domingo, 2 de agosto de 2009

Gomorra


Sinopse: As mercadorias "frescas", logo que nascem - objetos de plástico, roupas de grife, videogames, relógios -, desembarcam diariamente no porto de Nápoles para serem armazenadas e escondidas em prédios propositalmente esvaziados de tudo. Já as mercadorias "mortas", vindas de toda a Itália e de boa parte da Europa, sob a forma de resíduos químicos, material tóxico e até mesmo cadáveres e esqueletos humanos, são clandestinamente "despejadas" nas terras da região da Campânia. E lá contaminam, dentre toda a população, os próprios boss da Camorra, que constroem, sobre aqueles terrenos, suas mansões luxuosas e nababescamente absurdas - datchas russas, villas hollywoodianas, verdadeiras catedrais de cimento ornadas com os mais preciosos mármores -, que não servem somente para demonstrar a conquista do poder, mas também para revelar utopias delirantes, pulsões messiânicas e obscurantismo milenares.

O que um contêiner com homens e mulheres chineses mortos, a roupa que a atriz Angelina Jolie usou em uma cerimônia do Oscar, mulheres ocupando cargos elevados, pessoas mortas por balas perdidas, o IVA - Imposto Sobre Valor Agregado, tráfico de droga, disputa de território e corrupção tem em comum? 

Não, não é o morro do Rio de Janeiro, nem um dos filmes de mafiosos distribuídos por Hollywood, apesar dos integrantes dos clãs, pertencentes ao sul da Itália, imitarem a ficção. 

Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair.

Roberto Saviano descreve no seu livro de estreia algo que se tornou mais globalizado que o próprio capitalismo: o poder dos criminosos, nesse caso específico, a Camorra. 

Não é uma ficção, o jornalista se infiltrou na máfia napolitana para entender o que ela é, o seu modo de operação, seus tentáculos pelo mundo e as consequências disso.

Na tevê, Angelina Jolie pisava a passarela da noite do Oscar, vestindo um terno de seda branca, belíssimo. Aquela roupa tinha sido costurada por Pasquale numa fábrica clandestina de Arzano.
O primeiro lugar que somos apresentados é justamente ao porto de Nápoles, é neste ponto que chegam milhares de containers, com produtos de todos os tipos, e também os registros e as classificações para cobrança de impostos, onde o caro para o consumidor pode ser extremamente barato para a alfândega, até o descarregamento de mercadoria clandestina.

Na sequencia vamos para o funeral de um rapaz de quinze anos morto por policiais ao assaltar casais com arma de brinquedo, para depois ser apresentados para os estranhos leilões realizados pelas grandes grifes. E assim, página a página, vamos descobrindo mais e mais de como o sistema de uma organização realmente impressionante funciona.

Afinal, um império não se divide com um aberto de mão, mas cortando-se uma delas com um cutelo.

Gomorra não poupa detalhes. Em algumas páginas o leitor precisa realmente ter estômago, enquanto Saviano descreve as torturas ou os teste de novas drogas que são feitas em viciados. Não existe escapatória, pode ser pobre, padre, político ou arrependido, a única certeza para os que contrariam a Camorra é a morte. 

A Camorra são vários clãs criminosos, chefiada na sua maioria por homens jovens que acabam reféns do seu próprio poder. Debocham da velha máfia, pois são politicamente independentes. Suas fontes de dinheiro são variadas, podem vir da venda de armas para países em guerra ou de roupas fabricadas sob medida para populares atrizes desfilarem. 

Na guerra já não é possível ter relações de amor, ligações, relacionamentos, pois tudo pode se tornar um elemento de fraqueza.

Gomorra não é um romance. É um tapa na cara em um texto jornalístico narrado em primeira pessoa, onde depoimentos pessoais se misturam a investigações e histórias do passado. 

A narrativa de Saviano é forte, sua escrita tem fluidez e detalhes que nos fazem não só compartilhar o seu olhar, como sentir os acontecimentos. Desde a primeira página, quando o manobreiro conta num misto de pavor e incredulidade sobre os corpos com crachás pendurados no pescoço que caiam de um contêiner, o estômago aperta como um aviso, o que vem a seguir não é brincadeira.

Ser atingido na cabeça evita tremer de medo, mijar ou soltar fedor do interior dos buracos na barriga. 

Também é um banho de água fria nos que adoram uma grife e anunciam para toda imprensa que colaboram para a construção de um mundo melhor. Pois eles também contribuem, indiretamente ou por simples ignorância, para a máfia italiana. 

