quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Amor e Amizade & Outras Histórias



Sinopse: Acredita-se que amor e amizade tenha sido uma das primeiras empreitadas de Jane Austen no que viria a ser seu ofício. Criada quando a inglesa tinha catorze anos, esta novela é composta de cartas escritas por Laura, em que conta seus infortúnios amorosos do passado. Já nesta obra Austen brinca com os clichês das histórias de amor da época – como o amor á primeira vista – e dá um verniz de sarcasmo ao enredo de reviravoltas românticas, mostrando um humor que marcaria sua obra dali em diante.

Este pequeno livro composto de três histórias, todas narradas em forma de carta, estão para mim mais como contos, vieram no combo-mimo de clássicos da TAG Curadoria de julho, e foi uma agradável surpresa.

Logo de início temos um prefácio do escritor e jornalista britânico G. K. Chesterton, cujo texto começa por opiniões controvérsias das obras de Jane Austen, passando por uma análise das histórias, até o fato de ter deixado tudo, inclusive seus manuscritos, para a irmã Cassandra.

A seguir o leitor será informado um pouco mais sobre a própria escritora, que teria escrito os seus contos ainda na adolescência, mostrando que sua ironia era algo nato.

O primeiro conto é exatamente o título do livro Amor e Amizade, tudo começa com Isabel enviando uma carta para Laura, solicitando que esta detalhe para a sua filha todas as desgraças pela qual passou.

Neste momento o leitor se torna Marianne, filha de Isabel, e acompanha todas as desventuras um tanto estapafúrdias de Laura, que envolve relações familiares, casamento, interesses, encontros e desencontros.

A crítica à sociedade da época não é nada sutil, o falso moralismo nada mais é que um reflexo de inocência inexistente. Tudo gira em torno de dinheiro, o que nos faz pensar o que Marianne estava pensando em fazer.

A segunda história se chama As Três Irmãs, e é a mais engraçada do livro. Mary inicia a sua carta se dizendo a pessoa mais feliz do mundo por ter recebido uma proposta de casamento do Sr. Watts.

Não, ela não é apaixonada pelo Sr. Watts, conforme ela ele é velho (possui cerca de 32 anos), é muito feio, desagradável e ela o detesta.

Mas ele é rico, e se ela não aceitar irá fazer a proposta as suas irmãs, e se estas não aceitar as filhas de uma outra família. Por saberem que a mãe não irá permitir a negação das três filhas, as duas mais novas resolvem enganar a mais velha, para convencê-la a se casar e assim livrando elas do partido indesejado.

A troca de cartas acaba sendo um jogo de manipulação, onde o trunfo é de quem possuí mais informações para saber como atiçar o lado competitivo da outra.

Para encerrar o conto Uma Coletânea de Cartas, que como as duas primeiras é narrado em forma de missiva. Aqui não temos personagens fixas, mas cartas que são desabafos para amigas sem nomes.
É uma mãe relatando as mudanças na forma de convívio com as filhas, uma jovem frustrada pela paixão, outra jovem que se sujeita a comentários da mulher que a leva para um baile, e outras histórias que parecem narrar à rotina das jovens de uma sociedade que hoje parece muito distante de nós.

O livro é curto e de rápida leitura, uma das coisas que eu mais gostei foram das dedicatórias antes de cada história, como a que Jane Austen dedica ao seu marido: “Ao Ilmo. Edward Austen o seguinte romance inacabado é respeitosamente dedicado por sua obediente e humilde serva, a autora.”. 
Amor e Amizade & Outras Histórias

Love and friedship
Jane Austen
Tradução: Rodrigo Breunig
TAG – L&PM Pocket
124 páginas

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Sonho de uma noite de verão



Sinopse: Sob o solstício de verão, humanos, espíritos da natureza e criaturas fantásticas performam seu espetáculo. Diante de um casamento arranjado por seu pai e pelos deuses, Hérmia decide fugir à noite com o seu amado Lisandro, para a tristeza do seu prometido, Demétrio. Ele, por sua vez, é desejado pela confidente de Hérmia, Helena. Nos bosques mágicos, o quarteto se reconfigura, transformando essa trágica história de amor em uma comédia caótica.

