sábado, 15 de fevereiro de 2025

Este Lado de Providence



Sinopse: Arcelia Perez fugiu de Porto Rico para escapar de um casamento fracassado e de um histórico de abusos, mas em vez de encontrar seu pedaço do "sonho americano", acabou do lado errado de Providence. Apesar dos três filhos pequenos, Arcelia segue um caminho que a leva à prisão e a uma agonizante abstinência de drogas. Mas o verdadeiro desafio surge quando ela é libertada e deve descobrir como permanecer limpa e reunir a família que se desfez em sua ausência. Esta poderosa história de esperança e redenção revela o lado obscuro de uma cidade simpática, onde mesmo as realidades mais sombrias não podem destruir os laços entre mãe e filhos. 

No mês de novembro/24 recebei pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Julia Dantas (que já apareceu aqui no blog com seu livro Ela se chama Rodolfo) Este Lado de Providence da escritora norte-americana Rachel M. Harper. O mimo foi um delicioso alfajor.



Arcelia Perez vive em um bairro pobre de Providence com os seus três filhos: Cristo, Luz e Trini. Viciada em drogas, só consegue ficar limpa ao ser presa, deixando as crianças sozinhas.

Cristo é o mais velho, com comportamento rebelde, tem as professoras, em especial Srta. Valentín, que junto com um homem apelidado de Snowman, que atuam como anjos da guarda do menino. Cada um, a sua maneira, busca formas de estimular o menino, que cedo precisa arrumar dinheiro para casa, a se motivar a estudar e aproveitar um pouco da infância.

Não sou uma arma, mas às vezes me sinto como uma bala. Rápida. Imparável. Mortal.


Luz é a do meio, menina dedicada aos estudos, adora ler e sonha em ter um futuro melhor. apesar da pouca idade, não é mais inocente a ponto de não enxergar a toxidade de viver com a sua mãe.

Quem completa o trio é a bebê Trini, uma criança sorridente e a única com um pai vivendo na mesma cidade que ela.

Ouço muitas histórias na rua, mas vou contar esta porque é minha e é a única que sei de cor.


E é neste misto de maternidade, pobreza, racismo, vícios, medo, violência, esperança e até mesmo resistência que Este lado de Providence convida o leitor a conhecer a família Perez sem romantizar nenhum dos assuntos.


A escrita de Rachel M. Harper

Conhecida por explorar temas como família, raça e identidade, a autora norte americana Rachel M. Harper tem três romances aclamados pela crítica e se tornou uma das vozes de referência na literatura contemporânea.

Indicado o Ernest J. Gaines Award for Literary Excellence, um prestigioso prêmio literário que reconhece obras de ficção excepcionais de autores afro-americanos, Este lado de Providence aborda os três temas de forma sensível, sem julgamento, permitindo que cada personagem conte a sua história e conquiste, ou não, a empatia de quem o lê.

Se você tem imaginação e já viveu o bastante, vai acabar quebrando uma regra ou outra.


Pois ela utiliza uma narrativa multifocal com primeira pessoa, permitindo ao leitor ter a perspectiva por diferentes olhares, saber os conflitos e impactos das ações e acontecimentos na vida de cada um, tornando a história complexa e próxima ao mesmo tempo.

Tudo utilizando uma linguagem clara e sensível, podendo em alguns momentos ser quase poética e em outros crua e direta. Mas sem clichês ou apontar se o personagem está certo ou errado.

Uma boa professora não deve ter queridinho, por isso acho que não tenho sido uma boa professora.


O questionamento fica para o leitor, o que torna a leitura uma experiência particular para cada um que abrir o livro.


O que eu achei de Este lado de Providence

Achei livro Este lado de Providence triste, mas longe de ser irreal.

Quando os adultos erram além dos limites normais, entregando-se aos seus vícios e paixões, quem paga o maior preço por suas faltas são justamente os filhos. Uma verdade absoluta nas ruas e nas páginas.

Saio da cozinha e tento esquecer a fome. O sol bate com força no quarto, então nem preciso acender a luz.


Então sim, foi doloroso acompanhar a vida das crianças desta história, principalmente de Cristo e Luz, que possuíam mais consciência do que estava acontecendo. Gerando em mim uma angústia constante de quem iria socorre-los.

A forma como eles encaram cada situação, como se protegem, e suas reações em relação as escolhas da mãe surpreendem. Pois apesar de tudo, são crianças amorosas, cuja maturidade chega cedo demais e ao mesmo tempo dão um toque de esperança a narrativa.

Estou bonita, como uma modelo de revista, e pareço quase crescida. Afinal, desde hoje cedo tenho 10 anos.


O que tornou para mim muito difícil ter empatia pela personagem Arcelia. Sim, há situações adversas na vida desta mulher, mas também a escolhas, e ela insiste em repetir os mesmos erros a cada nova chance. Mais do que precisar de ajuda, ela precisa querer ser ajudada.

Uma mãe que coloca crianças no mundo, mas não assume nenhuma responsabilidade. Agarrada ao passado sombrio, deixa abertas as portas para que os filhos sofram o mesmo tipo de violência e acabem no mesmo mundo que ela.

Em algum momento de julho, uma mentora diz que faz quarenta e cinco dias que estou limpa. Pergunto se isso vale alguma coisa, já que não foi por escolha.


Falando em escolhas e responsabilidades, gostei muito dos personagens que não são tão secundários assim e preenchem justamente o vazio de Arcelia. 

