sábado, 8 de fevereiro de 2014

Morrer de prazer





Ruy Castro é um homem de múltiplos talentos, sendo que todos eles envolvem a escrita. Jornalista. Escritor. E um dos melhores biógrafos brasileiros. No decorrer de sua carreira, o escritor ganhou quatro prêmios Jabuti, entre os quais dois de livro do ano. Nada mais justo.

Na obra "Morrer de prazer" há uma seleção de 59 crônicas, todas publicadas anteriormente na Folha de São Paulo, onde Castro é colunista desde 2007. O livro é repleto de crônicas atemporais, histórias que fazem com que o leitor sinta vontade se seguir adiante. E isso ocorre porque Ruy Castro possui um humor ácido, há ironia em sua escrita, o que é raro hoje em dia e, principalmente, o seu texto é limpo e conciso, qualidade essencial no gênero crônica. Destaques para "A década que não existiu", "O ovo na Legalidade" e "Abaixo do Tomate".

Os livros do escritor foram traduzidos para vários países. Entre eles: Inglaterra, Japão, Itália, Estados Unidos, etc. 

Vale a pena investir nas obras de Ruy Castro. Um cronista com voz própria.   






quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O tempo entre costuras



Recebi a indicação deste livro na Livraria Cultura, quando folheava o segundo livro da Trilogia O Século. Conforme a vendedora, um livro que encantava quem gosta de narrativas que misturam fatos reais da nossa história.

E assim, foi com expectativa que iniciei o romance de María Duenas, principalmente por ser comparada a Carlos Ruiz Zafón, um autor que adoro.

O problema é que não simpatizei com Sira Quiroga, a personagem principal e narradora da história. Não torcia por ela, apenas acompanhava as suas aventuras, que nem sempre me pareciam verossímeis. 

A história começa às vésperas da guerra civil espanhola. Sira, então apenas uma simples costureira, vai com o noivo escolher uma máquina de escrever com o objetivo de se prepararem para vagas no governo. Na loja conhece Ramiro e se apaixona, trocando o que seria uma vida certa por uma aventura no Marrocos.

Mas no lugar de uma linda história de amor, acaba grávida, abandonada e endividada. Só que a sua sorte é muito maior do que as suas burrices, e ela encontra amigos que a ajudam montar o seu próprio atelier e conhecer mulheres influentes, entre elas a inglesa Rosalinda Fox, amante do personagem histórico Juan Luis Beigbeder, que convence Sira a se tornar espiã na segunda grande guerra.

De volta à Espanha, com passaporte marroquino, ela se torna a costureira referência da alta sociedade, seus ouvidos captam todas as informações, que são repassadas rapidamente para os ingleses. Entre as regras está ser vista em lugares luxuosos, com os quais ela já sonhara frequentar, e manter distância de antigas amizades.

Entre a vida fictícia de Sira, são relatados momentos importantes na história da Espanha, cuja população vive em grande sofrimento enquanto Franco abria as portas para os alemães. Em uma época que não se sabia quem era amigo e quem era inimigo, a personagem reencontra o amor, mas foge por não ter certeza de quem ele é.

E todo esse conjunto conseguiu tornar, pra mim, apesar da minha antipatia por Sira, a leitura prazerosa. Ao contrário do que poderia acontecer, não era um sofrimento reencontra-la todas as noites, pois o mundo que a cercava apagava o fato de parecer tão insípida para mim.

Por isso recomento sim a leitura de O tempo entre costuras, uma aventura que pode prender vários tipos de leitores.

O tempo entre costuras (El tempo entre costuras)
María Duenas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Editora Planeta
 2009 – 477 páginas

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal

Aos amigos dos livros e do blog, desejamos um natal encantado como um conto de fadas, feliz como um romance água com açúcar e maravilhoso como um livro bem escrito.

Que Papai Noel permita a continuidade desse compartilhamento de emoções que é escrever as resenhas dos livros que lemos.


Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para todos vocês

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Dançando sobre cacos de vidro

Ao ver este livro fui atraída pelo título. Achei poético e fui instigada a saber que tipo de dança era retratada. No resumo, somos apresentados ao Mickey, um homem bonito que sofre um grave transtorno bipolar e Lucy, que mantém contato com a Morte desde os cinco anos, primeiro perdeu o seu pai, depois a sua mãe e possui um controle médico rígido por ter enfrentado um câncer.

Lucy conhece Mickey no seu aniversário de 21 anos, ambos se apaixonam e ela assume o risco de casar com ele. Devido aos problemas de ambos, eles criam várias regras, para fazer a vida a dois dar certo. Mas tudo parece sair do controle quando o destino quebra uma delas e Lucy fica grávida.

Entre as dificuldades normais do casamento, com o acréscimo dos momentos de ausência em que Mickey é internado, existe o bonito laço entre Lucy e suas irmãs. Cada uma com suas características, mas o carinho flui entre as páginas, principalmente nos momentos de preocupação.

A autora Ka Hancock escreveu um livro em que o leitor é obrigado a ter como acompanhante uma caixa de lenço. Não, a história não é piegas, é simples e emocionante. Não é um romance cheio de sexo, embora tenha suas idas e vindas. É sobre o amor, amor de filha, irmã, esposa e mãe. No seu estado mais puro e comum, do nosso dia-a-dia, do que abrimos mão e pelo que lutamos.

É o que muitas pessoas não entendem sobre o casamento. A prática dos juramentos que alguns fazem no altar levados ao pé da letra. É sacrificar tudo por um filho, mesmo quando ainda não o vemos. É superar os próprios problemas e aceitar os presentes que nos são reservados.

A vida é feita de cacos de vidro, mas os cortes dependerão da maneira como caminhamos ou dançamos sobre eles.