Eu li este livro de William Shakespeare em uma versão juvenil quando estava ainda no colégio e havia me encantado com a leitura. Então foi com prazer que recebi o exemplar que foi mimo do mês de julho da TAG junto com outros dois clássicos.

O livro exige imaginação dos seus leitores, pois é uma peça descrita. Ele não possui partes, possui atos. E ele não possui capítulos, possui atos. Ele é 99% diálogo, havendo apenas exceção para as entradas e saídas de cena.

Acorde o atrevido e ágil espírito do júbilo, expulse a melancolia daqui para os funerais.

A história – ou a peça – é iniciada com uma conversa sobre as núpcias de Teseu, o duque de Atenas, e Hipólita, a rainha das amazonas. Tudo está ocorrendo bem até Egeu e sua filha Hérmia entrarem em cena.

É neste momento que inicia um dialogo onde Teseu cobra da jovem obediência ao seu pai, lhe deixando duas alternativas: ou casa-se com o escolhido Demétrio ou vira freira. Não adianta a jovem dizer que o seu amado Lisandro tem as mesmas qualidades do seu pretendente, pois lhe é exigido que ela assumisse a visão de seu pai.

Mas, então, se amantes fiéis sempre foram traídos, isso é uma lei do destino.

No desespero, ela e Lisandro decidem fugir, iniciando sua fuga por uma floresta. Helena, sua confidente, tentando ganhar o amor de Demétrio lhe conta tudo, e ambos também vão para a floresta. Aqui assistimos Helena ser destratada inúmeras vezes por Demétrio, o que pode agoniar o leitor mais sensível, já que ela permanece seguindo-o mesmo após as humilhações.

O que ninguém sabe é que Oberon e Titânia, rei e rainha das fadas e dos duendes, estão em pé de guerra em plena floresta. E Bute, um duende endiabrado que atende as ordens de Oberon irá fazer a maior confusão em uma quente noite de verão.

Não é você que, às vezes, não deixa a cerveja fermentar, e desorienta os viajantes noturnos e ri de sua desgraça?

 O ritmo de leitura de um Sonho de uma noite de verão irá depender da adaptação à linguagem, que em relação aos dias atuais parece um tanto rebuscada, como no momento em que Egeu se dirige a Teseu dizendo “Cheio de vergonha venho eu, com queixas contra minha prole, minha filha Hérmia.”.

Mas também é uma história divertida, já que Shakespeare exagera na dramaticidade de seus personagens a ponto de se tornarem cômicas, e conforme Bute vai aprontando, mais surreal se torna a noite de cada um dos envolvidos.

O que tu vires quando acordares, toma por teu verdadeiro amor.

A leitura vale a pena por ser um clássico, por ser divertido e por nos fazer exercitar a imaginação. Eu, por exemplo, me imaginei sentada em um teatro aberto, onde parte do cenário era o próprio local.

Sonho de uma noite de verão
A midsummer night’s dream
William Shakespeare 
Tradução: Beatriz Viégas-Faria
TAG - L&PM Pocket
128 páginas

quarta-feira, 31 de julho de 2019

O Sentido de um Fim



Sinopse: Tony Webster vive em Londres. Um dia, recebe uma pequena herança e o fragmento de um misterioso diário de um de seus melhores amigos, Adrian Finn, que cometeu suicídio aos 22 anos. A partir desta lembrança, Webster revisita sua juventude na Inglaterra dos anos 1960 e tenta decifrar os escritos herdados, confrontando sua própria memória, a inexata versão dos fatos e o seu papel na cadeia de eventos que resultou na morte do brilhante amigo Adrian.

O livro de junho da TAG Curadoria teve como curador o escritor Michel Laub, autor várias obras, entre elas O Diário da Queda já resenhado aqui no blog. A obra é do britânico e vencedor do Man Booker Prize Julian Barnes.

O sentido de um fim é narrado em primeira pessoa por Tony, um homem comum, já aposentado com mais de 60 anos, divorciado, pai de uma filha, que divide a sua história em duas partes. 

Este último não é algo que eu vi de verdade, mas o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu.

A primeira parte vai do momento que Adrian se junta ao grupo de amigos de Tony até o seu suicídio, onde ao final o narrador faz um rápido resumo até os seus dias atuais. Existe uma certa superficialidade nesta etapa, que começa com o típico deboche adolescente, passando pela separação quando cada um escolhe a sua universidade, e a partir daí temos uma centralização na vida de Tony.

