terça-feira, 15 de março de 2022

Pesado



Sinopse: Uma memória, uma confissão, uma catarse. Entre relatos dilacerantes e sempre vigiado por uma onipresente (e rígida) mãe, Kiese Laymon disseca sua própria vida neste que talvez seja um dos livros mais sinceros dos últimos anos. Um texto escrito não só com palavras, mas também com dor, ginga, peso, subversões da língua e abundância negra. E que reverbera dentro de nós uma pergunta de difícil resposta: até onde a vida nos dobra?

Em janeiro/22 recebi como associada da TAG Curadoria a indicação da maravilhosa escritora Alice Walker chamado Pesado, livro de memórias do autor e professor Kiese Laymon. De mimo recebi um planner para o ano de 2022.

A primeira coisa a se dizer é que Pesado pode ser definido como mais do que um livro. Ele é uma carta, um desabafo, o abrir de um coração com todas as suas dores, mágoas, perdas, complexos e reflexos que levam o leitor através da escrita vestir por algumas páginas todo o peso que um homem carrega desde os primeiros anos de vida.

Eu não queria escrever para você. Eu queria escrever uma mentira.


E por este motivo Pesado entrou na minha categoria de livros que são difíceis de resenhar, apenas porque parece que não há palavras suficientes para explicar a forma como ele mexe com diferentes sentimentos, sejam eles de identificação ou de incredulidade as ações das pessoas. Mas irei tentar.

O autor e professor Kiese Laymon divide suas memórias em quatro partes, mais uma introdução e o capítulo que fecha o livro, mas não a sua história.

A palavra que me surgiu na cabeça foi "felitristeza", assim mesmo, sem espaço e sem hífen, aglutinada.


Como uma carta para a mãe, ele retorna à adolescência e compartilha segredos antes guardados da figura materna, as surras levadas que marcam sua pele, a ansiedade e tristeza que se transformam em uma compulsão por comida, os sentimentos em relação a própria família e os homens com os quais sua mãe se relaciona.

E assim, em cada parte que se inicia, é possível observar que ele cresce não só fisicamente em altura e peso, como em relação a sua visão de mundo, tendo em um primeiro momento um espírito jovem cheio de esperança e força para escolher as suas próprias lutas, nem sempre atuando da melhor maneira conforme sua mãe, até chegar à vida adulta.

Vovó gargalhava e gargalhava até a risada dela se acabar quando eu chamava aquele queijo do governo de queijo afro-americano gourmet.


E conforme ele precisa se dobrar aos que estão em sua volta e se reconstruir, é necessário engolir os próprios sapos, cair, quebrar e se levantar. E foi assim que algumas das suas reações me fizeram lembrar de uma música da Elis Regina, começou com aquela parte que diz 'Ainda somos os mesmos, E vivemos, Como os nossos pais' até na minha mente ela abraçar o próprio livro.


O que você irá encontrar...

O Pesado do título é literal e mental. Kiese Laymon é um jovem gordo e negro, vivendo em no sul dos Estados Unidos, sendo mais específica, no Mississippi, onde o racismo pulsa devido a uma parte da população querer subjugar a outra com base em critérios de puro achômetro, acreditando em uma superioridade nunca comprovada.

Desde os primeiros anos este jovem verá a violência sexual e física de meninas e mulheres enquanto lambe as suas próprias feridas após apanhar de uma mãe raivosa, que parece descontar no menino o que não consegue controlar. Enquanto o pai é uma figura muito distante, ao qual as vezes até esquecemos da sua existência.

Às vezes você me batia com toda a sua força bem no meio da minha boca com cintos, sapatos, punhos e cabides.


Este menino também irá crescer e viver com pedidos como não ande a noite, não corra, cuidado com o corte de cabelo...nunca se sabe o que a polícia irá pensar. Até chegar à universidade e ser hostilizado pelo que ousa escrever e publicar, e mais tarde ver que nem sempre terá reconhecimento, por mais que se esforce.

E assim os leitores terão uma visão realista das escolhas, da humilhação e do sofrimento imposto por tamanha desigualdade enfrentada pela comunidade negra nos Estados Unidos, mesmo eles sendo tão americanos quanto os brancos que o julgam.

Ser duas vezes mais excelente do que os brancos vai te conseguir metade do que eles conseguem.


E como é impossível se manter 100% são nestas condições, Kiese Laymon apresenta compulsão, e esta compulsão também irá se modificar ao longo do caminho, tendo outros direcionamentos enquanto ele cresce. E embora ela mude o foco, em nenhum momento desaparece de sua vida.

Mas apesar de tudo, ele não desiste, e se o jovem Kiese desperta o desejo de entrar no livro e acolher o menino em um forte abraço, o homem Kiese provoca o desejo de lhe dizer: levanta e não desiste, sua luta é justa, siga evoluindo, aprendendo e fazendo a diferença.


O que eu achei...

Eu gostei muito da leitura. Quem acompanha o Instagram do blog deve ter notado uma longa distância de tempo entre uma leitura e outra, justamente porque Pesado não é um livro para se ler rapidamente.

O tempo inteiro ele mexeu com os meus sentimentos, algo em mim doía quando ele apanhava sem motivo algum, algo em mim entendia quando ele tentava transformar o que lhe consumia em atos como comer ou fazer muito exercício. 

Eu queria o dinheiro, a segurança, a educação, as escolhas saudáveis e as segundas chances que eles nos proibiram de ter.


Ao mesmo tempo achei muito interessante o uso frequente de uma frase, que aparecia nas situações mais tranquilas e harmônicas onde ele dizia que alguém deu risada e deu risada e deu risada até que a risada acabou. Nesta hora algo era aquecido com o calor daquela gargalhada que parecia sem fim.

Um livro para sentir o racismo na prática, sem lente de aumento, sem anestesia, onde é impossível não sentir raiva com as situações diversas.

