terça-feira, 17 de agosto de 2021

Ada ou Ardor


Sinopse: Este é talvez o romance mais ambicioso de Vladimir Nabokov. Em Ada ou ardor, ele constrói uma narrativa de fôlego, de escopo monumental, em que todos os seus principais temas confluem: há a exploração das lembranças inconstantes da infância, como em Fala memória, há a recriação de territórios fabulosos, como em Fogo pálido; e há o amor proibido por uma menina fugidia, como em Lolita. Carregado de lirismo, o romance é também um feito linguístico, no qual Nabokov arquiteta uma narrativa complexa e fluída, que nos leva através das lembranças de Van Veen em sua tentativa de reconstruir a história de amor que viveu com a prima, Ada. "Nunca antes um romance fez com que a acumulação de experiência humana ao longo de uma vida parecesse tão ricamente romântica", escreve o crítico Boyd, no posfácio deste livro. "Nunca, nem mesmo em Prost, o choque do presente foi tão amplificado por meio da repetição, da recordação, da antecipação, da tristeza, do remorso, da diversão e do êxtase."

A crônica familiar da rica família Veen ocorre na Antiterra - que seria a nossa realidade na Terra em uma imagem distorcida no espelho - durante um período de cem anos, indo de 1868 a 1967. Neste lugar, muitas vezes parece que ainda não ocorreu a Pangeia, tamanha facilidade de deslocamento de um ponto a outro.  E a língua é uma mistura de inglês, francês e russo.

Logo de início iremos conhecer as gêmeas Marina e Aqua, que irão se casar com os primos Demon e Daniel. Estes relacionamentos irão gerar os personagens que são os fios condutores da história, a Ada do título, sua irmã Lucette e o primo Van.


Uma Revelação pode ser mais perigosa do que uma Revolução.


É na mansão de Ardis que Van, então com quatorze anos, e Ada, então com 12 anos, irão começar a ligar o quebra-cabeça que torna a sua aparecia física tão semelhante: a descoberta que eles são na verdade irmãos. Mas isso não irá impedir que eles se aventurem em outras descobertas bem mais íntimas um no corpo do outro, em uma relação incestuosa ao qual mantinham escondida de seus pais.

Entre encontros secretos e saudades aliviadas por cartas, eles crescem mantendo a paixão acessa, mas sem manter nenhuma fidelidade, ao mesmo tempo que vão envolvendo Lucette, ainda inocente, em suas brincadeiras, tornando a sua cabeça jovem bastante confusa.


Verificando que as flores eram artificiais, ele pensou como era estranho que essas imitações sempre tentassem enganar apenas os olhos, em vez de copiar também a sensação úmida e carnuda das pétalas e folhas vivas.


O resultado deste amor proibido irá afetar a todos e nortear os caminhos do casal, em um processo de reencontro e repetição ao longo das páginas. Dividida em cinco partes, elas acompanham Van ao longo dos anos, com um grande enfoque para as mulheres que encontra, os livros que escreve e o momento em que começa a ter consciência do tempo e do próprio envelhecimento.

Para os fãs de clássicos, ao longo da narrativa será fácil encontrar os vários easter eggs que alimentam a história, para confirmar ou entender ao que estou me referindo, basta ler na parte final as anotações de Ada assinadas por um anagrama do autor. São referências a outros autores - como Tolstói, Júlio Verne e Jane Austen -, lugares e as expressões usadas ao longo da história agora traduzidas. Nem todas as opiniões são exatamente positivas, o que de certa forma podem gerar uma comparação de opinião entre o que diz o escritor e o que pensa o leitor.


Ambos buscavam nos livros o máximo de excitação intelectual, como o fazem os melhores leitores; ambos encontraram em muitas obras famosas nada mais do que pretensão, tédio e falsas informações.


No Posfácio o escritor e professor Brian Boyd, considerado o maior conhecedor do autor na atualidade - faz uma análise de Ada ou Ardor, traçando uma linha de comparação com Ulisses de James Joyce, além de resgatar cenas e analisar os personagens e a forma narrativa - como o uso de repetição e recordação. Além, é claro, referenciar outras obras de Vladimir Nabokov, como o polêmico e surpreendente Lolita. Complementando assim a experiência de leitura e possibilitando mais interpretações pós leituras, já que a história é rica em simbolismos.

O livro mistura narrativas em primeira e terceira pessoa, visto que Van é o narrador e o personagem central da história por ele contada, embora possua anotações de Ada durante as suas revisões, ficando claro ao leitor que ele está lendo as memórias deste homem com uma vida digamos bastante intensa.


Pensamentos estranhos e malevolentes atormentavam a mente dele.


Apesar de percorrer o final dos anos de 1800 e mais da metade dos anos de 1900, não é um livro para encontrar referências históricas como as duas grandes guerras, pois cabe recordar, como eu escrevi lá no início, que não estamos falando da Terra e sim da Antiterra. 

Com isso o leitor irá passear por referências filosóficas, eróticas e de ficção científica enquanto acompanha em um misto de romantismo e deboche os movimentos de uma família milionária ocupada dentro da própria bolha, com direito a compra de muitos imóveis e duelos para sossegar os pensamentos após desconfiar de traições.


