domingo, 17 de janeiro de 2010

A Hora da Estrela



Sinopse: Pouco antes de morrer, em 1977,  Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é A hora da estrela, o livro mais surpreendente que escreveu. Se desde Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, Clarice estava de corpo inteiro, todo o tempo, no centro de seus relatos, agora a cena é ocupada por personagens que em nada se parece com ela.


Logo de início o leitor é recebido por uma reflexão sobre escrever, pensar e existir do escritor Rodrigo S.M., que logo passa a compartilhar a história que lhe persegue, e tem como personagem principal a nordestina Macabéa

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

Uma mulher que o acusa e o sufoca, ao qual sua única chance de defesa é escrever a sua história, e para isso ele precisa se entregar de forma total, sendo desleixado com roupas e higiene, substituindo o sono profundo por rápidos cochilos.

Macabéa vive na pobreza, tanto de espírito quanto de amor. Quando a tia que lhe cria morre, por motivo desconhecido, a moça resolve se mudar para o Rio de Janeiro. 

Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.

No pequeno quarto alugado ela cria a sua própria rotina, seja trabalhando como datilógrafa, ouvindo a Rádio Relógio ou namorando um metalúrgico também nordestino. Até sentir a dor da traição.

Até uma cartomante, após listar as novas desgraças que irão lhe abater, lhe dá uma boa nova: que a partir do momento que ela colocar os pés para fora da casa da adivinha, tudo em sua vida irá mudar, permitindo que ela finalmente se sinta outra pessoa, o que faz nascer uma esperança até então adormecida.

Macabéa fingia enorme curiosidade escondendo dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso era assim mesmo.

Essa mistura de eventos que o narrador imagina para essa mulher sem atrativo nenhum, ao qual complementa com suas opiniões e próprias experiências, que compõe o livro “A hora da estrela”. 

O impacto da narrativa de Clarice Lispector irá depender (e muito) do grau de envolvimento do leitor. Pois a sua simplicidade não trás nenhuma surpresa. Ou o leitor se envolve com a personagem que muitas vezes domina o autor, ou a deixará em branco. 

Pensar era tão difícil, ela não sabia de que jeito se pensava.

Um livro curto e de leitura rápida, “A hora da estrela” reflete o nosso cotidiano de dúvidas e escolhas, além da mesma busca por um final, que não se sabe se feliz ou não.

Para os fãs de Caio Fernando Abreu fica a penúltima frase “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”.

A Hora da Estrela
Clarice Lispector
Editora Rocco
1977 - 87 páginas

domingo, 27 de dezembro de 2009

Nosso homem em Havana


Sinopse: Certamente o mais bem-sucedido "passatempo" ou "diversão" de Graham Greene, este cômico jogo de espionagem na Cuba pré-Fidel Castro apresenta um insignificante vendedor de aspiradores que se transforma num agente do M16 - ou "nosso homem em Havana. Contudo, as mentiras que Greene forja nos relatos do seu personagem começam a se tornar reais nesta sátira publicada em 1958. Embora tenha uma profunda e melancólica tragédia oculta no seu passado, a história permanece deliciosamente absurda, fruto dos melhores esforços do escritor. E é em parte uma reminiscência do clássico O Agente Secreto, de Joseph Conrad, no qual um anarquista travestido de comerciante recebe pagamento como espião por nada fazer (dinheiro que lhe permite manter a companhia de uma bela mulher).

Jim Wormold é um inglês que mora a muitos anos na capital cubana, da relação ficou a guarda da sua filha Millie, uma adolescente que estuda em uma escola no convento americano, possui gostos caros e é o que preenche o vazio dos seus pais.

Não obstante, um estranho poderia ter a impressão de que se extinguiria primeiro, pois as sombras lá estavam - sombras de angústia que estão além do alcance de um tranquilizante.

Um dia, em sua vazia loja de aspiradores, recebe a visita do engraçado agente do M16 Hawthorne, que vê nele características para se tornar o espião que eles precisam. Em um primeiro momento Wormold não quer considerar a proposta, mas seu amigo alemão de mais de 15 anos, Hasselbacher, lhe dá a ideia de forjar relatórios e assim ficar com o dinheiro.

Pensando em resolver os seus problemas financeiros e atender aos desejos da adorada filha, ele resolve adotar a ideia e assim entra em um universo paralelo, inventando diversos agentes, utilizando-se de nomes de pessoas reais aos quais não mantém nenhum contato, e utiliza os desenhos das peças dos aspiradores que vende para criar plantas de fábrica.