E eu sabia que o poder de cometer abusos destruía o interior dos homens tanto quanto destruía o interior e o exterior das mulheres.


De bônus há muitas referências literárias, afinal, ele além de ser professor vem da casa de uma professora, e os livros são instrumentos cotidianos de informação e educação.

Como não sei se consegui transcrever em palavras tudo o que senti, fica apenas a dica: leia. 


Pesado
Heavy, an american memoir
Kiese Laymon
Tradução: Davi Boaventura
TAG - dublinense
2018 - 288 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 8 de março de 2022

Belo Mundo, onde você está?



Sinopse: Alice, Felix, Eileen e Simon ainda são jovens, mas sentem cada vez mais as pressões decorrentes do passar dos anos. Eles se desejam, se iludem, se amam e se separam. Eles se preocupam com sexo, com amizade, com os rumos do planeta e com o próprio futuro. Seriam eles as últimas testemunhas do ocaso? Conseguirão encontrar uma forma de viver mais uma vez em um belo mundo?

A escritora irlandesa Sally Rooney usa como enfoque em seu livro Belo Mundo, onde você está? pessoas com cerca de 30 anos, ainda incertos sobre as suas escolhas, independente de eles terem atingido o sucesso ou não, tentando se adaptar a chamada vida adulta e todos os desafios que ela apresenta. 

Na história temos Alice, uma escritora que resolve se mudar temporariamente para uma cidade pequena na costa da Irlanda depois de se sentir sobrecarregada com o sucesso de seu livro. Embora diga a melhor amiga que irá dar um tempo, segue em viagem promovendo o que escreve.

A mulher junto à janela o notou, mas, além de observar, não fez nenhum esforço a mais par chamar sua atenção.


Sozinha ela se utiliza do Tinder, um popular aplicativo de encontros, e assim conhece Felix, um homem que trabalha com encomendas em um armazém, curte uma cerveja e encontrar com seus amigos. 

Além de Felix, Alice troca e-mails com Eileen, sua amiga do tempo de faculdade, onde questões existências e do cotidiano se misturam. Ao contrário de Alice, Eileen se acomodou no cargo de assistente editorial, no momento ainda lamenta o término de um relacionamento e usa o ombro e o restante do corpo do seu amigo Simon, enquanto se vê envolvida nos preparativos do casamento da irmã mais velha.

Nada mudou em sua relação extrínseca com o mundo que possibilitasse a um observador determinar o que ela sentia quanto ao que via.


Simon é mais velho que Eileen e a conhece desde a infância, advogado por formação, atua como assessor parlamentar e é o tipo de amigo que está sempre disponível para ouvir, mesmo quando os seus sentimentos vão além de uma simples amizade colorida.


Os Personagens

Como é possível observar no resumo inicial, os personagens são a história, é a vida e os pensamentos deles que assistimos no virar das páginas.

Alice é irônica, vive a contradição de se manter longe das outras pessoas e ao mesmo tempo sentir falta de afeto. Existe um medo de baixar a guarda e sair magoada, vestígios de um passado recente que não foi curado e exige um pouco de paciência dos que estão ao seu redor.

Não preciso de todas essas roupas baratas e comidas importadas, e embalagens de plástico, eu nem acho que elas melhorem a minha vida.


Assim como Eileen, que apesar de se relacionar com outras pessoas acaba se acomodando em situações que não lhe agradam mais, sem ao menos ter uma justificativa para isso. Ela limita o próprio potencial, assim como os seus desejos, mesmo quando eles podem ser realizados. Um medo inexplicável de ir além, que a impede de ser feliz. 

Já Simon, por ser apaixonado por Eileen, acaba mantendo a própria vida afetiva em pausa, e mesmo que se relacione com outras mulheres, nunca se entrega a elas, pois está sempre disponível para atender a amiga.

Todos os dias me pergunto por que minha vida tomou esse rumo.


Por fim temos Felix, o menos trabalhado na narrativa, que parece estar ali para dar a real, as vezes de uma forma um tanto grosseira, nos outros três personagens.

E fazendo aquela participação especial estão os amigos de Felix que são bem legais e a família da Eileen, onde principalmente a irmã é bastante desagradável.


A escrita de Sally Rooney...

A narrativa em terceira pessoa permite ter uma visão do quarteto enquanto eles caminham, tropeçam e levantam pelo caminho. Sem usar o travessão para os diálogos, descrições, pensamentos e conversas se misturam, exigindo uma atenção a mais do leitor. Então não, leituras dinâmicas para este livro não são recomendadas.

Qual é a diferença entre uma namorada e alguém com quem você está saindo?


Mas isso não torna o livro difícil de ler, muito pelo contrário, pois a história é fluída, as passagens de um personagem para outro se realiza pelo fim dos capítulos, embora não haja o nome no início de cada um.

E se no início eles estão mais separados, como se atraídos pelo magnetismo do centro da Terra aos poucos eles e os leitores se preparam para o encontro presencial, onde poderão se olhar olho no olho e assim falar e ouvir o que desejam ou não.


O que eu achei...

Creio que Belo Mundo, onde você está? consegue retratar bem as incertezas deste período, onde você já está entrando em uma segunda fase da vida adulta e assim não é mais considerado tão jovem para rever suas escolhas, e inevitavelmente começa a confrontar a realidade com os sonhos de infância, como se preenchesse um check list.

Ao mesmo tempo existe os resquícios da adolescência, muitas vezes fortalecido pelas opiniões e influências familiares e da própria sociedade, que parece cobrar cada vez mais de você.

Não nego que você esteja sofrendo, aliás - sei que está, e é por isso que estou tão surpresa por você se sujeitar a isso tudo outra vez.


Confesso que as vezes os achava inseguros demais, momentos nos quais o Felix as vezes me representou em suas falas, pois os três são privilegiados em relação a liberdade que tiveram em suas escolhas, embora eles nem sempre enxerguem isso. 