O prazer de destruí-los não iria curar seu coração, mas sem dúvida limparia seu cérebro.


Mas ao contrário do que ocorreu na leitura de Lolita, ao qual considerei o livro fantástico, em Ada ou Ardor tiveram algumas coisas que me incomodaram, como se os anos de diferença entre uma leitura e outra, o que inclui várias mudanças na forma de olhar o mundo e a maternidade, parecem ter influenciado bastante.

Começo com a mais banal de todas, o uso recorrente de parênteses (). Eles estão em abundância no texto, e eu, particularmente, sinto a leitura travar quando há excessos deles. Sim, eu entendo, é o estilo da escrita, já que parecia alguém revisando e os utilizando para explicar determinada situações ou apenas comentando ou relembrando algum fato complementar da memória. 


Aceitou o toque da mão cega que lhe subia pela coxa e maldisse a natureza por ter plantado uma árvore nodosa estourando de seiva vil entre as pernas dos homens.


As próximas duas se misturam, então vou começar com a que mais me desagradou aqui, que foi a sexualização de meninas ainda crianças. Em Lolita eu relevei este fato por me parecer uma história de pedofilia, em Ada ou Ardor ela é naturalizada pelo narrador e pelos que estão na sua volta, como o velho que cada vez buscada meninas mais jovens para deflorar ou no próprio comportamento de Ada.

Essa sexualidade antecipada faz companhia ao machismo, de homens que duelam por sua honra a olhares que percorrem corpos femininos da unha do pé ao último fio de cabelo, dando uma amostra que o dinheiro compra o respeito alheio, mas não é concedido automaticamente aos seus donos.


Quero examinar a essência do Tempo, não sua passagem, pois não creio que sua essência possa ser reduzida a seu transcurso.


E ao me sentir desagradada, a leitura acabou me trazendo uma reflexão de que a postura masculina descrita não é algo que ficou no passado, que não posso denomina-la como algo característico da época em que o livro foi escrito, pois as situações permanecem atuais, tanto de abuso infantil como a visão da mulher objeto. E talvez seja essa razão de eu não conseguir me divertir com a história.

Então sim, acho que terei que reler ele em um outro momento, para buscar a leveza e fluidez inteligente citada por Brian Boyd. Enquanto os anos não passam, eu deixo a dica para os leitores do blog, principalmente para os que adoram ler um clássico.


Ada ou Ardor - Crônica de uma família
Ada or Ardor - A family chronicle
Vladimir Nabokov
Tradução: Jorio Dauster
Alfaguara
1969 - 605 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Susan não quer saber do amor


Sinopse: Ninguém mais sabe como lidar com Susan Green. A família tem dificuldade com seu jeito arredio e os amigos não conseguem entendê-la. Para Susan, no entanto, só importa que tudo esteja funcionando adequadamente . O que ela não imaginava era que precisaria administrar ao mesmo tempo a morte da mãe, uma batalha judicial contra o irmão e uma gravidez inesperada. Pelo visto, perder o controle vai ser só o início dessa jornada.

Em junho/21 recebi da minha assinatura da intrínsecos o primeiro livro da escritora inglesa Sarah Haywood que já teve os direitos comprados para virar filme na Netflix. De mimo veio o jogo Torre, que virou divertimento da minha filha aqui em casa.


Não sou o tipo de mulher que guarda rancor, fica remoendo problemas ou questionando os motivos de outras pessoas agirem da forma que agem.


Susan não gosta de jogar conversa fora, é bem objetiva em suas respostas, está sempre procurando aumentar a produtividade, não gosta que toquem nela, tem uma coleção de cactos e muito menos quer dividir o seu teto com alguém. Formada em direito, optou por um emprego estável de analista de dados para não ter que ouvir as histórias alheias. Possui um relacionamento com um cara, onde se encontram uma vez por semana em locais impessoais, completando o controle total que sente da sua vida aos 45 anos.

Mas em um mês de agosto o seu mundo controlado e metódico começa a apresentar rachaduras, uma gravidez inesperada, o falecimento da sua mãe e a surpresa de um testamento que deixa a casa em usufruto para o irmão irresponsável, que irá abrir a caixa de segredos familiares.


Talvez essa sensação fosse fruto da minha fobia quase patológica à vida suburbana, a sua mediocridade sedutora e a impressionante obsessão com o mundano.


E a partir daí mês a mês, acompanhamos os acontecimentos se desenrolarem na vida de Susan, e se inicialmente ela nos causa estranhamento, aos poucos situações passadas e atuais nos mostram a razão pela qual ela não confia em ninguém e não quer depender de ninguém.

Seu pai era alcoólatra, sua mãe tinha uma clara preferência pelo filho caçula, sua tia é superficial, seu irmão gosta de coloca-la nas piores situações possíveis e suas primas só contribuem para todo o desgaste. Somado a isso ela passou por bullying na escola e um fim de relacionamento traumático. Só que no lugar de ficar se lamentando, ela construiu a própria armadura, o que resultou em evitar qualquer contato pessoal demais com os que estão à sua volta.


