terça-feira, 8 de agosto de 2023

Lar em chamas



Sinopse: Nacionalidade e cidadania são um privilégio, não um direito de nascença, nesta história em que se acompanha não apenas a devastação de duas famílias, mas também tocantes histórias de amor incondicional e sacrifícios. Entre irmãos, entre pai e filho, entre amantes. Ao adaptar a tragédia Antígona de Sófocles, para Inglaterra contemporânea, a paquistanesa Kamila Shamsie construiu um romance pujante e arrebatador, vencedor do Prêmio Women's Prize for Fiction 2018.

No mês de maio/2023 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Lar em Chamas da escritora paquistanesa Kamila Shamsie. A indicação foi da escritora brasileira radicada em Londres Nara Vidal. E o mimo foi um abridor de garrafas no formato dos óculos do escritor português José Saramago.

Após uma pausa em sua vida pessoal para criar seus irmãos gêmeos Parvaiz e Aneeka, Isma, uma britânica muçulmana, enfrenta uma delicada entrevista para sair de Londres e ir realizar um doutorado em sociologia nos Estados Unidos. O comportamento de dois familiares muito próximos não conta a seu favor, mas suas últimas decisões a fazem ter respaldo para iniciar os seus estudos em paz e conhecer Eamonn, filho de um influente político britânico de origem islâmica que não recebe votos de quem tem a mesma origem devido as suas falas controversas.

Ela previra o interrogatório, mas não as horas de espera que o precederiam, nem que seria tão humilhante ter o conteúdo de sua mala inspecionado.


Eamonn vive da mesada da mãe enquanto não sabe o que irá fazer da vida. Sem contato com o lado islâmico da família paterna, é cosmopolita, e se encanta pela beleza de Aneeka ao ver uma foto da moça na casa de Isma, e assim buscar uma desculpa para encontrá-la pessoalmente em seu retorno para Londres.

Aneeka brigou com a irmã e não fala mais com ela, mas ao conhecer Eamonn vê no rapaz uma oportunidade de resgatar seu irmão gêmeo, que foi iludido e caiu na lábia dos jihadistas. Parvaiz, o irmão, não possuía informações nem fotos do pai, que ao pertencer a mesma organização terrorista se tornou assunto tabu dentro da família, e em sua inocência, ao receber informações tão preciosas sobre esta figura ao mesmo tempo importante e desconhecida para ele, foi facilmente enganado, e agora se vê em uma realidade difícil de escapar. 

O pai dele costumava ser assunto de conversas durante o café, mas sempre como "meu pai", nunca como um homem perante a opinião pública.


O resultado disto tudo é um romance que irá mexer com a estrutura de ambas as famílias de forma definitiva, em uma mistura de assuntos atuais e uma peça clássica que mexeram comigo do início ao fim.


A escrita de Kamila Shamsie


Foi o convite para adaptar Antígona, uma das famosas peças da Grécia antiga, somado a inúmeras notícias de jovens britânicos se unindo ao Estado Islâmico em 2015 que inspiraram a autora Kamila Shamsie a escrever o romance Lar em Chamas, que faz uma releitura com grande intensidade da peça clássica.

Divido em cinco partes, cada uma contém a visão de um dos narradores, e aborda assuntos como o luto, o amor, política, imigrantes, islã, cidadania e família. O que me permitiu conhecer um pouco mais da história de cada um dos personagens envolvidos. Seus sonhos, seus anseios, suas perdas e aflições. O que na minha visão me aproximou muito de todos eles, tornando a angustia de se aproximar das páginas finais maior, já que estamos falando de uma tragédia grega.

Como é possível parecer exatamente a mesma de ontem? Devia parecer como se uma tempestade tivesse passado.


O que achei interessante é que ao dividir em cinco partes, não estamos vendo o mesmo momento na visão de cinco personagens diferentes, mas a sequência dos fatos. O que permite ver com clareza a diferença dos mundos, embora todos sejam de origem britânica-paquistanesa, e também suas semelhanças, como as escolhas de Isma e Karamat, que tentam se livrar dos estigmas para atingir sucesso profissional.

A escrita de Kamila Shamsie é envolvente, as descrições, principalmente em cenas chaves, nos colocam ao lado dos personagens, podendo gerar questionamentos ou compartilhamento de dor. Ao mesmo tempo, como ocorre na vida, nem os personagens nem o leitor tem a visão de tudo e todos o tempo todo. Há alguns saltos conforme a autora muda o narrador, mas nada que não permita ter o amplo entendimento da história.


O que eu achei de Lar em chamas


Por se tratar de um romance inspirado em uma tragédia grega, era previsível que haveria cenas fortes, mas nem isso me impediu de ficar chocada e ter aquele momento de leitor de pensar que poderia ser diferente.

Uma escolha errada por um rapaz no final de sua adolescência somada uma coincidência inesperada me fez pensar na palavra destino e em um filme antigo chamado Efeito Borboleta, onde um bater de asas pode mudar tudo. E é isso que ocorre na vida das duas famílias, onde pessoas que são consideradas estrangeiras no país que nasceram não respondem apenas pelos seus atos, mas por toda a comunidade que fazem parte.

Como ele odiava sua vida, aquele bairro, a inevitabilidade de tudo.