O que fez com que em certos momentos a história não conseguisse me cativar, para em seguida surgir alguma situação que eu me visse um pouco neles, pois o processo de evolução e amadurecimento não ocorre magicamente aos 21, sendo uma constante eterna em nossas vidas. 

Quanto mais penso em sexualidade, mais confusa e variada ela me parece, e mais reles o nosso jeito de falar sobre ela.


E embora não tenha achado o livro maravilhoso, também não o achei ruim, pelo contrário, gostei do estilo utilizado pela escritora e me fez repensar na postura e comportamento de pessoas nesta mesma faixa etária que estão na minha volta apresentam e muitas vezes eu não entendia. 

No meu achômetro este livro pode cair no gosto justamente deste grupo, ao ver parte de sua própria realidade refletida, e quem sabe ajudar a colocar em ordem as suas próprias prioridades. Afinal, ficção serve tanto de divertimento como de terapia.

E a morte não é apenas o apocalipse em primeira pessoa?


Ficando a dica para a turma que está entrando nos trinta, para quem convive com esta geração, ou para quem quer simplesmente curtir uma leitura com vários questionamentos sobre vida, amor, amizade, relações familiares e medos.


Belo Mundo, onde você está?
Beautiful World, Where Are you
Sally Rooney
Tradução: Débora Landsberg
Companhia das Letras
2021 - 332 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 1 de março de 2022

Na estrada com o ex



Sinopse: Dylan e Addie se apaixonaram há alguns verões, sob o sol da Provença, na França. Quase dois anos atrás, porém, o relacionamento acabou, e eles pararam de se falar. Às vésperas do casamento de uma amiga em comum, os caminhos dos dois se cruzam novamente. Ou melhor, colidem. Quando, logo no início da viagem para a festa, o carro em que Dylan vai com um amigo bate no que Addie está com a irmã e um sujeito que pediu para ir junto, os planos mudam. Addie se vê obrigada a oferecer carona para a dupla, e, espremidos no carrinho, os cinco retomam a jornada. Com muitos imprevistos no trajeto e seiscentos quilômetros pela frente, Dylan e Addie serão forçados a confrontar as escolhas que os separaram e refletir se ter colocado um ponto-final no relacionamento foi a melhor decisão.

O clube de assinatura da intrínsecos encerrou o ano de 2021 com o novo livro de Beth O'leary chamado Na estrada com o ex. De mimo veio um livro do Neil Gaiman e decorações para a árvore de natal com citações dos livros enviados no ano de 2021, ao qual achei muito fofo.

Dylan está dirigindo a Mercedes do pai do seu amigo Marcus para irem em um casamento quando reconhece a motorista do Mini a sua frente, o que o impede de evitar uma colisão com o outro carro, onde estão sua ex Addie, a irmã e um colega da noiva Cherry, pois eles também vão ao mesmo casamento.


A estrada da amizade nunca flui suavemente, escute o que estou dizendo.


Ironicamente o Mini é o carro que sobrevive a batida, e com a Mercedes sendo rebocada para conserto, cabe a boa educação superar as mágoas e apertar os cinco passageiros dentro do carro e assim trazer todas as lembranças do passado.

Passado em comum que começa no sul da França, quando Addie está de caseira da casa de campo de Cherry, a noiva que os uniu. Entre os hóspedes que vem e vão, um dia no lugar de uma família inteira quem chega é o jovem Dylan.


Ele é tão familiar que, por um momento, tenho a sensação de estar olhando para o meu próprio reflexo.


O que começa com um papo, rapidamente evolui para o beijo até chegar a declarações de amor. Só que a diferença dos dois vai além do dinheiro. Enquanto ela já definiu o que deseja para o futuro, ele ainda se encontra perdido, sem coragem de enfrentar a própria família. 

Só que este amor não termina bem, e agora após dois anos do término eles se reencontram em um espaço apertado em um longo caminho pela frente, tendo muito mais a dizer um ao outro do que pensavam.


Os personagens


Tem famílias e personalidades para todos os gostos em Na estrada com o ex, e como o núcleo é pequeno, assim como o tamanho do carro, eles se revelam em seus diálogos e brigas ao longo do caminho.

Dylan é o cara que faz o tipo rapaz bonzinho, sempre atento, disposto a ajudar, no passado ele demonstra ser bastante inseguro e facilmente influenciável. Possui um grande medo de seu pai, um homem preconceituoso que deserdou o filho mais velho quando este se assumiu homossexual e agora cobra a escolha de uma carreira aceitável do filho mais novo.


Estou o quê? O que eu estou? Uma bagunça.


Adeline, chamada pelo apelido de Addie, é uma jovem que escolheu ser professora por profissão, vem de uma família bastante equilibrada e amorosa, que apoia tanto ela quanto sua meia-irmã Deb. O que as fez se tornarem mulheres bastante independentes e conscientes de suas escolhas.

Marcus é o amigo inconveniente de Dylan, como outros do ciclo de amizade dos dois, é rico, gasta horrores de dinheiro em bebida e drogas, além de ter uma vida sexual bastante ativa com diferentes parceiros. A questão aqui é que ele seria um amigo de infância do personagem principal, mas suas ações nos deixam em dúvida se ele é apaixonado por Addie ou Dylan, ou se vive em constante competição com Dylan por uma inveja inexplicável. O que torna o tipo de amigo do amigo insuportável de aturar.


É como se... houvesse uma música de fundo tocando, ou como se a saturação das cores estivesse mais forte.


Deb que também está no carro e também estava na França no início de tudo, foi quem segurou a barra durante a separação da irmã e agora sai pela primeira vez para uma festa após abraçar uma maternidade independente. É ela que garante boas risadas na história junto com Rodney.

Rodney é aquele cara da música dos Paralamas do Sucesso "entrei de gaiato no navio..." que em um grupo entre os convidados para o casamento consegue carona com as duas irmãs e se vê em uma viagem muito maluca.


