quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Encontro com Rama



Sinopse: Após a terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu, líderes mundiais e cientistas criaram um sistema de monitoramento para evitar que essas catástrofes voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade acompanha, alarmada, a chegada de um novo objeto de proporções inimagináveis que avança na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar o que se imagina ser um meteoro colossal, mas que se revela uma sofisticada construção, repleta de enigmas que desafiam a mente e os conceitos humanos.



A humanidade se espalhou pelos planetas do sistema solar após um evento catastrófico que tirou algumas cidades do mapa no ano de 2077. Mas principalmente investiu em sistemas de vigilância espacial para detectar e lidar com possíveis ameaças e assim evitar a ocorrência de eventos semelhantes, chamado projeto SPACEGUARD, a guarda espacial.

Um dia o que muitos achavam que era um meteoro no radar é identificado como um gigantesco objeto cilíndrico, cuja perfeição geométrica desafia a todos da vigilância. Cruzando o Sistema Solar em velocidade constante, lhe é dado o nome de Rama e uma expedição humana é enviada para uma melhor verificação.

Após o choque inicial, a humanidade reagiu com uma determinação e uma unidade que teriam sido impossíveis em qualquer época anterior.


Quando os astronautas conseguem entrar no objeto imenso e de origem desconhecida, se deparam com um mundo silencioso e artificial, cuja complexidade indicam uma tecnologia muito superior à humana, despertando uma mistura de curiosidade, prazer, receio e o sentimento de estar vivenciando algo único.


A escrita de Arthur C. Clarke

O inventor e divulgador científico inglês Arthur C. Clarke foi um dos escritores mais influentes no século XX no gênero ficção científica. Seu interesse por ciência, astronomia, inovação e tecnologia ecoam na página dos seus livros, dando verossimilhança em suas narrativas.

Encontro com Rama é um exemplo disso, e não é à toa que se tornou um dos marcos da ficção científica e inspirou outros escritores. Ao descrever uma estrutura complexa, com detalhes técnicos da espaçonave alienígena, Clarke convida o leitor a ter um novo olhar sobre como podem ser as civilizações vizinhas.

Um objeto de quarenta quilômetros de comprimento, com um período de rotação de quatro minutos - onde isso se encaixava na ordem das coisas astronômicas?


Pois em sua narrativa em terceira pessoa é possível encontrar um universo extremamente rico não apenas nos detalhes do ambiente interno e externo a espaçonave Rama, mas também filosófico, já que quando a equipe se depara com algo totalmente novo, a cada descobertas novas perguntas existenciais vão surgindo, conforme o perfil do personagem que está sendo acompanhado.

Tudo isso em uma linguagem incrivelmente fluída, onde os capítulos - todos nomeados - convidam a seguir em frente em uma história que consegue colocar o leitor junto da equipe de expedição.

O encontro, tão esperado e tão temido, finalmente ocorrera. A humanidade estava prestes a receber seu primeiro visitante das estrelas.


Uma curiosidade, no título original é utilizada a palavra francesa Rendezvous, que pode servir para enfatizar a natureza planejada e importante de um encontro, mas também pode sinalizar um encontro com o destino e mistério. Combinando perfeitamente com a história narrada.


O que eu achei de Encontro com Rama

A primeira coisa que chamou a minha atenção é que o livro escrito em 1972 informa em sua primeira página uma bola de fogo cruza o céu da Europa às 09h46 da manhã do dia 11 de setembro de 2077. E para quem viveu o 11 de setembro do início dos anos 2000, é impossível não vir esta primeira lembrança.

A segunda coisa foi a forma como a humanidade se espalhou pelo universo solar até o ano de 2130, quando ocorre o encontro com Rama. Gerando situações curiosas, como um dos personagens que possui duas famílias, uma no planeta Terra e outra em Marte. Será um sinal que os homens evoluem em tecnologia, mas não em seus hábitos?

Embora estivessem tomados por uma sensação de confiança e contido entusiasmo, após algum tempo o silêncio quase palpável de Rama começou a pesar sobre eles. 


A terceira coisa foi o nome da nave de expedição: Endeavour, uma referência ao navio carvoeiro que deu a volta ao mundo entre 1768 e 1771 comandado pelo capitão James Cook.

Mas como vocês já devem ter percebido na parte sobre a escrita, o livro realmente me envolveu. Os capítulos curtos, a forma como são finalizados com um gancho convidando a continuar, fizeram com que a leitura fosse muito rápida.

