segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu Guri - David Coimbra




Li “Meu Guri” do David Coimbra. Me rendi, o livro é ótimo. Digamos que eu gostaria de tê-lo escrito, mas com a visão materna. Quem sabe? 

Quando uma amiga me recomendou, fiz bico e disse que não gostava do que o autor escrevia. Mas tem razão quem redigiu as orelhas do livro ao dizer que o filho transformou-o e que o assunto “paternidade” passou a ser o melhor assunto do David. 

Eu mesma já tinha constatado isso nas crônicas “pós-parto” do autor, antes mesmo de ter minha percepção confirmada por mais alguém nas orelhas do livro. Dá para ver que o livro foi escrito com amor de pai, recém descoberto. 

É cheio de pequenas histórias que vão desde o espermograma, passam pela gravidez da mulher, o nascimento e a sequência de meses de vida do gurizinho. Têm algumas narrativas de chorar de tanto rir, como aquela em que a mulher inventa de fazer um book fotográfico nua e a que ele narra sua primeira troca de fraldas. 

Em compensação, também dá para se emocionar com o autor descobrindo o amor pelo filho quando de seu nascimento e ao falar da avó em seus últimos dias, comparando o amor da senhora pelo autor com aquele que ele sente pelo filho: é incondicional. 

Ainda assim, basta um sorriso daquele pequeno ser para tudo ser recompensado. A conclusão a que se chega é que qualquer ser humano, por mais insensível, não resiste a um bebê, não tem como não se apaixonar por um filho.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cordilheira




Anita é uma jovem e talentosa escritora. Ela acaba de levar um fora de seu namorado. Para piorar seu momento, uma de suas melhores amigas resolve se suicidar. 

E é neste espaço de tempo, que a escritora decide ir à Buenos Aires para o lançamento da tradução argentina de seu romance. Ainda sob o impacto do fim do relacionamento e da perda da amiga, Anita conhece José Holden - também escritor e seu fã. 

A partir do momento que os protagonistas vão se conhecendo, eles vão se envolvendo - apesar de ambos relutarem. Anita quer realizar seu sonho: engravidar e regressar para o Brasil (já que não pôde ter um filho com Danilo, decide engravidar de José). E José é daqueles escritores que encarna o personagem - essa é a sua prioridade. Aliás, seus amigos- também escritores, fazem o mesmo.

Cordilheira é o terceiro romance de Daniel Galera. A obra faz parte da coleção Amores Expressos - projeto no qual autores brasileiros escrevem romances ambientados nas mais diversas cidades do mundo.

domingo, 13 de setembro de 2009

Marley & Eu


Sinopse: John e Jenny haviam acabado de se casar. Eles eram jovens e apaixonados, vivendo em uma pequena e perfeita casa e nenhuma preocupação. Jenny queria testar seu talento materno antes de enveredar pelo caminho da gravidez. Ela temia não ter vindo com esse "dom" no DNA, justamente porque matara uma planta por excesso de cuidado: afogando-a. Então, eles decidiram ter um mascote. Vão a uma fazenda, escolhem Marley, ao tomar contato com uma ninhada, porque também ficaram encantados com a doçura da mãe, Lily; só depois têm uma rápida visão do pau, Sammy Boy, um cão rabugento, mal-encarado e bagunceiro. Rezam para que Marley tenha puxado à mãe, porém suas "preces" não são atendidas. A vida daquela família nunca mais seria a mesma.

Utilizando-se de leveza e emoção, o jornalista John Grogan escreveu a biografia do seu casamento, tendo como base um simpático e trapalhão labrador, que muda toda a rotina calma do jovem casal com suas travessuras. 

Quem você decidir levar hoje vai viver com você por muitos e muitos anos.

Comportamento comum nos casais atuais, Grogan e sua esposa compram um filhote para se prepararem antes de terem filhos, o que eles não contavam é que o lindo filhote iria crescer muito, esconder objetos e coloca-los em algumas situações constrangedoras. 

Utilizando a sua própria voz, John Grogan convida o leitor para acompanhar, como num big brother escrito, treze anos na vida da família do autor. E isso vai além do Marley, já que temos a chegada dos filhos, a vida profissionais, os altos e baixos de uma convivência a dois.

