terça-feira, 31 de março de 2020

Estação Atocha



Sinopse: Adam Gordon é um jovem poeta norte-americano que, graças a uma prestigiosa bolsa de estudos, muda-se para Madri com o objetivo de completar um projeto de pesquisa. Adam é um jovem brilhante, porém muito instável, narcisista e frequentemente tomado por um sentimento de alienação de si mesmo. Viciado em cafeína, usuário eventual de haxixe, comicamente inseguro com as mulheres e com forte tendência a se automedicar, Adam se vê mergulhado em uma busca constante por autenticidade, girando em torno dos limites da linguagem.

A linda edição de fevereiro da TAG Curadoria trouxe Estação Atocha, livro indicado pela curadora Marília Garcia. Na história temos Adam, um estudante e poeta que tem uma bolsa para terminar o seu projeto, que é finalizar um longo poema sobre a Guerra Civil Espanhola. Sua professora está sempre tentando envolve-lo em atividades acadêmicas, e ele sempre fugindo, preferindo as festas dos jovens intelectuais espanhóis. 
Quando você vai parar de fingir que está só fingindo ser poeta?
Ben Lerner inicia a sua história, com toques autobiográficos, com o ponto forte do livro: descrevendo a cidade de Madrid. Seu personagem Adam leva o leitor por ruas, museus e pontos tradicionais das cidades de Madrid e Barcelona de uma forma que você se sente caminhando junto com ele.

É através dele que também vemos a reação dos madrilenses a um dos maiores ataques terroristas da Europa: as explosões na Estação de Trem Atocha no dia 11 de março de 2004, às vésperas das eleições presidenciais. 

Ou talvez estivesse passando por uma profunda experiência artística?

O que torna Estação Atocha um livro mais ou menos é justamente o seu personagem principal, que é o narrador da história. Como se estivesse em um divã, tendo o leitor como seu terapeuta, ele nos conta o seu dia-a-dia regado de festas, bebidas, poesia, drogas e mentiras.

Ele me parece uma caricatura de si mesmo, uma caricatura de El Poeta.

O terapeuta leitor pode se comover com que parece ser uma baixo autoestima que o leva a uma aparente insegurança em relação a sua arte e com as mulheres. Mas por algum motivo ele não me convenceu. E explico o motivo.

Eu me sentia muito melhor difamando ambos meus pais, distribuindo igualmente entre eles a responsabilidade por meu fracasso como filho.

Adam utiliza um discurso para agradar os que o cercam ou chamar a atenção para si, para isso ele utiliza o termo fascista para definir o seu pai – embora admita para os leitores que o pai está longe disso -, ele “mata” a sua mãe, se apropria de histórias trágicas alheias, finge não entender espanhol, mas o cômico é quando ele critica o estilo americano para depois se portar como o perfil declarado como típico.

Ele desdenha de grandes obras europeias, como a Sagrada Família, em meio a tragédia ele busca a visão americana do New York Times, existe uma soberba, até mesmo um certo machismo, que coloca todas as atitudes do personagem sob um grande ponto de interrogação. Se ele mente para os que estão ao seu redor, quem garante que ele, como narrador, não está mentindo para nós, leitores? 

Acordei na quinta fase do meu projeto como que em resposta a um estrondo.

Durante a leitura não foram raras as vezes que pensei que além de poeta Adam era um psicopata. E por isso senti muita falta de ter outros narradores, para saber que visão eles tinham do personagem, principalmente Isabel e Teresa, cujos diálogos e ações demostram que elas sabem muito mais sobre ele do que ele pretende demonstrar ao leitor.

Mas para dizer que só tem pontos negativos, o livro também possui partes cômicas, o estilo avoado de Adam, que naturalmente não presta muito atenção ao seu redor e isso piora com o uso rotineiro da maconha, fazem o personagem viver cenas totalmente sem noção, como perder um hotel e passar um dia inteiro procurando pelo mesmo.

Quando você vai aceitar que pode viver nesta língua?

Se vale a leitura? Para viajar pela bela Espanha, sim. Para quem tem aquela visão romantizada de um poeta avoado ou do grande talento, também. Para quem gosta de romances que brincam com a linguagem, pode ser. Para quem busca profundidade ou personagens que te envolvam, talvez não.

Estação Atocha
Leaving the Atocha Station
Ben Lerner
Tradução: Gianluca Giurlando
TAG – Rádio Londres
2011 – 219 páginas

sábado, 7 de março de 2020

Adeus, Gana



Sinopse: Adeus, Gana é ao mesmo tempo o retrato de uma a família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter.
Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Acra, capital de Gana, está morto.
A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás.
Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional.

