sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O chamado de Cthulhu e outros contos



Sinopse: O Chamado de Cthulhu é um conto do norte-americano H.P. Lovecraft que logo se tornou um clássico do terror. Foi escrito em 1926 e publicado pela primeira vez na revista estadunidense Weird Tales em fevereiro de 1928. Cthulhu é um deus que nas primeiras páginas do conto aparece como um ídolo de argila quase indescritível, possuindo um culto multimilenar dedicado a trazê-lo de volta, o seu retorno desencadearia o fim da humanidade. Neste livro, encontramos esse clássico e mais nove contos consagrados do autor na literatura de terror.

Há alguns anos atrás me foi indicado ler o autor H.P Lovecraft com a justificativa que ele seria um dos mestres dos livros de terror e mistério. Para tirar a prova, aproveitei um cupom que ganhei para usar em uma livraria online e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos, para ter uma amostra do trabalho do autor.



No livro encontrei dez contos, aos quais irei fazer um breve resumo abaixo:

Dagon: Um marinho viciado em morfina compartilha a sua história após sobreviver a um naufrágio e chegar a um lugar desconhecido. A fragilidade do personagem coloca um ponto de interrogação se tudo é real ou alucinações de alguém que está perdendo a razão.


Estou escrevendo isto sob considerável esforço mental, uma vez que hoje à noite não existirei mais.


Nyarlathotep: parte dos mitos que constroem Cthulhu, o conto apresenta uma criatura que sai do Egito e vaga pela Terra. Um ser ambíguo e aterrorizante, capaz de causar a loucura e o caos ao poder assumir diversas formas e manipular a mente de quem encontra pelo caminho.

A cidade sem nome: um explorador se desloca para uma cidade cercada de lendas em um dos desertos da Arábia. Com uma atmosfera que se altera conforme o horário, ele encontra uma arquitetura macabra, símbolos estranhos e templos subterrâneos que o convidam a esquecer todos os cuidados.

Quando cheguei à cidade sem nome, vi que era um lugar amaldiçoado.


Azathoth: um conto curto que conta a história de um homem que viaja atrás dos sonhos perdidos.

O cão: dois amigos compartilham um hobby atípico: violar tumbas antigas em busca de artefatos. Em uma de suas expedições eles encontram uma escultura de jade em forma de um cão com asas. Ao carregar o objeto com eles, eventos misteriosos e aterrorizantes passam a assombra-los.

Não se trata de um sonho - nem mesmo, receio, loucura -, pois já me aconteceu muita coisa para eu ter essas dúvidas apaziguadoras.


O Festival: convocado por familiares para participar de um antigo festival, o personagem/narrador retorna a sua cidade natal. Mas o que deveria ser um retorno às origens acaba se tornando uma experiência bem diferente da imaginada.

O Chamado de Cthulhu: após a morte de um tio-avô o professor Francis Wayland Thurston se depara com a história de um estranho ídolo de argila, que teria relação com um antigo culto dedicado a uma criatura monstruosa que teria vindo das estrelas: Cthulhu. Conforme se aprofunda nas investigações, ele descobre não só uma conexão psíquica entre algumas pessoas e a entidade, como que o retorno de tal criatura significaria o fim da humanidade.

A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos.


A Cor Vinda do Espaço: um meteoro cai em uma fazenda localizada a oeste da cidade de Arkham e uma estranha cor começa a surgir no local do impacto. Sua queda não gera nenhum dano momentâneo, mas com a passagem dos dias uma terrível transformação ocorre na localidade conforme a estranha coloração passa a corroer tudo o que toca.

História do Necronomicon: pequeno conto que conta a origem do livro fictício citado em diversos contos de H.P. Lovecraft, onde o autor Abdul Alhazred, conhecido como "o Árabe Louco" teria descrito uma série de feitiços e rituais para invocar entidades antigas e poderosas, como Cthulhu.

São figuras tão caladas e furtivas que ele se sente de certa forma confrontado com coisas proibidas, com as quais seria melhor não ter nenhuma relação.


O Horror de Dunwich: Dunwich é uma pequena cidade de Massachusetts onde a estranha família Whateley, que combina cultos antigos e casamento endogâmicos, mora. Mas todas as atenções se voltam para eles quando nasce Wilbur Whateley, um menino que cresce em uma velocidade espantosa e apresenta características que lembram animais e conforme cresce cria uma obsessão por livros antigos, em particular o Necronomicon.


A escrita de H.P. Lovecraft

O escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, popularmente conhecido como H.P. Lovecraft, é considerado como o autor que revolucionou no século XX o gênero de terror, principalmente no que denominamos terror psicológico e cósmico.

Além da psicologia, o escritor que teve uma infância marcada pela solidão, mistura ficção científica, fantasia em histórias obscuras que podem perturbar os leitores nesta mescla de insanidade e criaturas que não se sabe se vem do cosmo ou de universos paralelos.

Não lembro com precisão quando começou, mas já faz meses. A tensão geral estava horrível.


E foi isso que gerou o Mito de Cthulhu, onde vários contos compartilham o terror cósmico dos impactos do despertar de uma criatura antiga e poderosa que afetaria a Terra como um todo. Não à toa, existe mais de um livro de contos do autor publicado com o mesmo título: O chamado de Cthulhu e outros contos

Em O chamado de Cthulhu e outros contos que eu li existe aquele misto de terror, mistério e dúvida. Ao utilizar a narrativa em primeira pessoa com personagens que ou não confiáveis ou se colocam em situações que podem alterar a sua percepção, o autor mexe com o sentimento de ética e empatia do leitor, pois é imaginação ou eles são realmente vítimas de algo que chamaríamos de sobrenatural?

Sobre o nome e a residência desse homem pouco se escreveu, pois serviam apenas para o mundo da vigília, embora se diga que eram ambos obscuros.


Ao mesmo tempo ele nos carrega para civilizações perdidas, onde o antigo e o avanço tecnológico se misturam, mas habitadas por forças malévolas, ligadas aos muitos mistérios que ainda hoje tentamos desvendar.

Isso é acentuado pelo conjunto de contos que forma os mitos de Cthulhu, onde entidades cósmicas são capazes de causarem horrores que a humanidade não possui preparo e muito menos compressão para enfrentar.


O que eu achei de O chamado de Cthulhu e outros contos

A sensação que eu tive lendo este livro de contos era de estar subindo uma montanha, a cada história o terror aumentava, e não raro, também o número de páginas para imergir em um mundo onde os horrores estão completamente conectados por um livro fictício e por uma criatura.

Várias vezes me peguei lembrando da série Alienígenas do passado, onde cidades antigas e cheias de lendas são mostradas e suas construções questionadas sobre se realmente usaram mão de obra humana ou se seres do espaço o construíram.

Parecia haver ali uma umidade indefinida e opressiva, e me espantei com o fato de o fogo não estar aceso.


Mas nos contos de H.P. Lovecraft eles não constroem nada, e não estão vindo do espaço em uma espaçonave. O mais perigoso está dormindo em águas profundas, e os demais parecem vir atender chamados de rituais ou através de portais escondidos em várias partes da Terra.

Motivo pelo qual não raro é fácil duvidar da história do narrador, pois em algumas situações enfrentadas por eles não seria difícil confundir com alucinações ou pesadelos. 

Não é um lugar bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes à noite.


Em outros casos está mais escancarado, embora não haja uma comprovação total da lenda, existem fatos para deixar as orelhas em pé e os pelos dos braços arrepiados.

O que tornou o universo de H.P. Lovecraft aprovado por mim, uma fã do gênero, que só agora conheci o mestre e deixo a dica para quem também curte este misto de terror, psicologia e mistério.