E por isso gostei muito da troca de visão dos personagens enquanto a história seguia andando, pois com a evolução dos acontecimentos a minha opinião ia mudando, assim como os meus sentimentos em relação a eles. Pois na história ninguém é mocinho ou bandido, são todos extremamente humanos, e aos conhece-los era possível imaginar o impacto de cada acontecimento em suas vidas.

Gostei da escrita da Kamila Shamsie, achei direta e simples, e ao mesmo tempo poética e impactante. Tornando a leitura mais do que recomendada para quem gosta de um bom livro. 


Lar em Chamas
Home Fire
Kamila Shamsie
Tradução: Lilian Jenkino
TAG - GRUA
2017 - 286 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1



Sinopse: A África é o berço da civilização e essa seleção de contos celebra sua cultura e influência, tão ricas e diversificadas quanto o próprio continente. Na África setentrional, as histórias de sultões e seres mágicos deixam entrever a influência moura; nas verdejantes florestas do Congo, sociedades de animais cuja inteligência sobrepuja à do ser humano; nas ilhas orientais, as alegorias morais das antigas civilizações tribais. Contos folclóricos africanos reúne histórias coletadas por exploradores, governantes e missionários europeus, em sua maioria contadas diretamente pelos nativos. São narrativas transmitidas verbalmente, de geração em geração, por provavelmente centenas de anos. Os contos revelam o folclore, crenças e códigos de ética africanos. Curiosamente, essa mitologia pré-colonização encontra ecos em muitas outras ao redor do mundo.

Encontrei Contos Folclóricos Africanos entre os ebooks gratuitos, disponibilizado para o público geral, na Amazon. E como gosto de edições de bilingues para me ajudar a estudar inglês já aproveitei para baixar.

De rápida leitura, o conjunto me lembrou um pouco as 1001 noites com as próprias histórias regionais que temos no Brasil, já que as histórias misturam a cultura africana com contos fantásticos, ao trazer animais falantes ou incidentes que se repetem muitas vezes.

Não se pode confiar nos filhos de Adão. O que querem de mim?


Por derivarem da narrativa oral, demonstrando que são histórias carregadas a muitos anos, passando pelas diversas mudanças no mundo, então sim, haverá momentos de machismos e situações que nos tempos atuais são estranhas. Mas nem por isso menos importante de se conhecer, já que só aprendendo com o passado se terá um presente e um futuro melhor.

Mas chega de bla bla bla e vamos ao breve resumo dos contos.


O filho do médico e o rei das cobras 

Um rapaz órfão de pai é incentivado pela mãe a procurar uma profissão, sem conseguir se encontrar nos primeiros ofícios, ele busca saber a profissão do pai, que era médico.

Mas antes que encontre os livros para entender a atividade, é chamado pelos vizinhos para cortar lenha durante uma semana, onde ele é enganado e abandonado.

Quando estiver em sua cidade, não tome banho com muitas pessoas.


Para sobreviver acaba buscando um caminho, e é nele que encontrará o rei das cobras.


O Macaco, a cobra e o leão

Uma viúva passa dificuldades financeiras para sustentar o filho na aldeia que moram. Conforme ele cresce, opta em seguir a profissão do pai de caçador e espalhar armadilhas na floresta próxima.

Mas com o passar do tempo, o menino descobre que pegar um animal não é tão rápido e fácil assim, até prender um macaco. Mas invés de matar, ele acaba aceitando o trato de salva-lo para um dia ser salvo também.

Nunca ajude homem nenhum, pois ele se voltará contra você na primeira oportunidade.


E o mesmo ocorre com uma cobra e um leão, e todos, sem exceção, após libertos lhe recomendam nunca ajudar um homem. Até que um dia um homem fica preso a sua armadilha.


Os pretendentes da princesa gorila

O primeiro fato interessante neste conto é que ele se inspira na chegada do rum na África, aqui chamado de nova água. Ao mesmo tempo que justificaria o motivo pelo qual o bando de micos vive nas árvores e não mais no chão.

Fez uma única e vã tentativa. Foi embora com o rabo baixo, rastejando de vergonha.


Na história a linda filha do Rei Gorila chegou na idade em que deve se casar, e o rei avisa a todas as tribos e impõe uma regra: o seu futuro genro precisava beber um barril inteiro da nova água. Uma tarefa nada fácil.


Ga'so, o professor

Aqui temos um homem que ensinava as crianças a ler debaixo de uma cabaceira e morreu ao ser atingido por um fruto enquanto preparava a sua aula.

Vejam só! Não é capaz de dizer uma palavra sequer para se defender.


Quando os alunos o encontram são tomados pela tristeza e pelo desejo de encontrar o assassino, que tem como suspeitos o vento sul, uma parede de barro, um rato, entre outros que eles vão encontrando ao longo de sua investigação um tanto violenta.


Por que os bodes são animais domésticos

Outra história que aborda porque um animal mudou o seu destino original. Aqui um bode vive em uma aldeia com sua mãe quando anuncia que tem uma poção que o torna invencível.

Que vergonha um animal desse tamanho derrotar um de nossa espécie.