A Srta. Valentín, uma professora que está sempre de olho em Cristo, que também tem um passado que lhe provoca dor e compulsão pela comida, despertando o ciúmes na mãe das crianças, por achar que a outra mulher se intromete demais.

Mesmo com sol algumas coisas passam despercebidas. Mesmo no verão, quando os dias são longos, algumas coisas simplesmente não são iluminadas.


E tem o ambíguo Snowman, um negro albino que se movimenta pelo bairro a princípio como o dono dos imóveis locados na região, que mostra como todo o ser humano pode ser bom e ao mesmo tempo não ser uma pessoa correta.

No geral eu gostei muito do livro, achei a história bem pesada, ao mesmo tempo que nos lembra, pelo menos quem tem filhos, como as nossas escolhas impactam de forma absurda na vida de quem é dependente de nós.

Não gosto de deixar minhas irmãs trancadas, mas não quero que nada aconteça com elas. Principalmente quando saio e não posso proteger as duas.


O que fez com que a minha leitura fosse bem irregular, em alguns momentos era levada a ler capítulos seguidos, as vezes precisava parar para digerir a história.

Ficando assim a minha dica para quem gosta de livros fortes, que querem ler histórias com conflitos familiares, maternidade, violência contra mulher, vícios, mas que tenham um toque de esperança.


Este lado de Providence
This side of Providence
Rachel M. Harper
Tradução: Lígia Azevedo
TAG Experiências Literárias
2024 - 397 páginas
Publicado originalmente em 2016


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mau hábito



Sinopse: Nesta estreia literária que se tornou um fenômeno mundial, acompanha a formação de uma criança que cresce num bairro operário devastado pela heroína, na Madri dos anos oitenta. Com crueza e poesia, Alana S. Portero cria um romance sobre as alegrias e os conflitos envolvidos na experiência de uma pessoa que decide experimentar livremente o gênero. A partir da sua escrita terna e feroz, caminhamos entre mitologias diversas, construídas com santos católicos, divas pop, travestis e referências literárias.



No mês de outubro/2024 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Carla Madeira o livro Mau hábito da escritora espanhola Alana S. Portero. O mimo foi uma ecobag para garrafinha de água.

Nas décadas de 1980 e 1990, artistas como Madonna, Rick Astley, Whitney Houston, U2 explodiam nas paradas de sucesso. Fazendo a trilha sonora de crianças e jovens espalhados pelo mundo inteiro, que externavam ao cantar as músicas muitos dos sentimentos que guardavam.

Vi uma geração inteira de rapazes cair como anjos em estado terminal. Adolescentes com a pele cinza, faltando dentes, cheirando a amoníaco e urina.


Inclusive em Madrid, que vivia uma transição política - após a ditadura de Franco estavam retornando a democracia -, cultural - sendo celeiro de novos talentos -, social - com uma sociedade mais aberta e tolerante -, além de um grande desenvolvimento urbano que mudaria a cara da cidade.

E é no meio destas transformações que uma criança, vivendo no bairro operário de San Blas, se depara com o primeiro desafio de sua vida: não se identificar com o gênero que nasceu.

A droga foi a última fora de execução sumária de dissidentes de um regime que encontrara a forma de se perpetuar.


Imitando a postura de seus parentes do sexo masculino em público – a forma de um primo sentar, de um tio comer e do pai de se expressar -, é no banheiro e ouvindo música que ela tenta se transformar no que gostaria de ser, invejando os grupos de mulheres que se juntam para conversar e fazer compras, em uma aliança muito mais antiga do que o imaginado.

E é essa criança que narra Mau hábito, compartilhando cada fase de sua vida, da infância, passando pela adolescência até a vida adulta. Onde divide com o leitor suas dúvidas, sua própria aceitação, seus amores e horrores em uma escrita sensível e delicada.


A escrita de Alana S. Portero

Mau hábito é o romance de estreia da escritora espanhola Alana S. Portero, que assim como a narradora da sua história, é uma mulher transgênero que nasceu em um bairro operário de Madrid. Iniciou a carreira no teatro e hoje ocupa um papel de destaque na literatura espanhola contemporânea.

Em Mau hábito a narrativa ocorre em primeira pessoa, onde experiências e pensamentos são compartilhados com o leitor, tendo características de um romance de formação, já que a história se inicia ainda na infância e prossegue por cerca de trinta anos.

Era insuportável, e se alguma vez a violência extrema teve uma rotina cômoda foi naquela casa.


O ambiente escolhido é uma mescla de cuidados familiares, criação de laços com quem compartilha as mesmas vivências e a violência em um bairro mais pobre, que pode vir tanto na forma física quanto na psicológica. 

Trazendo à tona assuntos como drogas, aids, preconceito, primeiro amor, e a cultura popular, seja por música, moda, cinema e bairros. Ao mesmo tempo que mostra de forma sutil a transformação de uma cidade após um período de muita restrição.

No mundo das portas abertas, não havia espaço para o rebolado nem para o choro, só para os machões.


Tudo em uma escrita bastante sensível, que encaminha a personagem da história de forma gentil, mesmo nas situações mais difíceis, sendo muito fácil para o leitor sentir carinho e vontade de ajuda-la.


O que eu achei de Mau hábito

Estive em Madrid em 2015 e ler Mau hábito foi dar um passeio por algumas ruas, além de me permitir fazer um antes e depois entre o que estava escrito e o que eu vi durante a minha viagem, ao qual curiosamente pegou o dia da parada gay na cidade.

