sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Diários de uma Apotecária




Sinopse: Ambientado em uma corte imperial, Diários de uma apotecária acompanha Maomao, uma jovem aprendiz de apotecária e apaixonada por venenos que, por circunstâncias inesperadas, passa a servir no palácio interno do imperador. Cheia de sardas e longe de se destacar pela beleza, leva uma vida discreta e só deseja cumprir seu tempo de serviço em paz ― até descobrir que os filhos do imperador estão morrendo e o rumor de uma maldição está se espalhando pelos corredores do palácio.

Maomao é uma jovem que cresceu no bairro das cortesãs e aprendeu desde cedo a lidar com medicamentos, ervas e venenos. Sua vida muda quando ela é sequestrada e vendida para trabalhar como serva no palácio interno do imperador. Seu plano é simples: cumprir o período de serviço de dois anos sem chamar a atenção de ninguém e, assim que possível, voltar para casa.

Esse plano começa a desmoronar quando ela toma conhecimento de que os filhos do imperador estão adoecendo. Movida pela curiosidade e pelo conhecimento que adquiriu como apotecária, Maomao investiga o que está acontecendo e acaba chamando a atenção de Jinshi, um enigmático eunuco funcionário da corte cuja beleza é tão extraordinária quanto sua capacidade de se envolver nos assuntos alheios.

Em sua volta, havia o mundo mais luxuoso e brilhante, e, ao mesmo tempo, entranhado em sedimentos impuros de uma atmosfera tóxíca.


Promovida a degustadora de alimentos da consorte Gyokuyou, a favorita do imperador, Maomao passa a circular por um ambiente em que as aparências escondem disputas de poder, rivalidades, segredos e interesses políticos.


A escrita de Natsu Hyuuga

Natsu Hyuuga, também conhecida pelo pseudônimo Hyuganatsu, é uma escritora japonesa nascida na província de Fukuoka. Ela iniciou Diários de uma Apotecária em publicações na internet no ano de 2011 e ganhou edição impressa em 2014, com ilustrações de Touko Shino.

A obra original é uma light novel, formato de romance popular no Japão que costuma combinar narrativa em prosa e ilustrações. A história também ganhou duas adaptações para mangá, com equipes criativas distintas, além de uma adaptação para anime.

Em um lugar onde somente os príncipes recebiam o direito de assumir o trono imperial, não havia motivos relevantes para se eliminar também as meninas. 


Uma das características mais interessantes da escrita de Hyuganatsu é a maneira como ela combina mistério, intriga política, conhecimentos de medicina e farmacologia, humor e relações humanas. O que faz com que muitos fãs digam que Maomao é uma mistura de Sherlock Homes e Dr. House.

Os casos investigados por Maomao funcionam como pequenas histórias dentro de uma narrativa maior. Há problemas aparentemente isolados, comportamentos suspeitos e acontecimentos que exigem observação e raciocínio. Aos poucos, porém, percebemos que as peças não estão tão separadas quanto parecem. Absolutamente nada na história de Hyuuga está ali por acaso, assim como a sua ligação pode estar no mesmo volume ou em um próximo.

A letra disforme aparentava ser um artifício de camuflagem, mas, de algum modo, sugeria ser a escrita de uma mulher.


A autora também demonstra cuidado na construção dos personagens. Suas características não se limitam àquilo que dizem ou fazem em determinada situação: suas reações, contradições, lembranças e interpretações dos acontecimentos ajudam a compor personalidades mais complexas e lhe dão humanidade, pois eles não são 100% santos ou vilões. 

Isso fica particularmente interessante no que se refere a Maomao. Seu comportamento irônico e pragmático pode dar a impressão de que ela é indiferente a tudo o que acontece ao redor. Entretanto, sua maneira de observar as pessoas e de reagir às situações revela que existe muito mais por trás dessa postura.

A própria ambientação contribui para a narrativa. O palácio não é apenas um cenário bonito para os acontecimentos: é um espaço organizado por hierarquias, privilégios e restrições, no qual a posição social de cada pessoa influencia suas possibilidades e seus destinos.


As diferenças entre a light novel, o mangá e o anime

Se você não conhece nenhum dos três e não gosta de spoiler, sugiro pular esta parte e ir direto para o que eu achei do livro, pois para comparar preciso citar os acontecimentos e isso pode quebrar um pouco a leitura.

Uma das particularidades de Diários de uma Apotecária é que a história pode ser acompanhada em diferentes formatos. E, para quem já conhece Maomao por um dos mangás e/ou pelo anime, ler a light novel proporciona uma experiência complementar e detalhada.

No Brasil, a light novel é publicada pela editora Alt com tradução direta do japonês, enquanto o mangá ilustrado por Nekokurage, com adaptação de Itsuki Nanao, é publicado pela Panini. Existe ainda outra adaptação para mangá, ilustrada por Minoji Kurata, mas não é publicada no Brasil. 

Não havia chances de uma jovem que não sabia ler e escrever se tornar uma consorte com um quarto próprio. Afinal, ser consorte também era um ofício; elas recebiam até salário.


No mangá ilustrado pela Nekokurage encontrei um traço muito cuidadoso para representar cada detalhe e os complementos nas páginas finais, que não são descritos no romance, também servem de complemento para algumas cenas.

O anime, por sua vez, leva a narrativa para a animação, com o acréscimo de recursos visuais, expressões, trilha sonora e escolhas de direção que também influenciam a maneira como percebemos os acontecimentos. O traço é mais semelhante ao da Nekokurage.


Mas existe diferença entre eles?

Sim, como ocorre em qualquer adaptação de livro para visual, na light novel há mais detalhes e uma compreensão diferente dos personagens. No primeiro volume, encontramos uma apresentação mais gradual de Maomao e das pessoas que a cercam. A narrativa dedica espaço aos pensamentos da protagonista, às suas observações e às associações que faz enquanto tenta compreender o ambiente em que foi colocada.

Também temos mais informações sobre as relações entre as personagens, como por exemplo a Gyokuyou ao palácio de Jade e sobre as damas que a acompanham.

Ainda que tivesse um sorriso delicado, de alguém que não mataria uma mosca, havia algo oculto que parecia se mover nas sombras.


Outro ponto é a amizade de Maomao com Xiaolan. As conversas, os comentários e as fofocas não acontecem de maneira tão acelerada, permitindo acompanhar melhor como essa relação se estabelece ao longo do tempo.

Sobre o casal principal, o aspecto interessante é a maneira como a narrativa apresenta as primeiras impressões de Maomao sobre Jinshi. Sua beleza é algo que ela reconhece repetidamente, mas isso não é o suficiente para que ela suspire como os demais. A protagonista tem uma maneira muito própria de interpretar as pessoas, e Jinshi não escapa de suas comparações pouco elogiosas, detalhando inclusive porque quando ela o vê pensa em determinado inseto

Na light novel também fica mais evidente o contraste entre o comportamento que Maomao demonstra e aquilo que parece preferir manter escondido. Seu pragmatismo, sua ironia e sua habilidade para se adaptar às circunstâncias convivem com uma necessidade muito forte de autopreservação. Não é que ela não entenda ou não veja, ela escolhe ignorar para não se expor.

Para quem até o momento estava na base da pirâmide hierárquica, era como se tivesse subido até mais ou menos o meio dela.