Se ao menos tivéssemos nascido palhaços, nada de mau poderia acontecer-nos, salvo algumas contusões e manchas de alvaiade.

Nas primeiras semanas Wormold se sente feliz em sua aventura, pois tem o sentimento de estar fazendo algo interessante sem se preocupar com dinheiro. Tudo muda quando um de seus falsos agentes é assassinado e sua própria vida passa a correr risco. 

Mas ao mesmo tempo que corre contra o tempo para que não tenha mais nenhuma vítima, Wormold experimenta após muitos anos a paixão por uma mulher. Mudando de vez a sua pacata vida de vendedor de aspiradores.

Pela primeira vez, ocorreu-lhe que aos olhos deles - fossem eles lá quem fossem - ele havia recebido dinheiro sem que houvesse dado nada em troca.

Misturando comédia, espionagem, conflitos políticos e análise psicológica, Graham Greene consegue em Nosso homem em Havana divertir e interessar o leitor da primeira a última página. Narrado em terceira pessoa e dividido em cinco partes, a escrita do autor é muito fluída, instigando o leitor a virar mais uma página para descobrir como o personagem irá se desenrolar de toda essa confusão.

Nosso Homem em Havana
Our man in Havana
Graham Greene
Tradução: Brenno Silveira
RBS Publicações
1958 - 286 páginas

domingo, 20 de dezembro de 2009

Manhattan – Louca e Desvairada


Sinopse Jogos de Espelhos: A grande chance na carreira de Ariel Kirkwood aparece quando o escritor Booth DeWitt a escolhe para interpretar o papel de Elizabeth Hunter, a cruel ex-esposa dele. E Ariel queria mais do que ser atriz principal de um filme autobiográfico de Booth. Mas será que conseguiria convencê-lo de que ela era uma mulher real?

Ariel é uma atriz em ascensão, há cinco anos ela interpreta a mesma personagem de uma popular novela diurna. Aos 25 anos de idade, é uma jovem mulher otimista e de bem com a vida, que acredita no melhor das pessoas.

Mas isso não quer dizer que ela não tenha problemas, afinal, estamos falando de um romance de Nora Roberts. 

Alguma atriz algum dia é ela mesma?

De início Ariel nunca foi apaixonada por ninguém, ela ainda espera encontrar alguém que lhe faça os joelhos tremerem. o que ela encontra no diretor Booth De Witt, um diretor de cinema que busca a atriz perfeita para fazer o papel de sua ex-esposa. 

A escolha do tema foi a terapia de Booth, ao transferir toda a sua raiva para as palavras, ele desiste de jogar tudo na gaveta e se expor em nome do que considera a sua melhor obra. E ao ver Ariel representar tão perfeitamente a causadora de toda a dor, será atingindo por sentimentos conflitantes.

Bastava-lhe ver seu sorriso, ouvir sua risada, ouvi-la falar sobre algo que não necessariamente fizesse sentido.

Em paralelo ao novo relacionamento ela tem o desafio de enfrentar os avós maternos de seu sobrinho, ao qual deseja adotar por acreditar que ele não é feliz. 

Sinopse Um Herói em Nova York: A especialidade de Mitch Dempsey era criar super-heróis, não exatamente ser um deles. Mas havia algo na tímida Hester Wallace e em Radley, seu filho de nove anos, que despertava em Mitch o desejo de protegê-los, honrá-los e amá-los para sempre.

Hester e Radley acabaram de se mudar, o garoto, fã de quadrinhos, se prepara para ser a novidade no bairro e na escola entre os mais jovens. O menino não gosta que a mãe se sinta infeliz pelo seu pai ter ido embora.

Hester vive as aflições de uma mãe em criar um filho, com o adicional de não ter com quem dividir as suas preocupações e decisões.

Ele não precisava mesmo de um pai, porque tinha ela.

Enquanto isso o seu vizinho Mitch Dempsey precisa de ideias para suas novas histórias, é quanto o erro do entregador de pizza lhe dá a oportunidade de conhecer de perto a sua vizinha. Se Hester é toda fechada neste primeiro encontro, enquanto Radley vai a felicidade pura ao conhecer o criador de seu personagem em quadrinhos favorito.

O encanto do menino Radley pelo homem bonito e criativo, somado ao fato do garoto sonhar em ter um pai de verdade - pois pais de verdade não vão embora como o seu pai biológico -, tornam a segunda história particularmente interessante, pois o que poderia ser um dramalhão mexicano é apenas um reflexo do comportamento de homens que abandonam suas famílias na vida real. 