A propósito: Gomorra é uma das cidades destruídas por Deus, conforme é descrito no Gênesis, uma cidade, como muitas na Itália e em outros locais do mundo, onde a destruição, por uma escolha, um celular ou uma palavra, se tornam banais. Onde os honestos não têm vez e apenas os imorais possuem o poder sobre a vida e a morte.

São rapazes, mortes falantes, mortos vivos, mortos que se movem... Belos ou não, te pegam e te mantam, mas a vida já está mesmo perdida...

Um livro para quem quer entender mais o que consome, para quem leu a Série Napolitana da Elena Ferrante e quer saber mais, um livro para compreender como as organizações criminosas funcionam e são mais resistentes que qualquer governo. Um livro que eu simplesmente recomendo a leitura.

Gomorra
Roberto Saviano
Tradução: Elaine Niccolai
Bertrand Brasil
2006 - 349 páginas

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Brida - Paulo Coelho




A obra Brida pode ser caracterizada como um texto de auto-ajuda de esoterismo, pois narra a trajetória de uma jovem que procura a compreensão de si mesma através do descobrimento de conhecimentos de magia. 

Como os demais textos do gênero, em geral, apresenta-se como um guia, uma metodologia para a conquista do sucesso material ou realização pessoal, que no caso consubstancia-se através da história da personagem e seu crescimento pessoal, descobrindo-se como feiticeira. 

O autor, utilizando-se da fórmula da auto-ajuda, aproveita-se da constante busca do ser humano por poder, status, felicidade, etc, para apresentar soluções fáceis, baseadas em uma filosofia rasa, que vai seduzir as camadas médias urbanas – principal consumidora dessa literatura. 

No primeiro capítulo de Brida, já se percebem os primeiros elementos característicos do livro de auto-ajuda: o autor quer ensinar algo. Por meio da experiência da personagem na floresta escura sozinha, o autor quer mostrar que a fé pode fazer a pessoa sentir-se protegida e vencer o próprio medo. A evocação de Deus naquele momento, de trechos da bíblia que a avó da moça costumava recitar para ela, bem como de outras lembranças de sua infância fazem com que se sinta calma e vença o medo de estar sozinha na floresta à noite, tanto que consegue relaxar e adormecer. 

Quer o autor ensinar que as pessoas também, a exemplo de Brida, se tiverem fé em Deus, ou em algo que acreditem, vencerão seus medos. Para ilustrar, transcreve-se o seguinte trecho, retirado da página 24: “Tinha fé. E a fé não deixaria que a floresta fosse de novo povoada por escorpiões e cobras. A fé manteria seu Anjo da Guarda acordado e velando. Recostou-se de novo na rocha e dormiu sem perceber.” Na medida que a personagem vai aprendendo e tirando lições dos acontecimentos é que se percebe a intenção do autor de que o leitor também tire lições. 

Brida é o leitor, que está sendo ensinado. Está, também, visível, no texto, outro elemento da literatura de auto-ajuda, que é a ilusão da onipotência, isto é, promessa de apresentar algo que vai mudar a vida do leitor, que vai fazê-lo superar o que o aflige. No caso, o autor apresenta um tipo de crença, ligada à magia, que vai preencher a lacuna deixada pela religião na busca pela solução dos problemas existenciais das pessoas. 

Essa crença vai sendo apresentada no livro na medida em que vai se dando o aprendizado da personagem a esse respeito. Geralmente é uma solução mais fácil e imediatista ,que seduz o leitor a aceitá-la, pois responde aos seus anseios. 

O autor se utiliza também da repetição, outro elemento característico da auto-ajuda, para desenvolver a história. Recorre a todo tempo às lições que Brida angariou de suas experiências de magia com o Mago e com Wicca, sua mestre, e vai acrescentando outras. Verifica-se essa retomada em vários trechos do livro, quando a personagem relembra a experiência na floresta, e associa com fatos cotidianos, dizendo que “a vida é uma noite escura” e refere-se às revelações da lua para interpretar outros fatos que lhe acontecem. 

A presença de elementos do imaginário popular (crenças) como filosofia espiritual estão em todo o texto como linha norteadora. No caso, ele explora a crença de que certas pessoas possuem um determinado dom para a magia que as permite entender e interpretar o mundo de maneira diferente e aqueles que dominam o dom podem ajudar os outros que não têm. 