E, de qualquer modo, disse a mim mesma, eu era forte, já tinha prática em me manter distante do que estava acontecendo ao meu redor e de sufocar qualquer reação emocional a isso.


A primeira coisa que eu devo dizer é que o título escolhido para a tradução em português, que não tem nada a ver com o original, engana. Não se trata de uma história romântica, onde uma fria heroína é conquistada por um herói que irá modifica-la completamente.

Não. É um livro sobre relações. Sobre como o impacto que as convivências familiares em uma criança irão ecoar em sua vida durante um período muito longo, moldando suas atitudes, personalidade, visão de mundo e relacionamentos na vida adulta. E principalmente, o quão difícil e surpreendente é derrubar todas as barreiras construídas após anos de mágoas.


Se eu decidisse negar na presença do pai, seria possível que a criança se ressentisse de mim por isso quando crescesse, apesar da minha justificativa de que desejava preservar minha independência?


Só que ao contrário do que se possa imaginar, a escritora Sarah Haywood conseguiu dar leveza nesta história, me fazendo dar boas gargalhadas em algumas partes, já que Susan tem uma língua bastante afiada e uma dose de ironia que a tornam uma personagem muito interessante.

Além disso a escrita de Sarah é fluída, ao dividir em meses a história, ela vai desenvolvendo e resolvendo os acontecimentos, em um ritmo que torna a leitura rápida e ao mesmo tempo incentiva a não parar de acompanhar a personagem. Deixando até mesmo uma saudade ao finalizar a história de Susan.


Mamãe sempre tratou os meus feitos e conquistas com uma aprovação moderada e desinteressada, e as minhas decepções, com pesar igualmente moderado e desinteressado.


E os personagens secundários são ótimos, como a sua vizinha Kate, que após o divórcio se aproxima de Susan, trazendo de bônus seus dois filhos pequenos. O agente duplo Rob, amigo de seu irmão, que acaba fazendo o papel de intermediário e se tornando próximo dela também. De sua única e super sincera amiga Brigid, cujas conversas não possuem melindros. 

Não poderia deixar de falar de Edward, o irmão imaturo que não nos faz discordar das opiniões de Susan, nem das primas gêmeas, que são o tipo de parente que exigem uma dose extra de paciência.


A menina foi incapaz de aceitar sua responsabilidade pela situação em que se encontrava e não parou de reclamar de fome.


Também não foram raras as vezes que imaginei os cuspes lhe caindo na testa após ela discursar como seria a criação de seu bebê. Afinal, quem já é mãe, sabe que a teoria foge e muito da experiência prática.

Um livro que me surpreendeu positivamente, cuja história é bem diferente do que o título insinua, afinal, Susan se tornou distante justamente pela falta de amor, algo que, como todos nós, ela queria, mas simplesmente havia cansado de se magoar. 

Susan não quer saber do amor
The Cactus
Sarah Haywood
Tradução: Ana Rodrigues
intrínseca
2018 - 335 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Espelho Partido


Sinopse: Espelho Partido é um livro de bastidores. As antigas criadas contam às mais jovens as lendas e os mistérios que envolvem a família Valladaura, mas o quadro completo pertence ao leitor, senhor dessa teia de segredos. Nas palavras da autora Mercè Rodoreda, expoente da cultura catalã do século XX, "Espelho partido é um romance em que todo mundo se apaixona por quem não tem de se apaixonar e quem sente falta de amor procura obtê-lo seja como for: no intervalo de uma hora ou no intervalo de um momento". O passado surge como os tentáculos de um polvo negro e viscoso: um suicídio em Viena, um filho perdido e rejeitado, uma amante cançonetista e uma filha bastarda. Fratricídio. E é com cores intensas que a autora salpica essa narrativa dolorida, que vai do cruel ao comovente, cujo fim se dá um pouco após a Guerra Civil Espanhola.


No mês de junho/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Espelho Partido, da escritora catalã Mercè Rodoreda, indicação de uma outra autora espanhola, cuja escrita eu adoro: Rosa Montero, e tem o seu livro A Louca da Casa foi publicado resenhado aqui no blog. O mimo foi um bonito álbum de fotos com frases sobre memórias.

Teresa é uma jovem muito bonita, que ao ficar órfã recebe o pedido de casamento de um senhor velho e rico. Assim ela abandona a vida como vendedora de peixes, entrega o seu filho ainda bebê, junto com um bom valor em dinheiro, para ser criado pelo seu amante e a esposa. E assim ela recomeça uma nova vida, se adaptando ao novo meio social.


Era um dia encoberto; de vez em quando, entre duas nuvens, aparecia um raio de sol pálido que não durava tanto.


Após ficar viúva é apresentada por amigos a Salvador Valldaura, um homem traumatizado pela perda abrupta de um amor inocente e idealizado. Mas ao ver Teresa, ele se apaixona por ela e a pede em casamento, e assim começa a história da família no impressionante palacete em Sant Gervasi, onde terão uma única filha e mais tarde seus netos como moradores.

Mas ao contrário do que é indicado na sinopse, a história aqui não é contada apenas pelas criadas, e apesar de haver alguns personagens mais explorados, não existe exatamente um principal, pelo menos na minha opinião.


