terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Escola dos Sabores


Quando o pai de Lilian foi embora, sua mãe se refugiou nos livros deixando a menina de quatro anos duplamente sozinha. Em sua busca para reaver a comunicação com a mãe, encontrou a solução na comida e temperos.

Anos depois, dona do próprio restaurante, dedica a noite de segundas para ministrar aulas de culinária. Mas desta vez ela se depara com uma turma especial, cuja convivência irá mexer com todos, formando praticamente uma irmandade.

A narrativa de Erica Bauermeister em Escola dos Sabores é extremamente delicada e saborosa. Um livro rápido e envolvente, como o ciclo de sua história. Cada aula, com seus ingredientes, mexem na memória dos personagens e nos permitem conhecer um pouco de suas vidas.

Muitas mamães irão se identificar com Claire, que após o segundo filho ganha o curso e treme em sair de casa pela primeira vez. Ali está um pouquinho da culpa materna, do cheiro de leite na roupa, das dúvidas que acompanham ficar longe dos bebês e as mudanças no casamento.

Carl e Helen lembram os casais de margarina, após muitos anos de casamento, ainda andam juntos, como namorados. Mas é um bolo de casamento e um fondue que irão quebrar a superfície aparentemente perfeita e mostrar as muitas rachaduras que se precisa consertar na vida dois para que ela persista.

Já Antonia é a mulher independente, de família grande, mas longe do seu lar. Ela equilibra a modernidade e tradição, ao mesmo tempo em que as aulas lhe provocam uma tremenda saudade das pessoas que ama. 

Reserve as lágrimas para Tom e sua Charlie. A bonita história de amor interrompida por uma doença maldita, que torna os olhos do personagem sempre tristes. Perdido, ele acaba direcionado para a paixão da sua esposa, e fica a torcida para que ele se dê uma segunda chance.

Uma chance é tudo o que Chloe precisava, e é isso que ela recebe de Lilian. Trabalhando no restaurante, ela ganha a oportunidade de realizar o curso. Mais do que crescer dentro da área, é hora de rever as pessoas que escolhe para companhia e a própria imagem no espelho.

O esquecimento aflige Isabelle, cuja idade parece ter escondido suas melhores lembranças. Os cheiros talvez sejam a solução para retornar ao tempo em que decisões bruscas foram tomadas, mudando o rumo da sua vida radicalmente.

Ian é o nerd da história. Aplicado em se preparar para realizar cada tarefa, não desiste até conseguir. Eternamente cheio de perguntas, vai ao curso em busca de respostas, mas se depara com muitos pontos de interrogação.

Lilian é o centro de tudo, às vezes eu a via como um anjo. Seu sofrimento a fez crescer e se tornar um ser humano maravilhoso. Uma pequena lição da literatura para os reclamões de plantão.

Escola dos Sabores é um livro curto, não é cheio de detalhes, mas profundo o suficiente para prender o leitor do início ao fim. Uma leitura deliciosa como os pratos descritos, que faz desejar ter uma Lilian na sua cidade, para te ensinar a cozinhar e através dos cheiros e gostos realizar a melhor terapia do mundo: a do autoconhecimento.

Escola dos Sabores 
The school of essential ingredients
Erica Bauermeister
Tradução: Fernanda Abreu
Sextante
2009 – 222 páginas

domingo, 25 de janeiro de 2015

A Menina Sem Palavras Histórias de Mia Couto


Ao ler a introdução do livro, achei que este livro de contos se destinava ao público infantil. Grande engano. Embora tenha sido escrito em diferentes fases do autor Mia Couto, ele vai numa mistura de sentimentos, ações e momentos que fazem o leitor viajar pelas páginas de forma rápida e curiosa.

O primeiro conto inicia lúdico, onde o triângulo do pequeno pastor Azarias, os bois e bombas escondidas, são o pano de fundo para um tio egoísta e explorador. A segunda histórica começa com a história de uma mulher corcunda contata por um menino, que ao tentar imaginar o passado da pobre acaba se deparando com o inimaginável.

A menina sem palavras possui a delicadeza citada na introdução, algo que leva o leitor mar adentro, podendo deixa-lo mudo também. Em contrapartida O Apocalipse Privado do Tio Geguê me fez pensar em uma versão africana da música Faroeste Caboclo da Legião Urbana.

