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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A era da inocência


Sinopse: Um clássico para devorar, A era da inocência é o livro que tornou a irreverente Edith Wharton a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção. A narrativa concentra as mais altas qualidades literárias da autora, que projetou um olhar crítico às entranhas de sua origem social na elite nova-iorquina do século 19. Do instigante triângulo amoroso atravessado por dinâmicas de poder e interesse, saltam questões que ressoam com leitores de todos os tempos, o dilema entre dever e desejo, os silêncios tácitos e a proteção das aparências na estrutura familiar burguesa, o papel social da mulher, a coragem de transgredi-lo e o sentido de uma existência plena.



Em setembro/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora brasileira Renata Belmonte (Mundos de uma noite só) A era da inocência da escritora norte americana Edith Wharton. O mimo foi um diário de leitura.

Na Nova York de 1870 existe uma bolha onde poucas famílias elitistas vivem em um círculo fechado, com valores tradicionais, convenções sociais e muita hipocrisia para ocultar atos e segredos.

Newland Archer é um desses aristocratas norte-americanos, um jovem advogado que namora May, também integrante de uma das famílias tradicionais, que é o retrato da beleza, inocência e tudo o que se espera de uma futura esposa.

Então a luz caiu sobre ele e, com ela, um ímpeto momentâneo de indignação.


O mundo de Archer treme com a chegada da prima de May, a Condessa Ellen Olenska, uma mulher que retorna da Europa após ousar se separar de um conde polonês que era abusivo. 

A liberdade e os desejos que ela inspira fazem com que o jovem Archer antecipe seu noivado e casamento com May. Mas o que era uma escapatória, acaba aproximando ainda mais da condessa, gerando em Archer a vontade de mudar o seu próprio mundo e se entregar em um novo relacionamento.


A escrita de Edith Wharton

A escritora e especialista em design de interiores e paisagismo Edith Wharton usou de seu privilégio para mostrar através da escrita todas as regras sociais e hipocrisia da era vitoriana e da era dourada. Ao receber uma educação que lhe deu domínio de outros idiomas além do inglês e da cultura europeia, foi impossível a jovem mulher não vivenciar conflitos entre o que o seu intelectual exigia e o que era pedido as mulheres da sociedade da elite de Nova York na época. Tendo a sua carreira reconhecida só após os seus quarentas anos.

Sua escrita é reconhecida pelas descrições detalhadas dos ambientes, o que transporta os seus leitores para cada local descrito, pela sua ironia e a complexidade psicológica de seus personagens. Entre os muitos livros publicados está o que a fez ser a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção (1921), chamado de obra-prima a Era da inocência ou A época da inocência, foi publicado em 1920 e segue tendo uma história arrebatadora.

Todos nós temos nossa gente comum de estimação...


Por conhecer as regras do jogo, em à Era da inocência Edith Wharton utiliza uma paixão para de certa forma dissecar o funcionamento da elite de Nova York, apresentando não apenas as suas regras, mas o seu tribunal próprio, a ignorância forjada, a necessidade de manter as aparências, a covardia, as manipulações e os conflitos pessoais.

Narrado em terceira pessoa, a perspectiva está centralizada no personagem Newland Archer, cuja educação permite a escritora brincar com as diferenças entre o que se sente e pensa com o que se diz, tornando os conflitos internos tensos e aparentes apenas em gestos e comportamentos, já que palavras nunca devem ser ditas.

Sua própria exclamação "as mulheres devem ser livres... tão livres quanto nós", tocava na raiz de um problema que o mundo dele concordava em considerar inexistente. 


O fato da paixão ser apenas um recurso para demonstrar a rigidez da sociedade daquela época, existe uma lentidão nos acontecimentos, no mesmo ritmo das mudanças nos paradigmas que norteiam os personagens, em uma escrita de linguagem cuidadosa, onde cada detalhe é importante para se deixar envolver e adentrar em um mundo onde dedos não são diretamente apontados, mas os que não atendem o perfil são simplesmente julgados e excluídos.

E para quem preferir assistir ao filme primeiro, antes de entrar na história, Martin Scorsese fez a sua versão cinematográfica em 1993 com o título de A época da inocência.


O que eu achei de A era da inocência

A forma narrativa utilizada pela escritora Edith Wharton me transportou para os Estados Unidos dos anos de 1870. A riqueza dos detalhes permite ao leitor que se deixa envolver pelas páginas sentir os cheiros, as temperaturas, as texturas do que está na volta.

As personagens femininas transmitem pela sua personalidade as diferenças geracionais da época, o que envolve tradição, a bolha social e a coragem de se libertar de relacionamentos que não lhe fazem bem ou não agregam em nada.

A etiqueta exigia que ela esperasse, imóvel como um ídolo, enquanto os homens que desejavam conversar com ela se sucedessem ao seu lado.


No quesito relacionamento, a paixão fulminante de Archer ressuscita o eterno dilema do Se, e se ele não houvesse se assustado com a presença de uma mulher tão diferente? E se neste medo do desconhecido, ele não tivesse corrido tanto para antecipar o casamento com o que era seguro, mas não arrepiava sua pele nem tomava conta dos seus pensamentos?

O tipo de casamento que curiosamente segue atemporal, já que falamos de uma rotina que mata sonhos e tira vontades. Que faz engolir o orgulho a seco e aguentar humilhações com um suave sorriso no rosto. Assim como a construção de estranhas parcerias para manter as aparências dentro de um mundo fechado onde ninguém evolui.

Ele não se importava de ser irreverente em relação a Nova York, mas se incomodava ao ouvir qualquer pessoa assumir o mesmo tom,


Tornando cada personagem muito rico e complexo na forma como lidam com os seus sentimentos. Ao serem retratados de uma forma extremamente humana, seus dilemas e escolhas não possuem retorno, tornando-se parte da sua própria personalidade ao apresentar os caminhos que a porta escolhida abriu.

Ellen Olenska me conquistou pela coragem de enfrentar uma sociedade conservadora e não ceder aos seus pedidos. Ao mesmo tempo que ela transmite liberdade, ela também tem respeito pela prima May, apesar de todo o desejo que ela sente por Archer, ela consegue delimitar os próprios limites e não se prender a um amor dominado por incertezas.

Original! Nós somos tão iguais uns aos outros quanto aquelas bonecas cortadas da mesma pilha de papel.


Em relação a May, ela foi a personagem que mais me surpreendeu. Suas muitas camadas são desvendadas ao longo do livro, mostrando que ela também era forte, por mais que Archer e o leitor pensem o contrário.

Já Archer foi o personagem que me provocou um misto de sentimentos. Sendo o protagonista da história, algumas vezes me fez revirar os olhos, chamá-lo de idiota e mesmo assim, admirar a sua evolução durante a narrativa, o que me deixou de coração apertado ao chegar na última página.

A era da inocência pode agradar quem gosta de histórias de época, onde a sutileza da paixão é transmitida nos pequenos gestos com capacidade de gerar toda uma tensão em um parágrafo. Também irá agradar quem gosta de imergir nas páginas através de detalhes que te deslocam para outra época. E claro, também irá agradar aqueles que gostam de uma boa história.


A era da inocência
The age of innocence
Edith Wharton
Tradução: Isadora Sinay
TAG
316 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1920.


sexta-feira, 27 de junho de 2025

O Amante



Sinopse: Prêmio Goncourt em 1984, com mais de 2 milhões e meio de exemplares vendidos apenas na França, este romance autobiográfico acompanha a tumultuada história de amor entre uma jovem francesa e um rico comerciante chinês na Indochina pré-guerra. Com uma prosa intimista e certeira, Duras evoca a vida nas margens de Saigon nos últimos dias do império colonial da França e relembra não só sua experiência, mas também os relacionamentos que separaram sua família e que, prematuramente, gravaram em seu rosto as marcas implacáveis da maturidade.