Como fã das músicas dos anos 80 e 90 adorei as referências musicais, não raro ficava com algumas das músicas citadas na cabeça (Papa don't preach), e me sentia no quarto da personagem com vontade de dançar junto.

Meu pai era assim. Sempre nos dizia a verdade, sem muitos rodeios, e considerava que tínhamos direito às respostas.


Também achei que a escrita me permitiu entender um pouco do sofrimento sentido por quem sofre de disforia, termo utilizado pela própria autora, me fazendo refletir que se já é difícil para muitos lidar com o espelho quando inicia o processo de envelhecimento, o quão duro deve ser em momento nenhum da vida se sentir bem na própria pele.

Existem vários eventos marcantes na história, que tem personagens secundários muito interessantes como as vizinhas Margarida e Peruca, o grupo de travestis que me lembrou o livro O parque das irmãs magníficas, o dono do bar Antônio com suas memórias em forma de fotos de quem foi vítima da aids, o primeiro amor Jay e o conhecido torcedor de futebol ao qual é bom manter distância.

Cibele era a guardiã dos emasculados, dos hermafroditas e dos eunucos, a mãe dos que renunciavam à masculinidade grotesca e abraçavam a ferocidade das mulheres.


Aliás, achei muito interessante a abordagem sobre o assunto, pois em um momento havia o primeiro amor sem consciência do risco, e depois a lembrança do vírus na época mortal que estava sempre à espreita.

Mas é justamente quando este personagem cujo nome só aparece uma vez parece estar se encontrando que ocorre uma virada e surgem os poucos pontos que me incomodaram na leitura.

Acabei entendendo isso, as dobras da memória são traiçoeiras e podem soltar lembranças tão vivas que corremos o risco de ficar presas em lugares que prometemos nunca mais pisar de novo.


Pois como acompanhamos a vida da personagem por um longo período, eu senti falta de uma conversa franca com a família. O motivo é justamente por ser uma família amorosa, estruturada, cujos pais explicavam dúvidas sem preconceito ou enviesados.

E para mim foi um sentimento que ficou latente mesmo após encerrar a leitura, pois em todas as partes que entrava mãe, pai e irmão, era possível sentir como eles eram uma base. Como eles pareciam saber que havia algo diferente pelo cuidado que todos tinham com a personagem, e como talvez essa conversa tenha feito falta para ela não ser tão perdida.

Tudo que tinha a ver com minha identidade, quando ensaiava as possibilidades de contá-la, soava como a confissão de um crime ou de um pecado imperdoável.


Como há uma passagem de tempo, também senti falta de explorarem a mudança na mentalidade da sociedade madrilena, como foi a mudança de tornar todas as ruas mais seguras para todos, não sendo mais necessário se esconder ou frequentar apenas bairros específicos.

Mas no geral gostei da história, concordo com o adjetivo que a minha mãe usou de ser um livro delicado, ao qual a escrita torna fácil compartilhar o misto de sentimentos da criança/jovem que acompanhamos crescer. 

Eu me esforço muito para me adaptar ao que se espera de mim, interrompo meus sonhos me dando uma bofetada.

Uma coisa que eu achei muito legal na edição da TAG, e ficou na torcida para ter na edição comercial também, é a playlist da autora para o livro. No meu livro, fica na última página.

Ficando a dica de leitura para quem curte romances de formação, que fazem o leitor caminhar pelas ruas de outras cidades, que gostam de refletir sobre a sociedade, ou que simplesmente gostam de ler uma boa história.


Mau hábito
La mala costumbre
Alana S. Portero
Tradução be rgb
TAG - Amarcord
2024 - 231 páginas
Publicado originalmente em 2023

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O chamado de Cthulhu e outros contos



Sinopse: O Chamado de Cthulhu é um conto do norte-americano H.P. Lovecraft que logo se tornou um clássico do terror. Foi escrito em 1926 e publicado pela primeira vez na revista estadunidense Weird Tales em fevereiro de 1928. Cthulhu é um deus que nas primeiras páginas do conto aparece como um ídolo de argila quase indescritível, possuindo um culto multimilenar dedicado a trazê-lo de volta, o seu retorno desencadearia o fim da humanidade. Neste livro, encontramos esse clássico e mais nove contos consagrados do autor na literatura de terror.

Há alguns anos atrás me foi indicado ler o autor H.P Lovecraft com a justificativa que ele seria um dos mestres dos livros de terror e mistério. Para tirar a prova, aproveitei um cupom que ganhei para usar em uma livraria online e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos, para ter uma amostra do trabalho do autor.



No livro encontrei dez contos, aos quais irei fazer um breve resumo abaixo:

Dagon: Um marinho viciado em morfina compartilha a sua história após sobreviver a um naufrágio e chegar a um lugar desconhecido. A fragilidade do personagem coloca um ponto de interrogação se tudo é real ou alucinações de alguém que está perdendo a razão.


Estou escrevendo isto sob considerável esforço mental, uma vez que hoje à noite não existirei mais.


Nyarlathotep: parte dos mitos que constroem Cthulhu, o conto apresenta uma criatura que sai do Egito e vaga pela Terra. Um ser ambíguo e aterrorizante, capaz de causar a loucura e o caos ao poder assumir diversas formas e manipular a mente de quem encontra pelo caminho.

