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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Moisés Negro

 


Sinopse: Nos anos 1970, o pequeno Moisés desenvolve as artes da sobrevivência num orfanato na República do Congo. Apelidado de Pimentinha, o menino vai amadurecer e flertar com a loucura entre órfãos, ladrões, prostitutas e outros excluídos de um país chacoalhado por uma revolução comunista.

A TAG Curadoria fechou o ano de 2020 tendo uma indicação de um dos meus escritores favoritos: Mia Couto. Em uma edição belíssima, fui apresentada a Alain Mabanckou e seu Moisés Negro, ou Pimentinha no título original. O mimo foi um livro com três contos de F. Scott Fitzgerald.


Papai Moupelo era um personagem à parte, sem dúvida um dos que mais me marcaram durante os anos que passei nesse orfanato.


Moisés passou toda a sua infância no orfanato de Loango, onde recebeu do padre ao qual as crianças chamavam de Papai Moupelo o nome de "Demos graças a Deus, o Moisés negro nasceu na terra dos ancestrais".  Mas um dia o padre não aparece mais, as crianças esperam e esperam, até o diretor anunciar mudanças: agora eles fazem parte dos pioneiros da revolução socialista do Congo.

O menino junto com o seu amigo Bonaventure veem a sua rotina mudar pouco a pouco, até a chegada dos gêmeos, meninos violentos que impõe o medo entre eles. Mas ironicamente um ato de defesa ao amigo faz com que Moisés acabe criando laços com eles, a ponto de abandonar tudo e se atirar no desconhecido ao fugir do orfanato.


Ao despejar pimenta em pó na comida dos gêmeos, eu sabia que isso podia me custar um olho.


E assim vamos junto com ele descobrir Pointe-Noire, os assaltos no Mercadão, a disputa de comando, a hierarquia de poder dentro de um grupo. O sentimento de encontrar um lar ocorre em uma caminhada aleatória, quando o agora jovem Moisés conhece Mamãe Fiat 500, dona de uma casa onde ela e suas meninas atendem diferentes clientes, e é justamente esta relação que irá gerar a segunda mudança de chave na vida deste personagem.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Moisés, a história é dividida em quatro partes, passando da infância até os seus dias atuais, quando ele está com cerca de quarenta anos. Confesso que achei a primeira parte arrastada, as vezes até mesmo chata, embora curiosamente interessante, já que é possível ver o impacto na vida das crianças com a mudança do regime político.


Você quis salvar esse animal, te forçaram a cozinhá-lo, você se acostumou com a cara dele, e isso está te consumindo...


Na segunda parte, quando Moisés me levou junto com ele pelo submundo de Pointe-Noire o ritmo começou a acelerar. A individualidade dos mais fortes, que subjugam o seu grupo, o encontro de uma espécie de lar, até a virada de chave que há na história que me ganhou de vez. 

E isso é muito legal, pois conforme a mente do personagem passa por alterações, o ritmo da narrativa também muda, me convidando a virar uma página a mais, até o desfecho que realmente me surpreendeu.


Como se não bastasse, na época de lua cheia, sobretudo nos anos bissextos, eu queria a todo custo ver o umbigo de uma mulher de policial.


Relacionando com outros livros lidos, ao ler sobre diferentes países da África observa-se toda a riqueza e diferença cultural, no meu caso eu desconhecia a existência de dois países com o nome de Congo. Um é a República Democrática do Congo, ex-Zaire cuja a população é citada no livro, e a ex-colônia francesa República do Congo, onde a história acontece. 

Assim como a juventude do grupo lembra um pouco a narrativa de Jorge Amado no ótimo Capitães de Areia, que também nos conta sobre meninos que sobrevivem pelas ruas cometendo crimes, associação feita por vários leitores além de mim.


Pressenti que ele estava me enganando quando parou de sorrir e começou a me olhar como se eu viesse de outro planeta.


Então sim, gostei da escrita, da história, do que aprendi, e recomendo para quem gosta de viajar para outros lugares através dos livros, de conhecer outros povos ou simplesmente de viver histórias diferentes da sua realidade.


