terça-feira, 7 de abril de 2009

O menino do pijama listrado




O irlandês John Boyne é autor de seis romances. O menino do pijama listrado, venceu dois Irish Book Awards e foi finalista do British Book Award. Os livros de Boyne já foram traduzidos para mais de trinta idiomas. 

O protagonista da obra O menino do pijama listrado chama-se Bruno. O garoto tem 9 anos e desde que deixou Berlim, juntamente com a sua família, e passou a residir num lugar praticamente deserto, tem como passatempo fazer explorações nos arredores de sua nova casa. E é numa dessas explorações que o guri conhece Shmuel. 

Não demora muito para que eles fiquem amigos. Bruno é um menino ingênuo - como a maioria da sua idade. Curioso e cheio de dúvidas, dificilmente ele obtém as verdadeiras respostas. A história se passa na II Guerra Mundial. Talvez por ser um livro direcionado ao público infanto-juvenil, a narrativa é um pouco cansativa, devido a algumas repetições. 

Em 2008, o livro foi transformado em filme pela Miramax. Na obra, Bruno - apesar de ingênuo, não somente contesta como agride seu pai. Já no filme, o menino se mostra obediente, chegando algumas vezes a ser submisso. Nestas adaptações para o cinema, geralmente a obra literária é melhor. Mas há exceções. E esta, é uma delas.

domingo, 29 de março de 2009

O Ladrão de Arte


Sinopse: Roma na pequena igreja barroca de Santa Giuliana, uma magnífica pintura de Caravaggio desaparece sem deixar pistas. Paris na câmara de segurança do porão da Sociedade Malevitch, a curadora Geneviève Delacloche é surpreendida com o desaparecimento do maior tesouro da instituição: Branco sobre Branco, a famosa obra do russo Kasimir Malevitch. Londres roubada a mais recente aquisição da National Gallery of Modern Art.

Adquiri O ladrão de arte por acaso, peguei na prateleira, li o seu resumo e achei interessante, já que o livro se tratava do roubo de artes escrito por um estudioso da área. 

Muitos anos antes havia lido “Se houver amanhã” de Sidney Sheldon, que possuía uma temática parecida, cuja heroína era uma ladra, tornando impossível não me questionar: como seria essa história nas mãos de um profissional, como Noah Charney? Mas o livro de estreia de Charney é superficial. 

Era quase como se ela estivesse esperando, ali parada, naquela escuridão artificial.

O autor apresenta diversos personagens conforme os roubos vão acontecendo, sem entrar em maiores detalhes. Algumas vezes, eles parecem estar dando aula sobre a história da arte (parte mais interessante na minha humilde opinião) e os porquês da indiferença das pessoas ao ser noticiado o roubo de um quadro ou escultura. 

O preço de venda nada tem a ver com o fato de a obra de arte ser boa ou não. Tem a ver com quanto as pessoas dispõem a pagar por aquilo em determinado momento.

Existe a tentativa de envolver o leitor em uma teia em que roubos tão diferentes parecem estar relacionados, mas em alguns capítulos O ladrão de artes chega ser chato, e mesmo sendo um livro investigativo, não me instigou a virar as páginas furiosamente para saciar qualquer curiosidade. 

Até onde sei, é uma obra anônima, pintada lá por 1920, na Rússia, no estilo suprematista.

Nem me fez ficar pensando na história, após ter finalizado a leitura e ido dormir. A soma de tudo faz o grande final passar desapercebido, pois em nenhum momento se criou intimidade suficiente com a história para separar os que investigam e os suspeitos. É um exemplo de livro policial em que a ideia é muito boa, mas que falta algo para torna-lo mais profundo e instigante.

Isso significa que o quadro pode não ter sido roubado por encomenda, e isso torna meu trabalho bem mais difícil.

Mas para quem curte arte ou viajar por diferentes cidades através da leitura, a história pode despertar o interesse por outro viés, podendo fazer valer a leitura. 

