sexta-feira, 15 de setembro de 2023

A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta



Sinopse: "O diabo não frequenta os inferninhos de Copacabana com medo de ficar desmoralizado", anota Stanislaw Ponte Preta. Um dos mais irresistíveis intérpretes de nossa cultura e de nossos costumes, o pseudônimo (ou seria heterônimo) de Sérgio Porto misturou lirismo e humor para retratar como ninguém a beleza e o absurdo do Brasil durante as décadas de 1950 e 1960. Parte de uma geração de cronistas que revolucionou a literatura nacional, Porto foi campeão de audiência, lido e comentado por brasileiros de diferentes classes e idades. Nesta farta seleção, o leitor tem acesso às melhores crônicas de um autor que marcou época. Saboroso, hilariantes, implacáveis e debochados, seus textos se revelam mais atuais do que nunca.

Com seleção e apresentação de Alvaro Costa e Silva, A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta leva o leitor através desta coletânea de crônicas de volta aos anos de 1950 e 1960 no Brasil e apresenta - ou relembra conforme a idade do leitor - personagens como Tia Zulmira , Primo Altamirando e Rosamundo do cronista Stanislaw Ponte Preta, ou melhor do carioca Sérgio Porto.

Separado em oito partes identificando entre parênteses o ano,  quem nos introduz ao mundo de Stanislaw Ponte Preta é justamente Tia Zulmira, uma mulher que já foi condensa, vedete, cozinheira e dona de uma personalidade forte. Entre os personagens apresentados, ela foi a minha preferida. Adorei a ironia, o deboche e as situações sem noção envolvendo essa figura.

Depois fez ver que existem certas coisas que chateiam a gente de maneira tão sutil, que raramente a gente dá pelo motivo da chateação.


Quem segue a Tia Zulmira é justamente um primo criado por ela: o Primo Altamirando, um cara de caráter duvidoso, mas figurinha carimbada em noventa por cento das famílias. Assim como outras figuras que aparecem pelas crônicas.

Mas não, A Fina Flor não é um caso de família em livro, mas sim crônicas recheadas de ironias e deboche, as vezes escancarados, outras bem disfarçadas sobre os aspectos culturais, comportamentais, morais, urbanísticos e naturalmente políticos daquela época.


O que eu achei de A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta

O conjunto de crônicas que compõe A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta apresentam um retrato bastante interessante da década de 1950/1960 no Brasil. Permitindo uma visão mais divertida para quem não viveu a época onde importantes fatos históricos ocorreram no país.

Seja com parentes fictícios, seja com anedotas, não raro me recordei de outros cronistas do cotidiano, como o Luís Fernando Verissimo e o David Coimbra, já citados no blog por suas obras.  Pois a escrita de Sérgio Porto possui leveza e aquele toque de quem está sentado na mesa do bar contando história para os amigos.

Por que teria saído da casa de câmbio tão enfezada? Vai ver foi o preço do dolár.


Por ser uma obra do "século passado" algumas histórias e termos podem ferir os leitores mais sensíveis, já que naquela época não havia politicamente incorreto. Em compensação muitos dos comportamentos apresentados ainda estão longe de serem aposentados. Demonstrando que a sociedade não mudou tanto assim.

Outro ponto presente é a crítica ao governo, que pode ser sutil, irônica ou bem direta. Lembrando que o período englobado pega tanto o período do Jango quanto da ditatura militar, havendo muita censura nesta última e exigindo uma escrita onde a crítica está escondida no deboche do dia a dia dos personagens.

Tá na cara que um camarada distraído assim não dava certo em emprego nenhum e, de decadência em decadência, ele acabou arrumando um reles empreguinho de vendedor de bilhetes de loteria.


No geral me deparei com crônicas engraçadas, outras que retratam bem um período, algumas sem noção e outras que achei chatas mesmo. Não foi um livro que li direto, de uma única vez. Levei alguns meses intercalando com outras leituras, algo que livros de crônica e contos permitem com tranquilidade.

Um livro bem interessante para ver um pouco do Brasil em décadas passadas com uma visão mais bem-humorada, motivo pelo qual deixo a recomendação para quem se interessa pelo período.

A Fina Flor de Stanislaw Ponte Preta
Stanislaw Ponte Preta/Sérgio Porto
Organização: Alvaro Costa e Silva
Companhia das Letras
2021 - 358 páginas


terça-feira, 29 de agosto de 2023

A Mulher do Século



Sinopse: Mame Dennis é uma mulher sofisticada e extravagante que, no final dos anos 1920, vive com ousadia e alheia ao que os outros pensam. Porém, quando seu irmão morre, ela se torna a guardiã legal do jovem sobrinho, o educado Patrick. Apesar do choque de temperamentos, pouco a pouco eles desenvolvem uma relação de carinho e amizade, enfrentando juntos não apenas as convenções sociais, mas também a Grande Depressão norte-americana.