A cidade sem nome: um explorador se desloca para uma cidade cercada de lendas em um dos desertos da Arábia. Com uma atmosfera que se altera conforme o horário, ele encontra uma arquitetura macabra, símbolos estranhos e templos subterrâneos que o convidam a esquecer todos os cuidados.

Quando cheguei à cidade sem nome, vi que era um lugar amaldiçoado.


Azathoth: um conto curto que conta a história de um homem que viaja atrás dos sonhos perdidos.

O cão: dois amigos compartilham um hobby atípico: violar tumbas antigas em busca de artefatos. Em uma de suas expedições eles encontram uma escultura de jade em forma de um cão com asas. Ao carregar o objeto com eles, eventos misteriosos e aterrorizantes passam a assombra-los.

Não se trata de um sonho - nem mesmo, receio, loucura -, pois já me aconteceu muita coisa para eu ter essas dúvidas apaziguadoras.


O Festival: convocado por familiares para participar de um antigo festival, o personagem/narrador retorna a sua cidade natal. Mas o que deveria ser um retorno às origens acaba se tornando uma experiência bem diferente da imaginada.

O Chamado de Cthulhu: após a morte de um tio-avô o professor Francis Wayland Thurston se depara com a história de um estranho ídolo de argila, que teria relação com um antigo culto dedicado a uma criatura monstruosa que teria vindo das estrelas: Cthulhu. Conforme se aprofunda nas investigações, ele descobre não só uma conexão psíquica entre algumas pessoas e a entidade, como que o retorno de tal criatura significaria o fim da humanidade.

A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos.


A Cor Vinda do Espaço: um meteoro cai em uma fazenda localizada a oeste da cidade de Arkham e uma estranha cor começa a surgir no local do impacto. Sua queda não gera nenhum dano momentâneo, mas com a passagem dos dias uma terrível transformação ocorre na localidade conforme a estranha coloração passa a corroer tudo o que toca.

História do Necronomicon: pequeno conto que conta a origem do livro fictício citado em diversos contos de H.P. Lovecraft, onde o autor Abdul Alhazred, conhecido como "o Árabe Louco" teria descrito uma série de feitiços e rituais para invocar entidades antigas e poderosas, como Cthulhu.

São figuras tão caladas e furtivas que ele se sente de certa forma confrontado com coisas proibidas, com as quais seria melhor não ter nenhuma relação.


O Horror de Dunwich: Dunwich é uma pequena cidade de Massachusetts onde a estranha família Whateley, que combina cultos antigos e casamento endogâmicos, mora. Mas todas as atenções se voltam para eles quando nasce Wilbur Whateley, um menino que cresce em uma velocidade espantosa e apresenta características que lembram animais e conforme cresce cria uma obsessão por livros antigos, em particular o Necronomicon.


A escrita de H.P. Lovecraft

O escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, popularmente conhecido como H.P. Lovecraft, é considerado como o autor que revolucionou no século XX o gênero de terror, principalmente no que denominamos terror psicológico e cósmico.

Além da psicologia, o escritor que teve uma infância marcada pela solidão, mistura ficção científica, fantasia em histórias obscuras que podem perturbar os leitores nesta mescla de insanidade e criaturas que não se sabe se vem do cosmo ou de universos paralelos.

Não lembro com precisão quando começou, mas já faz meses. A tensão geral estava horrível.


E foi isso que gerou o Mito de Cthulhu, onde vários contos compartilham o terror cósmico dos impactos do despertar de uma criatura antiga e poderosa que afetaria a Terra como um todo. Não à toa, existe mais de um livro de contos do autor publicado com o mesmo título: O chamado de Cthulhu e outros contos

Em O chamado de Cthulhu e outros contos que eu li existe aquele misto de terror, mistério e dúvida. Ao utilizar a narrativa em primeira pessoa com personagens que ou não confiáveis ou se colocam em situações que podem alterar a sua percepção, o autor mexe com o sentimento de ética e empatia do leitor, pois é imaginação ou eles são realmente vítimas de algo que chamaríamos de sobrenatural?

Sobre o nome e a residência desse homem pouco se escreveu, pois serviam apenas para o mundo da vigília, embora se diga que eram ambos obscuros.


Ao mesmo tempo ele nos carrega para civilizações perdidas, onde o antigo e o avanço tecnológico se misturam, mas habitadas por forças malévolas, ligadas aos muitos mistérios que ainda hoje tentamos desvendar.

Isso é acentuado pelo conjunto de contos que forma os mitos de Cthulhu, onde entidades cósmicas são capazes de causarem horrores que a humanidade não possui preparo e muito menos compressão para enfrentar.


O que eu achei de O chamado de Cthulhu e outros contos

A sensação que eu tive lendo este livro de contos era de estar subindo uma montanha, a cada história o terror aumentava, e não raro, também o número de páginas para imergir em um mundo onde os horrores estão completamente conectados por um livro fictício e por uma criatura.

Várias vezes me peguei lembrando da série Alienígenas do passado, onde cidades antigas e cheias de lendas são mostradas e suas construções questionadas sobre se realmente usaram mão de obra humana ou se seres do espaço o construíram.

Parecia haver ali uma umidade indefinida e opressiva, e me espantei com o fato de o fogo não estar aceso.