Ela é como uma ninfa das águas, com o cabelo escuro e molhado e os olhos azuis feito um rio.


Cherry é a noiva amiga de todos que liga de tempos em tempos desesperada para as irmãs querendo saber quando é que elas vão chegar, tão apavorada com coisas bobas que até surpreende os que a conhecem de longa data.


A escrita de Beth O'leary


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Beth O'leary utiliza o mesmo recurso que eu havia visto em A Troca: dois narradores contando os seus pontos de vista, com a diferença que temos um antes e depois.

Com isso o leitor vai descobrindo os motivos de cada reação ou palavra no agora ao ser transportado para o antes e entender como os personagens viveram a situação ou lembrança que vem a toma através de diálogos ou pensamentos. 


Algum dia vai aceitar uma única coisa boa que eu digo sobre você?


Ao mesmo tempo que acompanhamos as mudanças de cada um, suas evoluções e novos comportamentos em relação as situações encontradas, o que pode ser surpreendente após dois anos de afastamento.

E assim como em A Troca, há um grupo para colocar os dois personagens principais em diferentes situações, embora no Antes a história logo de início acaba sendo muito mais focada no relacionamento físico de Dylan e Addie.


O que eu achei...


Eu amei A Troca, então estava dando pulos de alegria quando vi que receberia outro título da autora no final do ano. Mas as vezes criar muita expectativa não é bom, e confesso que me decepcionei com Na estrada com o ex.

Achei o começo bem chato, talvez a palavra correta seja arrastado, sendo que quando faltava cerca de um terço para finalizar a história deu uma melhorada com o acréscimo de cenas mais engraçadas e maior dinâmica nos capítulos, com os desenlaces finais.


Explica muito sobre várias atitudes irracionais cometidas ao longo da história: todo homem que já foi à guerra deve ter gostado muito de alguém.


O curioso é que a narrativa trouxe vários assuntos bem interessantes que poderiam ser abordados além da superfície, e mesmo de forma leve, ter tornado o livro muito mais envolvente, como questões de confiança em um casal, o preconceito hipócrita que vem de dentro da família, desvios psicológicos que precisam ser tratados e o desejo de maternidade.

Só que eles não foram desenvolvidos, ficando apenas fragmentos a serem explorados enquanto eram disponibilizadas muito mais páginas para as cenas quentes dos personagens principais.


Para ser verdadeiro consigo mesmo, antes de mias nada é preciso ter uma noção clara de quem se é.


Mas sim, posso estar sendo chata, e meu espírito não estar no ritmo de leveza ou obviedade que a escritora propôs. Então como sempre, deixo a dica literária, principalmente para quem gosta de um romance romântico bem leve, pois com certeza pode ganhar o seu coração e ainda garantir aquela torcida pelo happy end da última página.  


Na estrada com o ex
The road trip
Beth O'leary
Tradução: Ana Rodrigues
Intrínseca
2021 - 416 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Pro inferno com isso



Sinopse: Na orelha o escritor Marco Severo avisa os leitores que: “a obra carrega tons de vibrante realidade, eis aqui um livro assombroso, no melhor sentido da palavra. Nas vinte e oito histórias que você tem em mãos não existem absurdos nem inverossimilhança. Absurda é a vida - e esta obra pulsa, repleta dela”.

O escritor baiano Matheus Peleteiro reúne 28 contos, em sua maioria relativamente curtos, no livro Pro inferno com isso. E justamente pela quantidade não vou repassar um a um como muitas vezes vocês veem por aqui, senão a resenha iria ficar muito longa e cansativa para vocês.

De uma forma geral posso dizer que os contos trazem para o leitor uma mistura de filosofia, comicidade, relações familiares, meio social, política, paixões e muita literatura, ao qual ouso dizer ser a estrela principal deste livro.


Cada minuto parecia uma hora de tortura, cada hora parecia um dia completo e ele estava prestes a surtar quando ouviu o som dos passarinhos cantando ao nascer do sol.


Pois em alguns pontos as referências e o ato de escrever são os personagens principais ao influenciar tudo a sua volta, assim como os sentimentos e escolhas dos indivíduos que acompanhamos em cada história.

Alguns dos meus preferidos foram 'Suave é a noite' que tem um toque filosófico em uma insônia que parece abrir um novo mundo. ‘Legiões urbanas de devoradores de literatura’ ficou muito divertido, adorei a brincadeira das tribos conforme o autor admirado pelos seus integrantes - e fiquei imaginando como seria o pessoal da minha, aliás, fiquei pensando se as tribos aceitariam alguém que pertencesse a mais de uma.


Fazia alguns dias que eu parecia estar vivendo em uma utopia bastante interessante, embora inverossímil.


Quase um miniconto 'O vencedor' tem aquela ironia que arranca um sorriso, já 'E isso doía’ trás toda a magoa de críticas carregadas por um longo tempo, enquanto ‘Edema de Glote’ vem falar dos influencers e o esquecimento da literatura enquanto leitura quando vira só marketing de apresentação, tornando-se segundaria entre o seguido e seus seguidores.

Já em 'O suicídio de um poeta que não teve coragem de se matar' nos recorda da eternização e elogios que muitas vezes só são lembrados após a morte de algum escritor, e como seria tentar utiliza-la para atrair os olhares para quem é desconhecido e deseja a fama repentina para começar a viver.


O pior meio de se educar um filho é tentando incutir disciplina em sua cabeça através da coerção física.


Além dos que mais gostei, para quem é fã de literatura talvez irá se encontrar em 'Um encontro com o velho' onde Bukowski bate um papo com alguns críticos dos tempos atuais ou em 'A Maldição' onde Alberto tem este nome em homenagem a Albert Camus

Ou quem sabe ao acompanhar um escritor e a sua participação em um programa de rádio com o sugestivo nome de ‘Gaiola dos pedantes’. Aliás, achei que este personagem poderia ser continuação do conto 'O Bar da escrita criativa' cujo título deixa claro a base da história.


