segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Revolução dos Bichos


Sim, achei que a história fosse pura e simplesmente uma revolução do mundo animal. Uma forma de satisfazer o imaginário daqueles que, assim como eu, pensam que não seria nada mal ver os animais darem o troco e colocarem a opressora raça humana em rédeas curtas.  O que fui saber logo na orelha do livro, é que Revolução dos Bichos, de George Orwell, era muito mais do que uma história sobre animais e como eles funcionariam em comunidade caso tivessem a capacidade de se sobrepor aos homens em termos de civilidade. É, em primeiro lugar, uma ferrenha crítica à tirania política protagonizada na Guerra Fria. Uma forma de questionar o comunismo stalinista com humor satírico e de maneira muito desconfortável para os soviéticos.

O enredo é basicamente este: Os bichos da Granja do Solar se rebelam contra a exploração humana e decidem tomar posse da fazenda. Em pouco tempo, os porcos tomam a liderança do grupo e passam a ter atitudes muito semelhantes à dos humanos que repudiavam. Mostrando todas as faces do poder, os porcos passam a defender seus interesses com assassinatos, distorções da realidade e slogans que visam manter o controle – como o que diz “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”,ou o audacioso “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros”.

Na edição de 2007 da Companhia das Letras, a fábula se encerra na página 112, mas segue até a página 147 com o posfácio de Christopher Hitchens e apêndices com os prefácios da edição inglesa de 1945 e ucraniana de 1947.É possível apreciar a obra sem conhecer os fatos históricos que a originaram, mas seria desperdício intelectual ignorar os textos que a seguem. Através desta leitura, é possível mergulhar nas intenções do autor e em suas lutas. Apreciar os detalhes narrados por ele sobre a realidade de sua época, especialmente o que diz respeito à sua obra e a liberdade de imprensa.
   
Pela ousadia, humor e habilidade narrativa do autor, é um livro obrigatório para quem gosta de literatura. E, certamente, é uma porta de entrada para aqueles que querem saber mais sobre os acontecimentos histórico-culturais envolvidos diretamente com a obra. 

domingo, 28 de novembro de 2010

Dançando no Ar

Em 22 de junho de 1692, na Aldeia de Salem, três mulheres com o nome de Ar, Terra e fogo decidem que é hora de se esconder da inquisição e fazem surgir a ilha das “Três Irmãs”.

Pulando para 2003, Helen Remington escolhe a ilha das Três Irmãs para se esconder do marido psicopata, recomeçando sua vida com o nome de Nell Channing.

Como todos os livros de Nora Roberts é possível se deparar com o casal que será feliz para sempre, dramas domésticos e amizades. Mas apesar de parecer lugar comum, “Dançando no Ar” faz o leitor devorar o livro.

Os elementos da magia, como a evocação das herdeiras das bruxas, tornam a leitura deliciosamente agradável, e mesmo sabendo o final, é impossível não torcer pelos personagens e na busca de Nell em encontrar sua coragem e quebrar uma antiga maldição.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os Espiões




“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer”. É com esta frase que Luís Fernando Veríssimo começa Espiões, lançado em 2009 pelo selo Alfaguara da Editora Objetiva. A irreverência, característica forte do autor, já pode ser vista logo na capa: um espião muito mal disfarçado atrás de um poste. Traduz, com efeito, a história de espionagem parodiada e que ao mesmo tempo mostra  a imagem de um espião real, que vive fora dos filmes e dentro de uma história tragicômica no interior do Rio Grande do Sul.

Tudo começa quando o personagem principal, funcionário de uma pequena editora de Porto Alegre, passa a receber os originais de uma misteriosa mulher chamada Ariadne. Como ela promete o suicídio após o término do relato de suas peripécias com o amante, ele sente que deve ajudá-la e ruma à cidadezinha de Frondosa. Completamente envolvido com a mulher que não conhece, o personagem passa a ser o aguardado herói. Em suas peripécias, conta com o auxílio de figuras como o colega de serviço Dubin e o professor Fortuna - que nem sequer é professor.

Muito focado na narrativa, Veríssimo se confunde com o personagem sem nome. Impossível não pensar no autor quando nos deparamos com as falas cômicas e irônicas de nosso espião. Característico do autor- cronista, o livro é de escrita direta e simples, mas nem por isso menos envolvente, e genial. É sempre revelador ler sobre as peripécias saídas da cabeça de um escritor que sabe reunir, como ninguém, humor e inteligência.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Linha D’Água – Entre Estaleiros e Homens do Mar

Comprei este livro sem pretensão nenhuma, ele estava ali em oferta, olhamos um para o outro e em poucas horas ele estava na pilha dos “para ler”. Quando chegou a vez de Linha D’Água, pensei que havia outros títulos aos quais gostaria de ler primeiro, mas devido a minha mania de ler na ordem de compra, abri a capa e comecei.

O que encontrei foi uma história de paixão pelo mar, pelos veleiros, pela aventura, pelos amigos e pela família. Amyr Klink é um homem que luta pelas suas paixões. E o livro é isso, a narração de uma parte da sua história: simples, clara, direta e emocionante.

Narrado em primeira pessoa, ele nos conta, como se estivesse sentado no sofá da sala toda a concepção do veleiro Paratii 2. E isso inclui idéias, busca por material, brigas, equipe, viagens para outros países, aventuras com outros veleiros, além de alguns puxões de orelha na política brasileira.