Dançando sobre cacos de vidro (Dancing on broken glass)
Ka Hancock
Tradução Regina Lyra
Editora Arqueiro

2012 – 329 páginas

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Laranja Mecânica




Alex é um molodoi, que junto com os seus druguis, invade a casa de cidadãos honestos para krastar, ubivatar e vinte-contra-um. Este bratchni, como todo glupi é nadmeni, o que impede qualquer sentimento de pena quando ele se sente spugui.

No livro de Anthony Burgess, eleito um dos cem melhores romances em língua inglesa do século vinte pela Time, a primeira exigência que se faz ao leitor é que ele comece a aprender a linguagem do narrador. Alex, o menino mau da história, fala nadsat, gíria dos jovens violentos que agem sem dó nem piedade em um futuro tão próximo, que muitas vezes parece ser o presente das nossas manchetes de jornal.

Pode-se dizer que o livro é dividido em três partes: Alex violento, Alex presidiário, Alex amadurecendo. Nas ruas, ele adora música clássica e violência. Cheio de si, a pratica sem piedade, apenas pelo prazer. Na cadeia, em troca de uma liberdade mais rápida, ele aceita ser cobaia de um experimento. A descrição do procedimento de cura, para torna-lo um cidadão de bem, me lembrou de um experimento da série Lost, onde um dos personagens ficava amarrado em uma cadeira assistindo um vídeo, como o personagem do livro.  Mas é o encontro com um antigo membro da sua gangue que o faz rever os seus conceitos e chegar ao início de um amadurecimento.

Narrado em primeira pessoa, pelo próprio Alex, Burgess nos torna íntimo, mas não amigos, do seu personagem. É ver a injustiça na visão do criminoso. A dor por quem a causa.

Um livro atemporal, que nos faz prisioneiros na mente de Alex, nos tornando mais uma vítima impotente de sua ultraviolência. Laranja Mecânica é simplesmente horrorshow.

Laranja Mecânica (A clockword orange)
Anthony Burgess
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
1962 – 199 páginas

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Só as mulheres e as baratas sobreviverão



Dulce tem um encontro com um cara que não é o homem dos seus sonhos, apenas um quebra-galho, mas que serve como distração para a noite de sábado. Ela toma banho e quando vai pegar o seu pretinho básico uma surpresa desagradável à espera: uma barata resolveu descansar na peça.

Neste momento começa o drama da personagem, que fecha o closet e fica enrolada na toalha. Sua aflição vai dividindo espaço com lembranças, mostrando que sua vida não é tão doce quanto o seu nome. Conforme vai criando intimidade com a barata, começa a se dar conta que a mesma é do sexo feminino, e a intimidade a leva ler um pedaço de metamorfose para a nova amiga. 

Usando o medo quase unanime que as mulheres sentem pelas baratas, Claudia Tajes escreve uma comédia leve, onde o inseto acaba virando analista da personagem. Mostra de forma divertida o vazio das relações, quando ninguém aparece para salvar a produtora fotográfica de tão temida figura, nem mesmo o homem que deveria estar esperando por ela parece notar tamanho atraso.

Com escrita leve e fácil, é um livro para desopilar, sua leitura é rápida como um chinelo eficiente, e se bobear, até mesmo as leitoras podem desejar ter essa barata para desabafar seus problemas e dúvidas.

Só as mulheres e as baratas sobreviverão
Claudia Tajes
L&PM
2010 – 125 páginas

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Diário de uma ilusão



Nathan Zuckerman é um jovem judeu que busca abrir o seu caminho profissional. E é isso que o leva até o mestre Lonoff. Enquanto Nathan vive a culpa por ter escrito um conto com base em uma história familiar, a qual provocou a fúria de seu pai e cartas de um juiz, Lonoff precisa administrar o ciúme da sua esposa pela jovem Amy, moça judia que enfrentou a guerra e foi contratada para ajudar na organização do escritor e se apaixonou pelo mesmo, sonhando em viver com ele em Florença.

Em um primeiro momento temos todo o enfoque em Nathan. Através dele é possível ter uma visão da comunidade judaica americana mais conservadora. A rapidez com que deixa de ser o filho que trazia orgulho para virar motivo de vergonha marca a sua personalidade. Mas também há teimosia no jovem, o que gera culpa e uma ideia bizarra de como atenuar a relação com os familiares.

Lonoff não deseja mudar a sua vida, nem trair o seu casamento com uma jovem, e o irônico é que quem precisa dessa amante é a esposa Hope, que se sente secundária na vida do escritor e busca uma desculpa para escapar da sua vida.

Pelo que pesquisei, Nathan Zuckerman é um álter ego do autor Philip Roth, sendo encontrado em outros títulos aos quais não lerei. E aviso que ao iniciar a escrita dessa resenha já estava preparada para as críticas.

O fato é que achei a citação há autores conhecidos, assim como o que levava o personagem Nathan Zuckerman escrever, interessantes. E foi só. Tempos atrás eu li um cronista de jornal dizendo que Roth era chato. Pois bem, Diário de uma ilusão é um porre, começando pelo título nada haver. Nem os momentos de ousadia do personagem me animaram, pois em época de 50 tons de cinza, se masturbar no sofá alheio ou subir em uma mesa para escutar a conversa do outro não chocam mais.

Confesso que só finalizei a leitura por não ter outro livro para ler, mas achei cansativo, sonolento. As páginas eram pesadas e não puxavam a minha atenção. E não me adianta dizer que necessito ler novamente, pois só o farei em caso de insônia, pois 3 páginas era sono certo pra mim.

Diário de uma ilusão (The ghost writer)
Philip Roth
Tradução: Luís Horácio da Matta
Circulo do Livro
1979 – 141 páginas