As coisas não eram o que pareciam ser; havia algo muito, muito estranho num lugar que era simultaneamente novo em folha - e tinha um milhão de anos.


Principalmente pelos sentimentos despertados. Na etapa que eles entram na nave alienígena eu já fiquei em agonia, me lembrando do filme alien. Quanto mais eles avançavam, ou quando havia momentos de tensão, mais eu queria seguir na leitura para descobrir o que iria acontecer.

Encontro com Rama é um sci-fi que explora a curiosidade científica, o de se arriscar pelo desconhecido, a superação do medo em busca de uma descoberta, de nem sempre encontrar respostas para as perguntas que vão surgindo.

Esse era um mundo estéril, segundo os testes mais sensíveis que o homem poderia aplicar. Mas agora acontecia algo que não podia ser explicado pela ação de forças naturais.


O livro também explora o lado político, em um sistema que a humanidade se dividiu entre planetas, explora o fato daqueles que acham ter o direito de tomar decisões em nome de todos, baseado na velha crença do bem versus o mal, de heróis contra vilões.

E embora o lado pessoal dos personagens seja pouco explorado, em Encontro com Rama isso não atrapalha, pois só são detalhados o que mais tem relação com a narrativa, não deixando pontos de interrogação ou necessidade de mais, já que complementa o suficiente para manter a fluidez.

Treinamento era uma coisa, realidade era outra, e ninguém podia ter certeza de que os antigos instintos humanos de autopreservação não dominariam durante uma emergência.


Eu gostei muito de Encontro com Rama, achei que a leitura estimulou a minha curiosidade, já que sempre tive interesse no assunto de outros seres fora do sistema solar, e ao mesmo tempo ela reafirma o fato de que os anos vão passando, mas a evolução na forma de pensar parece estar longe de acompanhar os avanços tecnológicos.

Ficando a dica para quem gosta de histórias de ficção científica, de histórias com questionamentos existenciais e claro, para quem não resiste a uma boa leitura.


Encontro com Rama
Rendezvous with Rama
Arthur C. Clarke
Tradução: Susana L. de Alexandria
TAG - Aleph
2023 - 288 páginas
Publicado originalmente em 1972


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Serafim Ponte Grande



Sinopse: Ao longo de 203 fragmentos, Oswald de Andrade toma como inspiração os procedimentos da colagem para criar uma obra radical, situada entre a ficção, as anotações, as memórias, a sátira e a poesia. Definido por Haroldo de Campos como "romance-invenção", o livro, publicado originalmente em 1933, foi recebido como escandaloso e se estabeleceu como um acontecimento singular na nossa literatura. A transformação industrial de São Paulo serve como pano de fundo para um retrato implacável das aspirações burguesas. Em meio ao moralismo, ao tédio e à infelicidade do casamento, os personagens de Serafim Ponte Grande não conseguem conter suas ambições comezinhas, sua obsessão pelo dinheiro e seus impulsos sexuais.



Serafim Ponte Preta é uma espécie de anti-herói. O protagonista que dá título ao livro é um funcionário público corrupto e desiludido, cujo estilo de vida se divide entre a busca desenfreada por dinheiro e pela insatisfação conjugal. Um homem comum que realiza uma busca desenfreada por prazeres e pela incapacidade de se adaptar às convenções sociais.

Casado com Lala, uma mulher inicialmente resignada que vive um casamento infeliz, já que ela não é uma personagem secundária só na história, como na própria vida do protagonista.

A obra de ficção em minha vida corresponde a horas livres, em que estabelecido o caos criador, minhas teorias se exercitam com pleno controle.


Já Pinto Calçudo, o secretário do anti-herói, é presença frequente nos encontros e desencontros de Serafim com políticos corruptos, amantes, amigos e inimigos, e inclusive em uma viagem que parece resgatar as viagens realizadas pelo próprio autor, Oswald de Andrade, nos anos de 1920.

Tudo ambientado de uma forma a levar os leitores de qualquer época para uma viagem ao passado, sob as perspectivas de quem só se preocupa com o seu cotidiano.


A escrita de Oswald de Andrade

O autor e pensador paulista Oswald de Andrade foi uma das personalidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Formado em direito, seguindo os ritos das famílias ricas e tradicionais, acabou direcionando-se a sai paixão que era a literatura. 