Na Indochina francesa, uma adolescente de 15 anos órfã de pai mora com a mãe e dois irmãos. Filha de colonos franceses pobre, ela conhece em uma travessia de balsa sobre o rio Mekong um jovem com o qual terá um relacionamento intenso que envolve benefícios financeiros.

Filho de um rico empresário chinês, o homem de 27 anos, mesmo sendo mais velho, acaba sofrendo psicologicamente dos mesmos problemas que a menina, no que envolve tabus raciais e morais dos anos de 1920.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.


O que a empurra precocemente para esta relação é a sua família desestruturada, com um irmão extremamente violento e uma mãe que o defende, ao mesmo tempo que possui uma busca constante por dinheiro.

Um livro sobre memórias e traumas transferidos para as páginas em um romance curto, cuja densidade se alterna, e virou um filme não aprovado pela autora.


A escrita de Marguerite Duras

Considerada uma das escritoras mais importantes da literatura francesa do século XX, a autora Marguerite Duras nasceu na Indochina e no final de sua adolescência retornou a França para estudar.

Sua escrita tem por característica ser fragmentada, conseguindo ser emocionalmente contida e ao mesmo tempo profundamente sensível. O que fez com que fosse uma das figuras-chaves do movimento literário "Nouveau Roman" (Novo Romance francês) que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960.

A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha.


E este rompimento com as formas tradicionais de narrativa é encontrado em O Amante, sua obra mais conhecida que venceu o prestigiado prêmio de literatura francesa Goncourt.

O Amante é uma mistura de ficção com autobiografia, tendo como base a sua infância na Indochina e o caso amoroso que teve na adolescência com um homem mais velho.

Tudo começou assim assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à "experiência".


A narrativa é semelhante a um fluxo de consciência, com presente, passado e futuro dividindo o mesmo espaço sem ordem cronológica nem capítulos definidos. Como alguém que se senta no divã e conforme vai puxando o novelo de lã que é a sua vida, começa a trazer memórias, reflexões e pensamentos.

Dando um tom introspectivo na narrativa em primeira pessoa, onde nem tudo é explicito e não raro há situações que ficam mais na sugestão no que no detalhamento para o leitor.


O que eu achei de O Amante

Esta foi a segunda vez que leio o livro de Marguerite Duras. Havia recebido o livro em capa dura em uma coletânea de clássicos que o jornal do meu estado vendeu tempos atrás.

E acabei relendo por causa do encontro com outros assinantes da TAG Curadoria, já que a obra foi o livro de abril, ao qual pulei para não ficar com dois livros iguais.

Sei que não são as roupas que fazem a mulher mais ou menos bela nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos adornos.


Quando abri o livro já não tinha lembranças de sua narrativa, apenas a famosa base de que era o caso de amor de uma adolescente com um homem mais velho.

Ao reler, me deparei com uma família desestruturada, que apesar da pobreza tem empregados, da mãe que cobra postura da filha, mas permite que ela chegue em qualquer horário na escola após os encontros com o amante. De um irmão mais velho que inspira medo nos que convivem com ele e deixa para a mãe pagar as dívidas dos seus vícios.

Resta aquela menina que começa a crescer e que talvez um dia venha a saber como trazer dinheiro para casa.


Também é uma narrativa que expõe a colonização, onde a cor da pele ou o dinheiro não impede que ocorra racismo ou preconceito.

E por fim é um livro bem psicológico, pois não foram raras as vezes que me vinha o jargão "fale-me mais sobre isso" durante a leitura. Ficando a dúvida se era ficção, algo que deveria ficar subentendido ou traumas que não conseguem ser revelados.

Sente subitamente uma angústia até então apenas pressentida, uma fadiga, a luz apagando-se levemente no rio.


Mas apesar de todas as suposições, de ser um livro bem curto, eu segui não gostando.

A mistura de pedofilia e prostituição foi algo que me incomodou ainda mais nesta segunda leitura. Pois o relacionamento não é iniciado por amor, paixão ou uma atração física na minha opinião, mas pelo que o dinheiro dele poderia proporcionar.

Quer a apanhem, quer a levem, quer a maltratem, quer a corrompam, eles não devem saber mais nada.


Também me peguei achando que se o nome do livro fosse O irmão mais velho, combinaria mais. Pois o amante é uma figura secundária em meio a todos os conflitos que as relações familiares causaram em todas as etapas da vida da narradora, sendo uma ferida ainda não curada mesmo após tantos anos.

Sendo o amante apenas mais um a acelerar o seu sentimento de envelhecimento precoce, de mudança na imagem que via no espelho ainda tão jovem. Me parecendo o resultado de quem se sentia usada por todos ao redor sem nunca ter sido realmente amada.

Ele lamenta o que ocorreu comigo, digo-lhe que não deve, que não devo ser motivo de lamentação, ninguém deve, exceto minha mãe.


E apesar de tanta complexidade, em muitos momentos ela me pareceu superficial. Como se a narradora tivesse uma borda a ser respeitada, e justamente ao respeitar estes limites, ela não me ganhou como leitora.

Pois o vai e vem de tempos e lembranças me parecia mais um disfarce para não explorar o que era realmente importante para a menina frágil e a mulher já idosa que manteve tudo muito vivo em sua memória.

Só que esta é a minha leitura, a sua pode ser completamente diferente, e assim deixo a indicação deste clássico para que você possa tirar suas próprias conclusões.


O Amante
L'amant
Marguerite Duras
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
2003 - 95 páginas
Publicado originalmente em 1984



sexta-feira, 28 de março de 2025

O Triste Fim de Policarpo Quaresma



Sinopse: Publicado inicialmente em folhetins no ano de 1911, Triste fim de Policarpo Quaresma é um romance do período do Pré-Modernismo brasileiro. Por meio da vida tragicômica do major Quaresma, um nacionalista fanático, ingênuo e idealista, Lima Barreto revela as estruturas sociais e políticas do Brasil da Primeira República, enfocando os fatos históricos do governo de Floriano Peixoto.



Aproveitando que muitos clássicos podem ser baixados de graça para o Kindle, estava com o O Triste Fim de Policarpo Quaresma na minha lista de espera há algum tempo.

Confesso, sou uma leitora muito mais de livros físicos do que digitais. Mas nada como uma viagem longa e o desejo de não carregar muito peso para finalmente realizar a leitura.

O ingênuo Policarpo Quaresma é um major do exército extremamente nacionalista, que vive na então capital Rio de Janeiro na virada do século XIX para XX.

Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo.


A mistura de ingenuidade e patriotismo faz com que ele tenha ideias mirabolantes, como após se dedicar ao estudo do tupi-guarani resolver torna-la a nova língua oficial do Brasil, substituindo o português.

A criação de memorandos e mal-entendidos na língua indígena fazem ele ser internado em um manicômio, para tratar a sua excentricidade.

Um violão em casa tão respeitável! Que seria?


Liberto, ele se dedica a estudar agricultura, e acaba se mudando com a irmã e seu fiel empregado para um sítio, onde a diferença entre teoria e prática irão desafiar a sua teimosia. Enquanto de bônus precisa se livrar das intrigas da política local.

E então ocorre a eclosão da Revolta da Armada, onde Policarpo retorna a capital como voluntário, sem saber que novas decepções o aguardam.

Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava na estante do major.


Tudo em uma escrita que mistura humor, críticas a sociedade da época, e uma dose de tristeza ao ver que há tempos o Brasil que abriga uma criatividade imensa, não tem espaço para os ingênuos e sonhadores.