 
Ele espanava mesinhas de centro, espalhava revistas, derrubava as molduras de fotografias das prateleiras, fazia zunir garrafas de cerveja e copos de vinho.

Incertezas, decisões e experiências de um jovem casal dividem espaço com destruições caninas em seu novo lar. Engraçado e relaxante, Marley & Eu utiliza-se da simplicidade para emocionar os leitores mais sensíveis. 

Aos insensíveis, fica a dúvida se Marley não é apenas uma forma de Grogan conquistar os seus quinze minutos de fama, já que em um dos capítulos é relatado o convite ao cão para participar de um filme, e seu dono fica sonhando em ser chamado para atuar e assim, se tornar uma celebridade - fato que se tornou concreto com o sucesso do livro, que entrou rapidamente para a lista dos mais vendidos.

Mesmo sendo marinheiros de primeira viagem como futuros pais, sabíamos que não poderíamos prender nossos filhos na garagem com uma vasilha de água ao sair para trabalhar.

E isso é facilmente entendível, pois a escrita de Grogan permite facilmente o leitor se sentir parte de sua família e compartilhar os sentimentos ali descritos. 

Para os que se aventurarem na leitura, preparem-se para algumas risadas e lágrimas. Para os amantes do mundo animal, existe uma grande chance de relembrar velhos amigos. 

Nem todo mundo aprovava a confiança que depositávamos em nosso cão.

Aos que possuem medo - usando um termo mais aceito: fobia canina - ou receio que divide entre a responsabilidade de cuidar de um animal e a curiosidade em descobrir o tão falado amor canino, fica o conselho: observe o pai e a mãe do filhote, pesquise a raça, para não ganhar de companheiro alguém ao qual não tem pique para acompanhar.

E um pedido, caso queira comprar um labrador, tenha um pátio para que ele consiga gastar toda a energia característica da raça, tenho um vizinho que mantém um cão desta raça em um apartamento pequeno, e o olhar triste do bicho é de cortar o coração.

Para quem curte o leia o livro, veja o filme, há uma versão cinematográfica com Owen Wilson e Jennifer Aniston no papel do casal principal.

Marley & Eu - A vida e o amor ao lado do pior cão do mundo
Marley & Me
John Grogan
Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta e Elvira Serapicos
Ediouro
2005 - 302 páginas

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Por que sou gorda, mamãe? - Cíntia Moscovich




Neste livro, a escritora gaúcha, misturando drama e humor, conta sua trajetória para perder peso depois de ter acumulado vinte e dois quilos extras, ou cento e dez tabletes de manteiga, como ela mesma refere. 

Procurando as causas de seu tamanho, faz um reencontro com seu passado, vivido no seio de uma família judaica de pai e mãe, onde comida não podia faltar jamais, era acompanhamento para alegria ou tristeza. 

As lembranças da infância da autora-personagem e de seus parentes desfilam divertidas pelos capítulos, alternados com a narrativa do sacrifício para emagrecer, considerando o histórico de comilança de uma vida inteira e a predisposição genética às formas arredondadas. 

O truncado relacionamento com a mãe é abordado com humor um pouco ressentido: nenhum filho sai imune às marcas do convívio materno – seja para o bem ou para o mal. Ainda mais quando o amor de um filho nunca é suficiente para uma mãe judia, a menos que ele, dentre muitas outras exigências, telefone e a visite, no mínimo, todos os dias da semana, bem como dê mais atenção à vida da mãe judia que à sua própria. 

A autora brinca com seu passado e seu presente, de forma irônica e engraçada, mas não deixa de emocionar quando fala da perda do pai e das dificuldades de lidar com a mãe. A leitura é agradável e fluente de capa a capa, permitindo que o todo responda à pergunta que intitula o livro.

domingo, 9 de agosto de 2009

O Mundo de Sofia


Sinopse: Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo em que vivemos. Os postais foram mandados do Líbano, por um major desconhecido, para uma tal de HildeKnag, jovem que Sofia igualmente desconhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste fascinante romance, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países em que foi lançado. De capítulo em capítulo, de "lição" em "lição", o leitor é convidado a trilhar toda a história da filosofia ocidental - dos pré-socráticos aos pós-modernos -, ao mesmo tempo em que se vê envolvido por um intrigante thriller que toma um rumo surpreendente. 


