Sinopse: Ambientado em uma corte imperial, Diários de uma apotecária acompanha Maomao, uma jovem aprendiz de apotecária e apaixonada por venenos que, por circunstâncias inesperadas, passa a servir no palácio interno do imperador. Cheia de sardas e longe de se destacar pela beleza, leva uma vida discreta e só deseja cumprir seu tempo de serviço em paz ― até descobrir que os filhos do imperador estão morrendo e o rumor de uma maldição está se espalhando pelos corredores do palácio.
Maomao é uma jovem que cresceu no bairro das cortesãs e aprendeu desde cedo a lidar com medicamentos, ervas e venenos. Sua vida muda quando ela é sequestrada e vendida para trabalhar como serva no palácio interno do imperador. Seu plano é simples: cumprir o período de serviço de dois anos sem chamar a atenção de ninguém e, assim que possível, voltar para casa.
Esse plano começa a desmoronar quando ela toma conhecimento de que os filhos do imperador estão adoecendo. Movida pela curiosidade e pelo conhecimento que adquiriu como apotecária, Maomao investiga o que está acontecendo e acaba chamando a atenção de Jinshi, um enigmático eunuco funcionário da corte cuja beleza é tão extraordinária quanto sua capacidade de se envolver nos assuntos alheios.
Em sua volta, havia o mundo mais luxuoso e brilhante, e, ao mesmo tempo, entranhado em sedimentos impuros de uma atmosfera tóxíca.
Promovida a degustadora de alimentos da consorte Gyokuyou, a favorita do imperador, Maomao passa a circular por um ambiente em que as aparências escondem disputas de poder, rivalidades, segredos e interesses políticos.
A escrita de Natsu Hyuuga
Natsu Hyuuga, também conhecida pelo pseudônimo Hyuganatsu, é uma escritora japonesa nascida na província de Fukuoka. Ela iniciou Diários de uma Apotecária em publicações na internet no ano de 2011 e ganhou edição impressa em 2014, com ilustrações de Touko Shino.
A obra original é uma light novel, formato de romance popular no Japão que costuma combinar narrativa em prosa e ilustrações. A história também ganhou duas adaptações para mangá, com equipes criativas distintas, além de uma adaptação para anime.
Em um lugar onde somente os príncipes recebiam o direito de assumir o trono imperial, não havia motivos relevantes para se eliminar também as meninas.
Uma das características mais interessantes da escrita de Hyuganatsu é a maneira como ela combina mistério, intriga política, conhecimentos de medicina e farmacologia, humor e relações humanas. O que faz com que muitos fãs digam que Maomao é uma mistura de Sherlock Homes e Dr. House.
Os casos investigados por Maomao funcionam como pequenas histórias dentro de uma narrativa maior. Há problemas aparentemente isolados, comportamentos suspeitos e acontecimentos que exigem observação e raciocínio. Aos poucos, porém, percebemos que as peças não estão tão separadas quanto parecem. Absolutamente nada na história de Hyuuga está ali por acaso, assim como a sua ligação pode estar no mesmo volume ou em um próximo.
A letra disforme aparentava ser um artifício de camuflagem, mas, de algum modo, sugeria ser a escrita de uma mulher.
A autora também demonstra cuidado na construção dos personagens. Suas características não se limitam àquilo que dizem ou fazem em determinada situação: suas reações, contradições, lembranças e interpretações dos acontecimentos ajudam a compor personalidades mais complexas e lhe dão humanidade, pois eles não são 100% santos ou vilões.
Isso fica particularmente interessante no que se refere a Maomao. Seu comportamento irônico e pragmático pode dar a impressão de que ela é indiferente a tudo o que acontece ao redor. Entretanto, sua maneira de observar as pessoas e de reagir às situações revela que existe muito mais por trás dessa postura.
A própria ambientação contribui para a narrativa. O palácio não é apenas um cenário bonito para os acontecimentos: é um espaço organizado por hierarquias, privilégios e restrições, no qual a posição social de cada pessoa influencia suas possibilidades e seus destinos.
As diferenças entre a light novel, o mangá e o anime
Se você não conhece nenhum dos três e não gosta de spoiler, sugiro pular esta parte e ir direto para o que eu achei do livro, pois para comparar preciso citar os acontecimentos e isso pode quebrar um pouco a leitura.
Uma das particularidades de Diários de uma Apotecária é que a história pode ser acompanhada em diferentes formatos. E, para quem já conhece Maomao por um dos mangás e/ou pelo anime, ler a light novel proporciona uma experiência complementar e detalhada.
No Brasil, a light novel é publicada pela editora Alt com tradução direta do japonês, enquanto o mangá ilustrado por Nekokurage, com adaptação de Itsuki Nanao, é publicado pela Panini. Existe ainda outra adaptação para mangá, ilustrada por Minoji Kurata, mas não é publicada no Brasil.