Logo a notícia se espalha e chegam os seus desafiantes, mas nem todos irão aceitar perder a luta com facilidade, e a floresta passa a ser extremamente insegura.


O leopardo de pele lisa

Em um reino, a filha favorita de um rei ganhou o direito de escolher o próprio marido. 

Vejam que homem lindo! Que belo rosto e que porte!


Os pretendentes precisam atender a um único pré-requisito: não ter nenhuma mancha na pele. E assim ela auditava cada um que a pedisse em casamento, dispensando ao encontrar qualquer pinta mínima ou cicatriz.

O desafio chegou até o mundo animal, onde poções o ajudavam a se transformar na forma humana. Mas a escolha da difícil princesa foi sábia?


O tambor mágico

Outro conto que explica a mudança de localização dos animais, neste caso os cágados que vivem somente na água.

Em mundo que humanos e animais viviam em harmonia, cágados e leopardos ocupam uma mesma rua.

Usavam-no de maneira tão excessiva que o instrumento se aborreceu e, exaurido, não produzia mais nenhuma comida.


Mas a região sofre com a escassez de comida, fazendo com que seus habitantes começassem a morrer de fome.

Na busca por alimento, o Cágado irá se aventurar por outros lugares, mas o que ele irá encontrar mudara a vida da sua espécie para sempre.


Por que o sol e a lua vivem no céu

Neste conto o sol e a lua eram casados e viviam na Terra. O sol era um grande amigo da água e sempre a visitava, mas a água nunca retribuía as suas visitas, alegando que a sua casa era pequena para todo o seu povo.

Se você quer que eu o visite, construa uma grande aldeia. Terá que ser realmente imensa. Meu povo é numeroso e ocupamos muito espaço.

E assim o sol começou a construir uma aldeia realmente grande para receber a sua amiga  e toda a sua família, que ao término da obra, aceitou o seu convite.

O que o casal não imaginava era que a amiga era demasiada espaçosa.


O que eu achei de Contos Folclóricos Africanos

A leitura rápida em estilo de fábula serve tanto para conhecer histórias de outras culturas, ao mesmo tempo que foi possível observar como brasileira os contos do nosso país que revelam semelhanças com as trazidas pelos navios.

Também é interessante como as histórias possuem pontos em comum, como iniciarem com uma viúva e um bebê, onde a mulher precisa criar sozinha o filho e o menino ao crescer resolver seguir a profissão do pai para tirá-los da pobreza.

Outro ponto que me chamou a atenção é que ao mesmo tempo que temos muitas vezes famílias e tribos representadas por animais, é possível ver que nada mais são do que alegorias das famílias e sociedade humana, tornando tudo muito interessante.

Como eu gosto de contos, achei muito bacana tanto para relaxar quando para estudar. Ficando a dica, já que a sua distribuição é gratuita.


Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1
Elphinstone Dayrell, George Bateman, Robert Hamill Nassau
Tradução: Gabriel Naldi
SESC - mojo ong


sexta-feira, 9 de junho de 2023

Veríssimas



Sinopse: O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luís Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes – ou Veríssimas - em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Em minha saga para me adaptar a leituras no Kindle - por favor, não me julguem, ainda possuo um apego enorme ao que me permite folhar as páginas com os dedos - eis aqui a minha segunda resenha de um livro lido pelo simpático aparelho.

Como a sinopse já indica, Veríssimas é uma coletânea em um formato que lembra um dicionário, organizada pelo jornalista Marcelo Dunlop e cujas as ilustrações foram selecionadas pela Fernanda Veríssimo e pelo Fraga.

Abismo: Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar.


Logo de início temos uma espécie de resumo feito pelo Antônio Prata sobre o próprio Luís Fernando Veríssimo, lembrando-nos de sua paternidade em relação ao Analista de Bagé, sua torcida por um dos times gaúchos de futebol e claro aos livros que são referência nesta coletânea de frases, reflexões e sacadas sobre o cotidiano do passado e presente, com um toque de futuro.

Seguindo de um texto do próprio Marcelo Dunlop que se diz um dos dezessete leitores deste autor gaúcho, conta realizada pelo próprio escritor que parece ter um desvio de erro um pouco acima da margem. Da primeira tirinha lida em uma revista até a ideia de um livro que reunisse um pouco de tudo, como forma de homenagear o octogésimo aniversário do autor. 

Amanhã: Temos que confiar no amanhã. A não ser que descubram alguma coisa contra ele durante a noite.


Tornando Veríssimas além de uma homenagem, uma ótima justificativa para quem não gosta de colocar nada fora, já que Dunlop utilizou os recortes e livros que ele guardava para reler depois - e assim efetivamente fez a segunda leitura - além das que entraram de bônus após pesquisas em jornais, revistas e na própria Biblioteca Nacional.

E assim entramos no universo de Luís Fernando Veríssimo e de suas opiniões que vão de frutas, passando por atividades de lazer, Adão e Eva, sexo, geografia, história, amor... tudo com uma fina ironia que me arrancaram de pequenos sorrisos a gargalhadas.

Brasil: No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa.


Algumas definições seguem atualizadíssimas, como para Amigos, onde ele afirma que opiniões podem custar amizades, um retrato fiel do que viraram alguns grupos de amigos e familiares não só no Brasil nos últimos anos.