Em relação ao anime e o mangá, os acontecimentos são mais dinâmicos, puxando mais a parte cômica. Mas existem algumas diferenças que podem impactar um pouco mais em relação ao volume 1, que são cobertos pelos os quatro primeiros mangas da Nekokurage e os 12 primeiros episódios da 1 temporada.

No mangá não é abordado a cena da madeira com o fogo colorido, ao qual um eunuco procura apoio no atendimento médico por ter se ferido. Esta cena tem relação com dois momentos posteriores, sendo que em um deles foi necessário buscar uma solução alternativa para encaixar a resolução do mistério.

Outro ponto é a relação e personalidade de Maomao e Jinshi, ambos precisando de uma terapia para recuperar a autoestima.

Pequena e magra demais, era enxergada como uma criança muito jovem. As outras damas de companhia pareciam sentir muita pena daquela pobre coitada descartável.


E muito da personalidade de Maomao e suas cobranças e autoavaliações vem de seu ambiente. Sua capacidade de adaptação é impressionante, mas não deve ser confundida com uma disposição para aceitar tudo passivamente. Ela observa, calcula riscos e procura encontrar a maneira mais segura de atravessar cada situação, só que frequentemente a sua curiosidade fala mais alto do que sua vontade de permanecer invisível.

Na light novel, seus pensamentos deixam mais evidente a maneira como ela administra as próprias emoções. A ironia e o deboche funcionam como parte de sua personalidade, mas também ajudam a manter certa distância entre ela e as pessoas ao redor. Como uma jovem que cresceu em um bordel, ela se protege, pois sabe que as relações não são gratuitas e possuem grande fragilidade para quem é o mais fraco. 

Jinshi também ganha novas camadas. No romance é possível observar que ele não reconhece a sua própria inteligência e percepção, acreditando que seu único mérito é a aparência, ao qual usa para manipular as situações e pessoas a sua volta.

Já ouviu uma vez que, se ele desejasse, nem mesmo o imperador se importaria com qual gênero ele se identificava, mas esse tipo de elogio não o trazia nenhuma alegria.


Ao mesmo tempo, existe uma contradição em sua relação com Maomao: quando ela não responde ao seu charme como ele espera, Jinshi por vezes recorre a estratégias semelhantes às que outras pessoas utilizam com ele — justamente aquelas que ele próprio não aprecia.

E aí chegamos no dito episódio do mel, que no anime e no mangá, a situação ganha um tom predominantemente cômico. Na light novel, entretanto, a narrativa permite perceber com mais clareza como o acontecimento afetou Maomao.

Isso aparece especialmente no reencontro dos dois: sua primeira reação instintiva é se afastar, e Jinshi percebe que foi longe demais, o que cá entre nós é um tanto óbvio após a festa do jardim, quando ela explica o motivo das sardas.  Acrescentando uma dimensão diferente ao episódio. O humor continua existindo, mas não apaga as consequências do que aconteceu para os personagens e que sim, foi um assédio.

O cabelo de Maomao foi levantado e algo gelado tocou seu pescoço.


É um bom exemplo de como conhecer os pensamentos de Maomao pode modificar a interpretação de uma situação que, em outra mídia, parece funcionar principalmente como uma piada, principalmente entre os mais jovens. 

Confesso que esta foi a razão pela qual terminei tanto o mangá quanto o anime na época concordando com a Maomao de que o Jinshi era um cara muito chato.


Pontos de ligação com os volumes futuros

Como comentei anteriormente, absolutamente nada é incluído na história por casualidade, sendo pistas para revelações futuras ou recorrentes na história, e por este motivo listei as que mais me chamaram a atenção:

1) A autodepreciação de Jinshi e Maomao

2) No 1º encontro de Maomao com Gausho ela acha que ele é um militar

3) No episódio do sonambulismo é citado que devido aos muros altos a guarda é muito relaxada no palácio interno

4) Também no episódio do sonambulismo temos a inveja de Gyokuyou da consorte libertada para casar com o seu amor

5) A mudança de destino conforme uma mulher possui ou não relações com um imperial

6) O quanto Maomao traça uma linha em relação as diferenças sociais com as demais pessoas

7) Maomao achar Jinshi mais jovem do que ele diz ser

8) Citação de casais que morrem juntos por amor

9) Maomao pedindo para ser sentenciada com veneno caso um dia fosse acusada de algo

10) A memória para rostos do Jinshi

11) Semelhança entre Ah-Duo e Jinshi

12) A eliminação dos bebês independente do gênero

Vocês observaram mais alguma? Pode deixar nos comentários, pois adoro ver as pistas que Hyuganatsu deixa em sua história.


O que eu achei do Volume 1 de Diários de uma Apotecária

Eu conheci Diários de uma Apotecária pelo anime na Netflix, apresentado pela minha filha, que depois me emprestou os mangás. Mas foi uma determinada cena envolvendo um sapo que me fez procurar as light novels. Porque, não, Diários de uma Apotecária definitivamente não é um desenho para crianças! 

Este ano, finalmente chegou ao Brasil a tradução da light novel para o português, diretamente do japonês, e assim nasceu esta resenha, que mistura as três mídias. Simplesmente porque Maomao merece!

Nos braços, tinha cicatrizes que pareciam de maus-tratos, e ouviu dizer que ela havia sido vendida; ainda, era oficialmente contratada para provar comidas em busca de veneno.


A primeira coisa que preciso dizer é que me tornei muito fã da história conforme fui tendo conhecimento do desenrolar da trama, que sim, acho muito bem construída e coloca as mulheres no centro de tudo.

Outro ponto que me conquistou é que a obra é um grande quebra-cabeças, pois mesmo as informações que parecem pequenas quando aparecem pela primeira vez, podem ganhar outros significados conforme a história avança.

Pois ao usar um tempo passado, sem se prender exatamente a um período especifico, a autora consegue passar os desafios de ser mulher em um mundo onde tudo precisa da permissão dos homens.

Ao que parecia, seus músculos faciais estavam reagindo automaticamente nos últimos tempos e ela não conseguia se esconder mais atrás da sua máscara de indiferença como antes.


O que as torna não apenas moeda de troca, mas sem poder de decidir o próprio destino, independentemente de serem pobres ou ricas. E por isso o paralelo entre um bordel e o harém do imperador feito por Maomao não poderia ser tão acertado.

Mas a também o uso da inteligência destas mulheres para obter o poder e resistir a todas as armadilhas, pois ao prender nobres de diferentes famílias em uma mesma área, verdadeiras guerras são travadas entre chás e fofocas espalhadas.

Afinal, todas as mulheres envolvidas certamente seriam mais felizes assim. Havia coisas que era melhor não saber.


Então não ache que Diários da Apotecária é uma leitura infanto-juvenil só por ter ilustrações, pois ele realmente está muito longe disso. E sim, se você gosta de uma boa história, essa pode te conquistar. 

Motivo pelo qual deixo a dica e o convite para conhecer todos os mistérios do Império de Li e as aventuras de uma jovem cuja curiosidade e raciocínio podem te conquistar.


Diários de uma Apotecária
Kusuriya no hitorigoto
Hyuganatsu
Tradução: Jéssica Maki Kimura
Alt
2026 - 278 páginas
Publicado originalmente em 2014


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os armários vazios


Sinopse: A sensação de isolamento é a única companhia da protagonista enquanto ela atravessa a experiência de um aborto no seu dormitório universitário. E é a presença desse sentimento que a conduz às memórias da infância, do processo solitário de se diferenciar dos pais, vizinhos e frequentadores do café-mercearia da família, onde ela já não cabia mais. 