Não havia chances de uma jovem que não sabia ler e escrever se tornar uma consorte com um quarto próprio. Afinal, ser consorte também era um ofício; elas recebiam até salário.
No mangá ilustrado pela Nekokurage encontrei um traço muito cuidadoso para representar cada detalhe e os complementos nas páginas finais, que não são descritos no romance, também servem de complemento para algumas cenas.
O anime, por sua vez, leva a narrativa para a animação, com o acréscimo de recursos visuais, expressões, trilha sonora e escolhas de direção que também influenciam a maneira como percebemos os acontecimentos. O traço é mais semelhante ao da Nekokurage.
Mas existe diferença entre eles?
Sim, como ocorre em qualquer adaptação de livro para visual, na light novel há mais detalhes e uma compreensão diferente dos personagens. No primeiro volume, encontramos uma apresentação mais gradual de Maomao e das pessoas que a cercam. A narrativa dedica espaço aos pensamentos da protagonista, às suas observações e às associações que faz enquanto tenta compreender o ambiente em que foi colocada.
Também temos mais informações sobre as relações entre as personagens, como por exemplo a Gyokuyou ao palácio de Jade e sobre as damas que a acompanham.
Ainda que tivesse um sorriso delicado, de alguém que não mataria uma mosca, havia algo oculto que parecia se mover nas sombras.
Outro ponto é a amizade de Maomao com Xiaolan. As conversas, os comentários e as fofocas não acontecem de maneira tão acelerada, permitindo acompanhar melhor como essa relação se estabelece ao longo do tempo.
Sobre o casal principal, o aspecto interessante é a maneira como a narrativa apresenta as primeiras impressões de Maomao sobre Jinshi. Sua beleza é algo que ela reconhece repetidamente, mas isso não é o suficiente para que ela suspire como os demais. A protagonista tem uma maneira muito própria de interpretar as pessoas, e Jinshi não escapa de suas comparações pouco elogiosas, detalhando inclusive porque quando ela o vê pensa em determinado inseto
Na light novel também fica mais evidente o contraste entre o comportamento que Maomao demonstra e aquilo que parece preferir manter escondido. Seu pragmatismo, sua ironia e sua habilidade para se adaptar às circunstâncias convivem com uma necessidade muito forte de autopreservação. Não é que ela não entenda ou não veja, ela escolhe ignorar para não se expor.
Para quem até o momento estava na base da pirâmide hierárquica, era como se tivesse subido até mais ou menos o meio dela.
Em relação ao anime e o mangá, os acontecimentos são mais dinâmicos, puxando mais a parte cômica. Mas existem algumas diferenças que podem impactar um pouco mais em relação ao volume 1, que são cobertos pelos os quatro primeiros mangas da Nekokurage e os 12 primeiros episódios da 1 temporada.
No mangá não é abordado a cena da madeira com o fogo colorido, ao qual um eunuco procura apoio no atendimento médico por ter se ferido. Esta cena tem relação com dois momentos posteriores, sendo que em um deles foi necessário buscar uma solução alternativa para encaixar a resolução do mistério.
Outro ponto é a relação e personalidade de Maomao e Jinshi, ambos precisando de uma terapia para recuperar a autoestima.
Pequena e magra demais, era enxergada como uma criança muito jovem. As outras damas de companhia pareciam sentir muita pena daquela pobre coitada descartável.
E muito da personalidade de Maomao e suas cobranças e autoavaliações vem de seu ambiente. Sua capacidade de adaptação é impressionante, mas não deve ser confundida com uma disposição para aceitar tudo passivamente. Ela observa, calcula riscos e procura encontrar a maneira mais segura de atravessar cada situação, só que frequentemente a sua curiosidade fala mais alto do que sua vontade de permanecer invisível.
Na light novel, seus pensamentos deixam mais evidente a maneira como ela administra as próprias emoções. A ironia e o deboche funcionam como parte de sua personalidade, mas também ajudam a manter certa distância entre ela e as pessoas ao redor. Como uma jovem que cresceu em um bordel, ela se protege, pois sabe que as relações não são gratuitas e possuem grande fragilidade para quem é o mais fraco.
Jinshi também ganha novas camadas. No romance é possível observar que ele não reconhece a sua própria inteligência e percepção, acreditando que seu único mérito é a aparência, ao qual usa para manipular as situações e pessoas a sua volta.
Já ouviu uma vez que, se ele desejasse, nem mesmo o imperador se importaria com qual gênero ele se identificava, mas esse tipo de elogio não o trazia nenhuma alegria.
Ao mesmo tempo, existe uma contradição em sua relação com Maomao: quando ela não responde ao seu charme como ele espera, Jinshi por vezes recorre a estratégias semelhantes às que outras pessoas utilizam com ele — justamente aquelas que ele próprio não aprecia.
