terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Eu sou um gato



Sinpse: Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar.

Publicado em forma de série em uma revista, os onze capítulos desta obra narram toda a inteligência, consciência, comportamento humano e intelectualidade do início do século XX em terras japonesas (embora sirva perfeitamente para os nossos dias atuais) na visão de um gato sem humildade nenhuma, cujo amo é definido pela sua imbecilidade.

Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. 

Logo na nota dos editores podemos observar a primeira curiosidade do livro, o nome do autor é um pseudônimo, seu sobrenome, Soseki, em chinês significa incômodo/estorvo. O que parece descrever o seu sentimento por vários dos personagens da história, e talvez como ele mesmo se sentisse, já que a sua vida não pode ser categorizada como fácil.

Como escrevi no primeiro parágrafo, quem conta esta história de forma irônica, debochada e às vezes um tanto preguiçosa é um gato. Um gato sem nome. Um gato abandonado que ainda filhotinho achou uma casa e o seu amo. No local às vezes é pisado, às vezes vira saco de pancada, e assim ele acabou sendo apenas um bicho que por ali ficou, circulando entre as casas da vizinhança, ampliando a narrativa para além da área central.

Minha inteligência é indubitavelmente superior à dele, estou certo disso, mas não me comparo a ele quando se trata de força física e coragem.

O seu amo é o professor Kushami, casado com uma mulher sem estudos e submissa, com filhas pequenas e uma empregada. Além deles, amigos e ex-alunos frequentam a casa, onde há discussões que vão da literatura, passando por fatos históricos, até conversas simples do cotidiano. Um dos mais divertidos é Meitei, com uma mente mirabolante, suas histórias misturam realidade e fantasia de uma forma um tanto engraçada. 

Um dos eventos principais da história está na chegada da família Kaneda e um suposto interesse de Kangestu – um ex-aluno de Kushami e um doutorando que passa polindo bolas de vidro – em se casar com a filha do empresário. Como o comportamento da Sra. Kaneda não é exatamente simpático ao questionar Kushami sobre o pretendente, somado ao desprezo que o professor sente por homens de negócio como o marido da mulher em questão, logo o nariz da senhora vira o assunto principal das conversas, estas escutadas por vizinhos que levam as fofocas quentinhas aos interessados, que insultados acabam provocando situações ainda mais ridículas na história.

Em um mundo onde há humanos que se vangloriam de terem sido cobiçados por alguém que era apenas estrábico, semelhante engano não é nada de se espantar, e eu continuei a receber calmamente suas carícias. 

O livro é cheio de observações de rodapé, sejam para listar autores ou fatos históricos aos quais os pseudo-intelectuais estão discutindo. E o engraçado de tudo, é que em muitos momentos o professor Kushami me passa o sentimento de ser o alter ego de Soseki, pelas semelhanças físicas assinaladas nas mesmas notas.

E mesmo sendo uma crítica à sociedade japonesa da época, muita das frases são mais atuais do que nunca, como uma parte que me chamou especialmente a atenção e assim diz: “Só pensamos em nós mesmos, ao irmos dormir, aos nos levantarmos, em todas as ocasiões reverenciamos nosso eu. Por isso, as ações e palavras se tornaram artificiais, impacientes e asfixiantes.” . Confesso que fiquei tentando imaginar o que Soseki escreveria se estivesse vivendo os dias de hoje.

Um livro para ler com calma e como um gato se aconchegar em um lugar macio para se perder em reflexões.


Eu sou um gato
Wagahai wa neko de aru
Natsume Soseki
Tradução Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade
1905 – 486 páginas

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Coração é um caçador solitário



Sinopse: Sul dos Estados Unidos, 1939. A par de seus problemas particulares e intransferíveis, o dono de bar Biff Brannon, o mudo John Singer, a adolescente Mick, o médico negro Benedict Copeland e o agitador marxista Jake Blount vivem o flagelo comum da solidão e da incomunicabilidade. Nesta narrativa vívida e pungente, Carson McCullers revela os desejos mais secretos de cada um, equilibrando com maestria o retrato social e a investigação psicológica.

O título poético pertence a Carson McCullers, uma das escritoras mais influentes do século 20, e foi lançado quando a americana possuía apenas 23 anos de idade. Indicado pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, O Coração é um Caçador Solitário foi o livro de dezembro/2018 da TAG Curadoria.