No mês de Junho/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora italiana Ilaria Gaspari A Mulher do Século, do escritor americano Patrick Dennis/Edward Everett Tanner III. O mimo foi um jogo de cartas.

Em um dia de chuva o Patrick adulto se depara com uma antiga edição da revista Digest e um artigo escrito por um famoso escritor, que trata da personagem mais inesquecível que ele teria conhecido. Mas já nas primeiras linhas do texto o narrador tem despertado suas memórias com a pessoa mais inesquecível que surgiu em sua vida: tia Mame.

Personagem mais inesquecível? Faça-me o favor, esse escritor não faz a menor ideia do que está falando!


Tudo começa quando Patrick tinha 10 anos, órfã de mãe, o pai faz um testamento informando quem cuidara do menino e quem administrará suas finanças. Há uma série de condições, como o filho ser criado como protestante e ser enviado para escolas conservadoras.

A morte paterna não tarda a chegar e Patrick acompanhando pela empregada da família se vê arrumando as malas e indo para Nova York. Mas ao ir para a casa da tia então desconhecida, um novo mundo se abre para o menino, que passa a viver diferentes aventuras com uma mulher realmente a frente do seu tempo.

Mas Tia Mame não era de admitir derrotas. Existia nela um certo espírito insolente, típico de uma escoteira tagarela.


De escolas experimentais, passando pelo crash da bolsa que tornou milionários em pobres em poucos dias, casamento, ida para a universidade, guerra mundial, entre outros eventos, o narrador personagem traz além de uma comparação com a personagem inesquecível da revista a sua visão de por que sua tia é a mais única entre todas.

Tudo com uma ironia e excentricidade que podem arrancar boas gargalhadas e obrigar o leitor a concordar que tia Mame é sim uma personagem inesquecível.


A escrita de Patrick Dennis


A primeira pegadinha de A Mulher do Século está no nome do autor, que sim, é o mesmo do narrador personagem e um dos vários pseudônimos do autor norte-americano Edward Everett Tanner III, que foi um dos autores mais vendidos da metade do século 20 e chegou a ter três de seus livros de uma só vez na lista dos mais vendidos do New York Times.

Em A Mulher do Século a narrativa utilizada é em primeira pessoa, sendo o relato das memórias de Patrick Dennis em relação a várias etapas da sua vida, do final da infância até a vida adulta, sempre com a presença de sua Tia Mame.

Quando a Grande Depressão a atingiu, ela se jogou em muito mais carreiras do que a Personagem Inesquecível e, de um jeito ou de outro, ela também conseguiu nos salvar.


A escrita é uma mistura de ironia, deboche, drama e comédia. Gerando um livro leve e engraçado, ao mesmo tempo que crítico e reflexivo. Pois ele relata não apenas os momentos históricos das épocas vividas pelos personagens (como o crash da bolsa, a segunda grande guerra, a conquista da autonomia feminina, conflitos entre o norte e sul dos EUA, entre outros assuntos abordados) como também o estilo de vida da alta classe nova iorquina. 

Outro ponto interessante no livro é a sua divisão, ele é dividido em dez capítulos longos, mas muito redondos com início, meio e fim da memória contada. Se fosse transformado em uma minissérie, os capítulos já estariam previamente distribuídos. Aliás, a escrita de A Mulher do Século tem bem o estilo cinematográfico, sendo muito fácil ao leitor visualizar as cenas e entrar em sintonia com os diálogos.

Ela nunca revelava sua idade exata e, em um documento oficial, uma vez, escreveu "acima de vinte e um", o que ninguém pareceu se importar de questionar."


Aliás, A Mulher do Século já foi adaptado para o cinema - um dos filmes está disponível no Youtube para quem ficou curioso - como também peça teatral em um musical da Broadway.



O que eu achei de A Mulher do Século


Eu adorei a mistura de humor e crítica encarnada por uma mulher muito à frente do seu tempo - inclusive do nosso atual. Tia Mame é uma personagem que encanta e enlouquece as pessoas a sua volta, seja com o seu estilo de encarar a vida, seja pelo toque de sorte combinado com suas escolhas.

Em cada capítulo uma surpresa que podia ter um toque surreal, sem noção, superação ou tudo junto misturado. Em paralelo é muito bonita a forma como a tia e o sobrinho se conectam, apesar de personalidades tão diferentes, criando laços definitivos.

A carreira literária de Tia Mame surgiu mais como uma espécie de terapia, para tirá-la da depressão na qual ela havia mergulhado ao se tornar viúva.


Dei muita risada com a escola diferentona escolhida pela tia Mame para Patrick na infância e o desespero do Sr. Babcock - administrador da herança do menino - ao conhecer o local. O momento sogra sendo sogra se unindo a ex do filho Burnside, para separa-lo de Tia Mame me garantiram gargalhadas pelas situações inusitadas.