O Ladrão de Arte
The Art Thief
Noah Charney
Tradução: Cláudio Figueiredo
intrínseca
2007 - 314 páginas

sexta-feira, 6 de março de 2009

Alienante Alienista

Não há quem tenha passado pelo ensino médio ou pré-vestibular sem ao menos ouvir falar da obra O Alienista. Publicada em 1882, conta a história do homem que encerra em um hospício boa parte da população de uma cidade. Seu autor, Machado de Assis, além de ser um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista e crítico literário. Dentre suas obras mais famosas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba.

Considerada uma novela por alguns e um conto mais longo por outros – possui quase 50 páginas – , O Alienista, cujo personagem justifica seus excessos como um bem para o futuro da ciência, seria uma crítica ao cientificismo do século XIX. Os treze capítulos abordam um a um as peripécias do Dr. Simão Bacamarte ao classificar os habitantes de Itaguaí em sãos e loucos. No decorrer da história, muda consistentemente de critérios para avaliar a condição mental das pessoas, chegando a internar até mesmo sua esposa no hospício conhecido como Casa Verde.

Situações inusitadas surgem para mostrar características psicológicas de personagens condizentes com a realidade de qualquer leitor. A mulher que presta atenção na forma de se vestir das amigas, o senhor que gosta de se expo à janela de sua mansão, os vereadores que decretam que nem um deles poderá ser internado na Casa Verde e até mesmo o estranho personagem do Dr. Bacamarte que mesmo fazendo coisas absurdas e causando uma revolução, ainda tem a estima do povo.

Com um texto envolvente e um tanto cômico, Machado de Assis leva os leitores ao encontro de um estilo culto e acessível. Com esta história tão curiosa e narrada de forma rápida e ao mesmo tempo bem detalhada, não é difícil perceber porque o meio acadêmico dá tanto valor a esta obra.


domingo, 1 de março de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira


Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "Treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.

Decidi ler Ensaio após assistir sua versão para o cinema. O filme de Fernando Meirelles me fez sair da sala impactada, mas por mais que ele tente ser fiel, não consegue transmitir a confusão de sentimentos que José Saramago me fez sentir meses depois a cada virada de página. 

Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite

Narrado em terceira pessoa, os personagens não possuem nome, são identificados por sua profissão ou alguma característica. Em meio a cegueira que se alastra, há uma exceção, a mulher do médico segue enxergando, mas mente sobre isso para acompanhar o marido. E ela verá todos os horrores desencadeados pela situação única, assim como a divisão entre opressores e oprimidos.

Eu poderia dar diversas interpretações, dizendo que o livro é uma provocação sobre o que o homem pode fazer em situações de caos, ou simplesmente, por saber que ninguém está olhando. Afirmar que é um livro crítico ao governo, que se livra dos indesejados em qualquer lugar, sem perceber que o mesmo mal irá lhe afligir cedo ou tarde. Ou que trata sobre a covardia humana, onde a maioria se encolhe ao que fala mais alto. 

A mãe não vinha com ele, não tivera a astúcia da mulher do médico, declarar que estava cegar sem o estar, é uma criatura simples, incapaz de mentir,  mesmo para seu bem. 

Talvez acreditar que se trate do machismo (que exige o sacrifício feminino) e do orgulho que esse possui (onde a mulher do outro pode ir, mas a minha não). Ou resumir em uma loucura total, onde o caos e situações bizarras se misturam. 

Mas não. Ensaio não possui definição e nem um resumo apropriado, pois ele depende inteiramente da visão (ou falta) do leitor. É ele quem precisa mergulhar nessa história fantástica e identificar o que lhe atrai, tirando assim a venda sobre os próprios olhos. 

Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. 

Pois ao terminar a leitura, essa foi a minha conclusão: Ensaio sobre a cegueira trata unicamente da alma do ser humano, que apesar de enxergar o sinal de trânsito todo dia, permanece tateando na vida, o que me faz definir tudo em uma única frase: Cegos somos, e cegos continuaremos.