E aí chegamos no dito episódio do mel, que no anime e no mangá, a situação ganha um tom predominantemente cômico. Na light novel, entretanto, a narrativa permite perceber com mais clareza como o acontecimento afetou Maomao.
Isso aparece especialmente no reencontro dos dois: sua primeira reação instintiva é se afastar, e Jinshi percebe que foi longe demais, o que cá entre nós é um tanto óbvio após a festa do jardim, quando ela explica o motivo das sardas. Acrescentando uma dimensão diferente ao episódio. O humor continua existindo, mas não apaga as consequências do que aconteceu para os personagens e que sim, foi um assédio.
O cabelo de Maomao foi levantado e algo gelado tocou seu pescoço.
É um bom exemplo de como conhecer os pensamentos de Maomao pode modificar a interpretação de uma situação que, em outra mídia, parece funcionar principalmente como uma piada, principalmente entre os mais jovens.
Confesso que esta foi a razão pela qual terminei tanto o mangá quanto o anime na época concordando com a Maomao de que o Jinshi era um cara muito chato.
Pontos de ligação com os volumes futuros
Como comentei anteriormente, absolutamente nada é incluído na história por casualidade, sendo pistas para revelações futuras ou recorrentes na história, e por este motivo listei as que mais me chamaram a atenção:
1) A autodepreciação de Jinshi e Maomao
2) No 1º encontro de Maomao com Gausho ela acha que ele é um militar
3) No episódio do sonambulismo é citado que devido aos muros altos a guarda é muito relaxada no palácio interno
4) Também no episódio do sonambulismo temos a inveja de Gyokuyou da consorte libertada para casar com o seu amor
5) A mudança de destino conforme uma mulher possui ou não relações com um imperial
6) O quanto Maomao traça uma linha em relação as diferenças sociais com as demais pessoas
7) Maomao achar Jinshi mais jovem do que ele diz ser
8) Citação de casais que morrem juntos por amor
9) Maomao pedindo para ser sentenciada com veneno caso um dia fosse acusada de algo
10) A memória para rostos do Jinshi
11) Semelhança entre Ah-Duo e Jinshi
12) A eliminação dos bebês independente do gênero
Vocês observaram mais alguma? Pode deixar nos comentários, pois adoro ver as pistas que Hyuganatsu deixa em sua história.
O que eu achei do Volume 1 de Diários de uma Apotecária
Eu conheci Diários de uma Apotecária pelo anime na Netflix, apresentado pela minha filha, que depois me emprestou os mangás. Mas foi uma determinada cena envolvendo um sapo que me fez procurar as light novels. Porque, não, Diários de uma Apotecária definitivamente não é um desenho para crianças!
Este ano, finalmente chegou ao Brasil a tradução da light novel para o português, diretamente do japonês, e assim nasceu esta resenha, que mistura as três mídias. Simplesmente porque Maomao merece!
Nos braços, tinha cicatrizes que pareciam de maus-tratos, e ouviu dizer que ela havia sido vendida; ainda, era oficialmente contratada para provar comidas em busca de veneno.
A primeira coisa que preciso dizer é que me tornei muito fã da história conforme fui tendo conhecimento do desenrolar da trama, que sim, acho muito bem construída e coloca as mulheres no centro de tudo.
Outro ponto que me conquistou é que a obra é um grande quebra-cabeças, pois mesmo as informações que parecem pequenas quando aparecem pela primeira vez, podem ganhar outros significados conforme a história avança.
Pois ao usar um tempo passado, sem se prender exatamente a um período especifico, a autora consegue passar os desafios de ser mulher em um mundo onde tudo precisa da permissão dos homens.
Ao que parecia, seus músculos faciais estavam reagindo automaticamente nos últimos tempos e ela não conseguia se esconder mais atrás da sua máscara de indiferença como antes.
O que as torna não apenas moeda de troca, mas sem poder de decidir o próprio destino, independentemente de serem pobres ou ricas. E por isso o paralelo entre um bordel e o harém do imperador feito por Maomao não poderia ser tão acertado.
Mas a também o uso da inteligência destas mulheres para obter o poder e resistir a todas as armadilhas, pois ao prender nobres de diferentes famílias em uma mesma área, verdadeiras guerras são travadas entre chás e fofocas espalhadas.
Afinal, todas as mulheres envolvidas certamente seriam mais felizes assim. Havia coisas que era melhor não saber.
Então não ache que Diários da Apotecária é uma leitura infanto-juvenil só por ter ilustrações, pois ele realmente está muito longe disso. E sim, se você gosta de uma boa história, essa pode te conquistar.
Motivo pelo qual deixo a dica e o convite para conhecer todos os mistérios do Império de Li e as aventuras de uma jovem cuja curiosidade e raciocínio podem te conquistar.
Diários de uma Apotecária
Kusuriya no hitorigoto
Hyuganatsu
Tradução: Jéssica Maki Kimura
Alt
2026 - 278 páginas
Publicado originalmente em 2014

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