A escrita de Lima Barreto

O carioca Afonso Henriques de Lima Barreto foi um renomado escritor e jornalista no período pré-modernista, cujas obras se tornaram clássicos da literatura brasileira. 

Sua escrita tem como característica retratar críticas sociais, populações marginalizadas, e outras mazelas que acompanham esta república federativa desde a chegada dos portugueses em solo brasileiro.

Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro.


Algo plenamente encontrado em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, onde as situações que as vezes parecem um tanto sem noção, revelam pelo humor situações esdrúxulas da sociedade e da burocracia do sistema.

Tornando a leitura da escrita de Lima Barreto não apenas fluída, mas que nos move não só a acompanhar seus personagens, como comparar com os dias atuais.


O que eu achei de O Triste Fim de Policarpo Quaresma

Para quem acredita que todo clássico brasileiro é chato e entediante, o livro de Lima Barreto é mais um que contraria esta fama.

Eu achei a leitura bastante fluída, as várias reviravoltas na vida do personagem me levavam a imaginar se será que era aquela nova ideia que levava ao título, pois é impossível não ficar pensando nele, para ao final realmente me sentir triste com fim dele.

Na vida, para ela, só havia uma coisa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nela a pedia.


E ao mesmo tempo ficada a torcida para que o título fosse uma brincadeira, pois Policarpo Quaresma é um homem gentil e educado, que não se nega a ajudar os outros, que adora ler, e com uma ingenuidade que não o permite reconhecer todas as situações nem analisar a reação dos demais as suas ideias.

Somado a isso se tem um retrato da sociedade brasileira da época, ao qual me provocou a fazer um paralelo com os tempos atuais e pensar o que evoluiu e o que não mudou tanto assim.

A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos.


Pois no livro é possível divagar sobre política, nacionalismo, feminismo, corrupção, injustiça, conhecimento, amizades e fidelidade ao que se acredita.

Tornando a leitura não só convidativa, mas também provocativa e bem escrita, fazendo valer a leitura. Ficando aqui a minha dica para quem gosta de bons livros.


O Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lima Barreto
E-book Penguin-Companhia
2011 - 396 páginas
Publicação em folhetins: 1911
Publicação em livro: 1915


sexta-feira, 7 de março de 2025

Uma travessia por perturbações


A coletânea com vinte contos foi elaborada pela TAG Experiências literárias e enviada como mimo em seu mês de aniversário. Todos os contos são curtos, alguns curtíssimos, mas com uma dose grande de crítica, reflexão e densidade. Abaixo relaciono cada um deles.


O povoado vizinho: um micro conto sobre o tempo, a vida, suas expectativas e a morte.

Um relato a uma academia: Peter é um macaco que após ser capturado, aprende a se comportar como um ser  humano. Cinco anos depois, ele apresenta um relatório para a Academia para relatar a sua transformação.

Essa realização teria sido impossível se eu tivesse me agarrado teimosamente às minhas origens, às memórias da juventude. 


Um artista da fome: um homem se torna uma das principais atrações em circos e feiras por sua habilidade de jejuar por longos períodos. Mas o tempo passa e a curiosidade do público também, fazendo com que o artista busque formas de atrair novamente o interesse.

O novo advogado: neste conto Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, o Grande, se torna um advogado para se adaptar as constantes mudanças do mundo.

 Ele faz muitas tentativas de ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos.


Diante da lei: publicado inicialmente como parte de O Processo, conta a história de um homem do campo que deseja passar por um portão que guarda a lei, mas um porteiro o impede de entrar e assim ele passa a esperar.

O passageiro: em uma plataforma para pegar um bonde elétrico um passageiro que se encontra incerto de seu lugar no mundo começa a divagar sobre uma moça que se prepara para descer do bonde que está chegando.

 Estou de pé na plataforma do bonde elétrico e totalmente incerto em relação a meu lugar neste mundo, nesta cidade, em minha família.


Volta ao lar: um filho retorna a casa do pai, mas antes de bater porta começa a levantar inúmeras questões sobre as relações que possui com os que ali estão.

Na galeria: uma bela amazona se apresenta no circo e um dos expectadores começa a especular as reações e percepções sobre o que ocorre e como elas seriam em um cenário diferente.

 Cheguei. Quem me receberá? Quem espera atrás da porta da cozinha?


A partida: um homem tem pressa em sair do lugar onde está.

O timoneiro: após uma noite inteira ao timão, um homem é questionado por um estranho sobre se aquela é realmente a sua função. Sem o apoio da tripulação, ele se sente confuso.

Que tipo de gente é essa? Pensam também ou se arrastam sem razão de ser pela Terra?


O silêncio das sereias: Odisseu acredita ter tomado as medidas necessárias para se proteger do canto das sereias, mas o que ele não sabia era que o silêncio é muito mais poderoso.

Poseidon: o famoso deus grego encontra-se entediado e sobrecarregado de inúmeras tarefas burocráticas.

 Dessa fria arrogância, você sabe, não surgem quaisquer fagulhas de entendimento.


Chacais e árabes: um europeu está acampando com os árabes em pleno deserto, e ao esquecer de abastecer a fogueira é cercado por chacais que tem um estranho pedido a fazer.

O abutre: um homem tem os seus pés atacados por um abutre e não consegue se livrar do animal, sentindo-se indefeso.

 Nem tudo se cumpre, nem todo sonho em flor amadurece, seus terríveis restos jazem aqui, já indiferentes ao pontapé. 


O fratricídio: em um conto de suspense temos o assassinato de Wese por Schmar, um homem frio que estava determinado a praticar o crime, e a testemunha que assistiu a tudo

Um sonho: Josef K. sonhou que queria passear em um dia bonito, mas logo se viu caminhando em um cemitério.

 Que se veja o poder persuasivo do ar depois da tempestade.


Desista!: ao se descobrir atrasado, o narrador não sabe mais qual caminho tomar.

O caminho para casa: durante uma caminhada noturna de volta para casa, o narrador sente a escuridão e o silêncio ampliando a sensação de isolamento que ele tem.

 Eu havia dito até então tantas saídas e, então, mais nenhuma.


Pequena fábula: um rato sente o seu medo mudar, se antes era a amplitude do mundo, agora é o seu estreitamento.

Desejo de se tornar índio: o narrador vê na figura do índio a liberdade que ele anseia.

 

A escrita de Franz Kafka

Um dos maiores nomes da literatura, Franz Kafka (1883-1924) nasceu na cidade de Praga em uma família judia classe média. Sofreu de tuberculose por quase toda a sua curta vida, mas isto não o impediu de transformar a opressão paterna, a angústia existencial, e suas críticas a burocracia e a alienação do ser humano em histórias.

Em suas obras Franz Kafka questiona as regras e expectativas que temos ao viver em sociedade, e a solidão e o isolamento que isto pode nos impor. Muitas vezes expondo contradições e hipocrisias.

Sobre os seus protagonistas, não raro se identifica o seu desconforto, a busca por sobrevivência, validação ou admiração. Sentimentos como angústia e frustração também estão presentes em suas páginas, assim como a busca de um propósito de difícil acesso, dando um aspecto entre o sombrio e melancólico em seus contos.

O escritor também utiliza de metáforas e parábolas em alguns momentos , seja para criar comparações entre passado e futuro, seja para escreve sobre um mundo que está em constante mudança desde sempre, ou simplesmente para deixar que o leitor dê a as próprias interpretações.

Outra constante é a lei, como em seu livro O Processo, ela está presente em mais de um conto, sendo uma crítica a sua burocracia e a dificuldade de acesso a ela pelas pessoas que precisam.

Tudo usando uma linguagem mais ácida que convida o leitor mais atendo a reflexão sobre o que é ser humano, em textos que vão do existencialismo ao questionamento sobre o funcionamento da sociedade.