No mês de janeiro a TAG Curadoria enviou aos seus associados à indicação do escritor José Eduardo Agualusa: o livro de estreia da escritora Taiye Selasi, ainda inédito no Brasil. Para auxiliar o leitor logo no início uma lista de palavras com pronúncia, significado e origem – que se dividem entre Gana e Nigéria – e a árvore genealógica da família, para auxiliar nos momentos em que não se sabe mais de quem está se falando.

Em um domingo, antes do amanhecer, Kweku morre descalço.

Dividido em três partes: Partido, Partida e Partir, como é informado na sinopse, tudo começa com uma morte. E está é a primeira frase do livro. Inicialmente simples, mas cujo significado só é entendido no virar das páginas.

Para eles, não dar nomes era lógico, até admirável, um jeito de manter distância da existência assim como da morte.

Kweku nasceu na parte pobre de Gana, com esforço foi para os Estados Unidos e se tornou um reconhecido cirurgião. Casado com Folasadé, é pai de quatro filhos. Como todo imigrante, busca o seu american life, até o dia em que uma patrona da pesquisa científica, e doadora do hospital onde ele trabalhava, chega com um apêndice estourado e já sem chance de sobrevivência. A família exige a cabeça do responsável, e a de Kweku é entregue. Ele luta tentando ser readmito, mas ao se ver totalmente sem chances, não aguenta a pressão e foge de todos, deixando a família sem patriarca e sem dinheiro.

Esses pensamentos viriam depois – e por muitos anos depois, quando ele tentaria esquecer-se do fedor úmido da morte fresca.

Sozinha com os filhos, quem não aguenta a pressão é Folasadé, que acaba separando os filhos pensando na questão financeira e educacional, mas com consequências que irão deixar marcas para sempre em cada um.

Porque a mãe sempre tem que ser superior.

Adeus, Gana mistura em sua história várias situações, do racismo, dos complexos físicos como peso e cabelo, da vergonha, dos traumas, do silêncio entre os que deviam ser próximos, perdas, solidão, heróis, decepção, pressão e falta de amor.

Um médico que fracassou em prevenir a própria morte.

Pois ao contrário do que firma a sinopse, o que parece faltar nesta família que já era desestruturada quando todos moravam juntos, é justamente o amor condicional. Dilemas pessoais sempre imperam nas decisões, com o individual se sobrepondo ao conjunto. No que acabam sendo ciclos que se repetem a cada geração.

Ela estava brincando de sexo, mas não sabia nada de amor.

Mas isso não desabona a história, pelo contrário, o livro é tenso, triste e questionador. E mais do que um livro sobre uma família africana, ele é um livro sobre seres humanos e questões mais do que globais. E justamente por cada personagem carregar alguma situação tão típica dos últimos tempos, fica difícil não se enxergar em alguns casos.

A insularidade peculiar dos banheiros, um conforto.

Narrado em terceira pessoa, a história é como uma cebola, conforme você via removendo as camadas, cada personagem vai revelando o passado, como que preparando a todos – onde incluo o leitor – para o momento presente.

O único motivo para um relacionamento é interpretar, em miniatura, todo o drama da vida e da morte.

O livro não é de leitura fácil, justamente por sua carga emocional e também pela sua forma de escrita. Utilizando do recurso do discurso indireto, o leitor precisa ter uma atenção extra para não se perder entre o que diz o narrador ou um pensamento do personagem do momento ou diálogos que surgem.

E um fator que prejudica ainda mais a leitura na nossa versão portuguesa é a falta de uma revisão e tradução cuidadosa. E isso sim foi um verdadeiro pecado com esta edição. Da sensação em alguns momentos de terem colocado o original no Google Translate a palavras digitadas como o “depoi\” da página 304 da minha edição, fazem o coração do leitor mais sensível doer.

Indico o livro? Sim. Mas para ler em português se faz necessário uma edição com revisão aprimorada, Adeus, Gana e o leitor merecem.

Adeus, Gana
Gana Must Go
Taiye Selasi
TAG Curadoria – Editora Planeta
2013 – 367 páginas

segunda-feira, 2 de março de 2020

Ainda estou aqui



Sinopse: Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Beyrodt Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a cria-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor e ás incertezas, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. “Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, escreve Marcelo Rubens Paiva neste relato emocionante sobre o passado, as perdas e a volta por cima.
Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, ele fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento sombrio da história recente brasileira para contar – e tentar entender – o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.