Viajante frequente para a Europa, viu seu estilo de vida mudar com a crise econômica de 1929. Gerando uma mudança não só no ritmo com que levava seu dia-a-dia, mas também na criação de Obras como Serafim Ponte Grande, que é uma crítica a sociedade tradicional do período.

O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda.


Serafim Ponte Grande pode causar um estranhamento inicial no leitor ao passar pelas suas páginas e ver que não temos um romance padrão. Motivo pelo qual a obra é considerada uma grande inovação. 

O escritor Oswald de Andrade utiliza uma mistura que inclui tanto a linguagem formal da época quanto a popular, ao mesmo tempo que relaciona citações eruditas e termos técnicos. 

Parece que Deus quer ver no primeiro dia deste ano inteiramente evoluída a minha transformação psíquica, tantas vezes ameaçada pelos acontecimentos.


Essa babel linguística mistura poemas, micro contos e capítulos inteiros, não sendo muito explicativa, embora pareça respeitar uma linha do tempo para contar as diferentes facetas da sociedade brasileira, especialmente a paulistana, do período do modernismo.

Recheado de ironia e humor, os caminhos tortos do seu protagonista levam a situações inusitadas e algumas vezes beiram ao irreal. Ao mesmo tempo ele também se utiliza da literatura como base de referência, completando a visão cultural da época.

Nada mais incômodo do que esse negócio de ter filhos sem querer.


O que torna a escrita bastante atemporal e um livro relativamente rápido de ser percorrido.


O que eu achei de Serafim Ponte Grande

No mínimo diferente. Inicialmente me pareceu uma espécie de diário, onde uma frase ou parágrafos podem definir o dia do protagonista Serafim. Na sequência uma espécie de crítica política e desilusão com a vida que se leva no Brasil.

O que me fez pensar que Serafim é muito louco como narrativa e também como personagem. Mas apesar de misturar poemas, romance e formatos diferentes, no decorrer da leitura comecei a achar chato e repetitivo.

Por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal.


Como eu li antes O Guarda-roupa modernista, em vários momentos levantei a hipótese de ser uma sátira do que o próprio autor tenha vivido em suas várias idas a Europa, fato depois confirmado por um dos autores dos textos adicionais sobre o livro. Mas sendo sincera, eu não achei graça.

E assim eu acabei fazendo um paralelo com a geração de hoje que acham os programas humorísticos das décadas de 80 e 90 enfadonhos, pois foi exatamente o que ecoou em mim ao ler as desventuras de Serafim.

Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só , brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos olhos, pelos lábios e pela boca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel!


Pensando em um aspecto histórico, imagino que o livro tenha horrorizado os mais conservadores de sua época com sua linguagem direta, utilizando um personagem que não leva absolutamente nada a sério. E sim, provocado graça anos depois, quando muitas coisas da sociedade já estavam sendo questionadas.

No geral nem gostei nem desgostei de Serafim Ponte Grande, embora tenha achado o início promissor e o final muito bem executado, a etapa das viagens foi o que quebrou o ritmo da minha leitura, já que achei a correria do personagem atrás dos rabos de saia muito repetitiva, o que acabou deixando as críticas, que tinham um contexto mais interessante, perdidas em segundo plano.

Sob as árvores soltas do verão, debaixo dos balões cativos das lanternas. A orquestra mistura falas, altifalantes, serrotes e gaitinhas.


Mas sim, ele pode ser um livro bem interessante para quem quer ter uma visão da burguesia paulista nos anos de 1920, para quem quer conhecer um dos principais participantes do movimento modernista no Brasil e para quem é curioso e gosta de ler de tudo.


Serafim Ponte Grande
Oswald de Andrade
Companhia das Letras
2022 - 223 páginas
Publicado originalmente em 1933

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Línguas



Sinopse: Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina se arrisca dançando no parapeito da sacada. Apaixonado, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como duelos sangrentos e até mesmo falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó — que nutre por ele uma adoração desmesurada. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Seguindo uma teia de transformações, Línguas conta a história desses três personagens com destinos que ficam inextricavelmente unidos para sempre.

No mês de agosto/24 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da atriz Maria Bopp o livro Línguas do escritor italiano Domenico Starnone. O mimo foi um caderno pequenino para anotações.



Mimi devia ter oito ou nove anos de idade quando, após ouvir a fábula de Orfeu, passou a buscar nas redondezas de casa em Nápoles a fossa dos mortos. O motivo era resgatar a menina que foi o seu primeiro amor.