A história ocorre no final dos anos 30 e seus personagens ainda vivem com as consequências da grande depressão.  No centro temos John Singer, um homem surdo que vê o seu companheiro ser levado e internado em uma clínica. Perdido, ele aluga um quarto na casa de uma família, e a partir deste ponto outros quatro personagens passam a considerado o seu melhor confidente.

Os dois mudos não tinham outros amigos e, a não ser quando estavam trabalhando, ficavam o tempo todo a sós.

Benedict Copeland é um homem culto, médico formado, e importante na sua comunidade. E ele também é negro. Seu sonho é ver o seu povo crescer, mas a frustação o corrói por não ter conseguido educar nem mesmo os seus quatro filhos. Considera John um homem de confiança, a quem ousa falar o que jamais compartilhara com outra pessoa branca. É Portia, sua filha, que muitas vezes o situa dentro da realidade da sua família, buscando com a sua simplicidade um equilíbrio entre ideias divergentes.

Já Jake Blount é um homem que anda de cidade em cidade tentando convencer operários de suas ideais marxistas, mas tem mais sucesso em virar copos e copos. Torna John o “ouvinte” de seus pensamentos mais profundos, atrapalhando vários jantares do próprio Singer que não conseguia comer por tentar ler os lábios do homem. 

Porque alguns homens têm essa coisa neles de abrir mão de tudo o que têm de pessoal num determinado momento, antes que tudo fermente e os envenene - de entregar tudo a algum ser humano ou alguma ideia humana.

Inicialmente menina, ao final jovem mulher, Mick é considerada por alguns o alter ego da autora. Fisicamente se apresenta com estilo andrógino, possuí um mundo interno e externo. Em sua mente a música está sempre lhe sussurrando, de forma sedutoramente hipnotizadora. Cheia de irmãos, com uma família muito pobre, a busca por um rádio a consola, e depois o próprio John, a quem ela faz perguntas para que ele a ajude a encontrar a solução dos seus problemas.

E o mais dúbio dos personagens, Brannon, o cara do restaurante que vê todos passarem, desviarem, para ir e voltar. Ele também busca John, não da mesma forma que os outros personagens, ele apenas tenta entender, a si e aos outros.

Uma vez, ele tinha tentado contar quantos eram e descobriu que havia mais de uma dúzia de crianças batizadas em sua homenagem.

Mas ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de uma linda história de amizade. E sim de uma forma analógica do que hoje ocorre nas redes sociais: a falta de comunicação. Ao buscar um homem surdo e mudo para contar suas ideias, histórias de vida e até mesmo pedir sua opinião, o silêncio do outro lado é como uma benção as suas palavras.

Conversar com John é não ter suas ideias contrariadas, não ser interrogado de seu comportamento nem sempre correto, da sua fraqueza, da razão de falar tanto e fazer tão pouco.

Agora estava se sentindo bem. De repente, sussurrou algumas palavras ao vento: "Perdoai-me, senhor, pois eu não sei o que faço."

E embora a história do livro seja muito rica em possibilidades, eu não fui encantada por ela. Não sei se já estou cansada de ver nas redes sociais tantas pessoas em busca de surdos que lhe deem likes em ideias absurdas, das brigas que beiram a comédia por não entenderem o que leram ou ouviram. O fato é que acabei identificando nos personagens principais a mesma superficialidade de hoje, a mesma bolha, a mesma incapacidade de mudar.

E contraditoriamente recomendo a leitura, mesmo tendo literaturado suas páginas cheias de descrições sonolentas, os acontecimentos previsíveis, e a pobreza de espírito dos que passam pelas páginas. Simplesmente por ela ser um retrato atual demais da natureza humana.

O Coração é Um Caçador Solitário
The Heart is a Lonely Hunter
Carson McCullers
Tradução Sonia Moreira
TAG – Companhia das Letras
1940 – 391 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A Bolsa Amarela



Sinopse: A Bolsa Amarela é o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela) - a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação - por si mesma uma constatação à estrutura familiar tradicional em cujo meio "criança não tem vontade" - essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias. Ao mesmo tempo que se sucedem episódios reais e fantásticos, uma aventura espiritual se processa e a menina segue rumo à sua afirmação como pessoa.