Ou sobre a corrupção no Brasil, cujas contas não fecham desde o tempo de Cabral começou a negociar com os índios.

Burrice: Deus nos livre da burrice alheia, que a nossa é pitoresca.


Há frases sobre a vida, como o fazer aniversário, arrependimentos e aposentadoria, onde este seria último seria um vagabundo sem culpa e com uma renda insuficiente.

Não posso deixar de citar o esporte mais popular em terras brasileiras, o Futebol aparece através da rivalidade com o país vizinho, posições no campo entre outros.


O que eu achei de Veríssimas


Eu gosto muito da escrita do Luís Fernando Veríssimo, era uma leitora frequente de suas crônicas no jornal e de seus livros, e gostei muito da coletânea feita, que me ajudaram a matar saudades do autor.

Pois ao mesmo tempo que ela nos conta um pouco da nossa história, ela nos diverte em uma leitura leve, que combina com aquele dia que você quer relaxar, ou para aliviar depois de uma ressaca literária.

Carpe Diem: Viva todos os dias como se fosse o seu último. Um dia você acerta.


Não é um livro que precise ser lido de cabo a rabo correndo, sendo muito fácil combina-lo com outras leituras. Eu gostava de ler de manhã, quando estavam todos dormindo e tinha preguiça de acender a luz. O que não deixa de ser uma forma de começar o dia com bom humor, embora algumas das palavras e frases que as acompanham me fizeram refletir como não temos evoluído em diversas questões.

Ficando assim a dica para quem curte comédia, livros leves e claro, o próprio Veríssimo.


Ver!ssimas
Luís Fernando Veríssimo
Editora Objetiva
2016 - 224 páginas


quinta-feira, 1 de junho de 2023

Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente



Sinopse: Mude-se para a cidade grande. Consiga um diploma. Não se apaixone. Evite os idealistas. Aprenda com um mestre. Trabalhe para si mesmo. Esteja preparado para fazer uso da violência. Faça amizade com um burocrata. Patrocine os artistas da guerra. Faça malabarismo com as dívidas. Concentre-se no essencial. Planeje uma estratégia de fuga. Qualquer semelhança deste livro com manuais de autoajuda não é mera coincidência.

No mês de Abril/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria mais uma indicação do escritor João Anzanello Carrascoza - que já havia sido o curador do ótimo A Velocidade da Luz -, que indicou um livro cuja ironia já começa no título: Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente do autor paquistanês Mohsin Hamid. O mimo foi um pacote de sal temperado da Black Flag que eu adorei, pois também curto muito cozinhar.

Em um lugar fictício, que poderia ser no Paquistão, na Índia, na África ou na América Latina, os personagens não possuem nome. É o pai, a mãe, o irmão da esposa, ou outro substantivo que substitui uma identificação formal.

Olha, um livro de autoajuda é um oximoro, a menos que você seja o autor dele.


É através do personagem principal e da nomeada menina bonita que o leitor acompanha décadas da vida dos dois. Do abandono do meio rural ainda na infância, a luta pela ascensão social durante a juventude e as oportunidades de sucesso que colocam em xeque qualquer ética na vida adulta, e uma grande história de amor que ultrapassa os anos seja próximo ou só na memória sem ser nunca esquecida ou reduzida.

Tudo acompanhado pelos conselhos com tom de autoajuda, que nada são que uma crítica a forma como ocorre o desenvolvimento em locais onde riqueza e miséria disputam espaço e recursos, onde os vencedores são conhecidos antes da queda de braço começar.


A escrita de Mohsin Hamid

Utilizando uma narrativa em segunda pessoa, o autor Mohsin Hamid transforma o leitor em seu personagem principal, usando uma linguagem que o coloca dentro da história, enquanto conta tudo o que “você” fez, viveu e viu em cada capítulo.

E é em uma zona rural você vai ver a sua avó paterna eternamente avaliando a sua mãe, assim como seus pais tendo momentos íntimos na única peça da casa. Vivenciará o êxodo rural como uma busca por uma melhor forma de se viver e encontrará na cidade o seu primeiro e grande amor, também irá ser o primeiro da sua família a conseguir ir para uma universidade e se sentira coagido por um determinado grupo. Até ter uma ideia e conseguir ir melhorando de vida nesta Ásia Emergente que nos é apresentada.

Na verdade, todos os livros, todo e qualquer livro já escrito poderia ser oferecido ao leitor como uma forma de autoajuda.


Dividido em doze capítulos cujos nomes já dão uma pista do que será abordado, o livro consegue costurar uma história de amor justamente com o crescimento das grandes cidades, onde a busca constante em fugir da miséria leva ao comodismo ou ao vale-tudo, conforme a personalidade de quem está no caminho e ao momento da vida.


O que eu achei de Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente

Como viver eternamente apaixonado pela mesma mulher na Ásia Emergente, este seria o título que eu daria, caso tivesse o poder de escolha. Pois na minha opinião este é o primeiro foco do livro: o grande amor que o personagem principal nutri pela menina bonita e ao qual é correspondido, mas vivido plenamente só em alguns momentos, entre as pausas que eles fazem na corrida por seus sonhos.