Do seu primeiro relacionamento amoroso, onde Veronica, sua namorada, parece apenas manipula-lo. Há uma visita à casa dos pais da moça, a apresentação da mesma aos seus amigos, e o relacionamento da ex com o seu então amigo Adrian.

Naquela época, as coisas eram mais simples: menos dinheiro, nenhum aparelho eletrônico, pouca tirania da moda, nenhuma namorada.

Tudo descrito de forma linear, ou usando o adjetivo que o próprio Tony usa para se definir: pacato. Mesmo o suicídio de Adrian é um espelho de outro que ocorre no começo da história, seguindo o ritmo definido.

Ao finalizar a primeira parte fiquei pensando se o nosso narrador tentava nos convencer de seu estilo devagar, ou era um mentiroso. Se Adrian era brilhante como ele dizia, ou fruto da santificação dos mortos, fato comum que ocorre com a maioria das pessoas que tendem a imaginar que a pessoa que se foi era muito melhor do que realmente era. Assim como a descrição de Veronica, se ela era real ou escondia resquícios de uma grande mágoa.

Algum inglês disse que o casamento é uma refeição comprida e sem graça onde servem o pudim primeiro.

A segunda parte inicia sobre Tony falando da perda da juventude, das consequências de envelhecer, da relação um tanto distante com a filha até chegar à carta de uma advogada com uma herança improvável que o leva de volta ao passado.

É neste momento que novas memórias surgem, assim como perguntas sem respostas, sendo a maior delas se Tony é realmente um homem pacato ou babaca.

Eu descobri que esta pode ser uma das diferenças entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.

O que torna interessante a segunda parte é o confronto das divergências da parte um com a parte dois, fazendo com que a memória do leitor seja tão solicitada quando a do próprio personagem.

Particularmente eu achei o livro mais ou menos, não amei, não detestei, e não criei empatia com ninguém. Mas ele pode causar paixão nos leitores que se encantam por suas analogias em relação ao tempo, a própria palavra sentido – viria de sentimento? De direção? De significado? – de impulsos sejam sexuais ou de violência que são vislumbrados momentaneamente.

Mais tarde... mais tarde há mais incertezas, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças.

Recomento a leitura pelo seu depois. Pela imaginação que ela desperta no seu leitor ao permitir que ele crie teorias. Em tempos de verdades absolutas, ter o ponto de interrogação como protagonista não deixa de ser uma leitura que gera grande inquietação.

O sentido de um fim
The sense of an ending
Julian Barnes
Tradução: Léa Viveiros de Castro
TAG – ROCCO
2011 – 175 páginas

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Ensaio Sobre a Lucidez



Sinopse: Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa. Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre partidos da direita, do centro e da esquerda; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia – o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.

Em 1995 a mesma população se fez presente em uma situação nada comum: todos, com exceção de uma mulher, estavam cegos, tudo o que viam era a cor branca. O livro se chama Ensaio sobre a cegueira e deu a Saramago o prêmio Nobel de literatura.

Nove anos depois, ou quatro no país imaginário, o branco retorna em forma de voto, questionando a democracia, o sistema político, a imprensa, a mediocridade, a mentira e a verdade.

Tudo começa em um dia de muita chuva, o presidente da mesa, os delegados dos partidos, secretários e demais envolvidos esperam pelos eleitores na capital de um país. Passa o tempo e ninguém aparece, ligações são feitas, a chuva é a culpada e todos aguardam. Faltando uma hora para o término a população sai às ruas e exerce o seu direito cívico. Na hora da apuração, a surpresa: mais de setenta por cento dos votos estão em branco.

A cabeça dos seres humanos nem sempre está de acordo com o mundo que vivem, há pessoas que têm dificuldade em ajustar-se á realidade dos factos, no fundo não passam de espíritos débeis e confusos que usam as palavras, às vezes habilmente, para justificar a sua cobardia

A primeira reação do governo é realizar novas eleições, para obter o mesmo resultado. E assim presidente, primeiro-ministro, ministros ficam desnorteados, e começam a colocar em prática as mais absurdas soluções para uma consequência ao qual não dão importância de investigar a causa.

