terça-feira, 19 de março de 2019

A Vendedora de Livros



Sinopse: Denver- 1962: Kitty Miller já se acostumou à vida de solteira. Ela ama a livraria que gerencia com a melhor amiga, Frieda, e adora ser dona do próprio nariz. Ela pode ir aonde quiser, quando quiser, e não deve satisfações a ninguém. Denver-1963: Katharyn Andersson é casada com Lars, o amor de sua vida. Eles têm filhos lindos, uma casa elegante e bons amigos. É tudo que Kitty Miller um dia desejou para si - mas essa vida só existe em seus sonhos. No entanto, toda vez que Kitty sonha com a vida de Katharyn, passa a achar aquela versão de si mais irresistível, mais verdadeira. Como escolher entre qual das duas vidas que leva paralelamente é a que quer viver? E qual será o preço de permanecer Kitty, ouse transformar de uma vez em Katharyn?


Este não é o meu quarto! Onde estou? 

É desta forma que o leitor começa a entrar na vida de Kitty/Katharyn, a mesma mulher que em um momento é solteira, sócia de uma pequena livraria em crise, que possui laços fortes com os pais e vive de forma independe. Quando ela dorme, ela se torna uma mulher casada, mãe de três crianças pequenas, sendo um dos meninos autista, e dona de casa.

Em cada uma das vidas ela se vê realizando sonhos e com problemas a resolver. E conforme os tempos vão se mesclando, fica cada fez mais difícil para a personagem saber qual é a sua vida real e qual é a vida imaginária. 

É muito otimista que meu cérebro tenha imaginado um marido que pode comprar um diamante desse tamanho.

Livro de estreia da escritora americana Cynthia Swanson, A Vendedora de Livros é instigante e reflexivo ao tratar de um tema recorrente no ser humano: a eterna insatisfação do que temos. Ao viver duas vidas, uma em 1962 e outra em 1963, onde o que as difere são justamente o se eu tivesse feito isso, no caso específico do livro se ela conseguisse socorrer Lars, o marido de Katharyn ao qual Kitty apenas ficou esperando em uma cafeteria. E nesta provocação Kitty/Katharyn mostra ao leitor que não existe vida perfeita, que independente do caminho escolhido haverá risadas e lágrimas, e não é no passado ou no futuro que iremos nos encontrar.

Narrado em primeira pessoa, vivemos as mesmas confusões de Kitty/Katharyn, o que faz com que os olhos devorem as páginas em busca de respostas. A cada descoberta nos surpreendemos junto com a personagem, e não raro se pode bolar teorias para a razão de ela ter criado outra vida para fugir da sua realidade.  E como não temos a visão dos demais personagens, não se sabe quem está certo ao afirmar onde é a sua vida verdadeira.

Será que tem algum outro lugar onde eu possa procurar? Alguma pista que deixei escapar?

Por ser uma dona de livraria, o livro é recheado de referências bibliográficas, começando pelo gato da personagem que se chama Aslam – o leão de As Crônicas de Nárnia – passando pelos livros que ela seleciona para indicar aos seus clientes e conhecidos. Eles também são elos entre as duas vidas, e sua participação não são mera coincidência.

Além dos livros a personagem é bastante musical, possibilitando a criação de uma playlist somente com os sucessos dos anos 60, sendo Patsy Cline a cantora favorita da personagem. Alias pequenas partes das letras de música country de Patsy podem ser encontradas nos capítulos do livro, sendo também um elo entre os dois mundos.

No entanto, teria preferido que minha personagem neste sonho fosse um pouco mais moderna.

Em relação às roupas a personagem possui estilos opostos em cada vida. Solteira ela tem um estilo despojado de cores vibrantes e um cabelo indomável, como Katharyn ela tem Jackie Kennedy como referência, cores sóbrias e cabelos arrumados fazem parte da sua rotina. 

Uma área bastante delicada no livro é justamente a relação de Katharyn com Michael, o filho autista. Ao mesmo tempo em que ele quebra a perfeição de um dos mundos, existe todo um contexto sobre preconceito e aceitação de mães e filhos e convivem com esta doença.