Conforme ensina RÜDIGER , os textos de auto-ajuda utilizam-se, também, de relatos de pessoas que aplicaram as técnicas para a solução de seus problemas, atuando como modelos para os leitores, que acabam se convencendo de que, se outras pessoas conseguiram, eles também conseguirão. É uma maneira de aproximar a realidade ao leitor, para que não fique apenas absorto na teoria demonstrada. 

O autor apresenta a teoria e a comprova com o testemunho de alguém que teve sua vida modificada pela auto-ajuda. Os relatos podem ser místico, egoísta ou ascético. No relato místico, o interelocutor utiliza-se dos exemplos de pessoas que encontraram a solução para seus problemas no seu “eu interior”. O remédio para os seus males reside no controle da mente e no contato com o eu superior. 

A felicidade e a paz de espírito requerem a superação dos desejos egoístas, encontram-se no caminho contínuo e insistente do conhecimento. Já no relato egoísta, a exploração ordenada dos recursos interiores e do potencial humano não objetiva de maneira imediata a solução dos conflitos morais que vitimam nosso eu, mas se relaciona antes com o desejo de “fazer com que as pessoas não apenas o estimem”, mas também “realizem aquilo que você deseja”, nos vários campos da vida social. 

No relato ascético, o entendimento terapêutico combina o crescimento pessoal e a prática do pensamento positivo. Determinada pessoa conta para o leitor como, através de uma atitude mental positiva, atingiu o sucesso. Partindo da máxima de que o pensamento é a forma mais potente de sugestão, relata como o subconsciente transforma um desejo ardente em realidade quando o indivíduo acredita que pode alcançá-lo, fazendo com que aja para conquistar seus objetivos. 

Essa experiência apresenta um elemento a mais que os relatos anteriores, consubstanciada na atitude positiva na direção do que almeja. Na obra Brida, verifica-se a utilização de um tipo narrativa que se aproxima do relato místico. 

Apesar de ser uma obra de ficção, a história de Brida funciona como uma parábola, em que há espaço para a interpretação do leitor, no sentido de que busque em sua crença pessoal a solução de seus problemas. Explica-se o sucesso da literatura de auto-ajuda pelo fato de que a própria mídia estimula a busca da realização pessoal, por meio da divulgação de novos fenômenos que propiciam o crescimento do ser humano e, então, nomenclaturas comumente relacionadas a esoterismo, pensamento positivo, etc., passam a fazer parte do dia-a-dia e a serem exploradas pelos autores. 

Daí que podemos afirmar que o público-alvo dessa literatura é a classe média urbana, sedenta por resolver seus problemas por meio das “receitas de sucesso” apresentadas, especialmente por autores intitulados “magos” como é o caso de Paulo Coelho. A linguagem utilizada, como no caso de Brida, vai estar relacionada com termos e assuntos esotéricos ou do pensamento positivo. 

O leitor, diferentemente do self-made man do passado, que precisava trabalhar para atingir seus objetivos, será estimulado a simplesmente aplicar as técnicas esotéricas ou mentais ensinadas para obter sucesso. Basta seguir a fórmula ali indicada, e a pessoa alcançará o que almeja. 

Os livros de auto-ajuda pretendem ocupar a lacuna deixada pela religião, oferecendo soluções fáceis de bem-estar. Há uma promessa, que é apresentada no texto de resolver os anseios do leitor, onde, ao final, será demonstrada “a fórmula”, “a solução” de como fazê-lo. Geralmente convencem o leitor de que a técnica já foi amplamente testada e comprovada, tornando o caminho mais fácil, pois o leitor não precisa entender como e por que ela funciona, basta acreditar nos seus efeitos para provar seus frutos.

No caso de Brida, o autor não chega a apresentar uma fórmula pronta, mas conduz o leitor à crença de que é possível resolver seus próprios problemas com sua força interior e que será feliz quando encontrar sua outra metade. Essa “receita" de como apreender o real através da força da mente ou força interior (ao invés do trabalho, estudo, etc.) é que faz com que os livros de auto-ajuda sejam amplamente consumidos atualmente, pois em conformidade com a velocidade das transformações de um mundo globalizado, onde o imediatismo regula as relações e as pessoas não tem tempo para esperar os resultados, querem as respostas imediatas.

sábado, 11 de julho de 2009

Quem nasceu para cintilante nunca chega a francesinha- Magali Moraes




O livro é tão divertido quanto o título sugere. A leitura simples e engraçada permite uma rápida identificação de nós mulheres com as situações vivenciadas pela personagem Marcela, uma mulher comum que se pune por não ter tempo de fazer as unhas. 