E para quem gostar da leitura, fica uma dica preciosa, existe uma continuação, chamada Ensaio sobre a Lucidez, que você simplesmente não pode deixar de ler.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago
Companhia das Letras
1995 - 310 páginas

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O livro do riso e do esquecimento




Fugindo um pouco do procedimento básico destes posts, de ler o livro, contar a síntese e apreciar, eu vou colocar aqui um trecho da obra "O livro do riso e do esquecimento", de Milan Kundera, que acabo de ler (o terceiro dele que já li, todos maravilhosos). 
"Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si mesmo e para todos os outros) ou nada. E porque nunca será dado a ninguém ser tudo, nós todos que escrevemos livros não somos nada. Somos desconhecidos, ciumentos, azedos, e desejamos a morte do outro. Nisso somos todos iguais: Banaka, Bibi, eu e Goethe. A irresistível proliferação da grafomania entre os políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes me demonstra que todo homem sem exceção traz em si sua potencialidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia com todo direito sair na rua e gritar: Somos todos escritores! Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras. Quando o dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais." 

Que as palavras de Kundera falem por si, a todos nós. E, se puderem, não deixem de ler o livro.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Outro Lado de Mim




Sinopse: Um dos maiores escritores de todos os tempos cunhou o famoso sobrenome ainda jovem, quando se candidatava a apresentador em um programa de calouros. Nos meados de 1930, os EUA atravessavam uma crise devastadora. Sidney, que observava o tempo passar atrás de um balcão de uma drogaria, sentia na pele os efeitos daquela atmosfera melancólica e depressiva. Sua família era obrigada a se mudar frequentemente, em busca de oportunidades de emprego. Para ele só havia uma saída. O suicídio. Uísque com soníferos. As memórias de um dos maiores escritores de todos os tempos. Detalhes até hoje inéditos, em um livro revelador e sincero. 

Sidney Sheldon é um dos autores mais traduzidos no mundo. Conhecido por títulos como “A ira dos anjos” e “Se houver amanhã”, teve como última publicação um livro de memórias com o sugestivo nome de O Outro Lado de Mim, uma clara referência ao seu primeiro romance de sucesso “O outro lado da meia-noite”. 

O outro lado de mim começa com um Sidney de dezessete anos planejando o seu suicídio. Diagnosticado como portador da psicose maníaco-depressivo, passou a vida inteira oscilando entre euforia e tristeza. Somado aos sucessos e desastres de seus textos, o próprio autor comparou sua vida a um elevador. Infelizmente, para por ai. 

Está superestimando o meu pequeno talento e vai se decepcionar. Não sou bom o bastante para trabalhar com ele.

Seu livro de memórias é superficial ao relatar os seus sentimentos, parecendo mais um resumo do dia-a-dia dos estúdios de Hollywood e das peças da Broadway, apimentados com comentários sobre a vida pessoal de alguns famosos (como Marilyn Monroe e Frank Sinatra). 

Sheldon compara suas duas carreiras, afirmando que um romancista é mais valorizado que um roteirista. Pois todos sabem os atores de um filme/seriado/novela, mas dificilmente lembrarão de quem o escreveu. 

Ia desistir de três espetáculos que contavam comigo, e partiria para muito longe, para enfrentar a morte.

Ler O outro lado de mim é ler as críticas recebidas por cada roteiro escrito por Sheldon, saber qual ator participou, quem estava começando, quem já era uma estrela, quem comandava o mundo do cinema, como se comportavam. Enfim, parte da memória do próprio cinema americano.  

Com base nisso, pode-se dizer que o livro de Sheldon nada mais é, que um tributo aos roteiristas, que esperam o telefone tocar, ganham dinheiro quando um roteiro faz sucesso e a carta de demissão quando a crítica é negativa. Mostrar quem nunca é visto por alguém que ainda será lembrado por muito tempo.