Mas também tive meu momento de agonia em um capítulo que Tia Mame resolve adotar órfãos de guerra e achei o capítulo das irmãs fantasmas - não, não tem fantasma na história, mas apelidei assim pelas irmãs andarem sempre de branco - o mais fraco. Mas não desnecessário, pois ele tem motivo para estar ali.

Quer dizer, existem certas coisas que você faz do jeito certo ou é melhor você nem fazer.


No geral eu adorei, me diverti e achei a leitura extremamente agradável. Me apaixonei pela Tia Mame, o que me faz recomendar e muito a leitura.


A Mulher do Século
Auntie Mame
Patrick Dennis / Edward Everett Tanner III
Tradução: Davi Boaventura
TAG - Dublinense
Edição 2023 - 352 páginas
Publicado originalmente em 1955

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A boneca de Kokoschka



Sinopse: Em uma Dresden devastada pelos bombardeios, Bonifaz Vogel esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. A partir daí, vão entrando em cena diversos personagens, incluindo Mathias Popa, autor de A boneca de Kokoschka, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka e da sua boneca, feita à imagem e semelhança da sua amada. E dessa singular galeria de vidas, Afonso Cruz compõe um irônico e magistral jogo de matrioskas, no qual a realidade se confunde com a ficção e cada história é ressignificada pelo olhar do outro.

Em meio a segunda guerra mundial, o jovem Isaac Dresner corre desesperadamente para salvar a sua vida. É na loja de pássaros onde seu pai havia construído uma cave que ele encontra a salvação ao se esconder no local. Um dia, passa a falar de seu esconderijo com Bonifaz Vogel, o dono do local, que curiosamente obedece a voz sem dono, gerando uma curiosa relação.

Com o fim da guerra, Isaak apesar de ser o mais jovem, adota Bonifaz, ao grupo se une Tsilia, que os encontrou por acaso na rua após fugir do local onde morava. Mudam de país para se reconstruir através da pintura e de uma livraria. E é o encanto de Isaak pelos livros que o faz cruzar com o escritor Mathias Popa.

Sabia que aquilo acontecia dentro da sua cabeça, mas tinha a estranha sensação de que as palavras vinham do soalho, passando-lhe pelos pés.


E este encontro irá gerar um livro dentro de um livro, onde o foco é Adele Varga, que após a guerra contrata um investigador para descobrir os mistérios que sua avó escondida. A chave de tudo é o autor que se torna personagem na própria história e transforma tudo em um jogo de espelho, quando as semelhanças entre a realidade da ficção de Afonso Cruz começam a ser refletida na ficção de Mathias Popa, e vice-versa.

E é neste romance também que o leitor irá encontrar a explicação do título, ou melhor, toda a origem da criação da boneca de Kokoschka.


A escrita de Afonso Cruz


A boneca de Kokoschka recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura em 2012, mas este não é o único motivo pelo qual o livro do escritor português Afonso Cruz merece ser lido.

Com uma escrita que mistura agilidade, reflexões, cenas fortes, toques cômicos e lirismo, ele divide a sua boneca de Kokoschka em três partes mais o romance de Mathias Popa. Sendo a primeira parte referente a guerra, a segunda parte com as memórias de Isaac - e por tabela de Bonifaz e Tsilia - e seu encontro com Popa, o livro de Popa e a última parte onde temos um novo personagem.

As pessoas diziam que ele era estúpido e ele concordava acenando com a cabeça e passando os dedos no queixo.


Os capítulos são curtos, rápidos, as vezes fortes, outras vezes objetivos e também há momentos em que se explica um pouco mais sobre os personagens. A narrativa em sua maioria está em terceira pessoa, havendo alguns momentos nas memórias e cartas que o autor utiliza a narrativa em primeira pessoa.

O resultado é um livro envolvente que exige atenção para não se perder nos acontecimentos e reviravolta, pois se o início da história parece mais simples, no decorrer das páginas ela vai ganhar uma complexidade que não permite devaneios entre os parágrafos.

 

O que eu achei de A boneca de Kokoschka


O livro tem logo de início a cena mais emblemática para mim, Isaac Dresner brincando com um amigo vê o mesmo ser baleado na cabeça por um soldado alemão, e quando o garoto vai ao chão, a sua cabeça cai justamente no pé direito de Isaac. O peso da cena trágica o acompanhará para sempre, já que ele passa a coxear ligeiramente na perna direita, carregando eternamente os efeitos de uma guerra.

Já para o final achei surpreendente o cuidado pelos detalhes da obra de Mathias Popa, já que o livro dentro do livro é completo, com direito a capa, capítulos e apresentação do autor. E claro, o nome da editora do Isaac.