Então, após mais de uma semana de sono sem sonhos, minhas visões noturnas retornaram.

Um livro sobre família, amor, amizade, perdas, desejos e valorização. É impossível não se encantar e não entender Kitty/Katharyn, ao mesmo tempo em que o leitor pode fechar a última página e refletir sobre o seu próprio presente sem precisar dormir e entrar em outra vida.

A Vendedora de Livros
The Bookseller
Cynthia Swanson
Tradução: Julia Romeu
TAG Inéditos – SUMA
2015 – 380 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Primavera num espelho partido



Sinopse: Primavera num espelho partido é um livro arrebatador, que conta a trajetória de uma família separada pela prisão e pelo desterro, mas que sobrevive graças à esperança. O romance intercala múltiplas vozes narrativas, incluindo a do próprio Benedetti, que vivenciou a violência da ditadura e passou parte de sua vida exilado. Ao entrelaçá-las, o autor compõe um mosaico de impressões e sentimentos, num livro marcante sobre a resistência do amor em tempos sombrios.

Para o mês de fevereiro/2019 a TAG Curadoria enviou para os seus associados a obra indicada pelo escritor brasileiro Julián Fuks.

Durante a década de 1970, em plena ditadura uruguaia, uma família composta de pai, mãe, filha e avô contam a separação devido à prisão do primeiro. Completando a narrativa está um amigo e o próprio autor, que conforme é indicado na sinopse do livro, compartilha suas próprias memórias.

Sempre tem alguém que está pior, como concluía Esopo. E até pior do que o pior, concluo eu.

Santiago é o pai, que permanece preso no Uruguai e escreve cartas para a família que está na Argentina em exílio. É ele o primeiro personagem apresentado, mas não é o único responsável por toda a mudança na vida familiar, visto que a sua esposa também era militante. 

Em terras Argentinas estão os demais personagens, como a mãe Graciela e a filha Beatriz. Mesmo juntas, existe uma distância entre elas, como o fato de Beatriz só chamar Graciela de mãe quando deseja agradá-la. 

É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua para de vê-lo como um estranho.

Narrado em terceira pessoa, a parte de Graciela mostra uma mulher forte, que trabalha e agora se vê cheia de dúvidas com a longa separação. Ao mesmo tempo é a responsável pela parte mais inverossímil do livro.

Já a narrativa da menina Beatriz é uma das mais agradáveis, e ao mesmo tempo reais em relação aos personagens. Sua visão está na saudade e nas mudanças, no que ela percebe e no que ela imagina, rendendo alguns momentos cômicos na história.

As notícias do rádio não somente não eram tediosas, como nos bons tempos, às vezes chegavam a ser arrepiantes, já que em janeiro de 1975 costumavam aparecer dez ou doze cadáveres diários nas lixeiras portenhas.

O pai de Santiago, Don Rafael, compartilha com o leitor suas dúvidas, histórias e culpas. Entre a nostalgia e a atualidade, parece que as cartas acabam aproximando mais pai e filho, já que aqui também há um distanciamento parental, antes muito maior que a distância física.

Fechando o quinteto temos o amigo Rolando Asuero, o solteirão da turma que dá uma ideia de como era o antes de todos os seus companheiros se separem, sejam pela prisão, pelo exílio ou pela morte.

Eu não tirito porque sou menina e não velhinha e também porque me sento perto da estufa.

Entre os personagens, o próprio Mario divide as suas histórias do exílio, usando a narrativa em primeira pessoa e letras em itálico. E na minha opinião, junto com os capítulos de Beatriz, são os mais interessantes. Neles estão suas mudanças de país, as pessoas que encontrava pelo caminho, as mudanças que aconteciam em Cuba em uma visão apaixonada que o socialismo de Che provocava na época.