Aqueles olhos aveludados e aquele riso contagiante o deixaram apaixonado.


Narrado em terceira pessoa, cada capítulo traz o olhar de um personagem, sendo que Teresa é a que mais se repete, pois, o leitor a acompanha da juventude até a sua velhice. Mas além dela estão seus amores, seus filhos, seus netos, as criadas, fantasmas e animais.

Em comum tudo está centralizado no palacete, com seu enorme jardim, o seu loureiro, as torres, e no interior seus armários, livros, fotos, cortinas, papeis de parede. Cada móvel uma lembrança, uma memória, que pode ser guardada ou simplesmente destruída. Sendo uma forma simbólica de união, separação, ostentação, degradação, e sobretudo, passagem do tempo.


Tinha-o à frente, estranho, distante de sua vida de mulher rica, quase como se fosse algo encostado...


São três gerações que passam por baixo do enorme teto, entre alegrias e tristezas, há naturalmente as diferenças de opiniões, objetivos e caráter, afinal, família não se escolhe, simplesmente se nasce nela, assim como os sentimentos que corroem cada ser humano, o que provoca indiferença, o que gera arrependimento, o que pode consumir a alma e o que nos devolve a vida.

Eu já havia lido A Praça Diamante de Mercè Rodoreda, também resenhado aqui no blog, e gostei muito do estilo de escrita da autora, de colocar o leitor na rotina de seus personagens, de dar a visão do todo, nos permitindo formar as nossas próprias opiniões e nos sentir extremamente junto a eles, compartilhando o sobe e desce das escadas, os cheiros nas cozinhas ou tendo os olhos ofuscados pelas joias.


Se, em vez de ter nascido para servir, tivesse nascido para ser uma senhora, não teria usado joias - ou teria pouquíssimas.


O que me fez encontrar algumas semelhanças entre os dois livros, como o uso dos pássaros, se na Praça Diamante tínhamos as pombas agora em Espelho Partido são as rolinhas, e eles nunca estão à toa na história. Assim como uma leve pitada de fantástico, que sutilmente nos arrepiar a nuca e nos levar além das paredes literárias. Além é claro de ambos proporcionarem uma viagem por Barcelona, cenário que sempre mistura o colorido e o gótico em suas ruas e prédios.

Em relação a Guerra Civil Espanhola, ao contrário da Praça do Diamante cujos personagens a vivem com força, em Espelho Partido é tudo muito sutil, pois todo o seu impacto e consequências são evidenciados muito mais no próprio palacete do que na vida dos que ali viveram.


Não tenho palavras, não posso dizer o que acontece comigo, minhas palavras não estão em lugar nenhum.


De bônus, para quem gosta de ir além da história, há um Epílogo onde a escritora fala sobre a criação de um romance, inspirações, suas obras, e o que há em comum em seus livros, como anjos e metamorfoses. Um verdadeiro presente para quem admira Mercè Rodoreda e tinha curiosidade em saber mais.

Um leitura que eu recomendo para quem gosta de viajar por outras cidades sem sair do lugar, para quem gosta de acompanhar gerações de famílias, para quem quer conhecer livros de outras culturas, para quem simplesmente gosta de ler.


Espelho Partido
Mirall Trencat
Mercè Rodoreda
Tradução: Luis Reyes Gil
TAG - Planeta
1974 - 315 páginas

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terça-feira, 27 de julho de 2021

Somos todos adultos aqui


Sinopse: Astrid Strick tem 68 anos e vive uma vida aparentemente perfeita. Porém, seu caçula desistiu da promissora carreira de ator. Sua filha do meio, com quase quarenta anos, decidiu engravidar a partir de uma produção independente. E o mais velho vive de acordo com regras impostas pela preocupação com as aparências. Mas quem decide, após tantos anos, quais erros realmente importam? Quais desculpas precisam ser pedidas? À medida que enfrenta os enganos do passado, Astrid começa a perceber que não é a única a esconder segredos e que todos à sua volta estão tentando entender quem são.

No mês de junho recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro Somos todos adultos aqui da escritora norte-americana Emma Straub. O mimo foram porta-retratos em imã, que eu já usei e por isso não aparecem na foto, e 50 fotos impressas em uma parceria com a Foto Registro.

Em um dia normal de sua rotina, Astrid assiste de dentro de seu carro outra moradora, Barbara Baker, morrer após ser atropelada por um ônibus escolar que estava vazio e em alta velocidade. O contato inesperado com a morte neste dia irá mexer com ela de uma forma irreversível, como até agora ainda não havia acontecido.


A lavagem profissional do cabelo era uma herança da geração da mãe dela, uma afetação que a própria mãe não havia adotado, e, no entanto, aqui estava.


Ela ficou viúva quando os três filhos entravam na vida adulta, considerada fria e prática em seu círculo mais íntimo, aos 68 anos ela irá surpreender a todos ao assumir o seu relacionamento com outra mulher, Birdie, o que vai gerar reações bem diferentes dentro da família.