E para isso nem os mitos serão poupados de enfrentarem situações diferentes das que encontramos nas lendas e literatura.

 

O que eu achei de Uma travessia por perturbações

O primeiro livro que li de Franz Kafka foi O Processo, que já havia chamado a minha atenção por toda crítica ao sistema como um todo. Recentemente tive a oportunidade de ler A metamorfose em uma versão quadrinhos, onde o fantástico entra cheio de simbolismo.

Dos contos listados eu só conhecia Um artista da fome, ao qual segue me impacto cada vez que leio e que segue muito atual, só que agora as coisas mais absurdas para chamar a atenção acontecem nas redes sociais, e não mais no circo.

Algo que se reflete também nos demais dezenove contos deste livro. Já que a escrita atemporal de Kafka nos mostra que a nossa evolução é muito mais tecnológica do que humana.

Um fato curioso sobre os contos de Franz Kafka é que eles podem ser curtos, até mesmo curtíssimos - ocupando menos de uma página em alguns casos-, mas não podem ser descritos como leves e fáceis.

 Alguns, como A partida, deixam mais dúvidas do que respostas, exigindo um tempo para reflexão ou até mesmo uma pequena pesquisa para uma melhor compressão das palavras do autor.

 Não sendo exatamente um livro para se devorar um conto atrás do outro, já que não raro algumas coisas precisavam de tempo para serem melhor assimiladas. Pelo menos no meu caso.

 E como eu gosto muito do autor, e gosto mais ainda de contos, deixo essa dica para vocês. Como não sei se foi colocado à venda, fica naquele acaso para quem frequenta sebo e se deparar com o exemplar.

 

Uma travessia por perturbações - 20 contos
Franz Kafka
Organização e tradução: Bruno Gambarotto
TAG - 2024
125 páginas

 

 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O chamado de Cthulhu e outros contos



Sinopse: O Chamado de Cthulhu é um conto do norte-americano H.P. Lovecraft que logo se tornou um clássico do terror. Foi escrito em 1926 e publicado pela primeira vez na revista estadunidense Weird Tales em fevereiro de 1928. Cthulhu é um deus que nas primeiras páginas do conto aparece como um ídolo de argila quase indescritível, possuindo um culto multimilenar dedicado a trazê-lo de volta, o seu retorno desencadearia o fim da humanidade. Neste livro, encontramos esse clássico e mais nove contos consagrados do autor na literatura de terror.

Há alguns anos atrás me foi indicado ler o autor H.P Lovecraft com a justificativa que ele seria um dos mestres dos livros de terror e mistério. Para tirar a prova, aproveitei um cupom que ganhei para usar em uma livraria online e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos, para ter uma amostra do trabalho do autor.



No livro encontrei dez contos, aos quais irei fazer um breve resumo abaixo:

Dagon: Um marinho viciado em morfina compartilha a sua história após sobreviver a um naufrágio e chegar a um lugar desconhecido. A fragilidade do personagem coloca um ponto de interrogação se tudo é real ou alucinações de alguém que está perdendo a razão.


Estou escrevendo isto sob considerável esforço mental, uma vez que hoje à noite não existirei mais.


Nyarlathotep: parte dos mitos que constroem Cthulhu, o conto apresenta uma criatura que sai do Egito e vaga pela Terra. Um ser ambíguo e aterrorizante, capaz de causar a loucura e o caos ao poder assumir diversas formas e manipular a mente de quem encontra pelo caminho.

A cidade sem nome: um explorador se desloca para uma cidade cercada de lendas em um dos desertos da Arábia. Com uma atmosfera que se altera conforme o horário, ele encontra uma arquitetura macabra, símbolos estranhos e templos subterrâneos que o convidam a esquecer todos os cuidados.

Quando cheguei à cidade sem nome, vi que era um lugar amaldiçoado.


Azathoth: um conto curto que conta a história de um homem que viaja atrás dos sonhos perdidos.

O cão: dois amigos compartilham um hobby atípico: violar tumbas antigas em busca de artefatos. Em uma de suas expedições eles encontram uma escultura de jade em forma de um cão com asas. Ao carregar o objeto com eles, eventos misteriosos e aterrorizantes passam a assombra-los.

Não se trata de um sonho - nem mesmo, receio, loucura -, pois já me aconteceu muita coisa para eu ter essas dúvidas apaziguadoras.


O Festival: convocado por familiares para participar de um antigo festival, o personagem/narrador retorna a sua cidade natal. Mas o que deveria ser um retorno às origens acaba se tornando uma experiência bem diferente da imaginada.

O Chamado de Cthulhu: após a morte de um tio-avô o professor Francis Wayland Thurston se depara com a história de um estranho ídolo de argila, que teria relação com um antigo culto dedicado a uma criatura monstruosa que teria vindo das estrelas: Cthulhu. Conforme se aprofunda nas investigações, ele descobre não só uma conexão psíquica entre algumas pessoas e a entidade, como que o retorno de tal criatura significaria o fim da humanidade.

A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos.


A Cor Vinda do Espaço: um meteoro cai em uma fazenda localizada a oeste da cidade de Arkham e uma estranha cor começa a surgir no local do impacto. Sua queda não gera nenhum dano momentâneo, mas com a passagem dos dias uma terrível transformação ocorre na localidade conforme a estranha coloração passa a corroer tudo o que toca.

História do Necronomicon: pequeno conto que conta a origem do livro fictício citado em diversos contos de H.P. Lovecraft, onde o autor Abdul Alhazred, conhecido como "o Árabe Louco" teria descrito uma série de feitiços e rituais para invocar entidades antigas e poderosas, como Cthulhu.

São figuras tão caladas e furtivas que ele se sente de certa forma confrontado com coisas proibidas, com as quais seria melhor não ter nenhuma relação.


O Horror de Dunwich: Dunwich é uma pequena cidade de Massachusetts onde a estranha família Whateley, que combina cultos antigos e casamento endogâmicos, mora. Mas todas as atenções se voltam para eles quando nasce Wilbur Whateley, um menino que cresce em uma velocidade espantosa e apresenta características que lembram animais e conforme cresce cria uma obsessão por livros antigos, em particular o Necronomicon.


A escrita de H.P. Lovecraft

O escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, popularmente conhecido como H.P. Lovecraft, é considerado como o autor que revolucionou no século XX o gênero de terror, principalmente no que denominamos terror psicológico e cósmico.

Além da psicologia, o escritor que teve uma infância marcada pela solidão, mistura ficção científica, fantasia em histórias obscuras que podem perturbar os leitores nesta mescla de insanidade e criaturas que não se sabe se vem do cosmo ou de universos paralelos.

Não lembro com precisão quando começou, mas já faz meses. A tensão geral estava horrível.


E foi isso que gerou o Mito de Cthulhu, onde vários contos compartilham o terror cósmico dos impactos do despertar de uma criatura antiga e poderosa que afetaria a Terra como um todo. Não à toa, existe mais de um livro de contos do autor publicado com o mesmo título: O chamado de Cthulhu e outros contos

Em O chamado de Cthulhu e outros contos que eu li existe aquele misto de terror, mistério e dúvida. Ao utilizar a narrativa em primeira pessoa com personagens que ou não confiáveis ou se colocam em situações que podem alterar a sua percepção, o autor mexe com o sentimento de ética e empatia do leitor, pois é imaginação ou eles são realmente vítimas de algo que chamaríamos de sobrenatural?

Sobre o nome e a residência desse homem pouco se escreveu, pois serviam apenas para o mundo da vigília, embora se diga que eram ambos obscuros.


Ao mesmo tempo ele nos carrega para civilizações perdidas, onde o antigo e o avanço tecnológico se misturam, mas habitadas por forças malévolas, ligadas aos muitos mistérios que ainda hoje tentamos desvendar.