Mario Benedetti muda o estilo narrativo conforme o personagem, mais do que alterar entre primeira e terceira pessoa, está o uso de cartas – recurso que eu vi sendo utilizado por Amós OZ em seu maravilho A caixa-preta, ou apenas contando o que está acontecendo – recurso utilizado em outro livro que eu acho muito interessante chamado Meu Nome é Vermelho de Orhan Pamuk.

Mas as mulheres sempre tinham fofocas e modas e horóscopos e receitas de cozinha para trocar, pelo menos naquela época, e talvez por isso eles sempre se reuniam à parte para consertar o mundo.

O problema é que esta mistura de recursos nem sempre é muito fácil para o leitor e creio, nem para o escritor, já que a história exige uma atenção extra para seguir cada fio condutor até eles se unirem. No caso de Primavera num espelho partido, em alguns momentos fica a sensação de superficialidade, mesmo tendo um tema tão tenso e que até hoje provoca acaloradas discussões.

Um exemplo é a própria apresentação dos personagens, logo de início você não sabe sobre quem está se falando, fica-se perdido tentando encaixar as peças, tornando assim a intensidade da história secundária. Imaginei que o objetivo do autor talvez você transferir para o leitor o sentimento de estranhamento, de perda de identidade em um local estranho, mas o efeito colateral pode ser justamente um distanciamento dos fatos.

Também deve imaginar que, mesmo que ele e eu tivéssemos tido todas essas discussões em profundidade, ele teria seguido o caminho que definitivamente escolheu de qualquer maneira.

Digo pouca intensidade pelo fato de que a falta de detalhes acaba não criando laços e sim muito mais perguntas sobre eles, parecendo tudo muito ensaiado, sem paixão na escrita. Por isso assumo que apenas literaturei Primavera num espelho partido, que mesmo de leitura rápida não me provocava o desejo de saber o que viria a seguir.

Mas isso não me impede de recomendar o livro. Parece loucura? Pode ser. Mas por outro lado a escrita de Mario Benedetti é fácil, e consegue sim dar uma visão de algumas das consequências da ditadura para quem só ouviu falar sobre ela, e sem saber, vive até hoje os seus efeitos colaterais.

Primavera num espelho partido
Primavera con una esquina rota
Mario Benedetti
Tradução: Eliana Aguiar
TAG Curadoria – Alfaguara
2009 – 238 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Alfabeto dos Ossos



Sinopse: O poeta Archie Lunan queria ser escritor de ficção científica. Por causa da vida desregrada e da personalidade polêmica, tudo o que conseguiu foi publicar um pequeno livro de poesias. Depois que se mudou para a remota ilha Lismore, na Escócia, as coisas nunca mais entraram nos eixos. Acabou desaparecendo no mar, sem deixar rastro, e sob fortes suspeitas de suicídio. Morreu sem ter seu talento reconhecido. Quando ainda era adolescente, Murray Watson se encantou pela obra de Archie e se tornou seu maior admirador. Hoje, porém, como professor universitário, sua carreira está tão conturbada e fadada ao insucesso quanto a do poeta. Sua única satisfação é pesquisar a fundo a história de seu autor preferido.

Na sua juventude Murray Watson encontra a única obra de Archi Lunan e se apaixona pela escrita do poeta que sonhava em ser escritor de ficção científica. Anos depois, como professor universitário, escolhe a biografia do escritor como a tese do seu doutorado para colocar o nome de Archi na história da literatura.

Conforme ele tenta pesquisar em bibliotecas ou entrar em contato com antigos conhecidos se depara com uma escuridão, onde nem a morte do escritor é clara, já que ele desapareceu no mar. O silêncio e as informações selecionadas não lhe fornecem nem uma base para começar, e nesta busca ele acaba tendo que enfrentar os seus próprios demônios.

Algumas totalmente escritas com uma letrinha miúda, como as cartas de um condenado para a família.

Identificado como um livro que mistura suspense e romance policial, inicialmente Louise Welsh me fez lembrar de um escritor dizendo que todo livro neste estilo precisa ter cenas de sexo. Só que este clichê nesta história em especifico acaba mais atrapalhando do que ajudando.