No mês de julho/2026 a TAG Curadoria completou mais um ano de vida, e coube a aniversariante escolher o livro a ser enviado, no caso a primeira obra da escritora francesa Annie Ernaux intitulada Os armários vazios. O mimo foi outro livro: Cartas a um jovem poeta.

Denise Lesur tem vinte anos e é a primeira pessoa de sua família a chegar ao ensino superior. Filha de donos de um pequeno café-mercearia, ela cresce em um ambiente cujo olhar infantil não permite enxergar a pobreza de uma casa que nem banheiro próprio tem.

Mas isso muda quando ela é matriculada em uma escola particular. Se para muitos a educação representa uma possibilidade de transformação de sua vida, aqui ao se deparar com a realidade burguesa acaba também provocando um afastamento progressivo de suas origens. 

Rádio esportiva na cozinha, passa um avião no céu, depois de se lavar minha mãe joga a água fora.


Aquilo que antes fazia parte de seu cotidiano passa a despertar vergonha e repulsa, enquanto a jovem tenta encontrar seu lugar em um mundo no qual nem sempre se sente pertencente.

A narrativa começa em um momento de sofrimento físico e emocional, quando Denise aguarda as consequências de um aborto clandestino. A partir daí, suas lembranças conduzem o leitor pela infância, pela adolescência e pelas experiências que marcaram sua formação, revelando conflitos relacionados à família, à sexualidade, à condição feminina e às diferenças sociais.

Quando foi que comecei a ter um pavor insano de parecer com eles, meus pais... Não foi de um dia para o outro, não foi um corte grande... Os olhos abrindo... as besteiras.


Publicado originalmente em 1974, Os armários vazios foi o primeiro romance de Annie Ernaux e já apresenta questões que retornariam mais tarde em sua produção literária, sendo muito relacionado ao livro O acontecimento da autora.


A escrita de Annie Ernaux

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na Normandia, França. Filha de comerciantes de origem popular, estudou Letras e construiu uma obra marcada pela investigação das relações entre memória, experiência individual e contexto social.

Ao longo de sua trajetória, a autora abordou temas como as diferenças de classe, as relações familiares, a sexualidade, a condição feminina e as transformações sociais. Sua escrita frequentemente parte de experiências pessoais para explorar questões que ultrapassam a história individual, aproximando literatura, memória e sociologia.

E então todas aquelas críticas, aquele escárnio, não, as coisas do meu mundo não tinham valor na escola.


Em 2022, a escritora Annie Ernaux recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, com reconhecimento à maneira como aborda as raízes, os estranhamentos e as repressões coletivas presentes na memória pessoal. Entre suas obras mais conhecidas estão O lugar, Uma mulher, Os anos e O acontecimento.

Em Os armários vazios a autora já aborda esse conjunto de questões com uma diferença: ela não narra como uma experiência pessoal, mas utiliza a personagem Denise Lesur em uma narrativa em primeira pessoa, sem utilizar capítulos, simulando o fluxo contínuo na mente de uma pessoa que não sabe se irá sobreviver as próprias ações.

Os livros, por sua vez, não me criticam por nada, a vida clara e transparente das minhas heroínas não me faz lembrar dos torrones que roubei na loja perfumada, das saias que levantei na frente do espelho, das zombarias que lancei a qualquer velho bêbado.


Possibilitando ao leitor acompanhar os pensamentos e as lembranças da personagem, que se sucedem em um fluxo que acompanha a agitação da protagonista, misturando acontecimentos, sensações, julgamentos e recordações sem a preocupação de organizar tudo de maneira linear.

A autora também utiliza o recurso das repetições para mostrar a mudança no olhar da personagem em relação ao mundo que lhe cerca. Além disso, como são memórias de uma jovem mulher de 20 anos, acabam também compartilhando as lembranças que permanecem presentes e como o significado atribuído a elas podem se transformar com o tempo.

Não falava disso para ninguém, mas na escola, ao passear na frente das lojas no centro, ao ler, eu tinha aprendido a fazer comparações. Existiam as pessoas bacanas e os outros. 


O cotidiano ocupa um lugar importante na construção da história. Os produtos vendidos no estabelecimento da família, as roupas, os cheiros, os hábitos dos clientes e as conversas aparentemente banais ajudam a compor o ambiente em que Denise cresceu. Esses elementos também revelam as diferenças entre o mundo de sua infância e aquele ao qual ela tenta pertencer.

É uma escrita que não procura suavizar os sentimentos da protagonista. A raiva, a vergonha, o desejo e o ressentimento aparecem de maneira direta, fazendo com que o leitor acompanhe seus conflitos mesmo quando suas atitudes provocam desconforto ou incompreensão.


O que achei de Os armários vazios

Os armários vazios é o tipo de livro que você termina e pode sentir vários sentimentos contraditórios em relação a escrita e a sua protagonista.

Começando pelo fato que Denise é uma personagem complexa e o seu fluxo de pensamento inicia durante um aborto clandestino. Um golpe duro para alguém que tem em sua personalidade traços como a arrogância e um sentimento de superioridade desde a infância, algo que me parece ter sido espelhado do comportamento da própria mãe em relação aos seus clientes. 

Achei muito interessante o uso do recurso da repetição para acompanhar a mudança no olhar da Denise. Quando pequena ela enxerga uma grande fartura em meio a pobreza, como se ao ter um pouco mais em relação aos que estão a sua volta gerasse um grande abismo. 

E o tio peculiar, sei muito bem o que isso significa, engraçado, mas não maluco, adequado, espirituoso, mas não pinguço que nem os meus, um tio peculiar só existe no mundo bacana.


Mas ao ser enviada para uma escola particular, a educação, os colegas pertencentes a uma classe média e os livros a levam para uma realidade muito diferente. E aqui temos a quebra da ilusão, a humilhação por diferença sociais, e todo o efeito psicológico de descobrir que não, ela não era a bolacha mais recheada do pacote.

E assim temos a vergonha, o julgamento e um círculo vicioso que a leva até o presente, quando tudo o que foi investido para ela se confirmar superior as suas origens é ameaçada por uma gravidez indesejada.

Gravidez que tem a sua origem em uma sexualidade precoce também derivada do próprio meio. E talvez o ponto que gere a maior interrogação, já que ela se deixa levar fácil pelos rapazes, como se com eles ela despisse não só as roupas, mas também toda a imagem interna que ela parece ter construído de si. 

Histórias que me espreitam, exibem meu possível futuro: casada com um canalha, gorda, cercada de moleques com bunda pra limpar.


O que me fez enxergar uma certa ironia neste ciclo da personagem: Denise é o orgulho dos pais, que fazem sacrifícios para lhe proporcionar oportunidades que eles próprios não tiveram. Entretanto, quando se vê diante de uma gravidez indesejada, ela parece reconhecer em si mesma algo que associa às jovens de seu antigo meio social, como se sua trajetória de ascensão estivesse ameaçada por aquilo que tanto desejava deixar para trás.