Primeiro livro de autor brasileiro que leio no ano de 2020, também é o primeiro livro que leio de Marcelo Rubens Paiva, que nesta obra se utiliza da própria vida como enredo para nos contar as suas histórias, algo que ele já havia feito no conhecido e ainda não lido Feliz ano Velho.

Já temos MEMÓRIA desde o primeiro dia em que nos deram à luz.

Em Ainda estou aqui o leitor é situado primeiro em um fórum, o objetivo é interditar sua mãe Eunice, cujo Alzheimer a impede de saber em que dia ela está. Este é o ponto de partida para que memórias da sua infância retornem, em um antes, durante e depois do desaparecimento do seu pai, Rubens Paiva, durante a ditadura militar.

Não confiava cegamente, nunca confiou em ninguém cegamente.

Por ser autobiográfico também é uma história de “se’s”, assim como qualquer pessoa, é impossível que os membros da família Paiva não pensem em um destino diferente se certas escolhas fossem diferentes: se eles tivessem se exilado no exterior como outras famílias, se os recém-exilados no Chile não tivessem enviados cartas para Rubens Paiva e assim impulsionado a sua prisão, se os superiores tivessem tomado alguma providencia quando comunicados que a tortura do ex-deputado estava além dos limites. Enfim, os vários “se’s” que poderiam mudar o destino de qualquer pessoa, mas que servem apenas para torturar o psicológico de quem os imagina.

A intensidade de uma lembrança é diretamente proporcional á sua antiguidade.

A leitura é muito interessante por misturar também uma visão da infância com os dias de hoje, ao correlacionar momentos de sua família com fatos históricos do Brasil, que vão da própria ditadura, passando pela anistia até o direito de ter o atestado de óbito de quem nunca mais foi encontrado. 

Entre as lembranças há também algumas referências ao acidente que deixou Marcelo tetraplégico, mas estes não são detalhados, já que a história é contara em Feliz ano velho.

A cara de Eunice continuou molhada e salgada durante muito tempo, tal como naquela manhã de Búzios.

A escrita de Marcelo Rubens Paiva é fácil e fluída, sem maiores sentimentalismos, ele narra desde momentos cômicos até os mais tensos sem pesar no drama, é possível sentir a preocupação, o medo e a força com que eles enfrentaram cada situação, existe o sofrimento, mas não há paralisia. A base de tudo é Eunice, que não era uma típica mãe italiana e a quem me parece de certa forma libertada em meio a tragédia.

Família Rubens Paiva não chora na frente das câmaras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista.

Talvez seja estranho escrever isso, mas foi o sentimento que eu tive. Eunice é uma mulher forte e inteligente, tranquila e lutadora. Mas enquanto esteve ao lado de Rubens Paiva era apenas uma esposa que cuidava da casa e dos filhos. E embora acredite que não seja um demérito a segunda opção, fica claro que esta não era a escolha natural dela, até ser jogada em um redemoinho e dar um novo rumo a sua vida, e de seus filhos.

Era prática, culta, magra, sensata e workaholic.

Na terceira e última parte do livro o foco acaba indo para a própria doença. Usando como base explicações do doutor Drauzio Varella, discute desde a origem do Alzheimer até os seus estágios, situando o comportamento de sua mãe nos já enfrentados. Dos pequenos esquecimentos até o não poder mais viver sozinha, os desafios de viver com mudanças nada sutis e o sorriso de lembranças que surgem na forma de um bebê trazem a tona toda a dificuldade nesta etapa para as famílias que precisam enfrentar o problema.

Lutou para descobrir a verdade, para denunciar a tortura, os torturadores.

Um livro sobre as lembranças de um filho em relação aos seus pais, da força e coragem de uma mulher que soube recomeçar. Um livro para gostar de ler e refletir.

Nos almoços de domingo, ela fica onde queremos que ela fique.

Uma observação: o livro finaliza no outono de 2015, e Eunice Paiva veio a falecer em dezembro de 2018.

Ainda estou aqui
Marcelo Rubens Paiva
Editora Alfaguara
2015 – 295 páginas

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Uma casa no fim do mundo



Sinopse: Narrado a quatro vozes, Uma casa no fim do mundo acompanha a vida de Jonathan e Bobby, dois jovens solitários de Cleveland que se aproximam na época da escola e desenvolvem uma delicada relação de amor e amizade. Depois de terminar a faculdade, Bobby vai ao encontro de Jonathan em Nova York e conhece Clare, com quem o amigo divide o apartamento. Quando Clare se envolve com Bobby, os três decidem comprar uma casa perto da emblemática Woodstock e construir juntos seu ideal de família. Do aclamado autor de As horas, este é um relato magistral da complexidade dos relacionamentos humanos e da busca pelo verdadeiro significado de “lar”.