Moisés Negro
Petit Piment
Alain Mabanckou
Tradução: Paula Souza Dias Nogueira
TAG - Malê
2015 - 223

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sexta-feira, 20 de junho de 2025

Farda, fardão, camisola de dormir



Sinopse: Quando o Estado Novo de Getúlio Vargas ainda flerta com o eixo nazifascista, a morte súbita e prematura do poeta Antônio Bruno abre uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Quem prontamente se candidata é o coronel Sampaio Pereira, chefe da repressão política do regime e simpatizante do nazismo. Alarmados com a possibilidade de ver um inimigo da cultura ocupar a cadeira do boêmio, sedutor e gaiato Bruno, alguns veteranos acadêmicos articulam a anticandidatura de outro militar, de oposição, o general reformado Waldomiro Moreira. Segue-se então uma memorável e imprevisível campanha eleitoral na Academia. 



No Rio de Janeiro de 1940 o poeta Antônio Bruno não suporta as aflições que a bela cidade de Paris vem sofrendo devido a segunda guerra mundial e sofre um infarte fulminante.

O boêmio além de deixar várias mulheres as lágrimas, coloca uma batata quente na mão dos integrantes da ABL - Academia Brasileira de Letras: a escolha do sucessor para ocupar a sua cadeira em plena ditadura de Getúlio Vargas.

Esta fábula conta como dois velhos literatos, acadêmicos e liberais, partiram em guerra contra o nazismo, a ditadura e a prepotência.


O complicador parte de outro integrante da ABL, o acadêmico Lisandro Leite, deseja integrar o STF, e para isso vira padrinho do coronel Agnaldo Sampaio Pereira, chefe da repressão política do Estado Novo, sob a justificativa que uma cadeira pertence aos militares e a tradição havia sido quebrada com a escolha do poeta.

Para combater o simpatizante nazifascista, dois outros integrantes, o romancista Afrânio Portela e o ensaísta Evandro Nunes dos Santos, vão atrás de um militar menos perigoso, o general da reserva Waldomiro Moreira, para ser o oponente na eleição, e que já tentava uma vaga na Academia Fluminense de Letras.

Haverá sentimentos mais onipotente, a dominar o coração dos homens, do que a vaidade?


Misturando nesta narrativa bem-humorada com toque de "fábula para acender uma esperança" história do Brasil e bastidores das eleições da ABL, Farda, fardão, camisola de dormir é para relaxar e sorrir com a crítica irônica de Jorge Amado não só ao país, mas também ao ambiente que ele mesmo frequentou.


A escrita de Jorge Amado

Um escritor que dispensa apresentações, acho que isso cabe muito bem a Jorge Amado, o escritor baiano traduzido para diferentes idiomas, cujos livros viraram novelas e filmes.

Em seus livros encontramos personagens cativantes, pitadas de humor, drama e crítica social. E Farda, fardão, camisola de dormir não foge disso.

Tinham de derrotá-lo, fosse como fosse, para provar que ainda existe decência neste país, que a Academia se mantém independente e digna.


A história começa já pelo título, já que a farda representa os militares e a repressão dos anos de 1940, o fardão o traje caro de gala dos imortais da ABL e a camisola de dormir o poema do personagem que morre para dar início a toda essa bagunça.

O ano de lançamento do livro também é simbólica, publicado em 1979 em plena Ditadura militar acaba provocando no leitor de hoje a realizar um paralelo entre duas épocas um tanto sombrias da nossa história.

Todos temos dois lados, um bom, um ruim. Pior do que um robô, o senhor é um homem pela metade, torturador de presos.


Ao mesmo tempo que mexe com uma das áreas do mundo intelectual, ao qual ele mesmo passou a fazer parte em 1961, revelando como ocorre a eleição para imortal na ABL, com suas visitas, etiquetas, presentes e conversas para ganhar a simpatia de quem pertence ao seleto grupo.

Misturando realidade e ficção em uma narrativa em terceira pessoa bastante fluída, com alguns plots que despertam ainda mais a vontade do leitor de descobrir quem será o eleito a ocupar a cadeira do poeta boêmio.


O que eu achei de Farda, fardão, camisola de dormir

Confesso que este é apenas o segundo livro que leio de Jorge Amado. O primeiro foi Capitães de areia, ao qual gostei muito, e por indicação da minha mãe, comprei Farda, Fardão, camisola de dormir.

Achei divertida a mistura de sátira e história encontrada na narrativa, também gostei de ver o funcionamento da ABL na candidatura de seus imortais.