Confesso que não consegui sentir simpatia por Denise. Em alguns momentos, senti falta de elementos que me ajudassem a compreender melhor a relação com os pais e que justificassem a intensidade de seu desprezo por eles, o que me fez pensar se era só a pobreza ou se existem fatos que não foram revelados. Assim como suas relações amorosas, em que ela se deixar ludibriar facilmente por qualquer um, conferindo aos seus pares uma superioridade que na prática não existe.

Mas isso não significa que eu não tenha sentido empatia. Denise é jovem e está atravessando uma experiência difícil em uma época na qual as possibilidades de escolha das mulheres eram bastante limitadas, o que era ainda mais acentuado pelo contexto da pobreza. 

Um calor estranho se espalha imediatamente, como uma flor, em alguma parte baixa da barriga. Meio roxa, podre.


Algo que cá entre nós ainda ocorre entre os países considerados não desenvolvidos, como o nosso, onde uma gravidez indesejada afeta e muito a vida de uma mulher, e quando ela vive em uma situação adversa, a dificuldade é triplicada.

Não achei a leitura difícil, mas o recurso da repetição ficou, pra mim, em uma linha tênue entre o interessante para ver a mudança de olhar e o tedioso, pois o nível de detalhes em certo ponto começou a me cansar. 

O que eu gostei, e isso ocorre justamente por ser inspirado na própria vida da autora, é que a narrativa não tenta resolver as contradições da protagonista ou de oferecer respostas definitivas sobre suas escolhas. Mas sim um retorno intenso às lembranças, como se revisitar o passado fosse uma maneira de atravessar o sofrimento do presente e de dar algum sentido à própria trajetória.

Ficando a dica para quem gostam de livros com muita realidade, de narrativas que inspiram outros autores e claro, para quem gostou de O desabamento do também francês Édouard Louis, e claro para quem não pode ver um conjunto de letras que já quer sair lendo.


Os armários vazios
Les Armoires vides
Annie Ernaux
Tradução: Mariana Delfini
TAG - Fósforo
2026 - 142 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Floresta Sombria


Sinopse: Depois de O problema dos três corpos, a humanidade se prepara para a iminente invasão alienígena. A Organização Terra-Trissolaris — formada por habitantes da Terra que traíram seus iguais para se associar aos alienígenas — pode ter sido derrotada, mas a presença de partículas subatômicas, os sófons, revela todo o conhecimento da humanidade para os invasores, e as defesas terráqueas são um livro aberto para os trissolarianos. Nesse contexto, em que só a mente humana é segura, é montado o Projeto Barreiras: quatro pessoas serão encarregadas de pensar em uma estratégia para a salvação do mundo. A Barreira está completamente isolada, protegendo seus pensamentos do restante da humanidade, mas até que ponto é possível guardar um segredo?

Se você ainda não leu o primeiro volume da trilogia: O problema dos três corpos, recomendo iniciar com ele. Mesmo tendo assistido a série da Netflix, existem muitas diferenças em relação ao livro.

Em A Floresta Sombria, segundo volume da trilogia O Problema dos Três Corpos, de Cixin Liu, a humanidade se prepara para uma invasão dos trissolarianos que, embora ainda esteja a séculos de distância, já representa uma ameaça concreta. 

Os sófons enviados pelos alienígenas chegaram à Terra e permitem que os trissolarianos acompanhem praticamente tudo o que os seres humanos fazem, além de interferirem no desenvolvimento da física, impondo limites a diferentes áreas de pesquisa. Mas existe um local que eles não têm acesso: os pensamentos humanos.

Em dias já esquecidos, seu mundo havia virado de cabeça para baixo: o solo alçara voo, deixando um amplo e profundo abismo, antes de voltar a ser preenchido, completamente.

Isso faz com que a ONU (Organização das Nações Unidas) crie o Projeto Barreiras: quatro pessoas recebem enormes recursos e autoridade para elaborar, em absoluto segredo, estratégias capazes de salvar a humanidade.

Cada Barreira deve guardar seu verdadeiro plano dentro da própria mente, tornando-se, literalmente, uma barreira entre a estratégia humana e a vigilância trissolariana, e para isso recebe poderes para fazer tudo o que desejar, sem críticas ou limites.

Ninguém sabia o verdadeiro nome do homem, mas com o tempo passaram a chamá-lo de Segundo Destruidor de Barreiras.

Os quatro escolhidos não poderiam ser mais diferentes. O primeiro é Frederick Tyler, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, representante da experiência militar e estratégica tradicional. O segundo é Manuel Rey Diaz, ex-presidente da Venezuela e engenheiro nuclear. O terceiro é Bill Hines, cientista britânico, neurocientista e ex-presidente da Comissão Europeia.

Mas é o quarto nome que provoca estranhamento: Luo Ji, um sociólogo chinês e ex-astrônomo, sem o prestígio político, militar ou científico dos outros três. Sua escolha parece inexplicável até mesmo para ele. Diferentemente dos demais, Luo Ji não começa o projeto com uma grande estratégia de defesa. Ele inicialmente se mostra desinteressado, aproveita os privilégios concedidos pela posição e tenta construir uma vida confortável para si. 

Como você disse, mentira e manipulação são uma arte, assim como o desenho na pele de uma serpente.

Paralelamente a Organização Terra-Trisolaris cria os chamados destruídores de barreiras, encarregados de descobrir os planos secretos de seus adversários. Como os trissolarianos não conseguem ler pensamentos, precisam recorrer à observação dos comportamentos e à capacidade de dedução dos seres humanos e seguem utilizando os membros da organização. 

E nesta corrida para descobrir como salvar a humanidade surge o conceito da Floresta Sombria, onde a escuridão do universo pode esconder muito mais segredos que os trissolarianos.


A escrita de Liu Cixin

Em A Floresta Sombria, o autor Liu Cixin mantém sua característica de construir a ficção científica a partir de grandes conceitos, mas amplia consideravelmente a escala da história. Se no primeiro volume acompanhamos a descoberta de uma civilização extraterrestre e o mistério por trás de seu contato com a humanidade, aqui o autor passa a explorar as consequências dessa descoberta para o futuro da espécie humana.

Uma das escolhas realizadas por Liu Cixin é a mudança dos personagens que serão acompanhados na narrativa. Wang Miao, protagonista de O Problema dos Três Corpos, não está presente na sequência, e a narrativa passa a acompanhar novos personagens, como a barreira Luo Ji. 

O que um personagem literário faz em dez minutos talvez seja o reflexo de dez anos de experiência.

Ye Wenjie continua tendo importância para a história, mas sua participação já é bem menor, enquanto o policial Shi Qiang é uma das poucas figuras que fazem uma ligação direta entre os dois livros. Essa troca faz com que o segundo volume diga ao leitor que o grande protagonista da trilogia é a própria história.

Outro recurso interessante utilizado pelo autor é a forma utilizada para a passagem do tempo. Liu Cixin utiliza a hibernação e os saltos temporais para atravessar décadas e mostrar uma humanidade que se transforma enquanto aguarda a chegada da frota trissolariana. 

Isso permite ver as adaptações da sociedade, da tecnologia e da própria maneira como os seres humanos enxergam a ameaça. O futuro deixa de ser uma perspectiva e vira o novo presente. 

Por que eu teria direito a este nível de proteção planetária? Por que eu poderia dispensar ou afastar os guardas se quisesse? Quem me conferiu esse poder?

