domingo, 7 de fevereiro de 2010

Memórias de Adriano


Sinopse: Já velho, o imperador Adriano escreve uma longa carta ao jovem Marco Aurélio, na qual recorda sob uma aura de melancolia e profunda perturbação os fatos de sua própria vida pública e privada, questionando-se sobre seu sentido e destino. Dono do mundo, mas consciente da transitoriedade das coisas humanas, Adriano pergunta a si mesmo quais as condições do ser - tão trágico, por não poder evitar a morte e a ruína, quanto extraordinário e proeminente o acaso quis que fosse. Também a paixão e o amor, que ao menos uma vez haviam iluminado sua existência graças ao encontro com o jovem grego Antínoo, transformam-se logo em luto devido ao silencioso suicídio do amado. E a Adriano não resta senão continuar vivendo para cumprir seu altíssimo dever, contemplando com angústia o "rosto disforme" das coisas.

Com o avançar da idade o imperador Adriano decide escrever suas memórias ao jovem Marco Aurélio em uma carta que se divide em seis partes. 

O que inicia com a descrição de uma consulta médica e os exames desagradáveis que se seguiram, logo ganham a companhia de histórias familiares, sua escalada até se tornar imperador, as grandes lutas por território, nomeações de pessoas para ficarem ao seu lado, as grandes paixões e naturalmente as perdas que o imperador viveu.

O olho clínico não via em mim senão um amontoado de humores, tristes amálgama de linfa e sangue;

O destinatário não é uma escolha aleatória, pois ele não irá receber apenas uma carta, todas essas memórias são de certa forma um treinamento teórico para Marco Aurélio, que seria nomeado seu filho, para herdar o seu imperio.

Memórias de Adriano é uma ficção biográfica que mistura fatos históricos, filosofia e amor à arte, publicado em 1951, essa releitura se tornou uma das obras-primas da literatura francesa contemporânea.

Era o homem da tribo, a encarnação de um mundo sagrado e quase terrível, de que encontrei, por vezes, vestígios junto aos necromantes etruscos.

Marguerite Yourcenar, que no período da publicação utilizou o pseudônimo de Marguerite Crayencour, escreve em seu romance os anseios, opiniões e divagações de um homem poderoso, mas já velho, que se prepara para a morte e, após iniciar a procura por um herdeiro, encontra em um jovem, a quem conhece desde menino, um de seus sucessores. 

Por ser uma carta, a narrativa ocorre toda em primeira pessoa, o que torna os momentos humanos de Adriano mais próximos do leitor, como o seu choro por perder uma paixão que só se torna inesquecível porque o rapaz procurou a morte, tornando um relacionamento fadado à acabar em eterno. 

Meu primeiro consulado foi ainda um ano de campanha, uma luta secreta, mas contínua, em favor da paz.

Entre as passagens que trazem a realidade mais forte na sua mistura com a ficção estão os desafios nas obras construídas em Jerusalém e os conflitos (tão antigos) que afetam a região. 

De bônus, a autora conta os eventos e notas que resultaram no livro, assim como a bibliografia utilizada, sendo um complemento para quem deseja se aprofundar na leitura.

Se nada disse ainda sobre beleza tão definitiva, não se deve ver nessa omissão a espécie de reticência do homem irremediavelmente conquistado.

Um livro que pode agradar principalmente os fãs de clássicos e fatos históricos, e podendo fascinar os que ainda não se preocupam com a passagem dos anos, suas limitações e muito menos a morte.

Memórias de Adriano
Memoires d'Hadrien
Marguerite Yourcenar
Tradução: Martha Calderaro
RBS Publicações
1951 - 286 páginas

sábado, 30 de janeiro de 2010

A Distância entre Nós



Sinopse:Bombaim, Índia. Duas mulheres. Duas vidas. Dois destinos que poderiam ser um só. Sera e Bhima estão indiscutivelmente ligadas, seja pelo silêncio ou pela cumplicidade. Mas ao mesmo tempo estão distantes, separadas por uma fronteira intransponível. Como se o fio que as une não fosse forte o suficiente para aguentar uma descarga elétrica, força que parece definir a sorte e a tragédia da patroa e da empregada. Duas vidas marcadas pela decepção, enganadas pela traição, sujeitas a uma sociedade cruel cuja voz berra e marca a fogo a existência dessas mulheres. A distância entre nós é um romance avassalador, envolvente, intenso. Você não conseguirá parar de lê-lo, e não será o mesmo quando alcançar a última página.