Raquel é a caçula de uma família aparentemente classe média, uma menina meio criança meio pré-adolescente que tenta esconder suas três vontades que não param de crescer: de ser grande, de ser um garoto e de se tornar uma escritora.

Estas vontades são alimentadas pelo cotidiano, pela solidão de quem não tem com quem conversar e ouve de quem está na frente da televisão sobre não haver tempo para interagir com ela. Se adaptada aos tempos modernos, seria o smartphone nosso de cada dia.

Vocês podem um monte de coisa que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. 

E é justamente nas primeiras páginas que o leitor, independente do tamanho, irá se dar conta que está entrando em um mundo parte real, parte imaginário. Das cartas que ela escreve para seus amigos inventados (e responde em nome deles), até o surgimento da bolsa amarela usada, enviada por uma tia com mais posses, que ninguém mais da sua casa queria. 

Aliás, a grande bolsa acaba se tornando uma companheira inseparável da menina, cujo fecho muito sabido emperra nos momentos que a menina mais precisa, tornando-a praticamente um cofre para esconder aquilo que a família não deve ver.

Vi aparecer uma bolsa; todo mundo pegou, examinou, achou feia e deixou pra lá.

Nas cartas estão perguntas sobre o que ela ouve e não entende, como qual o motivo de uma mãe ter mais um filho se ela não queria mais? Sobre o fato da irmã que deveria cuida-la enquanto os demais trabalham e estudam, mas de além não deixa-la fazer nada - nem mesmo trazer amigos em casa – a deixa trancada sozinha em um apartamento no sexto andar.

Sobre as vontades, todas possuem algum motivo relacionado ao ambiente familiar. A vontade de crescer é para não entrar em conflito com a família e poder tomar as próprias decisões.  Raquel quer ser menino por ter uma criação em que o sexo masculino ser mais incentivado, ter liberdade de brincar de coisas que não são de meninas e, o mais importante, ganham o poder de decisão. E ser escritora por simplesmente gostar de inventar coisas.

Eu ia respondendo e pensando: será que eles acham que falando comigo do mesmo jeito que eles falam um com o outro eu não vou entender?

E de forma simples a menina irá aprender com os próprios conflitos, a dizer suas opiniões e compreender as próprias vontades, que tornam a bolsa amarela leve ou pesada conforme o momento que ela vive e os paradigmas que ela resolve enfrentar.

Considerado literatura infanto-juvenil é um livro que agrada e encanta leitores de todas as idades. Se para o público pré-adolescente a história mostra que não se está sozinho na confusão de sentimentos e frustrações, para os adultos pode trazer lembranças e antigas vontades que ainda pesam em algum lugar, mas que estamos tão acostumados em carregar que nem lembramos mais.

Mas aconteceu uma coisa esquisita: eu não podia parar de falar.

A narrativa em primeira pessoa nos deixa mais próximos da personagem Raquel, sendo fácil pensar por alguns momentos que Afonso, a Guarda-Chuva e o Alfinete são reais. E talvez sejam se deixarmos de lado toda a lógica para se entregar a emoção.

O livro é bonitinho, filosófico, sendo muito fácil e rápido de ler. Lygia Bojunga lançou este livro originalmente em 1976 com fortes influências de outro grande autor infanto-juvenil: Monteiro Lobato. A Bolsa Amarela agradou tanto que acabou se tornando um clássico deste nicho literário, e tirando a questão da figura masculina, ele segue mais atual do que nunca.

A Bolsa Amarela
Lygia Bojunga
Ilustrações Marie Louise Nery
Casa Lygia Bojunga
1976 – 135 páginas

sábado, 29 de dezembro de 2018

Hoje eu venci o câncer



Sinopse: O jornalista, romancista e cronista David Coimbra se dedica aqui a provar que o otimismo e a vontade de viver podem ser uma prescrição eficiente no conjunto de medicamentos com que se enfrenta uma doença grave. Em primeiro lugar, não se deve nunca abdicar do direito de (con)viver com seus afetos e se dedicar aos bons amigos e à família; depois, é valorizar o dia a dia naquilo que ele tem de mais trivial, seja um nascer do sol ao lado do filho ou a singela aquarela de um poente tímido. Você pode estar em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em Dubai ou em Massachusetts, não importa. O essencial é viver o presente da melhor maneira possível, um dia após o outro, comemorando cada vitória.