Diálogos sem nexo são travados, disputas pelo poder ganham ênfase. Quem tem razão? Quem acerta? Quem erra? Ministros se demitem. Outros acumulam cargos. De quem será a glória de fazer as pessoas voltarem a si?

No vale tudo a palavra branco é banida, o direito ao voto branco é esquecido tornando o mesmo um crime, jornais são manipulados para informarem o que o governo deseja, quem são os culpados? Ninguém sabe, apenas silêncio e medo.

Felicito-o pela excelente memória, mas às ordens, de vez em quando, há que flexibilizá-las, sobretudo quando haja nisso conveniência

A falta de resultado torna uma cidade sitiada, à noite em que os políticos abandonam a capital é descrita de forma belíssima, uma crítica, um afronto, um combate em silêncio.

E é desta cidade agora sitiada que vem o link com o primeiro livro, quando o primeiro cego relaciona a mulher do médico oftalmologista aos votos em branco, pelo simples fato de ela não ter ficado cega quatro anos antes. Fatos antigos são relatados em forma de presente para quem deseja exercer maior influência.

Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão

Neste momento um comissário de policia ganha a missão de investigar, e o leitor volta a ter contato com seis personagens da história anterior, onde cinco deles seguem se apoiando em uma nova situação absurda. 

O que faz um homem que encontra a verdade, mas esta não atende os anseios de quem comanda? O que faz um homem ao ver informações serem distorcidas? Novamente os dilemas éticos na visão de um cidadão comum.

Como ocorreu no Ensaio Sobre a Cegueira, os personagens não possuem nome. É o vigia, o padeiro, o jornaleiro, o editor, o velho. Indicando que este lugar imaginário pode ser o país do leitor, e este ser um dos personagens sem perceber.

A crítica e a ironia escorrem das páginas, mesmos nos capítulos que parecem mais lentos. O que é realmente a democracia? Quais são os direitos? Quais são os deveres? Qual o papel dos políticos? Até onde se vai pelo poder? Quem é culpado? Quem é inocente? 

E assim novamente Saramago nos despeja uma leitura reflexiva, onde as peças podem não se encaixar na primeira vez. Uma leitura complementar que fecha um ciclo e nos faz pensar no nosso papel como cidadão, mas esta só será possível se nos livrarmos de opiniões pré-concebidas e avaliarmos o cotidiano em uma folha em branco.

Sobre o final: fazia tempo que eu não deseja tanto que um livro terminasse de forma diferente.

Ensaio Sobre a Lucidez
José Saramago
Companhia das Letras
2004 – 325 páginas

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Jude, o Obscuro



Sinopse: Ansioso para escapar das amarras de sua classe social, Jude Fawley sonha em um dia se tornar professor universitário. Apesar do empenho nos estudos de letras clássicas, o entalhador se vê cada vez mais sufocado pela pobreza e pelo casamento infeliz com Arabella Donn, filha de um criador de porcos.
É quando finalmente conhece Sue Bridehead, prima distante e nada convencional, que Jude vislumbra uma chance de felicidade. Em uma sociedade tão pouco favorável a mudanças como a do sul da Inglaterra em meados do século XIX – cujos costumes, dialetos e arquitetura Thomas Hardy aqui recria com exatidão -, o amor deles logo se transforma em uma sentença.
Jude, o Obscuro, o último romance de Hardy, é considerado o trabalho mais corajoso e inovador do escritor. Originalmente publicado em fascículos mensais, cada novo capítulo trazia uma onda de choque aos leitores vitorianos. Como em outras obras do autor, é possível perceber o quanto a sociedade é cruel com aqueles que desafiam suas tradições.

Curadora do mês de Maio da TAG Curadoria, a atriz Fernanda Montenegro indica um clássico do final dos anos de 1890 do autor inglês Thomas Hardy.

Dividido em seis partes, o leitor logo é apresentado ao menino Jude, órfão que mora e trabalha para a tia na cidade de MaryGreen. Ele tem onze anos e está triste com o fato do professor Mr. Phillotson estar indo embora para uma cidade chamada Christminster.

Ia ter sido uma benção se o senhor todopoderoso tivesse te levado também, com o teu pai com a tua mãe, meninho sem serventia!

Este professor é o responsável por Jude se encantar pelas letras e se tornar um autodidata. Conforme cresce, o leitor percebe que ele é inteligente, bom, mas muitas vezes utiliza da sua pobreza para justificar a falta de foco para atingir os seus sonhos.