E, se o que é harmonioso e proporcional é fácil de reconhecer, donde vem essa atroz desproporção que vemos no mundo?


E apesar de ter sentido um certo estranhamento e perdido um pouco do meu ritmo de leitura quando comecei a ler o livro dentro do livro, no geral eu gostei bastante da obra.

Principalmente da primeira parte que eu achei triste e ao mesmo tempo formidável o fato do menino se comunicar pelo chão e o senhor simplesmente obedecer a aquela voz. O cuidado do menino que passou a auxiliar até nos negócios da loja e no fim da guerra se sentia pai de quem o ajudou sobreviver.

É assim o nosso destino, fazemos curvas e parábolas para que ele se cumpra com perfeição.


Pois existe muita humanidade entre os personagens, no auxilio mútuo e em suas buscas após anos de muitas perdas, e na eternização da memória através das histórias.  

Um livro que me chamou a atenção pelo resumo e não decepcionou, ficando aqui a minha recomendação de leitura.


A boneca de Kokoschka
Afonso Cruz
Editora Dublinense
Edição em Português de 2021
2010 - 288 páginas

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Lar em chamas



Sinopse: Nacionalidade e cidadania são um privilégio, não um direito de nascença, nesta história em que se acompanha não apenas a devastação de duas famílias, mas também tocantes histórias de amor incondicional e sacrifícios. Entre irmãos, entre pai e filho, entre amantes. Ao adaptar a tragédia Antígona de Sófocles, para Inglaterra contemporânea, a paquistanesa Kamila Shamsie construiu um romance pujante e arrebatador, vencedor do Prêmio Women's Prize for Fiction 2018.

No mês de maio/2023 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Lar em Chamas da escritora paquistanesa Kamila Shamsie. A indicação foi da escritora brasileira radicada em Londres Nara Vidal. E o mimo foi um abridor de garrafas no formato dos óculos do escritor português José Saramago.

Após uma pausa em sua vida pessoal para criar seus irmãos gêmeos Parvaiz e Aneeka, Isma, uma britânica muçulmana, enfrenta uma delicada entrevista para sair de Londres e ir realizar um doutorado em sociologia nos Estados Unidos. O comportamento de dois familiares muito próximos não conta a seu favor, mas suas últimas decisões a fazem ter respaldo para iniciar os seus estudos em paz e conhecer Eamonn, filho de um influente político britânico de origem islâmica que não recebe votos de quem tem a mesma origem devido as suas falas controversas.

Ela previra o interrogatório, mas não as horas de espera que o precederiam, nem que seria tão humilhante ter o conteúdo de sua mala inspecionado.


Eamonn vive da mesada da mãe enquanto não sabe o que irá fazer da vida. Sem contato com o lado islâmico da família paterna, é cosmopolita, e se encanta pela beleza de Aneeka ao ver uma foto da moça na casa de Isma, e assim buscar uma desculpa para encontrá-la pessoalmente em seu retorno para Londres.

Aneeka brigou com a irmã e não fala mais com ela, mas ao conhecer Eamonn vê no rapaz uma oportunidade de resgatar seu irmão gêmeo, que foi iludido e caiu na lábia dos jihadistas. Parvaiz, o irmão, não possuía informações nem fotos do pai, que ao pertencer a mesma organização terrorista se tornou assunto tabu dentro da família, e em sua inocência, ao receber informações tão preciosas sobre esta figura ao mesmo tempo importante e desconhecida para ele, foi facilmente enganado, e agora se vê em uma realidade difícil de escapar. 

O pai dele costumava ser assunto de conversas durante o café, mas sempre como "meu pai", nunca como um homem perante a opinião pública.


O resultado disto tudo é um romance que irá mexer com a estrutura de ambas as famílias de forma definitiva, em uma mistura de assuntos atuais e uma peça clássica que mexeram comigo do início ao fim.


A escrita de Kamila Shamsie


Foi o convite para adaptar Antígona, uma das famosas peças da Grécia antiga, somado a inúmeras notícias de jovens britânicos se unindo ao Estado Islâmico em 2015 que inspiraram a autora Kamila Shamsie a escrever o romance Lar em Chamas, que faz uma releitura com grande intensidade da peça clássica.

Divido em cinco partes, cada uma contém a visão de um dos narradores, e aborda assuntos como o luto, o amor, política, imigrantes, islã, cidadania e família. O que me permitiu conhecer um pouco mais da história de cada um dos personagens envolvidos. Seus sonhos, seus anseios, suas perdas e aflições. O que na minha visão me aproximou muito de todos eles, tornando a angustia de se aproximar das páginas finais maior, já que estamos falando de uma tragédia grega.

Como é possível parecer exatamente a mesma de ontem? Devia parecer como se uma tempestade tivesse passado.