Aqui me refiro a um capítulo que poderia ser chave, mas acaba na superficialidade total: Murray vai até a casa da viúva do sociólogo Alan Garret que também estava pesquisando sobre Archi, mas não em relação a sua obra, mas o seu possível suicídio. Garret morre em um acidente de carro sem explicação na mesma ilha onde o poeta desaparece. Toda a pesquisa descrita poderia situar o leitor da base da obra, se não fossem as páginas de sedução forçada seguida de sexo com a viúva.

Como podia guardar tantas datas, aspectos e versos, e esquecer uma mulher bonita?

Somado a isto há toda a questão da relação familiar com o irmão mais novo e um trauma/culpa não resolvido em relação ao pai que não fica muito claro de início e se perde em meio a descrições superficiais, tornando a história um tanto desconexa em alguns momentos. E com isto o foco acaba mais nas discussões familiares e desilusão amorosa de Murray do que nas poucas pistas que vão surgindo no decorrer do livro.

Mas é quando Murray chega à ilha Lismore na Escócia, última moradia de Archi e atual de sua viúva que a minha ficha como leitora cai: não estamos falando de um romance policial e muito menos de suspense. É um livro sobre a psicologia humana, e um ciclo que envolve mentiras, vaidade e suicídio, onde ouso dizer principalmente o que leva ao último.

Era isso o que eles estavam fazendo, desafiando águas perigosas, e nenhum deles possuía um par de nadadeiras.

Neste momento o tédio abre uma brecha para a curiosidade, e entre conversas e descobertas observa-se a rivalidade acadêmica, onde um talento que foge do tradicional é colocado à sombra pelos seus colegas ao escolher o tumulo como altar. A mesma rivalidade se vê entre os professores da instituição onde Murray leciona, cujo troféu é representado por uma mulher.

A morte aqui tem dois papeis: a de desafiar e a de libertar dos fantasmas que perseguem os personagens, mesmo que para um caminho que se desconhece. E somente quando você a entende como personagem, a presença, mesmo que rápida, dos secundários começa a ter sentido. Abrindo assim para Murray e quem o acompanha a vida do próprio Archi.

Talvez pudesse abordar o assunto mencionando sua própria experiência em vasculhar os detritos que os mortos deixaram para trás.

Terminei este livro sem uma opinião definitiva. Quando estava no final, achei as páginas faltantes muito poucas para o leque que havia se aberto. E talvez seja isso o que me incomode no livro: quando a essência dele apareceu, já era o seu final, e ele possuía potencial para ser bem mais explorado.


Alfabeto dos Ossos
Naming the Bones
Louise Welsh
Tradução: Bruna Hartstein
Bertrand Brasil
2010 – 460 páginas

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A Velocidade da Luz



Sinopse: Espanha, final dos anos 80. Um convite para lecionar em uma cidade no interior dos Estados Unidos muda para sempre a vida de um jovem aspirante a escritor. Lá, ele conhece Rodney Falk, homem cínico, culto e marcado por um terrível segredo de guerra. A partir desse encontro, os personagens - tão complexos e humanos - desenvolverão uma relação tumultuosa que culminará em um enfrentamento trágico da realidade e os seus demônios.

A TAG Curadoria iniciou o ano de 2018 com a indicação do escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza, que me apresentou o escritor espanhol Javier Cercas e um dos livros que entrou para a minha lista de favoritos: A Velocidade da Luz.

Um aspirante a escritor na cidade de Barcelona recebe o convite para dar aulas em Urbana, uma pequena cidade nos Estados Unidos. Neste ambiente tão diferente ele conhece Rodney Falk, um professor um tanto misterioso que vive a parte dos demais docentes. E essa amizade irá marca-lo em definitivo ao ter em suas mãos as cartas que o seu amigo enviava ao pai durante o tempo que serviu ao exercito na guerra do Vietnã.

Hoje eu levo uma vida falsa, uma vida apócrifa, e clandestina, e invisível, porém mais verdadeira que uma vida de verdade.