Às vezes é melhor não cavar fundo demais quando na verdade não se quer saber.

Não há lágrimas nos olhos do menino, apenas uma saudade que faz o leitor sentir vontade de abraça-lo, enquanto relaxa e se emociona com as histórias de Nora Roberts.

As duas histórias se utilizam da narrativa em terceira pessoa e exploram o romântico, ficando centralizada no casal principal e poucos secundários. Não é um livro para filosofar, pensar ou debater, mas para relaxar e se deixar levar pelos personagens.

Afinal, uma leitura leve também é sempre bom para nos tirar do stress do dia-a-dia.

Manhattan - Louca e Desvairada
Truly, Madly, Manhattan
Nora Roberts
Tradução: Alda Porto
Harlequin Books
1985 - 444 páginas
Onde comprar: Amazon

domingo, 13 de dezembro de 2009

Uma Vida Inventada


Sinopse: É inútil tentar separar realidade e fantasia em Uma vida inventada. Em seu segundo livro, Maitê Proença mistura literatura e vida, verdade e imaginação, brincando com o leitor de esconder e revelar. Mais importante do que a realidade é o jogo narrativo em que ela nos envolve. "Eu mesma, no íntimo, sou bastante comum", revela a autora para, logo em seguida, nos arrebatar com histórias incríveis, valendo-se de uma linguagem extremamente pessoal, às vezes lírica, às vezes dramática. Com muito sendo de humor e ironia, ela desfia casos surpreendentes, entremeados com a história de uma menina que quis desbravar o mundo e, descobrindo-o, descobriu a si mesma. 


Com duas histórias ocorrendo em paralelo, confirmamos o que é descrito na orelha inicial do livro, é difícil saber o que é ficção e o que é autobiográfico no livro escrito por Maitê Proença. 

Uma menina vive entre um pai em fúria que lhe conta sobre uma separação e uma mãe tranquila e alegre que afirma a filha que só havia concordando em considerar tal possibilidade para acalmar o marido.

E assim procurava encontrar o caminho para os porões ocultos onde agora vivia seu pai, e, quem sabe, trazê-lo de volta para um momento já transcorrido, em que tudo seria possível... se aquilo fosse possível.

Mas a própria mãe acaba buscando abraços mais gentis, o que gera revolta em seu irmão e deixa a mente da menina confusa, que vive envergonhada de si e da figura materna que a guiava.

Quando entramos nas memórias da autora, ela inicia nos contando sobre o seu tumulto interno, suas primeiras vezes, suas relações afetivas. Do temperamento da família que não consegue medir consequências, até a sorte que tem de não ter sido consumida pelas drogas que usou.

Esta noite num perrengue de casal fiz o de sempre, o de ontem, de há dez anos, vinte: comparei um amor com outro para desmerecer esse que amo agora.

E o que se segue não tem pudores, e a forma como ela conecta os seus próprios traumas, como de uma gravidez ao dezesseis anos que foi seguida de um aborto, assim como o fato da mãe ter sido vítima de feminicídio, fez com que me sentisse em uma sala ouvindo suas histórias mais íntimas, como um encontro entre amigas, onde dividimos o que está na nossa alma e assim aliviamos nossas mágoas, para em seguida relembrar nossas alegrias.

Se em um momento o narrador em terceira pessoa irá contar a história de uma menina que tem a vida totalmente alterada pelo fato do pai ter assassinado sua mãe, do outro, em primeira pessoa, a autora conta sobre diversas passagens de sua vida sem meias palavras, citando a filha, familiares, amigos, amantes e aventuras. 

Minha mãe foi uma mulher extraordinária. Era alegre, vibrante, gostava de brincar, dançar, falar, e era muitíssimo inteligente.

Em comum temos a figura de mulheres, reais e imaginárias, seus dilemas, problemas, personalidades, características e saudades. Maitê, como a menina, perdeu a sua, e a descreve a com um misto de carinho e saudade.


Se o início é traumático, onde amor e ódio, vida e morte são separados por uma linha tênue, no decorrer das páginas será possível identificar também alegria, ironia, maturidade e loucura, nos lembrando que nos dois mundos, o real e o da imaginação, há equilíbrio. 

Não existe sentimento mais forte que uma imensa paixão. A gente sofre, cega, emburrece, se adoenta e sara. E depois, como se nada houvera, se apaixona de novo.