Além disso, para um artista, não há nada pior que o comodismo e a não eventualidade.


Fechando os contos que tem a literatura como mais do que uma base está 'No tribunal de exceção de suas consciências' e a tortura mental de um escritor desconhecido em relação a sua obra.

Mas como eu havia dito no início da resenha, além da literatura há outros assuntos abordados, como questões familiares. Em ‘Os dois irmãos’ temos os caminhos de dois homens como pensamentos completamente diferentes unidos pelos laços de sangue. Já em ‘O Bastante’ entram os questionamentos em relação a disciplina e ideias dos pais.


A Dona Morte teria me poupado de muita coisa. Mas, desde que afirmei não sentir mais tesão por ela, ela passou a ameaçar me trazer de volta à vida.


Há também os relacionamentos em que hora temos um homem protagonista como em ‘Mãos de Poeta’ e hora uma mulher recebe o holofote como o caso da moça misteriosa que busca vingança após um relacionamento mal sucedido.

Sem esquecer os sociais, como o conto que dá título ao livro, ou em ‘Sem olhar para trás’ e a reação de dois colegas a imagem de dois mendigos. Ou os questionamentos de liberdade em ‘Você também!’. Assim como julgamento prévio como encontramos em ‘Opostos’.

Mulher nenhuma deve alguma coisa. Os homens, por outro lado, devem muito...


Como eu comentei no início do texto os contos são em sua maioria curtos, alguns em uma única página, então para quem gosta de ler mais de um livro ao mesmo tempo, ele ajusta perfeitamente a qualquer tempo para fazer este intercâmbio, sem ter risco de deixar alguma história pela metade.

E assim deixo a dica para quem curte ler contos, para quem busca mais escritores brasileiros, para quem busca conhecer novos escritores, para quem adora a literatura como tema e acompanhada de referências, e claro para quem gosta simplesmente de livros.


Pro inferno com isso
Matheus Peleteiro
Edição do Autor
2019 - 145 páginas

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Igualzinho a você



Sinopse: Seu par romântico é igualzinho a você: mesmas origens, mesma idade, mesmos interesses. O casal perfeito. Juntos, porém, são uma catástrofe. Então, quando você menos espera, surge outro em sua vida. Vocês parecem não ter nada em comum e ainda assim, de algum jeito, tudo faz sentido. Com perspicácia, ternura e muito humor, este romance de Nick Hornby explora a fundo o que significa entrar de cabeça num relacionamento com a melhor pessoa possível - e que não tem nada a ver com você.

TAG Inéditos encerrou o ano enviando em Dezembro/22 o romance inglês Igualzinho a você do escritor Nick Hornby. O mimo foi um calendário de mesa para 2022 - é dele as imagens que uso para indicar o mês dos livros lidos no Instagram.

Lucy tem quarenta e dois anos, é professora, mãe de dois meninos, e se divorciou quando viu o alcoolismo de Paul aumentar a cada dia, assim como o impacto que a bebida estava tendo em suas ações. Mas a separação não impediu que os dois mantenham uma relação que podemos considerar amigável, visto que eles possuem filhos pequenos em comum. Para diminuir a solidão, ela se relaciona com homens de aplicativo e conhecidos apresentados pelos amigos.

E é justamente quando precisa de uma babá para um jantar que ela acaba se aproximando de Joseph, um rapaz negro, de 22 anos, que entre seus vários empregos, é atendente aos sábados em um açougue localizado no bairro onde Lucy mora.


Como alguém podia ser capaz de dizer com alguma certeza o que mais odiava no mundo?


Os períodos como babá acabam aproximando Joseph dos meninos, que adoram alguém que jogue vídeo game com eles, rapidamente ele e Lucy viram amigos e logo vem um relacionamento íntimo, mas sem o rótulo de relacionamento fixo. 

Mais do que gerações diferentes, eles não possuem nem mesmo gostos em comum, ela gosta de livros e peças de teatro, e ele revira os olhos para isso. Ela acompanha política, para ele tanto faz tanto fez. Ela tem liberdade de ir e vir, ele está sujeito a revistas policiais.

Mas mesmo assim as horas vão se tornando dias, semanas, meses, em uma relação que se vive o momento e não existem planos futuros.


A disputa agora era com o resto do mundo, e o resto do mundo era ao mesmo tempo grande e bom de bola.


Os personagens


A história é centralizada em Lucy e Joseph, que são colocados como opostos. Ela é branca, adora ler, é mais velha, contra o Brexit, seu círculo de amizade é uma bolha com as mesmas ideias e ideais, e sua situação financeira é estável, com uma boa casa e emprego. 

Joseph está saindo da adolescência, é negro, indiferente ao Brexit, seus amigos são jovens e o seu negócio é fazer música e quem sabe um dia ser Dj. É um rapaz que não deseja ter relacionamento sérios e ainda mora com a mãe, que não controla os seus ir e vir. Financeiramente sua vida é bem mais simples, o que o faz dividir o tempo em diferentes trabalhos.


Talvez acreditasse que Deus criara o universo, mas não sabia como aquilo o afetava.


Fazendo figuração em volta do casal estão os vizinhos caricatos de Lucy, como Emma, uma mulher casada que frequentemente tenta flertar com Joseph no açougue, a mãe de Joseph que não aprova o relacionamento, o ex-marido que se sente no direito de fazer várias perguntas, moças jovens e bonitas que podem dar perspectiva de família futura para Joseph, além dos amigos de ambos os lados que aparentemente não se importam com as diferenças dos dois, sejam ela de idade, classe ou de raça.


A escrita de Nick Hornby


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Hornby inicia a sua história na primavera de 2016 e percorre em longos capítulos os nuances deste relacionamento em detalhes no período aproximado de seis meses, até dar um salto no tempo e finalizar na primavera de 2019.