O livro de Javier Cercas possui três bases para capturar o leitor: a própria literatura, a psicologia humana e uma guerra. Os três possuem munições suficientes para uma discussão conforme o olhar do seu leitor, já que o livro em si não possui lado, não faz julgamento, apenas conta sobre duas vidas e seus traumas em uma mistura de ficção e realidade.

Curiosamente o livro também possui três cidades de referência: Girona, Urbana e Barcelona, esta última com mais um autor espanhol utilizando de seu lado sombrio para intensificar os sentimentos contraditórios de seu personagem.

...quem sempre sabe aonde vai nunca chega a lugar nenhum, e que a gente só sabe o que quer dizer quando isso já foi dito.

A guerra do Vietnã tem como personagem Rodney, um jovem culto e inteligente que se obriga a ir para uma guerra que não acredita apenas para não decepcionar o seu pai, um veterano da segunda guerra mundial que tem muito orgulho de ter ajudado a salvar o mundo. O homem que retorna é muito diferente, entre as perdas estão o da sua essência, fazendo com que Rodney se construa e descontrua conforme as situações enfrentadas.

Em um dos seus sumiços, o narrador sai em sua busca e acaba recebendo as cartas. Conforme o horror vai acontecendo, uma mudança no conteúdo é evidente, da inocência perdida após a morte do irmão, muitas dúvidas irão surgir na cabeça do narrador, que leva o leitor junto na busca por respostas. E sim, a história de Rodney daria um livro próprio, mas ela é a inspiração do nosso narrador, que precisa dividir o que acontece com ele conforme a ideia da história é construída.

É possível que logo tenha entendido que ninguém volta do Vietnã; que, para quem esteve lá, o regresso é impossível.

O psicológico permite o contraponto entre os dois personagens principais da história: se Rodney possui cultura e luta com os seus monstros internos, o narrador é superficial. Não é difícil desgostar de quem conta a história, seu egoísmo e deslumbramento podem fazer o leitor esnobar os seus sentimentos de culpa conforme os ciclos se repetem. Ele é humano? Sim. O livro escrito pelo narrador parece uma forma de expurgar a culpa? Talvez. Conseguimos ver os dois como espelhos, como muitas vezes o narrador tenta nos induzir? Irá depender de quem está lendo.

...a melhor maneira de contar uma história é não conta-la.

E a literatura? Ah, ela está nas várias referências bibliográficas como Hemingway e Mercè Rodoreda, nos conselhos de Rodney para que um escritor não sucumba ao sucesso, ao gosto de ter seus livros vendidos, a dificuldade de contar uma história quando você começa a fazer parte dela. Ela é o próprio livro quando você não sabe se o narrador é realmente fictício ou autobiográfico, quando ele fica anos escrevendo suas histórias acreditando que aquilo é uma forma de vida, quando a escrita faz a vontade dos olhos se abrirem voltar.

E para quem é assinante da TAG, o posfácio de João Anzanello Carrascoza pode mexer ainda mais com a cabeça do leitor e os seus pontos de interrogações.

  ...agora era eu o homem mais sozinho do mundo, um animal perdido no meio de uma manda de animais de outra espécie...

Por esta história multifacetada, de escrita fácil e leitura rápida, mas de pensamentos longos e muitas teorias, que eu me encantei pela Velocidade da Luz e por Javier Cercas. Um livro para quem deseja escrever, para quem deseja uma boa história, para quem gosta de uma mistura de fracasso, sucesso e culpa.

A Velocidade da Luz
La Velocidad de la luz
Javier Cercas
Tradução Sérgio Molina
TAG – Biblioteca Azul
2001 – 268 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Eu sou um gato



Sinpse: Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar.

Publicado em forma de série em uma revista, os onze capítulos desta obra narram toda a inteligência, consciência, comportamento humano e intelectualidade do início do século XX em terras japonesas (embora sirva perfeitamente para os nossos dias atuais) na visão de um gato sem humildade nenhuma, cujo amo é definido pela sua imbecilidade.

Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. 

Logo na nota dos editores podemos observar a primeira curiosidade do livro, o nome do autor é um pseudônimo, seu sobrenome, Soseki, em chinês significa incômodo/estorvo. O que parece descrever o seu sentimento por vários dos personagens da história, e talvez como ele mesmo se sentisse, já que a sua vida não pode ser categorizada como fácil.

Como escrevi no primeiro parágrafo, quem conta esta história de forma irônica, debochada e às vezes um tanto preguiçosa é um gato. Um gato sem nome. Um gato abandonado que ainda filhotinho achou uma casa e o seu amo. No local às vezes é pisado, às vezes vira saco de pancada, e assim ele acabou sendo apenas um bicho que por ali ficou, circulando entre as casas da vizinhança, ampliando a narrativa para além da área central.

Minha inteligência é indubitavelmente superior à dele, estou certo disso, mas não me comparo a ele quando se trata de força física e coragem.

O seu amo é o professor Kushami, casado com uma mulher sem estudos e submissa, com filhas pequenas e uma empregada. Além deles, amigos e ex-alunos frequentam a casa, onde há discussões que vão da literatura, passando por fatos históricos, até conversas simples do cotidiano. Um dos mais divertidos é Meitei, com uma mente mirabolante, suas histórias misturam realidade e fantasia de uma forma um tanto engraçada. 

Um dos eventos principais da história está na chegada da família Kaneda e um suposto interesse de Kangestu – um ex-aluno de Kushami e um doutorando que passa polindo bolas de vidro – em se casar com a filha do empresário. Como o comportamento da Sra. Kaneda não é exatamente simpático ao questionar Kushami sobre o pretendente, somado ao desprezo que o professor sente por homens de negócio como o marido da mulher em questão, logo o nariz da senhora vira o assunto principal das conversas, estas escutadas por vizinhos que levam as fofocas quentinhas aos interessados, que insultados acabam provocando situações ainda mais ridículas na história.

Em um mundo onde há humanos que se vangloriam de terem sido cobiçados por alguém que era apenas estrábico, semelhante engano não é nada de se espantar, e eu continuei a receber calmamente suas carícias. 

O livro é cheio de observações de rodapé, sejam para listar autores ou fatos históricos aos quais os pseudo-intelectuais estão discutindo. E o engraçado de tudo, é que em muitos momentos o professor Kushami me passa o sentimento de ser o alter ego de Soseki, pelas semelhanças físicas assinaladas nas mesmas notas.

E mesmo sendo uma crítica à sociedade japonesa da época, muita das frases são mais atuais do que nunca, como uma parte que me chamou especialmente a atenção e assim diz: “Só pensamos em nós mesmos, ao irmos dormir, aos nos levantarmos, em todas as ocasiões reverenciamos nosso eu. Por isso, as ações e palavras se tornaram artificiais, impacientes e asfixiantes.” . Confesso que fiquei tentando imaginar o que Soseki escreveria se estivesse vivendo os dias de hoje.

Um livro para ler com calma e como um gato se aconchegar em um lugar macio para se perder em reflexões.


Eu sou um gato
Wagahai wa neko de aru
Natsume Soseki
Tradução Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade
1905 – 486 páginas

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Coração é um caçador solitário



Sinopse: Sul dos Estados Unidos, 1939. A par de seus problemas particulares e intransferíveis, o dono de bar Biff Brannon, o mudo John Singer, a adolescente Mick, o médico negro Benedict Copeland e o agitador marxista Jake Blount vivem o flagelo comum da solidão e da incomunicabilidade. Nesta narrativa vívida e pungente, Carson McCullers revela os desejos mais secretos de cada um, equilibrando com maestria o retrato social e a investigação psicológica.

O título poético pertence a Carson McCullers, uma das escritoras mais influentes do século 20, e foi lançado quando a americana possuía apenas 23 anos de idade. Indicado pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, O Coração é um Caçador Solitário foi o livro de dezembro/2018 da TAG Curadoria.