Mas se teve um que me deixou agoniada foi O Embondeiro Que Sonhava Pássaros, só de relembra-lo para escrever a resenha me deu um calafrio, um conto sobre o preconceito e ações impensadas, onde o radicalismo de uma opinião pode cobrar um preço alto demais.

Para aliviar a minha tristeza no conto anterior, veio As Baleias de Quissico, ao qual ouso resumir como a história de um sonhador. E a lúdica O Não Desaparecimento de Maria Sombrinha nos deixa sem ação em relação à família pobre e sua filha que regride.

A menina, as aves e o sangue podem causar estranhamento e talvez diversos entendimentos sobre a menina cujo coração para de bater. Em compensação A Filha da Solidão insere um pouco de risada em relação ao casal de portugueses e sua superprotegida Meninita.

O simbolismo encontra o seu representante mais forte no conto O Coração do Menino e o Menino do Coração, onde o amor pode ser transmitido por cartas e surpreender os mais descrentes.

Triste é o destino imposto pelo pai de Filomeninha em A Menina de Futuro Torcido. O desejo de que os filhos tornem os pais milionários sem avaliar o bem de quem só deveria se esperar a felicidade pode ser chocante ou esclarecedor. Para aliviar a vida do leitor, voltamos à comédia com Sapatos de Tacão Alto e a paixão de um menino por uma mulher misteriosa.

Respeito, Vida e Morte estão em Nas Águas do Tempo e o Rio das Quatro Luzes, através dos ensinamentos dos avós aos seus netos. Já a ironia está em O Nome Gordo de Isidorangela, a moça que ninguém tirava para dançar.

O ciúme familiar está em O Adiado Avô, onde Zedmundo se nega a conhecer o próprio neto e a festejar com os demais familiares. E tudo é finalizado por Inundação, uma história bonita que fecha este livro de contos com certa melancolia.

Segundo livro que leio do escritor Mia Couto, que me fez ficar ainda mais encantada por ele. Sua narrativa clara nos puxa pela mão, nos deixando muito próximos aos seus personagens. Fica a dica para quem procurava uma leitura para as férias de verão.

A menina sem palavras
Histórias de Mia Couto
Mia Couto
Companhia das Letras
2013 – 155 páginas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Fogo


Confesso que o primeiro livro da Guerra dos Tronos não me cativou totalmente, mas algo me fez partir para o segundo volume e eu viciei. Se o primeiro foi pura introdução, agora estamos em plena ação. Magia, espadas, estratégias, fugas, vida e morte se misturam, tornando a leitura das 624 páginas algo prazeroso e com gosto de quero mais.

Narrado por diferentes personagens, a expectativa no segundo volume era de qual (ou quais) iria morrer. E não houve decepção neste quesito. E talvez seja esse um dos trunfos da Guerra dos Tronos. Não são os mocinhos e bandidos os personagens principais, e sim a própria história.

Em A Fúria dos Reis o leitor pode acompanhar o destino dos filhos caçulas de Ned Stark. Enquanto Arya circula sem paradeiro, Sansa sobrevive no castelo e os menores Brandon e Rickon vivem situações não imaginadas para as suas idades. Embora existam capítulos narrados por Catelyn (a mãe), ela e Robb não possuem uma presença tão marcante. Aliás, sua narrativa está mais ligada aos irmãos Renly e Stannis do que aos seus próprios filhos.

A magia é representada pela mãe dos dragões Daenerys e por Stannis Baratheon. A não queimada segue guiando o seu povo com o objetivo de se recuperar o reino dos seus antepassados. Já o irmão mais velho do falecido Rei Robert não poupa esforços e sua união com a sacerdotisa Melisandre pode tornar a disputa bastante desleal.

Joffrey é o retrato da imaturidade de qualquer jovem, mas somado a uma crueldade que nem sua mãe, Cersei, consegue controlar. Em um período em que muitos desejam a coroa, os que estão próximos ao trono de ferro não encontram segurança.

Tyrion Lannister segue sendo um personagem surpreendente, sua inteligência e ironia conquistam e provocam uma torcida pela sua não morte (visto que o autor George R.R. Martin não poupa ninguém).

Fora da guerra e no meio do frio está o filho bastardo de Ned Stark: Jon Snow. Enquanto os demais brigam por um trono, ele e os outros membros da Patrulha da Noite saem em busca de uma ameaça que não irá distinguir lados.

