sexta-feira, 26 de abril de 2019

Inteligência Socioemocional



E se as crianças tivessem uma aula semanal de como administrar suas emoções? Saber como reagir perante a timidez, as frustações ou fatos tão diferentes do cotidiano?

No livro Inteligência Socioemocional – A Formação de Mentes Brilhantes o psiquiatra Augusto Cury nos apresenta a Escola da Inteligência, programa cujo foco é na educação da emoção e no desenvolvimento da inteligência.

Parece simples, não? Mas a verdade é que no decorrer das poucas páginas que apresentam o programa nos deparamos com uma realidade diária; que vai da expansão da tristeza, angústia e solidão, passando pelo próprio bullying e a falta de qualidade de vida.

Qual o motivo por não conseguirmos ouvir e dialogar com quem não tem a mesma opinião? O que nos leva a deixar que a nossa mente seja tomada de pensamentos negativos? Por que não sabemos esperar?

A ideia do programa conforme o livro é justamente educar a mente desde pequeno para que os futuros adultos saibam gerenciar as suas emoções e assim terem controle de sua própria história sem que sejam levados por impulsos que mais atrapalham do que ajudam.

Também são abordados temas como ansiedade, depressão, suicídio e a síndrome do pensamento acelerado (que pode ser um forte candidato a mal do século) e possui como sintomas ansiedade, irritabilidade, impaciência, dificuldade de lidar com o cotidiano, relação problemática com a comida entre outros. 

Entre as formas de administrar e proteger as emoções estão o desenvolvimento de solidariedade, empatia e ser livre para sentir. Tudo através de ferramentas aplicadas durantes as aulas por profissionais especializados.

Sim, entre as páginas há muita propaganda do próprio autor, que cita outros livros escritos por ele e cita suas descobertas de uma forma que deixa o marketing pessoal bem claro. Mas isso não impede o leitor (ou mais especificamente os pais neste caso) de detectarem situações do cotidiano descritas nas páginas.

Em um mundo em que as pessoas parecem estar ficando tão irracionais quanto os próprios animais, transferindo cada vez mais a sua selvageria para palavras e atos, confesso ter achado muito interessante a possibilidade das escolas formarem uma geração melhor, mais consciente e humana.

Ganhei o livro de uma escola ao qual fui conhecer, já que como mãe estou na fase de escolha da escola grande. Para quem se interessou, existe muita informação na internet. Eu ainda não me decidi, mas confesso que talvez isto seja um diferencial na minha escolha. E decidi compartilhar com outros pais que talvez busquem algo diferente para a educação dos seus filhos.

Inteligência Socioemocional
A Formação de Mentes Brilhantes
Augusto Cury
EI – escola de inteligência
138 páginas

sexta-feira, 5 de abril de 2019

O Diamante - A História de Uma Paixão



Sinopse: Cinco personagens, separados pelo tempo e aparentemente sem conexão entre si, contam a história da paixão das mulheres pelo diamante - aliás, não só das mulheres. Revezando-se em uma ciranda de acontecimentos divertidos, infelizes, revoltantes ou surpreendentes, a extraordinária Frances Gerety - que existiu de verdade - e outros indivíduos muito especiais mostram que a história de uma sociedade é construída por meio de relações humanas, na intimidade dos lares. As transformações do mundo moderno nem sempre conseguem abalar aquilo em que se acredita com todo o coração - mas as decepções com aqueles que amamos... essas podem mudar as nossas opiniões.

O que faz uma pedra seduzir mulheres, endividar homens e se tornar o símbolo de amor e status em diferentes épocas da sociedade? Qual o preço financeiro e moral estão dispostos a pagar? Será mesmo o tamanho da pedra do diamante a garantia de que o feliz para sempre é eterno?

Que sua felicidade dure tanto quanto um diamante.

A autora J. Courtney Sullivan se utiliza de cinco personagens em diferentes épocas para questionar não apenas a simbologia de uma pedra chamada Diamante, mas o papel da mulher, a necessidade do casamento e naturalmente as relações humanas. 