A TAG Curadoria fechou o ano de 2019 com um livro indicado pela escritora argentina Mariana Enriquez. Ao contrário do gênero preferido da curadora, Uma casa no fim do mundo do escritor Michael Cunnigham não possui nada de terror para quem sabe lidar bem com sentimentos humanos.

Quer ter alguma coisa para deixar para nós, alguma coisa para passarmos adiante.

Narrado em primeira pessoa, cada capítulo é identificado pelo nome do personagem que está contando a sua história, facilitando a vida do leitor que não se perde quanto ao narrador. 

Podemos dizer que a história possui dois personagens principais, que são Bobby e Jonathan, e suas personalidades são apresentadas logo nos dois primeiros, quando ambos possuem cinco anos. O capítulo de Bobby é como uma pintura, rápido e ao mesmo tempo forte, ele nos conta uma lembrança carregada de sonhos de infância. Já Jonathan, como um futuro jornalista, é detalhista, e conta passo a passo um episódio da sua vida familiar.

Creio que sei o momento em que meu interesse se transformou em amor.

A casa do título é um detalhe, pois a história é muito mais do que a sinopse descreve. Em uma escrita fluida e delicada, Michael Cunnigham nos convida a conhecer cada um de seus personagens, ora pelos próprios olhos, ora pelos outros três. 

Nenhum deles é um super-herói, nenhum deles é perfeito, são pessoas comuns, com suas histórias, escolhas, desafios, amores e desafetos. Mais do que julgar, é um exercício de empatia compreender cada um deles.

Você pode ter o mundo inteiro sem me botar para fora da sua vida.

Ouso dizer que Bobby é o personagem chave, calado, que as vezes pode parecer um tanto idiota para os demais, quando na verdade ele é o que melhor decifra as pessoas. Ele é também o que possui mais perdas, o que lhe dá uma carência e ao mesmo tempo uma forma diferente de viver, já que ele vive pelos vivos e pelos mortos. Assumo que foi o meu personagem favorito, que muitas vezes tive vontade de abraça-lo ou de simplesmente sentar ao seu lado para curtir uma música.

Aliás, para quem curte fazer seleção musical para seus livros, Uma casa no fim do mundo é um primor, com vários clássicos do rock estando presente em vários capítulos.

Será que eu fora o tipo de mãe que afasta o filho das mulheres?

Jonathan é o contador de histórias, que nos traz a escolha pela homossexualidade, o eterno solteirão na visita aos pais, o cara que vive a superficialidade por estar em busca do momento certo para a felicidade. É através dele que o autor também trás a grande angústia com o aparecimento da AIDS, que nos anos 80 era uma sentença de morte.

Ele é tão caninamente fiel em sua dedicação, tão interminavelmente agradável.

A narrativa é complementada por duas vocês femininas, começando por Alice, mãe de Jonathan. Uma mulher que não se adequa aos ritos da sociedade dos anos 60, que escolheu o casamento precocemente para fugir da vida familiar, que ama muito o seu filho e não quer ficar fora do seu mundo. Que se torna uma segunda mãe e uma referência para Bobby.

Seu personagem traz o leitor para os vários papéis que uma mulher pode exercer, em diferentes fases da vida. Da esposa insatisfeita a mãe que se abre para as descobertas junto com dois adolescentes. 

Eu não morreria sem me realizar, pois estive aqui, bem aqui e em nenhum outro lugar.

Clare completa o quarteto sendo uma figura mais controversa, figura feminina na casa com os dois rapazes, é uma rica herdeira que vê a juventude se esvaindo enquanto o relógio biológico começa a bater. Sua intimidade com Jonathan é superficial, visto que os dois conseguem dividir um teto, mas não os problemas. 

Um livro maravilhoso, reflexivo e encantador, em uma leitura que pode perfeitamente misturar calma e pressa, conforme o momento. Creio que ficou claro o quanto adorei ler este livro, ao qual recomendo de olhos fechados.