Anos e anos de vida adulta tinham lhe presenteado com pistas totalmente inibidoras sobre o que se passava na cabeça das pessoas.


Sua escrita coloca o leitor dentro da cidade de Londres, e como eu já havia lido em A segunda vida de Missy, o assunto principal é a forte discussão que polarizou opiniões a respeito do Brexit. No caso de Igualzinho a você o foco se amplia ao entrar em discussão os diferentes lados sobre a saída do Reino Unido do bloco europeu conforme idade, raça e classe social. As visões são muitas, assim como as opiniões dos personagens em relação aos políticos ingleses que ainda são figurinhas fáceis nos telejornais.

E aqui também entra o fato de Londres ser uma cidade muito cara, a disputa de empregos com imigrantes, aos quais muitos locais acusam de roubar as suas vagas e veem no Brexit a oportunidade de recupera-las.


Ele estava querendo fazer sexo com uma pessoa da idade da mãe dele!


E naturalmente também é abordado o racismo, como a reação de um vizinho que chama a polícia ao ver Joseph batendo na porta de Lucy em uma noite. É através de Joseph que ele também levanta questão de frases e conceitos pré-estabelecidos em vários diálogos.


O que eu achei...


Eu particularmente achei o livro muito chato. O sentimento que eu tive durante a leitura era que Lucy estava com Joseph para não ficar sozinha, pois ele é um guri do tipo babaca, que tem vergonha dela e frequentemente a compara mentalmente com a própria mãe, e cuja dinâmica me fez acha-lo tão tóxico para ela quanto o ex-marido. Pois Lucy parece eternamente pisando em ovos com ele, tendo que ter cuidados na forma de se expressar e agir que ele não tem.


Estava em forma para seus quarenta e dois anos, mas, de qualquer modo, tinha um corpo de quarenta e dois anos.


E ao mesmo tempo o comportamento dele me parecia algo natural, pois ele é um cara muito jovem ainda em formação, suas ideias de mundo ainda não ganharam amplitude, ao mesmo tempo em que ele já encarou situações que ninguém deveria ter que enfrentar, fazendo com que ele esteja em um processo de amadurecimento entre extremos.

Além do seu mundo ser muito mais adolescente do que adulto. E é isso que o relacionamento com Lucy oferece a ele, sexo sem compromisso ou responsabilidade. 

E ao contrário do que é indicado na orelha da página, não acho que Lucy fosse igual a Paul - seu primeiro marido -, seu círculo social talvez, sua cor com certeza, mas existe algo chamado personalidade, que nos torna únicos em relação aos outros. E no caso de Lucy ela se molda aos pares, o que possibilita que seus relacionamentos durem até as situações ficarem extremamente desconfortáveis para ela. 


E, se você acha mesmo que eu sou racista, talvez você não devesse estar aqui.


E talvez por ela repetir um comportamento tão comum entre as mulheres de ser a pessoa que cede, espera e precisa tomar as decisões, que eu não tenha conseguido sentir a leitura fluir. O que me fez pensar que Lucy merecia ter um dedo melhor para os seus relacionamentos.

Naturalmente talvez a narrativa faça muito mais sentido para quem já viveu ou tem um relacionamento inter-racial, ou com essa diferença em que um está chegando na vida adulta enquanto o outro já está na fase da estabilidade e maturidade, possibilitando maior identificação.

Pois como são realidades distante pra mim e o livro não é movido a grandes ações ou acontecimentos, mas sim descrevendo a rotina de um casal, que mesmo sendo de polos tão distintos, consegue conviver em relativa harmonia. Para quem viveu ou está vivendo as mesmas situações o impacto causado pela leitura pode ser muito maior.


O referendo dava a grupos de pessoas que não se gostavam, ou ao menos que não se compreendiam, uma oportunidade de brigar.


E como já citei no texto, a visão ampliada do Brexit também me ajudou a aprender mais um pouquinho sobre o que causou toda a disputa e até mesmo encontrar semelhanças com a polarização que enfrentamos aqui no Brasil. 

Então mesmo literaturando fica a dica de leitura para que você leia e descubra se concorda ou discorda de mim, afinal, a literatura é muito semelhante a gastronomia, cada um tem os seus gostos e preferências.

Igualzinho a você
Just Like You
Nick Hornby
Tradução: Christian Schwartz
TAG - Companhia das Letras
2020 - 415 páginas

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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Vestígios



Sinopse: Algumas das onze histórias que compõe este livro começaram a ser elaboradas por Ana Maria Machado há muitos anos. Independente entre si, mas conectadas pelos fios das relações familiares, elas versam sobre as nossas escolhas, memórias afetivas e a passagem do tempo. Os personagens são pessoas comuns em situações cotidianas - uma mulher de meia-idade diante de uma infidelidade, um homem que busca dentro de si o mesmo encantamento com a vida que experimentou na infância. O lirismo e a profundidade destas narrativas são tais, que naturalmente nos confrontamos com nossas próprias escolhas e suas consequências. Em seu inconfundível estilo, Ana Maria Machado nos mostra como as alegrias e dissabores do presente podem ser vestígios de tempos "que os anos cada vez trazem mais".

Existem livros que são como um abraço, que nos confortam, nos fazem relembrar histórias antigas, que aquecem o nosso coração fazendo com que invariavelmente sorrisos escapem. 

Foi isso que a bela seleção de contos da autora carioca Ana Maria Machado representou pra mim. Suas histórias me trouxeram uma leveza que nem eu havia percebido que estava precisando. Então antes de mais nada eu já digo, se você está como o Olaf precisando de um abraço quentinho, Vestígios talvez possa lhe dar isso através das palavras.

Como de costume, compartilho abaixo um pouquinho dos onze contos, mas sem muitos detalhes para não estragar a leitura de quem for ler.