O chamado de Cthulhu e outros contos
H.P. Lovecraft
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora Nova Fronteira
2023 - 200 páginas
Contos publicados originalmente no final dos anos de 1800

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime



Sinopse: Nesta coletânea de contos de romances inusitados, Agatha Christie mostra como o amor pode impulsionar as pessoas a diversos tipos de loucuras. A Rainha do Crime te levará a testemunhar o lado obscuro desse sentimento, longe do romantismo e da paixão, em uma trilha intensa de enigmas a serem descobertos. Crimes passionais, jogos sentimentais e relacionamentos (que deram um pouco... errado) serão investigados pelos heroicos e tão queridos detetives Hercule Poirot e Miss Marple, o mestre das charadas Parker Pyne, o misterioso Mr. Quin e o audacioso casal Tommy e Tuppence.



Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime é uma edição especial da TAG experiências literárias, composto de 13 contos, um texto sobre assuntos do coração escrito pela Agatha Christie e a sua biografia. Abaixo um breve resumo de cada conto:


O Rei de Paus: durante um jogo de cartas familiar, uma mulher coberta de sangue invade a casa e grita assassinato antes de desmaiar. Para desvendar o mistério, o famoso Hercule Poirot que não deixa nenhum detalhe escapar entra em cena.

A realidade não é apenas mais estranha que a ficção, é mais dramática.


O rosto de Helena:
em uma ópera Sr. Satterthwaite se encanta pela bela cabeça de uma mulher e acaba se aproximando da mesma, e descobre que ele não é o único a se encantar pela moça.

Morte no Nilo: Parker Pyne está em um luxuoso cruzeiro pelo rio Nilo quando a tranquila viagem de férias é interrompida pela morte de uma herdeira. Personagem não muito simpática, que torna todos a sua volta suspeitos em potencial.

É uma coisa notável quando se pensa nisso, como poucas pessoas têm cabelos que de fato combinam com elas.


Morte por afogamento: uma jovem é encontrada morta em um rio próximo em uma pequena vila inglesa. Todos da comunidade acreditam que o afogamento foi causado pela própria jovem, mas Miss Marple observa detalhes que a fazem acreditar na possibilidade de assassinato.

A pista dupla: um conhecido colecionador de joias tem rubis e esmeraldas furtados. Pistas falsas são deixadas para enganar a polícia, mas não são o suficiente para o detetive Hercule Poirot e seu fiel companheiro, Hastings.

Sofria desde os dezesseis de um problema de dinheiro em excesso.


Uma finesse com o rei: o casal de detetives Tommy e Tuppence tiram uma noite para dançar e se divertir quando sem querer viram testemunhas e investigadores de um assassinato.

Um domingo frutífero: um casal sai de carro para aproveitar o dia, mas o que era para ser um domingo tranquilo, torna-se um quebra-cabeça com vários acontecimentos inesperados e relacionados.

Sua anfitriã tinha temperamento plácido, pouco dada a destemperanças ou aflições. 


O vespeiro: Hercule Poirot resolve visitar um homem para discutir sobre um assassinato que ainda não aconteceu.

O caso da Zeladora: Miss Marple está deprimida por ter que ficar em casa para se curar de uma gripe, é quando seu médico lhe dá uma carta com um intrigante caso, um quebra-cabeça sobre o desaparecimento de uma zeladora.

A seu modo, ele era uma espécie de celebridade, e a vida elegante era sua profissão.


O homem na neblina: Tommy e Tuppence estão decepcionados por não terem solucionado seu último caso quando se deparam com um novo mistério a caminho da estação de trem.

O caso da ricaça: Parker Pyne recebe uma missão inusitada, uma mulher rica e sozinha não sabe mais como gastar o seu dinheiro busca orientação de como fazê-lo em algo que realmente valha a pena.

Todas as esposas que conheço estão ansiosas para sair e dançar, e chorando seus maridos usam pantufas e vão para a cama às 21h30.


Flor de magnólia: uma jovem mulher casada resolve ir embora com o seu amante, mas durante a fuga descobre que o marido foi à falência e as descobertas que virão são totalmente inesperadas.

Os detetives do amor: a morte súbita de um homem rico e solitário identificada inicialmente como natural desperta a intuição de Sr. Satterthwaite sobre as coisas não serem exatamente o que parecem.


A escrita de Agatha Christie

A escritora britânica nascida em 1890 foi responsável pela revolução no gênero policial, tornando Agatha Christie a rainha dos romances do gênero. Em 1920 ela publicou O Misterioso Caso de Styles, seu romance de estreia com detetive belga Hercule Poirot, o primeiro de 66 romances, fora os contos e as peças de teatro. O que a tornaram uma das autoras mais vendidas.

Seu estilo de escrita encanta pelas reviravoltas que surpreendem o leitor, as soluções que ninguém havia imaginado, a personalidade observadora de seus detetives, os locais diversos que mexem com a curiosidade e a escrita que captura da primeira à última página.

Ele agora preferia a lei do menor esforço, seguindo atrás de qualquer carro que estivesse à frente sem pensar sempre que uma escolha de vias se apresentasse.


O que torna a coletânea de contos Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime uma espécie de amostra com vários de seus conhecidos detetives, quase um convite para as novas gerações descobrirem mais de sua obra e uma forma de lembrar os já leitores que as obras da rainha são atemporais.


O que eu achei de Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime

Eu particularmente gosto de romances policiais, e embora não tenha começado no gênero pelos livros da Agatha Christie, sempre que posso ler algum de seus livros já sei que a diversão com o quebra-cabeça literário é diversão garantida.

Mas confesso que não foi algo que encontrei na coletânea de contos. Por serem histórias bem curtinhas, não há informações suficientes para criar teorias ou pensar quais peças se encaixam, pois em um piscar de olhos o caso já foi solucionado.

Em um minuto, uma expressão de absoluto espanto surgiu em seu rosto, pois a figura engomada que subia o caminho era a última que ele esperava ver nesta parte do mundo.


O interessante dele aqui está na visão que se tem dos relacionamentos, sejam sociais, sejam amorosos, sejam de casal, ou de comunidade. Pois se tem um desenho tanto das famílias abastadas, com algumas críticas sutis e outras mais diretas, como de comunidades do interior fechadas a estrangeiros.

E nestes ambientes ocorrem intrigas, obsessões, desejo de vingança, traições, cumplicidades, dias inusitados e questionamentos existenciais.

Não consigo deixar de pensar o quão melhor teria sido se eu simplesmente tivesse morrido.


Tornando a leitura leve e fácil, que combina tanto com chocolate quente no inverno como com areia de praia no verão. Ficando a dica de leitura para quem gosta de livros que ajudam a desopilar nas férias ou para intercalar após uma narrativa especialmente difícil.


Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime
A Deadly Affair
Agatha Christie
Tradução: Samir Machado de Machado, Jim Anotsu, Petê Rissatti
TAG - Harper Collins
2022 - 271 páginas
Contos escritos entre os anos de 1923 e 1942.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra



Sinopse: O termo “Antropoceno” foi proposto para designar a era geológica atual, em que os seres humanos remodelaram o planeta e sua biodiversidade de maneira profunda, para o bem e para o mal. A humanidade é cheia de facetas contraditórias e invenções intrigantes, e John Green se propõe a avaliá-las de forma nada imparcial. Afinal, no Antropoceno, não há observadores desinteressados, apenas participantes. Como o próprio autor reconhece, esses ensaios também são, de certa forma, uma autobiografia. Escrito em parte durante o turbulento período de pandemia global e baseado em seu podcast de sucesso, Antropoceno: notas sobre a vida na Terra nos guia pelas sutilezas dessa nova realidade e nos dá a segurança de que podemos até desconhecer o caminho que estamos seguindo, mas com certeza estamos em boa companhia.