Uma Casa no Fim do Mundo
A Home at the End of the World
Michael Cunnigham
Tradução: Isa Mara Lando
TAG Curadoria - Companhia das Letras
1990 - 387 páginas

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

As Garotas Madalenas


Sinopse: Dublin, 1962. Dentro dos portões do convento das Irmãs da Sagrada Redenção opera uma das Lavanderias de Madalena. Outrora um lugar de refúgio, essas lavanderias se tornaram sombrios reformatórios de trabalhos forçados. E é para lá que a jovem Teagan Tiernan, de 16 anos, é levada pela família, depois de ter sido transformada em personagem de uma intriga que também envolvia um jovem e belo padre.
Entre mulheres “em desgraça” – mães solteiras, prostitutas, menores infratoras – e garotas comuns, cujos únicos pecados se resumiam a serem bonitas ou independentes demais, Teagan faz amizade com Nora Craven, uma jovem rebelde que pensou que nada poderia ser pior que sua miserável vida familiar. Mas isso até conhecer a Madre Superiora e suas punições cruéis – sempre em nome do amor. Entre fracassadas tentativas de fuga, Teagan e Nora vão descobrir como é árduo o mundo exterior, principalmente para jovens de reputação arruinada.

Encontrei este livro caminhando ao acaso pela livraria, o título me chamou a atenção ao utilizar uma das figuras de história mais contraditória: Maria Madalena. A sinopse cheia de detalhes me deixou em dúvida, mas ao ver que o subtítulo Quem poderá salvá-las? Não estava no original, me decidi por leva-lo.

Assim era a vida, pensou, ensolarada em um momento, e nublada, em outro.

Narrado em terceira pessoa, temos três moças como personagens principais nesta história, que começa de forma boba, até mesmo leve, e vai ganhando uma intensidade ao qual você se pega virando páginas e torcendo por cada uma delas, conforme o destino, ou melhor, o autor V.S. Alexander, vai nos surpreendendo.

Suas mãos estavam descascadas e vermelhas de alvejante e detergente.

A primeira jovem é Teagan, uma menina bonita, filha única de um casal de irlandeses, que em uma brincadeira boba com uma amiga fica alguns minutos sozinha com o padre recém-chegado. O homem é bonito, atraente, mas nada ocorre entre eles.

Padres não mentem.

Mas este encontro é o suficiente para mexer com ele, que revela os pensamentos sexuais ao padre mais velho da igreja. A solução encontrada? Mandar Teagan limpar os pecados que não são seus em um convento de freiras.

Eu tenho tarefas mais importantes a cumprir do que passar a manhã ouvindo o canto dos pássaros ao lado de uma pecadora.

A menina vaidosa e bem arrumada perde absolutamente tudo, incluindo o seu nome. Em um lugar onde a desesperança está em cada olhar, ela tenta fugir da loucura ao fazer amizade com outra novata.

Um vazio terrível apoderou-se dela; até as lágrimas se recusavam a cair.

Esta novata é a segunda jovem principal da história. Nora detesta a família e suas regras, tenta desesperadamente arrumar uma alternativa para ir embora para Londres. E nesta ansiedade, em um passo em falso, vai parar no meio das freiras.

Todas as Madalenas sofreram morte cerebral.

Seu desdém lhe rende uma solitária logo de início, mas seu espírito corajoso e rebelde não tem maturidade suficiente para aguentar as consequências de atos impensados em um local cujo objetivos parecem ser faturar com a lavanderia e quebrar o espírito das jovens que trabalham em regime de escravidão.

...se eu tivesse que escolher uma companheira de cela na prisão, seria você.

A terceira moça é Lea, que está no convento há quatro anos e não lembra mais o seu verdadeiro nome. A menina órfã foi colocada ali pelo padrasto, que não queria mais sustenta-la. Diferente das outras, ela não realiza os trabalhos forçados, e sim trabalha em um livro.

Lea é a figura sobrenatural da história, cujas revelações servem para contar um pouco mais dos fatos das verdadeiras lavanderias de Madalena. Pois ao contrário das personagens, estes locais são eram mera ficção até o ano de 1996, e seus crimes são tão chocantes quantos os de pedofilia. 

O desejo de se dobrar às freiras, de chorar e de desistir de tudo nunca fora tão forte.

A quarta personagem da história é a Madre Superiora, uma mulher que diz com frequência a palavra amor sem ter um pingo dele dentro da alma. As justificativas para os castigos e maldades revelam um grau de loucura de uma pessoa despreparada para lidar com outros seres humanos, mas respeitada pelos que a cercam.

Eu não quero que você morra no pecado. Quero que ressuscite no paraíso.