Isso é acentuado pelo conjunto de contos que forma os mitos de Cthulhu, onde entidades cósmicas são capazes de causarem horrores que a humanidade não possui preparo e muito menos compressão para enfrentar.


O que eu achei de O chamado de Cthulhu e outros contos

A sensação que eu tive lendo este livro de contos era de estar subindo uma montanha, a cada história o terror aumentava, e não raro, também o número de páginas para imergir em um mundo onde os horrores estão completamente conectados por um livro fictício e por uma criatura.

Várias vezes me peguei lembrando da série Alienígenas do passado, onde cidades antigas e cheias de lendas são mostradas e suas construções questionadas sobre se realmente usaram mão de obra humana ou se seres do espaço o construíram.

Parecia haver ali uma umidade indefinida e opressiva, e me espantei com o fato de o fogo não estar aceso.


Mas nos contos de H.P. Lovecraft eles não constroem nada, e não estão vindo do espaço em uma espaçonave. O mais perigoso está dormindo em águas profundas, e os demais parecem vir atender chamados de rituais ou através de portais escondidos em várias partes da Terra.

Motivo pelo qual não raro é fácil duvidar da história do narrador, pois em algumas situações enfrentadas por eles não seria difícil confundir com alucinações ou pesadelos. 

Não é um lugar bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes à noite.


Em outros casos está mais escancarado, embora não haja uma comprovação total da lenda, existem fatos para deixar as orelhas em pé e os pelos dos braços arrepiados.

O que tornou o universo de H.P. Lovecraft aprovado por mim, uma fã do gênero, que só agora conheci o mestre e deixo a dica para quem também curte este misto de terror, psicologia e mistério.


O chamado de Cthulhu e outros contos
H.P. Lovecraft
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora Nova Fronteira
2023 - 200 páginas
Contos publicados originalmente no final dos anos de 1800

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


terça-feira, 23 de novembro de 2021

Crônicas de Petersburgo


Sinopse: Há muitas maneiras de ler este livro. Uma delas é reconhecer no texto que Dostoiévski redigiu na juventude alguns traços de estilo - a dicção veloz, a mescla de registros, a análise psicológica aguda - que mais tarde se tornariam marcas inconfundíveis do autor de Crime e Castigo. Outra é simplesmente se deixar levar pelas mãos do escritor, que apresenta ao leitor sua cidade.

Eu nunca havia lido nada do famoso escritor russo Fiódor Dostoiévski, então quando o livro Crônicas de Petersburgo foi oferecido como mimo para renovar a minha assinatura anual da TAG Curadoria, meus olhos imediatamente brilharam.

O livro é relativamente curto, e começa com o Prefácio da tradutora e professora de Língua e Literatura Russa Fátima Bianchi, para depois seguir uma apresentação do almanaque O Trocista e cinco crônicas do ano de 1847, todos escritos pelo autor.

Prefácio

Fátima Bianchi compartilha com o leitor toda uma explicação sobre o autor Fiódor Dostoiévski, da sua inspiração inicial em Balzac, o que motivou o escritor ser um seguidor da Escola Natural, as obras escritas, até o surgimento de dívidas que o obrigaram a ceder e a escrever sob encomenda.

Tudo com referências bibliográficas complementares, o que auxilia os mais curiosos a pesquisarem mais.


Com a reputação quase destruída, ele abandona todos os trabalhos iniciados e passa praticamente o ano inteiro de 1847 desaparecido da vida literária.


O Trocista

Projeto literário de Nikolai Nekrássov, O Trocista era para ser um almanaque humorístico, mas este foi censurado antes de ter a chance de ser publicado. como recordação ficou a apresentação realizada por Dostoiévski, que praticamente transforma a publicação em uma espécie de pessoa, ao qual pela descrição desperta a vontade de conhece-la. 


E eis que já julgaram e condenaram, senhores; condenaram sem ouvir! Esperem, ouçam!


Crônica 13 de abril de 1847

O texto escrito em parceria provável com Aleksei Pleschêiev por não ser assinada começa falando dos impactos da mudança de estação pela cidade de Petersburgo, até chegar a comentários sobre literatura e ópera, onde ocorre um certo deboche nas tentativas da sociedade local em imitar a Europa e finaliza com uma forte crítica aos filantropos.


Mas a época do amor e a época da poesia não chegam ao mesmo tempo, diz o poeta, e graças a Deus que é assim.


Crônica 27 de abril de 1847

Como um fio de lã puxado por um gato, a crônica começa falando da primavera, depois dos moradores de Petersburgo e a aqui perturbadora pergunta Quais são as novas?, passando pela citação de um personagem que irá aparecer em dois contos seus no ano seguinte até os detalhes de uma novela que ele está lendo, tudo com muita ironia e pequenas observações sobre a sociedade.


Mas eis que enfim saiu o sol e essa novidade, indiscutivelmente, vale mais que qualquer outra.


Crônica 11 de maio de 1847

Na primavera a fofoca vestida de novidade é aceita alegremente entre os moradores de Petersburgo, que somadas aos gastos desnecessários de uma pobre sociedade rica, formam a tônica de um texto crítico as classes mais altas.


Ao fato de que, num momento tão solene, o homem de Petersburgo toma consciência de toda a sua dignidade, de toda a sua importância, e faz plena justiça a si próprio.


Crônica 1 de junho de 1847

Com a proximidade da chegada do verão começa o abandono da cidade, e aqui Dostoiévski começa a lista sobre o que poderiam fazer os que ficam, seguida de uma reflexão da visão negativa dos estrangeiros em relação a Petersburgo, o que desencadeia os motivos pelo fato de eles ousarem ser diferente, as mudanças de mentalidade até chegar aos avanços científicos e literários, além de comentar sobre a vontade de todos expressarem suas opiniões.


Há moradores de Petersburgo que não saem de seu quarteirão há uns dez anos ou mais e só conhecem bem o caminho para a repartição onde trabalham.


Crônica 15 de junho de 1847

A última crônica é uma série de divagações sobre os moradores da cidade de Petersburgo, da sua relação com o trabalho, retornando a fuga no verão, a preguiça, a tristeza e os que sonham. O incrível nesta crônica é que várias das descrições podem ser aplicadas as pessoas no dia de hoje, indicando que temos uma evolução muito mais material do que humana.


Sempre despetalamos e despedaçamos a flor para sentir melhor o seu perfume, e depois ainda nos queixamos quando, em vez do aroma, só experimentamos um inebriamento.


O que eu achei

Eu gostei bastante deste livrinho curto, que me despertou o desejo de ler outros livros de Dostoiévski, pois me agradei muito da sua escrita direta, com pitadas de ironia, opinião e história. 

Através das suas crônicas me senti caminhando na rua de Petersburgo observando de perto a sociedade de 1847, e fiquei curiosa em saber como é a cidade hoje, o que ela poderia guardar das visões do autor, o que mudou, o que segue igual, o que foi valorizado e o que terá sido esquecido.

Um livro de leitura rápida que pode dividir tranquilamente o tempo de leitura com um romance mais denso, sem que o leitor em questão se preocupe em misturar as histórias.

Ficando a dica para quem tem vontade em conhecer os escritos de Dostoiévski, para quem gosta de literatura russa, e naturalmente para quem curte viajar sem sair do lugar.