Ao retornar da escola, Sofia abre a caixa de correspondência e se depara com envelopes,folhetos de propaganda e uma pequena carta endereçada a ela. Entrando em casa, ela abre o envelope curiosa, mas ali só consta uma pergunta: Quem é você?

A questão fica ecoando em sua cabeça, trazendo fatos familiares, descontentamento com o aspecto físico... até ela encontrar um segundo envelope que lhe pergunta: De onde vem o mundo?

Depois de pensar um pouco sobre o fato de existir, Sofia não pôde deixar de pensar também que um dia desapareceria.

E o terceiro bilhete, dirigida a alguém chamada Hilde com a assinatura carinhosa de quem se identifica como Papai indicava que aquelas perguntas eram um presente para ajuda-la a crescer como gente, e que ele encaminhava a Sofia por ser a forma mais fácil encontrada por ele. Embora Sofia não conheça a menina em questão.

Dizem que para tudo tem a sua hora, no meu caso, isso incluí alguns livros. Quando li os primeiros capítulos do chamado Romance da história da filosofia, achei a história de Jostein Gaarder um pé no saco, fechando-a e devolvendo a biblioteca, tentando não pensar naquela leitura inacabada. 

Pela primeira vez em sua vida ela pensava que era praticamente impossível viver num mundo sem ao menos perguntar de onde ele vinha.

Passado alguns anos, resolvi enfrenta-lo. Mas desta vez O mundo de Sofia tinha novas cores e foi com curiosidade e alegria que folheei cada página e me aproximei de Sócrates, Aristóteles, Kant, Marx, entre outros. 

De forma simples, mas nem por isso fácil, Sofia e os leitores são defrontados com as perguntas mais antigas das humanidades, e o que os grandes filósofos acharam disso. Como a menina adolescente, muitas vezes é necessário reler os textos ou olhar pela janela para pensar e ouvir a resposta que vem da própria alma (mesmo que ela seja um "não sei”). 

Um mito é a história de deuses e tem por objetivo explicar por que a vida é assim como é.

Indo do início do mundo, ao identificar o primeiro capítulo como O Jardim do Éden, passando por referências literárias, como A Cartola, , passando por mitos, destino, idade média até chegarmos ao nosso próprio tempo.

E assim acabamos refletindo junto com Sofia sobre o passado, presente e futuro da humanidade e sobre si, já que elas estão intrinsecamente ligadas.

Os cínicos diziam que a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas casuais e efêmeras.

Naturalmente Sofia é muito mais esperta que os seus leitores, mas por isso mesmo ela se torna a grande porta de entrada para desbravar o mundo dos pensadores. O importante é relaxar e depois das quinhentas e poucas páginas, selecionar os seus ídolos e criar novas teorias. Afinal... somos apenas poeira em um universo que se contrai e se distende.

O Mundo de Sofia - Romance da História da Filosofia
Sofias verden
Jostein Gaarder
Tradução: João Azenha Jr.
Companhia das Letras
1991 - 555 páginas

domingo, 2 de agosto de 2009

Gomorra


Sinopse: As mercadorias "frescas", logo que nascem - objetos de plástico, roupas de grife, videogames, relógios -, desembarcam diariamente no porto de Nápoles para serem armazenadas e escondidas em prédios propositalmente esvaziados de tudo. Já as mercadorias "mortas", vindas de toda a Itália e de boa parte da Europa, sob a forma de resíduos químicos, material tóxico e até mesmo cadáveres e esqueletos humanos, são clandestinamente "despejadas" nas terras da região da Campânia. E lá contaminam, dentre toda a população, os próprios boss da Camorra, que constroem, sobre aqueles terrenos, suas mansões luxuosas e nababescamente absurdas - datchas russas, villas hollywoodianas, verdadeiras catedrais de cimento ornadas com os mais preciosos mármores -, que não servem somente para demonstrar a conquista do poder, mas também para revelar utopias delirantes, pulsões messiânicas e obscurantismo milenares.