As Garotas Madalenas é um livro tenso e intenso, onde religião, machismo, traumas, desafetos se misturam em uma escrita fluída, de fácil leitura, mas difícil de esquecer. 

As Garotas Madalenas
The Magdalen Girls
V.S. Alexander
Tradução: Nilce Xavier
Editora Gutenberg
2017 – 283 páginas

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Catarina, A Grande



Sinopse: Catarina, a grande, foi a última mulher a governar a Rússia e deixou marcas sem precedentes no país. Biógrafo premiado, Robert K. Massie recorre a trechos de cartas e diários pessoais da czarina, recriando um mundo de mudanças políticas, arte, guerra, amores e um capítulo fascinante da história russa.

Filha do príncipe Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst com a princesa Joana Elizabeth, Sofia era uma princesa alemã de um reino pequeno em comparação aos grandes impérios da época. Sua vida sofre a primeira mudança quando a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, chama a moça com então 14 anos até a Rússia. Prima de segundo grau de Pedro, a jovem parecia ter a docilidade necessária para ser a esposa do futuro Czar.

Ela se sentou no trono de Pedro, o Grande, e governou um império, o maior do mundo.

Em São Petersburgo ela muda de religião, apesar dos apelos paternos, troca o nome para Catarina e se casa com Pedro III, um menino órfão, de ideias perdidas, escolhido para ser o herdeiro do trono simplesmente por ser sobrinho de Elizabeth. Em um casamento infeliz, a segunda mudança de sua vida ocorre após a morte da imperatriz, quando após decisões equivocadas do jovem imperador, ela dá o golpe que a torna a última imperatriz da Rússia.

Fui para o meu quarto ainda chorando e pensando que a morte era preferível a essa vida de perseguição.

O biografo Robert K. Massi nos conta a história de uma menina triste, criada sem amor materno, afastada do afeto mais próximo que era o pai, e colocada a mercê de uma imperatriz e seu sobrinho que tão pouco lhe dão atenção. 

Mas também descreve uma mulher forte, inteligente, leitora voraz, carismática e atenciosa com os demais. Encantando facilmente os que a conhecem, o que abre caminho para que muitas das suas ideias sejam colocadas em prática durante o seu reinado.

Em paralelo temos as guerras por domínios, alianças são feitas e desfeitas em um grande jogo de interesses, jogo este que Catarina aprende rápido, a ponto de se tornar mais russa que o marido imperador ao qual derruba, ganhando o amor do seu povo.

Ficou tão desagradável à vista que meus olhos se encheram de lágrimas, pois naqueles dias eu tentava esconder ou disfarçar tudo o que era repreensível em meu marido.

O livro dividido em sete partes, sendo que a inicial tem a colaboração das memórias da imperatriz, aos quais ela aparentemente não deu seguimento durante o seu reinado (ou não foram a público), e a várias cartas trocadas com intelectuais da época, amantes, e impressões de outros monarcas sobre a forte figura de Catarina.

Particularmente eu achei o início do livro um tanto cansativo, algumas descrições e episódios parecem se repetir, alongado situações que não precisam de tanto reforço. Por outro lado muitas vezes me peguei pensando quem realmente era essa mulher.

A realidade de sua vida diária era diferente, cheia de frustrações, contrariedades e rejeições.

Uma mulher que se sujeita a inúmeras humilhações, que não consegue criar os próprios filhos, que é subjugada, e mesmo assim tem sangue frio e poder de manipulação para virar o jogo e se tornar uma das maiores imperatrizes da história. 

Confesso que durante a leitura me ficou a dúvida se a tomada de poder de Catarina foi movida pela própria sobrevivência, já que seu casamento aparentemente nunca foi consumado, seus filhos eram de amantes e Pedro III já anunciava que outra mulher seria a imperatriz, com direito a ameaçar a jovem esposa com prisão. Ou se seus anos de leitura somado a sua inteligência, fizeram com que o plano já estivesse sendo elaborado antes da morte da imperatriz Elizabeth.

Conseguir aliados contra Pedro III não era difícil, ele nunca deixou de ser germânico, sua admiração pelo imperador Frederico II da Prússia, a quem favoreceu durante o seu curto reinado, o tornou bastante impopular entre pessoas da nobreza, militares e aliados. 

Aliás, nesta biografia, a visão que se tem de Pedro não é exatamente positiva, fazendo crer que ele era um homem mimado, grosseiro e que não havia crescido. Existem pesquisas de historiadores que tentam abrir uma nova página sobre este personagem da história, alegando que era um soberano culto e aberto a reformas democráticas, mas a visão que temos aqui é a de Catarina. 