Triste? Capitalismo selvagem? Talvez sim, talvez não, mas como não dá para viver de amor, talvez esse seja o segredo de torna-lo tão forte e resistente ao tempo. Pois ao fugir da miséria, essa também não consegue corroer a relação.

Sim, a busca do amor e da riqueza têm muito em comum. Ambas têm o potencial de inspirar, motivar, entusiasmar e matar.


O segundo foco do livro é a sobrevivência em meio a pobreza. Sem usar nomes para seus personagens ou cidades, a busca constante por um crescimento financeiro poderia ser em qualquer país de terceiro mundo, incluindo o Brasil - apesar de hoje ser definido como em desenvolvimento. Pois não há uma presença forte da parte cultural ou religiosa que me tenha colocado dentro de um lugar específico.

Sobre a brincadeira com os livros de autoajuda, sou obrigada a confessar que não me ajudaram a engatar na leitura, apesar do romance não ter nem duzentas páginas. Com exceção dos capítulos iniciais e finais, ele não me conquistou. Me fazendo levar um tempo considerável para completar a leitura, já que raramente me animava a ler dois capítulos ou mais por dia.

O que vale para os livros de autoajuda vale também, inevitavelmente, para pessoas.


Isso significa que eu achei ruim? De forma alguma, achei a história de amor bonita e a forma como se tem uma visão completa da vida do personagem interessante. Mas em alguns momentos achei um pouco superficial, pois apesar do narrador falar diretamente comigo, eu não conseguia me integrar completamente na pele do personagem.

Mas no futuro penso em reler, pois muitas vezes mudamos a nossa visão com a passagem do tempo. Fora que a edição da TAG ficou belíssima, eu me apaixonei pelo kit no geral.

Muitas habilidades, como todo empreendedor de sucesso sabe, não têm como ser ensinadas na escola. Elas exigem prática. Às vezes, uma vida inteira de prática.


Ficando a dica para quem gosta de narrativas diferentes, curte um romance de formação, não resiste a histórias de amor, ou simplesmente quer ler. E se depois quiser compartilhar as suas impressões, quem sabe você tenha alguma observação que me faça mudar o olhar.


Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente
How to Get Filthy in Rising Asia
Mohsin Hamid
Tradução: Sonia Moreira
TAG - Companhia das Letras
2013 - 175 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

O Passeador de Livros



Sinopse: Uma fábula moderna e atemporal sobre o poder que a conexão entre pessoas e livros tem de transformar a realidade. Do alto de seus 72 anos, ainda é com bastante vigor e alegria que, todas as tardes, Carl Kollhoff sai para entregar os livros encomendados por seus clientes mais especiais. Tão fiel à tarefa quanto os ponteiros de um relógio, o livreiro da tradicional Ao Portão da Cidade percorre as pitorescas ruas da região e, como nas páginas de seus preciosos livros, observa o mundo real e seus habitantes também por uma ótica lúdica e imaginativa.

Foi em Setembro/2023, no mês em que completava quatro anos, que o Clube intrínsecos enviou a sua última caixinha. O livro escolhido para encerrar este projeto da editora intrínseca foi O Passeador de Livros do escritor alemão Carsten Henn. O mimo foi um outro livro da editora e a saudade que eu fiquei das belas edições.

Aos 71 anos Carl Kollhoff não se imagina longe do seu trabalho como vendedor de livros. Solteiro, possui a sua própria coleção em casa. Na livraria dá dica certeiras, treina funcionários e faz um serviço de entrega domiciliar para clientes que não desejam, por diferentes motivos, sair de casa.

Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho.


Vivendo entre a ficção e a realidade, ele faz uma correlação entre as pessoas que encontra e personagens literários. Então ele faz suas entregas para o sr. Fitzwilliam Darcy e a Sra. Píppi Meialonga, compra suas maças da Rainha da Branca de Neve, aceita o chá do Hércules, e assim por diante. Se perguntarem os nomes reais, ele precisa de um tempinho para ligar os personagens as pessoas.

Mas sua vida começa a mudar com a internação do seu chefe, que é substituído por sua filha, uma mulher que tem ciúmes de Carl, e o aparecimento de Schascha, uma menina esperta, órfã de mãe, que lhe dá o apelido de Passeador de livros.


A escrita de Carsten Henn

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, o escritor alemão Carsten Henn conta com muita delicadeza a relação de amor de um leitor e seus livros através da figura de Carl.

Com inúmeras referências literárias, O Passeador de Livros aborda também a questão do envelhecimento, da perda, do uso da literatura para fugir da solidão ou do próprio mundo, de relacionamentos abusivos, de mágoa e de como pequenos atos podem mudar tudo na vida de uma pessoa.

Sou como os ponteiros de um relógio. Parece triste, pois eles sempre percorrem o mesmo caminho e sempre retornam ao ponto de partida.


Pois como uma boa fábula, a jornada do herói Carl e de sua assistente Schascha narrada pelo autor Carsten Henn possui os seus obstáculos, mudanças de rumo, segredos e momentos a serem comemorados. O que faz com que a sua escrita seja leve ao mesmo tempo que instiga o leitor a saber mais sobre os personagens.