E a sua bondade o torna também um homem facilmente manipulável, o que o torna a vítima perfeita para Arabella, até esta perceber que todo o seu potencial não tem riquezas como resultado.

Que a piedade para com um grupo de criaturas fosse crueldade para com um outro era algo que deixava sua noção de harmonia nauseada.

Outro fato constante na vida de Jude é a obsessão pela cidade universitária de Christminster, que para ele é a representação de toda a luz do conhecimento, e ele é um inseto a flutuar em sua volta buscando uma forma de entrar, esquecendo-se que a luz também pode queimar.

A primeira coisa que se deve dizer sobre o livro é que apesar de ser um livro com mais de cem anos, sua linguagem permanece atual, sendo fácil entrar no mundo da narrativa.

A morte pacífica não o aceitava como súdito e não o acolheria.

A segunda coisa que se deve dizer é, como diz na sinopse, inicialmente ele era um folhetim, e com isso existem alguns capítulos que parecem ser um pouco de enrolação até a cena de maior emoção. Levando o leitor com certa curiosidade para a próxima parte, como ocorrem em muitas novelas televisivas.

A terceira coisa a se dizer é que os dois personagens masculinos principais possuem algumas características semelhantes, tanto Jude quanto Mr. Phillotson são homens essencialmente bons, que acreditam nos outros. No caso de Mr. Phillotson ele poderia ser considerado inclusive um feminista, por suas atitudes fortes em defender o direito de uma mulher escolher o próprio rumo em uma época que isso era incomum.

Fosse ele uma mulher, teria gritado sob a tensão nervosa por que ora passava. Mas com este alívio negado à sua virilidade, rangia os dentes com o sofrimento, fazendo surgir em sua boca rugas como as de Laocoonte, e vincos entre as sobrancelhas.

A quarta coisa a se dizer é que as três personagens femininas que norteiam os caminhos do Jude já possuem o dom da manipulação, da crueldade e da vaidade. Começando pela sua tia Drusilla que o chama de menino sem serventia, passando por Arabella que busca melhorar de vida até a sua prima Sue, uma mulher que parece extremamente moderna até ceder a rivalidade feminina e perder uma a uma de suas convicções.

É tão culpável se obrigar a amar para sempre quanto acreditar para sempre no mesmo credo e tão tolo quanto prometer gostar para sempre de uma dada comida ou bebida!

A quinta coisa a se dizer é que se faz necessário observar a brincadeira que o autor faz com alguns personagens como o sobrenome do professor que lembra filosofia e de Sue que lembra noiva.

Você acha que existem muitos casais em que uma pessoa não gosta da outra sem qualquer problema que definitivamente a leve a isso?

A sexta coisa a se dizer é que Hardy aborda de forma direta críticas a religião, as universidades inglesas e ao casamento. O conhecimento ser destinado a poucos, o peso da igreja influenciado os atos do personagem, a exigência da sociedade pelo homem dominar a mulher, a exigência do casamento como pré-requisito para ser uma família.

E, no entanto, não vejo por que motivo a mulher e as crianças não possam ser a unidade sem o homem.

E a sétima e última coisa é que Jude faz o leitor se surpreender, questionar e se chatear com muitas das ações dos personagens. E quando se questiona as escolhas de cada um, acaba-se pensando também na sociedade atual, principalmente ao identificar que muitas situações não perderam a atualidade, como na frase abaixo:

É isso que algumas mulheres não enxergam, e, em vez de protestar contra as condições, acabam protestando contra o homem, a outra vítima;

Como bônus os leitores da TAG ganharam uma das edições mais bonitas do ano, e uma mudança em relação as versões anteriormente publicadas no Brasil: os nomes dos personagens não foram traduzidos.

Um livro que literamei e literaturei, mas que indiferente não fiquei.

Jude, o Obscuro
Jude the Obscure
Thomas Hardy
Tradução: Caetano W. Galindo
TAG Curadoria – Companhia das Letras 
1895 – 399 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Nove do Sul



Vinte anos de silêncio separam os novos da velha geração. Nesses vinte anos a paisagem mudou e as condições se alteraram. O Rio Grande do Sul deixou de ser a ilha verde de vida tranquila para se tornar campo de batalha. A velha geração ficou onde estava, tida, mantida e publicada. A nova geração encontrou silêncio, descaso e editoras fechadas. Vinte anos durou a fase, onde ir para o Rio era descobrir a América e, pelo menos, tentar uma nova vida.