“Câncer é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos.

Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo.

Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Quando começam em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, são denominados carcinomas. Se o ponto de partida são os tecidos conjuntivos, como osso, músculo ou cartilagem, são chamados sarcomas.

Outras características que diferenciam os diversos tipos de câncer entre si são a velocidade de multiplicação das células e a capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes, conhecida como metástase.” Fonte: Inca 

Também conhecida como doença ruim, termo com o qual a própria avó do David chamava, o seu diagnóstico leva qualquer pessoa a nocaute. Durante muitos anos foi sinônimo de sentença de morte. Sua origem pode ser genética, pode ser por hábito, alteração do ambiente, local de trabalho ou apenas uma ironia do destino.

Quando descobri que ia morrer, decidi escrever esse livro.

O escritor e colunista David Coimbra conta a sua história em um livro rápido e envolvente, mas ao contrário do que o título possa induzir, não é sobre morte, mas sobre vida. Para quem o acompanha aqui no Sul do Brasil sabe que ele se mudou para Boston para ser cobaia em um tratamento que o faz vencer a cada dia esta doença tão temida. Mas ao contrário do que se possa imaginar, não é um livro que deixara o leitor depressivo, mas sim, reflexivo.

Originalmente o livro foi iniciado para o filho de David, Bernardo, na época com 5 anos, para que ele tivesse recordações do pai, visto que o câncer do escritor estava em um estágio bastante agressivo. O mesmo foi adaptado conforme os meses se transformaram em anos, e o que lemos é vida, família, amizade e lealdade.

Você não é necessariamente culpado pelas coisas ruins que lhe acontecem, nem necessariamente merecedor das boas.

O livro é uma mistura de várias etapas da sua vida e colunas escritas para o jornal Zero Hora em dias especialmente marcantes para ele. É curioso ver que no mesmo dia em que David descobriu a doença que estava instalada em seu corpo a cerca de 10 anos ele escreveu a espirituosa coluna O que o homem gosta na mulher, em que ele finaliza com frases de belas mulheres, sendo talvez a que mais combine com o autor a da atriz Sharon Stone “O humor é uma forma de ser valente”.

Naturalmente existem momentos tristes, ali está descrito a dor a cada cirurgia, as reações do pequeno Bernardo, o baque de descobrir outro amigo com câncer, lembranças de um pai que o abandonou. Mas tudo equilibrado com a força de uma mãe guerreira, da esposa Marcinha, e dos amigos. E os amigos rendem os capítulos mais divertidos, dando a leveza e a valentia necessária ao se falar de um tabu.

Um dia bem vivido, sem dores físicas importantes, em que você agiu com correção e que termina em paz é um dia plenamente feliz.

Há também a questão da adaptação nos Estados Unidos, que vai da língua aos itens do dia-a-dia, do que parecia breve e se tornou permanente. E como ele correu atrás para participar de um programa de pesquisa, indo de um médico a outro em uma corrida contra o tempo.

E talvez este seja o grande mérito, ao juntar nas mesmas páginas humor, ironia, tristeza, abandono, superação, dor e saudade, a vida realmente pulsa. Não houve conformismo, apenas vontade de viver e ser feliz. 

Atualização 27/05/2022: é com muita tristeza que incluo esta nota na resenha, para dizer que David Coimbra resolveu no dia de hoje contar as suas histórias em outro lugar. Fica a saudade para os seus leitores, que como eu, admiravam a sua inteligência, humor, ironia, força, suas dicas de filmes e séries, sua gentileza ao autografar um livro.

Hoje Eu Venci o Câncer
David Coimbra
L&PM
2018 – 204 páginas 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Nada



Sinopse: Nada é um livro inesquecível. Escrito em 1944, quando a autora tinha apenas vinte e três anos, e vencedor da primeira edição do prêmio Nadal, é considerado uma das obras espanholas mais importantes do século XX. Segundo Mario Vargas Llosa, é um romance composto com maestria, e, para o New York Times, ainda hoje "o charme peculiar do livro continua inalterado". 

A cada nova viagem, seja física ou literária, mais tenho me encantado, ou melhor, me apaixonado pela história e cultura da Espanha, e com este livro, enviado em novembro de 2018 pela TAG Curadoria, não foi diferente.