Bhima mora em um barraco situado  em uma das favelas de Bombaim. Analfabeta, se vira trabalhando a mais de vinte anos na casa de Sera, uma viúva de classe média alta que vive em função da filha grávida e do seu genro.

A esperança de Bhima é sua neta Maya, que com a ajuda de Sera, está na universidade, o que pode possibilitar as duas uma vida melhor, só que uma gravidez inesperada joga todos os sonhos na lama e uma sequencia de erros e tentativas de reação aos acontecimentos acabam virando espadas sobre a cabeça desta mulher sofrida.

Ela se consolaria e depois se odiaria pela fraqueza daquele pensamento, por ter baixado tanto os seus padrões que a ausência de violência física houvesse se tornado a definição de um bom casamento.

Já Sera tem estudo, cultura e acesso amplo ao conhecimento, mas isso não a impede de casar com o homem errado nem livra-la de preconceitos, mesmo após compartilhar diferentes experiências com Bhima, o que gerou questionamentos de sua filha durante a adolescência sobre não permitirem que ela usasse coisas simples como os seus copos ou sentasse na mesa mesa.

Lembro que encontrei este livro justamente quando uma onda indiana se tornava moda no Brasil por causa de uma novela das 21hs chamada Caminho das Índias, e sua capa e sinopse logo me chamaram a atenção.

Nunca nos casamos apenas com uma pessoa. Casamos sempre com a família toda.

E achei interessante que apesar de toda cultura diferente, como algumas situações enfrentadas pelas mulheres são universais. A dor de estar longe de um filho, o machismo, a atribuição da culpa a vítima. Além é claro das diferenças sociais e de quanto os danos e dores são minimizados quando quem os sofre é o lado mais fraco da história.

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a escrita da autora Thrity Umrigar é sensível e direta. Tendo como testemunha o mar de Bombaim, ela nos conta uma história carregada de tristeza, sofrimento e resignação, de uma forma que nos comove ou nos deixa louco de raiva.

Ela mesma tinha virado uma máquina, que só existia para trabalhar e ganhar o seu salário; precisava apenas de água e comida para manter suas peças lubrificadas e funcionando.

E sim, durante a leitura me vi compartilhando o misto de sentimentos que Bhima e Maya sentem ao enfrentar os seus medos, assim como virava as páginas com um fio de esperança de que elas poderiam ter um amanhã melhor.

Um livro para quem gosta de conhecer outras culturas, para não repetir preconceitos sociais, para refletir e se emocionar, enfim, para quem gosta de ler.

A distância entre nós
The space between us
Thrity Umrigar
Tradução: Paulo Andrade Lemos
Editora Nova Fronteira
2005 - 331 páginas

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Crime e Castigo




Terminei finalmente de ler Crime e Castigo de Dostoiévski. Depois de várias pausas, retomei e, com algum esforço, consegui acabar. Não é digamos uma leitura de férias, pois o livro é denso ao extremo, cansativo, cheio de detalhes. 

Conta a história de um rapaz que comete um duplo assassinato - ele mata uma velha agiota para roubar seus bens e acaba matando também a irmã que aparece no local - e depois vive um drama psicológico devido ao sentimento de culpa e arrependimento. Tanto que não consegue usufruir do que rouba e acaba enterrando sob uma pedra em algum lugar em via pública. 

O mérito da obra, na minha opinião, está justamente nos fluxos de consciência dos personagens, seus medos, desejos e apreensões. O leitor vive intensamente o drama e a loucura do assassino e o peso de seu ato e acaba até torcendo por ele, por verificar que, no fundo, não é má pessoa, é um doente que cometeu um erro fatal.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Hora da Estrela



Sinopse: Pouco antes de morrer, em 1977,  Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza sua escrita para desafiar a realidade. O resultado desse salto na extroversão é A hora da estrela, o livro mais surpreendente que escreveu. Se desde Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, Clarice estava de corpo inteiro, todo o tempo, no centro de seus relatos, agora a cena é ocupada por personagens que em nada se parece com ela.


Logo de início o leitor é recebido por uma reflexão sobre escrever, pensar e existir do escritor Rodrigo S.M., que logo passa a compartilhar a história que lhe persegue, e tem como personagem principal a nordestina Macabéa. 

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.

Uma mulher que o acusa e o sufoca, ao qual sua única chance de defesa é escrever a sua história, e para isso ele precisa se entregar de forma total, sendo desleixado com roupas e higiene, substituindo o sono profundo por rápidos cochilos.

Macabéa vive na pobreza, tanto de espírito quanto de amor. Quando a tia que lhe cria morre, por motivo desconhecido, a moça resolve se mudar para o Rio de Janeiro. 

Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.

No pequeno quarto alugado ela cria a sua própria rotina, seja trabalhando como datilógrafa, ouvindo a Rádio Relógio ou namorando um metalúrgico também nordestino. Até sentir a dor da traição.

Até uma cartomante, após listar as novas desgraças que irão lhe abater, lhe dá uma boa nova: que a partir do momento que ela colocar os pés para fora da casa da adivinha, tudo em sua vida irá mudar, permitindo que ela finalmente se sinta outra pessoa, o que faz nascer uma esperança até então adormecida.

Macabéa fingia enorme curiosidade escondendo dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso era assim mesmo.

Essa mistura de eventos que o narrador imagina para essa mulher sem atrativo nenhum, ao qual complementa com suas opiniões e próprias experiências, que compõe o livro “A hora da estrela”. 

O impacto da narrativa de Clarice Lispector irá depender (e muito) do grau de envolvimento do leitor. Pois a sua simplicidade não trás nenhuma surpresa. Ou o leitor se envolve com a personagem que muitas vezes domina o autor, ou a deixará em branco. 

Pensar era tão difícil, ela não sabia de que jeito se pensava.

Um livro curto e de leitura rápida, “A hora da estrela” reflete o nosso cotidiano de dúvidas e escolhas, além da mesma busca por um final, que não se sabe se feliz ou não.

Para os fãs de Caio Fernando Abreu fica a penúltima frase “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos”.

A Hora da Estrela
Clarice Lispector
Editora Rocco
1977 - 87 páginas

domingo, 27 de dezembro de 2009

Nosso homem em Havana


Sinopse: Certamente o mais bem-sucedido "passatempo" ou "diversão" de Graham Greene, este cômico jogo de espionagem na Cuba pré-Fidel Castro apresenta um insignificante vendedor de aspiradores que se transforma num agente do M16 - ou "nosso homem em Havana. Contudo, as mentiras que Greene forja nos relatos do seu personagem começam a se tornar reais nesta sátira publicada em 1958. Embora tenha uma profunda e melancólica tragédia oculta no seu passado, a história permanece deliciosamente absurda, fruto dos melhores esforços do escritor. E é em parte uma reminiscência do clássico O Agente Secreto, de Joseph Conrad, no qual um anarquista travestido de comerciante recebe pagamento como espião por nada fazer (dinheiro que lhe permite manter a companhia de uma bela mulher).

Jim Wormold é um inglês que mora a muitos anos na capital cubana, da relação ficou a guarda da sua filha Millie, uma adolescente que estuda em uma escola no convento americano, possui gostos caros e é o que preenche o vazio dos seus pais.

Não obstante, um estranho poderia ter a impressão de que se extinguiria primeiro, pois as sombras lá estavam - sombras de angústia que estão além do alcance de um tranquilizante.

Um dia, em sua vazia loja de aspiradores, recebe a visita do engraçado agente do M16 Hawthorne, que vê nele características para se tornar o espião que eles precisam. Em um primeiro momento Wormold não quer considerar a proposta, mas seu amigo alemão de mais de 15 anos, Hasselbacher, lhe dá a ideia de forjar relatórios e assim ficar com o dinheiro.

Pensando em resolver os seus problemas financeiros e atender aos desejos da adorada filha, ele resolve adotar a ideia e assim entra em um universo paralelo, inventando diversos agentes, utilizando-se de nomes de pessoas reais aos quais não mantém nenhum contato, e utiliza os desenhos das peças dos aspiradores que vende para criar plantas de fábrica.

Se ao menos tivéssemos nascido palhaços, nada de mau poderia acontecer-nos, salvo algumas contusões e manchas de alvaiade.

Nas primeiras semanas Wormold se sente feliz em sua aventura, pois tem o sentimento de estar fazendo algo interessante sem se preocupar com dinheiro. Tudo muda quando um de seus falsos agentes é assassinado e sua própria vida passa a correr risco. 

Mas ao mesmo tempo que corre contra o tempo para que não tenha mais nenhuma vítima, Wormold experimenta após muitos anos a paixão por uma mulher. Mudando de vez a sua pacata vida de vendedor de aspiradores.

Pela primeira vez, ocorreu-lhe que aos olhos deles - fossem eles lá quem fossem - ele havia recebido dinheiro sem que houvesse dado nada em troca.