Em 1947 Frances Gerety precisa criar um slogan para a empresa De Beers – conglomerado de empresas de mineração e comércio de diamantes – em plena a madrugada, devido ao seu hábito de procrastinar as coisas. Ela trabalha na Ayer, a agência de publicidade mais poderosa do mundo naquela época.  Com muito sono ela rabisca uma frase em um papel.

Os diamantes são eternos.


Frances é a real autora de um slogan que persiste até os dias de hoje. Ela não é um personagem de ficção, e através de pesquisa, a autora conta a história desta mulher que entrou no mundo dos homens, nem sempre teve o reconhecimento que merecia, mas que nem por isso deixou de lutar para conquistar o seu espaço. 

Das suas escolhas pouco comuns para a época, como se manter solteira e não ter filhos, até encarar uma nova geração, é através dela que descobrimos todas as estratégias de marketing utilizadas para convencer homens e mulheres da importância do diamante em suas vidas.

Ela sempre levou em conta sua falta de capacidade de ser rude com as pessoas, uma de suas piores qualidades.

Em 1972 iremos conhecer Gerald e Evelyn.  Os dois são aposentados, possuem um único filho que apesar de adulto ainda é fonte de preocupação, e duas netas. Aqui temos um casal com um companheirismo singelo, eles passaram por perdas tristes, e eles são amigos também.

A grande tristeza de Evelyn é o pedido de divórcio de seu filho Teddy, algo ainda inaceitável para ela. E o aviso da nora de que ela irá se mudar com as meninas torna tudo ainda mais sofrível. Enquanto ela se debate em como confrontar o filho, lembranças do seu passado surgem, contanto o início do relacionamento do casal.

Para manter seu casamento transbordando 
De amor no seu copo de carinho,
Sempre que estiver errado, admita;
Sempre que estiver certo, cale-se.
Poema Uma Palavra aos Maridos – Ogden Nash

Em 1987 temos James e Sheila, casados, pais de dois filhos e donos de um basset. Sheila veio de uma família abastada que não aceita muito bem o seu marido James, um motorista de ambulância. 

Aqui temos um casal que sofre com a questão financeira, as lembranças de um assalto recente que levaram o anel de diamante, um símbolo da sua relação.

A escuridão lhe deu um nó no peito, um medo que ele sabia ser infantil, mas era assim que ele se sentia -ansioso, hiperalerta.

Em uma véspera de Natal, James será obrigado a ficar de plantão, e assim iremos conhecer os sonhos de ser um músico que foram enterrados, a carreira de bombeiro perdida, a casa caindo aos pedaços e uma relação que parece sobreviver a tudo isso.

Pulamos para 2003 onde a francesa Delphine está colocando o seu plano em ação. Uma mulher que abandonou Paris e o seu marido por um jovem violinista que colocou um enorme anel de diamante em seu dedo e a trouxe para Nova York.

É surpreendente como a vida podia mudar de uma hora para outra, e sem aviso algum.

Uma relação em que quando unidos era bastante quente, mas que nas viagens dele lhe traziam solidão e tristeza ao descobrir que se encontrava sem dinheiro, sem empregos e sem amigos.

Enquanto Delphine resolve se curar do sofrimento que a consome, ela leva os leitores até a França, nos permitindo andar pelas ruas e pontos turísticos de Paris. Os capítulos dela são os que mais despertam sentidos como cheiros, gostos e visuais.  

É tão trágico quando aparece zero dia. Te faz lembrar que, em algum momento, a cerimônia vai acabar.

É dela também que muitos costumes americanos são questionados, desde a forma de se alimentar até a forma das mulheres se cuidarem, passando por questões políticas já que estamos em pleno período da guerra no Iraque.

Fechamos o círculo em 2012 com Kate, uma mulher que detesta casamentos, já foi um membro atuante em uma ONG que combate a mineração de diamantes, mas no momento atual cria sua filha em uma cidade do interior americano junto com o seu companheiro Dan.

Sabia que faturamos para a empresa o mesmo que os homens? E somos privadas dos negócios mais importantes.