O que um contêiner com homens e mulheres chineses mortos, a roupa que a atriz Angelina Jolie usou em uma cerimônia do Oscar, mulheres ocupando cargos elevados, pessoas mortas por balas perdidas, o IVA - Imposto Sobre Valor Agregado, tráfico de droga, disputa de território e corrupção tem em comum? 

Não, não é o morro do Rio de Janeiro, nem um dos filmes de mafiosos distribuídos por Hollywood, apesar dos integrantes dos clãs, pertencentes ao sul da Itália, imitarem a ficção. 

Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair.

Roberto Saviano descreve no seu livro de estreia algo que se tornou mais globalizado que o próprio capitalismo: o poder dos criminosos, nesse caso específico, a Camorra. 

Não é uma ficção, o jornalista se infiltrou na máfia napolitana para entender o que ela é, o seu modo de operação, seus tentáculos pelo mundo e as consequências disso.

Na tevê, Angelina Jolie pisava a passarela da noite do Oscar, vestindo um terno de seda branca, belíssimo. Aquela roupa tinha sido costurada por Pasquale numa fábrica clandestina de Arzano.
O primeiro lugar que somos apresentados é justamente ao porto de Nápoles, é neste ponto que chegam milhares de containers, com produtos de todos os tipos, e também os registros e as classificações para cobrança de impostos, onde o caro para o consumidor pode ser extremamente barato para a alfândega, até o descarregamento de mercadoria clandestina.

Na sequencia vamos para o funeral de um rapaz de quinze anos morto por policiais ao assaltar casais com arma de brinquedo, para depois ser apresentados para os estranhos leilões realizados pelas grandes grifes. E assim, página a página, vamos descobrindo mais e mais de como o sistema de uma organização realmente impressionante funciona.

Afinal, um império não se divide com um aberto de mão, mas cortando-se uma delas com um cutelo.

Gomorra não poupa detalhes. Em algumas páginas o leitor precisa realmente ter estômago, enquanto Saviano descreve as torturas ou os teste de novas drogas que são feitas em viciados. Não existe escapatória, pode ser pobre, padre, político ou arrependido, a única certeza para os que contrariam a Camorra é a morte. 

A Camorra são vários clãs criminosos, chefiada na sua maioria por homens jovens que acabam reféns do seu próprio poder. Debocham da velha máfia, pois são politicamente independentes. Suas fontes de dinheiro são variadas, podem vir da venda de armas para países em guerra ou de roupas fabricadas sob medida para populares atrizes desfilarem. 

Na guerra já não é possível ter relações de amor, ligações, relacionamentos, pois tudo pode se tornar um elemento de fraqueza.

Gomorra não é um romance. É um tapa na cara em um texto jornalístico narrado em primeira pessoa, onde depoimentos pessoais se misturam a investigações e histórias do passado. 

A narrativa de Saviano é forte, sua escrita tem fluidez e detalhes que nos fazem não só compartilhar o seu olhar, como sentir os acontecimentos. Desde a primeira página, quando o manobreiro conta num misto de pavor e incredulidade sobre os corpos com crachás pendurados no pescoço que caiam de um contêiner, o estômago aperta como um aviso, o que vem a seguir não é brincadeira.

Ser atingido na cabeça evita tremer de medo, mijar ou soltar fedor do interior dos buracos na barriga. 

Também é um banho de água fria nos que adoram uma grife e anunciam para toda imprensa que colaboram para a construção de um mundo melhor. Pois eles também contribuem, indiretamente ou por simples ignorância, para a máfia italiana. 

A propósito: Gomorra é uma das cidades destruídas por Deus, conforme é descrito no Gênesis, uma cidade, como muitas na Itália e em outros locais do mundo, onde a destruição, por uma escolha, um celular ou uma palavra, se tornam banais. Onde os honestos não têm vez e apenas os imorais possuem o poder sobre a vida e a morte.