O que nos leva a crer que se entregar a tudo o que a vida oferece não significa acabar com as dúvidas, afinal, os questionamentos são combustíveis para seguirmos os dias. Nem que a beleza e a fama são garantias de um felizes para sempre. 

Nesse momento, percebe-se que verdades e mentiras se misturam, podendo-se acreditar que tudo o que está descrito em ambas as narrativas aconteceu, como imaginar que tudo não passa de um “Se” com “S” em maiúsculo mesmo.

A mãe observou a filha minuciosamente, como jamais havia feito, e comoveu-se ao perceber que havia muito dela mesma naquela criança. 

Ao mesmo tempo é possível perceber que entramos em um universo totalmente feminino, onde é impossível não se identificar com uma ou mais situações, assim como os sentimentos ali descrito, tornando essa conversa ainda mais íntima, compartilhando risadas e apoio. 

Uma única coisa é certa, Maitê, nós leitores e suas personagens parecem estar sempre na mesma busca diária: o dia em que nos encontraremos. 

Uma vida inventada - Memórias trocadas e outras histórias
Maitê Proença
Editora Agir
2008 - 214

domingo, 29 de novembro de 2009

Dublinenses


Sinopse: Em Dublinenses, James Joyce nos permite observar por um tempo determinado, sem que sejamos vistos, diferentes pessoas em situações da vida cotidiana. A única coisa que todas elas têm em comum é o fato de viverem em Dublin. Quanto ao restante, cada caso é diferente dos demais, embora não possamos deixar de reconhecer traços de caráter comuns a muito dos personagens, como, por exemplo, a inclinação para a bebida.

Transformando os leitores em voyers, o escritor James Joyce nos leva para a sua terra natal, onde em quinze contos nos dá um gostinho de uma típica rotina na vida dos irlandeses.

Religião, sexo, inveja e nostalgia se misturam, assim como as idades diversas. Tudo isso sem surpresas e muito menos lições de moral, apenas circunstâncias normais, onde os valores e costumes da região irão encaminhar os personagens em histórias que não possuem realmente um final, já que fica claro que muita coisa ainda deve vir. 

Se estivesse morto, pensava, eu veria o reflexo das velas nas cortinas escuras, pois sabia que duas velas devem ser deslocadas à cabeceira de um defunto.

O conto que abre a história é As irmãs começa com um diálogo, onde o narrador é informado que o padre Flynn, está morto e em sequencia descobrimos um pouco mais sobre o falecido. 

Em Um encontro, meninos descobrem em uma pequena biblioteca o Oeste Selvagem e isso serve de combustível para as suas aventuras até o encontro com um velho senhor.

Afirmou que meu amigo era um menino muito rude e perguntou-me se ele era açoitado na escola muitas vezes.

Uma rua tranquila dá as boas-vindas em Arábia, onde um menino tem a curiosidade despertada entre os os pertences de um inquilino falecido e o encontro com o seu primeiro amor.

O quarto conto tem nome de mulher e uma personagem principal: Eveline. Nas memórias de infância os que já se foram e os que haviam crescido, e uma decisão, é hora de ir embora.

Falavam alto e alegremente e suas capas flutuavam sobre os ombros. O povo abria-lhes caminho.

São os carros que recebem o leitor em Após a corrida, onde muitos se aglomeram para vê-los passar no topo de uma colina. Em cada um, pilotos de diferentes nacionalidades e características, assim como o grupo que acompanhava tudo de uma carroceria.

É o crepúsculo de um domingo de verão que nos trás Dois galantes, dois jovens que descem uma ladeira lado a lado em uma conversa sobre relacionamento com o sexo oposto, em comentários machistas que podem ferir os mais sensíveis.

Sentia agudamente o contraste entre suas vidas, que lhe parecia injusto.

Uma mulher forte, que conseguiu dispensar o marido bêbado e inútil em um país extremamente católico, nos é apresentada em A pensão, junto com os seus hóspedes e seus filhos.

O reencontro de dois amigos após oito anos de separação é a base para Uma pequena nuvem, onde mais do que o tempo, mas as escolhas de cada um os tornaram muito diferentes, causando sentimentos conflituosos no que permaneceu na cidade de origem.

As frases surradas, as falsas demonstrações de pesar, as palavras do repórter subornado para ocultar os detalhes de uma morte vulgar, revolviam-lhe o estômago.