Como bônus, fotos de Paraty (cidade), do veleiro Paratii2, dos lugares pelos quais ele e sua tripulação passaram, além os desenhos que tornaram um sonho realidade.

No final, chamado de lado B, temos o texto de Marina Bandeira Klink, que expõe toda a sua preocupação, apoio e memórias de uma esposa cujo marido passa mais longe do que perto. O que poderia ser uma narrativa triste ou ciumenta é o relato de um casamento de companheirismo, onde um está ao lado do outro, independente da distância que os separam.

Uma leitura que serve tanto para diversão quanto para reflexão sobre se lutamos pelo que realmente sonhamos.

domingo, 7 de novembro de 2010

No Caminho de Swann

“E dizer que desperdicei anos da minha vida, que desejei morrer, que vivi o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu tipo!”.

A frase de Swann, pra mim, traduz os sentimentos e sensações que tive durante a leitura, que basicamente se dividiu entre tédio e encanto. Um retrato da ansiedade e obsessão humana: “No Caminho de Swann” os personagens parecem viver este ciclo permanentemente, seja através do homem cujo nome é evocado logo no título, seja pelo narrador, um menino-homem-velho, que mistura os seus pequenos dramas as histórias que conta.

Primeiro livro de uma série de sete, este é considerado o mais biográfico de Marcel Proust, onde locais, lembranças e a sua própria saúde frágil na infância são citados pelo narrador, um menino que necessita de cuidados e passa suas férias em uma aldeia, onde dilemas como um beijo maternal de boa-noite e uma menina o agitam mais do que o normal.

Dividido em três partes, a história trás diferentes personalidades, onde diferentes tipos de moral, fidelidade e amizade são descritos por figuras ora refinadas, ora misteriosas, ora escandalosas. Como não poderia deixar de ser, envolvidas pelo amor (seja materno, carnal ou platônico) e naturalmente, pelo preconceito.

Um retrato peculiar da sociedade burguesa, onde mesmo a diferença de tempo nos permite observar algumas origens do comportamento atual da humanidade e até mesmo analisar nossas opiniões frente aos comportamentos representados.

domingo, 31 de outubro de 2010

Eu sei que vou te amar

Baseado no filme de mesmo nome, Arnaldo Jabor informa logo no início que texto é uma síntese das famosas DR’s (Discutir a Relação).

O leitor irá encontrar um momento na vida de dois personagens. Não existe mais ninguém em cena. É possível ver as palavras que trocam e os seus pensamentos, mas não é possível vislumbrar o que realmente aconteceu ao casal, apenas que eles se separaram, guardam mágoas e uma obsessão um pelo outro.

Se em alguns momentos o homem parece um calhorda, em outro ela parece perdida, e num terceiro momento pode-se achar que ambos são loucos.

A história é fácil e rápida de se ler, com algumas ironias em relação ao Brasil, essa DR chega a ser divertida (não tendo a chatice da convencional), mas “Eu sei que vou te amar” é apenas um dia, onde não se sabe o amanhã.

domingo, 24 de outubro de 2010

Fadas no Divã

Apesar do subtítulo “Psicanálise nas Histórias Infantis”, o livro dos autores Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso pode ser degustado por profissionais de todas as áreas.

Como não tenho habilitação na área de psicanálise, me atrevo comentar como sendo uma leitora voraz, iniciada no mundo das letras por alguns dos seres mágicos citados.

Dividido em duas partes: histórias clássicas e histórias contemporâneas, “Fadas no Divã” me trouxe de bônus uma correnteza de lembranças, reflexões e observações.

Nas histórias clássicas é possível conhecer a versão estendida de famosos contos de fadas (que foram “censurados” antes de virarem histórias infantis) e outras histórias igualmente interessantes, mas não conhecidas (pelo menos por mim).

Confesso que algumas observações me geraram uma certa contrariedade, pois me parecem suposições do que cada coisa pode simbolizar. Mas talvez nem os autores originais tenham pensado nisso, pois nas versões estendidas, verifica-se que temas como sexo, violência e vingança não são escondidos.

Já nas histórias contemporâneas as observações me pareceram mais palpáveis, pois refletem muito do comportamento da nossa sociedade atual.

Uma das análises que atraíram a minha atenção foi do Eeyore, o burrinho roxo e meu personagem favorito da turma do ursinho Pooh. Eeyore é definido como melancólico, alguém que tem um eterno desencontro entre suas necessidades.

Nesta segunda parte também encontramos a turma da Mônica, Harry Potter e os encantadores Mafalda, Calvin e Harold, estes últimos sendo descritos como adultos-crianças.

Para finalizar, uma história criada pela família Corso sobre Vampi, o vampiro vegetariano, onde Mário Corso revela que a história foi criada sem nenhuma intenção (o que me fez recordar a minha opinião um tanto crítica sobre a análise de contos antigos), mas que depois eles descobriram muitas coisas pessoais, entre elas, seus conflitos.

Eu poderia escrever horas sobre “Fadas no Divã”, mas apenas lendo para saber que reações e descobertas cada leitor irá ter. Pois mais do que uma psicanálise das histórias infantis, o livro é como um olho externo analisando o ser humano.