O que achei interessante é que ao dividir em cinco partes, não estamos vendo o mesmo momento na visão de cinco personagens diferentes, mas a sequência dos fatos. O que permite ver com clareza a diferença dos mundos, embora todos sejam de origem britânica-paquistanesa, e também suas semelhanças, como as escolhas de Isma e Karamat, que tentam se livrar dos estigmas para atingir sucesso profissional.

A escrita de Kamila Shamsie é envolvente, as descrições, principalmente em cenas chaves, nos colocam ao lado dos personagens, podendo gerar questionamentos ou compartilhamento de dor. Ao mesmo tempo, como ocorre na vida, nem os personagens nem o leitor tem a visão de tudo e todos o tempo todo. Há alguns saltos conforme a autora muda o narrador, mas nada que não permita ter o amplo entendimento da história.


O que eu achei de Lar em chamas


Por se tratar de um romance inspirado em uma tragédia grega, era previsível que haveria cenas fortes, mas nem isso me impediu de ficar chocada e ter aquele momento de leitor de pensar que poderia ser diferente.

Uma escolha errada por um rapaz no final de sua adolescência somada uma coincidência inesperada me fez pensar na palavra destino e em um filme antigo chamado Efeito Borboleta, onde um bater de asas pode mudar tudo. E é isso que ocorre na vida das duas famílias, onde pessoas que são consideradas estrangeiras no país que nasceram não respondem apenas pelos seus atos, mas por toda a comunidade que fazem parte.

Como ele odiava sua vida, aquele bairro, a inevitabilidade de tudo.


E por isso gostei muito da troca de visão dos personagens enquanto a história seguia andando, pois com a evolução dos acontecimentos a minha opinião ia mudando, assim como os meus sentimentos em relação a eles. Pois na história ninguém é mocinho ou bandido, são todos extremamente humanos, e aos conhece-los era possível imaginar o impacto de cada acontecimento em suas vidas.

Gostei da escrita da Kamila Shamsie, achei direta e simples, e ao mesmo tempo poética e impactante. Tornando a leitura mais do que recomendada para quem gosta de um bom livro. 


Lar em Chamas
Home Fire
Kamila Shamsie
Tradução: Lilian Jenkino
TAG - GRUA
2017 - 286 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1



Sinopse: A África é o berço da civilização e essa seleção de contos celebra sua cultura e influência, tão ricas e diversificadas quanto o próprio continente. Na África setentrional, as histórias de sultões e seres mágicos deixam entrever a influência moura; nas verdejantes florestas do Congo, sociedades de animais cuja inteligência sobrepuja à do ser humano; nas ilhas orientais, as alegorias morais das antigas civilizações tribais. Contos folclóricos africanos reúne histórias coletadas por exploradores, governantes e missionários europeus, em sua maioria contadas diretamente pelos nativos. São narrativas transmitidas verbalmente, de geração em geração, por provavelmente centenas de anos. Os contos revelam o folclore, crenças e códigos de ética africanos. Curiosamente, essa mitologia pré-colonização encontra ecos em muitas outras ao redor do mundo.

Encontrei Contos Folclóricos Africanos entre os ebooks gratuitos, disponibilizado para o público geral, na Amazon. E como gosto de edições de bilingues para me ajudar a estudar inglês já aproveitei para baixar.

De rápida leitura, o conjunto me lembrou um pouco as 1001 noites com as próprias histórias regionais que temos no Brasil, já que as histórias misturam a cultura africana com contos fantásticos, ao trazer animais falantes ou incidentes que se repetem muitas vezes.

Não se pode confiar nos filhos de Adão. O que querem de mim?


Por derivarem da narrativa oral, demonstrando que são histórias carregadas a muitos anos, passando pelas diversas mudanças no mundo, então sim, haverá momentos de machismos e situações que nos tempos atuais são estranhas. Mas nem por isso menos importante de se conhecer, já que só aprendendo com o passado se terá um presente e um futuro melhor.

Mas chega de bla bla bla e vamos ao breve resumo dos contos.


O filho do médico e o rei das cobras 

Um rapaz órfão de pai é incentivado pela mãe a procurar uma profissão, sem conseguir se encontrar nos primeiros ofícios, ele busca saber a profissão do pai, que era médico.

Mas antes que encontre os livros para entender a atividade, é chamado pelos vizinhos para cortar lenha durante uma semana, onde ele é enganado e abandonado.

Quando estiver em sua cidade, não tome banho com muitas pessoas.


Para sobreviver acaba buscando um caminho, e é nele que encontrará o rei das cobras.


O Macaco, a cobra e o leão

Uma viúva passa dificuldades financeiras para sustentar o filho na aldeia que moram. Conforme ele cresce, opta em seguir a profissão do pai de caçador e espalhar armadilhas na floresta próxima.

Mas com o passar do tempo, o menino descobre que pegar um animal não é tão rápido e fácil assim, até prender um macaco. Mas invés de matar, ele acaba aceitando o trato de salva-lo para um dia ser salvo também.