Estações


Mal conteve uma exclamação de surpresa ao abrir a porta.


O conto de abertura nos coloca no reencontro de pai e filho no Canadá, onde o filho ainda tem dúvida de seguir os mesmos passos profissionais paternos. Em um restaurante eles encontram um brasileiro ao qual sem saber seu pai havia mudado a vida.

Logo de início Ana Maia nos apresenta uma história muito gostosa de ler ao misturar um grande amor nas relações familiares com o impacto que uma pequena ação pode ter na vida dos outros.


A melhor parte


Quem parte, reparte, e não fica com a melhor parte... ou lhe sobra siso, ou lhe falta arte.


No segundo conto temos duas irmãs que convivem entre divisões e escolhas, em uma busca incessante por maior atenção enquanto compartilham comparações e ciúmes.

Uma brincadeira sobre a convivência entre irmãos relatada de forma leve e com um toque de humor nas disputas que são levadas aos detalhes.


Burrinho de presépio


Desde pequena tinha aprendido a se portar de maneira contida.


A evolução de uma menina que nasceu tendo bons modos e cresceu sendo uma pessoa contida é o tema do terceiro conto, cuja vida da personagem encontra simbologia em um presépio.

Uma história delicada sobre como a personagem lida com os próprios sentimentos mesmo em momentos extremos.


O.k., você venceu 


Amor não pode ser prisão. Um não é dono do outro.


Um casal opta por ter um relacionamento aberto, ao qual estabelecem uma série de regras. Mas um dia o homem resolve quebra-las para se envolver com uma mulher mais jovem.

Eu achei muito interessante como o quarto conto foi conduzido, onde fatos e questionamentos se misturam no fim de um relacionamento sem ter nada de tedioso para o leitor, prendendo até o desfecho final.


Além das fronteiras


Fase provisória, etapa passageira.


No quinto conto temos a despedida de Marina do local onde mora antes de sua mudança com o marido e a relação que ela tem com uma ave local.

Eu achei essa história tão fofa, pois existe uma delicadeza ao tratar dos ciclos que se encerram e dos laços de amizade mais improváveis.


Tratantes


A gente confia, espera, o tempo passa, não aparece ninguém.


Ao contrário do que se possa imaginar, o título do sexto conto é uma pegadinha e o que ele traz é uma linda história de avó e netos.

Ele encanta por nos lembrar que a felicidade está nos detalhes, nos pequenos gestos amorosos, que ficam para sempre na nossa memória.


Sem deixar rastros


Era cuidadosíssimo. Mesmo quando andava na fase da maior paixão, conseguia ficar atento e não baixar a guarda.


Com um toque de ironia, coisa que eu particularmente adoro, o sétimo conto nos apresenta um homem que evita deixar vestígios em seus relacionamentos extraconjugais.


Em nome do pai


Aquela história de transformar os militares em carcereiros de presos políticos vindos de longe não era vista com bons olhos por todos.


Padre Olímpio é bom de bola, e é isso que distrai a ele e outros prisioneiros políticos enquanto são mantidos presos em um quartel quase na fronteira com o Uruguai. Até que ele é convidado para substituir um jogador machucado no torneio dos militares.

O oitavo conto consegue misturar um pouco da história da ditadura militar brasileira com as lembranças paternas deste tão simpático personagem fictício, resultando em outra leitura encantadora.


Não mais


Era em pleno tempo do ainda não.


No nono conto temos um retorno as lembranças de uma infância na casa dos avós, onde a luz ainda não havia chegado e as histórias eram contadas em volta da fogueira.

Mais uma vez a valorização do que realmente é precioso para nós e o quanto isto fica eternizado em nossa memória independentemente de onde andamos.


Uma velhota frágil


Mas à primeira vista, era uma velhota frágil. Miúda, de cabeça branca.


A falsa fragilidade dada para uma senhora que muda não só o rumo do seu dia, mas também dos passageiros de um ônibus.

Eu adorei a massagista Marieta do décimo conto, a frágil senhora em questão, que deve fazer massagens maravilhosas.


Todas as filhas


Com as palavras dispostas na página de modo diverso, as letras se entrecruzando na coincidência das repetições.


No décimo primeiro e último conto uma paixão de idas e vindas que fazem Olivia acreditar que Miguel é a pessoa com quem quer estar até receber uma proposta de seu pai.

Aqui Ana Maria explora um amor que parecia ser para sempre até ter a sua resistência testada.


O que eu achei...

Se ainda não ficou claro na resenha, eu amei este livro de contos. É uma mistura de memória, afeto, escolhas, decepções, amores, mudança, aceitação, que não seria difícil de acreditar que houvessem acontecido no nosso dia-a-dia, devido a escrita sensível e os finais tão verossímeis que facilmente poderiam se passar por reais.

Além disso os contos têm uma doçura, uma leveza que abraça o leitor. Mesmo nos mais irônicos há uma gentileza na forma como é escrita, aquecendo facilmente o coração em dias tão confusos e tensos.

Por isso a minha dica é em especial para quem procura livros leves e inspiradores, que tragam à tona bons sentimentos e que arranquem sorrisos para quem anda precisando de uma dose. E naturalmente para que gosta de bons contos e de ler.


Vestígios
Ana Maria Machado
Alfaguara
2021 - 111 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Nada para ver aqui



Sinopse: Na primavera de 1995, Lilian recebe uma carta de Madison. Amigas improváveis na época da escola, elas perderam o contato ao longo dos anos, seguindo caminhos bastantes distintos. Madison, agora casada com o senador Roberts, escreve oferecendo um emprego a Lilian como babá dos enteados que estão chegando para morar na mansão do político. Com uma vida digna de zero comentários e nada a perder, Lilian aceita a oferta e, ao longo do verão, ela se surpreende com o vínculo criado com os gêmeos Bessie e Roland. Só tem um problema: ela não esperava que a situação pudesse pegar fogo...