Outra mudança está na natureza dos conceitos explorados. A ciência continua presente, mas o autor amplia seu campo de interesse para a sociologia, a estratégia, a psicologia e a filosofia. Isso aparece principalmente através de Luo Ji e da chamada sociologia cósmica, que procura compreender como civilizações inteligentes poderiam agir umas diante das outras. 

A partir dessa ideia, Liu Cixin constrói uma das principais premissas do livro e que dá título ao segundo volume: a possibilidade de que o universo seja como uma floresta sombria.


O que eu achei de A floresta sombria

Confesso que o meu primeiro estranhamento foi justamente a mudança dos personagens que iriam conduzir a história. Talvez pelo fato de sermos curiosos por natureza tenha provocado durante um bom tempo de leitura o que aconteceu com Wang Miao e sua família.

Após aprender a desapegar, pelo menos no universo de O Problema dos Três Corpos, gostei bastante da forma como Liu Cixin coloca vários questionamentos humanos através das quatro barreiras.

Não apenas as suas nacionalidades, como suas personalidades, crença e sentimento de importância diferem. Como se comportam ao não terem limites e o principal, como reagem ao encontrar seu destruidor, pessoas escolhidas pela Organização Terra-Trissolaris (OTT) para descobrir o plano elaborado para sobrevivência da Terra e impedir a sua realização.

Quando eu destruir a Barreira, encararei pessoalmente meu adversário e apreciarei  a angústia e o desespero de seu espírito.

Também achei que o Luo Ji, a barreira ao qual ninguém compreende logo de início a escolha, abre várias discussões filosóficas e até mesmo existenciais na forma como ele encara tudo ao seu redor, inclusive a missão que caiu em suas mãos como uma batata quente.

Simplesmente porque suas reações são muito humanas, ele não se vê como herói ou vilão, suas atitudes são questionáveis, não há busca pela perfeição. Apenas um viver bem antes que tudo termine. Ou até que todas as peças se juntem e ele entenda qual é o seu papel neste jogo com uma mão do governo, que encontra a sua própria forma de motivar Luo Ji.

E também cabe a Luo Ji incluir um pouco do processo literário aqui, para mim um dos complementos mais sensíveis que irão marcar a evolução e maturidade do personagem.

Não se trata de certo ou errado. Se todo mundo tivesse que entender os motivos antes de executar uma ordem, a sociedade já teria mergulhado no caos há muito tempo.

O uso do recurso da hibernação pelo autor também permite que os personagens atravessem séculos e tragam para o leitor como as limitações impostas pelos sófons interferiram na forma de viver humana. Até que ponto evoluímos, como a sociedade incorporou esta nova forma de viver e como as pessoas do passado ao serem acordadas reagem a isso. 

Finalizando de uma forma que eu segui curiosa para ler o terceiro volume, até mais do que quando finalizei o primeiro, pois a série consegue de uma forma muito equilibrada misturar diversos assuntos: história, ciência, filosofia, ética e psicologia.

Tornando a leitura cada vez mais rica e envolvente, a cada situação chave eu me pegava pensando em como reagiria se fosse aquele personagem, quais seriam os meus sentimentos em uma situação tão extrema, que testa não apenas limites, mas também crenças.


A floresta sombria
The Dark Forest
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Suma
2017 - 470 páginas
Publicado originalmente em 2008

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sinopse de amor e guerra


Sinopse: Theobald e Bluma estão fadados a ficar juntos desde que vieram ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito. Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro — o mais famoso da História —, adiando a promessa do primeiro beijo. Este romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no destino individual de dois amantes uma pergunta universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

No mês de junho/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Sinopse de Amor e Guerra do escritor português Afonso Cruz. A indicação foi da criadora do projeto "Vá Ler um Livro" Tatiany Leite. E o mimo foram imãs de geladeira no tema cinema brasileiro.

As famílias de Theobald Thomas e Bluma Baumann são amigas, fazendo com que os dois cresçam juntos. Temporariamente separados na adolescência pela diferença de idade — Bluma é mais velha e acaba despertando mais cedo a curiosidade por assuntos que vão além das brincadeiras da infância —, eles se reencontram na livraria do tio de Theobald. É ali que a amizade de infância começa, lentamente, a se transformar em amor.

A normalidade é de papel e estraga-se quando se manuseia, rasga-se, desfaz-se.


Um amor construído através dos livros, das histórias e dos poemas que Theobald decora para impressionar a moça que acredita, profundamente, estar destinada a ele. Quando o afeto finalmente é correspondido, Bluma passa a ocupar um lugar ainda mais importante na vida de Theobald, e os dois começam a construir uma relação em que literatura e sentimento caminham lado a lado.

Uma história que teria tudo para ser um bonito romance, quase uma comédia romântica, se não fosse por um pequeno detalhe: eles vivem na Alemanha do pós-guerra. Mais precisamente em Berlim, uma cidade que se viu dividida de um dia para o outro, em pleno verão de 1961.

Quem ama encontra o amado em tudo, um ser infinito que se revela em todos os pormenores, uma visão profana do trabalho ascético, do místico ou do santo.


Famílias, amigos e amores que até então faziam parte da mesma cidade passam a não poder mais se encontrar. Uma barreira física, criada por uma divisão política, passa a produzir consequências pessoais e profundas na vida daqueles que ficaram separados por ela — e, para alguns, a distância imposta pelo muro faz surgir a necessidade de buscar medidas cada vez mais extremas para voltar a estar perto de quem amam.

Inspirado em uma história real, Sinopse de amor e guerra integra a coleção Geografias, sendo o segundo romance de Afonso Cruz publicado nessa coleção, depois de Princípio de Karenina, que se passa no Vietnã.

Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca...


Mais do que relembrar o impacto que as divisões políticas podem causar na vida de pessoas comuns, o romance transforma a história de Theobald e Bluma em uma reflexão sobre espera, liberdade, limites e sobre até onde alguém estaria disposto a ir para viver um amor.


A escrita de Afonso Cruz

O português Afonso é um artista multidisciplinar: escritor, ilustrador, músico e cineasta, tendo trabalhado durante mais de uma década com cinema de animação. Também é integrante da banda The Soaked Lamb e, entre suas muitas atividades, produz a própria cerveja artesanal. 

Iniciou a sua carreira literária no final dos anos 2000, e desde então tem apresentado uma obra bastante diversificada, que passa por romances, contos, ensaios, teatro, literatura infantil e juvenil, livros ilustrados e até uma curiosa “enciclopédia” de história universal inteiramente inventada. 

Poderiam o ódio, a guerra, o rancor, a desumanidade surgir de um amor imenso?


Seus livros já foram publicados em mais de vinte idiomas e receberam diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka já resenhado aqui no blog e primeiro livro que eu li do autor.

Esse perfil diversificado está em suas obras, na maneira como constrói imagens, associa ideias e trabalha o ritmo das narrativas. Em uma entrevista, o próprio autor afirmou que não vê suas diferentes atividades artísticas como áreas hierarquizadas, mas como formas distintas de criação.

O fruto proibido não nos foi mostrado para que não o comêssemos, foi-nos mostrado para que transgredíssemos.


Em Sinopse de amor e guerra, essa característica aparece em uma narrativa aparentemente simples, mas construída sobre diferentes camadas. A história de Theobald e Bluma é atravessada pela literatura, pela memória e pela História, enquanto Afonso Cruz transforma o Muro de Berlim em algo que ultrapassa sua existência física. 