São rapazes, mortes falantes, mortos vivos, mortos que se movem... Belos ou não, te pegam e te mantam, mas a vida já está mesmo perdida...

Um livro para quem quer entender mais o que consome, para quem leu a Série Napolitana da Elena Ferrante e quer saber mais, um livro para compreender como as organizações criminosas funcionam e são mais resistentes que qualquer governo. Um livro que eu simplesmente recomendo a leitura.

Gomorra
Roberto Saviano
Tradução: Elaine Niccolai
Bertrand Brasil
2006 - 349 páginas

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Brida - Paulo Coelho




A obra Brida pode ser caracterizada como um texto de auto-ajuda de esoterismo, pois narra a trajetória de uma jovem que procura a compreensão de si mesma através do descobrimento de conhecimentos de magia. 

Como os demais textos do gênero, em geral, apresenta-se como um guia, uma metodologia para a conquista do sucesso material ou realização pessoal, que no caso consubstancia-se através da história da personagem e seu crescimento pessoal, descobrindo-se como feiticeira. 

O autor, utilizando-se da fórmula da auto-ajuda, aproveita-se da constante busca do ser humano por poder, status, felicidade, etc, para apresentar soluções fáceis, baseadas em uma filosofia rasa, que vai seduzir as camadas médias urbanas – principal consumidora dessa literatura. 

No primeiro capítulo de Brida, já se percebem os primeiros elementos característicos do livro de auto-ajuda: o autor quer ensinar algo. Por meio da experiência da personagem na floresta escura sozinha, o autor quer mostrar que a fé pode fazer a pessoa sentir-se protegida e vencer o próprio medo. A evocação de Deus naquele momento, de trechos da bíblia que a avó da moça costumava recitar para ela, bem como de outras lembranças de sua infância fazem com que se sinta calma e vença o medo de estar sozinha na floresta à noite, tanto que consegue relaxar e adormecer. 

Quer o autor ensinar que as pessoas também, a exemplo de Brida, se tiverem fé em Deus, ou em algo que acreditem, vencerão seus medos. Para ilustrar, transcreve-se o seguinte trecho, retirado da página 24: “Tinha fé. E a fé não deixaria que a floresta fosse de novo povoada por escorpiões e cobras. A fé manteria seu Anjo da Guarda acordado e velando. Recostou-se de novo na rocha e dormiu sem perceber.” Na medida que a personagem vai aprendendo e tirando lições dos acontecimentos é que se percebe a intenção do autor de que o leitor também tire lições. 

Brida é o leitor, que está sendo ensinado. Está, também, visível, no texto, outro elemento da literatura de auto-ajuda, que é a ilusão da onipotência, isto é, promessa de apresentar algo que vai mudar a vida do leitor, que vai fazê-lo superar o que o aflige. No caso, o autor apresenta um tipo de crença, ligada à magia, que vai preencher a lacuna deixada pela religião na busca pela solução dos problemas existenciais das pessoas. 

Essa crença vai sendo apresentada no livro na medida em que vai se dando o aprendizado da personagem a esse respeito. Geralmente é uma solução mais fácil e imediatista ,que seduz o leitor a aceitá-la, pois responde aos seus anseios. 

O autor se utiliza também da repetição, outro elemento característico da auto-ajuda, para desenvolver a história. Recorre a todo tempo às lições que Brida angariou de suas experiências de magia com o Mago e com Wicca, sua mestre, e vai acrescentando outras. Verifica-se essa retomada em vários trechos do livro, quando a personagem relembra a experiência na floresta, e associa com fatos cotidianos, dizendo que “a vida é uma noite escura” e refere-se às revelações da lua para interpretar outros fatos que lhe acontecem. 

A presença de elementos do imaginário popular (crenças) como filosofia espiritual estão em todo o texto como linha norteadora. No caso, ele explora a crença de que certas pessoas possuem um determinado dom para a magia que as permite entender e interpretar o mundo de maneira diferente e aqueles que dominam o dom podem ajudar os outros que não têm. 