Como disse o Luís Augusto Fischer na apresentação do livro, é uma “crônica espichada” ou uma “novela cronicada”. Permite-nos refletir sobre o universo feminino e tudo que envolve entre a escolha de um impensável esmalte cintilante e uma chiquérrima unha à francesinha, passando por dificuldade para fazer dieta, falta de tempo para a academia, análise psicológica dos donos de cachorro de apartamento, um sutiã azul esquecido no banheiro do trabalho, as insuportáveis festas de aniversário de criança, o marido e sua saída à francesa das responsabilidades, além, é claro, da falta de tempo para fazer as unhas. 

 A história de Marcela é narrada com humor e leveza e prende até o final. Quando você vê, leu o livro numa assentada. Leitura de férias, anti-stress!

domingo, 24 de maio de 2009

Morte em Veneza


Sinopse: Levado por um misterioso impulso, o famoso escritor Gustav Aschenbach resolve passar alguns dias na cidade às margens do Adriático, onde encontra Tadzio, um belo adolescente que parece encarnar de forma absoluta os cânones neoclássicos que haviam impregnado toda a literatura de Gustav. E o escritor dedica-se inteiramente a esse sonho de beleza, chegando mesmo a cair no ridículo ao chamar a atenção do rapaz, num crescente paroxismo de atração perturbadora e autodestrutiva.

Thomas Mann tem como personagem principal, em um romance curto, mas nem por isso rápido, um famoso escritor chamado Gustaw Aschenbach, que após conquistar fama e prestígio, encontra-se impaciente. 

Era vontade de viajar, nada mais; mas, na verdade, irrompera como um acesso e se intensificara, atingindo o nível passional, sim, até beirar a alucinação. 

Sem saber o que busca, esse senhor arruma suas malas e sai em busca de um lugar que acalme seus pensamentos e aflições. Em suas andanças, Aschenbach vai parar em Veneza, onde irá conhecer um pré-adolescente e mudar completamente seus planos. 

A paixão platônica pelo menino irá fazer com que Aschenbach ignore a epidemia de cólera, que afasta os turistas da cidade, enquanto segue o seu alvo em um primeiro momento com os olhos e depois com as próprias pernas. 

As pessoas não sabem por que elas tornam famosa uma obra de arte.

Morte em Veneza é extremamente descritiva, detalhando todos os locais, vestes e devaneios do escritor e do seu amado, dando a sensação de estar percorrendo a cidade junto com os personagens. 

Para os que não apreciam longos detalhes, o livro pode tornar-se cansativo, fazendo com que suas poucas páginas pareçam centenas. Mas para os fãs de clássicos e adoradores de longas descrições, Thomas Mann trás uma mistura de arte, psicologia e representação plástica do ambiente que envolve a sua narrativa.

Não encontrava seus olhos, pois uma preocupação covarde forçava o pobre desnorteado a controlar receoso seu olhar.

Além disso há uma visão interessante de um homossexualismo e pedofilia velado no início de 1900 - o livro foi publicado pela primeira vez em 1912 - em uma sociedade de classe alta. Sendo mais uma prova de que alguns dos assuntos que discutimos hoje não são nenhuma novidade.

Morte em Veneza
Der Tod in Venedig
Thomas Mann
Tradução: Eloísa Ferreira Araújo Silva
RBS Publicações
1912 - 94 páginas

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Elogio da Loucura




Elogio da Loucura foi escrito, em 1501, pelo teólogo Erasmo Desidério ou Erasmo de Rotterdam, como ficou conhecido. 
Na obra, Rotterdam critica os costumes de sua época, onde no decorrer da leitura, o leitor pode constatar que muito destes costumes perduram até hoje. 

Segundo a própria Loucura- que é a narradora irônica em tempo integral- o homem deve muito a loucura, pois é ela que move o mundo. Ela está presente no dia-a-dia. A loucura se encontra tanto nas amizades quanto nos relacionamentos e, está inserida na sociedade. Pode-se afirmar que, também, se encontra na ciência e na filosofia. E, claro, na religião- um dos alvos principais do autor. 

O livro está cheio de exemplos. A cada área que o escritor ironiza, ele cita inúmeros exemplos e situações corriqueiras, fazendo com que nós, leitores, nos identifiquemos com as situações triviais abordadas. 