Em Antropoceno, o autor norte-americano John Green explora suas memórias e as complexidades e implicações do que estamos vivendo, com pandemias, mudanças climáticas, perda de biodiversidade e os avanços tecnológicos constantes, o que gera muitas reflexões do escritor sobre cada assunto abordado.

Entre essas reflexões estão a relação da humanidade com a natureza que a cerca, incluindo o impacto dos avanços tecnológico no uso e preservação do meio ambiente, tópico que se torna cada vez mais urgente como vimos nos últimos desastres naturais.

Através da empatia, sentimos coisas que talvez nunca pudéssemos sentir. Através do rico mundo da imaginação, vimos apocalipses grandes e pequenos.


Há também textos com questões mais existenciais, como a busca por significado em um mundo que se reinventa todos os dias, questionamento sobre as escolhas que realizamos em diferentes fases do nosso amadurecimento, assim como a valorização da vida e da própria esperança.

Mas não, não é um livro de autoajuda, mas sim de reflexões e de memórias, já que o autor compartilha várias histórias pessoais e divide sua opinião sobre diferente assuntos que vão de ciência a vídeo game.


A escrita de John Green

Conhecido autor norte-americano por escrever romances para jovens adultos como A culpa é das estrelas, que teve uma versão para o cinema. E também possui um canal no youtube com o seu irmão, o vlogbrothers, onde eles abordam muitos dos assuntos listados no livro, além do já citado podcast.

Em Antropoceno, Green mescla opiniões e reflexões pessoais com artigos científicos e referências literárias de uma forma bastante fluída e de fácil leitura, explicando termos não tão comuns seja através de linguagem clara ou metáforas e analogias.

A história, como a vida humana, é ao mesmo tempo incrivelmente rápida e penosamente lenta. 


Ou trazendo algumas curiosidades, como no caso do livro O grande Gatsby que ele compartilha a popularização do mesmo após ser indicado dentro das forças armadas, sendo um dos impulsos para torná-lo um clássico.

Não raro ele se dirige diretamente ao leitor, como se o mesmo estivesse sentando em algum lugar e pudesse interagir com ele nestas conversas que misturam papo sério com momentos de humor, ciência, e histórias pessoais que permitem conhecer mais de quem está do outro lado das páginas.

Maravilhando-me com a perfeição daquela folha, fui lembrado de que a beleza estética depende tanto de como e se você olha quanto do que vê.


Resultando em um livro muito agradável de ler, e que pode fazer o leitor prestar atenção um pouco mais em si e no mundo em sua volta, além de algumas indicações de leitura extra.


O que eu achei de Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra

Antropoceno foi um livro que recebi de mimo na antiga assinatura da Intrínseca e foi uma adorável surpresa.

Me diverti com ele dando estrelas para os assuntos abordados em cada texto, como se fosse uma avaliação da Amazon. Concordei com algumas teorias, como o ar condicionado nos escritórios ser sexista e adorar deixar a mulherada passando frio o dia inteiro.

A especificidade radical do cheiro é parte do que o conecta de maneira particular á memória. Também é parte do que o torna tão difícil de imitar, mesmo quando se trata de odores artificiais.

E me encantei com a escrita pessoal de Green. Entre Disney, Mario Kart, viagens e comparativos de pandemia, há leveza, sorrisos, vontade de abraça-lo quando relata o bullying sofrido na infância e reflexão.

É como uma conversa de assuntos variados, só que com vários embasamentos compartilhados caso você queria se aprofundar depois. Mas com um detalhe fundamental: não é uma referência pedante do tipo olha o que eu sei, mas do tipo: olha que legal o que eu li, pesquisei ou encontrei.

Para mim, essa é a maravilha e o terror de imagens geradas por computador: se elas parecem reais, meu cérebro não é nem de longe sofisticado o suficiente para entender que não são.


Na parte que ele fala das pandemias, me lembrei do livro Os vulneráveis, já que ele compara os casos onde os ricos fugiram das grandes cidades, seja pela peste, seja pela Covid. E como a sua posição social irá lhe colocar com maior ou menor chance de morrer. E há também o outro lado da moeda, aqueles que se doam para não deixar ninguém sozinho.

Mas estes são apenas pequenos exemplos de como Antropoceno é um livro que pode ser lido enquanto se bebe uma taça de vinho ou uma xícara de chá. Pois seus textos me provocaram conversas mentais, despertaram memórias, tudo em uma escrita que me convidou a refletir, sorrir e ter a curiosidade alertada.

Lembro-me de ter pensado que nunca mais seria criança, não de verdade, e foi a primeira vez que senti aquela intensa saudade de um eu que nunca mais voltaria.


Afinal estamos em constante mudança, e a Terra tem nos mostrado de forma cada vez mais forte que não existe causa sem consequência, e repensar muitas de nossas ações se faz mais do que necessário.

Deixando a dica para quem curte livros que compartilham opiniões e lembranças sobre música, jogos, filmes, poesias, viagens, descobertas, amores, vida, morte, ecologia, ciência, tecnologia, depressão, crise existencial, presente, passado e futuro.

Para Antropoceno eu dou 5 estrelas.


Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra
The anthropocene reviewed: essas on a human-centered planet
John Green
Tradução: Alexandre Raposo e Ulisses Teixeira
intrínseca
2021 - 384 páginas


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A voz que ninguém escutou



Sinopse: A voz que ninguém escutou é a de Maria que decide fugir da miséria e violência levando dois filhos para a capital na esperança do tão desejado emprego. É a voz de Inácio, um menino sequestrado e escravizado por um fazendeiro inescrupuloso, em busca de uma família para si. É a voz de Inês, a filha da empregada doméstica que sobrevive nos fundos da mansão de um poderoso banqueiro vivenciando cotidianamente as diferenças de classe, sonhando com um Brasil mais justo. É a voz de Vânia uma jornalista que acaba de assistir à tragédia de sua mãe e após uma grande revelação tenta reconstruir sua história ao mesmo tempo em que encontra novas formas de amar. É a voz deste que escreve estas palavras. É a voz de um país que esqueceu de lembrar do passado.

No mês de setembro/2024 a TAG não foi curadoria e enviou o vencedor do prêmio kinder de literatura de 2024 chamado A voz que ninguém escutou do escritor carioca Renan Silva. O mimo chamado de kit biblioteca era composto de pequenas fichas destacáveis e post-its.



Não suportando mais viver uma relação abusiva e uma vida de miséria, Maria decide abandonar o marido e os filhos mais velhos, fugindo com os dois mais novos, Inês e Inácio, para a cidade do Rio de Janeiro.

No caminho uma ida ao banheiro lhe custa caro, já que o motorista do transporte clandestino ao qual ela está viajando vende Inácio para um fazendeiro que explora crianças, levando-o para longe, antes que a mãe tenha tempo de resgatá-lo.

Sirene rodopiando como carrossel. Sons de alerta e um eco interminável.


No Rio de Janeiro Maria encontra um emprego como empregada doméstica em uma casa de família rica, onde Inês irá conviver com as diferenças sociais ao mesmo tempo que terá oportunidade de estudar, e fazer uma sólida amizade com a filha do casal.

Tudo em um Brasil que vive a construção de Brasília e o início da ditadura militar, onde o resultado de tudo cabe em uma ambulância em 2005 em que Vânia, uma jornalista, leva a mãe Inês em estado grave para o hospital.