Kate é a personagem responsável por muitos questionamentos e também pela parte mais irônica do livro, já que toda a história dela vem à tona ao ser convidada para ser madrinha de seu primo, que deseja aproveitar a liberação do governo americano para os casamentos gays para ter uma festa e usar um anel de diamantes.

Ao unir as cinco histórias temos a posição da mulher no mercado de trabalho e dentro de casa, conceitos e preconceitos que atravessam décadas e a dificuldade de ter as próprias escolhas aceitas. 

Quando as pessoas estavam sofrendo, seus governos lhes davam casamentos ou guerras com as quais pudessem se distrair. 

Não foram raras as vezes que me peguei pensando também em como somos convencidos todos os dias a sentir necessidade por algo que nunca nos fez falta, que se soma a esta estranha necessidade de se firmar socialmente através de bens materiais.

Um livro para encantar e pensar. Sua narrativa em terceira pessoa pega o leitor pela mão e o faz entrar em uma máquina do tempo e andar pelos anos e se deparar com os diferentes costumes e hábitos que se repetem. Um livro que eu literamei.

O Diamante - A História de uma Paixão
The Engagements

J. Courtney Sullivan
Tradução: Ivar Panazzolo Junior e Robson Paulin
Novo Conceito
2013 – 479 páginas
Onde comprar: Amazon

terça-feira, 19 de março de 2019

A Vendedora de Livros



Sinopse: Denver- 1962: Kitty Miller já se acostumou à vida de solteira. Ela ama a livraria que gerencia com a melhor amiga, Frieda, e adora ser dona do próprio nariz. Ela pode ir aonde quiser, quando quiser, e não deve satisfações a ninguém. Denver-1963: Katharyn Andersson é casada com Lars, o amor de sua vida. Eles têm filhos lindos, uma casa elegante e bons amigos. É tudo que Kitty Miller um dia desejou para si - mas essa vida só existe em seus sonhos. No entanto, toda vez que Kitty sonha com a vida de Katharyn, passa a achar aquela versão de si mais irresistível, mais verdadeira. Como escolher entre qual das duas vidas que leva paralelamente é a que quer viver? E qual será o preço de permanecer Kitty, ouse transformar de uma vez em Katharyn?


Este não é o meu quarto! Onde estou? 

É desta forma que o leitor começa a entrar na vida de Kitty/Katharyn, a mesma mulher que em um momento é solteira, sócia de uma pequena livraria em crise, que possui laços fortes com os pais e vive de forma independe. Quando ela dorme, ela se torna uma mulher casada, mãe de três crianças pequenas, sendo um dos meninos autista, e dona de casa.

Em cada uma das vidas ela se vê realizando sonhos e com problemas a resolver. E conforme os tempos vão se mesclando, fica cada fez mais difícil para a personagem saber qual é a sua vida real e qual é a vida imaginária. 

É muito otimista que meu cérebro tenha imaginado um marido que pode comprar um diamante desse tamanho.

Livro de estreia da escritora americana Cynthia Swanson, A Vendedora de Livros é instigante e reflexivo ao tratar de um tema recorrente no ser humano: a eterna insatisfação do que temos. Ao viver duas vidas, uma em 1962 e outra em 1963, onde o que as difere são justamente o se eu tivesse feito isso, no caso específico do livro se ela conseguisse socorrer Lars, o marido de Katharyn ao qual Kitty apenas ficou esperando em uma cafeteria. E nesta provocação Kitty/Katharyn mostra ao leitor que não existe vida perfeita, que independente do caminho escolhido haverá risadas e lágrimas, e não é no passado ou no futuro que iremos nos encontrar.

Narrado em primeira pessoa, vivemos as mesmas confusões de Kitty/Katharyn, o que faz com que os olhos devorem as páginas em busca de respostas. A cada descoberta nos surpreendemos junto com a personagem, e não raro se pode bolar teorias para a razão de ela ter criado outra vida para fugir da sua realidade.  E como não temos a visão dos demais personagens, não se sabe quem está certo ao afirmar onde é a sua vida verdadeira.

Será que tem algum outro lugar onde eu possa procurar? Alguma pista que deixei escapar?