Elliot é o filho mais velho, por ter sido visto beijando um amigo na adolescência pela falecida Barbara, sua mãe evitava a outra mulher. Na vida adulta não tem grandes demonstração de afeto, casado com Wendy, praticamente foge de ajudar nos cuidados dos gêmeos de três anos. Guarda muitas mágoas da mãe por essa ter duvidado da sua capacidade profissional.


Qual é o sentido de ter filhos se você se livra deles antes mesmo de eles terem algo interessante para dizer?


A única filha e a do meio entre os três é Porter, uma mulher de quase quarenta anos que sabe administrar muito bem a sua vida profissional, mas na pessoal ainda parece uma adolescente, inclusive agindo como uma. Não tendo possibilidades de ter filhos com o homem que acredita amar, pois este é casado, acaba optando por uma produção independente.

O caçula é Nick, um ex-ator que prefere viver longe da mãe, casado com uma francesa e com um estilo de vida diferente dos irmãos, é o pai de Cecelia, atual razão para todas as suas inseguranças, a ponto de no primeiro problema envolvendo a filha na escola, invés de defende-la ele a envia para morar com a avó Astrid.


Aquilo era romance ou codependência, a necessidade esmagadora da outra pessoa para poder voltar ao eixo?


Cecelia tem apenas treze anos e sempre busca fazer o que é certo, o que acaba eventualmente colocando-a em problemas com os grupos de meninas mais populares. Na nova cidade ela faz amizade com August Robin, um menino que se identifica como menina, mas só consegue ser ele mesmo em um acampamento de férias e junto de seus pais, que apoiam tudo com muito carinho.

Tudo isso em uma fictícia e utópica cidade pequena, que ficaria próxima a New York, com moradores que seguem todas as regras, protegem o comercio local, é muito segura e LGBTQIA+ friendly. O que me faz pensar que não foi coincidência o envio do livro no mês de junho.


Havia pessoas na escola que ele conseguia tolerar, pessoas para quem podia ligar para falar do dever de casa se estivesse doente, mas não eram amigos dele.


Se me perguntassem que definição sucinta eu daria para Somos todos adultos aqui, eu responderia que é uma DR - discussão de relacionamento - generalizada realizada com muito respeito. Principalmente no que se refere ao relacionamento pais e filhos, já que temos diferentes perfis, o que torna o conjunto de laços, mágoas, histórias e culpas bem distintas.

Do apoio total a relacionamentos egoístas, a criação acaba ecoando nos relacionamentos íntimos, na forma como o parceiro é tratado, dos sonhos que são abandonados, do que se permita que se faça.


Estava tentando ser o tipo de mulher que gostaria de ter como mãe - instruída, mente aberta, esse tipo de coisa.


E naturalmente, com tanta discussão vindo à tona, acabam vindo reflexões anteriores, que vão mudando o que se é agora, indo do aspecto físico ao comportamental. A diferença entre o que se quer e o que se é também acaba indo para a berlinda, permitindo assim uma evolução de cada um, como encarar os próprios segredos e hipocrisias.

A narrativa fluída em terceira pessoa vai mudando o foco do personagem a cada capítulo, embora creio poder dizer que o centro da trama é Astrid, que não só dispara a faísca dentro da família como é quem vai guiando as relações.


Essa era a pior parte de ser adulta, entender que não havia justiça no mundo, nenhuma mão invisível na brincadeira do copo.


E apesar de toda a DR, o livro não é pesado, mas um passeio pela vida adulta, pelas diferenças de gerações, podendo ou não trazer à tona os próprios fantasmas do leitor, conforme sua história de vida. Uma história bacana para ler com uma caneca de chá ou de vinho, se deixando levar pela família Strick.


Somos Todos Adultos Aqui
All Adults Here
Emma Straub
Tradução: Camila Von Holdefer
TAG Inéditos - Harper Collins
2019 - 350 páginas

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terça-feira, 20 de julho de 2021

Pequena Coreografia do Adeus


Sinopse: A protagonista é Júlia, jovem que chegou à vida adulta tentando juntar os cacos de um relacionamento destroçado: sua mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado. Ela cresceu sufocada por uma atmosfera de brigas constantes e a falta de afeto e, pouco a pouco, tenta se desvencilhar da bagagem familiar.

A história começa ainda na infância de Júlia, ao ver o pai a distância acompanhado de outra mulher, ela se sente abandonada, invisível, e é tomada por um grande desejo de correr até a figura feminina e lhe pedir para ser adotada, e assim receber amor. 


ela era mais bonita que a minha mãe

cheirava melhor também


Mas o pai não lhe vê, e assim ela acaba jogando toda a sua raiva na amiga que a acompanhava, socando a menina. A reação pode parecer extrema, mas é o exemplo que ela tem em casa, quando a mãe externa todas as suas infelicidades através de grandes surras na filha.

A mãe de Júlia é um ser distante, que bebe e só se aproxima da filha na madrugada, quando a menina compartilha com ela a cama, ocupando o espaço que ela não queria que estivesse vazio. São os únicos momentos de afeto, ao qual a personagem se agarra com grande fervor.



e segurava a mão do meu pai, entrelaçada, tão bonita quanto uma atriz de cinema.