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos.


Sem saber o seu nome, ele a chamava de milanesa, já que o seu amigo Lello dizia que ela havia vindo de Milão, norte da Itália onde não se usava dialetos, e sim o italiano. A paixão à primeira vista foi quando viu a menina dançar na sacada do apartamento à frente do seu. 

O encanto gerou duelo entre os amigos e uma eterna lembrança em Mimi, que cresce com a sombra de milanesa em seus relacionamentos. Assim como sua avó, que após a perda do marido, vive como uma espécie de empregada da filha e seus poucos sorrisos e gentileza são reservados ao seu neto favorito Mimi.

Só falava sem freios com ela, que com os outros era muda que nem eu: guardava as palavras na cabeça e as usava no máximo comigo.


Mas é na vida adulta que Mimi irá estudar a própria língua, e começar a entender o poder que ela exerce não apenas na cultura de um povo, mas também em sua autoestima e memórias.


A escrita de Domenico Starnone

O professor e jornalista Domenico Starnone publicou seu primeiro livro aos 42 anos e hoje é considerado um dos autores contemporâneos mais importante da Itália. Seus livros tem como característica a escrita elegante e a profundidade psicológica de seus personagens.

Em Línguas o autor Domenico Starnone convida o leitor a conhecer um pouco da sua cidade - Nápoles - e de sua própria infância, já que a narrativa possui um toque de autobiografia.

Era de domínio público que, quando fazia sol, eu a espiava abobalhado da janela ou passava muito tempo em frente ao portão dela.


Starnone utiliza-se principalmente de três bases para costurar sua história. Começando pela família aqui representada pela avó, figura com a qual os diálogos ocorrem tanto na infância quanto na vida adulta.

A segunda base é a paixão idealizada e impossível pela milanesa, um amor platônico infantil que beira a obsessão. 

Havia décadas não esperava mais nada da vida, nem sequer um docinho, mas a partir de mim ela começoulogo a extrair doçuras de todo tipo.


Completando a pirâmide, está o amigo Lello, o garoto que embarca na imaginação de Mimi ao mesmo tempo que é um rival em todas as disputas.

E são estas três bases que propiciam o escritor discutir sobre a linguagem, não só como forma de escrita, mas também como forma de construir a própria identidade e até mesmo diferença social. Tendo referências fortes ao dialeto local de Nápoles, ao qual Mimi sempre compara ao italiano falado no norte da Itália, aqui representado por Milão.

Eu nem lhe agradeci, eram gentilezas contadas, ela mesma não saberia evitá-las.


E como ele fala em identidade, seria impossível não entrar as memórias, principalmente de sua avó, que perdeu o marido ainda jovem, e como um espelho do neto, vive deste amor do passado, cujas histórias ganham novas versões e ganham em Mimi um espectador atento.

Tudo em uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem mistura os próprios sentimentos com a linguagem, as vezes de forma mais técnica, as vezes de forma poética, e na maioria das vezes em um estilo mais fluído, em um livro curto e relativamente rápido de ler.


O que eu achei de Línguas

Na minha humilde opinião a avó é a grande personagem da história. Seja sendo a criada da família da própria filha, seja contando suas histórias e influenciando a imaginação do neto favorito. O fato é que ela inicialmente não é tão velha - está na casa dos cinquenta anos - mas a beleza do passado foi substituída pela tristeza e até uma certa apatia.

O que me fez pensar muitas vezes como foi a sua história? Como ela conseguiu sozinha e jovem criar duas crianças pequenas? E por que ela aceita ser uma sombra na própria família?

Entretanto, não tinha dia em que eu não desejasse caminhar por uma estradinha solitária e, sem nenhum motivo evidente, dar socos e pontapés no ar, me abandonando ao choro nem que fosse por um minuto.


Sobre o Mimi, a verdade é que cada vez que ele falava milanesa, no lugar de imaginar Milão, minha mente era assombrada por um belo bife à milanesa, o que me provocou certa fome durante a leitura.

E sua vergonha da avó, assim como a não retribuição de tanto amor, já que avó inclusive assumia a culpa por suas artes infantis, me apertavam o coração, não havia um beijo, nem um muito obrigado. Seria típico de criança, se ele não conseguisse expressar tamanho sentimento pela menina da janela a frente.

Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidade.