Misturando comédia, espionagem, conflitos políticos e análise psicológica, Graham Greene consegue em Nosso homem em Havana divertir e interessar o leitor da primeira a última página. Narrado em terceira pessoa e dividido em cinco partes, a escrita do autor é muito fluída, instigando o leitor a virar mais uma página para descobrir como o personagem irá se desenrolar de toda essa confusão.

Nosso Homem em Havana
Our man in Havana
Graham Greene
Tradução: Brenno Silveira
RBS Publicações
1958 - 286 páginas

domingo, 20 de dezembro de 2009

Manhattan – Louca e Desvairada


Sinopse Jogos de Espelhos: A grande chance na carreira de Ariel Kirkwood aparece quando o escritor Booth DeWitt a escolhe para interpretar o papel de Elizabeth Hunter, a cruel ex-esposa dele. E Ariel queria mais do que ser atriz principal de um filme autobiográfico de Booth. Mas será que conseguiria convencê-lo de que ela era uma mulher real?

Ariel é uma atriz em ascensão, há cinco anos ela interpreta a mesma personagem de uma popular novela diurna. Aos 25 anos de idade, é uma jovem mulher otimista e de bem com a vida, que acredita no melhor das pessoas.

Mas isso não quer dizer que ela não tenha problemas, afinal, estamos falando de um romance de Nora Roberts. 

Alguma atriz algum dia é ela mesma?

De início Ariel nunca foi apaixonada por ninguém, ela ainda espera encontrar alguém que lhe faça os joelhos tremerem. o que ela encontra no diretor Booth De Witt, um diretor de cinema que busca a atriz perfeita para fazer o papel de sua ex-esposa. 

A escolha do tema foi a terapia de Booth, ao transferir toda a sua raiva para as palavras, ele desiste de jogar tudo na gaveta e se expor em nome do que considera a sua melhor obra. E ao ver Ariel representar tão perfeitamente a causadora de toda a dor, será atingindo por sentimentos conflitantes.

Bastava-lhe ver seu sorriso, ouvir sua risada, ouvi-la falar sobre algo que não necessariamente fizesse sentido.

Em paralelo ao novo relacionamento ela tem o desafio de enfrentar os avós maternos de seu sobrinho, ao qual deseja adotar por acreditar que ele não é feliz. 

Sinopse Um Herói em Nova York: A especialidade de Mitch Dempsey era criar super-heróis, não exatamente ser um deles. Mas havia algo na tímida Hester Wallace e em Radley, seu filho de nove anos, que despertava em Mitch o desejo de protegê-los, honrá-los e amá-los para sempre.

Hester e Radley acabaram de se mudar, o garoto, fã de quadrinhos, se prepara para ser a novidade no bairro e na escola entre os mais jovens. O menino não gosta que a mãe se sinta infeliz pelo seu pai ter ido embora.

Hester vive as aflições de uma mãe em criar um filho, com o adicional de não ter com quem dividir as suas preocupações e decisões.

Ele não precisava mesmo de um pai, porque tinha ela.

Enquanto isso o seu vizinho Mitch Dempsey precisa de ideias para suas novas histórias, é quanto o erro do entregador de pizza lhe dá a oportunidade de conhecer de perto a sua vizinha. Se Hester é toda fechada neste primeiro encontro, enquanto Radley vai a felicidade pura ao conhecer o criador de seu personagem em quadrinhos favorito.

O encanto do menino Radley pelo homem bonito e criativo, somado ao fato do garoto sonhar em ter um pai de verdade - pois pais de verdade não vão embora como o seu pai biológico -, tornam a segunda história particularmente interessante, pois o que poderia ser um dramalhão mexicano é apenas um reflexo do comportamento de homens que abandonam suas famílias na vida real. 

Às vezes é melhor não cavar fundo demais quando na verdade não se quer saber.

Não há lágrimas nos olhos do menino, apenas uma saudade que faz o leitor sentir vontade de abraça-lo, enquanto relaxa e se emociona com as histórias de Nora Roberts.

As duas histórias se utilizam da narrativa em terceira pessoa e exploram o romântico, ficando centralizada no casal principal e poucos secundários. Não é um livro para filosofar, pensar ou debater, mas para relaxar e se deixar levar pelos personagens.

Afinal, uma leitura leve também é sempre bom para nos tirar do stress do dia-a-dia.