A escrita de Renan Silva

A voz que ninguém escutou é o primeiro livro do historiador Renan Silva. Na narrativa foi optado em utilizar na maior parte do tempo a voz em terceira pessoa, mas em alguns momentos surge a voz em primeira também, ambas para acompanhar quatro personagens: Maria, Inês, Inácio e Vânia. Todos membros da mesma família.

O livro acompanha a vida destas pessoas de 1945 a 2005, dividido em duas partes, a primeira aborda trabalho escravo, sequestro de crianças, violência familiar, poliamor, assédio sexual, questões lgbt, exploração de trabalho doméstico, diferenças sociais, construção de Brasília, ditadura entre outros assuntos.

Os filhos foram concebidos com pouco tempo de espera entre um e outro. A exceção era justamente aquela que agora vinha ao mundo.


Na segunda parte temos uma mistura de tempo mais próximo ao presente com o passado, já que Vânia começa a investigar o que levou a mãe em um ato tão extremo e acaba se dividindo em entender o passado da mãe e a busca de sua própria identidade, ao mesmo tempo que sua vida parece ser uma espécie de espelho da vida da mãe.

A quantidade de assuntos abordados seria o suficiente para criar uma saga familiar, mas por estar tudo compactado em quase trezentas páginas, pode levar o leitor a dois sentimentos. Agradando aquele que gosta de ler versões resumidas, e por outro lado angustiando o que deseja uma história mais arredondada.


O que eu achei de A voz que ninguém escutou

Para quem assiste o programa Masterchef do Brasil, a frase "menos é mais" utilizada pelo Fogaça para opinar sobre os pratos de alguns participantes, consegue resumir o sentimento que tive ao ler este livro.

E aqui faltou aquele editor amigo para dizer vamos focar mais nisso, quem sabe no lugar de colocar mais personagens vamos trabalhar mais esta cena? Que tal melhorarmos a passagem de tempo e tiramos a parte dos 50 tons de ditadura, já que as cenas de sexo parecem um Ctrl c + Ctrl v e o seu detalhamento não acrescenta em nada a história?

O menino percebeu o silêncio absoluto que reinava no interior da carroceria do caminhão. Tinha pelo menos mais cinco crianças além dele.


Pois na minha opinião a ideia do livro é muito boa, e seu início é envolvente e estimula a curiosidade, mas a narrativa vai decrescendo, a ponto que a primeira parte é muito melhor que a segunda. Sendo um daqueles casos em que a execução deixa e muito a desejar. 

Assim como a parte gráfica, que faz os leitores imaginar que os integrantes da família são negros, mas na descrição de Vânia ela é uma mulher branca. Falha de continuidade ou de quem elaborou a capa? Eis uma das perguntas que ficaram após a finalização do livro.

Às vezes, fantasiava invadir a biblioteca, gritar com o patrão, chamá-lo de lixo, ameaçar ir até a polícia.


Uma coisa que me incomodou muito na leitura é que ela parecia didática, não havendo uma narração da cena para que eu visualizasse o que estava acontecendo, mas um parágrafo explicando resumidamente os acontecimentos.

O que torna tudo muito rápido, e em alguns momentos, inverossímil, como a sequência em que Vânia busca os papeis da prisão da mãe no período da ditadura.

Os brasileiros começaram a se acostumar com a possibilidade de escolher livremente o presidente. Já era a quarta vez após o Estado Novo.


Outro ponto foi a mistura de eventos dos anos 80 e 90, como por exemplo acontecimentos do período Sarney (remarcação mais do que diária dos preços) que é citada na era Collor - que ficaria muito mais forte se tivesse sido relacionado ao ato mais traumático do seu governo: o confisco das poupanças. Tudo em um parágrafo que mistura presidentes, Senna, Mamonas e Sílvio Santos.

O livro cita o diário de Inês, mas a narrativa se perde na forma como a história é conduzida, parecendo um resumo do resumo feito pela filha Vânia, que talvez fosse um personagem que não precisaria estar ali.

Os ideólogos da nova capital pensavam que as diversas classes sociais poderiam viver em conjunto, em superquadras nas Asas Norte e Sul. Na prática, isso não ocorreu.


Em compensação nada é dito sobre os outros filhos de Maria, assim como um período de tempo de Maria, Inês e Inácio e termina de forma fraca, sem maiores impactos. Então sim, as páginas gastas com Vânia poderiam ter sido ocupadas principalmente como Inês e Inácio.

O que me fez finalizar a leitura com a ideia de que a mesma precisava ser refinada, tanto nas vozes utilizadas como no foco. Pois perde-se páginas em sequências que não acrescentam nada e se passa voando pelas que poderiam tornar a história mais rica.

O andar cada vez mais curvado e as constantes reclamações de dores nas costas também eram as marcas de vinte anos de trabalho ininterruptos.


Fazendo uma contrapartida, já que não, eu não gostei da escrita do livro, a minha mãe já gostou, pois como cita jovem guarda e outros momentos da época de 60 e 70, fez com que ela buscasse as próprias memórias daquele período, que ao contrário dos personagens, são lembranças felizes. Um poder especial que os livros possuem de resgatar nossa própria história pessoal enquanto acompanhamos outras.

Como livro é igual a gosto, e cada um tem o seu, e naturalmente pode haver outros leitores que assim como a minha mãe possam gostar da narrativa, fica a dica de um livro brasileiro que aborda a história de uma família nordestina em meio a um dos períodos mais tumultuados da história do Brasil.


A voz que ninguém escutou
Renan Silva
TAG - José Olympio
2024 - 302 páginas

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Encontro com Rama



Sinopse: Após a terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu, líderes mundiais e cientistas criaram um sistema de monitoramento para evitar que essas catástrofes voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade acompanha, alarmada, a chegada de um novo objeto de proporções inimagináveis que avança na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar o que se imagina ser um meteoro colossal, mas que se revela uma sofisticada construção, repleta de enigmas que desafiam a mente e os conceitos humanos.



A humanidade se espalhou pelos planetas do sistema solar após um evento catastrófico que tirou algumas cidades do mapa no ano de 2077. Mas principalmente investiu em sistemas de vigilância espacial para detectar e lidar com possíveis ameaças e assim evitar a ocorrência de eventos semelhantes, chamado projeto SPACEGUARD, a guarda espacial.

Um dia o que muitos achavam que era um meteoro no radar é identificado como um gigantesco objeto cilíndrico, cuja perfeição geométrica desafia a todos da vigilância. Cruzando o Sistema Solar em velocidade constante, lhe é dado o nome de Rama e uma expedição humana é enviada para uma melhor verificação.

Após o choque inicial, a humanidade reagiu com uma determinação e uma unidade que teriam sido impossíveis em qualquer época anterior.


Quando os astronautas conseguem entrar no objeto imenso e de origem desconhecida, se deparam com um mundo silencioso e artificial, cuja complexidade indicam uma tecnologia muito superior à humana, despertando uma mistura de curiosidade, prazer, receio e o sentimento de estar vivenciando algo único.


A escrita de Arthur C. Clarke

O inventor e divulgador científico inglês Arthur C. Clarke foi um dos escritores mais influentes no século XX no gênero ficção científica. Seu interesse por ciência, astronomia, inovação e tecnologia ecoam na página dos seus livros, dando verossimilhança em suas narrativas.

Encontro com Rama é um exemplo disso, e não é à toa que se tornou um dos marcos da ficção científica e inspirou outros escritores. Ao descrever uma estrutura complexa, com detalhes técnicos da espaçonave alienígena, Clarke convida o leitor a ter um novo olhar sobre como podem ser as civilizações vizinhas.

