segunda-feira, 7 de março de 2011

Budapeste



Primeira impressão: estonteante.

Budapeste, de Chico Buarque, lançado em 2003, é um livro que parece um delírio, uma tontura. Você entra nele achando que José Costa é um narrador-personagem que está contando sua aventura (ou desventura) como ghost-writer, e você sai ao final da leitura sem nem mesmo saber quem é autor, quem é narrador, quem é personagem. Além do conteúdo da obra, a própria concepção gráfica aponta para isso: na capa, está o título, Budapeste, com a inscrição do nome de seu autor, Chico Buarque. Na contracapa, as palavras estão em espelho e lê-se o título, como se fosse húngaro, "Budapest", mas o nome do autor é outro, José Costa, que é o protagonista do livro.

Você não entendeu nada? Pois é, é essa sensação que o livro dá. Você lê e fica ressabiado, achando tudo meio confuso e fascinante.

Tentando ser mais clara: bem, Budapeste narra a história de um ghost-writer chamado José Costa, que é casado com uma telejornalista com quem mantém uma relação estranha, ou distante. Ele, por um imprevisto, acaba chegando a Budapeste, onde conhece Kriska que se torna sua professora de húngaro e com quem ele acaba tendo um envolvimento. A questão é que a história desse personagem confunde-se com a história dos próprios livros que ele escreve, o que parece um jogo de espelhos - uma história refletindo e sendo refletida na outra. Ao final da leitura, você chega um tanto perturbado e confuso, uma vertigem, como bem caracterizou na orelha do livro o escritor Luís Fernando Veríssimo. A obra também foi elogiada por Saramago, o que, por si só, já é muito.

Segunda impressão: questionável.

Depois que eu li o livro, depois que aquela tontura passou, comecei a pensar mais detidamente em algumas questões. A da verossimilhança, por exemplo. Esse é um princípio básico para qualquer obra literária. E, ao analisar o livro em questão, fiquei me perguntando se seria mesmo verossímil que um ghost-writer pudesse ter tanto dinheiro de forma a bancar estadia de um mês em Budapeste, sem se preocupar com compromissos profissionais e com dinheiro sobrando para pagar suas despesas (incluindo aí o pagamento de sua professora de húngaro). Mas tá, demos um desconto, combinemos que isso fosse possível. Agora, quando de seu retorno ao Brasil, José Costa passa mais de cem dias num hotel, sem pagar um centavo pelas diárias, comendo e bebendo o que sobra das refeições deixadas pelos outros hóspedes nos corredores. E a administração do hotel apenas liga para ele e lhe manda um aviso por escrito! Isso me parece pouco verossímil, mesmo para o contexto do livro. Há outros detalhes sobre os quais eu poderia comentar aqui, mas fica esse desafio para quem se aventurar a ler a obra.

Em suma, embora eu questione alguns pontos, o livro em si é muito bom. Numa escala entre amores e horrores, eu diria que é uma obra que vale a pena ser lida. Isso sendo bem precisa, claro.

2 comentários:

Andrea disse...

Se o livro for tão bom quanto a tua resenha, com certeza vale a pena ser lido. Pois as tuas duas impressões mexeram com a minha curiosidade.

Bjos,

Anônimo disse...

Gostei da primeira parte da resenha, porém em seguida você derrapou ao abordar a questão da verossimilhança, pois literariamente falando verossimilhança é diferente do conceito que você atribuiu.
Indico algum mediador do termo à luz de Aristóteles.
Abraço.