A prosa do autor é totalmente sarcástica, muitas vezes beirando um "humor ácido". Certamente o autor dominava o escárnio, para escrever uma obre repleta de ironia- ainda mais para a sua época. Agora, resta ao leitor ter, no mínimo, alguma afinidade com o sarcasmo, para assim ter um melhor entendimento do livro, pois apesar de ter muita coisa explícita, o livro também possui mensagens nas entrelinhas. Cabe ao autor encontrá-las.

domingo, 10 de maio de 2009

O Mago

Sinopse: Fernando Moraes, o autor que ajudou a fundar a biografia como gênero literário no Brasil, volta sua verve investigativa para o personagem brasileiro que se converteu no grande mito de nossa história recente: Paulo Coelho - um escritor universal que alcançou a astronômica marca de 100 milhões de livros vendidos e a façanha de ser o autor vivo mais traduzido de todo o planeta. O Mago é a eletrizante trajetória do popstar requestado por príncipes, xeiques, rainhas e presidentes. Uma história com que nem os roteiristas mais criativos seriam capazes de sonhar.

A biografia do escritor Paulo Coelho não deixa de ser um registro da própria sociedade brasileira nas últimas décadas. Ao mesmo tempo em que Fernando Morais mostra a personalidade do escritor, ele detalha e compara os seus posicionamentos em diversas épocas do Brasil. 

O comportamento dos jovens com a ditadura, a relação com as drogas e a música. O uso de textos de protesto para atingir o sucesso. A alienação completa. Nomes famosos que ainda buscavam os seus caminho e outros que viraram mito, como Raul Seixas. 

Os aplausos parecem não ter fim. Sem conter o choro, o brasileiro agradece várias vezes, cruzando os braços no peito e fazendo uma leve inclinação para a frente.

O jovem Paulo Coelho passou por colégios rígidos e sanatórios. Seus pais, como os outros da época, desejavam para o seu filho uma profissão tradicional. Pressão e narcóticos levaram o perdido Paulo a surtos e uma vida de vagabundagem extrema. 

Claro que existe muita coisa escondida, mas as relatadas são muito fortes, como o desejo de Paulo de ser um grande escritor (algo despertado cedo e sufocado por seus pais) assim como sua insegurança. Uma personalidade interessante e conflitante, já que ele pode ser gentil e generoso, mas também pode ser arrogante e sem caráter. 

Considerando todo o seu histórico escolar, do maternal à universidade, a aprovação no exame de admissão foi o único momento de glória em sua vida estudantil.

Algumas vezes o leitor pode ler um capítulo e achar que ele era doidão, no seguinte verificar que ele era muito doidão e lá pelas tantas achar que ele é um baita de um filho da puta. O Mago não permite que se feche um capítulo sem que se tenha alguma opinião sobre o seu personagem. 

Paulo Coelho contrariou os bancos da faculdade, que afirmam ser necessário ler os grandes autores para escrever boas obras. Balela. O escritor chegou a ler 75 livros por ano, entre eles muitos clássicos, e isso não fez nenhum de seus livros ser considerado uma obra-prima (muito pelo contrário, e o pau constante que ele leva dos críticos não ficou de fora da sua biografia – o que não deixa de ser uma resposta para os mesmos). 

De repente ele se viu sozinho, trancado num hospício, com um fichário escolar debaixo do braço e um agasalho nas costas, paralisado.

Aliás, O Mago mostra também o funcionamento do dinheiro e do poder na literatura, onde generais podem impedir um acesso a ABL (Academia Brasileira de Letras) ou as esperanças de constar em um testamento podem tornar alguém imortal (o fato de Paulo Coelho não ter filhos consta como um ponto positivo para sua eleição). Contratos milionários, pequenas vinganças, desafetos e mudanças temperam o mundo real das letras assim como personagens memoráveis recheiam livros. 

A biografia descreve o óbvio: Paulo Coelho se tornou o grande nome brasileiro no mundo das letras. Não adianta os intelectuais brasileiros virarem a cara, nem descarta-lo de comitivas de escritores brasileiros. Ele sempre está nos eventos mais importantes, e convidado por aqueles que realmente detém o poder. 

Não há mais liberdade no Brasil. Meu campo está sob uma censura idiota e filha da puta.

Além disso, a sempre uma legião de fãs o esperando, seja na Rússia, Alemanha ou qualquer outro lugar do mundo. Se o seu sucesso é devido à força do pensamento, satanismo ou santos, nunca saberemos, e isso nem mesmo a sua biografia irá esclarecer. Mas que em O Mago, Paulo Coelho dá uma lição de persistência e quebra paradigmas, isso ninguém pode negar.