Mas nos contos de H.P. Lovecraft eles não constroem nada, e não estão vindo do espaço em uma espaçonave. O mais perigoso está dormindo em águas profundas, e os demais parecem vir atender chamados de rituais ou através de portais escondidos em várias partes da Terra.

Motivo pelo qual não raro é fácil duvidar da história do narrador, pois em algumas situações enfrentadas por eles não seria difícil confundir com alucinações ou pesadelos. 

Não é um lugar bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes à noite.


Em outros casos está mais escancarado, embora não haja uma comprovação total da lenda, existem fatos para deixar as orelhas em pé e os pelos dos braços arrepiados.

O que tornou o universo de H.P. Lovecraft aprovado por mim, uma fã do gênero, que só agora conheci o mestre e deixo a dica para quem também curte este misto de terror, psicologia e mistério.


O chamado de Cthulhu e outros contos
H.P. Lovecraft
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora Nova Fronteira
2023 - 200 páginas
Contos publicados originalmente no final dos anos de 1800

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime



Sinopse: Nesta coletânea de contos de romances inusitados, Agatha Christie mostra como o amor pode impulsionar as pessoas a diversos tipos de loucuras. A Rainha do Crime te levará a testemunhar o lado obscuro desse sentimento, longe do romantismo e da paixão, em uma trilha intensa de enigmas a serem descobertos. Crimes passionais, jogos sentimentais e relacionamentos (que deram um pouco... errado) serão investigados pelos heroicos e tão queridos detetives Hercule Poirot e Miss Marple, o mestre das charadas Parker Pyne, o misterioso Mr. Quin e o audacioso casal Tommy e Tuppence.



Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime é uma edição especial da TAG experiências literárias, composto de 13 contos, um texto sobre assuntos do coração escrito pela Agatha Christie e a sua biografia. Abaixo um breve resumo de cada conto:


O Rei de Paus: durante um jogo de cartas familiar, uma mulher coberta de sangue invade a casa e grita assassinato antes de desmaiar. Para desvendar o mistério, o famoso Hercule Poirot que não deixa nenhum detalhe escapar entra em cena.

A realidade não é apenas mais estranha que a ficção, é mais dramática.


O rosto de Helena:
em uma ópera Sr. Satterthwaite se encanta pela bela cabeça de uma mulher e acaba se aproximando da mesma, e descobre que ele não é o único a se encantar pela moça.

Morte no Nilo: Parker Pyne está em um luxuoso cruzeiro pelo rio Nilo quando a tranquila viagem de férias é interrompida pela morte de uma herdeira. Personagem não muito simpática, que torna todos a sua volta suspeitos em potencial.

É uma coisa notável quando se pensa nisso, como poucas pessoas têm cabelos que de fato combinam com elas.


Morte por afogamento: uma jovem é encontrada morta em um rio próximo em uma pequena vila inglesa. Todos da comunidade acreditam que o afogamento foi causado pela própria jovem, mas Miss Marple observa detalhes que a fazem acreditar na possibilidade de assassinato.

A pista dupla: um conhecido colecionador de joias tem rubis e esmeraldas furtados. Pistas falsas são deixadas para enganar a polícia, mas não são o suficiente para o detetive Hercule Poirot e seu fiel companheiro, Hastings.

Sofria desde os dezesseis de um problema de dinheiro em excesso.


Uma finesse com o rei: o casal de detetives Tommy e Tuppence tiram uma noite para dançar e se divertir quando sem querer viram testemunhas e investigadores de um assassinato.

Um domingo frutífero: um casal sai de carro para aproveitar o dia, mas o que era para ser um domingo tranquilo, torna-se um quebra-cabeça com vários acontecimentos inesperados e relacionados.

Sua anfitriã tinha temperamento plácido, pouco dada a destemperanças ou aflições. 


O vespeiro: Hercule Poirot resolve visitar um homem para discutir sobre um assassinato que ainda não aconteceu.

O caso da Zeladora: Miss Marple está deprimida por ter que ficar em casa para se curar de uma gripe, é quando seu médico lhe dá uma carta com um intrigante caso, um quebra-cabeça sobre o desaparecimento de uma zeladora.

A seu modo, ele era uma espécie de celebridade, e a vida elegante era sua profissão.


O homem na neblina: Tommy e Tuppence estão decepcionados por não terem solucionado seu último caso quando se deparam com um novo mistério a caminho da estação de trem.

O caso da ricaça: Parker Pyne recebe uma missão inusitada, uma mulher rica e sozinha não sabe mais como gastar o seu dinheiro busca orientação de como fazê-lo em algo que realmente valha a pena.

Todas as esposas que conheço estão ansiosas para sair e dançar, e chorando seus maridos usam pantufas e vão para a cama às 21h30.


Flor de magnólia: uma jovem mulher casada resolve ir embora com o seu amante, mas durante a fuga descobre que o marido foi à falência e as descobertas que virão são totalmente inesperadas.

Os detetives do amor: a morte súbita de um homem rico e solitário identificada inicialmente como natural desperta a intuição de Sr. Satterthwaite sobre as coisas não serem exatamente o que parecem.


A escrita de Agatha Christie

A escritora britânica nascida em 1890 foi responsável pela revolução no gênero policial, tornando Agatha Christie a rainha dos romances do gênero. Em 1920 ela publicou O Misterioso Caso de Styles, seu romance de estreia com detetive belga Hercule Poirot, o primeiro de 66 romances, fora os contos e as peças de teatro. O que a tornaram uma das autoras mais vendidas.