Já o pai não quer nem pensar em ficar com a menina, lhe sendo suficiente as visitas esporádicas nos dias de domingo, que lhe tiram qualquer responsabilidade no crescimento da filha e em sua orientação, e assim lhe deixando livre para recuperar a juventude perdida.

E neste ambiente caótico ela irá iniciar o ciclo de despedidas e primeiras vezes que todas as mulheres passam, da menstruação que dá adeus a infância, nas adaptações ao próprio corpo, as tentativas de ter novas habilidades, até finalmente encarar de frente todo o peso da figura materna que ela carrega e decidir se quer ou não manter aquela relação abusiva.


Ela derramava o seu óleo de insatisfação pelos cômodos formando um longo tapete de Dor e Glória.


Eu desconhecia a escritora Aline Bei e fiquei simplesmente encantada pela escrita sensível e forte que encontrei em Pequena Coreografia do Adeus, que mistura de forma gentil sentimentos como ausência, solidão, inferioridade, carência e afetividade após descrever situações que envolvem perdas e descobertas, além dos sonhos que a própria personagem tem e busca a sua maneira realizar.

Tudo começa com a forma como o texto está em cada página, em um primeiro momento o leitor pode pensar que se trata de poemas, pela forma como as frases estão distribuídas, e talvez não esteja tão enganado, pois existe um toque lírico na narrativa.


as pessoas morrem, ninguém precisa estar doente ou velho para que isso aconteça, a Morte se instala muitas vezes sem aviso


Aliás, a forma é uma das coisas que mais me atraíram neste livro, como o fato de algumas palavras possuem tamanhos diferentes, o que mudou a minha percepção de leitura, como se elas me fizessem sentir com mais força cada sentimento e sensação da personagem. Assim como a utilização da narrativa em primeira pessoa, que neste caso tornam a Júlia muito próxima do leitor, o que inúmeras vezes me provocava o desejo de poder abraça-la.

Pequena Coreografia do Adeus é um livro de leitura rápida e intensa, que provoca o leitor a relembrar os próprios adeus, enquanto sente a impotência de não poder proteger a própria Júlia. Em paralelo ele explora algumas faces das relações humanas, começando com as mais íntimas entre pais e filhos - e quebrando assim o paradigma do amor automático -, até evoluir para amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos, estes as vezes muito mais amigáveis e dispostos ajudar do que qualquer outra pessoa mais próxima.



a máscara era o meu passaporte, um sinal de que cedo ou tarde eu também realizaria os meus sonhos


Uma bela história para ser lida a qualquer momento, onde memórias e laços afetivos vão se desenroscando para abrir espaço para o novo, para a própria busca, e de como isso pode ser ao mesmo tempo doloroso e libertador.





Pequena Coreografia do Adeus
Aline Bei
Companhia das Letras
2021 - 282 páginas
Onde encontrar: Amazon

Esta linda edição autografada faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Nossa Parte de Noite


Sinopse: Gaspar é o filho que o pai tenta, em uma cruzada solitária, resguardar do destino que lhe é designado. A mãe do garoto morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. Ele, assim como o pai, recebeu o chamado para ser médium em uma sociedade secreta, a Ordem, que se relaciona com a Escuridão em busca de vida eterna, sacrificando o presente em rituais atrozes. Para tais rituais, é imprescindível a presença de um médium, mas o destino desses detentores de poderes especiais é cruel, já que o desgaste físico e mental é rápido e implacável. As origens da Ordem, comandada pela família da mãe de Gaspar, remontam a séculos, quando o conhecimento da Escuridão foi trazido da África para a Inglaterra e dali se estendeu à Argentina.

No mês de maio/21 recebi da minha assinatura da intrínsecos o livro de realismo fantástico Nossa Parte de Noite da escritora da escritora argentina Mariana Enriquez, título que ganhou o Premio Herralde, premiação importantíssima para a literatura em língua espanhola.

Juan é um homem bonito, sua aparência que atrai olhares esconde a sua fragilidade cardíaca e o seu dom em ser o oráculo da escuridão. O dom, que parece mais uma maldição, o fez ser afastado da sua família de origem ainda criança, quando o cirurgião cardíaco Dr. Bradford, que pertence a uma ordem muito antiga, o identificou como médium, induzindo aos seus pais entregar o então menino Juan para ele.


Outros meninos teriam também esse sono tão superficial, tão alerta?


Ao conviver com a rica família dos Bradford, o menino é testado e usado para atender aos desejos dos superiores da ordem. É quando conhece Rosário, a filha de uma das mulheres mais influentes do grupo, os dois crescem juntos e acabam formando uma família.

Ao identificar cedo que o filho apresenta o mesmo potencial que o pai, tanto Juan quanto Rosário decidem que ele precisa ser protegido da família materna, buscando apoio entre pessoas de confiança. Desejo que é fortalecido após o estranho acidente que custou a vida de Rosário, espírito que Juan busca incansavelmente e nunca encontra.


O que se escondia ao fim do corredor estava assustado e não era perigoso, mas era antigo e, como tudo o que é muito velho, era voraz, infeliz e invejoso.


