quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Capitães da Areia



Os capitães são crianças quando veem um carrossel ou lembram de suas mães ao receberem o carinho de Dora, uma menina-moça cheia de maturidade e coragem, que é levada junto ao bando empurrada pela morte. Sem-perna é criança quando se depara com uma mãe de coração despedaçado, que o abraça, o veste e o ama como o menino que só ela enxerga. Pedro é criança quando escuta as histórias sobre o seu pai e a sua imaginação voa por não saber exatamente pelo que ele lutava.

Os capitães são adultos quando roubam, estupram e trapaceiam. Quando quase todo o grupo ignora as lágrimas de uma menina. Quando se arriscam para salvar uma imagem de um dos seus orixás. Quando atacam outros grupos. Quando listam suas regras e aplicam os seus castigos. João Grande é adulto quando defende Dora, colocando os seus princípios acima do grupo. Professor é adulto quando a dor de um amor morto o faz partir e usufruir o seu maior dom.

Jorge Amado é mestre ao levar o leitor às ruas da Bahia, vivendo junto aos meninos de rua, tornando-os íntimos, mas nem sempre amigos. Os cheiros, as dores, o ódio estão latentes nas páginas, e por isso é difícil muitas vezes lembrar que os Capitães da Areia são meninos e não homens. A reação de quem ler vai depender da própria experiência de vida. É possível sentir pena, é possível se sentir indiferente, é possível se aborrecer e pensar no por que a polícia não prende (nem na literatura) esses delinquentes.

É possível chorar. Imaginar o medo de quem os vê. Também é possível analisar como uma história de 1937 pode ser tão atual.

Este foi o primeiro livro que li de Jorge Amado, e fiquei positivamente impressionada com a sua escrita, pelo menos com essa história, que é apaixonante e real. Agora entendo a razão de sua fama e por que tantas de suas obras se tornam novelas, séries e filmes, pois ele é rico em detalhes e enlaces. Um autor que nenhum brasileiro pode deixar de ler, mesmo que seja apenas um livro.


*Capitães da Areia - Jorge Amado - Editora Record - 1937 - 231 páginas

** Versões atuais sairam pela Companhia das Letras

domingo, 1 de janeiro de 2012

Marcada








Marcada é o primeiro livro da série House of Night escrito pela autora P.C. Cast e sua filha Kristin Cast. Conta a história de Zoe Redbird, uma adolescente que foi “marcada”, o que significa que após um período em transformação irá virar uma vampira. Ela terá de abandonar sua vida pregressa para habitar a Morada da Noite. Em meio à rotina noturna de sua nova escola/lar, conhece as pessoas que se tornarão seus melhores amigos – Steve Rae, Erin, Shaunee, Damien e Eric, e se vê dotada de poderes que nem imaginava serem possíveis.

Neste mundo de vampiros novatos é que se passa a empolgante e adolescente história de Marcada.  Como introdução à série, certamente deve ser o livro mais fraco. Não cativa instantaneamente por conta da comparação com séries como Crepúsculo (inevitável, apesar de Marcada ser sem dúvida mais voltada ao público adolescente que a série de Meyer). Mas, mostra personalidade  e é um bom começo para uma coleção que tem tudo para entrar no hall de livros “febre do momento”.

Marcada trás Zoe, trás a adolescencia com suas impulsivas decisões e importantes amizades, trás valores, trás sedução – e vampiros não existem sem este quesito, trás o misticismo nos arabescos, nos rituais e, claro, nos poderes concedidos pela deusa da noite. 

Os vampiros são muitos pela literatura a fora mas, o que importa não é o que melhor os retrata ou quem copiou o que de quem. O que importa é as diferenças e igualdades dos mundos descritos, é a criatividade na relação entre o que já existe e o que pode ser inventado sem ser chato. E definitivamente, Marcada não é um livro chato. Tem nele o envolvimento que nos leva a querer ler mais e mais. 


CAST, P.c.; CAST, Kristin. Marcada. São Paulo: Novo Século, 2009. 328 p. (House f Night).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mais um ano se foi...



E vem aí um ano novinho para darmos continuidade a tudo aquilo que nos faz bem.

Ria,
chore,
seja sincero consigo mesmo,
ame aquele alguém especial,
dê atenção aos amigos...
E leia! Leia muito!!!

Um ótimo Natal e um Ano Novo próspero para todos os literamados leitores!





terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aurora Boreal



“A aurora boreal se contorce e gira como um dragão no céu noturno. Estrelas e planetas são obrigados a dar passagem a ela, esse grande milagre de luz trêmula, enquanto percorre tranquilamente seu caminho pela abóbada celeste.”

Na igreja de cristal, situada na gelada Kiruna, uma pequena cidade da Suécia, Viktor, o homem que morreu e voltou, e agora falava em nome de Deus, é mutilado em seu próprio território e tem o seu corpo encontrado pela irmã Sanna, uma mulher bonita e encantadora, mãe de duas meninas, que sob pressão se fecha em um mundo próprio.

Em Estocolmo, Rebecka esconde as lembranças do passado, e vive uma vida solitária, dedicando tudo a sua carreira como advogada tributária. Mas a morte de Viktor lhe puxa de volta para as origens.

Durante sete dias Rebecka irá reviver lembranças e perdas, ao mesmo tempo em que irá se deparar com fraudes que enriqueceram os pastores da Igreja da fonte de Toda a Nossa Força e mistérios que fazem com que todos os envolvidos diretamente com o morto fiquem calados. Entre um bilhete de ameaça e pontos que não formam a imagem da resposta, ela encontra nos policiais Anna-Maria e Sven-Erik o apoio necessário para desvendar o segredo encoberto pela morte de Viktor.

