo, por considerar inferiores os seus companheiros.

Já em Um caso doloroso temos um senhor que quer distância da sua cidade de origem e sozinho mora em uma casa velha, mobiliada por ele, e mantida sempre organizada, até que um dia é surpreendido por uma mulher.

O nome do conto Dia de hera na lapela já possui por si só uma história, já que é relacionado ao aniversário de morte do líder do partido irlandês Charles Steward Parnell.  Na história de James Joyce os personagens estão envolvidos com as eleições municipais.

O chapéu rolara alguns metros e suas roupas estavam sujas da imundície que escoava no lugar em que havia caído de rosto no chão.

Organizar uma série de concertos, esta é a tarefa de Holohan em Mãe, mas quem realmente toma as rédeas é a senhora Kearney, uma mulher que por praticidade casou com um homem mais velho, mas que nunca abandonou os sonhos antigos.

Em Graça temos um homem caído no chã de um lavatório, que reconhecido por um jovem da Polícia Real é levado para casa, onde a esposa lamenta o seu estado.

Será que apesar de todo seu proselitismo ela teria uma verdadeira vida interior?

O livro é encerrado com o conto mais longo entre os 15. Os mortos tem como personagem de ligação Gabriel Conroy cuja chegada em um baile anual nos apresenta diferentes personagens, enquanto segredos acabam sendo revelados.

Mesmo sendo histórias comuns, a forma da narrativa envolve o leitor, podendo fazer com que este recorde de fatos lidos ou até vividos. Pois, independente da época ou lugar, todos vivem momentos em que precisam tomar uma decisão ou são simplesmente levados por aquilo que chamamos de destino.

Quando alcançou a idade de casar, foi enviada a muitas casas, onde seu talento e suas brilhantes maneiras eram muito admiradas.

E embora tenha um toque de fatalidade, onde a tensão e a reflexão sobre o que é lido estão interligados, a escrita de James Joyce me capturou, me transportando para as ruas de uma Dublin mais antiga, ao mesmo tempo que despertou o desejo de conhecer a sua versão atual com os meus próprios olhos.

Um livro para quem gosta de contos, para quem gosta de ler sobre o cotidiano ou simplesmente para quem gosta de boas histórias.

Dublinenses
Dubliners
James Joyce
Tradução: Hamilton Trevisan
RBS Publicações
1913 - 222 páginas