Sinopse: Todas as noites, Pecola Breedlove reza para ter olhos azuis. Zombada pelas outras crianças por sua pele negra e seu cabelo crespo, a menina anseia por se encaixar no padrão de beleza da sociedade americana dos anos 1940: quer ser branca e loira, assim como a atriz mirim Shirley Temple. No entanto, à medida que cresce seu delirante e inconsciente desejo de aceitação, Pecola se vê presa a uma realidade cada vez mais violenta.
O livro de março/19 da TAG Curadoria teve como curadora a escritora brasileira Djamila Ribeiro é o primeiro romance da escritora e vencedora do Nobel de literatura de 1993 Toni Morrison, uma autora ainda pouco lida no Brasil.
O Olho mais azul fala sobre identidade, padrão de beleza, preconceito e discriminação, mas não da forma como o leitor está habituado. Não é a toa que ele se tornou polêmico por abordar entre muitos assuntos à própria pedofilia em plenos anos de 1970.
Um pequeno exame e muito menos melancolia nos teriam provado que as nossas sementes não foram as únicas que não brotaram: as de ninguém brotaram.
Logo de início temos uma descrição da família perfeita: mãe, pai, um filho, uma filha, um gato, um cachorro, um amigo. E depois já sabemos que Pecola está grávida de um bebê do pai dela.
Pecola é uma personagem que carrega todos os abusos que uma criança pode sofrer no decorrer das páginas. Seu sonho de ter o olho azul não é uma bobagem, já que o preconceito aqui começa por alguém igual a ela: sua própria mãe.
Como é que se faz isso? Quero dizer, como é que a gente faz alguém amar a gente?
Em contrapartida temos as irmãs Frieda e Claudia, esta uma das narradoras da história e talvez um alter ego da própria escritora. Assim como Pecola, elas são negras, e estudam com outros negros. Mas o racismo existe mesmo ali, pois a diferença do tom da pele parece autorizar os mais claros a tentarem subjugar os mais escuros. O que gera muito sofrimento a Pecola e contraria as irmãs.
No cenário em que elas viviam fica claro o poder dos adultos, que não podiam ser contrariados, mesmo quando não possuíam razão. O abuso em relação às crianças é pulsante em todo o livro, deixando claro sua fragilidade quanto a serem defendidas.
Preta retinta. Preta retinta. Seu pai dorme pelado.
Toda criança possui os pais como referência. Os pais de Pecola se denominavam pobres, negros e feios. Não existe carinho. Nem no tratamento. Para os filhos são senhor e senhora Breedlove. Um muro intransponível para quem não sabe se defender das diferenças.
Na escola as crianças utilizam o pátio para hostilizar as outras e descarregar o desprezo que eles sentem pela própria cor. O ódio, a desesperança, o desprezo que eles mesmos sentiam eram despejados em sua vítima, no caso a própria Pecola.
Ao igualar beleza física com virtude, ela despiu a mente, restringiu-a e foi acumulando desprezo por si mesma.
O contraponto é a menina mulata Maureen Peal, cuja pele mais clara e a condição de vida melhor que as dos demais encantam a escola, tendo aceitação de alunos brancos e subordinação dos alunos negros.
A questão de um padrão de beleza é bastante forte, em uma associação tão comum do feio com o errado. Ao mesmo tempo em que nos questiona o que é feio? Ao citar artistas que glamourosamente se apresentam nas telas de cinema, o leitor pode sair da zona pobre e negra de Toni Morrison e ver as muitas meninas que sofrem de anorexia e bulimia por querer ficar igual a x ou y.
A questão de um padrão de beleza é bastante forte, em uma associação tão comum do feio com o errado. Ao mesmo tempo em que nos questiona o que é feio? Ao citar artistas que glamourosamente se apresentam nas telas de cinema, o leitor pode sair da zona pobre e negra de Toni Morrison e ver as muitas meninas que sofrem de anorexia e bulimia por querer ficar igual a x ou y.
Deitar ao lado de uma pessoa de verdade, que estava "menustrando" de verdade, era meio sagrado.
Talvez repare com mais atenção na quantidade de mulheres mudando a cor de seu cabelo para algum tom de loiro, ou nos jovens pais torcendo para que os olhos claros do recém-nascido permaneçam.
Padrões que aprisionam diferentes pessoas, independente da sua cor, condição social e instrução escolar.
na altura em que este inverno se havia apertado num nó odioso que nada conseguia afrouxar, alguma coisa o afrouxou, ou melhor, alguém.
Ironicamente, a menina que todas querem ser no livro viveu aos quatro anos de idade na produção Polly tix in Washington o papel de uma prostituta. A atriz que se aposentou da carreira de atriz aos 22 anos de idade por não ter mais a mesma popularidade da infância.
Em relação a narrativa o livro é divido nas quatro estações, mesclando presente e passado de alguns personagens, de uma forma fluída e rápida de ler. Para os mais sensíveis a leitura pode ser difícil, pois a história carrega um peso muito grande, provocando além de reflexões sensações de impotência, raiva e tristeza. Sabemos que é ficção, mas não é difícil enxergar a realidade em suas páginas.
Mas, para descobrir a verdade acerca de como os sonhos morrem, nunca se deve aceitar a palavra do sonhador.
Um livro que recomendo para quem quer entender a humanidade, o racismo, os padrões e o que o comportamento dos adultos influencia nas crianças.
O Olho Mais Azul
The Bluest Eye
Toni Morrison
Tradução: Manoel Paulo Ferreira
TAG – Companhia das Letras
1970 – 222 páginas
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