Em Nada a autora Carmen Laforet, que escreveu este livro na juventude de seus 23 anos, me levou novamente para as ruas de Barcelona, agora após a guerra civil espanhola, o que me fez lembrar A Praça do Diamante da autora Mercê Rodoreda.

Era a primeira vez que viajava sozinha, mas não estava assustada; ao contrário, aquela profunda liberdade na noite me parecia uma aventura agradável e excitante.

Dividido em três partes, Nada conta a história de Andrea, uma moça de 18 anos órfã que sai da casa da família paterna para a casa da avó materna com o objetivo de estudar letras na Universidade de Barcelona.

Na primeira parte o leitor irá se deparar com a expectativa inicial, nas lembranças de Andrea uma casa limpa e estruturada, que logo é quebrada ao chegar no prédio da Rua Aribau.

Eu me sentia oprimida como sob um céu carregado de tempestade, mas pelo visto não era a única a sentir na garganta o gosto áspero da tensão nervosa.

O cenário é de empobrecimento, sua avó está fragilizada, o avô faleceu, sua tia Angustias a controla com mão de ferro e discursos moralistas, seu tio Juan e a esposa Gloria possuem um relacionamento doentio e um menino ao qual Andrea nunca diz o nome.

Um andar acima, como um marionetista vive o tio Román, um espião artista sedutor, que tem prazer em gerar confusões, assim como a sua empregada tem em assistir.

Segredo é para se guardar, não para sair espalhando por aí, muito menos para jogar um homem contra o outro.

A segunda parte é de descobertas, da liberdade de andar pelas ruas de uma Barcelona sombria, de amizades fugazes, da mistura de maturidade e inocência de uma menina-mulher cuidada e amada por ninguém.

O fechamento da história ocorre na terceira parte, que curiosamente é a que pode gerar maior estranhamento, visto que é possível detectar uma sutil mudança de escrita. Entre revelações que estão no limite da verossimilhança e uma morte misteriosa, a personagem encerra um ciclo em meio à loucura.

Recebia tapas nas costas, e eu, vermelha e tossindo até as lágrimas, não conseguia parar de rir; depois acabei chorando de verdade, angustiada, triste e vazia.

Escrito em 1944, durante o período da ditadura de Franco, o livro também possibilita uma interpretação política, onde os personagens representariam uma estrutura. Outra linha possível, que é bastante forte no texto, é em relação à própria guerra e seus efeitos. Como no momento em que Angustias justifica para Andrea o comportamento dos irmãos ao dizer que "depois da guerra, eles ficaram meio doentes dos nervos".

Outra vertente são as mulheres e seus papeis. Elas são várias na história, dos perfis tradicionais que abrem mão de suas vontades para atender a família, passando pela mãe católica que defende os filhos homens, até a jovem rica que testa o seu poder de sedução, chegando à esposa que apanha do marido por motivos gratuitos sem sair desta roda de violência e loucura.

Na verdade, eu pensava que ele realmente precisava de mim, que precisava mesmo conversar, como tinha dito.

Narrado em primeira pessoa, o aprofundamento só ocorre ao que interessa a Andrea, o leitor vive em mundos paralelos entre a fome da Rua Aribau e o luxo dos seus colegas de classe. Entre dores de cabeça e caminhadas, será possível passear pelo litoral, as apertadas ruas do bairro Gótico, a movimentação de La Rambla, enquanto tenta compreender o que é o nada.

Um livro intenso, aberto a interpretações que as experiências de vida do próprio leitor pode proporcionar. Um clássico de leitura rápida e inquietante.

Nada
Carmen Laforet
Tradução Rubia Prates Goldoni
TAG - Alfaguara
1945 - 279 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O Deserto dos Tártaros



Sinopse: Feliz por escapar da monotonia da academia militar, o jovem tenente Giovanni Drogo recebe com alegria a missão no forte Bastiani - para ele, a primeira etapa de uma carreira gloriosa. Embora não pretendesse ficar por muito tempo, o oficial de repente se dá conta de que os anos se passaram enquanto, quase sem perceber, ele e seus companheiros alimentavam a expectativa de uma invasão estrangeira que nunca acontece. A espera pelo inimigo transforma-se na espera por uma razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade. Publicado originalmente em 1940, O deserto dos tártaros marcou a consagração de Dino Buzzati entre os grandes escritores italianos e foi eleito pela crítica especializada um dos melhores livros do século XX.