A Fúria dos Reis incendeia os que já haviam virados fãs e captura os céticos. Todos lutam pelo poder, seja de amar, viver ou destruir. Em um mundo fictício encontramos o espelho do nosso mundo atual. A eterna guerra política. Religiosidade. A única opinião válida é a própria.

O inverno está chegando... e eu já estou ansiosa pelo terceiro volume.

A Guerra dos Tronos – A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Foco – Livro Dois
A Clash of Kings
George R.R. Martin
Tradução Jorge Candeias
Editora Leya
2011 – 653 páginas

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Há alguns anos minha mãe me trouxe anotado em um papel o nome de um livro com um título engraçado. Sugestão de uma conhecida que sabia como ela gostava de ler. O papel se perdeu, mas a casca de batata ficou gravada como algo inacabado.

2014 nos encontramos. O que dizer? Apaixonante. Um livro tão fofo que me despertou a vontade de entrar nas suas páginas e abraçar vários dos personagens. Sim, eu me apaixonei por Juliet e a sociedade literária.

Único livro da autora Mary Ann Shaffer, em conjunto com a sua sobrinha Annie Barrows, A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata é o tipo de história para se deixar envolver. Não foram raras as vezes que me senti uma amiga íntima dos personagens. Eu ri e chorei com eles. Sim, por um breve momento eu morei em Guernsey.

Narrado em forma de cartas, pelo estilo de escrita é possível ver a personalidade de cada um. Leve, rápido e direto, é uma leitura fácil e difícil de largar. E finaliza-la não foi uma ação feliz.

No pós-guerra, Juliet, uma escritora que fez sucesso com colunas leves em um jornal londrino, está em turnê para divulgar o seu livro. Enquanto busca uma ideia para uma nova história, recebe uma carta de Dawsey Adams pedindo ajuda para encontrar um livro de Charles Lamb. Desta forma ela toma conhecimento da sociedade literária, criada na urgência de escapar da punição dos alemães, que estavam ocupando o local no período.

O que começa com um simples pedido de informação, acaba se tornando um meio de contato, e Julie consegue trocar cartas com vários membros da sociedade, inevitavelmente ela resolve conhece-los, e todos se tornam irremediavelmente ligados.

Uma história de risos e lágrimas, perdas e ganhos, corajosos e invejosos. Delicioso para os que amam literatura. Um livro que entra na mente e no coração, e nos faz lamentar a morte da escritora, que não irá mais nos oferecer outras obras assim, ao mesmo tempo em que nos faz agradecer por nos deixar essa preciosidade.


A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata
The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society
Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
Tradução Léa Viveiros de Castro
Editora Rocco

2008 – 303 páginas

sábado, 26 de julho de 2014

A Culpa é das Estrelas

Hazel Grace tem 16 anos e tireoide com metástase nos pulmões. Ela também é obcecada por um livro chamado Uma aflição imperial e assiste a todo santo dia um reality show de modelos. Frequenta um grupo de apoio obrigada por sua mãe, que acredita ser um local de amizades para sua única filha.

Em um dos encontros ela se depara com um rapaz que irá mudar a sua rotina: Augustos é um jovem que perdeu sua perna e o basquete para o câncer. Bonito, está apenas acompanhando o amigo Isaak que ficará cego em breve. Uma troca de olhares, breves palavras, um convite, e a paixão quando não se espera mais nada.

A Culpa é das Estrelas é um livro de adolescentes, mas não só para adolescentes.

É sobre o amor, mas também é sobre morte.

É sobre perdas, mas também sobre ganhos.

Correr atrás dos sonhos, que podem ser próprios, ou serem compartilhados.

A leitura é rápida, apesar de pesada. Muitos parágrafos são um soco no estômago. Existe alegria, mas sempre acompanhada de uma sombra de tristeza. É por isso que ao contrário da afirmação de Marcus Zusak, eu não consegui rir, e também não chorei.

Apenas senti o coração apertado, em relação à Hanzel, Augusto, Isaak e os pais, papéis secundários que tentam não ficar apenas com a saudade.

Não é um livro para relaxar. E sim para repensar. Ao chegar à última página, você pode refletir sobre os personagens ou sobre a própria vida. Talvez fique satisfeito, ou sinta uma vontade enorme de recomeçar.

