terça-feira, 25 de agosto de 2026

O voo da guará vermelha



Sinopse: Rosálio, pedreiro e analfabeto, atravessa o país em busca de alguém que o ajude a ler e escrever. Irene, prostituta e soropositiva, conhece as letras precariamente, mas o bastante para ensiná-las. Do encontro desses dois personagens nascem as histórias que Rosálio não cansa de contar, e que Irene esperou tanto tempo para ouvir. O encanto da fala de Rosálio torna mais amena a luta de Irene contra a doença e transforma em realidade o desejo do pedreiro de ganhar a vida como contador de histórias. Com delicadeza e inteligência, Maria Valéria Rezende narra a trajetória desses dois personagens que, marcados por um passado difícil, descobrem o amor, a cumplicidade e a possibilidade de horizontes mais amplos.

No mês de maio/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do editor do Círculo do Livro Fernando Nunes o livro O Voo da guará vermelha da escritora brasileira Maria Valéria Rezende. O mimo foi um maravilhoso alfajor da Odara.

Rosálio foi criado em uma pequena comunidade e era chamado de ninguém, até sair pelo mundo e escolher o seu próprio nome inspirado em uma professora que admirava de longe. Em sua busca constante para deixar de ser analfabeto, ele carrega livros que deseja ler e acumula histórias.

Andando de cidade em cidade um dia é confundido como um possível cliente por uma cansada Irene, mulher que sabe ler e escrever e tem como profissão uma das mais antigas do mundo. Em estágio avançado pela AIDS, sua confusão é facilmente explicada pela baixa constante na procura por seus serviços, já que a doença suga cada dia mais a sua aparência, tornando-a pouco atraente aos olhos dos homens que frequentam o local.

Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula sem cabeça?


O encontro dos dois transforma Rosálio em uma espécie de Xerazade, onde ele retorna ao quarto de Irene sempre que o trabalho permite para contar o que viu e viveu ao longo dos anos. E ela transcreve para um caderno cada uma das histórias contadas, tornando-as fontes de aprendizado para o homem que as conta e de motivação para viver um dia a mais para a mulher antes tão desesperançosa.

Convidando a todos que o ouvem e os que leem a narrativa a ficar mais um pouco para saber qual será a próxima história.


A escrita de Maria Valéria Rezende

A educadora e freira paulistana Maria Valéria Resende estreou como escritora após os 60 anos e já ganhou prêmios como o Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas. Sendo também uma das criadoras do Mulherio das Letras, um coletivo feminista.

Sua escrita reflete muito de sua vivência em meio as comunidades no Nordeste, direta, leve e fluída, lembrando a forma oral de se contar histórias. Também costuma utilizar personagens de perfil simples, descrevendo suas lutas e criticando a desigualdade.

Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela, estou tão magra!, é da doença...


Em O voo da guara vermelha irá se encontrar estes elementos em uma estrutura semelhante a encontrada na literatura de cordel, com suas frases longas e uma cadência que lembra as poesias populares. E seus heróis são um analfabeto que sonha ler e contas suas histórias pelo mundo e uma prostituta que vive um dia de cada vez.

E como heróis são feitos de transformação, resistência e resiliência, é a comparação feita por Rosálio de uma ave que nasce cinzenta e vai se tornando vermelha com Irene em seu vestido vermelho que dá nome ao livro.


O que eu achei do Voo da guará vermelha

Logo no início da leitura a primeira coisa que me veio à cabeça foi o livro mil e uma noites. Mas diferente de Xerazade, a maioria das histórias tinham início, meio e fim no mesmo capítulo. Dando a impressão que poderia facilmente ser um livro de contos, se tirasse o casal base.

E como o foco são as histórias de Rosálio, eu achei que a vida de Irene ficou com algumas pontas soltas. Sim, eu sei que nem toda a narrativa precisa ter tudo explicadinho. Mas visto que ela introduziu o nome do livro que serviu de inspiração entre os que o personagem carregava, acredito que falar mais sobre a criança (filho?) de Irene poderia ter complementado a vida da mesma, que é colocada de uma forma mais superficial.

Conta, homem, conta mais, é cedo para ir-se embora, nem o dia clareou, enquanto durar a noite conta, conta para eu sonhar.


Aliás, ouso dizer que o verdadeiro personagem principal aqui é a educação. O saber ler e escrever como forma de ser visto, não ser enganado, conseguir fazer escolhas em plena consciência. É a educação que une uma alma quebrada a uma alma que parece sempre esperançosa. Livros são tesouros e memórias podem ser eternizadas no papel.

Em relação aos contos de Rosálio, há as mais diversas situações que podem lembrar as fofocas de qualquer cidade pequena ou de condomínios que igualam os números do interior pela quantidade de moradores. Inicialmente ele conta a própria história e da pequena comunidade que morava, depois, surgem as histórias das suas andanças. Há os homens que enganam os outros para torna-los escravos, a febre do ouro no garimpo, o marido traído e eternamente apaixonado que aceita as idas e vindas da esposa, a vivência em uma terra onde a bala corria solta, entre outras.

Nasci sem nome, como a serra que me aguardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse.


O livro no geral é curto, fácil de ler, e a história é bonitinha e sensível, e apesar de conter pautas dolorosas, incrivelmente leve. Eu gostei, mas não amei. Passados dois meses da leitura (sim, estou com as resenhas bem atrasadas) a narrativa já não ecoa fortemente na minha mente, talvez por que no meu gosto como leitora, os personagens principais, aqui mais a Irene, precisariam ser mais trabalhados para ganharem o meu coração.

Mas, como no nosso encontro mensal para discutir os livros da TAG o livro ganhou o coração da grande maioria, fica a recomendação para você "ouvir" as histórias de Rosálio e quem sabe se emocionar com todas elas.


O voo da guará vermelha
Maria Valéria Rezende
TAG - Alfaguara
2026 - 165 páginas
Publicado originalmente em 2005


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