No que se refere à literatura, ficam as últimas páginas e o prazer que ela lhe proporcionou. Como o próprio Sidney Sheldon definiu O romancista é o elenco, o produtor e o diretor. O romancista é livre para criar mundos inteiros, para voltar no tempo, para dar a seus personagens exércitos, criados, mansões. O único limite é a imaginação.

De bônus, como não poderia faltar, fotos de momentos marcantes de sua história, misturando filmes, séries e momentos pessoais, assim como as memórias relatadas.

O outro lado de mim
The other side of me
Sidney Sheldon
Tradução: Ana Luiza Dantas Borges
Editora Record
2005 - 376 páginas

Livros do Sidney Sheldon resenhados no blog:
Nada dura para sempre

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Homem Comum




Philip Roth - premiado por diversas de suas obras como Pastoral Americana(1997), em que ganhou o Pulizer Prize, a National Medal of Arts(1998) e a mais alta premiação da American Academy of Arts and Letters, a Gold Medal for Fiction (2002); e Complô contra a América, que foi premiado como o melhor romance histórico de tema americano, pela Society of American Historians em 2005 - recebeu mais três premiações, desta vez por O Homem Comum: o PEN Nabokov Award (2006), o PEN Saul Below Award (2007) e o PEN Faulkner Award. 
Na obra, O HOMEM COMUM, deste renomado autor da literatura americana, encontramos uma profunda e tocante reflexão sobre a vida e a luta pela sobrevivência, construída partir das memórias do personagem sem nome, um homem comum, que tantas vezes enfrentou a morte. 

Na retomada das lembranças passadas, por meio de um exercício mental do personagem, que faz um balanço da própria vida e das dificuldades que enfrentou, o autor nos leva pensar sobre questões que podem acometer a todos nós. Isso se dá, por exemplo, quando ele discorre sobre os problemas cardíacos do personagem principal ou de saúde dos seus vizinhos de condomínio, a dificuldade de envelhecer e não mais conseguir fazer o que fazia antes, os laços construídos ao longo da vida, para depois morrer doente e sozinho. 

Utilizando-se de uma narrativa retrospectiva, que foca diversas passagens da vida do personagem, para frente e para trás, como o movimento de uma câmera, permite-nos viajar nas mesmas preocupações e anseios que acometem o protagonista, na luta pela sobrevivência, após já estar aposentado e morando sozinho, em um condomínio de aposentados: a solidão, o medo da morte, o arrependimento por erros cometidos, a angústia e a culpa por achar que é tarde demais para corrigi-los. 

O leitor vê-se plenamente familiarizado com os conflitos psicológicos e físicos enfrentados pelos idosos, caracterizados pela luta contra a dor, a doença e o próprio corpo, que não acompanha seus desejos e a juventude de seus cérebros, o que pode causar grande desconforto, dada a percepção da própria finitude. 

O horror do personagem de ver morrer os amigos, também de idade, à sua volta, faz com que se questione quando será a sua vez e traduz todo o emaranhado de sentimentos e dúvidas quanto a vontade de viver e o preço a pagar, quando não se tem saúde. Lutar por mais um dia ou resignar-se? 

Uma história que emociona, pelo realismo de suas cenas. Até os mais jovens vêem-se forçados a fazer um balanço de suas vidas, refletindo sobre o seu próprio processo de envelhecimento e morte e o de seus pais. Chega-se a certeza de que ninguém está preparado para envelhecer, muito menos para morrer.

Quando isso acontece, abandona-se tudo sem resolver. Mal entendidos ficam sem esclarecimentos; brigas, sem reconciliação; e o doloroso arrependimento, de parte dos que sobram, por não ter corrigido os erros no tempo certo. Somos obrigados a deixar tudo como está, arrumado ou de pernas para o ar, não dá tempo de fazer as malas. A única coisa que levamos são os laços que formamos com as pessoas, por meio das quais poderemos ou não nos perpetuar.