Manhattan - Louca e Desvairada
Truly, Madly, Manhattan
Nora Roberts
Tradução: Alda Porto
Harlequin Books
1985 - 444 páginas
Onde comprar: Amazon

domingo, 13 de dezembro de 2009

Uma Vida Inventada


Sinopse: É inútil tentar separar realidade e fantasia em Uma vida inventada. Em seu segundo livro, Maitê Proença mistura literatura e vida, verdade e imaginação, brincando com o leitor de esconder e revelar. Mais importante do que a realidade é o jogo narrativo em que ela nos envolve. "Eu mesma, no íntimo, sou bastante comum", revela a autora para, logo em seguida, nos arrebatar com histórias incríveis, valendo-se de uma linguagem extremamente pessoal, às vezes lírica, às vezes dramática. Com muito sendo de humor e ironia, ela desfia casos surpreendentes, entremeados com a história de uma menina que quis desbravar o mundo e, descobrindo-o, descobriu a si mesma. 


Com duas histórias ocorrendo em paralelo, confirmamos o que é descrito na orelha inicial do livro, é difícil saber o que é ficção e o que é autobiográfico no livro escrito por Maitê Proença. 

Uma menina vive entre um pai em fúria que lhe conta sobre uma separação e uma mãe tranquila e alegre que afirma a filha que só havia concordando em considerar tal possibilidade para acalmar o marido.

E assim procurava encontrar o caminho para os porões ocultos onde agora vivia seu pai, e, quem sabe, trazê-lo de volta para um momento já transcorrido, em que tudo seria possível... se aquilo fosse possível.

Mas a própria mãe acaba buscando abraços mais gentis, o que gera revolta em seu irmão e deixa a mente da menina confusa, que vive envergonhada de si e da figura materna que a guiava.

Quando entramos nas memórias da autora, ela inicia nos contando sobre o seu tumulto interno, suas primeiras vezes, suas relações afetivas. Do temperamento da família que não consegue medir consequências, até a sorte que tem de não ter sido consumida pelas drogas que usou.

Esta noite num perrengue de casal fiz o de sempre, o de ontem, de há dez anos, vinte: comparei um amor com outro para desmerecer esse que amo agora.

E o que se segue não tem pudores, e a forma como ela conecta os seus próprios traumas, como de uma gravidez ao dezesseis anos que foi seguida de um aborto, assim como o fato da mãe ter sido vítima de feminicídio, fez com que me sentisse em uma sala ouvindo suas histórias mais íntimas, como um encontro entre amigas, onde dividimos o que está na nossa alma e assim aliviamos nossas mágoas, para em seguida relembrar nossas alegrias.

Se em um momento o narrador em terceira pessoa irá contar a história de uma menina que tem a vida totalmente alterada pelo fato do pai ter assassinado sua mãe, do outro, em primeira pessoa, a autora conta sobre diversas passagens de sua vida sem meias palavras, citando a filha, familiares, amigos, amantes e aventuras. 

Minha mãe foi uma mulher extraordinária. Era alegre, vibrante, gostava de brincar, dançar, falar, e era muitíssimo inteligente.

Em comum temos a figura de mulheres, reais e imaginárias, seus dilemas, problemas, personalidades, características e saudades. Maitê, como a menina, perdeu a sua, e a descreve a com um misto de carinho e saudade.


Se o início é traumático, onde amor e ódio, vida e morte são separados por uma linha tênue, no decorrer das páginas será possível identificar também alegria, ironia, maturidade e loucura, nos lembrando que nos dois mundos, o real e o da imaginação, há equilíbrio. 

Não existe sentimento mais forte que uma imensa paixão. A gente sofre, cega, emburrece, se adoenta e sara. E depois, como se nada houvera, se apaixona de novo.

O que nos leva a crer que se entregar a tudo o que a vida oferece não significa acabar com as dúvidas, afinal, os questionamentos são combustíveis para seguirmos os dias. Nem que a beleza e a fama são garantias de um felizes para sempre. 

Nesse momento, percebe-se que verdades e mentiras se misturam, podendo-se acreditar que tudo o que está descrito em ambas as narrativas aconteceu, como imaginar que tudo não passa de um “Se” com “S” em maiúsculo mesmo.

A mãe observou a filha minuciosamente, como jamais havia feito, e comoveu-se ao perceber que havia muito dela mesma naquela criança. 

Ao mesmo tempo é possível perceber que entramos em um universo totalmente feminino, onde é impossível não se identificar com uma ou mais situações, assim como os sentimentos ali descrito, tornando essa conversa ainda mais íntima, compartilhando risadas e apoio. 

Uma única coisa é certa, Maitê, nós leitores e suas personagens parecem estar sempre na mesma busca diária: o dia em que nos encontraremos. 

Uma vida inventada - Memórias trocadas e outras histórias
Maitê Proença
Editora Agir
2008 - 214