O que eu achei de O Passeador de Livros

O Passeador de Livros é o tipo de história que defino como bonitinho, sendo uma mistura de fábula e homenagem a literatura, tornando-o um bom candidato para aquela leitura tranquila de férias.

Com inúmeras referências literárias, que vão do nome dos capítulos, os apelidos dados aos moradores da cidade e os autores citados, é quase impossível não sair com um acréscimo na lista de leituras futuras com as indicações listadas.

Leio para o meu prazer egoísta, por amor às boas histórias, e não para compreender o mundo.


Sobre a história em si, achei triste a dependência do trabalho que Carl tem para dar sentido a sua vida. Assim como eu achei que a relação do Passeador com a filha do melhor amigo - e agora chefe - poderia ser melhor trabalhada. Pois ela claramente não o suporta. É só ciúmes e inveja? Ou existe algo mais?

Também achei que em alguns momentos o livro era um pouco arrastado, mas em compensação ele também é muito sensível, o que conquistou o meu coração, principalmente a Schascha, que me dava vontade de abraçar.

Não estava no clima para uma acompanhante lhe fazendo todo tipo de perguntas erradas - ou, pior ainda, de perguntas certas.


E naturalmente tudo ficou mais sensível por ser a caixa de despedida, pois ao finalizar a leitura, me vi despedindo deste clube de edições caprichadas, que me apresentaram livros que talvez eu não desse atenção ou nem visse ao rolar a página de um site ou em uma livraria. 

Ficando a dica para quem gosta de histórias leves e sensíveis que podem aquecer o seu coração.


O Passeador de Livros
Der Buchspazierer
Carsten Henn
Tradução: Kristina Michahelles
intrínseca
2020 - 208 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro/2022 - era pago integralmente pela autora. 

terça-feira, 16 de maio de 2023

Coisas Humanas



Sinopse: Os Farel são um casal poderoso. Jean, aos setenta anos, é um famoso jornalista político francês; sua ex-esposa, Claire, é conhecida por seus ensaios e compromissos feministas. Juntos, eles construíram uma reputação e tiveram um filho, Alexandre, estudante de Stanford, prestigiosa universidade americana. Claire está feliz em um novo relacionamento com Adam, um homem simples, professor de uma escola judaica e pai de Mila, uma garota tímida, que orienta a vida sob preceitos religiosos. Tudo muda na noite em que Alexandre e Mila vão juntos a uma festa. Uma acusação de estupro vai abalar a construção social perfeita da família Farel, ao mesmo tempo em que o drama irrompe com múltiplas e extremas implicações midiáticas e jurídicas no auge absoluto do debate #metoo.

No mês de Março/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Tatiana Salem Levy: Coisas humanas o décimo primeiro romance da escritora francesa Karine Tuil. O mimo foi um objeto de decoração.

Jean Farel é um famoso apresentador de TV, de origem pobre e marcado pela tragédia, que se tornou um homem obcecado pela juventude – a ponto de negar a si mesmo viver com a mulher que realmente diz amar - e orgulhoso de seu próprio poder no meio político francês. Mas apesar de todo o seu prestígio, sente o perigo bater à porta com o novo diretor da emissora que está há tantos anos.

Sua ex-esposa Claire é vinte sete anos mais jovem. A acadêmica feminista que foi estagiária de Bill Clinton se vê em meio a ataques após acusar os imigrantes em um artigo sobre os ataques em massa em Colônia, ao mesmo tempo que se vê retornar as sombras ao abandonar o marido em troca de uma nova paixão.

A extrema deflagração, a combustão definitiva, era o sexo, nada mais - fim da mistificação.


Sua nova paixão é o professor judeu Adam, pais de duas filhas, rompe com as tradições para viver um grande amor. O que faz com que a mãe, ainda traumatizada do atentado a escola judaica em Toulouse, se volte ainda mais para a religião, provocando um rompimento com a filha Mila, que busca no pai uma alternativa.

E nesta busca que os caminhos de Mila acabam cruzando com o do herdeiro dos Farel. Alexandre é o garoto de ouro com ótimas notas, estudante de Stanford, parece destinado ao sucesso, embora a pressão já o tenha levado a tentar suicídio. Mas mesmo um típico modelo da elite parisiense pode se colocar em uma situação perigosa ao misturar drogas e bebida alcóolica, combinação que não apenas colocara a vida de todos os envolvidos de cabeça para baixo, como os transformará em personagens de um espetáculo midiático.


A escrita de Karine Tuil

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a autora Karine Tuil divide o seu Coisas Humanas em três partes nomeadas de Difração, O território da violência e Relações humanas. Tendo como base não só a elite parisiense, como diversos ataques sexuais que se tornaram famosos, os movimentos que se levantaram contra eles, como também a relação com os imigrantes e os ataques terroristas que assombram os franceses até os dias de hoje.

Mas acima de tudo, e esse é a grande sacada do livro, ela torna o leitor parte de um júri de acusação de estupro.

A política e o jornalismo tinham constituído os propulsores de sua existência: vindo do nada, sem diploma, sem contatos, ele escalou todos os degraus;


Após uma breve apresentação dos personagens envolvidos, que terão a sua história complementada no decorrer da narrativa, somos colocados no grande tabuleiro que um tribunal se transforma ao colocar réu e vítima frente a frente, confrontando as suas versões.