Menina cuja morte - e isso não é spoiler, já que é revelado na primeira página -, se tornou uma assombração em sua vida, quase como um ponto de referência para os seus relacionamentos românticos.

Em relação a parte da língua, questão da grafia e suas mudanças ao longo dos anos, possuem toda uma explicação, que pode ser um ponto de atenção ou curiosidade para quem gosta do estudo da linguagem, confesso que não me chamaram tanto a atenção.

O momento, na memória, é ocupado apenas pela fotografia, um retângulo de papelão amarronzado com numerosas marcas de rachaduras brancas na imagem.


Exceto que me fizeram pensar que o tema principal da história é na verdade a morte. Temos a morte do amor - seja o vivido, seja o platônico -, a morte de alguns termos da linguagem, a morte de relações, a morte da infância, a morte do nosso eu de ontem. Nem mesmo a memória consegue a imortalidade, já que a mesma também vai se apagando aos poucos.

Confesso que no geral achei a leitura mais ou menos, algumas vezes achei bobinha, outras vezes um pouco enfadonha e em alguns momentos me envolvi. Mas se não fosse o bife à milanesa que criou uma associação permanente, talvez o livro caísse no esquecimento.

Era como se eu perdesse as pernas, senti que elas estavam indo e me deixando apenas o tronco e a cabeça.


Mas isso não significa que a experiência será igual para você, pois o que desencanta alguns apaixona a outros. Então você gosta de histórias que acompanham da infância a vida adulta, primeiros amores inesquecíveis, o que envolve linguagem, narrativas que envolvem memórias, talvez a leitura tenha outro significado pra ti.

Ficando a dica para quem quiser se aventurar e voltar aqui para deixar a sua opinião nos comentários.


Línguas
Vita mortale e immortale ella bambina di Milano
Domenico Starnone
Tradução: Maurício Santana Dias
TAG - todavia
2024 - 141 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O labirinto dos espíritos



Sinopse: Em O labirinto dos espíritos, Zafón nos conduz ao emocionante desfecho da série que começou com A sombra do vento e impactou leitores por todo o mundo. Personagens novos e antigos povoam as páginas, se entrelaçando em uma despedida grandiosa.

O IV livro da série O cemitério dos livros esquecidos fecha essa tetralogia que mistura a história de Barcelona com uma homenagem aos escritores e livros.



Ele inicia em Madrid nos anos de 1950 e quem guia o leitor é Alicia Gris, uma jovem mulher que ainda na infância sobreviveu aos bombardeiros que arrasaram Barcelona durante a guerra e lhe deixaram dolorosas cicatrizes no corpo e na alma.

Ele fechou os olhos e, um segundo depois, emergiu na vida constatando que o simples ato de respirar era a experiência mais maravilhosa que tivera em toda a sua existência. 


Investigadora sagaz de uma equipe que trabalha nas sombras, ela recebe a missão de localizar o ministro Mauricio Valls, que desapareceu junto com o seu guarda-costas de confiança. As pistas a levam de volta para casa, isto é, Barcelona, onde ela vai se aproximar da família Sempere e reecontrar o homem que ajudou a salvar sua vida, Fermín Romero.

Na família, apesar da paz aparentemente reinar, Daniel não consegue ser totalmente feliz , o enigma de sua mãe Isabella é algo permanentemente presente em sua mente, algo que nem Bea nem Juliàn conseguem distraí-lo. E o fato de tentarem protege-lo o irrita ainda mais.

A caça, a caça de verdade, é um duelo entre iguais. A gente não sabe quem realmente é até derramar sangue.


E conforme as peças são encontradas por Alicia, mais fatos obscuros começam a vir à tona, e o conhecimento destes fatos se torna um fardo perigoso para os que carregam, recordando ao leitor o que realmente tornava a cidade sombria naquela época.

Com o retorno dos personagens dos três primeiros livros e a chegada de novos, a narrativa é um verdadeiro convite a desvendar em definitivo os enigmas tão bem distribuídos por Zafón, com suas alegrias e tristezas, podendo emocionar os fãs da série.


A escrita de Carlos Ruiz Zafón

Nascido em Barcelona, Carlos Ruiz Zafón foi um renomado escritor e roteirista. Conhecido por sua habilidade em misturar elementos de mistério e romance em suas obras de ficção gótica, ele ganhou destaque internacional justamente com seu romance A Sombra do Vento (2001), livro que abre a série O cemitério dos livros esquecidos.