Com uma escrita delicada, reflexiva e muitas vezes carregada de imagens e associações, o autor conduz uma história de amor que também fala sobre separação, liberdade, escolhas e as marcas deixadas pelo tempo.


O que eu achei de Sinopse de amor e guerra

Um livro curto, de escrita fluida e envolvente, que torna a leitura fácil e rápida, mas nem por isso pouco reflexiva.

Existe a doçura do primeiro amor, o encantamento pelo sentimento correspondido, a dor da separação por motivos que parecem absurdos, parecendo mais uma ficção do que realidade. E existe também a juventude, que exige recomeços para um coração que ainda não foi desocupado.

E então Theobald nos questiona, sem frescuras ou indiretas: qual é o limite do amor? O que podemos fazer por aqueles que amamos? Foi nesse momento que me veio à cabeça uma música do Bryan Adams, [Everything I Do] I Do It for You.

O ser excepcional não passa de uma pessoa normal que, em certas circunstâncias, se porta de maneira esquisita.


Como leitora, porém, fui além do amor romântico e comecei a pensar na situação que realmente aconteceu com tantas famílias. O que fazer quando já não podemos mais ver alguém que amamos? Como lidar com as incertezas de que a vida de quem ficou do outro lado do muro pode ser pior do que a nossa?

Não é à toa que tantas pessoas se arriscaram em tentativas de fuga da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental, cavando túneis, atravessando o rio Spree a nado ou encontrando outras formas extremamente arriscadas de ultrapassar a barreira. São histórias que parecem verdadeiros pesadelos, mas que aconteceram de fato e chegaram ao conhecimento de Afonso Cruz por diferentes relatos.

E, curiosamente, foi uma história contada pelo próprio pai do escritor — sobre um casal separado pelo muro — que inspirou Sinopse de amor e guerra.

Há uma melodia estranha no retrato, vestígios de uma canção que se imiscuem na imagem e a impregnam.


Um livro que instiga o leitor ao trazer os conflitos provocados por muros que podem ser tanto físicos quanto psicológicos, principalmente quando quem entra na narrativa consegue sair do papel de juiz para vestir a pele dos personagens e tentar enxergar o mundo a partir das circunstâncias em que eles estão inseridos.

Além disso, Sinopse de amor e guerra possui bons personagens secundários, como o tio de Theobald, dono da livraria e uma presença importante ao longo das diferentes fases da vida do sobrinho.

Os pais olham para os filhos e dizem: deu um salto. Quer isto dizer que sentimos que, num período curto, houve uma progressão unusitada.


Um livro sensível e complexo, que nos desafia a pensar até onde iríamos por amor — e o que estaríamos dispostos a fazer quando uma barreira criada por outros decide o destino das nossas vidas.

Ficando aqui a minha recomendação de leitura, para quem gosta de ficção com base histórica, para quem quer uma história de amor diferente ou simplesmente por quem é apaixonado por livros.


Sinopse de amor e guerra
Afonso Cruz
TAG - Dublinense
2026 - 160 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O voo da guará vermelha



Sinopse: Rosálio, pedreiro e analfabeto, atravessa o país em busca de alguém que o ajude a ler e escrever. Irene, prostituta e soropositiva, conhece as letras precariamente, mas o bastante para ensiná-las. Do encontro desses dois personagens nascem as histórias que Rosálio não cansa de contar, e que Irene esperou tanto tempo para ouvir. O encanto da fala de Rosálio torna mais amena a luta de Irene contra a doença e transforma em realidade o desejo do pedreiro de ganhar a vida como contador de histórias. Com delicadeza e inteligência, Maria Valéria Rezende narra a trajetória desses dois personagens que, marcados por um passado difícil, descobrem o amor, a cumplicidade e a possibilidade de horizontes mais amplos.

No mês de maio/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do editor do Círculo do Livro Fernando Nunes o livro O Voo da guará vermelha da escritora brasileira Maria Valéria Rezende. O mimo foi um maravilhoso alfajor da Odara.

Rosálio foi criado em uma pequena comunidade e era chamado de ninguém, até sair pelo mundo e escolher o seu próprio nome inspirado em uma professora que admirava de longe. Em sua busca constante para deixar de ser analfabeto, ele carrega livros que deseja ler e acumula histórias.

Andando de cidade em cidade um dia é confundido como um possível cliente por uma cansada Irene, mulher que sabe ler e escrever e tem como profissão uma das mais antigas do mundo. Em estágio avançado pela AIDS, sua confusão é facilmente explicada pela baixa constante na procura por seus serviços, já que a doença suga cada dia mais a sua aparência, tornando-a pouco atraente aos olhos dos homens que frequentam o local.

Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula sem cabeça?


O encontro dos dois transforma Rosálio em uma espécie de Xerazade, onde ele retorna ao quarto de Irene sempre que o trabalho permite para contar o que viu e viveu ao longo dos anos. E ela transcreve para um caderno cada uma das histórias contadas, tornando-as fontes de aprendizado para o homem que as conta e de motivação para viver um dia a mais para a mulher antes tão desesperançosa.

Convidando a todos que o ouvem e os que leem a narrativa a ficar mais um pouco para saber qual será a próxima história.


A escrita de Maria Valéria Rezende

A educadora e freira paulistana Maria Valéria Resende estreou como escritora após os 60 anos e já ganhou prêmios como o Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas. Sendo também uma das criadoras do Mulherio das Letras, um coletivo feminista.

Sua escrita reflete muito de sua vivência em meio as comunidades no Nordeste, direta, leve e fluída, lembrando a forma oral de se contar histórias. Também costuma utilizar personagens de perfil simples, descrevendo suas lutas e criticando a desigualdade.

Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela, estou tão magra!, é da doença...


Em O voo da guara vermelha irá se encontrar estes elementos em uma estrutura semelhante a encontrada na literatura de cordel, com suas frases longas e uma cadência que lembra as poesias populares. E seus heróis são um analfabeto que sonha ler e contas suas histórias pelo mundo e uma prostituta que vive um dia de cada vez.

E como heróis são feitos de transformação, resistência e resiliência, é a comparação feita por Rosálio de uma ave que nasce cinzenta e vai se tornando vermelha com Irene em seu vestido vermelho que dá nome ao livro.


O que eu achei do Voo da guará vermelha

Logo no início da leitura a primeira coisa que me veio à cabeça foi o livro mil e uma noites. Mas diferente de Xerazade, a maioria das histórias tinham início, meio e fim no mesmo capítulo. Dando a impressão que poderia facilmente ser um livro de contos, se tirasse o casal base.

E como o foco são as histórias de Rosálio, eu achei que a vida de Irene ficou com algumas pontas soltas. Sim, eu sei que nem toda a narrativa precisa ter tudo explicadinho. Mas visto que ela introduziu o nome do livro que serviu de inspiração entre os que o personagem carregava, acredito que falar mais sobre a criança (filho?) de Irene poderia ter complementado a vida da mesma, que é colocada de uma forma mais superficial.

Conta, homem, conta mais, é cedo para ir-se embora, nem o dia clareou, enquanto durar a noite conta, conta para eu sonhar.


Aliás, ouso dizer que o verdadeiro personagem principal aqui é a educação. O saber ler e escrever como forma de ser visto, não ser enganado, conseguir fazer escolhas em plena consciência. É a educação que une uma alma quebrada a uma alma que parece sempre esperançosa. Livros são tesouros e memórias podem ser eternizadas no papel.