Por ser uma dona de livraria, o livro é recheado de referências bibliográficas, começando pelo gato da personagem que se chama Aslam – o leão de As Crônicas de Nárnia – passando pelos livros que ela seleciona para indicar aos seus clientes e conhecidos. Eles também são elos entre as duas vidas, e sua participação não são mera coincidência.

Além dos livros a personagem é bastante musical, possibilitando a criação de uma playlist somente com os sucessos dos anos 60, sendo Patsy Cline a cantora favorita da personagem. Alias pequenas partes das letras de música country de Patsy podem ser encontradas nos capítulos do livro, sendo também um elo entre os dois mundos.

No entanto, teria preferido que minha personagem neste sonho fosse um pouco mais moderna.

Em relação às roupas a personagem possui estilos opostos em cada vida. Solteira ela tem um estilo despojado de cores vibrantes e um cabelo indomável, como Katharyn ela tem Jackie Kennedy como referência, cores sóbrias e cabelos arrumados fazem parte da sua rotina. 

Uma área bastante delicada no livro é justamente a relação de Katharyn com Michael, o filho autista. Ao mesmo tempo em que ele quebra a perfeição de um dos mundos, existe todo um contexto sobre preconceito e aceitação de mães e filhos e convivem com esta doença.

Então, após mais de uma semana de sono sem sonhos, minhas visões noturnas retornaram.

Um livro sobre família, amor, amizade, perdas, desejos e valorização. É impossível não se encantar e não entender Kitty/Katharyn, ao mesmo tempo em que o leitor pode fechar a última página e refletir sobre o seu próprio presente sem precisar dormir e entrar em outra vida.

A Vendedora de Livros
The Bookseller
Cynthia Swanson
Tradução: Julia Romeu
TAG Inéditos – SUMA
2015 – 380 páginas

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quarta-feira, 13 de março de 2019

Primavera num espelho partido



Sinopse: Primavera num espelho partido é um livro arrebatador, que conta a trajetória de uma família separada pela prisão e pelo desterro, mas que sobrevive graças à esperança. O romance intercala múltiplas vozes narrativas, incluindo a do próprio Benedetti, que vivenciou a violência da ditadura e passou parte de sua vida exilado. Ao entrelaçá-las, o autor compõe um mosaico de impressões e sentimentos, num livro marcante sobre a resistência do amor em tempos sombrios.

Para o mês de fevereiro/2019 a TAG Curadoria enviou para os seus associados a obra indicada pelo escritor brasileiro Julián Fuks.

Durante a década de 1970, em plena ditadura uruguaia, uma família composta de pai, mãe, filha e avô contam a separação devido à prisão do primeiro. Completando a narrativa está um amigo e o próprio autor, que conforme é indicado na sinopse do livro, compartilha suas próprias memórias.

Sempre tem alguém que está pior, como concluía Esopo. E até pior do que o pior, concluo eu.

Santiago é o pai, que permanece preso no Uruguai e escreve cartas para a família que está na Argentina em exílio. É ele o primeiro personagem apresentado, mas não é o único responsável por toda a mudança na vida familiar, visto que a sua esposa também era militante. 

Em terras Argentinas estão os demais personagens, como a mãe Graciela e a filha Beatriz. Mesmo juntas, existe uma distância entre elas, como o fato de Beatriz só chamar Graciela de mãe quando deseja agradá-la. 

É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua para de vê-lo como um estranho.

Narrado em terceira pessoa, a parte de Graciela mostra uma mulher forte, que trabalha e agora se vê cheia de dúvidas com a longa separação. Ao mesmo tempo é a responsável pela parte mais inverossímil do livro.

Já a narrativa da menina Beatriz é uma das mais agradáveis, e ao mesmo tempo reais em relação aos personagens. Sua visão está na saudade e nas mudanças, no que ela percebe e no que ela imagina, rendendo alguns momentos cômicos na história.

As notícias do rádio não somente não eram tediosas, como nos bons tempos, às vezes chegavam a ser arrepiantes, já que em janeiro de 1975 costumavam aparecer dez ou doze cadáveres diários nas lixeiras portenhas.