Zafón faleceu em 2020 - o que aperta o meu coração até os dias de hoje, já que ele está na minha lista de autores favoritos -  e seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas, tendo vendido milhares de exemplares pelo mundo.

Uma lenda é uma mentira concebida para explicar uma verdade universal. Os lugares onde a mentira e a miragem envenenam a terra são particularmente férteis para o seu cultivo.


Especificamente sobre O labirinto dos espíritos, o escritor optou por uma narrativa em terceira pessoa, o que permite ao leitor uma visão ampla e detalhada dos personagens e da trama, além de sempre especificar em cada nova parte a cidade e o ano que os fatos estão ocorrendo. 

O livro é interligado com os outros volumes da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas como ocorre nos anteriores, é possível ler o mesmo de forma independente, mesmo eu considerando isso um pecado já que além dos personagens, são os detalhes que fortalecem os laços entre os quatro livros.

Acho surpreendente como sempre procuramos no presente ou no futuro as respostas que estão no passado.


Como ocorreu nos três livros anteriores da série, a narrativa fluída de Zafón se destaca pela sua riqueza descritiva e pela construção de uma atmosfera densa e envolvente, que faz o leitor caminhar por uma Barcelona sombria.

E isto é complementado ao alternar diferentes tempos e pontos de vista, permitindo que a história se desdobre de maneira complexa ao mesmo tempo que se aprofunda nos personagens principais, revelando aos poucos todos os segredos e mistérios que foram guardados ao longo dos quatro livros da trama.

Você decide se quer viver ou apodrecer pouco a pouco, como deixou acontecer com tantos inocentes.


Além disso a intertextualidade e as referências literárias utilizadas ao longo da história são marcantes, refletindo a paixão do escritor espanhol pela literatura e encantando a todos que se entregam a leitura desta série.

Tudo isso utilizando uma linguagem fluída, que convida virar mais uma página, ler mais um capítulo e se apaixonar pela série.


O que eu achei de O labirinto dos espíritos

Foi emocionante realizar a leitura de O labirinto dos espíritos, uma história que homenageia os escritores e os livros, fechando de forma redonda esta série que tanto adoro e fiquei com vontade de reler ao fechar a contracapa.

Como nos três primeiros livros, nos deparamos com a força da literatura em um período que escureceu a hoje iluminada Barcelona, tendo como base a história de um país e todas as injustiças que ocorreram durante a época retratada.

Antes de sair ainda deu uma última conferida no espelho do saguão e se aprovou. Você partiria o próprio coração, pensou. Se tivesse um.


Tornando o livro ao mesmo tempo maravilhoso e doloroso, pois enquanto reforça a importância da literatura, nos lembra da destruição que uma ditadura faz não apenas nos livros, mas também na vida das pessoas, principalmente das crianças atingidas diretamente, cujas vidas são alteradas de forma definitiva.

Gostei da ampliação de locais que a narrativa trouxe, incluindo Madrid e Paris no caminho de alguns personagens. E já me peguei pensando em retornar as cidades só para fazer o roteiro de O labirinto dos espíritos. Pois sim, eu fiquei tão fã de A sombra do vento que quando fui a cidade de Barcelona passei por diversos dos pontos citados no livro, incluindo a rua onde fica a Livraria Sempere.

Você não mente para as pessoas; elas sozinhas se mentem. Um bom mentiroso dá aos bobos o que eles querem ouvir. Esse é o segredo.


E amei que apesar dos livros se completarem de tal forma que não possuem uma ordem certa , O labirinto dos espíritos fecha todas as pontas que os três primeiros deixaram ao longo do caminho, não deixando o leitor com perguntas, tudo de uma forma natural e fluída.

Aliás, para quem já leu os livros da série, uma dica, o Epílogo de O prisioneiro do Céu é um gancho para O Labirinto dos Espíritos.

As pessoas são como marionetes ou brinquedos de corda, todas têm um mecanismo oculto que permite manipular seus fios e fazê-las ir na direção que se deseja.


Então sim, eu indico, recomendo e saliento: quem ama literatura, quem ama livros, precisa entrar neste Cemitério. A chance de você se apaixonar pela escrita do Zafón e se apegar a família Sempere é muito grande.


O labirinto dos espíritos
El Laberinto de los Espíritus
Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Ari Roitman e Paulina Watcht
SUMA
2017 - 679 páginas
Primeira versão publicada originalmente em 2016