A história ocorre no final dos anos 30 e seus personagens ainda vivem com as consequências da grande depressão.  No centro temos John Singer, um homem surdo que vê o seu companheiro ser levado e internado em uma clínica. Perdido, ele aluga um quarto na casa de uma família, e a partir deste ponto outros quatro personagens passam a considerado o seu melhor confidente.

Os dois mudos não tinham outros amigos e, a não ser quando estavam trabalhando, ficavam o tempo todo a sós.

Benedict Copeland é um homem culto, médico formado, e importante na sua comunidade. E ele também é negro. Seu sonho é ver o seu povo crescer, mas a frustação o corrói por não ter conseguido educar nem mesmo os seus quatro filhos. Considera John um homem de confiança, a quem ousa falar o que jamais compartilhara com outra pessoa branca. É Portia, sua filha, que muitas vezes o situa dentro da realidade da sua família, buscando com a sua simplicidade um equilíbrio entre ideias divergentes.

Já Jake Blount é um homem que anda de cidade em cidade tentando convencer operários de suas ideais marxistas, mas tem mais sucesso em virar copos e copos. Torna John o “ouvinte” de seus pensamentos mais profundos, atrapalhando vários jantares do próprio Singer que não conseguia comer por tentar ler os lábios do homem. 

Porque alguns homens têm essa coisa neles de abrir mão de tudo o que têm de pessoal num determinado momento, antes que tudo fermente e os envenene - de entregar tudo a algum ser humano ou alguma ideia humana.

Inicialmente menina, ao final jovem mulher, Mick é considerada por alguns o alter ego da autora. Fisicamente se apresenta com estilo andrógino, possuí um mundo interno e externo. Em sua mente a música está sempre lhe sussurrando, de forma sedutoramente hipnotizadora. Cheia de irmãos, com uma família muito pobre, a busca por um rádio a consola, e depois o próprio John, a quem ela faz perguntas para que ele a ajude a encontrar a solução dos seus problemas.

E o mais dúbio dos personagens, Brannon, o cara do restaurante que vê todos passarem, desviarem, para ir e voltar. Ele também busca John, não da mesma forma que os outros personagens, ele apenas tenta entender, a si e aos outros.

Uma vez, ele tinha tentado contar quantos eram e descobriu que havia mais de uma dúzia de crianças batizadas em sua homenagem.

Mas ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de uma linda história de amizade. E sim de uma forma analógica do que hoje ocorre nas redes sociais: a falta de comunicação. Ao buscar um homem surdo e mudo para contar suas ideias, histórias de vida e até mesmo pedir sua opinião, o silêncio do outro lado é como uma benção as suas palavras.

Conversar com John é não ter suas ideias contrariadas, não ser interrogado de seu comportamento nem sempre correto, da sua fraqueza, da razão de falar tanto e fazer tão pouco.

Agora estava se sentindo bem. De repente, sussurrou algumas palavras ao vento: "Perdoai-me, senhor, pois eu não sei o que faço."

E embora a história do livro seja muito rica em possibilidades, eu não fui encantada por ela. Não sei se já estou cansada de ver nas redes sociais tantas pessoas em busca de surdos que lhe deem likes em ideias absurdas, das brigas que beiram a comédia por não entenderem o que leram ou ouviram. O fato é que acabei identificando nos personagens principais a mesma superficialidade de hoje, a mesma bolha, a mesma incapacidade de mudar.

E contraditoriamente recomendo a leitura, mesmo tendo literaturado suas páginas cheias de descrições sonolentas, os acontecimentos previsíveis, e a pobreza de espírito dos que passam pelas páginas. Simplesmente por ela ser um retrato atual demais da natureza humana.

O Coração é Um Caçador Solitário
The Heart is a Lonely Hunter
Carson McCullers
Tradução Sonia Moreira
TAG – Companhia das Letras
1940 – 391 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A Bolsa Amarela



Sinopse: A Bolsa Amarela é o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela) - a vontade de ser gente grande, a de ter nascido menino e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação - por si mesma uma constatação à estrutura familiar tradicional em cujo meio "criança não tem vontade" - essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias. Ao mesmo tempo que se sucedem episódios reais e fantásticos, uma aventura espiritual se processa e a menina segue rumo à sua afirmação como pessoa.