Crônicas de Petersburgo
Peterbúrgskaia Liétopis
Fiódor Dostoiévski
Tradução: Fátima Bianchi
TAG - editora 34
2020 - 95 páginas



terça-feira, 17 de agosto de 2021

Ada ou Ardor


Sinopse: Este é talvez o romance mais ambicioso de Vladimir Nabokov. Em Ada ou ardor, ele constrói uma narrativa de fôlego, de escopo monumental, em que todos os seus principais temas confluem: há a exploração das lembranças inconstantes da infância, como em Fala memória, há a recriação de territórios fabulosos, como em Fogo pálido; e há o amor proibido por uma menina fugidia, como em Lolita. Carregado de lirismo, o romance é também um feito linguístico, no qual Nabokov arquiteta uma narrativa complexa e fluída, que nos leva através das lembranças de Van Veen em sua tentativa de reconstruir a história de amor que viveu com a prima, Ada. "Nunca antes um romance fez com que a acumulação de experiência humana ao longo de uma vida parecesse tão ricamente romântica", escreve o crítico Boyd, no posfácio deste livro. "Nunca, nem mesmo em Prost, o choque do presente foi tão amplificado por meio da repetição, da recordação, da antecipação, da tristeza, do remorso, da diversão e do êxtase."

A crônica familiar da rica família Veen ocorre na Antiterra - que seria a nossa realidade na Terra em uma imagem distorcida no espelho - durante um período de cem anos, indo de 1868 a 1967. Neste lugar, muitas vezes parece que ainda não ocorreu a Pangeia, tamanha facilidade de deslocamento de um ponto a outro.  E a língua é uma mistura de inglês, francês e russo.

Logo de início iremos conhecer as gêmeas Marina e Aqua, que irão se casar com os primos Demon e Daniel. Estes relacionamentos irão gerar os personagens que são os fios condutores da história, a Ada do título, sua irmã Lucette e o primo Van.


Uma Revelação pode ser mais perigosa do que uma Revolução.


É na mansão de Ardis que Van, então com quatorze anos, e Ada, então com 12 anos, irão começar a ligar o quebra-cabeça que torna a sua aparecia física tão semelhante: a descoberta que eles são na verdade irmãos. Mas isso não irá impedir que eles se aventurem em outras descobertas bem mais íntimas um no corpo do outro, em uma relação incestuosa ao qual mantinham escondida de seus pais.

Entre encontros secretos e saudades aliviadas por cartas, eles crescem mantendo a paixão acessa, mas sem manter nenhuma fidelidade, ao mesmo tempo que vão envolvendo Lucette, ainda inocente, em suas brincadeiras, tornando a sua cabeça jovem bastante confusa.


Verificando que as flores eram artificiais, ele pensou como era estranho que essas imitações sempre tentassem enganar apenas os olhos, em vez de copiar também a sensação úmida e carnuda das pétalas e folhas vivas.


O resultado deste amor proibido irá afetar a todos e nortear os caminhos do casal, em um processo de reencontro e repetição ao longo das páginas. Dividida em cinco partes, elas acompanham Van ao longo dos anos, com um grande enfoque para as mulheres que encontra, os livros que escreve e o momento em que começa a ter consciência do tempo e do próprio envelhecimento.

Para os fãs de clássicos, ao longo da narrativa será fácil encontrar os vários easter eggs que alimentam a história, para confirmar ou entender ao que estou me referindo, basta ler na parte final as anotações de Ada assinadas por um anagrama do autor. São referências a outros autores - como Tolstói, Júlio Verne e Jane Austen -, lugares e as expressões usadas ao longo da história agora traduzidas. Nem todas as opiniões são exatamente positivas, o que de certa forma podem gerar uma comparação de opinião entre o que diz o escritor e o que pensa o leitor.


Ambos buscavam nos livros o máximo de excitação intelectual, como o fazem os melhores leitores; ambos encontraram em muitas obras famosas nada mais do que pretensão, tédio e falsas informações.


No Posfácio o escritor e professor Brian Boyd, considerado o maior conhecedor do autor na atualidade - faz uma análise de Ada ou Ardor, traçando uma linha de comparação com Ulisses de James Joyce, além de resgatar cenas e analisar os personagens e a forma narrativa - como o uso de repetição e recordação. Além, é claro, referenciar outras obras de Vladimir Nabokov, como o polêmico e surpreendente Lolita. Complementando assim a experiência de leitura e possibilitando mais interpretações pós leituras, já que a história é rica em simbolismos.

O livro mistura narrativas em primeira e terceira pessoa, visto que Van é o narrador e o personagem central da história por ele contada, embora possua anotações de Ada durante as suas revisões, ficando claro ao leitor que ele está lendo as memórias deste homem com uma vida digamos bastante intensa.


Pensamentos estranhos e malevolentes atormentavam a mente dele.


Apesar de percorrer o final dos anos de 1800 e mais da metade dos anos de 1900, não é um livro para encontrar referências históricas como as duas grandes guerras, pois cabe recordar, como eu escrevi lá no início, que não estamos falando da Terra e sim da Antiterra. 

Com isso o leitor irá passear por referências filosóficas, eróticas e de ficção científica enquanto acompanha em um misto de romantismo e deboche os movimentos de uma família milionária ocupada dentro da própria bolha, com direito a compra de muitos imóveis e duelos para sossegar os pensamentos após desconfiar de traições.


O prazer de destruí-los não iria curar seu coração, mas sem dúvida limparia seu cérebro.


Mas ao contrário do que ocorreu na leitura de Lolita, ao qual considerei o livro fantástico, em Ada ou Ardor tiveram algumas coisas que me incomodaram, como se os anos de diferença entre uma leitura e outra, o que inclui várias mudanças na forma de olhar o mundo e a maternidade, parecem ter influenciado bastante.

Começo com a mais banal de todas, o uso recorrente de parênteses (). Eles estão em abundância no texto, e eu, particularmente, sinto a leitura travar quando há excessos deles. Sim, eu entendo, é o estilo da escrita, já que parecia alguém revisando e os utilizando para explicar determinada situações ou apenas comentando ou relembrando algum fato complementar da memória. 


Aceitou o toque da mão cega que lhe subia pela coxa e maldisse a natureza por ter plantado uma árvore nodosa estourando de seiva vil entre as pernas dos homens.


As próximas duas se misturam, então vou começar com a que mais me desagradou aqui, que foi a sexualização de meninas ainda crianças. Em Lolita eu relevei este fato por me parecer uma história de pedofilia, em Ada ou Ardor ela é naturalizada pelo narrador e pelos que estão na sua volta, como o velho que cada vez buscada meninas mais jovens para deflorar ou no próprio comportamento de Ada.

Essa sexualidade antecipada faz companhia ao machismo, de homens que duelam por sua honra a olhares que percorrem corpos femininos da unha do pé ao último fio de cabelo, dando uma amostra que o dinheiro compra o respeito alheio, mas não é concedido automaticamente aos seus donos.


Quero examinar a essência do Tempo, não sua passagem, pois não creio que sua essência possa ser reduzida a seu transcurso.


E ao me sentir desagradada, a leitura acabou me trazendo uma reflexão de que a postura masculina descrita não é algo que ficou no passado, que não posso denomina-la como algo característico da época em que o livro foi escrito, pois as situações permanecem atuais, tanto de abuso infantil como a visão da mulher objeto. E talvez seja essa razão de eu não conseguir me divertir com a história.

Então sim, acho que terei que reler ele em um outro momento, para buscar a leveza e fluidez inteligente citada por Brian Boyd. Enquanto os anos não passam, eu deixo a dica para os leitores do blog, principalmente para os que adoram ler um clássico.


Ada ou Ardor - Crônica de uma família
Ada or Ardor - A family chronicle
Vladimir Nabokov
Tradução: Jorio Dauster
Alfaguara
1969 - 605 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 4 de maio de 2021

O Morro dos Ventos Uivantes



Sinopse: Único romance da escritora inglesa Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes retrata uma trágica história de amor e obsessão em que os personagens principais são a obstinada e geniosa Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo, Heathcliff. Grosseiro, humilhado e rejeitado, ele guarda apenas rancor no coração, mas tem com Catherine um relacionamento marcado por amor e, ao mesmo tempo, ódio. Essa ligação perdura mesmo com o casamento de Catherine com Edgar Linton.