E isso torna a leitura ao mesmo tempo densa e instigante, pois está tudo lá, a desmoralização da vítima, a inversão dos papeis, as diferenças sociais e a violência em suas diferentes formas. Tudo descrito de uma maneira a provocar dúvidas em quem está lendo, como ocorre em um júri real.

No meio judeu conservador, o casamento permanecia um ato supremo, valorizado e sacralizado.


Em paralelo a isso ela aborda as diferentes faces dos personagens que são atingidos não apenas em seu âmbito pessoal, como também na necessidade de gerenciar isso nas diferentes mídias. Ampliando a narrativa para um olhar tanto sobre a sociedade moderna como o papel da mulher ao trazer diferentes gerações sejam em confronto sejam a sombra de homens poderosos.

Tudo isso tendo fatos reais misturados a ficção, cujo até o tema central foi inspirado em um caso verídico. Tornando assim a leitura ainda mais próxima da realidade.


O que eu achei de Coisas Humanas

Vou iniciar com o que eu não gostei: a falta de revisão, revelada em capítulos seguidos com palavras repetidas ou sem separação, erros que gritavam na virada das páginas em uma edição que não merecia essa falta de cuidado. 

Em relação a narrativa eu gostei muito da história e dos conflitos apresentados. Sendo um retrato atual da época que vivemos de cancelamentos, desafios dos imigrantes, ataques terroristas, machismo e claro, a questão do estupro.

Sempre tivera relações particulares com seus pais, uma mistura de sincera afeição e desconfiança.


Os personagens são bem elaborados, compondo em suas escolhas, erros, diálogos todo o sentindo do título dado. Confesso ter sentido um pouco de falta do lado da vítima, mas creio que a ideia era justamente essa, o silenciamento indica a diferença de classes, onde os mais simples são invisíveis. Eles não têm voz, seu sofrimento não possui o mesmo tamanho dos das grandes castas, mesmo quando eles são as vítimas.

Motivo pelo qual achei genial a ideia de colocar o leitor como um jurado nesta história, fazendo com quem se entrega a leitura refletir sobre os seus próprios conceitos. Diante do desconhecido, qual é a sua base pessoal para definir o que é verdade? O que o outro precisa ser, ter vivido e como deve ter se comportado para que você acredite na versão dele?

Seus argumentos seriam deformados, truncados, mal interpretados, ela receava o impacto que teriam sobre a opinião pública.


Pois ao autorizar o leitor a julgar, inevitavelmente os detalhes saltam mais aos olhos, lhe é permitido julgar sem se esconder cada um dos personagens, podendo revelar mais dos próprios conceitos do que dos próprios julgados.

De bônus deixo para quem procura por livros com temas semelhantes, a personagem Claire me fez lembrar da mãe de um dos personagens de Eu não sei quem você é, que também aborda estupro e feminismo, mas por outro olhar.

Ele a apagou, contudo, o mal já estava feito, a captura de imagens na tela circulava na internet.


Ficando a recomendação de leitura para quem gosta de temas contemporâneos, de história de tribunal e claro, para quem simplesmente gosta de ler.


Coisas Humanas
Les choses humaines
Karine Tuil
Tradução: Mauro Pinheiro
TAG - Paris de Histórias
2022 - 319 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Quem finaliza a leitura sabe que apesar do veredito de acusado, não existe uma frase que afirme com todas as letras que Alexandre estuprou Mila. Há apenas as provas que cada um apresenta, assim como as acusações verbais e exposição do passado de Mila.

Confesso que se eu não tivesse acesso ao antes de tudo e aos detalhes nos pós através do próprio Alexandre, eu poderia ficar em dúvida sobre que decisão tomar. Pois sim, ele é apresentado como um bom rapaz com ótimas notas nos estudos, com o depoimento da ex-namorada, amigos, com os seus traumas e pressões vindo da relação dos pais.

Nascíamos, morríamos; entre os dois, com um pouco de sorte, amávamos, éramos amados, isso não durava muito, cedo ou tarde acabávamos sendo substituídos.


E temos Mila, uma jovem que não queria seguir as regras da religião da mãe, que nesta situação teoricamente estaria livre, que viu o pai ir embora para viver um amor enquanto a mãe se fechava mais. Sendo necessário que se observe seu estado físico e psicológico para analisar que aquilo não é uma armação.

Por isso achei a situação do tribunal bastante complexa e fiquei imaginando as situações da vida real, quando você não se depara com um antes e depois, o quão grande é o risco de se cometer um erro quando as interrogações são lançadas, o quanto se precisa de calma, atenção e se despir de qualquer preconceito prévio para não julgar equivocadamente.

Em dois anos, tudo o que tinha construído se desintegrara sem que ela pudesse fazer qualquer coisa a fim de interromper o processo devastador.


No livro eu acredito que Alex é culpado, logo após o episódio identifiquei um breve momento de culpa e remorso, ao qual ele logo joga para o lado enquanto antecipa a sua saída do país usando os pais como justificativa. Assim como as ações dos amigos indicam que não deve ter sido a primeira vez.