Um homem cuja atenção é chamada com frequência no trabalho é o fio condutor de Contrapartida, um personagem que me deixou particularmente muito incomodada.

A expectativa de Maria por uma noite de folga é o início de Argila, uma mulher calma e trabalhadeira que ainda tem muito carinho por uma família que a empregou.

Estava silencioso por dois motivos. Primeiro, razão já suficiente, por não ter nada a dizer. Segundo, por considerar inferiores os seus companheiros.

Já em Um caso doloroso temos um senhor que quer distância da sua cidade de origem e sozinho mora em uma casa velha, mobiliada por ele, e mantida sempre organizada, até que um dia é surpreendido por uma mulher.

O nome do conto Dia de hera na lapela já possui por si só uma história, já que é relacionado ao aniversário de morte do líder do partido irlandês Charles Steward Parnell.  Na história de James Joyce os personagens estão envolvidos com as eleições municipais.

O chapéu rolara alguns metros e suas roupas estavam sujas da imundície que escoava no lugar em que havia caído de rosto no chão.

Organizar uma série de concertos, esta é a tarefa de Holohan em Mãe, mas quem realmente toma as rédeas é a senhora Kearney, uma mulher que por praticidade casou com um homem mais velho, mas que nunca abandonou os sonhos antigos.

Em Graça temos um homem caído no chã de um lavatório, que reconhecido por um jovem da Polícia Real é levado para casa, onde a esposa lamenta o seu estado.

Será que apesar de todo seu proselitismo ela teria uma verdadeira vida interior?

O livro é encerrado com o conto mais longo entre os 15. Os mortos tem como personagem de ligação Gabriel Conroy cuja chegada em um baile anual nos apresenta diferentes personagens, enquanto segredos acabam sendo revelados.

Mesmo sendo histórias comuns, a forma da narrativa envolve o leitor, podendo fazer com que este recorde de fatos lidos ou até vividos. Pois, independente da época ou lugar, todos vivem momentos em que precisam tomar uma decisão ou são simplesmente levados por aquilo que chamamos de destino.

Quando alcançou a idade de casar, foi enviada a muitas casas, onde seu talento e suas brilhantes maneiras eram muito admiradas.

E embora tenha um toque de fatalidade, onde a tensão e a reflexão sobre o que é lido estão interligados, a escrita de James Joyce me capturou, me transportando para as ruas de uma Dublin mais antiga, ao mesmo tempo que despertou o desejo de conhecer a sua versão atual com os meus próprios olhos.

Um livro para quem gosta de contos, para quem gosta de ler sobre o cotidiano ou simplesmente para quem gosta de boas histórias.

Dublinenses
Dubliners
James Joyce
Tradução: Hamilton Trevisan
RBS Publicações
1913 - 222 páginas

domingo, 22 de novembro de 2009

As Cidades Invisíveis


Sinopse: Neste fabuloso trabalho, a narração fica por conta do famoso viajante veneziano Marco Polo, e o ouvinte é Kublai Khan, o velho e imperador dos tártaros. À medida que Marco Polo começa a descrever as cidades que supostamente visitou - com nomes de mulheres sedutoras, Diomira, Isidora, Dorotéia, Zaíra e tantas outras -, elas parecem joias, tais como manuscritos medievais. Gradativamente, as histórias circundam elementos do mundo moderno, e suas imagens começam a ganhar cor, conforme os olhos do viajante se movem no tempo e no espaço. No fim, o imperador é levado a acreditar em cidades que ainda não existem, mas que existirão no futuro.

Passado, presente (e talvez futuro) se misturam nas descrições de diversas cidades que o viajante veneziano , Marco Polo, faz em detalhes para o imperador dos tártaros Kublai Khan. ele os descobre, invade e investiga através de um homem, que passa um longo tempo fora e depois retorna, cheio de histórias. 

O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade.

Cada cidade encontra-se em uma categoria, pode ser memória, desejo, símbolo, delgada, troca, olhos, nome, mortos, céu, oculta ou contínua. E desta forma, o livro é dividido, mostrando em cada parte suas semelhanças e diferenças. 

Aquela manhã em Dorotéia senti que não havia bem que não pudesse esperar da vida.

Embora a sensação de dejavu venha entre cidades de categorias diferentes. O que parece descrições de ruas, acaba virando as diversas facetas do ser humano, deixando o leitor sem saber se as cidades são os espelhos de sua população ou se a população é um reflexo dos caminhos, muros e divisas de onde moram. Levando a crer que, no final das contas, as cidades nada mais são do que críticas as pessoas que estão por perto ou a própria humanidade.