Sua conclusão era que Pedro, assim como Ivan VI, teria que ficar prisioneiro na Rússia.

Um ponto interessante do livro, é que ele não é apenas uma biografia só de Catarina, mas da própria Rússia. E retornando aos anos de mil e setecentos, nos deparamos com a corrupção de todos, sem exceção, para atingirem os seus objetivos, que vão da conquista de um país a construção de um castelo.

O dinheiro comprava amizades, lealdades e tratados.

O poder aqui não encontra limites, a ponto de a própria imperatriz Elizabeth ter condenado o legítimo herdeiro ao trono desde o início da sua infância a prisão. Os mais fortes venciam, os mais frágeis eram manipulados ou simplesmente tirados do caminho.

Algo que eu desconhecia totalmente e me surpreendeu bastante foi descobrir que a vida dos servos russos era muito semelhante as dos escravos negros na América. Os servos russos não possuíam nenhuma liberdade, pertenciam ou ao Estado, ou a Igreja, ou a indústria, ou a senhores de terra ou a nobres. Eram comprados e vendidos, eram espancados e não possuíam escolhas. A diferença aqui é que a escravidão não ocorria pela cor, mas por serem de origem pobre e analfabeta. 

No livro existe todo um capítulo, justamente chamado de Servidão, que conta a história destas pessoas. Catarina era uma discípula de Montesquieu e Voltaire, conhecia as ideias iluministas dos direitos do homem, e era contra a escravidão. Mas neste ponto, ao estar em uma posição que poderia mudar isso, ela se dobrou. Quem assinou o decreto de emancipação dos servos russos foi o seu neto Alexander II em 1863.

Apesar das crenças pessoais e apreensões de Catarina quanto à servidão, dadas as reações dos nobres presentes na assembleia, ela se absteve de maiores confrontações.

Outro fato que me chamou bastante a atenção foi ver a Revolução Francesa do ponto de vista dos que estavam no poder. Luís XVI é descrito como um homem amável, bem-intencionado, desajeitado e com dificuldade de tomar decisões. A morte do Rei e de Maria Antonieta tiveram efeitos em Catarina. Se antes as notícias circulavam livremente pela Rússia, agora a imperatriz temia que a revolução se alastrasse até o seu império. Gerando assim uma significativa mudança sobre sua crença na liberdade de expressão e pensamento.

A título de curiosidade, o livro também aborda o funcionamento da arma preferida dos franceses durante a revolução: a guilhotina. Em um debate sobre ela ser mais humana ou não em relação as demais armas, e a pergunta se haveria algum traço de consciência segundos depois da cabeça ser separada do corpo.

A biografia é feliz em mostrar desde a infância até a sua morte a vida da imperatriz. Catarina entrou para a história ao trazer da Europa para a Rússia diferentes tipos de arte, construir hospitais e escolas, e de ser exemplo para o seu povo da importância de tomar a vacina contra a varíola. Sendo realmente uma legítima sucessora de Pedro no crescimento da Rússia, e se tornando uma das maiores imperatrizes da história.

Um livro de leitura muito interessante, principalmente para os fãs de história, já que durante um tempo literalmente o leitor se sente vivendo entre os palácios, cidades e ruas do que já foi um dos maiores impérios do mundo.


Catarina, A Grande
Retrato de uma mulher
Catherine the great – Portrait of a woman
Robert K. Massie
Editora Rocco
211 - 639 páginas

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Êxtase da Transformação



Sinopse: A jovem Christine divide seu tempo entre os cuidados com a mãe doente e o trabalho burocrático em uma agência dos correios. Até que um convite inesperado de sua tia para encontra-la em um luxuoso hotel nos Alpes suíços tira a garota da vida de privações e a lança em um mundo repleto de prazer, bonança e privilégios. Essa experiência, contudo, mostra-se apenas um vislumbre de alegria, pois logo Christine se vê novamente amargurada em sua antiga realidade. Com uma prosa vívida e elegante, Stefan Zweig faz em Êxtase da Transformação um retrato poderoso da felicidade, da desilusão e das consequências devastadoras da guerra.

Dizem que a ignorância é uma benção. Christine possui lembranças de sua vida antes da primeira grande guerra, quando era ainda adolescente e sem preocupações. Só que houve mortes e empobrecimento na sua família, o que mudaram o rumo do seu destino.

...desde os dias da infância não se sentira tão leve, andar assim, como se estivesse voando: começara nesta criatura humana o êxtase da transformação.