E isso é uma das coisas que faz o livro ser bom de ser discutido, porque a leitura é individual, e cada um pode finalizar com outra percepção. Então se você leu e passou por aqui, me diga, qual o seu veredito em relação ao Alex? Inocente ou culpado? Me conte as suas alegações, adoro ter novas visões neste tipo de narrativa.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Longe das Aldeias



Sinopse: Um jovem de dezessete anos, diante da doença da mãe, decide desfazer um passado de mentira e de ilusão a respeito da identidade do pai. As memórias, trazidas pela tia, percorrem os horrores da guerra, a fuga da aldeia e do país, a reconstrução da família em solo brasileiro. Frizero concentra a carga dramática da história no que ela tem de mais importante, que é a complexidade do ser humano, capaz de matar para criar, de mentir para salvar e de perdoar para seguir em frente.

Uma mãe que não se encontra mais no tempo presente leva o filho jovem ao passado junto com os seus delírios. Usando a língua da sua terra, o rapaz acredita ouvir o nome do pai desconhecido antes de ela retornar ao seu sono febril. Fazendo-o recordar de todas as suas incertezas.

Pois o passado de sua pequena família é feito pela sua própria imaginação. É na sua mente que ele deseja a pátria e a gente de sua mãe e sua tia com base nas únicas três fotografias que sobraram de uma fuga apressada durante uma guerra. Em paralelo ele pensa na utilidade de ter uma figura masculina, seja através de irmãos ou do pai desconhecido. Pois assim teria ajuda para manter a mãe em segurança durante as suas crises.

Fiquei mareado por ela o resto da noite, com o nome do meu pai transtornado a minha vigília. Recordar sempre me deixa a boca amarga e o coração oco.


Mas quase duas décadas depois dos acontecimentos cabe a Tia Mirna, a responsável pelo trio que aqui se refugia revelar e complementar as peças faltantes desta história.


A escrita de Robertson Frizero

O autor brasileiro Robertson Frizero escolheu a voz de Emanuel para compartilhar com o leitor em uma narrativa em primeira pessoa as descobertas que faz não somente sobre os eventos envolvendo a sua família, como da sua própria origem em uma história de memórias que o preparam para um futuro ainda desconhecido.

Acompanhado pela tia Mirna, sua mãe Marija e seu amor adolescente Madalena, é sem rebeldia ou explosões, mas com doçura e sensibilidade que o vemos trazer memórias da própria infância e varrer pouco a pouco cada mentira que ajudou as duas irmãs a sobreviverem uma guerra, para se defrontar com a verdade nua e crua, que nenhuma criança estaria preparada para encarar.

Pouco conheço do que quero relatar. Sei apenas o que ouvi dos lábios de mamãe, pedaços de história colhidos nos poucos momentos de ternura da minha infância.


Com capítulos curtos, Frizero consegue unir uma escrita objetiva e forte com gentileza e carinho. O que gera um equilíbrio entre a dor e a tristeza com o perdão e a esperança de viver outro dia, pois já que estamos aqui, vamos sonhar e criar planos. 

Pois mais do que tudo Longe das Aldeias fala de sobreviver as tragédias de uma guerra, administrar suas perdas e efeitos colaterais, e no caso de Mirna e Marija de perder todos os seus pontos de referência. O que torna o feito das duas ainda mais impressionante.


O que eu achei de Longe das Aldeias

Eu ganhei este livro quando assinava as duas modalidades da TAG em um final de ano. E a minha primeira surpresa foi ver o nome de um antigo professor de inglês na capa. A segunda surpresa foi o próprio livro, o primeiro romance de Frizero encanta por seus personagens e escrita.

Pois quando a história começa não há nada indicando o caminho. Temos uma mãe, Marija, doente e vivendo entre lembranças do passado e o esquecimento do presente, uma pequena família de imigrantes onde duas mulheres fugiram de uma guerra de um local desconhecido. e um rapaz que só conhece o restante de seus familiares através das histórias da tia Mirna.

Chegamos a esta terra nova, mas vivemos em um casebre obscuro, ainda no vilarejo antigo dos meus avós.


Mas conforme a tia Mirna resolve aos poucos tirar o véu que esconde o trajeto das irmãs até ali, tanto Emanoel quando eu fomos aprisionados em uma história de muita dor e sobrevivência. Aqui foi a fantasia e a ilusão que mantiveram Marija viva e capaz de criar um menino gerado em meio ao caos da guerra, já que a história real é insuportável de encarar.

E é essa menina que acaba envelhecendo muito mais do que os dezoito anos corridos no período da narrativa que nos faz pensar sobre o porquê devemos lutar sempre pela paz. Pois na guerra não existem vítimas maiores que os inocentes, onde mulheres, crianças e os mais velhos são subjugados pelos métodos mais desnecessários.

Faltava-me a caverna escura para me esconder, por sete dias e sete noites, das memórias reveladas pela febre intermitente de minha mãe.


Por isso a minha recomendação deste livro que é rápido de leitura, mas muito intenso em suas reflexões. Confesso que gostaria de escrever muito mais coisas, mas não quero estragar as descobertas de quem o abrir, pois o risco de spoiler é grande, então só digo: leiam. 


Longe das Aldeias
Robertson Frizero
Dublinense
2015 - 96 páginas