O vídeo fala da leitura e da última versão cinematográfica do livro


Há muitos anos eu tinha curiosidade de ler O Morro dos Ventos Uivantes, primeiro por tudo o que se comenta sobre a história - sendo referência em outros livros e citado por vários leitores-, segundo por ser escrito por uma mulher nos anos de 1800 e terceiro por ser um clássico. E já adianto aqui que a história não me decepcionou.


"Wuthering" é um adjetivo local que descreve a violência atmosférica ao qual o morro fica exposto durante as tempestades e que pode ser traduzido como "ventos uivantes".


A edição escolhida para esta aventura literária foi a publicada pela DarkSide, que além de ser muito bonita, possui todo um complemento primoroso sobre a história, críticas da época e um pouco da biografia das irmãs Brontë, tornando a imersão completa. Organizada pela Marcia Heloisa, me proporcionou o mesmo sentimento de realização pós leitura, como ocorreu com o Vitorianas Macabras.

Na história de Emily Brontë, temos duas vozes em primeira pessoa narrando os fatos: o Sr. Loockwood e a Sra. Dean. Fugindo do alvoroço das cidades grandes, o Sr. Loockwood resolve alugar uma casa no interior da Inglaterra. Seu senhorio, o Sr. Heathcliff, não é exatamente uma simpatia, limitando as suas tentativas de conversa.


Tinha uma maneira própria de interpretar cada frase e, ao que parecia, cada fiel cometia uma infinidade de pecados diversos a cada deslize.


Em sua curiosidade sobre o homem, Loockwood insiste em retornar à casa de Heathcliff e fazer uma visita em um dia de péssimo tempo. Sem a possibilidade de ir embora, ele acaba dormindo no local, o que lhe permite conhecer os demais integrantes da casa, e inevitavelmente também acaba comparando o cuidado com a casa onde está hospedado, chamado de Thrushcross Grange e o péssimo estado da que mora Heathcliff, chamada Wuthering Heights.

Loockwood acaba ficando doente após retornar o mais cedo que conseguiu em plena neve para Thrushcross Grange, e assim é cuidado pela empregada do local, Sra. Dean, que ao lhe fazer companhia acaba lhe contando a história das duas famílias por trás das propriedades.


Torcia encarecidamente para que ela gostasse de uma boa intriga e esperava que pudesse me entreter ou me fazer pegar no sono com seu falatório.


A Sra. Dean cresceu junto com os filhos do Sr. Earnshaw em Wuthering Heights, pai de Hindley e Catherine. Quando eles ainda eram crianças o homem foi viajar a trabalho e ao retornar ele tem como companheiro um menino que encontrou nas ruas de Liverpool, seu nome é Heathcliff. 

Apesar da cara feia dos familiares e a nítida vontade que sua esposa tem de expulsar o menino, ele justifica não ter encontrado família ou quem poderia ter ficado com a criança. Assim, passa a tratá-lo como filho.


Nunca fiquei tão exausto na vida, mas penso que deva aceitá-lo como um presente de Deus, embora seja escuro como se viesse do diabo.


Heathcliff encontra o ódio com Hindley e o amor com Catherine, como uma dupla inseparável eles acabam crescendo juntos e tornando-se companheiros de travessuras. Mas o tempo passa, e quando a bela moça atinge a adolescência, faz amizade com os jovens da família Linton, filho dos proprietários de Thrushcross Grange, cujo olhar é de censura em relação ao comportamento e aparência de Heathcliff. 

Mesmo com todo comportamento nem sempre considerado adequado da jovem, Edgar Linton a pede em casamento, e ela surpreendentemente o aceita. O sim de Catherine faz com que as expectativas de Heathcliff se quebrem, e as consequências disso serão sentidas por todos, incluindo a nova geração.


Não cultive esta expressão de um vira-lata perverso que parece saber que os chutes que recebe são merecidos e, mesmo assim, odeia não só quem o agride como também o mundo inteiro.


Acompanhando as três gerações da família Earnshaw, não é difícil em concordar com não só os personagens, mas também o local, foram muito impactadas pelo menino trazido pela bondade, moldado pelo bullying e comandando por sentimentos que o tornam praticamente um monstro, com seus dentes afiados, sua violência e a sua frieza.

Apesar de muito se referenciar o romance de Heathcliff e Catherine, o romance de Emily Brontë não tem nada de Love story, os ventos, o ambiente escuro, dão um ar gótico que combina com a personalidade amarga e vingativa de quem determina o destino dos dois pequenos núcleos. E como bem observa a tradutora Marcia Heloisa, a escrita de Emily Brontë está muito mais para Edgar Allan Poe do que para o estilo de Jane Austen. 


Não sei definir em palavras, mas certamente você, como todo mundo, crê que existimos em alguém para além da nossa própria existência.


Com poucos personagens, e todos extremamente humanos em suas qualidades e defeitos, o leitor se depara com sonhos desfeitos, um toque de realismo fantástico, traições, egoísmo, bondade, violência e toque de loucura. Curiosamente também se depara com personagens que representam os mais diversos gêneros, condição social, crenças, moral e educação. 

Com reações pesadas, as relações descritas são sombrias. Raras são as boas intenções e muito são as perguntas de porque alguns dos personagens se mantiveram presos naquele lugar, como se Catherine Earnshaw mantivesse todos presos em seu centro gravitacional, tornando sua presença marcante até para quem não a conhece. 


O tirano explora seus escravos, mas eles não se voltam contra ele; eles descontam naqueles que são ainda mais inferiores.


A leitura também permite conhecer um pouco das relações sociais da época, a questão com a religião, e até mesmo uma grande interrogação sobre a cor da pele de Heathcliff, que várias vezes é comparado com um cigano, e não raro é usada de forma pejorativa pelos que o descrevem.

Uma leitura cativante, que acompanhada de um bom chá, praticamente me transferiram para junto da lareira ouvindo a Sra. Dean, para no final lamentar ser este o único romance de Emily Brontë. E se ainda não leu, fica a minha indicação, e prepare-se para a tensão psicológica que apenas os livros que se utilizam do terror, mesmo que com sutileza, podem proporcionar.


O Morro dos Ventos Uivantes
Emily Brontë
Tradução: Marcia Heloisa
DarkSide - Darklove Classics
1847 - 416 páginas


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Mistérios Perdidos

 


No mês de dezembro da Tag Inéditos recebi como mimo este pequeno e bonito livro contendo três contos misteriosos do escritor e cavalheiro Sir Arthur Conan Doyle, que já teve o seu conto Um estudo em vermelho resenhado recentemente por aqui. A edição está linda, as ilustrações e o leve alaranjado que aparece em algumas das páginas combinam perfeitamente com o ar fantástico das histórias.

O primeiro conto se chama O anel de Tot, onde o sr. John Vansittart Smith, um estudioso pertencente a Sociedade Real e que já circulou por diferentes áreas - sendo a atual a egiptologia, estava no Museu do Louvre para estudar papiros que eram de seu interesse.


O estudioso olhou ao redor para as figuras havia muito em silêncio que tremeluziam vagamente através da escuridão, para os trabalhadores ocupados que agora estavam tão descansados, e seu ânimo se tornou reverente e reflexivo.


A pesquisa se torna uma aventura quando ele dorme durante as suas anotações. Ao acordar, está tudo escuro, o museu está fechado e um barulho o faz perceber que ele não está sozinho.

O Conde de Château Noir é o segundo conto do livro. Aqui o leitor é levado para França, em meio ao exército alemão que invade o território francês deixando um rastro de destruição, fazendo com que os moradores da região os odeiem.