O único fato absoluto é que não há como ficar indiferente ao término da leitura.

A Culpa é das estrelas
The fault in our stars
John Green
Tradução Renata Pettengill
Editora Intrínseca

2012 – 286 páginas

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Reencontro Mortal

No décimo quarto livro da série as mulheres estão em foco. Amor, ódio, amizade, rancor, família e vingança se misturam em dois casos que irão mexer com as personagens.

Começando pela tenente Eve Dallas que terá um encontro duplo com o passado através da figura de Julianna Dunne, uma mulher vaidosa e fria, que usou um falso estupro para aliviar a pena por ter assassinado seus maridos, homens velhos e ricos. Solta, ela vai atrás da única mulher pertencente ao grupo que a prendeu.

Para coloca-la novamente atrás das grades, sem dar chance de a justiça falhar novamente, a tenente precisa investigar o passado da assassina, que tem o seu início na cidade de Dallas, local onde Eve foi encontrada ainda criança.

Em Nova York, Peabody junta às peças de um antigo caso, no melhor estilo Cold Case, onde uma mulher apaixonada pelo marido é morta por um amante misterioso, cujo único sinal de vida são as cartas encontradas na gaveta de roupas íntimas da vítima.

Se por um lado este livro retorna para o lugar comum de Roarke ser o foco do antagonista de Eve, por outro momentos reveladores surgem com a viagem de Dallas (possibilitando assim um acerto de contas com a sua origem) e chegada dos pais de Peabody. Tornando o livro mais pesado que os anteriores devido à carga emocional.

Na parte romântica, Eve e Roarke completam o seu primeiro ano de casados sem perder a paixão, com uma Eve mais solta em revelar os seus sentimentos.

Uma curiosidade: a assassina do livro muda diversas vezes de nome, mas sempre mantendo as iniciais do verdadeiro, que nada mais é do que o pseudônimo da autora Nora Roberts para a série.

Reencontro Mortal
Nora Robert – J.D. Robb
Tradução Renato Motta

Editora Bertrand Brasil

domingo, 15 de junho de 2014

Um Dia

Se Em fosse de carne e osso, eu queria que ela fosse minha amiga. E isso me fez passar quase todo o livro brigando com o autor, desejando que surgisse um cara que a fizesse esquecer Dex. Também foi Em a responsável por muitas lágrimas no final de uma noite, onde a tristeza me dominou e me fez ter um sono vazio de sonhos.

Não consegui simpatizar com Dex. Nem na alegria, muito menos na tristeza. É um homem egoísta e banana. Um exemplo de embalagem bonita, mas vazia. Passei quatrocentas páginas tentando entender o que Em viu nele, foi quando recordei que toda mulher, pelo menos uma vez na vida, sofre de diarreia mental. No caso de Em, logo após ela dar a descarga, a dita voltava.

Mas não pensem que Em é uma mulher maravilha, não mesmo, ela é adoravelmente comum, tem muitos sonhos, mas me parece tão perdida que não corre atrás de nenhum. Só que ela tem uma espontaneidade encantadora, hora sendo uma menina do interior, outra uma rebelde. Sente medo, fala sem pensar, ao mesmo tempo em que não expressa os seus verdadeiros desejos. Passeia entre o conformismo e o revolucionário, talvez por isso a escrita seja a sua melhor e pior amiga.

Vamos à história: Em e Dex passam a noite juntos no dia da formatura, é 15 de julho de 1988, um futuro os aguarda. Ele irá viajar pelo mundo, ela não sabe. A partir dai, o leitor irá acompanha-los durante vinte anos na mesma data, seus encontros, desencontros, brigas e desilusões.

O livro de David Nicholls é charmoso e engana o leitor, pois o que parece óbvio é dolorosamente desfeito. Curiosamente me recordou uma safra de filmes do final dos anos noventa, encabeçados por Cidade dos Anjos, onde felizes para sempre só se for agora, pois o dia de amanhã é nebuloso.

Não assisti ao filme, e a menos que ele apareça por acaso na minha tv, não irei me esforçar para ver. Tenho os personagens bem construídos na minha mente, e não quero me desfazer da imagem deles.

Um Dia (One Days)
David Nicholls
Tradução: Claudio Carina
Editora Intrínseca
1997 – 411 páginas