O pai de Santiago, Don Rafael, compartilha com o leitor suas dúvidas, histórias e culpas. Entre a nostalgia e a atualidade, parece que as cartas acabam aproximando mais pai e filho, já que aqui também há um distanciamento parental, antes muito maior que a distância física.

Fechando o quinteto temos o amigo Rolando Asuero, o solteirão da turma que dá uma ideia de como era o antes de todos os seus companheiros se separem, sejam pela prisão, pelo exílio ou pela morte.

Eu não tirito porque sou menina e não velhinha e também porque me sento perto da estufa.

Entre os personagens, o próprio Mario divide as suas histórias do exílio, usando a narrativa em primeira pessoa e letras em itálico. E na minha opinião, junto com os capítulos de Beatriz, são os mais interessantes. Neles estão suas mudanças de país, as pessoas que encontrava pelo caminho, as mudanças que aconteciam em Cuba em uma visão apaixonada que o socialismo de Che provocava na época.

Mario Benedetti muda o estilo narrativo conforme o personagem, mais do que alterar entre primeira e terceira pessoa, está o uso de cartas – recurso que eu vi sendo utilizado por Amós OZ em seu maravilho A caixa-preta, ou apenas contando o que está acontecendo – recurso utilizado em outro livro que eu acho muito interessante chamado Meu Nome é Vermelho de Orhan Pamuk.

Mas as mulheres sempre tinham fofocas e modas e horóscopos e receitas de cozinha para trocar, pelo menos naquela época, e talvez por isso eles sempre se reuniam à parte para consertar o mundo.

O problema é que esta mistura de recursos nem sempre é muito fácil para o leitor e creio, nem para o escritor, já que a história exige uma atenção extra para seguir cada fio condutor até eles se unirem. No caso de Primavera num espelho partido, em alguns momentos fica a sensação de superficialidade, mesmo tendo um tema tão tenso e que até hoje provoca acaloradas discussões.

Um exemplo é a própria apresentação dos personagens, logo de início você não sabe sobre quem está se falando, fica-se perdido tentando encaixar as peças, tornando assim a intensidade da história secundária. Imaginei que o objetivo do autor talvez você transferir para o leitor o sentimento de estranhamento, de perda de identidade em um local estranho, mas o efeito colateral pode ser justamente um distanciamento dos fatos.

Também deve imaginar que, mesmo que ele e eu tivéssemos tido todas essas discussões em profundidade, ele teria seguido o caminho que definitivamente escolheu de qualquer maneira.

Digo pouca intensidade pelo fato de que a falta de detalhes acaba não criando laços e sim muito mais perguntas sobre eles, parecendo tudo muito ensaiado, sem paixão na escrita. Por isso assumo que apenas literaturei Primavera num espelho partido, que mesmo de leitura rápida não me provocava o desejo de saber o que viria a seguir.

Mas isso não me impede de recomendar o livro. Parece loucura? Pode ser. Mas por outro lado a escrita de Mario Benedetti é fácil, e consegue sim dar uma visão de algumas das consequências da ditadura para quem só ouviu falar sobre ela, e sem saber, vive até hoje os seus efeitos colaterais.

Primavera num espelho partido
Primavera con una esquina rota
Mario Benedetti
Tradução: Eliana Aguiar
TAG Curadoria – Alfaguara
2009 – 238 páginas

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quinta-feira, 7 de março de 2019

Alfabeto dos Ossos



Sinopse: O poeta Archie Lunan queria ser escritor de ficção científica. Por causa da vida desregrada e da personalidade polêmica, tudo o que conseguiu foi publicar um pequeno livro de poesias. Depois que se mudou para a remota ilha Lismore, na Escócia, as coisas nunca mais entraram nos eixos. Acabou desaparecendo no mar, sem deixar rastro, e sob fortes suspeitas de suicídio. Morreu sem ter seu talento reconhecido. Quando ainda era adolescente, Murray Watson se encantou pela obra de Archie e se tornou seu maior admirador. Hoje, porém, como professor universitário, sua carreira está tão conturbada e fadada ao insucesso quanto a do poeta. Sua única satisfação é pesquisar a fundo a história de seu autor preferido.

