quinta-feira, 30 de abril de 2009

Onde andará Dulce Veiga?

Nesse romance de Caio Fernando Abreu, o narrador é o próprio protagonista que procura por Dulce Veiga, uma cantora da década de sessenta, que desaparecera misteriosamente. O leitor embarca com o narrador nessa busca frenética, vinte anos depois do desaparecimento da cantora, que vira uma fixação para o protagonista, revelando-se uma procura por ele mesmo, mais do que isso, confunde-se com a do próprio autor.
A narrativa começa demonstrando a apatia do personagem principal perante a vida, mesmo tendo conseguido um emprego como jornalista, que poderia tirá-lo do marasmo e da falta de dinheiro. No decorrer da trama, entende-se a razão daquele torpor: uma paixão intensa por outro homem, Pedro, que apareceu e desapareceu de sua vida misteriosamente, deixando-o desnorteado, tira-lhe o prazer e o gosto de viver. O homossexualismo, caracterizado em muitos contos de Caio Fernando Abreu, transpassa toda a obra, bem como o medo da AIDS, que aterroriza o jornalista e a roqueira Márcia, que não têm coragem de procurar um médico quando caroços sintomáticas da doença começam a aparecer no pescoço e outras partes do corpo. A dúvida em saber se seriam ou não soro positivo atormenta os personagens e faz pensar se não seria reflexo do mesmo tormento que assolava o autor e que ele deixa transparecer no romance. Há, ainda, o fantasma de Igor, namorado da roqueira Márcia, que teria morrido de AIDS, retratando a realidade difícil da perda de pessoas, na época, vítimas da enfermidade, quando ainda não se sabia direito o que era essa doença.
O romance foi escrito entre 1985 e 1990. Daí explica-se o tema da ditadura, também recorrente, pois ainda presentes seus efeitos, remetendo os leitores a um período em que as pessoas desapareciam por questões políticas, dando a entender que Dulce Veiga teria sumido por se envolver com pessoas ligadas a assuntos contrários aos interesses de quem estava no poder na época.
Outras questões também são tratadas pelo autor, como a violência urbana, as drogas, o desencanto com o movimento das “diretas já”, que não atingiu seu objetivo.
Embora haja uma seqüência cronológica - cada capítulo tem o nome de um dia da semana –, há vários flashbacks, pois o narrador lembra de vários fatos do passado, dele com Pedro e de quando teria entrevistado Dulce Veiga. Não deixa de ser um tempo psicológico, pois o romance em muitos momentos é intimista, há o pensamento do personagem, e esse não é linear, não corre de acordo com andamento cronológico dos fatos.
O narrador está completamente confuso e perdido na vida, e, por isso deixa transparecer várias ambigüidades: mostra-se inseguro para lidar com seu homossexualismo ou heterossexualismo (não sabe se gosta de homem ou mulher); a busca por Dulce Veiga se confunde com a própria busca por si mesmo. Há uma tentativa do personagem desesperada de se encontrar e por isso ele começa a enxergar Dulce Veiga em vários locais, como uma alucinação, que ele segue como um louco, numa alusão à perseguição da compreensão que ele visa a atingir sobre o seu eu.
Ao final, o encontro com Dulce Veiga revela um eu egoísta, que abandona tudo para buscar a si mesmo. No caso, Dulce Veiga deixou de lado a filha pequena, o marido, os amigos, a própria carreira, como se, para encontrar a si mesma, fosse necessário renunciar a todo o resto. As pessoas sofrem sua ausência - principalmente a filha Márcia, mas também os fãs e o amante Saul, que enlouquece – porém ela parece não se importar, porque ela própria está feliz, em um lugar distante, e isso lhe basta.
As semelhanças com a vida do autor não são por acaso, visto que ele vivia uma situação de conflito, pela descoberta da AIDS e toda a angústia e sofrimento pela incerteza e percepção da efemeridade da vida que isso acarreta. Talvez o desaparecimento de Dulce Veiga significasse o seu próprio desaparecimento precoce em virtude da AIDS, onde deixaria tudo e todos para trás, porém com a recompensa (ou esperança?) de ir para um lugar melhor, onde dor e medo não existiriam, apenas a felicidade alcançada pela compreensão do significado da própria existência.


6 comentários:

Livros de Bia disse...

O livro parece bem interessante, com vários temas polêmicos! Gosto muito de livros assim!

Bjs

Livros de Bia disse...

Olá Angela,
Deixei um selinho para vc no meu blog!

Bjs

Carla Martins disse...

Nossa, esse livro deve ser demais! Fiquei com vontade de ler!

Adorei seu blog. Posso linkar no meu?

Bejos!

Andrea disse...

Li "Morangos Mofados" do Caio, e ele é realmente muito intenso na sua escrita. Talvez por ele escrever sobre os seus próprios conflitos, isso se torne mais simples (mas não menos complexo). Muito legal o seu texto sobre "Onde andará...", deixou um gostinho de quero ler esse livro.

Kelli Pedroso disse...

Gostei da tua resenha. Já da obra...

Angela Dal Pos disse...

Oi Bia, passei pelo teu blog, mas não sei se entendi direito como funciona esse selinho. Pelo que li, tenho que publicar aqui o selo e depois repassar o prêmio para mais 15 blogs é isso? Daí vou pedir a ajuda dos demais integrantes desse blog. Anyway, muito obrigada pelo selo e pelo comentário. Carla, fique a vontade para linkar meu blog, que bom que gostou e apareça sempre. Andrea, Apesar do comentário desanimador da Kelli, quero dizer que gostei muito do livro. Não desistam gurias. Até pq, que eu saiba, a Kelli só viu o filme kkk, não leu o livro (ih, entreguei!) e vcs sabem que há versões e versões. Depois me contem se tenho ou não razão.