Retornou de países igualmente distantes e tudo o que tem a dizer são os pensamentos que ocorrem a quem toma a brisa noturna na porta de casa.

Utilizando-se de pessoas reais para escrever a sua ficção, em capítulos curtos, quando utiliza a narrativa em primeira pessoa, é como se estivéssemos junto com o imperador tártaro escutando as histórias e viajando junto com Marco Polo em suas descrições.

Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio.

Quando muda para terceira pessoa, acompanhamos os diálogos entre os dois, onde em um primeiro momento Kublai Khan questiona a falta de dados de valor, como minas e preços vantajosos, enquanto Marco Polo segue firme em sua argumentação movida a sentimentos.

Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em que direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?

O grande feito do escritor Ítalo Calvino nesse livro é permitir que o leitor tire a sua própria conclusão. É possível criar teorias, ou apenas relacionar as cidades descritas com aquelas que vemos no cotidiano. Sendo-se livre para ver, refletir ou desacreditar nesta mistura de fantástico e indefinível.

As Cidades Invisíveis
Le città invisibili
Italo Calvino
Tradução: Diogo Mainardi
RBS Publicações
1972 - 158 páginas

sábado, 14 de novembro de 2009

A Linha de Sombra


Sinopse: Última obra-prima escrita por Joseph Conrad, A Linha de Sombra marca o limite - tão indefinível e incompreensível, quanto inquietante e doloroso - que num determinado momento da vida configura, de modo irrevogável, o fim da juventude. Para o protagonista deste romance intenso, a ultrapassagem dessa fronteira coincide com uma experiência excepcional e dramática: oficial da marinha mercante, em seu primeiro comando se defronta com uma interminável calmaria no clima insalubre dos mares do Sudoeste Asiático, enquanto vê sua tripulação ser dizimada por uma violenta epidemia de febre.

Narrado em primeira pessoa por um protagonista sem nome, acompanhamos um episódio de sua juventude, quando ele descarta subitamente o seu posto em um navio a vapor em um porto oriental, mesmo se considerando feliz na embarcação e com os companheiros de bordo, para retornar para casa.

É um privilégio do começo da juventude viver adiante de seus dias, em toda a bela continuidade de esperança que não conhece pausas ou interrupções.

Sem passagem de retorno comprada ou algo lhe esperando, surge uma oferta inesperada de comandar o navio Melita, em direção a Bancoc. Encargo que ele aceita e se prepara para partir no mesmo dia, enquanto se acostuma a ser chamado de capitão.

Dos primeiros sentimentos de conhecer a sua tripulação e sentar em uma cadeira já habitada por muitos outros homens, começam as novidades em relação ao navio, como uma certa tensão, ou o fato da embarcação nunca ter tido a sua capacidade aproveitada ao máximo, e claro, os seus mistérios.

Eu não conseguia ver nem ouvir mais ninguém, mas quando falei abertamente, murmúrios tristes de resposta encheram o tombadilho, e sias sombras pareciam se mover aqui e ali.

Logo ele se vê cheio de complicações a serem resolvidas, sendo a maior delas o tempo ao ter vários homens doentes, não era mais questão de dinheiro, mas também de vidas, enquanto tenta levar o navio para o mar e assim retornar para o porto de origem.

Mas o navio avança lentamente, consumindo recursos físicos e psicológicos de seus tripulantes, onde as teorias para um tempo parado que faz a embarcação se arrastar, pareça muito mais do que o acaso.

A barreira de pavorosa imobilidade que nos encerrara por tantos dias, como se estivéssemos sob uma maldição, estava rompida.

Em A Linha de Sombra o escritor Joseph Conrad utiliza-se da lentidão da embarcação para narrar as etapas e dificuldades do amadurecimento pessoal e profissional do rapaz. Ao fazer o protagonista lidar com uma soma de dificuldades para quem lidera uma equipe pela primeira vez, com o agravamento de não ter nenhum preparo para a função. 

Qualidades naturais, dor, culpa, se misturam, fazendo surgir cicatrizes invisíveis. Um livro curto, mas bastante envolvente, indicado principalmente para os que possuem ambição em serem líderes, pois a tripulação adoecida é muito parecida com algumas das equipes de trabalhos da atualidade.

A Linha de Sombra
The Shadow-line
Joseph Conrad
Tradução: maria Antonia Van Acker
RBS Publicações
1916 - 159 páginas