Mas nos dias atuais ela já está acostumada a sua rotina na pequena aldeia austríaca, onde apesar de ter uma irmã, cuida sozinha da mãe doente, e trata com simpatia a todos que vão até a repartição que trabalha nos correios. Ela está com 28 anos, não sabe se é jovem ou velha, e aos poucos, conforme a vida vai melhorando, tenta colocar pequenas distrações.

Tudo muda quando uma tia, que mora nos Estados Unidos, manda um convite para sua mãe visita-la durante a sua temporada pela Europa. Devido a sua doença, vem à decisão de que Christine precisa de umas férias, e é ela quem vai para os Alpes.

...pela primeira vez uma pessoa percebe, por seu contato com o poder supremo, a força das viagens, capaz de revolver a alma, capaz de, com um único rasgo, remover a grossa capa do hábito, e devolver a essência nua e fértil ao correntoso elemento da transformação.

Logo na chegada aos Alpes o primeiro estranhamento, suas roupas simples e empobrecidas a tornam invisível em um mundo de luxo e sobrenomes importantes. Sua tia, percebendo isso, separa algumas roupas suas e a leva para um salão para cuidar do seu cabelo, dando luz a jovem mulher.

Mas a suspeita não a aborrece, pelo contrário, ela sente uma certa disposição maligna de ser chicoteada em seu abandono, de ser maltratada em sua humilhação.

Em um curto espaço de tempo a menina deslumbrada com o enorme quarto, as roupas macias e a comida sem fim dá espaço para uma mulher que esquece a tal ponto do seu passado que muda até de nome, sendo assim respeitada e admirada por vários dos hóspedes do local.

Só que este mundo paralelo acaba, e voltar à realidade não é nada fácil. E a narrativa ganha uma força maior com todos os questionamentos e mudanças que Christine passa, com cenas emblemáticas e diálogos atemporais.

Num minuto a gente está velha, e murchou, e morre, e nada sabe, e nada viveu e nada aconteceu...

Narrado em terceira pessoa, sem nenhuma divisão por capítulo, Stefan Zweig descreve muitos detalhes no início, como forma de situar o leitor o contrastes dos mundos. Da pobreza a riqueza, o leitor consegue sentir o vento gelado, o perfume da madame, o gosto das refeições. Aqui, para não achar que a narrativa é enfadonha, é necessário colocar a imaginação para trabalhar e entrar nos dois mundos, para assim compreender os sentimentos da personagem principal.

Já na segunda etapa, tempos um forte discurso político, onde todos os sistemas são colocados no mesmo saco em uma Europa empobrecida, enfraquecida pela guerra, com fome e trabalho escasso. A divisão social não é justa, e apenas uma minoria consegue manter o mesmo estilo de vida. Existem referências entre a classe média dos que envolvidos com os partidos conseguem melhorar a sua vida mais rapidamente. 

O personagem que trás tudo isso é Ferdinand, que saiu jovem e cheio de ideais para lutar na guerra e retornou sem futuro, sem apoio e sem oportunidades. Um espelho de Christine ao relatar sua amargura e seus questionamentos.

...não sou nem comunista, nem capitalista, para mim é tudo a mesma coisa, só o que me importa é a pessoa que eu sou, e o único Estado que sirvo é o meu trabalho.

A curiosidade neste livro é que ele foi encontrado após o suicídio do escritor e de sua mulher, que encontrava-se totalmente decepcionado com o avanço de Hitler na segunda guerra mundial e os rumos da humanidade. Por não haver divisão de capítulos e uma diferença na própria forma de escrita, pode ocorrer a duvida de que se o livro estava realmente finalizado.

Também não lhe conta que ela havia comprado um bilhete de loteria, com o qual ela, como todos os pobres, espera um milagre.

O livro de novembro da TAG Curadoria, indicado pela curadora Ayelet Gundar-Goshen foi escrito entre os anos de 1931 e 1940, sendo publicado somente em 1981 na comemoração do centenário de nascimento de Stefan Zweig. O leitor mais curioso poderá linkar os sentimentos dos dois personagens Christine e Ferdinand ao do próprio autor, com suas perdas e decepções que o levaram a uma decisão tão extrema.

O livro é forte, a leitura reflexiva, e me fez ter vontade de ler mais títulos do autor. Sua escrita tem algo de muito humano e atual. 

Êxtase da Transformação
Rausch der Verwandlung
Stefan Zweig
Tradução: Kurt Jahn
TAG Curadoria – Companhia das Letras
1981 – 219 páginas