Nunca ajude homem nenhum, pois ele se voltará contra você na primeira oportunidade.


E o mesmo ocorre com uma cobra e um leão, e todos, sem exceção, após libertos lhe recomendam nunca ajudar um homem. Até que um dia um homem fica preso a sua armadilha.


Os pretendentes da princesa gorila

O primeiro fato interessante neste conto é que ele se inspira na chegada do rum na África, aqui chamado de nova água. Ao mesmo tempo que justificaria o motivo pelo qual o bando de micos vive nas árvores e não mais no chão.

Fez uma única e vã tentativa. Foi embora com o rabo baixo, rastejando de vergonha.


Na história a linda filha do Rei Gorila chegou na idade em que deve se casar, e o rei avisa a todas as tribos e impõe uma regra: o seu futuro genro precisava beber um barril inteiro da nova água. Uma tarefa nada fácil.


Ga'so, o professor

Aqui temos um homem que ensinava as crianças a ler debaixo de uma cabaceira e morreu ao ser atingido por um fruto enquanto preparava a sua aula.

Vejam só! Não é capaz de dizer uma palavra sequer para se defender.


Quando os alunos o encontram são tomados pela tristeza e pelo desejo de encontrar o assassino, que tem como suspeitos o vento sul, uma parede de barro, um rato, entre outros que eles vão encontrando ao longo de sua investigação um tanto violenta.


Por que os bodes são animais domésticos

Outra história que aborda porque um animal mudou o seu destino original. Aqui um bode vive em uma aldeia com sua mãe quando anuncia que tem uma poção que o torna invencível.

Que vergonha um animal desse tamanho derrotar um de nossa espécie.


Logo a notícia se espalha e chegam os seus desafiantes, mas nem todos irão aceitar perder a luta com facilidade, e a floresta passa a ser extremamente insegura.


O leopardo de pele lisa

Em um reino, a filha favorita de um rei ganhou o direito de escolher o próprio marido. 

Vejam que homem lindo! Que belo rosto e que porte!


Os pretendentes precisam atender a um único pré-requisito: não ter nenhuma mancha na pele. E assim ela auditava cada um que a pedisse em casamento, dispensando ao encontrar qualquer pinta mínima ou cicatriz.

O desafio chegou até o mundo animal, onde poções o ajudavam a se transformar na forma humana. Mas a escolha da difícil princesa foi sábia?


O tambor mágico

Outro conto que explica a mudança de localização dos animais, neste caso os cágados que vivem somente na água.

Em mundo que humanos e animais viviam em harmonia, cágados e leopardos ocupam uma mesma rua.

Usavam-no de maneira tão excessiva que o instrumento se aborreceu e, exaurido, não produzia mais nenhuma comida.


Mas a região sofre com a escassez de comida, fazendo com que seus habitantes começassem a morrer de fome.

Na busca por alimento, o Cágado irá se aventurar por outros lugares, mas o que ele irá encontrar mudara a vida da sua espécie para sempre.


Por que o sol e a lua vivem no céu

Neste conto o sol e a lua eram casados e viviam na Terra. O sol era um grande amigo da água e sempre a visitava, mas a água nunca retribuía as suas visitas, alegando que a sua casa era pequena para todo o seu povo.

Se você quer que eu o visite, construa uma grande aldeia. Terá que ser realmente imensa. Meu povo é numeroso e ocupamos muito espaço.

E assim o sol começou a construir uma aldeia realmente grande para receber a sua amiga  e toda a sua família, que ao término da obra, aceitou o seu convite.

O que o casal não imaginava era que a amiga era demasiada espaçosa.


O que eu achei de Contos Folclóricos Africanos

A leitura rápida em estilo de fábula serve tanto para conhecer histórias de outras culturas, ao mesmo tempo que foi possível observar como brasileira os contos do nosso país que revelam semelhanças com as trazidas pelos navios.

Também é interessante como as histórias possuem pontos em comum, como iniciarem com uma viúva e um bebê, onde a mulher precisa criar sozinha o filho e o menino ao crescer resolver seguir a profissão do pai para tirá-los da pobreza.

Outro ponto que me chamou a atenção é que ao mesmo tempo que temos muitas vezes famílias e tribos representadas por animais, é possível ver que nada mais são do que alegorias das famílias e sociedade humana, tornando tudo muito interessante.

Como eu gosto de contos, achei muito bacana tanto para relaxar quando para estudar. Ficando a dica, já que a sua distribuição é gratuita.


Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1
Elphinstone Dayrell, George Bateman, Robert Hamill Nassau
Tradução: Gabriel Naldi
SESC - mojo ong


sexta-feira, 9 de junho de 2023

Veríssimas



Sinopse: O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luís Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes – ou Veríssimas - em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Em minha saga para me adaptar a leituras no Kindle - por favor, não me julguem, ainda possuo um apego enorme ao que me permite folhar as páginas com os dedos - eis aqui a minha segunda resenha de um livro lido pelo simpático aparelho.