Um objeto de quarenta quilômetros de comprimento, com um período de rotação de quatro minutos - onde isso se encaixava na ordem das coisas astronômicas?


Pois em sua narrativa em terceira pessoa é possível encontrar um universo extremamente rico não apenas nos detalhes do ambiente interno e externo a espaçonave Rama, mas também filosófico, já que quando a equipe se depara com algo totalmente novo, a cada descobertas novas perguntas existenciais vão surgindo, conforme o perfil do personagem que está sendo acompanhado.

Tudo isso em uma linguagem incrivelmente fluída, onde os capítulos - todos nomeados - convidam a seguir em frente em uma história que consegue colocar o leitor junto da equipe de expedição.

O encontro, tão esperado e tão temido, finalmente ocorrera. A humanidade estava prestes a receber seu primeiro visitante das estrelas.


Uma curiosidade, no título original é utilizada a palavra francesa Rendezvous, que pode servir para enfatizar a natureza planejada e importante de um encontro, mas também pode sinalizar um encontro com o destino e mistério. Combinando perfeitamente com a história narrada.


O que eu achei de Encontro com Rama

A primeira coisa que chamou a minha atenção é que o livro escrito em 1972 informa em sua primeira página uma bola de fogo cruza o céu da Europa às 09h46 da manhã do dia 11 de setembro de 2077. E para quem viveu o 11 de setembro do início dos anos 2000, é impossível não vir esta primeira lembrança.

A segunda coisa foi a forma como a humanidade se espalhou pelo universo solar até o ano de 2130, quando ocorre o encontro com Rama. Gerando situações curiosas, como um dos personagens que possui duas famílias, uma no planeta Terra e outra em Marte. Será um sinal que os homens evoluem em tecnologia, mas não em seus hábitos?

Embora estivessem tomados por uma sensação de confiança e contido entusiasmo, após algum tempo o silêncio quase palpável de Rama começou a pesar sobre eles. 


A terceira coisa foi o nome da nave de expedição: Endeavour, uma referência ao navio carvoeiro que deu a volta ao mundo entre 1768 e 1771 comandado pelo capitão James Cook.

Mas como vocês já devem ter percebido na parte sobre a escrita, o livro realmente me envolveu. Os capítulos curtos, a forma como são finalizados com um gancho convidando a continuar, fizeram com que a leitura fosse muito rápida.

As coisas não eram o que pareciam ser; havia algo muito, muito estranho num lugar que era simultaneamente novo em folha - e tinha um milhão de anos.


Principalmente pelos sentimentos despertados. Na etapa que eles entram na nave alienígena eu já fiquei em agonia, me lembrando do filme alien. Quanto mais eles avançavam, ou quando havia momentos de tensão, mais eu queria seguir na leitura para descobrir o que iria acontecer.

Encontro com Rama é um sci-fi que explora a curiosidade científica, o de se arriscar pelo desconhecido, a superação do medo em busca de uma descoberta, de nem sempre encontrar respostas para as perguntas que vão surgindo.

Esse era um mundo estéril, segundo os testes mais sensíveis que o homem poderia aplicar. Mas agora acontecia algo que não podia ser explicado pela ação de forças naturais.


O livro também explora o lado político, em um sistema que a humanidade se dividiu entre planetas, explora o fato daqueles que acham ter o direito de tomar decisões em nome de todos, baseado na velha crença do bem versus o mal, de heróis contra vilões.

E embora o lado pessoal dos personagens seja pouco explorado, em Encontro com Rama isso não atrapalha, pois só são detalhados o que mais tem relação com a narrativa, não deixando pontos de interrogação ou necessidade de mais, já que complementa o suficiente para manter a fluidez.

Treinamento era uma coisa, realidade era outra, e ninguém podia ter certeza de que os antigos instintos humanos de autopreservação não dominariam durante uma emergência.


Eu gostei muito de Encontro com Rama, achei que a leitura estimulou a minha curiosidade, já que sempre tive interesse no assunto de outros seres fora do sistema solar, e ao mesmo tempo ela reafirma o fato de que os anos vão passando, mas a evolução na forma de pensar parece estar longe de acompanhar os avanços tecnológicos.

Ficando a dica para quem gosta de histórias de ficção científica, de histórias com questionamentos existenciais e claro, para quem não resiste a uma boa leitura.


Encontro com Rama
Rendezvous with Rama
Arthur C. Clarke
Tradução: Susana L. de Alexandria
TAG - Aleph
2023 - 288 páginas
Publicado originalmente em 1972


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Serafim Ponte Grande



Sinopse: Ao longo de 203 fragmentos, Oswald de Andrade toma como inspiração os procedimentos da colagem para criar uma obra radical, situada entre a ficção, as anotações, as memórias, a sátira e a poesia. Definido por Haroldo de Campos como "romance-invenção", o livro, publicado originalmente em 1933, foi recebido como escandaloso e se estabeleceu como um acontecimento singular na nossa literatura. A transformação industrial de São Paulo serve como pano de fundo para um retrato implacável das aspirações burguesas. Em meio ao moralismo, ao tédio e à infelicidade do casamento, os personagens de Serafim Ponte Grande não conseguem conter suas ambições comezinhas, sua obsessão pelo dinheiro e seus impulsos sexuais.



Serafim Ponte Preta é uma espécie de anti-herói. O protagonista que dá título ao livro é um funcionário público corrupto e desiludido, cujo estilo de vida se divide entre a busca desenfreada por dinheiro e pela insatisfação conjugal. Um homem comum que realiza uma busca desenfreada por prazeres e pela incapacidade de se adaptar às convenções sociais.

Casado com Lala, uma mulher inicialmente resignada que vive um casamento infeliz, já que ela não é uma personagem secundária só na história, como na própria vida do protagonista.

A obra de ficção em minha vida corresponde a horas livres, em que estabelecido o caos criador, minhas teorias se exercitam com pleno controle.


Já Pinto Calçudo, o secretário do anti-herói, é presença frequente nos encontros e desencontros de Serafim com políticos corruptos, amantes, amigos e inimigos, e inclusive em uma viagem que parece resgatar as viagens realizadas pelo próprio autor, Oswald de Andrade, nos anos de 1920.

Tudo ambientado de uma forma a levar os leitores de qualquer época para uma viagem ao passado, sob as perspectivas de quem só se preocupa com o seu cotidiano.


A escrita de Oswald de Andrade

O autor e pensador paulista Oswald de Andrade foi uma das personalidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Formado em direito, seguindo os ritos das famílias ricas e tradicionais, acabou direcionando-se a sai paixão que era a literatura. 

Viajante frequente para a Europa, viu seu estilo de vida mudar com a crise econômica de 1929. Gerando uma mudança não só no ritmo com que levava seu dia-a-dia, mas também na criação de Obras como Serafim Ponte Grande, que é uma crítica a sociedade tradicional do período.

O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda.


Serafim Ponte Grande pode causar um estranhamento inicial no leitor ao passar pelas suas páginas e ver que não temos um romance padrão. Motivo pelo qual a obra é considerada uma grande inovação. 

O escritor Oswald de Andrade utiliza uma mistura que inclui tanto a linguagem formal da época quanto a popular, ao mesmo tempo que relaciona citações eruditas e termos técnicos. 

Parece que Deus quer ver no primeiro dia deste ano inteiramente evoluída a minha transformação psíquica, tantas vezes ameaçada pelos acontecimentos.