O Mago
Fernando Moraes
Editora Planeta
2008 - 630 páginas

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Onde andará Dulce Veiga?



Nesse romance de Caio Fernando Abreu, o narrador é o próprio protagonista que procura por Dulce Veiga, uma cantora da década de sessenta, que desaparecera misteriosamente. 

O leitor embarca com o narrador nessa busca frenética, vinte anos depois do desaparecimento da cantora, que vira uma fixação para o protagonista, revelando-se uma procura por ele mesmo, mais do que isso, confunde-se com a do próprio autor. 

A narrativa começa demonstrando a apatia do personagem principal perante a vida, mesmo tendo conseguido um emprego como jornalista, que poderia tirá-lo do marasmo e da falta de dinheiro. No decorrer da trama, entende-se a razão daquele torpor: uma paixão intensa por outro homem, Pedro, que apareceu e desapareceu de sua vida misteriosamente, deixando-o desnorteado, tira-lhe o prazer e o gosto de viver. 

O homossexualismo, caracterizado em muitos contos de Caio Fernando Abreu, transpassa toda a obra, bem como o medo da AIDS, que aterroriza o jornalista e a roqueira Márcia, que não têm coragem de procurar um médico quando caroços sintomáticas da doença começam a aparecer no pescoço e outras partes do corpo. 

A dúvida em saber se seriam ou não soro positivo atormenta os personagens e faz pensar se não seria reflexo do mesmo tormento que assolava o autor e que ele deixa transparecer no romance. Há, ainda, o fantasma de Igor, namorado da roqueira Márcia, que teria morrido de AIDS, retratando a realidade difícil da perda de pessoas, na época, vítimas da enfermidade, quando ainda não se sabia direito o que era essa doença. 

O romance foi escrito entre 1985 e 1990. Daí explica-se o tema da ditadura, também recorrente, pois ainda presentes seus efeitos, remetendo os leitores a um período em que as pessoas desapareciam por questões políticas, dando a entender que Dulce Veiga teria sumido por se envolver com pessoas ligadas a assuntos contrários aos interesses de quem estava no poder na época. 

Outras questões também são tratadas pelo autor, como a violência urbana, as drogas, o desencanto com o movimento das “diretas já”, que não atingiu seu objetivo. 

Embora haja uma seqüência cronológica - cada capítulo tem o nome de um dia da semana –, há vários flashbacks, pois o narrador lembra de vários fatos do passado, dele com Pedro e de quando teria entrevistado Dulce Veiga. 

Não deixa de ser um tempo psicológico, pois o romance em muitos momentos é intimista, há o pensamento do personagem, e esse não é linear, não corre de acordo com andamento cronológico dos fatos. O narrador está completamente confuso e perdido na vida, e, por isso deixa transparecer várias ambigüidades: mostra-se inseguro para lidar com seu homossexualismo ou heterossexualismo (não sabe se gosta de homem ou mulher); a busca por Dulce Veiga se confunde com a própria busca por si mesmo. 

Há uma tentativa do personagem desesperada de se encontrar e por isso ele começa a enxergar Dulce Veiga em vários locais, como uma alucinação, que ele segue como um louco, numa alusão à perseguição da compreensão que ele visa a atingir sobre o seu eu. 

Ao final, o encontro com Dulce Veiga revela um eu egoísta, que abandona tudo para buscar a si mesmo. No caso, Dulce Veiga deixou de lado a filha pequena, o marido, os amigos, a própria carreira, como se, para encontrar a si mesma, fosse necessário renunciar a todo o resto. As pessoas sofrem sua ausência - principalmente a filha Márcia, mas também os fãs e o amante Saul, que enlouquece – porém ela parece não se importar, porque ela própria está feliz, em um lugar distante, e isso lhe basta. 

As semelhanças com a vida do autor não são por acaso, visto que ele vivia uma situação de conflito, pela descoberta da AIDS e toda a angústia e sofrimento pela incerteza e percepção da efemeridade da vida que isso acarreta. Talvez o desaparecimento de Dulce Veiga significasse o seu próprio desaparecimento precoce em virtude da AIDS, onde deixaria tudo e todos para trás, porém com a recompensa (ou esperança?) de ir para um lugar melhor, onde dor e medo não existiriam, apenas a felicidade alcançada pela compreensão do significado da própria existência.