Os livros sobram por toda parte: amontoados no chão, em cima das cadeiras, abertos na pesada mesa de trabalho.


A politicagem de tratamento, visitas, presentes e interesses tanto dos que apoiam como os que não se agradam, me passaram o sentimento de que a obra produzida pelo candidato não se encontra em primeiro plano.

O que fica muito bem disfarçado pelo perfil dos dois candidatos que eles tiveram que aceitar de livre e obrigada vontade. E que dão todo o toque humorístico na narrativa.

Penosa, deprimente, desgastante, a campanha eleitora aproximava-se do fim da primeira etapa: os dois meses durante os quais os candidatos podiam se inscrever.


As mulheres são figuras importantes na história também, utilizando influência e poder de sedução para que a cadeira do seu amado poeta não seja ocupada por alguém que foge completamente do que ele defendia.

E ao falar de liberdade e censura, assuntos que nunca saem de moda, Jorge Amado me levou como leitora a dar uma volta ao passado com reflexões e riso.

Para quem iniciara a campanha sem opositor e com promessa de eleição unânime, o panorama da batalha se revelou flutuante e nebuloso.


No geral achei a escrita bastante fluída, o que faz com que a leitura seja rápida. Confesso que até o final da segunda parte me peguei perguntando se seria só aquela disputada entre os dois candidatos, mas a virada de chave é sensacional, o que me deu mais curiosidade de seguir na segunda parte.

E a curiosidade aqui é que ele se inspirou em uma votação real para criar uma narrativa cheia de intrigas, planos e reviravoltas. Uma homenagem com toque de crítica ao seu próprio meio.

Se não fossem as eleições, quem haveria de ligar para um velho como eu, embaixador aposentado, cobrando do Itamaraty uma miséria por mês, em moeda fraca? Ninguém, meu caro.


Eu já quero ler outros títulos dele, e deixo este como sugestão para quem quer um livro para se divertir, ao mesmo tempo que reflete sobre vários assuntos.


Farda, fardão, camisola de dormir
Jorge Amado
Companhia das Letras
2009 - 259 páginas
Publicado originalmente em 1979


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Capitães da Areia



Os capitães são crianças quando veem um carrossel ou lembram de suas mães ao receberem o carinho de Dora, uma menina-moça cheia de maturidade e coragem, que é levada junto ao bando empurrada pela morte. Sem-perna é criança quando se depara com uma mãe de coração despedaçado, que o abraça, o veste e o ama como o menino que só ela enxerga. Pedro é criança quando escuta as histórias sobre o seu pai e a sua imaginação voa por não saber exatamente pelo que ele lutava.

Os capitães são adultos quando roubam, estupram e trapaceiam. Quando quase todo o grupo ignora as lágrimas de uma menina. Quando se arriscam para salvar uma imagem de um dos seus orixás. Quando atacam outros grupos. Quando listam suas regras e aplicam os seus castigos. João Grande é adulto quando defende Dora, colocando os seus princípios acima do grupo. Professor é adulto quando a dor de um amor morto o faz partir e usufruir o seu maior dom.

Jorge Amado é mestre ao levar o leitor às ruas da Bahia, vivendo junto aos meninos de rua, tornando-os íntimos, mas nem sempre amigos. Os cheiros, as dores, o ódio estão latentes nas páginas, e por isso é difícil muitas vezes lembrar que os Capitães da Areia são meninos e não homens. A reação de quem ler vai depender da própria experiência de vida. É possível sentir pena, é possível se sentir indiferente, é possível se aborrecer e pensar no por que a polícia não prende (nem na literatura) esses delinquentes.

É possível chorar. Imaginar o medo de quem os vê. Também é possível analisar como uma história de 1937 pode ser tão atual.

Este foi o primeiro livro que li de Jorge Amado, e fiquei positivamente impressionada com a sua escrita, pelo menos com essa história, que é apaixonante e real. Agora entendo a razão de sua fama e por que tantas de suas obras se tornam novelas, séries e filmes, pois ele é rico em detalhes e enlaces. Um autor que nenhum brasileiro pode deixar de ler, mesmo que seja apenas um livro.


*Capitães da Areia - Jorge Amado - Editora Record - 1937 - 231 páginas

** Versões atuais sairam pela Companhia das Letras