Assim começa a apresentação de um livro de contos que em meio a mudanças saiu da casa da minha mãe e foi encontrado perdido entre as minhas prateleiras em uma limpeza.

Nove do Sul trás, como diz o título, nove escritores gaúchos e seus contos. Os estilos são diferentes, não havendo nada mais em comum do que o estado em que nasceram. O livro fino é um convite para conhecer vários autores nacionais de uma só vez.

Quem começa é Cândido de Campos, que trás seis contos rápidos que trazem o cotidiano: O cortejo, O espião, Um beijo, Santinha, Suspeita e Lugar de ladrão. Neles você encontra a morte, as descobertas da adolescência, amores não correspondidos, mudanças e desconfianças. Tudo em uma escrita bastante fluída, às vezes reflexiva outra cômica.

Em seguida temos Josué Guimarães com dois contos mais encorpados: Odete do Oliveira e A morte do caudilho. No primeiro temos toda influência de uma mãe no amadurecimento e escolhas de sua filha.  O segundo já explora mais o comportamento do antigo gaúcho em situações de conflito. São histórias interessantes, que envolvem o leitor de forma que o mesmo parece estar vivendo ao lado dos personagens cada situação.

Entre as poucas mulheres participantes está Tânia Jamardo Faillace com A descoberta e Um navio. Confesso que desconhecia a autora cujos contos são mais intimistas. Ambos são narrados em primeira pessoa, como se o leitor fosse um amigo ao qual os personagens precisam para serem ouvidos ou aconselhados.

Sérgio Jockymann – outro autor desconhecido por mim – trás quatro contos: Jimmy, Compulsão, Torta com chocolate e Tabernáculo do Senhor. Os dois primeiros trazem uma repetição de tema, o de chocolate nada tem de doce e foi um conto que, em minha opinião, deixou a desejar e o último aborda as múltiplas crenças de uma família, onde ele utiliza o recurso de um longo parágrafo, em um estilo similar a Saramago.

A segunda e última mulher é Lara de Lemos, que apresenta os contos Um ser delicado, Em meio da noite, Vertigem e D. Eufrásia. As histórias são curtas e de rápida leitura. De dois casais observando outro cliente em um restaurante, do fogo que queima, a busca por um endereço e a vizinha que a todos ajuda. 

Conhecido jornalista, Ruy Carlos Ostermann trás Moderato cantábile, Extinção do mundo e Tiodoro. Contos curtos de pouco ou nenhum diálogo onde três personagens compartilham um momento da sua vida.

Já Sergio Ortiz Porto vem com O louco, Noite de Carnaval e Jurik. Suas histórias possuem um olhar mais social, com uma mistura de intensidade e sutileza que agradam ao leitor, e pedem uma pausa antes de seguir para o próximo escritor.

O oitavo escritor é Moacyr Scliar com Três histórias de busca, Peixes e Almoço de domingo. Por ser o autor que mais conhecia em termos literários acabou sendo o de maior expectativa. Os dois primeiros vão pela linha fantástica, sendo Peixes o mais interessante em minha opinião. Almoço de domingo trás uma cena familiar onde à figura central é um pai dominador.

Quem fecha é Carlos Stein com A greve dos lixeiros, Os preguiçosos e Mar e Fome I e II. Os quatro tratam do comportamento humano em diferentes situações, sendo apenas um narrado em terceira pessoa e os demais temos apenas a visão do personagem que nos conta para situações que beiram o extremo, mas não o incomum.

O livro é originalmente e 1962, e mesmo passado tanto anos não perderam atualidade, e o gosto ou desgosto vai conforme as preferências do leitor. No geral foi um achado pra mim, e por serem histórias relativamente curtas, mesmo as literaturadas foram fáceis de ler.