Conforme ensina RÜDIGER , os textos de auto-ajuda utilizam-se, também, de relatos de pessoas que aplicaram as técnicas para a solução de seus problemas, atuando como modelos para os leitores, que acabam se convencendo de que, se outras pessoas conseguiram, eles também conseguirão. É uma maneira de aproximar a realidade ao leitor, para que não fique apenas absorto na teoria demonstrada. 

O autor apresenta a teoria e a comprova com o testemunho de alguém que teve sua vida modificada pela auto-ajuda. Os relatos podem ser místico, egoísta ou ascético. No relato místico, o interelocutor utiliza-se dos exemplos de pessoas que encontraram a solução para seus problemas no seu “eu interior”. O remédio para os seus males reside no controle da mente e no contato com o eu superior. 

A felicidade e a paz de espírito requerem a superação dos desejos egoístas, encontram-se no caminho contínuo e insistente do conhecimento. Já no relato egoísta, a exploração ordenada dos recursos interiores e do potencial humano não objetiva de maneira imediata a solução dos conflitos morais que vitimam nosso eu, mas se relaciona antes com o desejo de “fazer com que as pessoas não apenas o estimem”, mas também “realizem aquilo que você deseja”, nos vários campos da vida social. 

No relato ascético, o entendimento terapêutico combina o crescimento pessoal e a prática do pensamento positivo. Determinada pessoa conta para o leitor como, através de uma atitude mental positiva, atingiu o sucesso. Partindo da máxima de que o pensamento é a forma mais potente de sugestão, relata como o subconsciente transforma um desejo ardente em realidade quando o indivíduo acredita que pode alcançá-lo, fazendo com que aja para conquistar seus objetivos. 

Essa experiência apresenta um elemento a mais que os relatos anteriores, consubstanciada na atitude positiva na direção do que almeja. Na obra Brida, verifica-se a utilização de um tipo narrativa que se aproxima do relato místico. 

Apesar de ser uma obra de ficção, a história de Brida funciona como uma parábola, em que há espaço para a interpretação do leitor, no sentido de que busque em sua crença pessoal a solução de seus problemas. Explica-se o sucesso da literatura de auto-ajuda pelo fato de que a própria mídia estimula a busca da realização pessoal, por meio da divulgação de novos fenômenos que propiciam o crescimento do ser humano e, então, nomenclaturas comumente relacionadas a esoterismo, pensamento positivo, etc., passam a fazer parte do dia-a-dia e a serem exploradas pelos autores. 

Daí que podemos afirmar que o público-alvo dessa literatura é a classe média urbana, sedenta por resolver seus problemas por meio das “receitas de sucesso” apresentadas, especialmente por autores intitulados “magos” como é o caso de Paulo Coelho. A linguagem utilizada, como no caso de Brida, vai estar relacionada com termos e assuntos esotéricos ou do pensamento positivo. 

O leitor, diferentemente do self-made man do passado, que precisava trabalhar para atingir seus objetivos, será estimulado a simplesmente aplicar as técnicas esotéricas ou mentais ensinadas para obter sucesso. Basta seguir a fórmula ali indicada, e a pessoa alcançará o que almeja. 

Os livros de auto-ajuda pretendem ocupar a lacuna deixada pela religião, oferecendo soluções fáceis de bem-estar. Há uma promessa, que é apresentada no texto de resolver os anseios do leitor, onde, ao final, será demonstrada “a fórmula”, “a solução” de como fazê-lo. Geralmente convencem o leitor de que a técnica já foi amplamente testada e comprovada, tornando o caminho mais fácil, pois o leitor não precisa entender como e por que ela funciona, basta acreditar nos seus efeitos para provar seus frutos.

No caso de Brida, o autor não chega a apresentar uma fórmula pronta, mas conduz o leitor à crença de que é possível resolver seus próprios problemas com sua força interior e que será feliz quando encontrar sua outra metade. Essa “receita" de como apreender o real através da força da mente ou força interior (ao invés do trabalho, estudo, etc.) é que faz com que os livros de auto-ajuda sejam amplamente consumidos atualmente, pois em conformidade com a velocidade das transformações de um mundo globalizado, onde o imediatismo regula as relações e as pessoas não tem tempo para esperar os resultados, querem as respostas imediatas.