E nesta queda de braço entre o médium e os poderosos, o leitor é levado a acompanhar os acontecimentos políticos e sociais na Argentina durante os anos de 1960 a 1997, onde os atos humanos são tão ou até mais assustadores que os sobrenaturais apresentados no livro.

Mariana Enriquez divide o seu mundo de escuridão em seis partes, em um vai e vem entre o passado, onde o leitor começa a encontrar as peças que vão fechar o quebra cabeça. Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a história gira em torno de Juan, Gaspar e Rosário, trazendo não só visões adultas, mas também infantis e do final da adolescência. Ainda há dois capítulos que acompanham o olhar de outros personagens, para nos fazer compreender melhor a crença na escuridão e o risco de se deparar com ela sem os devidos cuidados.


A demonologia cristã podia funcionar em outros espaços, mas nunca com tanta eficácia como nos lugares consagrados.


Identificado como terror, Nossa Parte de Noite muitas vezes me pareceu ser uma espécie de metáfora para os anos de ditadura na Argentina, com pessoas de todas as idades sendo tiradas de suas famílias, tendo os seus corpos torturados e por fim largados em qualquer lugar. Somado a isso, há o outro tipo de poder, o das diferenças sociais, sendo bem forte a linha que separa os que dependem e os que possuem o poder.

Pois sim, o livro é uma grande crítica as questões sociais e políticas. A Ordem da Escuridão é só uma base para ilustrar as diferenças de classes, os desaparecidos, o que se pode fazer pelo poder, em como atender a sua vaidade custe o que custar, principalmente quando se acredita que não é a sua vida que está em risco.


Depois viu como os Iniciados não conseguiam deixar de levantar os braços e tocar a Escuridão, que comia dedos, mãos.


Ele também vai abordar as questões sexuais, seja pelo fato de utilizar o sexo como forma de canalizar energia para rituais, até os tempos atuais onde escancara os preconceitos, a escolha de parceiros até a chegada da Aids, doença que ainda era sentença de morte nos anos 90. Aqui vi algumas semelhanças nos caminhos escolhidos entre o personagem Pablo e o César do livro Gostaria que você estivesse aqui, mostrando que a realidade no país vizinho não era diferente da nossa.

O livro também é uma espécie de roadtrip, visto que as viagens pelas estradas argentinas, as caminhadas pelas pequenas e grandes cidades, e até mesmo a passagem de parte dos personagens por Londres, nos leva mentalmente sair das páginas e se sentir realmente vendo o que é narrado.


Os crimes da ditadura eram muito úteis para a Ordem, forneciam corpos, álibis e correntes de dor e medo, emoções que eram úteis para manipular.


Eu adoro o estilo realismo fantástico, e sim, devorei o livro muito mais rápido do que imaginei. Pois ele me instigava a confirmar teorias, ao mesmo tempo que se desejava entender que fim aquela queda de braço teria. 

Na história ninguém é 100% bom, todos, sem exceção, possuem um lado sombrio. Motivo pelo qual a ambição e o desejo de imortalidade afetam a todos. Existem os que carregam culpas e são corroídos por elas, existem os sem opção, e tem os que amam tudo o que está ocorrendo, em uma troca constante de quem manipula quem. 


Andava com as mãos esticadas e, se percebia que estavam muito quietos, os tateava para confirmar qual deles estava vivo e qual tinha morrido.


O resultado disso é um livro bastante pesado, que pode levar o leitor mais sensível a temer a própria escuridão que o rodeia. Não é fácil se livrar de seus ecos mesmo após finalizar a leitura, já que a sua fantasia nem sempre é tão fora da realidade, o que torna toda a opressão e os misticismos apresentados ainda mais intenso.

Eu gostei bastante do livro, e acho que para quem curte o gênero é uma ótima opção de leitura, ao qual recomendo sem medo de ser xingada. Só não vale me culpar se depois só querer dormir de luz acessa.


Nossa Parte de Noite
Nuestra parte de noche
Mariana Enriquez
Tradução: Elisa Menezes
intrínseca
2019 - 542 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 6 de julho de 2021

O Pássaro Secreto


Sinopse: Vencedor do Prêmio Kindle 2021, O pássaro secreto, de Marília Arnaud, apresenta a história de Aglaia Negromonte. Possuída por algo que lhe rasga o peito, sua vida toma rumos inesperados quando o grande segredo do pai, a existência de uma filha fora do casamento, é relevado à família. Afinal, como seguir adiante quando toda a sua vida parece uma mentira e vai sendo, pouco a pouco, tomada por uma intrusa?

Recebi no mês de maio/21 da minha assinatura da TAG Curadoria o livro O pássaro secreto da escritora paraibana Marília Arnaud. O mimo foi um livro de contos chamado Partes de uma casa.

A personagem principal e narradora é Aglaia, filha de um ator e uma professora universitária, ela tem dois irmãos mais novos e inúmeros problemas, como bulimia e uma tendência a violência quando as coisas não estão do jeito esperado.


Talvez exista um lugar de onde não se pode mais retornar, onde a vida não pode ser restituída.