Seu estilo de escrita encanta pelas reviravoltas que surpreendem o leitor, as soluções que ninguém havia imaginado, a personalidade observadora de seus detetives, os locais diversos que mexem com a curiosidade e a escrita que captura da primeira à última página.

Ele agora preferia a lei do menor esforço, seguindo atrás de qualquer carro que estivesse à frente sem pensar sempre que uma escolha de vias se apresentasse.


O que torna a coletânea de contos Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime uma espécie de amostra com vários de seus conhecidos detetives, quase um convite para as novas gerações descobrirem mais de sua obra e uma forma de lembrar os já leitores que as obras da rainha são atemporais.


O que eu achei de Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime

Eu particularmente gosto de romances policiais, e embora não tenha começado no gênero pelos livros da Agatha Christie, sempre que posso ler algum de seus livros já sei que a diversão com o quebra-cabeça literário é diversão garantida.

Mas confesso que não foi algo que encontrei na coletânea de contos. Por serem histórias bem curtinhas, não há informações suficientes para criar teorias ou pensar quais peças se encaixam, pois em um piscar de olhos o caso já foi solucionado.

Em um minuto, uma expressão de absoluto espanto surgiu em seu rosto, pois a figura engomada que subia o caminho era a última que ele esperava ver nesta parte do mundo.


O interessante dele aqui está na visão que se tem dos relacionamentos, sejam sociais, sejam amorosos, sejam de casal, ou de comunidade. Pois se tem um desenho tanto das famílias abastadas, com algumas críticas sutis e outras mais diretas, como de comunidades do interior fechadas a estrangeiros.

E nestes ambientes ocorrem intrigas, obsessões, desejo de vingança, traições, cumplicidades, dias inusitados e questionamentos existenciais.

Não consigo deixar de pensar o quão melhor teria sido se eu simplesmente tivesse morrido.


Tornando a leitura leve e fácil, que combina tanto com chocolate quente no inverno como com areia de praia no verão. Ficando a dica de leitura para quem gosta de livros que ajudam a desopilar nas férias ou para intercalar após uma narrativa especialmente difícil.


Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime
A Deadly Affair
Agatha Christie
Tradução: Samir Machado de Machado, Jim Anotsu, Petê Rissatti
TAG - Harper Collins
2022 - 271 páginas
Contos escritos entre os anos de 1923 e 1942.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra



Sinopse: O termo “Antropoceno” foi proposto para designar a era geológica atual, em que os seres humanos remodelaram o planeta e sua biodiversidade de maneira profunda, para o bem e para o mal. A humanidade é cheia de facetas contraditórias e invenções intrigantes, e John Green se propõe a avaliá-las de forma nada imparcial. Afinal, no Antropoceno, não há observadores desinteressados, apenas participantes. Como o próprio autor reconhece, esses ensaios também são, de certa forma, uma autobiografia. Escrito em parte durante o turbulento período de pandemia global e baseado em seu podcast de sucesso, Antropoceno: notas sobre a vida na Terra nos guia pelas sutilezas dessa nova realidade e nos dá a segurança de que podemos até desconhecer o caminho que estamos seguindo, mas com certeza estamos em boa companhia.



Em Antropoceno, o autor norte-americano John Green explora suas memórias e as complexidades e implicações do que estamos vivendo, com pandemias, mudanças climáticas, perda de biodiversidade e os avanços tecnológicos constantes, o que gera muitas reflexões do escritor sobre cada assunto abordado.

Entre essas reflexões estão a relação da humanidade com a natureza que a cerca, incluindo o impacto dos avanços tecnológico no uso e preservação do meio ambiente, tópico que se torna cada vez mais urgente como vimos nos últimos desastres naturais.

Através da empatia, sentimos coisas que talvez nunca pudéssemos sentir. Através do rico mundo da imaginação, vimos apocalipses grandes e pequenos.


Há também textos com questões mais existenciais, como a busca por significado em um mundo que se reinventa todos os dias, questionamento sobre as escolhas que realizamos em diferentes fases do nosso amadurecimento, assim como a valorização da vida e da própria esperança.

Mas não, não é um livro de autoajuda, mas sim de reflexões e de memórias, já que o autor compartilha várias histórias pessoais e divide sua opinião sobre diferente assuntos que vão de ciência a vídeo game.


A escrita de John Green

Conhecido autor norte-americano por escrever romances para jovens adultos como A culpa é das estrelas, que teve uma versão para o cinema. E também possui um canal no youtube com o seu irmão, o vlogbrothers, onde eles abordam muitos dos assuntos listados no livro, além do já citado podcast.

Em Antropoceno, Green mescla opiniões e reflexões pessoais com artigos científicos e referências literárias de uma forma bastante fluída e de fácil leitura, explicando termos não tão comuns seja através de linguagem clara ou metáforas e analogias.

A história, como a vida humana, é ao mesmo tempo incrivelmente rápida e penosamente lenta. 


Ou trazendo algumas curiosidades, como no caso do livro O grande Gatsby que ele compartilha a popularização do mesmo após ser indicado dentro das forças armadas, sendo um dos impulsos para torná-lo um clássico.

Não raro ele se dirige diretamente ao leitor, como se o mesmo estivesse sentando em algum lugar e pudesse interagir com ele nestas conversas que misturam papo sério com momentos de humor, ciência, e histórias pessoais que permitem conhecer mais de quem está do outro lado das páginas.