Essa babel linguística mistura poemas, micro contos e capítulos inteiros, não sendo muito explicativa, embora pareça respeitar uma linha do tempo para contar as diferentes facetas da sociedade brasileira, especialmente a paulistana, do período do modernismo.

Recheado de ironia e humor, os caminhos tortos do seu protagonista levam a situações inusitadas e algumas vezes beiram ao irreal. Ao mesmo tempo ele também se utiliza da literatura como base de referência, completando a visão cultural da época.

Nada mais incômodo do que esse negócio de ter filhos sem querer.


O que torna a escrita bastante atemporal e um livro relativamente rápido de ser percorrido.


O que eu achei de Serafim Ponte Grande

No mínimo diferente. Inicialmente me pareceu uma espécie de diário, onde uma frase ou parágrafos podem definir o dia do protagonista Serafim. Na sequência uma espécie de crítica política e desilusão com a vida que se leva no Brasil.

O que me fez pensar que Serafim é muito louco como narrativa e também como personagem. Mas apesar de misturar poemas, romance e formatos diferentes, no decorrer da leitura comecei a achar chato e repetitivo.

Por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal.


Como eu li antes O Guarda-roupa modernista, em vários momentos levantei a hipótese de ser uma sátira do que o próprio autor tenha vivido em suas várias idas a Europa, fato depois confirmado por um dos autores dos textos adicionais sobre o livro. Mas sendo sincera, eu não achei graça.

E assim eu acabei fazendo um paralelo com a geração de hoje que acham os programas humorísticos das décadas de 80 e 90 enfadonhos, pois foi exatamente o que ecoou em mim ao ler as desventuras de Serafim.

Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só , brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos olhos, pelos lábios e pela boca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel!


Pensando em um aspecto histórico, imagino que o livro tenha horrorizado os mais conservadores de sua época com sua linguagem direta, utilizando um personagem que não leva absolutamente nada a sério. E sim, provocado graça anos depois, quando muitas coisas da sociedade já estavam sendo questionadas.

No geral nem gostei nem desgostei de Serafim Ponte Grande, embora tenha achado o início promissor e o final muito bem executado, a etapa das viagens foi o que quebrou o ritmo da minha leitura, já que achei a correria do personagem atrás dos rabos de saia muito repetitiva, o que acabou deixando as críticas, que tinham um contexto mais interessante, perdidas em segundo plano.

Sob as árvores soltas do verão, debaixo dos balões cativos das lanternas. A orquestra mistura falas, altifalantes, serrotes e gaitinhas.


Mas sim, ele pode ser um livro bem interessante para quem quer ter uma visão da burguesia paulista nos anos de 1920, para quem quer conhecer um dos principais participantes do movimento modernista no Brasil e para quem é curioso e gosta de ler de tudo.


Serafim Ponte Grande
Oswald de Andrade
Companhia das Letras
2022 - 223 páginas
Publicado originalmente em 1933

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Línguas



Sinopse: Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina se arrisca dançando no parapeito da sacada. Apaixonado, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como duelos sangrentos e até mesmo falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó — que nutre por ele uma adoração desmesurada. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Seguindo uma teia de transformações, Línguas conta a história desses três personagens com destinos que ficam inextricavelmente unidos para sempre.

No mês de agosto/24 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da atriz Maria Bopp o livro Línguas do escritor italiano Domenico Starnone. O mimo foi um caderno pequenino para anotações.



Mimi devia ter oito ou nove anos de idade quando, após ouvir a fábula de Orfeu, passou a buscar nas redondezas de casa em Nápoles a fossa dos mortos. O motivo era resgatar a menina que foi o seu primeiro amor.

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos.


Sem saber o seu nome, ele a chamava de milanesa, já que o seu amigo Lello dizia que ela havia vindo de Milão, norte da Itália onde não se usava dialetos, e sim o italiano. A paixão à primeira vista foi quando viu a menina dançar na sacada do apartamento à frente do seu. 

O encanto gerou duelo entre os amigos e uma eterna lembrança em Mimi, que cresce com a sombra de milanesa em seus relacionamentos. Assim como sua avó, que após a perda do marido, vive como uma espécie de empregada da filha e seus poucos sorrisos e gentileza são reservados ao seu neto favorito Mimi.

Só falava sem freios com ela, que com os outros era muda que nem eu: guardava as palavras na cabeça e as usava no máximo comigo.


Mas é na vida adulta que Mimi irá estudar a própria língua, e começar a entender o poder que ela exerce não apenas na cultura de um povo, mas também em sua autoestima e memórias.


A escrita de Domenico Starnone

O professor e jornalista Domenico Starnone publicou seu primeiro livro aos 42 anos e hoje é considerado um dos autores contemporâneos mais importante da Itália. Seus livros tem como característica a escrita elegante e a profundidade psicológica de seus personagens.

Em Línguas o autor Domenico Starnone convida o leitor a conhecer um pouco da sua cidade - Nápoles - e de sua própria infância, já que a narrativa possui um toque de autobiografia.

Era de domínio público que, quando fazia sol, eu a espiava abobalhado da janela ou passava muito tempo em frente ao portão dela.


Starnone utiliza-se principalmente de três bases para costurar sua história. Começando pela família aqui representada pela avó, figura com a qual os diálogos ocorrem tanto na infância quanto na vida adulta.

A segunda base é a paixão idealizada e impossível pela milanesa, um amor platônico infantil que beira a obsessão. 

Havia décadas não esperava mais nada da vida, nem sequer um docinho, mas a partir de mim ela começoulogo a extrair doçuras de todo tipo.


Completando a pirâmide, está o amigo Lello, o garoto que embarca na imaginação de Mimi ao mesmo tempo que é um rival em todas as disputas.

E são estas três bases que propiciam o escritor discutir sobre a linguagem, não só como forma de escrita, mas também como forma de construir a própria identidade e até mesmo diferença social. Tendo referências fortes ao dialeto local de Nápoles, ao qual Mimi sempre compara ao italiano falado no norte da Itália, aqui representado por Milão.

Eu nem lhe agradeci, eram gentilezas contadas, ela mesma não saberia evitá-las.


E como ele fala em identidade, seria impossível não entrar as memórias, principalmente de sua avó, que perdeu o marido ainda jovem, e como um espelho do neto, vive deste amor do passado, cujas histórias ganham novas versões e ganham em Mimi um espectador atento.

Tudo em uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem mistura os próprios sentimentos com a linguagem, as vezes de forma mais técnica, as vezes de forma poética, e na maioria das vezes em um estilo mais fluído, em um livro curto e relativamente rápido de ler.


O que eu achei de Línguas

Na minha humilde opinião a avó é a grande personagem da história. Seja sendo a criada da família da própria filha, seja contando suas histórias e influenciando a imaginação do neto favorito. O fato é que ela inicialmente não é tão velha - está na casa dos cinquenta anos - mas a beleza do passado foi substituída pela tristeza e até uma certa apatia.

O que me fez pensar muitas vezes como foi a sua história? Como ela conseguiu sozinha e jovem criar duas crianças pequenas? E por que ela aceita ser uma sombra na própria família?

Entretanto, não tinha dia em que eu não desejasse caminhar por uma estradinha solitária e, sem nenhum motivo evidente, dar socos e pontapés no ar, me abandonando ao choro nem que fosse por um minuto.


Sobre o Mimi, a verdade é que cada vez que ele falava milanesa, no lugar de imaginar Milão, minha mente era assombrada por um belo bife à milanesa, o que me provocou certa fome durante a leitura.