Como a sinopse já indica, Veríssimas é uma coletânea em um formato que lembra um dicionário, organizada pelo jornalista Marcelo Dunlop e cujas as ilustrações foram selecionadas pela Fernanda Veríssimo e pelo Fraga.

Abismo: Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar.


Logo de início temos uma espécie de resumo feito pelo Antônio Prata sobre o próprio Luís Fernando Veríssimo, lembrando-nos de sua paternidade em relação ao Analista de Bagé, sua torcida por um dos times gaúchos de futebol e claro aos livros que são referência nesta coletânea de frases, reflexões e sacadas sobre o cotidiano do passado e presente, com um toque de futuro.

Seguindo de um texto do próprio Marcelo Dunlop que se diz um dos dezessete leitores deste autor gaúcho, conta realizada pelo próprio escritor que parece ter um desvio de erro um pouco acima da margem. Da primeira tirinha lida em uma revista até a ideia de um livro que reunisse um pouco de tudo, como forma de homenagear o octogésimo aniversário do autor. 

Amanhã: Temos que confiar no amanhã. A não ser que descubram alguma coisa contra ele durante a noite.


Tornando Veríssimas além de uma homenagem, uma ótima justificativa para quem não gosta de colocar nada fora, já que Dunlop utilizou os recortes e livros que ele guardava para reler depois - e assim efetivamente fez a segunda leitura - além das que entraram de bônus após pesquisas em jornais, revistas e na própria Biblioteca Nacional.

E assim entramos no universo de Luís Fernando Veríssimo e de suas opiniões que vão de frutas, passando por atividades de lazer, Adão e Eva, sexo, geografia, história, amor... tudo com uma fina ironia que me arrancaram de pequenos sorrisos a gargalhadas.

Brasil: No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa.


Algumas definições seguem atualizadíssimas, como para Amigos, onde ele afirma que opiniões podem custar amizades, um retrato fiel do que viraram alguns grupos de amigos e familiares não só no Brasil nos últimos anos.

Ou sobre a corrupção no Brasil, cujas contas não fecham desde o tempo de Cabral começou a negociar com os índios.

Burrice: Deus nos livre da burrice alheia, que a nossa é pitoresca.


Há frases sobre a vida, como o fazer aniversário, arrependimentos e aposentadoria, onde este seria último seria um vagabundo sem culpa e com uma renda insuficiente.

Não posso deixar de citar o esporte mais popular em terras brasileiras, o Futebol aparece através da rivalidade com o país vizinho, posições no campo entre outros.


O que eu achei de Veríssimas


Eu gosto muito da escrita do Luís Fernando Veríssimo, era uma leitora frequente de suas crônicas no jornal e de seus livros, e gostei muito da coletânea feita, que me ajudaram a matar saudades do autor.

Pois ao mesmo tempo que ela nos conta um pouco da nossa história, ela nos diverte em uma leitura leve, que combina com aquele dia que você quer relaxar, ou para aliviar depois de uma ressaca literária.

Carpe Diem: Viva todos os dias como se fosse o seu último. Um dia você acerta.


Não é um livro que precise ser lido de cabo a rabo correndo, sendo muito fácil combina-lo com outras leituras. Eu gostava de ler de manhã, quando estavam todos dormindo e tinha preguiça de acender a luz. O que não deixa de ser uma forma de começar o dia com bom humor, embora algumas das palavras e frases que as acompanham me fizeram refletir como não temos evoluído em diversas questões.

Ficando assim a dica para quem curte comédia, livros leves e claro, o próprio Veríssimo.


Ver!ssimas
Luís Fernando Veríssimo
Editora Objetiva
2016 - 224 páginas


quinta-feira, 1 de junho de 2023

Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente



Sinopse: Mude-se para a cidade grande. Consiga um diploma. Não se apaixone. Evite os idealistas. Aprenda com um mestre. Trabalhe para si mesmo. Esteja preparado para fazer uso da violência. Faça amizade com um burocrata. Patrocine os artistas da guerra. Faça malabarismo com as dívidas. Concentre-se no essencial. Planeje uma estratégia de fuga. Qualquer semelhança deste livro com manuais de autoajuda não é mera coincidência.

No mês de Abril/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria mais uma indicação do escritor João Anzanello Carrascoza - que já havia sido o curador do ótimo A Velocidade da Luz -, que indicou um livro cuja ironia já começa no título: Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente do autor paquistanês Mohsin Hamid. O mimo foi um pacote de sal temperado da Black Flag que eu adorei, pois também curto muito cozinhar.