Maravilhando-me com a perfeição daquela folha, fui lembrado de que a beleza estética depende tanto de como e se você olha quanto do que vê.


Resultando em um livro muito agradável de ler, e que pode fazer o leitor prestar atenção um pouco mais em si e no mundo em sua volta, além de algumas indicações de leitura extra.


O que eu achei de Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra

Antropoceno foi um livro que recebi de mimo na antiga assinatura da Intrínseca e foi uma adorável surpresa.

Me diverti com ele dando estrelas para os assuntos abordados em cada texto, como se fosse uma avaliação da Amazon. Concordei com algumas teorias, como o ar condicionado nos escritórios ser sexista e adorar deixar a mulherada passando frio o dia inteiro.

A especificidade radical do cheiro é parte do que o conecta de maneira particular á memória. Também é parte do que o torna tão difícil de imitar, mesmo quando se trata de odores artificiais.

E me encantei com a escrita pessoal de Green. Entre Disney, Mario Kart, viagens e comparativos de pandemia, há leveza, sorrisos, vontade de abraça-lo quando relata o bullying sofrido na infância e reflexão.

É como uma conversa de assuntos variados, só que com vários embasamentos compartilhados caso você queria se aprofundar depois. Mas com um detalhe fundamental: não é uma referência pedante do tipo olha o que eu sei, mas do tipo: olha que legal o que eu li, pesquisei ou encontrei.

Para mim, essa é a maravilha e o terror de imagens geradas por computador: se elas parecem reais, meu cérebro não é nem de longe sofisticado o suficiente para entender que não são.


Na parte que ele fala das pandemias, me lembrei do livro Os vulneráveis, já que ele compara os casos onde os ricos fugiram das grandes cidades, seja pela peste, seja pela Covid. E como a sua posição social irá lhe colocar com maior ou menor chance de morrer. E há também o outro lado da moeda, aqueles que se doam para não deixar ninguém sozinho.

Mas estes são apenas pequenos exemplos de como Antropoceno é um livro que pode ser lido enquanto se bebe uma taça de vinho ou uma xícara de chá. Pois seus textos me provocaram conversas mentais, despertaram memórias, tudo em uma escrita que me convidou a refletir, sorrir e ter a curiosidade alertada.

Lembro-me de ter pensado que nunca mais seria criança, não de verdade, e foi a primeira vez que senti aquela intensa saudade de um eu que nunca mais voltaria.


Afinal estamos em constante mudança, e a Terra tem nos mostrado de forma cada vez mais forte que não existe causa sem consequência, e repensar muitas de nossas ações se faz mais do que necessário.

Deixando a dica para quem curte livros que compartilham opiniões e lembranças sobre música, jogos, filmes, poesias, viagens, descobertas, amores, vida, morte, ecologia, ciência, tecnologia, depressão, crise existencial, presente, passado e futuro.

Para Antropoceno eu dou 5 estrelas.


Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra
The anthropocene reviewed: essas on a human-centered planet
John Green
Tradução: Alexandre Raposo e Ulisses Teixeira
intrínseca
2021 - 384 páginas


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A voz que ninguém escutou



Sinopse: A voz que ninguém escutou é a de Maria que decide fugir da miséria e violência levando dois filhos para a capital na esperança do tão desejado emprego. É a voz de Inácio, um menino sequestrado e escravizado por um fazendeiro inescrupuloso, em busca de uma família para si. É a voz de Inês, a filha da empregada doméstica que sobrevive nos fundos da mansão de um poderoso banqueiro vivenciando cotidianamente as diferenças de classe, sonhando com um Brasil mais justo. É a voz de Vânia uma jornalista que acaba de assistir à tragédia de sua mãe e após uma grande revelação tenta reconstruir sua história ao mesmo tempo em que encontra novas formas de amar. É a voz deste que escreve estas palavras. É a voz de um país que esqueceu de lembrar do passado.

No mês de setembro/2024 a TAG não foi curadoria e enviou o vencedor do prêmio kinder de literatura de 2024 chamado A voz que ninguém escutou do escritor carioca Renan Silva. O mimo chamado de kit biblioteca era composto de pequenas fichas destacáveis e post-its.



Não suportando mais viver uma relação abusiva e uma vida de miséria, Maria decide abandonar o marido e os filhos mais velhos, fugindo com os dois mais novos, Inês e Inácio, para a cidade do Rio de Janeiro.

No caminho uma ida ao banheiro lhe custa caro, já que o motorista do transporte clandestino ao qual ela está viajando vende Inácio para um fazendeiro que explora crianças, levando-o para longe, antes que a mãe tenha tempo de resgatá-lo.

Sirene rodopiando como carrossel. Sons de alerta e um eco interminável.


No Rio de Janeiro Maria encontra um emprego como empregada doméstica em uma casa de família rica, onde Inês irá conviver com as diferenças sociais ao mesmo tempo que terá oportunidade de estudar, e fazer uma sólida amizade com a filha do casal.

Tudo em um Brasil que vive a construção de Brasília e o início da ditadura militar, onde o resultado de tudo cabe em uma ambulância em 2005 em que Vânia, uma jornalista, leva a mãe Inês em estado grave para o hospital.


A escrita de Renan Silva

A voz que ninguém escutou é o primeiro livro do historiador Renan Silva. Na narrativa foi optado em utilizar na maior parte do tempo a voz em terceira pessoa, mas em alguns momentos surge a voz em primeira também, ambas para acompanhar quatro personagens: Maria, Inês, Inácio e Vânia. Todos membros da mesma família.