Raquel é a caçula de uma família aparentemente classe média, uma menina meio criança meio pré-adolescente que tenta esconder suas três vontades que não param de crescer: de ser grande, de ser um garoto e de se tornar uma escritora.

Estas vontades são alimentadas pelo cotidiano, pela solidão de quem não tem com quem conversar e ouve de quem está na frente da televisão sobre não haver tempo para interagir com ela. Se adaptada aos tempos modernos, seria o smartphone nosso de cada dia.

Vocês podem um monte de coisa que a gente não pode. Olha: lá na escola, quando a gente tem que escolher um chefe pras brincadeiras, ele sempre é um garoto. 

E é justamente nas primeiras páginas que o leitor, independente do tamanho, irá se dar conta que está entrando em um mundo parte real, parte imaginário. Das cartas que ela escreve para seus amigos inventados (e responde em nome deles), até o surgimento da bolsa amarela usada, enviada por uma tia com mais posses, que ninguém mais da sua casa queria. 

Aliás, a grande bolsa acaba se tornando uma companheira inseparável da menina, cujo fecho muito sabido emperra nos momentos que a menina mais precisa, tornando-a praticamente um cofre para esconder aquilo que a família não deve ver.

Vi aparecer uma bolsa; todo mundo pegou, examinou, achou feia e deixou pra lá.

Nas cartas estão perguntas sobre o que ela ouve e não entende, como qual o motivo de uma mãe ter mais um filho se ela não queria mais? Sobre o fato da irmã que deveria cuida-la enquanto os demais trabalham e estudam, mas de além não deixa-la fazer nada - nem mesmo trazer amigos em casa – a deixa trancada sozinha em um apartamento no sexto andar.

Sobre as vontades, todas possuem algum motivo relacionado ao ambiente familiar. A vontade de crescer é para não entrar em conflito com a família e poder tomar as próprias decisões.  Raquel quer ser menino por ter uma criação em que o sexo masculino ser mais incentivado, ter liberdade de brincar de coisas que não são de meninas e, o mais importante, ganham o poder de decisão. E ser escritora por simplesmente gostar de inventar coisas.

Eu ia respondendo e pensando: será que eles acham que falando comigo do mesmo jeito que eles falam um com o outro eu não vou entender?

E de forma simples a menina irá aprender com os próprios conflitos, a dizer suas opiniões e compreender as próprias vontades, que tornam a bolsa amarela leve ou pesada conforme o momento que ela vive e os paradigmas que ela resolve enfrentar.

Considerado literatura infanto-juvenil é um livro que agrada e encanta leitores de todas as idades. Se para o público pré-adolescente a história mostra que não se está sozinho na confusão de sentimentos e frustrações, para os adultos pode trazer lembranças e antigas vontades que ainda pesam em algum lugar, mas que estamos tão acostumados em carregar que nem lembramos mais.

Mas aconteceu uma coisa esquisita: eu não podia parar de falar.

A narrativa em primeira pessoa nos deixa mais próximos da personagem Raquel, sendo fácil pensar por alguns momentos que Afonso, a Guarda-Chuva e o Alfinete são reais. E talvez sejam se deixarmos de lado toda a lógica para se entregar a emoção.

O livro é bonitinho, filosófico, sendo muito fácil e rápido de ler. Lygia Bojunga lançou este livro originalmente em 1976 com fortes influências de outro grande autor infanto-juvenil: Monteiro Lobato. A Bolsa Amarela agradou tanto que acabou se tornando um clássico deste nicho literário, e tirando a questão da figura masculina, ele segue mais atual do que nunca.

A Bolsa Amarela
Lygia Bojunga
Ilustrações Marie Louise Nery
Casa Lygia Bojunga
1976 – 135 páginas