E sua vergonha da avó, assim como a não retribuição de tanto amor, já que avó inclusive assumia a culpa por suas artes infantis, me apertavam o coração, não havia um beijo, nem um muito obrigado. Seria típico de criança, se ele não conseguisse expressar tamanho sentimento pela menina da janela a frente.

Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidade.


Menina cuja morte - e isso não é spoiler, já que é revelado na primeira página -, se tornou uma assombração em sua vida, quase como um ponto de referência para os seus relacionamentos românticos.

Em relação a parte da língua, questão da grafia e suas mudanças ao longo dos anos, possuem toda uma explicação, que pode ser um ponto de atenção ou curiosidade para quem gosta do estudo da linguagem, confesso que não me chamaram tanto a atenção.

O momento, na memória, é ocupado apenas pela fotografia, um retângulo de papelão amarronzado com numerosas marcas de rachaduras brancas na imagem.


Exceto que me fizeram pensar que o tema principal da história é na verdade a morte. Temos a morte do amor - seja o vivido, seja o platônico -, a morte de alguns termos da linguagem, a morte de relações, a morte da infância, a morte do nosso eu de ontem. Nem mesmo a memória consegue a imortalidade, já que a mesma também vai se apagando aos poucos.

Confesso que no geral achei a leitura mais ou menos, algumas vezes achei bobinha, outras vezes um pouco enfadonha e em alguns momentos me envolvi. Mas se não fosse o bife à milanesa que criou uma associação permanente, talvez o livro caísse no esquecimento.

Era como se eu perdesse as pernas, senti que elas estavam indo e me deixando apenas o tronco e a cabeça.


Mas isso não significa que a experiência será igual para você, pois o que desencanta alguns apaixona a outros. Então você gosta de histórias que acompanham da infância a vida adulta, primeiros amores inesquecíveis, o que envolve linguagem, narrativas que envolvem memórias, talvez a leitura tenha outro significado pra ti.

Ficando a dica para quem quiser se aventurar e voltar aqui para deixar a sua opinião nos comentários.


Línguas
Vita mortale e immortale ella bambina di Milano
Domenico Starnone
Tradução: Maurício Santana Dias
TAG - todavia
2024 - 141 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O labirinto dos espíritos



Sinopse: Em O labirinto dos espíritos, Zafón nos conduz ao emocionante desfecho da série que começou com A sombra do vento e impactou leitores por todo o mundo. Personagens novos e antigos povoam as páginas, se entrelaçando em uma despedida grandiosa.

O IV livro da série O cemitério dos livros esquecidos fecha essa tetralogia que mistura a história de Barcelona com uma homenagem aos escritores e livros.



Ele inicia em Madrid nos anos de 1950 e quem guia o leitor é Alicia Gris, uma jovem mulher que ainda na infância sobreviveu aos bombardeiros que arrasaram Barcelona durante a guerra e lhe deixaram dolorosas cicatrizes no corpo e na alma.

Ele fechou os olhos e, um segundo depois, emergiu na vida constatando que o simples ato de respirar era a experiência mais maravilhosa que tivera em toda a sua existência. 


Investigadora sagaz de uma equipe que trabalha nas sombras, ela recebe a missão de localizar o ministro Mauricio Valls, que desapareceu junto com o seu guarda-costas de confiança. As pistas a levam de volta para casa, isto é, Barcelona, onde ela vai se aproximar da família Sempere e reecontrar o homem que ajudou a salvar sua vida, Fermín Romero.

Na família, apesar da paz aparentemente reinar, Daniel não consegue ser totalmente feliz , o enigma de sua mãe Isabella é algo permanentemente presente em sua mente, algo que nem Bea nem Juliàn conseguem distraí-lo. E o fato de tentarem protege-lo o irrita ainda mais.

A caça, a caça de verdade, é um duelo entre iguais. A gente não sabe quem realmente é até derramar sangue.


E conforme as peças são encontradas por Alicia, mais fatos obscuros começam a vir à tona, e o conhecimento destes fatos se torna um fardo perigoso para os que carregam, recordando ao leitor o que realmente tornava a cidade sombria naquela época.

Com o retorno dos personagens dos três primeiros livros e a chegada de novos, a narrativa é um verdadeiro convite a desvendar em definitivo os enigmas tão bem distribuídos por Zafón, com suas alegrias e tristezas, podendo emocionar os fãs da série.


A escrita de Carlos Ruiz Zafón

Nascido em Barcelona, Carlos Ruiz Zafón foi um renomado escritor e roteirista. Conhecido por sua habilidade em misturar elementos de mistério e romance em suas obras de ficção gótica, ele ganhou destaque internacional justamente com seu romance A Sombra do Vento (2001), livro que abre a série O cemitério dos livros esquecidos.

Zafón faleceu em 2020 - o que aperta o meu coração até os dias de hoje, já que ele está na minha lista de autores favoritos -  e seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas, tendo vendido milhares de exemplares pelo mundo.

Uma lenda é uma mentira concebida para explicar uma verdade universal. Os lugares onde a mentira e a miragem envenenam a terra são particularmente férteis para o seu cultivo.


Especificamente sobre O labirinto dos espíritos, o escritor optou por uma narrativa em terceira pessoa, o que permite ao leitor uma visão ampla e detalhada dos personagens e da trama, além de sempre especificar em cada nova parte a cidade e o ano que os fatos estão ocorrendo. 

O livro é interligado com os outros volumes da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas como ocorre nos anteriores, é possível ler o mesmo de forma independente, mesmo eu considerando isso um pecado já que além dos personagens, são os detalhes que fortalecem os laços entre os quatro livros.

Acho surpreendente como sempre procuramos no presente ou no futuro as respostas que estão no passado.


Como ocorreu nos três livros anteriores da série, a narrativa fluída de Zafón se destaca pela sua riqueza descritiva e pela construção de uma atmosfera densa e envolvente, que faz o leitor caminhar por uma Barcelona sombria.

E isto é complementado ao alternar diferentes tempos e pontos de vista, permitindo que a história se desdobre de maneira complexa ao mesmo tempo que se aprofunda nos personagens principais, revelando aos poucos todos os segredos e mistérios que foram guardados ao longo dos quatro livros da trama.

Você decide se quer viver ou apodrecer pouco a pouco, como deixou acontecer com tantos inocentes.


Além disso a intertextualidade e as referências literárias utilizadas ao longo da história são marcantes, refletindo a paixão do escritor espanhol pela literatura e encantando a todos que se entregam a leitura desta série.

Tudo isso utilizando uma linguagem fluída, que convida virar mais uma página, ler mais um capítulo e se apaixonar pela série.


O que eu achei de O labirinto dos espíritos

Foi emocionante realizar a leitura de O labirinto dos espíritos, uma história que homenageia os escritores e os livros, fechando de forma redonda esta série que tanto adoro e fiquei com vontade de reler ao fechar a contracapa.

Como nos três primeiros livros, nos deparamos com a força da literatura em um período que escureceu a hoje iluminada Barcelona, tendo como base a história de um país e todas as injustiças que ocorreram durante a época retratada.

Antes de sair ainda deu uma última conferida no espelho do saguão e se aprovou. Você partiria o próprio coração, pensou. Se tivesse um.


Tornando o livro ao mesmo tempo maravilhoso e doloroso, pois enquanto reforça a importância da literatura, nos lembra da destruição que uma ditadura faz não apenas nos livros, mas também na vida das pessoas, principalmente das crianças atingidas diretamente, cujas vidas são alteradas de forma definitiva.

Gostei da ampliação de locais que a narrativa trouxe, incluindo Madrid e Paris no caminho de alguns personagens. E já me peguei pensando em retornar as cidades só para fazer o roteiro de O labirinto dos espíritos. Pois sim, eu fiquei tão fã de A sombra do vento que quando fui a cidade de Barcelona passei por diversos dos pontos citados no livro, incluindo a rua onde fica a Livraria Sempere.