Na sua juventude Murray Watson encontra a única obra de Archi Lunan e se apaixona pela escrita do poeta que sonhava em ser escritor de ficção científica. Anos depois, como professor universitário, escolhe a biografia do escritor como a tese do seu doutorado para colocar o nome de Archi na história da literatura.

Conforme ele tenta pesquisar em bibliotecas ou entrar em contato com antigos conhecidos se depara com uma escuridão, onde nem a morte do escritor é clara, já que ele desapareceu no mar. O silêncio e as informações selecionadas não lhe fornecem nem uma base para começar, e nesta busca ele acaba tendo que enfrentar os seus próprios demônios.

Algumas totalmente escritas com uma letrinha miúda, como as cartas de um condenado para a família.

Identificado como um livro que mistura suspense e romance policial, inicialmente Louise Welsh me fez lembrar de um escritor dizendo que todo livro neste estilo precisa ter cenas de sexo. Só que este clichê nesta história em especifico acaba mais atrapalhando do que ajudando.

Aqui me refiro a um capítulo que poderia ser chave, mas acaba na superficialidade total: Murray vai até a casa da viúva do sociólogo Alan Garret que também estava pesquisando sobre Archi, mas não em relação a sua obra, mas o seu possível suicídio. Garret morre em um acidente de carro sem explicação na mesma ilha onde o poeta desaparece. Toda a pesquisa descrita poderia situar o leitor da base da obra, se não fossem as páginas de sedução forçada seguida de sexo com a viúva.

Como podia guardar tantas datas, aspectos e versos, e esquecer uma mulher bonita?

Somado a isto há toda a questão da relação familiar com o irmão mais novo e um trauma/culpa não resolvido em relação ao pai que não fica muito claro de início e se perde em meio a descrições superficiais, tornando a história um tanto desconexa em alguns momentos. E com isto o foco acaba mais nas discussões familiares e desilusão amorosa de Murray do que nas poucas pistas que vão surgindo no decorrer do livro.

Mas é quando Murray chega à ilha Lismore na Escócia, última moradia de Archi e atual de sua viúva que a minha ficha como leitora cai: não estamos falando de um romance policial e muito menos de suspense. É um livro sobre a psicologia humana, e um ciclo que envolve mentiras, vaidade e suicídio, onde ouso dizer principalmente o que leva ao último.

Era isso o que eles estavam fazendo, desafiando águas perigosas, e nenhum deles possuía um par de nadadeiras.

Neste momento o tédio abre uma brecha para a curiosidade, e entre conversas e descobertas observa-se a rivalidade acadêmica, onde um talento que foge do tradicional é colocado à sombra pelos seus colegas ao escolher o tumulo como altar. A mesma rivalidade se vê entre os professores da instituição onde Murray leciona, cujo troféu é representado por uma mulher.

A morte aqui tem dois papeis: a de desafiar e a de libertar dos fantasmas que perseguem os personagens, mesmo que para um caminho que se desconhece. E somente quando você a entende como personagem, a presença, mesmo que rápida, dos secundários começa a ter sentido. Abrindo assim para Murray e quem o acompanha a vida do próprio Archi.

Talvez pudesse abordar o assunto mencionando sua própria experiência em vasculhar os detritos que os mortos deixaram para trás.

Terminei este livro sem uma opinião definitiva. Quando estava no final, achei as páginas faltantes muito poucas para o leque que havia se aberto. E talvez seja isso o que me incomode no livro: quando a essência dele apareceu, já era o seu final, e ele possuía potencial para ser bem mais explorado.


Alfabeto dos Ossos
Naming the Bones
Louise Welsh
Tradução: Bruna Hartstein
Bertrand Brasil
2010 – 460 páginas

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A Velocidade da Luz



Sinopse: Espanha, final dos anos 80. Um convite para lecionar em uma cidade no interior dos Estados Unidos muda para sempre a vida de um jovem aspirante a escritor. Lá, ele conhece Rodney Falk, homem cínico, culto e marcado por um terrível segredo de guerra. A partir desse encontro, os personagens - tão complexos e humanos - desenvolverão uma relação tumultuosa que culminará em um enfrentamento trágico da realidade e os seus demônios.