Nove do Sul
Autores Diversos
Instituto Estadual do Livro
1962 – 139 páginas

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O Garoto no Convés



Sinopse: Aos catorze anos de idade, o órfão John Jacob Turnstile perambula pelas ruas de Portsmouth, no sul da Inglaterra, cometendo pequenos furtos. Dois dias antes do Natal de 1787, porém, o que tem início como apenas mais uma delinquência resulta numa série de acontecimentos que mudarão sua vida para sempre. Para escapar da prisão, embarca às pressas num navio da marinha inglesa na função de criado do capitão. Seu plano é fugir na primeira oportunidade, mas o que o aguarda é uma aventura de proporções épicas, na qual não faltarão conflitos entre membros da tripulação, tempestades, portos exóticos, ilhas paradisíacas e um motim, que acabaria por se tornar o mais famoso na história naval.

Misturando ficção e fatos históricos o autor John Boyne leva o leitor pelos subúrbios da antiga Inglaterra, passando por marés recém descobertos na visão de um jovem menino, cuja vida não é nada fácil, para contar uma nova versão do motim ocorrido no navio da marinha britânica HMS Bounty.

Mas ele a pronunciou não para insultar, mas com o desprezo natural pelas outras formas de vida que só um cavalheiro inglês podia ter.

O livro é dividido em cinco partes, que vão da proposta para Turnstile embarcar até o seu retorno em terra firme. Por ter como fundo fatos reais, para os mais curiosos são disponibilizadas as referências utilizadas além de um mapa com a viagem do Bounty.

A história começa em 1787, quando Turnstile conversa sobre livros com um fidalgo francês e rouba o seu relógio. Enquanto já imagina a ceia que teria com a venda do objeto acaba preso. E então o jovem que desconhece seus pais e vive em uma casa cheia de meninos como ele, supervisionados por um homem que só os explora, se vê entre duas escolhas: um ano na prisão ou dois anos navegando em um navio da marinha britânica.

Mas um jovem como você devia ter sempre acesso aos livros. Eles enriquecem o espírito, sabe? Fazem perguntas sobre o universo e nos ajudam a compreender um pouco mais o nosso mundo.

A missão do navio é buscar mudas de fruta-pão para alimentar os escravos das colônias inglesas. A missão de Turnstile é atender as ordens do capitão do navio William Bligh. E assim o menino aprende a conviver em um ambiente às vezes hostil, às vezes formal, às vezes perigoso e às vezes tedioso. 

É neste cenário que o leitor vai conhecer mais da história de Turnstile e ser apresentado pouco a pouco aos personagens desta história, que vão do capitão, aos oficiais, passando pelos marinheiros até o cozinheiro. Não são dias fáceis, pois além de ter que aprender a viver em um ambiente totalmente diferente, era obrigado a tolerar alguns abusos quase tão cruéis quantos os vividos anteriormente em terra.

Os ricos sempre consideram ignorantes os garotos como eu, mas às vezes demonstram ignorância igual ou maior, se bem que de outro tipo.

Nos diálogos entre o capitão e o jovem é possível ter uma ideia da cultura social do período, não raro Turnstile questiona, em pensamento, algumas linhas de raciocínio, onde as diferenças econômicas permitem aos mais poderosos ações bastante equivocadas para o leitor de hoje.

Só que ao chegar à ilha todos parecem se igualar, depois de quase um ano navegando, a variedade de frutas e mulheres que se mostram disponíveis aos tripulantes cria a ideia de que outro estilo de vida é possível. E se a viagem até ali havia sido tranquila, sem maiores brigas ou castigos, os seis meses de sol trataram de mudar os desejos de vida para aqueles homens.

E após um motim, Turnstile que ainda guarda ecos do seu primeiro amor se vê amontoado com aqueles que apoiaram o capitão em uma barca abandonada em meio às águas. A busca para casa trás ainda mais reflexões e completa o amadurecimento de Turnstile.

De onde vinha esse controle, eu não sei. Talvez fosse a solidão ou a segurança daquela aparência familiar. Talvez fosse o fato de nenhum de nós jamais ter conhecido coisa diferente na vida.

O garoto no convés é um livro que te leva a virar páginas, a questionar preconceitos, e descobrir um pouco mais da história da navegação. Narrado em primeira pessoa, Turnstile convida o leitor a sentir as mesmas alegrias e dores, sendo difícil ficar indiferente.

Um livro que eu literamei e recomendo para quem busca uma ótima leitura.

O garoto no convés
Mutiny on the Bounty
John Boyne
Tradução: Luiz A. de Araújo
Companhia das Letras
 2008 – 493 páginas