TAG Curadoria encerrou o ano com uma indicação da multiartista Clarice Falcão, que indicou o autor norte-americano Kevin Wilson e o seu Nada para ver aqui. Como eu tenho a assinatura dos dois clubes da TAG, meu mimo foi um livro extra, para quem só tinha a curadoria, recebeu um calendário 2022.

Lilian era uma criança inteligente e graças aos seus esforços conseguiu uma bolsa de estudo para uma escola particular, onde meninas ricas eram enviadas para serem preparadas para o futuro. É neste local que ela conhece Madison, ao qual forma uma estranha amizade, e vê o seu sonho de uma vida melhor ser destruído quando sua mãe aceita dinheiro do pai de uma aluna para que a culpa pelas drogas encontradas no quarto da filha seja assumida por Lilian.


Eu esporadicamente namorava pessoas que não me mereciam mas pensavam que mereciam.


Sem nunca se recuperar por esta perda, a única lembrança que fica do período são as cartas de Madison que ela recebe de tempos em tempos. Enquanto a amiga entra para a política e acaba se casando com o candidato ao senado ao qual prestava apoio, Lilian leva uma vida bem mais ou menos e segue morando na casa da mãe.

Mas um dia ela recebe uma carta diferente, um pedido de visita que esconde o verdadeiro interesse do rico casal: cuidar dos filhos de Roberts após o falecimento da sua ex-esposa. E o que parecia um trabalho normal, ganha um toque de realismo fantástico quando ela é informada que os gêmeos literalmente pegam fogo.


Eu ia finalmente, depois de vinte e oito anos, experimentar coisas do jeito que eram planejadas para ser.


Os personagens

Lilian é a personagem principal desta história, uma mulher que não se recuperou da agressão sofrida ainda na juventude, não dando utilidade nenhuma para toda a sua inteligência. Sozinha, sem afeto materno e pai desconhecido, é muito fácil ela se apaixonar por Madison, que acaba utilizando isso para manipula-la.

Madison é o estereótipo físico do padrão tão cultuado, dos cabelos sempre cuidados, passando pelo corpo em forma e as roupas cuidadosamente escolhidas. Como o marido ela respira política, trocando o antigo sonho de ser presidente para alavancar a carreira do companheiro.


Muitas vezes quando penso que estou sendo autossuficiente, na verdade, só estou aprendendo a viver sem as coisas de que preciso.


Já o senador Jasper Roberts está muito próximo de ocupar o cargo de secretário de estado dos EUA, e para isso não irá poupar esforços, como esconder os próprios filhos do casamento anterior, para que a sua imagem não seja questionada.

Já os três filhos de Jasper são muito diferentes. O casal de gêmeos Bessie e Roland além de possuírem o dom de pegar fogo e não se machucarem precisam lidar com o abandono, já que ninguém da família - pai, avós maternos - querem lhe dedicar atenção. Já seu meio-irmão Timothy, filho de Jasper com Madison, demostra um comportamento sempre correto, carregando a imagem de um adulto em um corpo de menino pequeno, mas com todo o amor da mãe.


Eles eram como eu, sem amor e fodidos, e eu me certificaria de que tivessem tudo o que precisassem.


Completando o grupo estão dois empregados da casa, Carl é o faz-tudo para solucionar os problemas que possam envolver a família e o apoio no trabalho de Lilian para atender os gêmeos. Já Mary é a cozinheira que tudo sabe, tudo vê, mas pouco fala. 


A escrita de Kevin Wilson

O autor Kevin Wilson optou pela narrativa em primeira pessoa para contar a sua história, colocando o leitor dentro da mente de Lilian, e assim conhecendo os seus sentimentos, suas opiniões, seus lamentos e dúvidas.

Com uma escrita bastante fluída, ele transfere o leitor para a primavera de 1995 e nos faz um panorama de como seria conviver dia a dia com duas crianças que entram em combustão e ensina-las a controlar o fenômeno, enquanto as próprias pessoas em volta administram seus sentimentos.


Nós éramos um mundo à parte, mesmo que eu soubesse que era temporário.


Apesar de incluir algumas partes cômicas, o livro no geral não está longe de ser engraçado, pois apesar do inusitado fato das crianças pegarem fogo, o tema principal me pareceu o abandono parental. Ao qual ele trabalha muito bem ao incluir o fogo como o elemento que reflete o estado de espírito das crianças.

Outros elementos por ele trabalhados na obra estão o próprio jogo de aparências na política americana e as diferenças sociais, onde a visão do dinheiro compra tudo é aplicado de forma um tanto abundante e infelizmente certeira.


Se seus corpos eram invulneráveis ao fogo, o que havia dentro deles?


O que eu achei...

Eu particularmente achei a leitura bastante incômoda durante a maior parte do tempo, não pela escrita, mas pelo comportamento dos personagens. Não foram raras as vezes que eu tinha vontade de sacudir a Lilian, de lhe dizer que ela deveria parar de se achar um fracasso e usar a sua inteligência para encontrar um caminho, já que ela é nitidamente perdida na vida.

Também me senti incomodada com a maneira como os gêmeos não eram cuidados, com o fato de o dinheiro vencer facilmente e esconder muito bem aquilo que os ricos e poderosos não permitem mostrar.


Se você fosse rico e homem, parecia mesmo que era só seguir certo número de passos e era possível fazer qualquer coisa que quisesse.


Mas apesar de todo o incômodo, eu gostei da história, achei interessante a forma utilizada para questionar o estilo de vida da elite americana. 

Ficando a dica para quem gosta de um realismo fantástico, de histórias que envolvam comportamento humano, ou para quem quer uma literatura quente para os dias de verão.


Nada para ver aqui
Nothing to see here
Kevin Wilson
Tradução: Natalia Borges Polesso
TAG - Harper Collins
2019 - 255 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.