TAG Curadoria iniciou o ano de 2018 com a indicação do escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza, que me apresentou o escritor espanhol Javier Cercas e um dos livros que entrou para a minha lista de favoritos: A Velocidade da Luz.

Um aspirante a escritor na cidade de Barcelona recebe o convite para dar aulas em Urbana, uma pequena cidade nos Estados Unidos. Neste ambiente tão diferente ele conhece Rodney Falk, um professor um tanto misterioso que vive a parte dos demais docentes. E essa amizade irá marca-lo em definitivo ao ter em suas mãos as cartas que o seu amigo enviava ao pai durante o tempo que serviu ao exercito na guerra do Vietnã.

Hoje eu levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, e clandestina, e invisível, porém mais verdadeira que uma vida de verdade.

O livro de Javier Cercas possui três bases para capturar o leitor: a própria literatura, a psicologia humana e uma guerra. Os três possuem munições suficientes para uma discussão conforme o olhar do seu leitor, já que o livro em si não possui lado, não faz julgamento, apenas conta sobre duas vidas e seus traumas em uma mistura de ficção e realidade.

Curiosamente o livro também possui três cidades de referência: Girona, Urbana e Barcelona, esta última com mais um autor espanhol utilizando de seu lado sombrio para intensificar os sentimentos contraditórios de seu personagem.

...quem sempre sabe aonde vai nunca chega a lugar nenhum, e que a gente só sabe o que quer dizer quando isso já foi dito.

A guerra do Vietnã tem como personagem Rodney, um jovem culto e inteligente que se obriga a ir para uma guerra que não acredita apenas para não decepcionar o seu pai, um veterano da segunda guerra mundial que tem muito orgulho de ter ajudado a salvar o mundo. O homem que retorna é muito diferente, entre as perdas estão o da sua essência, fazendo com que Rodney se construa e descontrua conforme as situações enfrentadas.

Em um dos seus sumiços, o narrador sai em sua busca e acaba recebendo as cartas. Conforme o horror vai acontecendo, uma mudança no conteúdo é evidente, da inocência perdida após a morte do irmão, muitas dúvidas irão surgir na cabeça do narrador, que leva o leitor junto na busca por respostas. E sim, a história de Rodney daria um livro próprio, mas ela é a inspiração do nosso narrador, que precisa dividir o que acontece com ele conforme a ideia da história é construída.

É possível que logo tenha entendido que ninguém volta do Vietnã; que, para quem esteve lá, o regresso é impossível.

O psicológico permite o contraponto entre os dois personagens principais da história: se Rodney possui cultura e luta com os seus monstros internos, o narrador é superficial. Não é difícil desgostar de quem conta a história, seu egoísmo e deslumbramento podem fazer o leitor esnobar os seus sentimentos de culpa conforme os ciclos se repetem. Ele é humano? Sim. O livro escrito pelo narrador parece uma forma de expurgar a culpa? Talvez. Conseguimos ver os dois como espelhos, como muitas vezes o narrador tenta nos induzir? Irá depender de quem está lendo.

...a melhor maneira de contar uma história é não conta-la.

E a literatura? Ah, ela está nas várias referências bibliográficas como Hemingway e Mercè Rodoreda, nos conselhos de Rodney para que um escritor não sucumba ao sucesso, ao gosto de ter seus livros vendidos, a dificuldade de contar uma história quando você começa a fazer parte dela. Ela é o próprio livro quando você não sabe se o narrador é realmente fictício ou autobiográfico, quando ele fica anos escrevendo suas histórias acreditando que aquilo é uma forma de vida, quando a escrita faz a vontade dos olhos se abrirem voltar.

E para quem é assinante da TAG, o posfácio de João Anzanello Carrascoza pode mexer ainda mais com a cabeça do leitor e os seus pontos de interrogações.

  ...agora era eu o homem mais sozinho do mundo, um animal perdido no meio de uma manda de animais de outra espécie...