Em relação aos contos de Rosálio, há as mais diversas situações que podem lembrar as fofocas de qualquer cidade pequena ou de condomínios que igualam os números do interior pela quantidade de moradores. Inicialmente ele conta a própria história e da pequena comunidade que morava, depois, surgem as histórias das suas andanças. Há os homens que enganam os outros para torna-los escravos, a febre do ouro no garimpo, o marido traído e eternamente apaixonado que aceita as idas e vindas da esposa, a vivência em uma terra onde a bala corria solta, entre outras.

Nasci sem nome, como a serra que me aguardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse.


O livro no geral é curto, fácil de ler, e a história é bonitinha e sensível, e apesar de conter pautas dolorosas, incrivelmente leve. Eu gostei, mas não amei. Passados dois meses da leitura (sim, estou com as resenhas bem atrasadas) a narrativa já não ecoa fortemente na minha mente, talvez por que no meu gosto como leitora, os personagens principais, aqui mais a Irene, precisariam ser mais trabalhados para ganharem o meu coração.

Mas, como no nosso encontro mensal para discutir os livros da TAG o livro ganhou o coração da grande maioria, fica a recomendação para você "ouvir" as histórias de Rosálio e quem sabe se emocionar com todas elas.


O voo da guará vermelha
Maria Valéria Rezende
TAG - Alfaguara
2026 - 165 páginas
Publicado originalmente em 2005


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O problema dos três corpos



Sinopse: China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena à beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Em plena Revolução Cultural Chinesa a jovem Ye Wenjie vê o pai ser assassinado por não renegar conceitos básicos da Física, como a teoria da relatividade de Albert Einstein. Sua mãe, também da área, se torna submissa ao novo sistema e sua irmã se torna membro da guarda vermelha.

Enviada para um campo de trabalho forçado, ela é envolvida em uma situação perigosa por um jornalista que lhe atribuiu falsas acusações para se salvar. Mas graças ao seu conhecimento avançado em astrofísica, ela é transferida para a Base Costa Vermelha a pedido de dois oficiais, um local para entrar e não sair mais.

Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.


Neste local há uma enorme antena parabólica, e é através dela que uma desiludida Ye Wenjie irá conseguir contato com Trisolaris, o sistema solar com três sóis que orbitam entre si de forma a transformar a vida no planeta de mesmo nome em um verdadeiro caos.

Ao pular para a época atual, o mundo enfrenta uma crise nunca vista no mundo científico, intelectuais importantes estão morrendo sem explicação e seus projetos estão sendo parados, gerando atrasos em diversas áreas.

E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas.


É quando o engenheiro de nanomateriais Wang Miao começa a ver uma contagem regressiva que ninguém mais enxerga. Com medo do que pode significar, ele começa uma corrida com a ajuda do detetive Shi Qiang para entender o que está acontecendo e tentar entender o seu papel em tudo.


A escrita de Liu Cixin

Graduado em engenharia hidrelétrica, o chinês Liu Cixin começou a escrever quando ainda atuava em sua área de formação, sua paixão pelos clássicos ocidentais da ficção científica tornou-se inspiração para o seu gênero literário escolhido.

Como escritor ele venceu por oito anos consecutivo o prêmio literário chinês Galaxy Award e foi o primeiro autor asiático a vencer o Prêmio Hugo de Melhor Romance.

É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície?


Sua escrita utiliza tantos conceitos reais de tecnologia, física quântica, astrofísica e mecânica como uma visão histórica, cultural e filosófica da China.

Tudo plenamente encontrado no primeiro volume da trilogia O problema dos três corpos, que dá o mesmo nome ao livro.

Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá.


Ao ter cientistas como personagens, as explicações dadas não são banais, ali estão os conceitos e lógicas estudados pelos profissionais das áreas de uma forma que o leitor entenda.

No primeiro volume o autor também optou por uma estrutura não linear, onde os capítulos podem se alternar entre passado e presente para que se descubra com detalhes o que levou a Terra ao seu momento atual.

Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?


Dando a ficção científica um toque de suspense, com investigações, suposições e mistérios revelados.

Somado a isso há todo uma base histórica que coloca os personagens em um ambiente tenso cujos traumas são levados até o presente. Além disso, no presente, temos um olhar não ocidental em relação aos eventos globais que se apresentam, dando uma outra perspectiva dos acontecimentos se comparado a outros livros de ficção científica.

A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.


O autor também utiliza o recurso de um jogo virtual para apresentar o mundo de Trisolaris, onde os humanos participantes do jogo utilizam nome de figuras famosas como Galileu, Newton e Copérnico.

Tornando a história rica em detalhes e convidativa para seguir a leitura no segundo volume.


O que eu achei de O problema dos três corpos

Eu adorei. No momento que escrevo esta resenha, só falta o último volume para terminar a trilogia.

Meu primeiro contato foi com a série da Netflix, que eu já havia achado boa, mas cai na velha frase "o livro é melhor" após a leitura.

E não apenas porque a série resume o livro, e eu entendo que talvez todos os conceitos pudessem soar um tanto tediosos para o público, mas o que mais me pegou foi substituir o local (China) por um grupo de cinco jovens cientistas que moram em Londres.

O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica.


Pois um dos grandes charmes do livro é justamente a influência histórica e cultural que irão gerar um problema global. Embora ele não se aprofunde em questões existenciais dos personagens, o que eu vi foi como cada evento foi impulsionando os atos dos envolvidos ao longo das décadas.

E embora o coletivo se sobreponha ao individual, a ironia aqui é que a ação de um único ser humano pode gerar efeitos para os habilitantes de dois planetas.

O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.


Outro ponto que o livro ganha da série: Trisolaris. Existe um distanciamento maior na série, mas no livro não apenas o jogo dos 3 corpos é muito mais explorado, como também tive mais acesso aos habitantes deste planeta e suas diferenças.

Um ponto que pode pegar os leitores é justamente a parte dos conceitos, que são explicados de forma simples ao longo da narrativa. Eu sou da área de exatas e adorei relembrar ou conhecer novos, achei a forma como eles se encaixam na história muito bem construído.

Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.


Mas isso exige uma tranquilidade na leitura, não é uma leitura para ser feita de forma dinâmica, por tudo se conectar. As informações não são em vão, mas de certa forma tornam a narrativa um pouco mais lenta, principalmente para quem espera um ritmo mais frenético como da série.

Ao mesmo tempo é tudo muito verossímil, as discussões na ONU, as conversas entre vizinhos, o planejamento para um futuro que já estava ameaçado pelas atitudes humanas, mas precisou de uma interferência extraterrestre para finalmente ser olhado.

Tornando o sucesso da obra mais do que justificável e convidativa para quem gosta de ficção científica, de narrativas definitivamente embasadas, de históricas com uma base cultural forte, e naturalmente para quem gosta de ler. Ficando a dica para vocês.


O problema dos três corpos
The three body problem
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Suma
2016 - 316 páginas
Publicado originalmente em 2006

domingo, 9 de agosto de 2026

O que podemos saber



Sinopse: Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. O professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?


O livro de Abril/26 foi uma indicação da própria TAG Curadoria: a distopia do escritor inglês Ian McEwan recém lançada pela Companhia das Letras O que podemos saber. Este foi o quarto livro enviado pelo Clube aos assinantes e o segundo que eu recebo nos meus 9 anos como assinante - o primeiro foi Na praia. O mimo foi uma coletânea de humor da América Latina.

