Sinopse: As montanhas cantam é centrada na família Trần. Tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã, a narrativa é marcada pelos acontecimentos que atravessaram o núcleo familiar - desde a avó Diêu Lan, até a neta Huong. É um romance vívido que escancara os custos humanos da guerra, do ponto de vista do próprio povo vietnamita. Ao mesmo tempo, o livro nos mostra o poder e os efeitos da esperança.
Nos anos de 1970 a jovem Hương se vê sozinha com avó na cidade de Hanói tentando sobreviver ao medo dos bombardeios e de perder seus pais e tios que estão entre os combatentes da Guerra do Vietnã.
A luta cotidiana para comer, trabalhar e estudar desperta as memórias da avó da garota, Diêu Lan, que durante os anos de 1940 e 1950 viu a sua família ascender com trabalho árduo e respeito como proprietários de terra para depois entrarem em um verdadeiro inferno de escolhas durante a reforma agrária do país.
Minha avó costumava me dizer que, quando nossos ancestrais morrem, eles não desaparecem simplesmente, mas continuam cuidando de nós.
Os dois acontecimentos acabam se fundindo, trazendo à tona feridas nunca cicatrizadas, diferenças de opinião e escolhas de caminho que não possuem volta.
Medo, amor, coragem, vergonha se entrelaçam em uma família que luta para ver o sol a cada dia e mostram o antes, durante e o depois de um evento tão traumático chamado guerra.
A escrita de Nguyễn Phan QuếMai
Nascida em uma pequena vila no Delta do Rio Mekong no Vietnã, Nguyễn Phan QuếMai é também poeta e tradutora. Para escrever o seu primeiro romance As Montanhas Cantam, optou pelo idioma inglês para contar uma mistura de ficção e fatos inspirados em suas próprias experiências durante a infância.
Reconhecida como embaixadora cultural, ela compartilha com o ocidente de forma bastante emocional os acontecimentos históricos de seu país. Seja usando metáforas, seja através de provérbios populares e o próprio vocabulário, onde ela opta em utilizar a escrita original para os nomes, apesar do texto em inglês.
Um ruído trovejante se aproxima. Explosões ecoam de longe. Agarro-me aos ombros de vovó com mãos suadas, enterrando o rosto em seu corpo.
Ela também se utiliza de diferença geracional para dar duas visões de resiliência em tempos difíceis, e da compaixão para narrar uma história sem mocinhos ou vilões, mas de uma família que segue se levantando a cada queda, que busca sobreviver em meio a perdas, traumas e todos os desafios que se apresentam ao longo da jornada.
Uma curiosidade é que a autora optou por publicar em inglês para minimizar o risco de mudanças no seu texto durante as traduções. Tentando preservar toda a cultura e impacto emocional que a obra apresenta o máximo possível.
O que eu achei de As montanhas cantam
A combinação de governo que divide a sua população colocando uns contra os outros com uma guerra envolvendo exércitos estrangeiros pode ser a fórmula perfeita para destruir famílias que querem apenas trabalhar, correr atrás dos seus sonhos e educar os seus filhos.
No caso dos personagens de As montanhas cantam, eles surpreendem por conseguirem manter a resiliência em buscar uma saída após secar cada lágrima. Principalmente a avó, uma mulher muito inteligente e forte, que não perde a humanidade mesmo quando é vítima de injustiças.
Você sabia que naquela época os dentes pretos eram considerados essenciais para as mulheres? Aquelas com dentes brancos eram consideradas indecentes.
Eu achei o livro sensível e dolorido. Foi impossível para mim não ficar pensando naquela mãe que precisa distribuir os seus filhos em casas estranhas para que não fossem mortos por causa de mentiras. Assim como na menina que espera pacientemente a recuperação de uma mãe ferida na alma e por um pai que nunca retorna.
O coração também apertou, seja pelas mortes injustas, seja pela alma que se sente suja, seja pelo primeiro amor que nasce em meio a muitos contrastes, assim como pelo perdão após toda a maldade.
Ao nosso redor, homens, mulheres e crianças, com roupas rasgadas e rostos fantasmagóricos faziam a mesma coisa, enchendo o olho do inferno com os escombros de suas casas.
Tudo com uma escrita fluída e envolvente, que ao mesmo tempo que te torna um membro invisível acompanhando a família, compartilha de forma natural a cultura vietnamita. Além disso, Hương é uma narradora que consegue colocar delicadeza em meio a toda dor, tanto nas histórias passadas de sua avó, quanto no seu presente, mostrando que mesmo após tantas tragédias, é preciso coragem para não desistir.
Além é claro da parte histórica, que aborda tanto a divisão do Vietnã como o lado dos vietnamitas em uma guerra que durou em torno de vinte anos, tendo oito anos mais violentos. Lembrando-me mais uma vez que nenhuma disputa armada vale o sofrimento de pessoas inocentes.
Esperávamos que a guerra acabasse, mas ela continuou. Se vovó estava triste e com medo, nunca me deixou ver isso de novo.
Ficando a dica para quem gosta de histórias com fatos históricos, narrativas familiares, romances que nos lembram do inesperado, quem busca autores de outros países, e claro, quem gosta de ler.
As montanhas cantam
The mountains sing
Nguyễn Phan QuếMai
Tradução: Felipe Ficher e Petê Rissatti
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335 páginas 2023
Pulicado originalmente em 2020

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