É uma menina que se descreve como gorda, que diz comer tudo o que vê, em qualquer horário, e que também vomita o que foi ingerido. O que gera a primeira dúvida em relação a  personagem, se ela realmente era gorda e sofria bullying por isso ou se ela tem distorção de imagem e afasta os demais por sua arrogância.

Arrogância por não se privar de tentar mostrar que sabe mais do que todos os colegas e professores, somente pelo fato de ter lido obras que a princípio não seriam para a sua idade. Aliás, suas longas listas de livros a tornam um tanto pedante, lembrando aqueles leitores intelectuais que torcem o nariz para determinados livros e só consideram de mesmo nível quem leu determinados clássicos. 


Gigante cego, esmagava quem se pudesse no seu caminho, quem atravessasse à sua frente.


Observa-se também que ela tem uma grande necessidade de chamar a atenção de seu pai, ao qual parece alimentar um complexo de Electra, principalmente ao cobrar reações de sua mãe em relação ao comportamento do marido, sua tristeza e perdão são considerados fraqueza pela filha mais velha.

O copo emocional da personagem transborda ao descobrir que tem uma irmã mais velha morando na França. Filha de seu pai com uma atriz francesa, a jovem ficou órfã e irá morar junto com a família. A menina é descrita como uma perfeição, parecendo centralizar todos os afetos de Aglaia, onde inclui sua amada avó e o seu amor platônico.


Diferenças eram diferenças, e pior sorte tinha quem as carregasse.


O acolhimento e afeto por todos os integrantes da família com a recém chegada desperta as atitudes mais absurdas em Aglaia, aos quais ela se refere como impulsionados por uma coisa, o pássaro secreto do título. Onde nem psiquiatras nem os remédios conseguem trazer um ponto de equilíbrio, até pelo fato de ela não ser sincera com eles.

O Pássaro Secreto de Marília Arnaud tem como curiosidade as diferentes formas como a leitura pode ser realizada. Apesar do livro possuir os capítulos sequenciados, na verdade ele pode ser lido de duas maneiras distintas, página após página ou separando os capítulos ímpares dos pares, já que apesar da personagem ser a mesma, eles não ocorrem ao mesmo tempo. 


Uma das lembranças mais nítidas que guardo da minha infância é a sensação do aconchego do seu corpo, do cheiro da sua pele, do calor da voz.


Com isso os capítulos impares são mais curtos e diretos, e os pares mais longos, onde a personagem conta todos os fatos pelo seu olhar. Aqui confesso que senti necessidade de um segundo narrador, visto que como a própria personagem se define como mentirosa, não é possível distinguir o que é verdade e o que é imaginação.

E isso é fortemente indicado pela sua identificação com o personagem Iago, da peça Otelo do escritor inglês Shakespeare, cujas características são associadas a intriga e manipulação dos que estão ao redor. Algo que a personagem não consegue em seu núcleo familiar e que me fez pensar pela reação dos seus dois irmãos mais novos - que muito pouco aparecem na história - o que ela já havia feito a eles.


Descobri que as histórias mais perturbadoras contadas em livros não são mais perturbadoras do que a realidade, com sua fome de vida e de morte.


Uma curiosidade são os nomes das três irmãs, escolhidos pelo pai, elas representam as Três Graças da mitologia Grega, sendo Tália (a irmã que chega) a que faz brotar flores, Eufrosine (a caçula) o sentido da alegria e Aglaia (a narradora) a claridade. No caso de Aglaia, o significado dá um tom a mais para ela não se identificar com o nome, já que ela tende mais a escuridão.

Para quem adora encontrar referências de outras obras, como não poderia deixar de ser com uma narradora tão ligada a livros, eles estão presente por quase toda obra, as vezes até de uma forma um tanto exagerada, na minha humilde opinião, o que algumas vezes me passou uma ideia de bengala, já que na história em si não agregava muito.


A vida me empurrou para a escuridão ou eu nasci com a escuridão dentro de mim?


Ao mesmo tempo é possível se recordar de algumas leituras no decorrer das páginas, o choro de Aglaia ao nascer me lembrou muito a personagem Tita de Como água para chocolate da escritora Laura Esquivel , ao relacionar as lágrimas como prenuncio do que enfrentaria no futuro. No caso de Tita, o futuro egoísta definido por sua mãe mais do que justificavam as lágrimas que vinham desde o ventre, já no caso de Aglaia, parece mais uma menina mimada que acaba sofrendo as consequências de seus próprios atos.

Há também uma grande referência ao adorável livro infanto-juvenil A Bolsa Amarela da escritora Lygia Bojunga, quando ela diz ter os mesmos ter desejos da personagem Raquel: ser grande, ser escritora e ser um menino. 


Deveria existir uma lei dispondo sobre o amor para todos, com igualdade de forma e quantidade.


Eu particularmente nem gostei nem desgostei da leitura. Como diz o chef Jacquin, faltou um pouco de tômpero na minha opinião. Mas é um livro de escrita fluída, que possibilita rápida leitura, ao mesmo tempo que pode ser muito interessante para quem curte ficção com base em distúrbios mentais. 


O Pássaro Secreto
Marília Arnaud
TAG Curadoria - José Olympio
2021 - 270 páginas

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