Em um lugar fictício, que poderia ser no Paquistão, na Índia, na África ou na América Latina, os personagens não possuem nome. É o pai, a mãe, o irmão da esposa, ou outro substantivo que substitui uma identificação formal.

Olha, um livro de autoajuda é um oximoro, a menos que você seja o autor dele.


É através do personagem principal e da nomeada menina bonita que o leitor acompanha décadas da vida dos dois. Do abandono do meio rural ainda na infância, a luta pela ascensão social durante a juventude e as oportunidades de sucesso que colocam em xeque qualquer ética na vida adulta, e uma grande história de amor que ultrapassa os anos seja próximo ou só na memória sem ser nunca esquecida ou reduzida.

Tudo acompanhado pelos conselhos com tom de autoajuda, que nada são que uma crítica a forma como ocorre o desenvolvimento em locais onde riqueza e miséria disputam espaço e recursos, onde os vencedores são conhecidos antes da queda de braço começar.


A escrita de Mohsin Hamid

Utilizando uma narrativa em segunda pessoa, o autor Mohsin Hamid transforma o leitor em seu personagem principal, usando uma linguagem que o coloca dentro da história, enquanto conta tudo o que “você” fez, viveu e viu em cada capítulo.

E é em uma zona rural você vai ver a sua avó paterna eternamente avaliando a sua mãe, assim como seus pais tendo momentos íntimos na única peça da casa. Vivenciará o êxodo rural como uma busca por uma melhor forma de se viver e encontrará na cidade o seu primeiro e grande amor, também irá ser o primeiro da sua família a conseguir ir para uma universidade e se sentira coagido por um determinado grupo. Até ter uma ideia e conseguir ir melhorando de vida nesta Ásia Emergente que nos é apresentada.

Na verdade, todos os livros, todo e qualquer livro já escrito poderia ser oferecido ao leitor como uma forma de autoajuda.


Dividido em doze capítulos cujos nomes já dão uma pista do que será abordado, o livro consegue costurar uma história de amor justamente com o crescimento das grandes cidades, onde a busca constante em fugir da miséria leva ao comodismo ou ao vale-tudo, conforme a personalidade de quem está no caminho e ao momento da vida.


O que eu achei de Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente

Como viver eternamente apaixonado pela mesma mulher na Ásia Emergente, este seria o título que eu daria, caso tivesse o poder de escolha. Pois na minha opinião este é o primeiro foco do livro: o grande amor que o personagem principal nutri pela menina bonita e ao qual é correspondido, mas vivido plenamente só em alguns momentos, entre as pausas que eles fazem na corrida por seus sonhos.

Triste? Capitalismo selvagem? Talvez sim, talvez não, mas como não dá para viver de amor, talvez esse seja o segredo de torna-lo tão forte e resistente ao tempo. Pois ao fugir da miséria, essa também não consegue corroer a relação.

Sim, a busca do amor e da riqueza têm muito em comum. Ambas têm o potencial de inspirar, motivar, entusiasmar e matar.


O segundo foco do livro é a sobrevivência em meio a pobreza. Sem usar nomes para seus personagens ou cidades, a busca constante por um crescimento financeiro poderia ser em qualquer país de terceiro mundo, incluindo o Brasil - apesar de hoje ser definido como em desenvolvimento. Pois não há uma presença forte da parte cultural ou religiosa que me tenha colocado dentro de um lugar específico.

Sobre a brincadeira com os livros de autoajuda, sou obrigada a confessar que não me ajudaram a engatar na leitura, apesar do romance não ter nem duzentas páginas. Com exceção dos capítulos iniciais e finais, ele não me conquistou. Me fazendo levar um tempo considerável para completar a leitura, já que raramente me animava a ler dois capítulos ou mais por dia.

O que vale para os livros de autoajuda vale também, inevitavelmente, para pessoas.


Isso significa que eu achei ruim? De forma alguma, achei a história de amor bonita e a forma como se tem uma visão completa da vida do personagem interessante. Mas em alguns momentos achei um pouco superficial, pois apesar do narrador falar diretamente comigo, eu não conseguia me integrar completamente na pele do personagem.

Mas no futuro penso em reler, pois muitas vezes mudamos a nossa visão com a passagem do tempo. Fora que a edição da TAG ficou belíssima, eu me apaixonei pelo kit no geral.

Muitas habilidades, como todo empreendedor de sucesso sabe, não têm como ser ensinadas na escola. Elas exigem prática. Às vezes, uma vida inteira de prática.


Ficando a dica para quem gosta de narrativas diferentes, curte um romance de formação, não resiste a histórias de amor, ou simplesmente quer ler. E se depois quiser compartilhar as suas impressões, quem sabe você tenha alguma observação que me faça mudar o olhar.


Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente
How to Get Filthy in Rising Asia
Mohsin Hamid
Tradução: Sonia Moreira
TAG - Companhia das Letras
2013 - 175 páginas

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