Rápido, cativante, Asa Larsson prende o leitor com o seu Aurora Boreal, deixando na última página um gosto de quero mais. Rebecka, sua personagem principal, cativa sem ter o perfil clássico de heroína, e conforme as páginas vão avançando, dúvidas e certezas se misturam na cabeça do leitor.

Uma curiosidade, assim como Stieg Larsson, a autora nomeia um dos seus personagens com o seu sobrenome.

Aurora Boreal
Asa Larsson
Tradução Francisco José M. Couto e Éric R. R. Heneault
Editora Planeta
2010
302 páginas

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Desfiladeiro do Medo



Na contracapa, Tarantino desfia uma série de adjetivos para o autor Clive Barker, que neste livro descreve através da propriedade chamada Coldheart Canyon toda a relação dos astros de Hollywood com a fama, com os fãs, com seus empresários, com os diretores dos estúdios e com eles mesmos.

Em um primeiro momento conhecemos Katya Lupi e seu empresário Zeffer, que para agradar a estrela, pelo qual é apaixonado, compra uma série de ladrilhos misteriosos na Romênia, que formam um conjunto de pinturas chamado de a caçada, e a transfere para uma sala especial na mansão da famosa atriz do cinema mudo.

Avançando no tempo, o leitor irá conhecer Todd Pickett, um homem bonito, que causa suspiro em muitas fãs e vê o tempo (e atores mais jovens) como o seu maior inimigo. Ao realizar uma cirurgia plástica que lhe causa mais danos do que benefícios, acaba por se esconder em uma antiga mansão e conhecendo a própria Katya, dona do local, que apesar de centenária permanece jovem, os espíritos que a cercam e a terra do demônio. Na companhia de sua anfitriã, verá antigos astros realizarem orgia e as estranhas criaturas por eles geradas.

A heroína da história é a fã obcecada Tammy, uma mulher infeliz com o casamento e com o próprio corpo, que se ocupa em acompanhar a carreira de Todd, e sai em busca do ator quando este desaparece. Ao mostrar sua coragem e bondade, acaba conquistando amigos improváveis.

O livro possui 700 páginas e poderia ter mantido o título original, Coldheart Canyon, assim como poderia ser reduzido pela metade, tamanho o besteirol escrito. Misturando espíritos, demônios e sexo, tendo muito mais foco para o sexo, o livro não assusta, nem causa arrepios, mesmo nos poucos assassinatos narrados. Muitas vezes fiquei pensando se o escritor havia sido esnobado por muitos astros, ou se é complexo de inferioridade, ou se a escrita é ruim mesmo.

Perdoem-me os que gostaram do livro, mas o achei superficial, bobo e longo demais para o fraco conteúdo apresentado.

O Desfiladeiro do Medo (Coldheart canyon)
Bertrand Brasil
2002
Tradução Ruy Jungmann
700 páginas

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Feliz Ano Novo




Meu primeiro contato com Rubem Fonseca se deu através do conto “O Cobrador”. Admirável, diferente de todos os contos que tinha lido até então. Uma nova forma de sentir medo. Um medo social. Mas foi com o conto Feliz Ano Novo que me vi rendida aos escritos do autor. O conto me marcou tanto, a ponto de ser a primeira coisa que me passou pela cabeça após o trauma de estar em uma casa invadida por assaltantes. Sempre que me lembro do conto, lembro deste episódio e vice versa.

Na semana passada o livro Feliz Ano Novo passou pelas minhas mãos na biblioteca em que trabalho. Não passou impune. Devorei cada conto me sentindo meio carioca, muito brasileira. São 15 contos que nos levam até a vida de pessoas que não tem nada ou quase nada a perder. Pobreza, falta de perspectiva, discriminação, abandono... Tudo retratado às vezes com humor, às vezes como simples e dura realidade.

Meus destaques (se não for muita ousadia), ficam com o humor de Corações Solitários, - do repórter que inventa as cartas a serem respondidas em um jornal feminino em que todos os funcionários são homens -, para Passeio Noturno I e II, - onde o bom marido desconta as amarguras em crimes singulares -, e para Intestino Grosso, - em que somos agraciados com a entrevista concedida por um autor tão louco quanto verdadeiro: “Já foi dito que o que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita”.

FONSECA, Rubem. Feliz ano novo. 2. ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 1989. 174 p.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Quase Memória




“Eu não devia dar tanta e tamanha importância a esse embrulho. Devia abri-lo e – pronto, era um mistério a menos, se é que é mistério mesmo. Assim como há dores-de-corno retroativas, há indecisões antigas que envergonham. Afinal, o embrulho está aqui, posso dispor dele, abri-lo, joga-lo fora, rasga-lo, ou nada fazer com ele, mantendo-o em sua condição de embrulho, e sua espécie de mistério”.

Quando o autor, Carlos Heitor Cony, recebeu do porteiro do hotel onde almoçava um embrulho com o seu nome, ao olha-lo reconheceu imediatamente a assinatura do remetente seu próprio pai. Uma identificação simplista se não fosse o fato dele ter falecido dez anos antes.

Sem conseguir se concentrar em outra coisa, Cony acaba se isolando em seu escritório com o embrulho e passa a dividir com o leitor sua avalanche de memórias, onde biografia e ficção se misturam ao recriar a história do jornalista Ernesto Cony Filho e por consequência a sua própria.

Entre jacarés e balões, viagens para lugares distantes ou que ficam só na imaginação, pequenos e grandes gestos arrancam sorrisos e lágrimas de quem se entrega a essa história encantadora.

A única advertência é que Cony pai e Cony filho podem provocar lembranças de quem teve um pai herói e uma dorzinha de inveja em quem teve esse posto vazio.

Quase Memórias
Carlos Heitor Cony
1995
223 páginas