Em outubro de 2018, o escritor Alejandro Zambra indicou para a TAG Curadoria um dos livros que mais mexeram comigo entre todas as leituras: O deserto dos tártaros do italiano Dino Buzzati.

Não é difícil se identificar com Giovani Drogo. Seu perfil reflete um ou vários dos comportamentos humanos de uma forma atemporal e metafórico. É o tipo de livro que poderia ganhar uma versão com análise psíquica, como ocorre com os contos antigos em Fadas no Divã.

Era aquele o dia esperado há anos, o começo de sua verdadeira vida.

Temos a escolha errada e o desejo que uma mudança a torne correta. Onde o forte militar Bastiani aparentemente representa fisicamente o desejo de sucesso e glória na profissão, para depois se tornar símbolo de todo o desgaste de quem fica parado enquanto o mundo segue a girar.

Nos deparamos com a desmotivação e o aceitar a rotina com o desleixo da juventude de quem não amadurece. Como uma antiga canção todo dia é igual: horário para levantar, horário para realizar as tarefas, até o futuro se tornar um horizonte sem perspectiva e a velhice chegar sem que se perceba.

Se precisasse ficar ali em cima por anos a fio, e naquele quarto, naquela cama solitária, devesse consumir sua juventude?

O tempo é um personagem onipresente quando os dias passam de forma rápida e enfadonha, sem momentos inesquecíveis para recordar, sem momentos que tornem os dias diferentes um do outro. O não viver enquanto se respira. Eu tenho tempo, eu sou jovem, amanhã eu faço quando o amanhã já chegou.

A questão do sentido da atividade executada, quando todo o brilho inicial se evapora e a utilidade é questionada, onde as ações são realizadas no automático. Eventualmente se busca algo para quebrar a monotonia, e quando as visões demonstram não ser verdadeira, só resta retornar a rotina com um tédio ainda maior.

O Natal já se dissolvia na distância, também o novo ano viera, trazendo aos homens, por alguns instantes, estranhas esperanças.

Mudando o olhar, o não fazer nada para mudar a realidade que faz o tempo escorrer pode ser uma forma de driblar a morte, personagem que aparece em alguns momentos, seja de forma estúpida, seja grandiosa ou até sutilmente. Como antigas histórias em que os personagens até tentam se esconder desta senhora, mas que mesmo disfarçados são levados junto a ela.  

Só que o perigo para o leitor está ao fechar a última página. Mesmo os mais incautos podem cair em uma reflexão pessoal, onde é impossível não olhar para o próprio passado e para a sua rotina, trazendo a tona perguntas que nem sempre estamos dispostos a enfrentar, e muito menos a responder. 

Nenhuma criatura, há muitos e muitos anos - a não ser algum corvo ou cobra -, aventurava-se por aquelas plagas.

Uma leitura cujos sentimentos estão muito mais relacionados com a forma como vivemos do que com o destino do personagem, já que na teoria todos queremos obter um tipo de realização.

Ironicamente a narrativa em terceira pessoa consegue ser leve, descrevendo os detalhes de forma a colocar o leitor dentro das paredes do forte sem ser cansativa. Os companheiros de Drogo podem ser semelhantes aos teus colegas e vizinhos.

Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo ao ritmo dos dias de sempre.

E para completar, o que tudo indica a história nada mais seria do que um retrato da insatisfação do próprio autor com o seu trabalho em um jornal, local ao qual esteve ligado até morrer. Então não, o livro não é sobre armas ou a vida militar, mas sobre a nossa guerra diária em lutar por aquilo que realmente queremos viver.

Será o livro a chave para abandonarmos o nosso forte Bastiani e lutarmos por nossos sonhos ao invés de esperar os nossos tártaros? Eis uma pergunta que cada um deverá responder.

O Deserto dos Tártaros
Il deserto dei tartai
Dino Buzzati
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
TAG – Editora Nova Fronteira
1940 – 206 páginas


Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

História da Menina Perdida



Sinopse: No último volume da série napolitana, Lenu e Lina caminham da maturidade para a velhice. Nesse percurso temos o resultado dos anos de embate que acompanhamos durante toda a tetralogia. Não houve nem haverá redenção. A violência do bairro, a dificuldade das relações familiares e da maternidade, a ausência do amor continuam em História da menina perdida. O relato da amizade tóxica de Lenu e Lina, que nos engole como um buraco negro, encerra do modo como prevíamos desde o primeiro livro: uma verdadeira obra de arte do nosso tempo.