Os pensamentos dos franceses eram sombrios e amargos quando viram o vergão da desonra marcando o belo rosto de seu país. Eles tinham lutado e sido dominados.


Na 24ª Infantaria de Posen, o coronel Von Gramm tenta descobrir quem está por trás da morte e desaparecimento de suas sentinelas. Um agricultor avarento se interessa pela recompensa e assim inicia a ida de uma equipe investigar o acusado, que é justamente o conde que dá nome ao conto.

Para fechar a trindade de mistérios, temos o conto Lote n. 249, onde temos a narrativa de Abercrombie Smith, um estudante dedicado da universidade de Oxford, que ocupa um dos três aposentos preferidos para os que optam em se dedicar com afinco aos livros.

Uma noite ele houve um grito, não demora para que outro morador, Willian Monkhouse Lee o chamar para ajudá-lo com o terceiro morador e origem do grito: Edward Bellingham. 


Há algo de execrável nele, algo de vil. Algo que sempre faz meu estômago se revirar.


Nos aposentos o rapaz está paralisado com os olhos arregalados, mas o que atraí o olhar de Smith é a feia múmia em cima da mesa. A partir daquele dia surge um laço entre os três, até situações estranhas ameaçar afastá-los.

Os três contos são muito bons, fáceis de ler, e a forma narrativa de Sir Arthur Conan Doyle me impulsionaram a ler rapidamente, e a cada conto terminado eu já estava curiosa em iniciar o outro. Um livro realmente gostoso para ler e relaxar.


Mistérios perdidos
Sir Arthur Conan Doyle
Tradução: Lígia Azevedo
Ilustração: Gabriela Basso
TAG
124 páginas

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Eu Morreria por Ti e outras histórias

 


No mês de dezembro da curadoria recebi como mimo este pequeno e bonito livro contendo três contos inéditos do escritor americano F. Scott Fitzgerald, que já teve o seu livro O Grande Gatsby resenhado por aqui. As ilustrações em rosa e branco dão um ar ainda mais clássico a edição que é muito bonita.

A primeira história é A Promissória, narrada por um editor que não quer se identificar, ele conta um fato do mundo editorial. Ele começa nos dizendo os tipos de livro que costuma publicar, como histórias de detetive. Ele não aceita escritores com menos de quinze anos e não nega querer ganhar dinheiro desesperadamente. 


Todos os colunistas e comunistas (sempre me confundo com essas duas palavras) me maltratam porque dizem que quero dinheiro.


Aliás, a sua esperança de equilibrar os gastos da sua família vem de seu próximo lançamento, escrito por um psicólogo respeitado e professor visitante em universidade, que conta a experiência de um contato mediúnico com o jovem Cosgrove Harden, sobrinho do autor que havia morrido na guerra e devia três dólares e oitenta centavos para um outro jovem chamado Wilkins.

A segunda história se chama Fazer O Quê, onde um jovem médico assistente vai atender a um chamado e acaba conhecendo uma moça que atrai a sua atenção e o menino que ao realizar um roubo gerou a sua visita.


O velho podia ter vindo no sedã dele. Está ficando preguiçoso. Na maioria das profissões, ele seria rebaixado... na nossa, nós o glorificamos.


O menino de treze anos que gosta de ler acaba tendo uma conversa tranquila com o médico, gerando uma noite muito diferente para os dois, e assim influenciando em comportamentos futuros.

A terceira e última história dá título ao livro: Eu Morreria por Ti conta a história de uma equipe de filmagem que vai até a Carolina do Norte para gravar as cenas junto ao herói da história: o rochedo Chimney Rock.


Se eu me esforçar muito, até consigo me imaginar matando alguém por amor, mas não dá para imaginar cometer suicídio.


No hotel eles conhecem Delannux, também conhecido como Carley Suicídio. O homem de aparência comum carrega a lenda de três mulheres terem se matado por ele e atualmente é um fugitivo da justiça. Todo este ar de mistério faz com que a bela e principal atriz da equipe se interesse por ele.

Os três contos são rápidos e fáceis de ler, pequenas histórias que nos contam um pouco da sociedade americana do início do século XX em narrativas que podem ser tanto em primeira pessoa, como ocorre em A Promissória, como em terceira como ocorre com os outros dois contos. A escrita tem ritmo, não buscando ser exatamente surpreendente, parecendo mais como um tio que nos conta histórias curiosas de sua juventude. 

Tornando assim o livro bastante agradável para uma leitura tranquila em uma tarde de férias.


Eu Morreria por Ti e outras histórias
I'd die for you and other lost stories
F. Scott Fitzgerald
Tradução: Leonardo Alves
Ilustração: Virgílio Dias
TAG - Antofágica
159 páginas

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Um estudo em vermelho



Sinopse: Na obra de estreia do renomado escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle, um homem é encontrado morto em Londres. Apesar das manchas de sangue, o corpo não apresenta ferimentos, apenas uma clara expressão de pavor no rosto. Intrigada diante do enigma, a polícia recorre ao auxílio do excêntrico e inteligente Sherlock Holmes, que emprega suas técnicas de dedução pouco ortodoxas para desvendar o mistério. Narrado pelo dr. Watson, Um estudo em vermelho marca o primeiro caso e aparição de Sherlock Holmes, um dos detetives mais populares e clássicos da literatura.

Logo de início o dr. Watson nos conta resumidamente sua vida após obter o título de Doutor em Medicina até a sua chegada em Londres. A necessidade de economizar em uma cidade tão cara o leva a conhecer Sherlock Holmes, que trabalha no laboratório químico de um hospital, para ver se ambos poderiam dividir um apartamento.

Os seus estudos são muito irregulares e excêntricos, mas ele acumulou uma quantidade de conhecimentos incomuns que espantaria seus professores."

E assim Watson descobre que o seu novo amigo auxilia detetives particulares e a própria Scotland Yard na resolução de casos difíceis, utilizando-se de um método de observação próprio. E o primeiro que ele participa é de um misterioso assassinato de um homem em uma casa vazia, onde a polícia londrina não identifica nenhuma pista.

A história é dividida em duas partes, na primeira temos a introdução dos dois personagens principais, o caso e a resolução do mesmo, com a explicação das pistas por Sherlock Holmes. Já na segunda parte, que foi a minha favorita, está a motivação do crime, detalhando o que gerou o ocorrido.

Antes de me julgar, entretanto, que se lembre de como a minha vida não tinha objetivos e do pouco que havia para prender minha atenção.

Eu conhecia o personagem Sherlock Holmes apenas por filmes e, naturalmente, por ser referência de livros de mistérios. Mas nunca havia lido nada do escritor Arthur Conan Doyle, e confesso que gostei bastante do seu estilo.

Na história ele mescla primeira e terceira pessoa em um único narrador, que é o dr. Watson, o que deixa bem marcado quando ele está vivendo a situação e quando ele está contando algo de terceiros que tomou conhecimento. Também fica claro em algumas passagens que a narração não se encontra no presente, mas sim lembranças de fatos que ocorreram e foram registrados em uma espécie de diário.

Se lhe pedissem que provasse que dois mais dois são quatro, você teria talvez alguma dificuldade, apesar de não ter dúvidas a respeito do fato.

Achei a leitura muito fácil, embora ele não permita o leitor ter os seus próprios suspeitos, dependendo inteiramente da genialidade e atenção de Sherlock Holmes, a história prende a atenção e naturalmente deixou aberto para que mais aventuras viessem. O que me deixou empolgada para ler um outro livro do autor que recebi agora no mês de dezembro.


Um estudo em vermelho
A study in scarlet
Sir Arthur Conan Doyle
Tradução: Rosaura Eichenberg
TAG - L&PM Pocket
1887 - 192 páginas