Você não mente para as pessoas; elas sozinhas se mentem. Um bom mentiroso dá aos bobos o que eles querem ouvir. Esse é o segredo.


E amei que apesar dos livros se completarem de tal forma que não possuem uma ordem certa , O labirinto dos espíritos fecha todas as pontas que os três primeiros deixaram ao longo do caminho, não deixando o leitor com perguntas, tudo de uma forma natural e fluída.

Aliás, para quem já leu os livros da série, uma dica, o Epílogo de O prisioneiro do Céu é um gancho para O Labirinto dos Espíritos.

As pessoas são como marionetes ou brinquedos de corda, todas têm um mecanismo oculto que permite manipular seus fios e fazê-las ir na direção que se deseja.


Então sim, eu indico, recomendo e saliento: quem ama literatura, quem ama livros, precisa entrar neste Cemitério. A chance de você se apaixonar pela escrita do Zafón e se apegar a família Sempere é muito grande.


O labirinto dos espíritos
El Laberinto de los Espíritus
Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Ari Roitman e Paulina Watcht
SUMA
2017 - 679 páginas
Primeira versão publicada originalmente em 2016


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A árvore mais triste o mundo



Sinopse: Neste romance arrebatador, Mariana Salomão Carrara — vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2023 — se reafirma como uma das escritoras mais talentosas da novíssima literatura brasileira. O centro da trama de A ÁRVORE MAIS SOZINHA DO MUNDO é ocupado por Guerlinda e Carlos, casal que vive com os filhos em uma pequena roça no Sul do Brasil e se dedica ao cultivo do tabaco. Na dura época da colheita, a mãe de Guerlinda é chamada para ajudar nos trabalhos, e sua chegada transforma os já desgastados contornos da rotina familiar.

No mês de julho/2024 a TAG completou uma década de história, e como de costume, foi a curadora na sua edição de aniversário. O livro escolhido para comemoração foi A árvore mais triste o mundo da escritora paulista Mariana Salomão Carrara. E o mimo foi super especial: uma coletânea inédita de contos de Franz Kafka.



O casal Guerlinda e Carlos vivem seus dias dedicados exclusivamente ao plantio de tabaco em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul.

Contam com a ajuda integral da filha mais velha Alice, uma adolescente que não completou os estudos, e que no pouco tempo livre alimenta suas redes sociais e sonha em ganhar uma competição de beleza.

Excecionalmente, porém, gosto de dizer que reflito muito, reflito tudo, mas reflito muito sobre esta família, que é a família que eu tenho hoje e é a que posso refletir.


Maria, a filha do meio, ainda divide o seu tempo entre frequentar a escola e trabalhar na lavoura. A menina e sonha poder estudar mais para conseguir dar uma vida melhor a família.

Já Pedro, o caçula, é ainda um bebê que aprendeu cedo a importância de ser não tranquilo e quieto e não atrapalhar os pais.

Lavam os pratos em silêncio, que no fim de contas é o mais contagioso que há aqui, o silêncio, passa depressa de uns para os outros.


O casal precisa administrar os efeitos colaterais dos venenos utilizados em suas folhas de tabaco, as dividas enormes que não param de ser geradas pela empresa que compra o resultado da lavoura, a rebeldia da filha adolescente e a falta de dinheiro até para o básico.

Gerando a necessidade de solicitar a ajuda da mãe de Guerlinda no período da colheita, trazendo um novo olhar sobre a apatia de Carlos e as relações familiares.


A escrita de Mariana Salomão Carrara

Dividindo-se entre a defensoria pública e o mundo literário, a autora Mariana Salomão Carrara possui contos, poesias e romances publicados, sendo o último o objeto desta resenha.

Em A árvore mais triste o mundo a escritora separa a história em duas partes e utiliza-se de quatro narradores: a árvore que fica no pátio em frente à casa, o espelho português que fica na sala da família, uma roupa de proteção utilizada para passar o veneno nas plantas e a caminhonete rural da família.

No final sua vida seria melhor sem um espelho, mesmo tão linda, seria mais tranquilo ser como nós da natureza, a flor não sabe de si.


Cada um deles possui uma linguagem própria, e sua visão pessoal de cada integrante da família e de suas reações em relação a situações que eles enfrentam, narrando não apenas o presente como o passado, tudo em primeira pessoa. 

O espelho tem o sotaque e alguns termos da sua origem portuguesa, é o que compartilha os segredos da casa e muitas vezes imagina o que os moradores estão pensando. A caminhonete rural me lembrou o personagem Mate do filme carros pela forma de falar. Já a árvore me fez recordar o maravilhoso livro A ilha das árvores perdidas pela sua conexão com os humanos. E a roupa, com menor participação, é a mais neutra em relação a família, ficando mais focada no efeito que causa na pessoa que a está vestindo.

Mas os humanos me parece que têm uma coisa obscura, que é saber o que é certo, o que é melhor, mas fazer o contrário.


Uma curiosidade é a origem que deu a ideia para a escrita desta história: uma reportagem sobre a epidemia de suicídios em regiões produtoras de tabaco localizadas no sul do Brasil, citando entre as hipóteses os defensivos agrícolas e os grandes endividamentos enfrentados pelas famílias. 

Situação que agora ecoa entre as páginas e convida os leitores a mergulharem em um cenário tenso e complexo desconhecido por todos, deixando claro que os malefícios do tabaco não são exclusivos dos consumidores, mas que a produção de suas folhas também cobra um preço injusto para quem aceita ser fornecedor da matéria-prima.


O que eu achei de A árvore mais triste o mundo

Eu gostei de como a narrativa de A árvore mais triste o mundo foi construída. Na primeira parte temos o ciclo do plantio, onde narradores e personagens são apresentados, assim como a rotina extenuante e os sonhos, principalmente das meninas, como uma preparação para a segunda parte, onde o cansaço e as dívidas passam a gritar, assim como os sinais de depressão de Carlos.

E essa evolução bastante desesperançosa da história permite sentir e sofrer com a família, já subjugada a pobreza pelas empresas compradoras das folhas de tabaco.

Temos um impostor de olhos vazios, que além de tudo agora deixa as cabras livres para destruírem o tabaco com as suas tropelias.


Ao mesmo tempo se identifica facilmente a origem de como eles caíram na armadilha destas empresas, já que o casal não finalizou a escola e não raro assinam documentos enviados pela empresa sem entender na totalidade os efeitos. Deixando explícito a falta de escrúpulos das empresas, aumentando o meu desprezo por este produto que não tem absolutamente nada de bom.

Então não, não é um livro feliz, mas um livro que expõe uma realidade e nos coloca para acompanhar através de inusitados narradores que me provocaram diferentes sentimentos durante a leitura. 

Eles sabem tanto de amor. Era melhor saberem menos, assim acabavam logo comigo.


Como o livro se passa no RS, confesso que sendo gaúcha senti falta de alguns termos mais regionais, já que achei a forma de falar mais parecida com o interior do Paraná e de São Paulo, mas passada as primeiras páginas, este ligeiro incômodo foi passando, me permitindo mergulhar na leitura.

E assim deixo a dica para quem gosta de histórias inspiradas em fatos reais, de livros que compartilham realidades brasileiras, para quem não quer uma história leve e para os tradicionais ratinhos de biblioteca.


A árvore mais triste o mundo
Mariana Salomão Carrara
TAG - Todavia
2024 - 205 páginas