No ano de 2014, durante o aniversário da esposa Vivien, o prestigiado autor Francis Blundy lê em um jantar com amigos e parentes intelectuais o seu poema mais brilhantemente escrito, e que nunca foi publicado, gerando todo um desejo para os que não participaram em conhecer o texto.

Com exceção das compras, pouco sabemos sobre as preparações para a noite que viria a ser conhecida como o Segundo Jantar Imortal.


O que faz a busca pelo original sobreviver não só aos anos, como ao colapso climático e a guerra nuclear. Sendo uma obsessão do professor universitário Thomas no ano de 2119.

Vivendo em uma Terra em que cidades antes tão famosas estão embaixo d'água e a população reduziu fortemente. Um mundo onde a escassez faz com que os mais jovens não tenham interesse na arte, na memória e na cultura dos seus ancestrais do século XXI, havendo inclusive um desdém por aqueles que não fizeram nada para impedir o cenário brutal.

A coroa era uma empreitada formidável. Consistia de quinze sonetos. O último verso de cada um tinha que ser repetido na primeira linha do seguinte.


Afinal, se o mundo antigamente era tão bom, por que ele não foi preservado? Por que os alertas não foram levados a sério? Por que as guerras continuavam?

Mas ao buscar todas as informações possíveis sobre o poema e as pessoas que ouviram a sua leitura, não apenas Thomas como o leitor que o acompanha irão descobrir que além da beleza, os participantes do jantar possuíam muitos segredos.

Um e-mail ou uma mensagem raramente contém tanta reflexão subjetiva interessante quanto uma bem pensada carta dos séculos XIX ou XX.


Tornando O que podemos saber dois livros em um, onde na primeira parte será encontrada uma distopia e na segunda todos os mistérios de Vivien, a presenteada com o lendário poema.


A escrita de Ian McEwan

O renomado escritor e roteirista britânico Ian McEwan já foi chamado de macabro, ganhou o Booker Prize e tem vários de seus livros adaptados para o formato cinematográfico. Sendo considerado hoje um dos autores de língua inglesa mais importantes da literatura contemporânea.

Seus livros misturam tabus, psicologia, dilemas sociais e morais, história e por consequência a figura humana diante de tudo e de todos. E sua escrita é descrita como elegante e rigorosa, o que torna os seus livros fontes de estudo em universidades, além de já ter sido traduzido para diferentes idiomas.

Os vinhos que os convidados deles beberam eram superiores aos nossos. A comida, sem dúvida, mais deliciosa e variada, vinha do mundo inteiro. O ar que respiravam era mais puro e menos radioativo.


E esta prosa elegante e fluida é encontrada em O que podemos saber, um livro que parece dois, ao separar a narrativa em duas partes: uma em que temos o olhar investigativo e saudosista de uma época que não viveu através de Thomas e outra que temos todos os dilemas morais com Vivien.

O autor também descreve uma distopia bastante diferente, não há invenções futuristas, aliás, não há mais nem as novas invenções, focando mais nas questões existenciais, nos impactos que a combinação guerra e mudança climática irão perpetuar no planeta e as relações com a própria história.

Haviam crescido com as consequências daquilo, ouviam os avós falar sobre aquilo. O passado era povoado por idiotas. Grande coisa.


Já na parte de Vivien o autor irá encontrar também cultura e memória, mas aqui muito mais psicológico no que se trata em relações humanas e escolhas, além de instigar o leitor a desvendar os mistérios que tanto obcecaram Thomas no futuro.


O que eu achei de O que podemos saber

No geral eu gostei do livro, principalmente da parte da distopia. Achei muito interessante ler uma visão em que tudo o que tem nos afetado atualmente nos levar de volta para um mundo que mistura anos 80 e período medieval. Sim, os problemas com as telas acabaram, e os voos de avião também.

E os alunos de Thomas nos trazem vários questionamentos muito atuais: como um período em que evoluímos tanto tecnologicamente e culturalmente não preserva adequadamente o seu planeta? Como uma população com tantas possibilidades de ir e vir ainda se extermina através de guerras injustificáveis?

As ciências humanas estão sempre em crise. Não acredito mais que se trate de um problema institucional - faz parte da natureza da vida intelectual ou do próprio pensamento.


Sim, eu sei que desde que temos o mínimo de conhecimento do nosso mundo, é assim que vivemos. Evoluímos pouco a pouco para tornar vida mais cômoda, em paralelo seguimos com níveis enormes de desigualdade social, e no que se trata de poder, vida e moralidade nem sempre importam.

Tornando o mundo de 2119 de Ian McEwan um dos mais possíveis de todas as distopias que li até agora, o que de certa forma aumentou a minha angustia ao ver as previsões do tempo aqui no Sul.

Quanta liberdade e passividade, quanto atrevimento temoroso. Eram de uma mesquinhez brilhante, briguentos além dos limites, prontos a morrer tanto pelas boas ideias quanto pelas más.


Outro ponto que achei bacana de ser abordado é o sentimento de Thomas de ter nascido na época errada, e isso não é algo incomum, ao mesmo tempo de ser um fato bastante curioso essa idealização por tempos passados. Já que somos formados pelo que vivemos, convivemos e lemos, fiquei pensando se alguém realmente se adaptaria se caísse de paraquedas em um período diferente do que nasceu, ou se o choque de realidade seria muito diferente.

Falando em idealização, Thomas também traz um fenômeno comum em todas as épocas, a admiração profunda que se tem por pessoas que não conhecemos. Eu sempre digo que prefiro não conhecer profundamente os autores de meus livros favoritos, pois de perto ninguém é normal. E na narrativa não é diferente, e o meme expectativa x realidade se faz presente.

Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.


Também observei espelhamentos da primeira e segunda parte nas relações humanas, principalmente nas chamadas românticas, o que mostra que em determinados aspectos a humanidade segue a mesma, independente da época.

O que me faz chegar na segunda parte, que conta a história de Vivien, a musa de Thomas, e um pouco mais dos personagens que estiveram no famoso jantar da declaração do poema. E confesso que não gostei tanto.

Eu estava sozinha. Sem ninguém com quem falar. Ninguém se importava.


O grupo apresentado seria digno de uma terapia de palco no formato do antigo Casos de família, onde a forma individualista de Vivien traz a narrativa para algo bem psicológico sobre suas ações e reações ao que ocorre ao seu redor.

Aliás, uma coisa que eu senti falta na segunda parte é que ela não aborda os pré-acontecimentos que levaram a todas as mudanças de 2119, pois estamos nas memórias de Vivien, e o foco nos acontecimentos que nortearam as suas decisões, seja elas pensadas ou tomadas pelo puro impulso.

Hoje desprezo essas histórias simplistas das terapias. É possível que nunca exista qualquer prova. Em vez disso, a pessoa escolhe a história que se ajusta melhor ou que lhe oferece mais consolo.


Tornando O que podemos saber uma leitura diferente, que mexe com a curiosidade, levanta perguntas e gera reflexões sobre de que forma o presente irá impactar o futuro em todas as esferas. Ficando a dica para quem se interessar.


O que podemos saber
What we can know
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
TAG - Companhia das Letras
2026 - 381 páginas
Publicado originalmente em 2025