O livro acompanha a vida destas pessoas de 1945 a 2005, dividido em duas partes, a primeira aborda trabalho escravo, sequestro de crianças, violência familiar, poliamor, assédio sexual, questões lgbt, exploração de trabalho doméstico, diferenças sociais, construção de Brasília, ditadura entre outros assuntos.

Os filhos foram concebidos com pouco tempo de espera entre um e outro. A exceção era justamente aquela que agora vinha ao mundo.


Na segunda parte temos uma mistura de tempo mais próximo ao presente com o passado, já que Vânia começa a investigar o que levou a mãe em um ato tão extremo e acaba se dividindo em entender o passado da mãe e a busca de sua própria identidade, ao mesmo tempo que sua vida parece ser uma espécie de espelho da vida da mãe.

A quantidade de assuntos abordados seria o suficiente para criar uma saga familiar, mas por estar tudo compactado em quase trezentas páginas, pode levar o leitor a dois sentimentos. Agradando aquele que gosta de ler versões resumidas, e por outro lado angustiando o que deseja uma história mais arredondada.


O que eu achei de A voz que ninguém escutou

Para quem assiste o programa Masterchef do Brasil, a frase "menos é mais" utilizada pelo Fogaça para opinar sobre os pratos de alguns participantes, consegue resumir o sentimento que tive ao ler este livro.

E aqui faltou aquele editor amigo para dizer vamos focar mais nisso, quem sabe no lugar de colocar mais personagens vamos trabalhar mais esta cena? Que tal melhorarmos a passagem de tempo e tiramos a parte dos 50 tons de ditadura, já que as cenas de sexo parecem um Ctrl c + Ctrl v e o seu detalhamento não acrescenta em nada a história?

O menino percebeu o silêncio absoluto que reinava no interior da carroceria do caminhão. Tinha pelo menos mais cinco crianças além dele.


Pois na minha opinião a ideia do livro é muito boa, e seu início é envolvente e estimula a curiosidade, mas a narrativa vai decrescendo, a ponto que a primeira parte é muito melhor que a segunda. Sendo um daqueles casos em que a execução deixa e muito a desejar. 

Assim como a parte gráfica, que faz os leitores imaginar que os integrantes da família são negros, mas na descrição de Vânia ela é uma mulher branca. Falha de continuidade ou de quem elaborou a capa? Eis uma das perguntas que ficaram após a finalização do livro.

Às vezes, fantasiava invadir a biblioteca, gritar com o patrão, chamá-lo de lixo, ameaçar ir até a polícia.


Uma coisa que me incomodou muito na leitura é que ela parecia didática, não havendo uma narração da cena para que eu visualizasse o que estava acontecendo, mas um parágrafo explicando resumidamente os acontecimentos.

O que torna tudo muito rápido, e em alguns momentos, inverossímil, como a sequência em que Vânia busca os papeis da prisão da mãe no período da ditadura.

Os brasileiros começaram a se acostumar com a possibilidade de escolher livremente o presidente. Já era a quarta vez após o Estado Novo.


Outro ponto foi a mistura de eventos dos anos 80 e 90, como por exemplo acontecimentos do período Sarney (remarcação mais do que diária dos preços) que é citada na era Collor - que ficaria muito mais forte se tivesse sido relacionado ao ato mais traumático do seu governo: o confisco das poupanças. Tudo em um parágrafo que mistura presidentes, Senna, Mamonas e Sílvio Santos.

O livro cita o diário de Inês, mas a narrativa se perde na forma como a história é conduzida, parecendo um resumo do resumo feito pela filha Vânia, que talvez fosse um personagem que não precisaria estar ali.

Os ideólogos da nova capital pensavam que as diversas classes sociais poderiam viver em conjunto, em superquadras nas Asas Norte e Sul. Na prática, isso não ocorreu.


Em compensação nada é dito sobre os outros filhos de Maria, assim como um período de tempo de Maria, Inês e Inácio e termina de forma fraca, sem maiores impactos. Então sim, as páginas gastas com Vânia poderiam ter sido ocupadas principalmente como Inês e Inácio.

O que me fez finalizar a leitura com a ideia de que a mesma precisava ser refinada, tanto nas vozes utilizadas como no foco. Pois perde-se páginas em sequências que não acrescentam nada e se passa voando pelas que poderiam tornar a história mais rica.

O andar cada vez mais curvado e as constantes reclamações de dores nas costas também eram as marcas de vinte anos de trabalho ininterruptos.


Fazendo uma contrapartida, já que não, eu não gostei da escrita do livro, a minha mãe já gostou, pois como cita jovem guarda e outros momentos da época de 60 e 70, fez com que ela buscasse as próprias memórias daquele período, que ao contrário dos personagens, são lembranças felizes. Um poder especial que os livros possuem de resgatar nossa própria história pessoal enquanto acompanhamos outras.

Como livro é igual a gosto, e cada um tem o seu, e naturalmente pode haver outros leitores que assim como a minha mãe possam gostar da narrativa, fica a dica de um livro brasileiro que aborda a história de uma família nordestina em meio a um dos períodos mais tumultuados da história do Brasil.


A voz que ninguém escutou
Renan Silva
TAG - José Olympio
2024 - 302 páginas