Elena Ferrante encerra a sua série napolitana com o quarto romance intitulado História da Menina Perdida. Como em todos os volumes, o título nada mais é que uma referência a uma importante situação da narrativa.

Demorei um pouco mais de um mês para ler suas 476 páginas. Não, o livro não é tedioso. Não, o livro não é difícil. A verdade é que encerrar os laços com Lenu e Lila não foi fácil. Era como se eu fosse uma amiga invisível que nada podia fazer pelas duas, e após devorar três volumes ficava o medo de tudo evaporar como a própria Lila.

Ela procurou quase imediatamente entrar mais uma vez à força em minha vida, e eu a ignorei, a tolerei, a suportei.

Outro ponto para esta leitura bem mais lenta foi à releitura de passagens, como se tentando entender se era isso mesmo. Ou ao ver a Itália de ontem como um espelho do Brasil de hoje, talvez com um desalento ainda mais agudo, e uma memória igualmente curta. 

O crescimento, escolhas, amadurecimento e rumos de Lila e Lenu serviram de pano de fundo para descrever Nápoles e a própria Itália. De um bairro pobre pós-guerra, passando pela camorra, o uso dos computadores, intelectuais, sindicalistas, socialistas, terroristas, operação mãos-limpas, ataque às torres gêmeas, tudo descrito pelo olhar de duas mulheres tão diferentes, tão problemáticas, tão únicas, como todas são.

Falei de como tinha observado em minha mãe e nas outras mulheres, desde menina, os aspectos mais humilhantes da vida familiar, da maternidade, da sujeição aos homens.

A série napolitana não é um romance simples, ela é feminista sem ser extremista, ela é política sem ter partido, ela é violenta sem pingar litros de sangue, ela é honestidade e mentira, superação e inferiorização, perdas e ganhos, vida e morte.

Como uma ficha de orelhão antigo, a cada volume as engrenagens vão se encaixando devagarinho. Em dados momentos nos envolvemos tanto nesta amizade - ora considerada destrutiva, ora irmandade - que não nos damos conta do seu ambiente, até ele vir como uma bofetada e muitas vezes espelhar a nossa realidade.

Houve um deslocamento entre a pessoa que eu esperava encontrar e a que de fato topei em minha frente.

História da Menina Perdida narra o envelhecimento das personagens e as consequências das escolhas realizadas no terceiro livro. E o inesperado retorno para casa, sacramentando a volta do convívio das duas. Culpa e maternidade também acompanham esta última etapa, onde os papeis de mãe e filha vão se alternando. E mesmo tantos anos depois elas parecem manter os mesmos comportamentos: Lenu tentando se firmar e Lila sempre se transformando.

O último volume é o fim de muitas coisas para as duas, e também de descobertas e desilusões para Lenu. Suas dúvidas, fraquezas e complexos a tornam mais próximas do leitor, que acabam admirando Lila junto com ela. 

Querer bem corre paralelo a querer mal, e eu não consigo, não consigo me condensar em torno de nenhuma boa vontade.

Aliás, se Lila muitas vezes parece fazer mal a Lenu, por outro fica claro que a primeira é combustível da segunda mesmo quando esta agora se depara com a velhice no espelho. Se Lila muitas vezes derruba Lenu, ela também a levanta, em uma relação de extremos e segredos.

E a curiosidade sobre um livro que contasse a versão de Lila às vezes parece irresistível. Mas no mesmo momento a ideia parece inaceitável. Ao quebrar sua aura de mistério, que sentimentos vamos ter por ela?

Em geral aqueles momentos de hostilidade eram manifestos, mas às vezes também pressionavam sob uma aparência de disponibilidade e de afeto.

É uma série que ainda quero reler, talvez quando o gosto de saudade aliviar, ou quem sabe quando na cidade das personagens voltar. Apenas sei que Lila seria uma excelente guia para conhecer realmente a cidade de Nápoles.

História da Menina Perdida
Storia della bambina
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Editora Globo – Biblioteca Azul
2014 – 476 páginas