Por esta história multifacetada, de escrita fácil e leitura rápida, mas de pensamentos longos e muitas teorias, que eu me encantei pela Velocidade da Luz e por Javier Cercas. Um livro para quem deseja escrever, para quem deseja uma boa história, para quem gosta de uma mistura de fracasso, sucesso e culpa.

A Velocidade da Luz
La Velocidad de la luz
Javier Cercas
Tradução Sérgio Molina
TAG – Biblioteca Azul
2001 – 268 páginas

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Eu sou um gato



Sinpse: Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar.

Publicado em forma de série em uma revista, os onze capítulos desta obra narram toda a inteligência, consciência, comportamento humano e intelectualidade do início do século XX em terras japonesas (embora sirva perfeitamente para os nossos dias atuais) na visão de um gato sem humildade nenhuma, cujo amo é definido pela sua imbecilidade.

Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. 

Logo na nota dos editores podemos observar a primeira curiosidade do livro, o nome do autor é um pseudônimo, seu sobrenome, Soseki, em chinês significa incômodo/estorvo. O que parece descrever o seu sentimento por vários dos personagens da história, e talvez como ele mesmo se sentisse, já que a sua vida não pode ser categorizada como fácil.

Como escrevi no primeiro parágrafo, quem conta esta história de forma irônica, debochada e às vezes um tanto preguiçosa é um gato. Um gato sem nome. Um gato abandonado que ainda filhotinho achou uma casa e o seu amo. No local às vezes é pisado, às vezes vira saco de pancada, e assim ele acabou sendo apenas um bicho que por ali ficou, circulando entre as casas da vizinhança, ampliando a narrativa para além da área central.

Minha inteligência é indubitavelmente superior à dele, estou certo disso, mas não me comparo a ele quando se trata de força física e coragem.

O seu amo é o professor Kushami, casado com uma mulher sem estudos e submissa, com filhas pequenas e uma empregada. Além deles, amigos e ex-alunos frequentam a casa, onde há discussões que vão da literatura, passando por fatos históricos, até conversas simples do cotidiano. Um dos mais divertidos é Meitei, com uma mente mirabolante, suas histórias misturam realidade e fantasia de uma forma um tanto engraçada. 

Um dos eventos principais da história está na chegada da família Kaneda e um suposto interesse de Kangestu – um ex-aluno de Kushami e um doutorando que passa polindo bolas de vidro – em se casar com a filha do empresário. Como o comportamento da Sra. Kaneda não é exatamente simpático ao questionar Kushami sobre o pretendente, somado ao desprezo que o professor sente por homens de negócio como o marido da mulher em questão, logo o nariz da senhora vira o assunto principal das conversas, estas escutadas por vizinhos que levam as fofocas quentinhas aos interessados, que insultados acabam provocando situações ainda mais ridículas na história.

Em um mundo onde há humanos que se vangloriam de terem sido cobiçados por alguém que era apenas estrábico, semelhante engano não é nada de se espantar, e eu continuei a receber calmamente suas carícias. 

O livro é cheio de observações de rodapé, sejam para listar autores ou fatos históricos aos quais os pseudo-intelectuais estão discutindo. E o engraçado de tudo, é que em muitos momentos o professor Kushami me passa o sentimento de ser o alter ego de Soseki, pelas semelhanças físicas assinaladas nas mesmas notas.

E mesmo sendo uma crítica à sociedade japonesa da época, muita das frases são mais atuais do que nunca, como uma parte que me chamou especialmente a atenção e assim diz: “Só pensamos em nós mesmos, ao irmos dormir, aos nos levantarmos, em todas as ocasiões reverenciamos nosso eu. Por isso, as ações e palavras se tornaram artificiais, impacientes e asfixiantes.” . Confesso que fiquei tentando imaginar o que Soseki escreveria se estivesse vivendo os dias de hoje.

Um livro para ler com calma e como um gato se aconchegar em um lugar macio para se perder em reflexões.


Eu sou um gato
Wagahai wa neko de aru
Natsume Soseki
Tradução Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade
1905 – 486 páginas