terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Travessuras de menina má

A menina má de Mario Vargas Llosa é uma personagem do tipo que conquista o leitor pela repulsa. Por ser irritantemente sincera no seu desamor. Por fazer de gato e sapato o seu par protagonista, Ricardo Socomurcio. E por deixar o leitor ciente de toda a sua canalhice, abandonando aquele que a ama e voltando apenas nos momentos em que mais está precisando.

A santíssima bondade do personagem Ricardo irrita da mesma forma. Ama incondicionalmente a menina má, desde a sua mais tenra juventude, e aceita todas as idas e vindas daquela mulher, embora prometa, a cada vez que é abandonado, nunca mais sucumbir.

A história contada apenas sob essa ótica de romance frustrado em nada tem a ver com a rica narrativa composta por Vargas Llosa. A relação da menina má com o tradutor e intérprete da UNESCO, Ricardo Socomurcio é apenas um detalhe dentro da narrativa, um fio condutor. Dele o autor se vale para apresentar um panorama completo das sociedades francesa, inglesa e, principalmente, peruana, com todos os seus levantes e problemas, nas décadas de 60, 70, 80.

O Peru é o início de tudo, onde ocorre a infância dos protagonistas e seu primeiro desventurado encontro. A França, especificamente Paris, no auge de sua influência cultural, foi escolhida pelo protagonista como um objetivo de vida, um lugar ideal para se viver. Depois, no momento em que a Inglaterra assume o posto de irradiadora de cultura, com a revolta hippie, com o rock inglês e tudo o mais, passa a ser o lugar onde mais um reencontro entre Ricardo e a menina má acontece. O oriente, a cidade de Tóquio, com sua ascensão tecnológica é outro cenário. O Peru e seu contexto político encaminha o final da narrativa; há ainda uma passagem pela Espanha, e a trama encerra-se na França.

As pequenas histórias e personagens que circundam esse eixo principal são, da mesma forma, muito interessantes: o cozinheiro que recrutava guerrilheiros pra lutarem nas montanhas do Peru; o hippie peruano que foi adotado por uma nobre lady inglesa; o japonês depravado, insano, voyeur; o casal que adotou um filho vietnamita, mudo, que volta a falar; o construtor de quebra-mares peruano, a cuja ciência oculta os engenheiros mais experientes sucumbiam; a italiana cenógrafa que trabalhava quase que gratuitamente somente por amor à arte.

Há pessoas que consideram a obra uma alegoria das posições políticas do autor (relacionando o japonês sádico ao ex-presidente do Peru, Fujimori), ou um desabafo sentimental de Llosa, ou, ainda, uma representação da vida do autor no personagem Socomurcio. São todas leituras válidas, que eu fui descobrir após ler o livro e depois mesmo de ter escrito este post. Entretanto, o registro que fiz aqui é apenas de leitora, comprometida com a obra, sem tentar fazer uma análise extra-texto.

Nesse sentido, a obra vale a pena do início ao fim. Para aqueles que querem conhecer esse amplo panorama histórico, para quem quer revoltar-se com um relacionamento que parece não ter conserto, para quem quer se encantar com as histórias de vida de personagens muito distintos de nós e distintos entre si, ou para quem quer tudo isso condensado numa obra literária de qualidade. E também para quem quiser ir além, tentar extrapolar a barreira do literário e incursar numa leitura política, ideológica e histórica.



5 comentários:

Kelli Pedroso disse...

Um dos melhores livros que já li. Definitivamente.

Andrea disse...

Se me perguntassem,logo após finalizar a leitura, uma frase que resumisse o livro, eu responderia: "homem bom é homem corno".

Travessuras ganhou a minha simpátia nos primeiros capítulos, minha raiva na metade, meu desprezo no final... mas nunca me deixou neutra.

A filha de peruanos pobres, descrita como uma deusa por Ricardo (e com cara de puta usada na minha imaginação) sintetizou em um único personagem como as mulheres podem jogar sujo (ou sendo sincera - serem podres) com aqueles que as adoraram.

Leitura recomentada para aqueles que não gostam de passar imunes por um livro.

Teresa Azambuya disse...

Aháaaaa! Vocês já tinham lido esse livro? Que ótimo, assim os comentários ficam melhores ainda!

Karen Drago disse...

Bem, eu não li... ainda!! Me deu uma vontade danada de mergulhar nessa obra também! Grande dica!

Angela Dal Pos disse...

também não li, mas está na minha lista de leituras para esse ano.